sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Samba Passarinho (2005), de Péri: um disco essencial


Péri e suas belas canções
O samba não é carioca/ O samba não é baiano /O samba não é do terreiro / O samba não é africano. As palavras dos pernambucanos do Mundo Livre S/A, na canção O Mistério do Samba, traduzem: o samba é de todos e, portanto, de ninguém. O compositor baiano Péri retoma o ritmo, raiz dos sons do Brasil, e o traduz a sua maneira em seu novo disco Samba Passarinho (2005 / Trattore / 22,99). Depois de ter suas composições gravadas por estrelas como Margareth Menezes, Vânia Abreu, Ceumar e, mais recentemente, Gal Costa, que escolheu a bela canção Voyeur para fazer parte do seu novo trabalho, Péri lança agora seu quarto CD, intitulado Samba Passarinho. O cantor e compositor baiano radicado em São Paulo, apresenta, neste trabalho, 12 canções como samba reggae, samba duro, samba-de-roda, bossa nova, samba balada, samba-canção - dez delas autorais, uma do amigo e parceiro Péricles Cavalcanti (Dos Prazeres das Canções), e a regravação de Meu Mundo é Hoje, de Wilson Batista, sucesso na voz de Paulinho da Viola. A faixa de número treze é o remix da faixa-título, feito pelo DJ Chamberlain. Tudo isso e mais um pouco torna o disco imperdível!

 

Samba Passarinho / Péri

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Eu Sou a Multidão (2003), de Vânia Abreu


São Paulo como poesia
Com fotos demonstrando a beleza e o lado cinza do Centro de São Paulo, Vânia Abreu chegou em 2003 com o belo disco Eu Sou a Multidão, depois de longas caminhadas entre sambas e músicas representativas sobre a MPB num todo. Esse disco de 2003 destoa sua singularidade de uma excelente cantora, vertente das poucas com qualidade técnica e vocal e que não se rotula em canções ou discos. Vânia é muito mais do que um produto fonográfico, muito mais do que uma beleza diferente e muito aquém de uma voz. Sua técnica vocal é tão assimiladora de aspectos sentimentais, que fica impossível não ouvi-la e se apaixonar por ela. Mas Eu Sou a Multidão tem que ser respeitado por ser um disco simples e belo, adorado e encantado, multifacetado e brasileiro. Depois de Seio da Bahia, um disco que, ao meu ver, é sua autobiografia, Eu Sou a Multidão a trás para um novo mundo, um lugar distante de sua terra natal, se distanciando cada vez mais da aba e de comparações com a irmã mais famosa, Daniela Mercury e se firmando como uma das novas expoentes da música genuinamente brasileira.

Abrindo com a faixa título, Eu Sou a Multidão revela a verdadeira São Paulo de todos os tempos, com suas estações de ano invertidas e a solidão de quem vive na maior metrópole do Brasil: São Paulo é assim retratada na canção de Marcelo Quintanilha e, por mais cinza que seja a cidade, mais bela ela se transforma e nada melhor do que o Centro Velho para retratar o disco, a canção e tudo o mais no disco contido. Seguindo para Imaculada Oração, uma divertida canção quase religiosa composta pelo competente Péri (Vânia adora gravar as canções deste sensacional compositor que está há anos na estrada e pouco conhecido). Esta canção destoa todas as tradições religiosas existentes e que abrangem tudo ao mesmo tempo em São Paulo: de um lado temos turcos, árabes, japoneses, negros, asiáticos e a canção ousada consegue exprimir toda esta religiosidade existente.

Minha Canção é uma canção pouco conhecida do cancioneiro de Chico Buarque e vale a pena estar aqui registrada pela singularidade que o álbum pede. Cantando com força e ousadia, a difícil e rebelde Minha Alma, do grupo O Rappa, destoa a impaciência que muitos tem para com os becos da sociedade, cujo muitos ficam impunes e outros livres e a graça da voz de Vânia faz com que a música eleve a autoconfiança da canção.

Vítor Ramil aparece com a sensacional À Beça, sobre perdas e danos, sobre com qual roupa sair para ir a determinado lugar de São Paulo, tudo exato e fora do lugar, como diz a canção, se tornando assim o ponto alto do disco. Meu Querido Santo Antônio é uma oração dedicada ao santo padroeiro do casamento, composta brilhantemente por Carlos Careqa, que conseguiu colocar em versos o desespero de uma mulher louca por um amor. Pra Falar de Amor é o segundo ponto alto do disco, composta por Tenison Del Rey e Paulo Vacon e demonstra todas as formas possíveis e variadas para se falar de amor, um ato quase inconsequente de todos os seres humanos e que por vezes pensamos numa forma qualquer de dizer frases amorosas, mas nunca sabemos qual. A canção, em alto astral, compila diversos tipos de dizer a frase amorosa certa, demonstrando vários caminhos.

Entre Nós é uma romântica canção de amor entre o achar e o perder e a música dos compositores Paulo Dafilin e Mauro Dall’acqua se torna um carro chefe para os românticos de plantão. Alcaçuz é a nitidez perfeita de Chico César e foi feita sob medida para que Vânia a cantasse com seu brilho e esperteza. Vale lembrar que Chico e Vânia são amigos há anos e ela sabe interpretar como ninguém suas belas canções. O Amor Foi Inventado é uma divertida canção composta por Tenison Del Rey, Jorge Zarath e Gerson Guimarães e demonstra todos os formatos a qual o amor foi inventado e para que foi inventado e que está dentro de todos nós numa forma embutida.

Fechando o disco com chave de ouro, temos a canção de Marcelo Quintanilha, De Volta ao Cais, como se estivesse remetendo Vânia a sua Bahia do disco Seio da Bahia, retirando a cantora como num sonho da São Paulo cinzenta e a levando para um horizonte qualquer de sua terra natal.

Um disco genuinamente brasileiro, cantado brilhantemente por uma cantora grandiosa chamada Vânia Abreu e que precisa ser lapidado, pois este disco é um verdadeiro arsenal de emoções.

 

Eu Sou a Multidão / Vânia Abreu

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Quanta, de Gilberto Gil (1997): a obra-prima de um grande artista


Obra-prima de um mestre
Em 2006, Gilberto Gil nos presenteou com uma obra-prima digna de status de um verdadeiro soberano da MPB: o disco Quanta, com participação especial de Milton Nascimento e dedicação à Cássia Eller e Chico Sciencie. Para quem achava que os grandes ícones do país estivessem perdidos em seus tempos ou meramente apodrecendo em suas ideias, Gilberto Gil veio mostrar que sua intelectualidade refinada e suas belas palavras de efeito moral, forçaram tino qualificativo para um resultado espetacular, ganhando um Grammy e reverenciado no mundo todo. Polêmico ao seu jeito, Quanta veio venerar a ciência, o samba, os orixás e criticar severamente a imagem da igreja universal, cujo um bispo qualquer chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em rede nacional.

Do forró ao axé verdadeiramente baiano, Quanta também homenageia Tom Jobim e Noel Rosa. Cantando as alegrias e tristezas de Cartola, o disco é um punhado de sensações adversas e que nos deixa a vontade a todo o momento. Com letras que nos fazem pensar, Quanta é um dos melhores discos da carreira brilhante do tropicalista Gilberto Gil num todo, pois parte da premissa de que o álbum nasceu simples e tomou dimensões diversas.

Gilberto Gil conseguiu exprimir ao máximo a sua acidez musical e destoou venenos para todos os lados. Não há um destaque só, mas sim, todas as músicas ganham uma atenção especial. A voz de Gil agrada, não cansa em momento algum e a expectativa da próxima canção é vital. Hoje o Mais Cultura! trás um dos melhores e mais aplaudidos disco de um dos cantores e compositores a qual temos que nos curvar e dizer amém.

 

Quanta / Gilberto Gil

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia


O disco: poucos destaques
Para início de conversa, Maria Rita é apenas a filha de Elis Regina e nunca será uma nova Elis como andam dizendo por aí. Às vezes, ao fecharmos os olhos temos a sensação de que a voz de Maria Rita se assemelha ao som de Elis, mas esses momentos são raros, tão raros, que não merecem destaques. Pudera: Maria Rita nasceu do ventre de Elis Regina. São 30 anos de morte da maior cantora do Brasil e 26 anos separam mãe e filha, artista e aspirante a artista. Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Maria Rita é apenas mais uma cantora do Brasil. Maria Rita bem que tentou, relutou, mas não conseguiu não regravar os sucessos que sua mãe deixou. Maria Rita sempre disse que não regravaria uma música de Elis em disco e isso não aconteceu em seus quatro discos anteriores, mas acabou gravando ora aqui ora ali músicas da mãe para alguns eventos e aparições em TV. Até aqui normal. Maria Rita não gravou sucessos da mãe nos quatro discos que gravou, mas regravou os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Os fãs de Elis sentiram-se órfãos com sua morte e não encontraram em nenhuma outra cantora sua imagem e semelhança e nem mesmo cantoras da estirpe de Gal Costa conseguiram suprir as necessidades artísticas de uma grande cantora. Milton Nascimento está à procura até hoje de uma nova Elis e, mesmo tendo gravado com diversas cantoras de excelente gabarito, sente-se frustrado por não conseguir o êxito maior em suas canções nas vozes femininas. E é justamente neste ínterim entre a morte de Elis e o surgimento de Maria Rita que os fãs de ambas não entendem: muitos veem em Maria Rita o renascimento de Elis, a feição, os traços, os trejeitos, mas Maria Rita só será Maria Rita quando encontrar o seu próprio caminho.

A voz de Maria Rita não é parecida com a voz da mãe. A feição é inevitável, o estrabismo também. O CD Redescobrir só veio a confirmar aquilo que eu sempre digo e bato na mesma tecla: Maria Rita é a cópia clara e obscura da mãe. Maria Rita imita Elis em tudo e isso também é inevitável, afinal, é mais do que normal os filhos serem cópias idênticas dos pais, o que não acontece com Jairzinho Oliveira, Max de Castro, mas acontece com Daniel Gonzaga, Leo Maia, Simoninha...

Mas Maria Rita ainda não encontrou o seu caminho e, para complicar sua situação, imita a mãe em inúmeros shows, fazendo caras, bocas, sustenidos, gracinhas e frases feitas como um gás lacrimogêneo no estomago. Sempre foi assim e sempre será, pois Maria Rita nasceu pronta para brilhar como cantora às margens da mãe, não tendo luz própria, não tendo características próprias como o irmão, Pedro Mariano, embora o mesmo tenha regravado ao menos um sucesso da mãe em todos os seus discos.

Redescobrir (2012/ Universal / 37,00) é um disco duplo com cores bem arranjadas, formato bonito, estrutura vital, bom acabamento, mas que não acrescenta em nada tanto na carreira artística de Maria Rita como para aficionados pela música popular brasileira. Para os jovens de hoje em dia, Redescobrir vale a pena como um produto novo, com músicas novas, como se fosse um marco zero e isso é muito benéfico para a carreira da cantora como para esses novos fãs. Mas para as pessoas que presenciaram Elis ou para quem acompanha a vida de Elis há mais de dez anos após sua morte e sabe praticamente tudo sobre sua vida e suas músicas, Redescobrir não significa absolutamente nada, a não ser mais um produto comercial.

O disco vêm como comemoração aos 30 anos de morte de uma cantora marcada por sucessos e por recaídas amorosas. Tudo iniciou como um show, mas já era possível prever que isso se transformaria em disco, claro. Tudo bem que o disco é uma sensação de emoções, mas há os contras e os poréns que este disco representa. Maria Rita regravou sucessos, músicas esquecidas e reverenciou, mais uma vez, os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Lembrando as fases do fino da bossa, da época dos festivais até chegar ao estrelato como uma verdadeira dama dos palcos, Redescobrir trás também o lado esquecido dos grandes clássicos de Elis, como faixas de discos estelares que o público de hoje desconhece, como Vida de Bailarina (música cantada por Ângela Maria, cujo Elis adorava tanto a cantora como a canção), Agora Tá, Onze Fitas, Querelas do Brasil, Doce Pimenta, Menino, Zazueira, Redescobrir. O público de hoje praticamente desconhecem estes sucessos de Elis e Maria Rita as canta de uma forma que lembra a mãe, com técnicas vocais muito parecidas. Destaque maior para a bela Bolero de Satã, numa interpretação magistral de Maria Rita, o ponto alto do disco.

Maria Rita pode dobrar e desdobrar as canções que a mãe cantou, pois ela é a filha da cantora que as cantou primeiro. Outra cantora qualquer sempre é mal vista quando regravam as canções que Elis imortalizou e lembro que Zizi Possi, que à época da morte de Elis era tida como uma nova Elis, fora muito crucificada com esta comparação. Maria Rita é apadrinhada pela mídia, pelos fãs e por saudosistas e estes praticamente não vêm riscos, defeitos e nem quebras no repertorio intocável de Elis. Maria Rita se salva por ser a filha.

O disco em si é mediano. Deve ser escutado apenas algumas vezes. Cansa ter que ouvir Maria Rita em 28 músicas ininterruptas. Definitivamente, Redescobrir não redescobriu Maria Rita, embora a palavra redescobrir pode significar muitas coisas: para a cantora, redescobrir o acervo musical da mãe e redescobrir o quanto o povo brasileiro ainda a idolatra e sente a presença da enorme grandiosidade de Elis, requer um redescobrimento muito mais atemporal do que qualquer outra coisa.

Trinta anos depois da morte de Elis, a filha trouxe a tona grandes sucessos, poucos conhecidos nos dias de hoje, compilando discos maravilhosos que a saudosa Elis nos deixou, mas houve erros drásticos quanto ao repertorio: a música Menino, por exemplo, não fora um grande sucesso na voz de Elis e sim, na voz de Milton, que o gravou no disco Geraes, de 1976. Do disco Falso Brilhante, gravado no mesmo ano com enorme sucesso de crítica e público lotado no teatro, veio apenas Como Nossos Pais e Tatuagem, sendo que as músicas de João Bosco do mesmo álbum foram muito mais marcantes pela dramaticidade. Assim aconteceu com Doce Pimenta, que não viria a ser um sucesso gravado por Elis e, sim, uma duplicidade com a amiga Rita Lee.

O que faltou em Maria Rita foi ousar. Chamar ao menos o irmão para dividir os vocais em algumas faixas, talvez, a qual sugeriria Águas de Março. Convidar os verdadeiros amigos de Elis, como Ivan Lins, Milton, Rita, João Bosco para um dueto. Essa ousadia não veio, não perdurou e o disco saiu cansativo. Claro, os sons são muito bons e as novas harmonias são sensacionais, mas faltou criatividade no formato geral. A impressão que nos passa, é que Maria Rita quis exclusividade ao fazer a passagem dos trinta anos de morte da mãe, da artista, da mulher, da guerreira, da Elis.

O que Maria Rita precisa redescobrir é a sua carreira, marcada com discos paupérrimos e com letras medianas. Redescobrir foi tudo aquilo que a mãe fizera em vida, seus trejeitos, suas notas, seus alcances vocais, seu público renovado. Maria Rita conseguiu o feitio de ser Elis por um dia, ser aclamada até por quem não curte seu trabalho e seu som e por quem ainda há de reconhecer que sua voz é um grito contra a efemeridade que existe por ai.

Redescobrir redescobriu Maria Rita por algumas horas. Elis é Elis. Maria Rita ainda precisa se descobrir.

 

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia

Nota 7

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A inimiga pessoal do artista: a pirataria


A vitrola de todos nós
Com esta onda de internets, downloads, sites que patrocinam músicas gratuitas para certos tipos de aparelhos de celular, o povo brasileiro (e talvez do mundo), está perdendo um hábito simples e que vem de nossos antepassados: a compra do material vivo, ou seja, a compra do CD e do livro. Com a onda de pirataria, que muitas vezes é impossível detectar, a indústria fonográfica e, principalmente o cantor, é quem sai perdendo nesta batalha boba e criminosa. Hoje, um determinado cantor faz sucesso com uma única e exclusiva música, deixando assim todo o resto do disco a ver navios e é justamente neste espaço de tempo que o consumidor adere à internet para baixar a música, esquecendo-se, assim, do produto por completo. Para um artista que passa meses com um projeto em mente, reformulando, trabalhando, ajustando, nada mais desagradável é saber que seu produto, seu único produto de venda, é fruto de marginais que pirateiam e vendem por míseros reais.

Não sou tão velho assim, mas tenho idade suficiente para carregar na memória os tempos de criança, em que pirataria praticamente não existia, os vinis eram tremendo sucesso e os compactos eram produtos gerados por artistas que vinham apenas com quatro músicas (recentemente Roberto Carlos utilizou deste recurso, mas o artista que veio com esta novidade foi o Chico César, quando trouxe ao mercado o irrequieto Odeio Rodeio, com a participação de Rita Lee). Naquele tempo, nós, crianças, não tínhamos acesso aos vinis de nossos pais, observando apenas de longe. E via nos vinis de papai uma beleza extrema, um plano de fundo inconfundível, um dos melhores lugares de minha casa. Cresci tendo como companheira fiel a vitrola, artigo tão raro hoje em dia, que quase entrou em extinção alguns anos atrás. Para quem acompanha o blog no Facebook, o símbolo da marca Mais Cultura! é representada por uma vitrola.

Sou do tempo da fita cassete, em que praticamente a pirataria passou a ter um pouco de retorno financeiro e como a inflação era gigantesca, muitos aderiram ao esquema. A fita cassete também se instalava e era um artigo de luxo e para poucos. A vitrola ainda era forte, mas com o tempo perdia o espaço para as malditas fitas cassetes, que sempre se enroscam, pulavam, queimavam nos aparelhos. Definitivamente, odiei as fitas cassetes. Com a chegada definitiva dos CDs, a pirataria veio à tona e o mundo pôde participar de um dos crimes mais comuns a quais todos tinham acesso e ninguém intervinha. Confesso que fiquei ainda mais indignado quando vi, no centro de São Paulo, vários camelôs vendendo livros de escritores famosos e CDs de vários cantores nacionais e internacionais.

O cantor Nando Reis fez algo realmente inovador para sair deste círculo chamado por estudiosos pueris como livre acesso para baixar músicas de graça pela internet e criou em seu site um aplicativo para que as pessoas comprem seu novo CD diretamente com ele. Ou seja, a preços populares que variam de semana a semana (às vezes oscila entre 16,00 e 25,00) o consumidor participa ativamente da negociação com o próprio Nando, fazendo deste negócio um lucro rentável, controlando assim a pirataria e os famosos downloads. Parece brincadeira, mas o cantor Nando Reis, depois de sucessos ao lado de Titãs, sucessos ao lado de Cássia Eller, Zélia Duncan e sucessos com Os Infernais, seja obrigado a ser um negociante para driblar a sua inimiga pessoal. Em suas palavras, ele virou um vendedor.

Chega a ser caricato, mas o meu tempo de criança foi perfeito. Hoje eu com 31 anos, tenho orgulho pela falta de tecnologia a qual vivi e a qual carecia de tantas informalidades que hoje penso que estava vivendo em Cuba dentro do próprio Brasil.

 

A inimiga pessoal do artista: a pirataria

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Memorial Clara Nunes


 

Justa homenagem à Guerreira
Foi inaugurado em Minas Gerais recentemente, mais precisamente em agosto deste ano, 2012, o Memorial Clara Nunes, um evento em que reúne todo o acervo cultural que a grande cantora prestou durante seu tempo de exercício musical para o Brasil e para o mundo. Um acervo digno de muita qualidade, fotos espalhadas por todo o canto, a benção dos orixás, as roupas, utensílios e tudo o que a guerreira utilizou em shows. Um grande passo para que todos nós possamos reverenciar e lembrar da cantora que foi legitimamente brasileira e brilhantemente humana. Clara Nunes é hoje uma das cantoras que viraram cult, tamanha a sua popularidade nos dias recentes. Sua marca registrada era a voz. Seu espelho d’água eram os amigos. Sua presença era uma fonte de luz iluminada para muitos e Clara era uma cantora que gostava de conhecer o que era novo sem se esquecer do que era passado. Este espaço fica em Caetanópolis, cidade a qual a cantora nasceu e é presidida pelo sobrinho de Clara, o competente Márcio Guima e por outra guerreira, Neide Pessoa.

Lembrar e cultivar a imagem e memória de Clara Nunes é um dos projetos que o Memorial Clara Nunes tenta levar às pessoas. O espaço é muito cultivado por amigos e fãs que viajam até o estado para sentir a presença da grande interprete. Clara, que era motivo de alegria, transformou o espaço em um antro de calmaria, beleza e altitude. O jornalista e escritor Vagner Fernandes, autor da primeira e brilhante biografia da escritora, Clara Nunes – Guerreira da Utopia, fez inúmeras palestras para demonstrar o quão Clara faz falta nos dias de hoje com sua musicalidade, sua mineirice e sua simpatia. A irmã de Clara, Dindinha, é uma das pessoas que mais se organizaram para que o projeto viesse à tona e devemos muito a ela pelo fato de todos os pertences da cantora estarem ali, presentes à altura dos fãs, de pessoas que queriam ter encostado um pouco na Clara guerreira ou por pessoas que nem chegaram a acompanhar seu maravilhoso trabalho.

Ana Vieira, dona do maior blog em respeito à memoria de Clara, é uma das mais felizes em relação à este espaço e ajudou a divulgar pelas redes sociais o tamanho da grandiosidade que isto representa. Seu blog é um dos mais criativos e interativos com relação à cantora e vale a pena estar sintonizado a cada atualização da página. Segue o endereço do blog de Aninha Vieira: www.claranunesdeusadosorixas.blogspot.com

Clara Nunes morreu precocemente e deixou um legado e um vazio imenso na música popular brasileira e por mais que várias cantoras a imitem, por mais que suas músicas sejam regravadas e por mais que as velhas cantoras tentam copiar suas cores de cabelos e suas vestimentas, Clara será única, exclusiva, brasileira digna de respeito e, acima de qualquer coisa, guerreira.

Nós agradecemos pelo Memorial Clara Nunes.

 

Serviço

MEMORIAL CLARA NUNES

Endereço: Rua Fernando Lima, 250, Centro, Caetanópolis, Minas Gerais

Funcionamento: quinta e sexta-feira, das 14h às 18h; sábado e domingo, das 9h às 18h.

Ingressos: R$ 5 (inteira) e R$ 2,50 (meia-entrada).

Informações: (31) 3714-6702.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Belas e Feras, de Vânia Bastos, destoa o melhor da MPB


Ótima voz, ótimo disco
Uma das mais belas vozes da MPB, Vânia Bastos ainda não é uma cantora reconhecida pelo grande público e isso se deve a falta de informação que muitos carregam dentro de si e pela alta dosagem de música sem fundamento que assola o cenário musical, esmagando, quase que por completo, artistas de excelente gabarito. Mas quem está antenado com o melhor da música brasileira, sabe que Vânia Bastos é uma cantora completa, digna de uma refinada voz e com discos que exprimem o quanto a MPB é valorizada. E é com esta valorização que hoje resenho o disco Belas e Feras, lançado em 1999. O álbum, somente com músicas de compositoras de altíssimo nível, demonstra o quanto o país hoje é tomado pelo sexo feminino num todo. Ganhando o título de Belas e Feras, Vânia dá o recado numa forma generosa de homenagear suas colegas, sem deixar cair a peteca e fazendo de sua voz um grande e maravilhoso álbum.

O oitavo disco de Vânia vêm com pitadas saborosas de Marina Lima, Ângela Ro Ro, Joyce, Lucina, Dona Ivone Lara, Adriana Calcanhotto e até Daniela Mercury como letrista formidável que acabou se consolidando. O álbum, acima de tudo, é romântico, aonde o amor é incondicional e as mulheres são fortes e o cantar de Vânia deixa o disco tão belo, tão harmonioso e simples, que chega a ser lindo de ouvir. Sublinhamente aconchegante, Belas e Feras adentra meu universo e carrego na emoção ao ouvir tamanho clamor de uma excelente cantora e que todos deveriam conhecer e carregar no coração a beleza pura de uma voz única.

Do começo ao fim, o disco se mostra capaz de nos agarrar pelo sentimento aflorado de canções marcantes com tonificação exclusiva de Vânia. Impossível ficarmos sem repetir uma faixa sequer, pois quando o disco se encerra, queremos ouvir mais e mais. E é assim que Vânia Bastos entrou em minha vida: com um disco a altura de uma grande cantora, com músicas significativas e com uma voz de arrepiar.

 

Belas e Feras / Vânia Bastos

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gonzaguinha - o herói de um tempo sem tempo


Gonzaguinha: ídolo
Morto em 1991, Gonzaguinha ainda consegue se impor como um dos mais brilhantes e coerentes artistas de seu tempo. Com uma voz que denunciava a tudo e a todos, o cantor era o centro das atenções quando lançava um disco e conseguia exprimir todos os seus sentimentos e politicagem num mesmo álbum. Suas músicas foram marcadas pelo temperamento forte de um homem capaz de vomitar no prato da família brasileira tudo aquilo que estava entalado em sua garganta, na mais profunda rebeldia, tristeza, angustia e ânsia por um resultado satisfatório. Sim, Gonzaguinha faz uma tremenda falta. E quando ouço suas músicas, um sentimento insano me invade a alma e adentra em meus poros e eu preciso gritar o mais alto possível, pois sei que Gonzaguinha é, pra mim, um dos cantores e compositores que conseguiu extrair de mim a minha revolta contra tudo e todos. Desde a política imposta neste país até a mais singela borboleta que pousa num tronco de árvore ou a água que jorra da torneira pelo ralo sem destino certo, Gonzaguinha me transmitiu todo o verdadeiro caminho musical a qual eu um dia iria transitar. Dono de uma inteligência sagaz e única, Gonzaga tem em sua musicalidade os mais belos e revoltosos versos, que foram compostos com um amor e um ódio voraz, com uma alegria e uma ansiedade transparente e com determinação e ousadia que poucos ousavam à época.

Nos dias de hoje, suas músicas me vêm à mente com muito mais frequência e isso me faz ter em meus catálogos todos os seus discos. Sinto-me um homem realizado, feliz, contemporâneo quando ouço suas músicas e me sinto ainda mais homem quando sei que o mesmo foi genuinamente brasileiro, guerreiro, poderoso, artista, único, vivo, esperto, político, humano, triste, um homem que redescobria as palavras, os trejeitos musicais, o universo feminino, a depressão, o trabalhador, o negro, o crime passional, o suicídio.

Suas músicas me transpassam a verdade nua e crua de um homem sensivelmente desesperado com o futuro que ele não viria a conhecer e transitar. Gonzaguinha foi o herói de um tempo sem tempo, com sua voz forte, pesada, dura, mas que muitas vezes soava sereno, quase um sussurro. Sinto sua falta quando o ouço cantar e muitas vezes penso o que teria produzido após os anos subsequentes a sua morte. Teria sobrevivido ao rock progressivo e impostado pelos anti-heróis daquele verão? Teria sucumbido ao estilo da lambada cantarolada por homens descalços e mulheres seminuas? Teria aguentado a ira pueril da onda pagodeira?

Sua voz e sua música continuam mais vivas e fortes do que nunca. A cada dia o cantor tem mais fãs, curiosos com o aparecimento e morte repentina de um grande artista, que, acima de tudo, fora um grande homem. A música cantada por Gonzaguinha nos anos complicados do país servem hoje de inspiração para o que vemos na TV, nos jornais e revistas eletrônicas sobre as mortes anunciadas, sobre os suicídios, sobre a política, sobre os homens.
Se a Cássia Eller elegeu Chico Buarque como seu verdadeiro pai, elevo à minha própria consciência a importância e soberania de Gonzaguinha, o considerando meu pai musicalmente.

Ah, que falta faz um Gonzaguinha na música de hoje...

 

Gonzaguinha – o herói de um tempo sem tempo

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Aonde está a Real Fantasia de Ivete Sangalo?


O álbum: horrível
O sétimo álbum da cantora Ivete Sangalo vem com algumas novidades que somente os fãs mais ardorosos poderão adicionar ao poderio de sua longa estrada. O disco tem uma capa sensacional, uma cor vermelha de um vestido esfuziante (por vezes penso que estou vendo a capa do disco Sim, de Vanessa da Mata, de um outro ângulo) e uma longa trança que vai até perto de seus pés, deixando a vista o tamanho da grandeza da cantora baiana. Mas para por ai. O disco só tem a capa bonita. Mais nada. Nada mesmo. O disco é um dos piores produzidos pela cantora, que já teve músicas mais dançantes e mais românticas e já teve também uma roupagem mais moderna. O que me impressiona neste novo disco é a capacidade de fazer música esdruxula para um final de ano repleto de novidades que ainda virão por ai. O disco Real Fantasia, lançado em outubro de 2012, trás o pior de Ivete Sangalo, com musiquinhas reles e sem sentido, com uma mistura de sons e ritmos, que por vezes penso que estou numa escola de samba, num funk, em Cuba. Ivete aproveitou todos os estilos que poderiam ser dançantes e canta músicas horríveis.

Que Ivete é uma das maiores cantoras deste país, ninguém pode duvidar disso. Ainda mais quando cede entrevistas, a cantora fica ainda mais bem representada, pois ela demonstra toda a sua sensibilidade para com o próximo, o carinho aos seus fãs, a sua banda, ao entrevistador. Mas o que acontece com Real Fantasia mais parece uma fantasia: o disco me parece que foi prontamente pensando para ganhar dinheiro no final de ano e com isso, quem perde a credibilidade é a própria Ivete, que se manteve atenta a fazer um dos piores discos de sua carreira.

A cilada a qual Ivete caiu ao lançar Real Fantasia é tamanha, que meses depois de lançar o disco, o mesmo ainda não obteve resultados satisfatórios perante a gravadora. As músicas são fracas e acabo ficando envergonhado em ver Ivete dançando ao som de pérolas como Dançando, Balançando Diferente, Delira na Guajira. A única música detentora de bons elogios é a que fecha o disco, Eu Nunca Amei Alguém Como Eu Te Amei, cujo os versos são de uma poesia profunda e acalentadora.

Mas Real Fantasia, no mais, é um dos piores lixos produzidos pela musa baiana, Ivete Sangalo.

 

Faixas

01. "Veja o Sol e a Lua"

02. "No Brilho Desse Olhar"

03. "Balançando Diferente"

04. "Dançando"

05. "Só Nós Dois"

06. "Só Num Sonho"

07. "Delira Na Guajira"

08. "Real Fantasia"

09. "Puxa Puxa"

10. "No Meio do Povão" - com citação de "Depois Que o IIê Passar"

11. "Essa Distância"

12. "Isso Não Se Faz"

13. "Me Leve Embora"

14. "Eu Nunca Amei Alguém Como Te Amei"

 

Real Fantasia / Ivete Sangalo

Nota 3

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Salve, Jorge


O protetor dos escritores
São Jorge é um dos santos mais populares que o Brasil conhece e é por isso que é o mais cantado por todos os seus fieis seguidores, como cantada apenas como musicalidade instituída na canção. E a popularidade do soberanamente perfeito São Jorge vai aumentar, tendo em vista que a novela de Glória Perez vai abordar durante os próximos nove meses sobre o santo guerreiro. É o santo padroeiro em diversas partes do mundo: Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia, da cidade de Moscou e, extraoficialmente, da cidade do Rio de Janeiro (título oficialmente atribuído a São Sebastião), além de ser padroeiro dos escoteiros, e da Cavalaria do Exército Brasileiro. Há uma tradição que aponta o ano 303 como ano da sua morte. Apesar de sua história se basear em documentos lendários e apócrifos (decreto gelasiano do século VI), a devoção a São Jorge se espalhou por todo o mundo.

Mas São Jorge é cultura e muito venerado por muitos. Caetano Veloso talvez seja o cantor mais conhecido por ter feito a canção Lua de São Jorge, assim como Jorge de Capadócia é uma música de Jorge Ben, interpretada também por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e pelos Racionais MC's. O dia 23 de abril, para algumas das religiões afro-brasileiras, é o dia em que se fazem homenagens ao santo.

Existe um romance sobre São Jorge criado pelo escritor italiano Tito Casini chamado Perseguidores e Mártires (no Brasil, editado pelas Edições Paulinas, por volta de 1960). No livro, São Jorge é retratado como o verdadeiro paladino da Capadócia que, apesar de ser perseguido pelo tirano imperador Diocleciano, manteve-se fiel ao Império Romano, mas também a Cristo e se recusou a contrair alianças com o genro do imperador, Galério, que pretendia ter o apoio do conde da Capadócia para deliberar um golpe contra Diocleciano, o que terminantemente, o santo militar recusou. São Jorge é o Santo Padroeiro da Cavalaria do Exército Brasileiro.

Zeca Pagodinho gravou recentemente em seu álbum Uma Prova de Amor a música Ogum com uma letra com um forte apelo ao sincretismo, a oração de São Jorge é feita no trecho final da música pelo cantor e compositor Jorge Ben. Moacyr Luz e Aldir Blanc fizeram em homenagem ao santo a música Medalha de São Jorge, que foi gravada pela Cantora Maria Bethânia em 1992.

De Zeca Baleiro a Vinicius de Moraes, passando por Wilson Simonal, Seu Jorge e Leila Pinheiro, São Jorge é um dos santos mais cantados e aclamados por uma legião fiel de seguidores ávidos por suas lutas e conquistas. E é por este motivo que o Mais Cultura! de hoje revência este santo guerreiro.

Salve, Jorge!

Salve, Jorge!

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Roberto Carlos ainda é o cara?


O compacto com 4 músicas
Para suprir à audiência fenomenal da antecessora novela Avenida Brasil, a nova novela global, assinada pela competente Glória Perez, teve que rebolar para tentar suprir as necessidades que o novo público noveleiro não estava acostumado a ver na telinha e, para isso, escalou um elenco sensacional, novos rostos, texto mais ágil (geralmente as novelas da escritora são morosas) e escolheu a linda e bela Turquia para servir de cenário para um elenco sedente de interpretação. A novela já caiu nas graças do público, que anda se debulhando em lágrimas (artificiais ou não!) sobre o vai e vem no namoro entre Morena e Theo e, consequentemente, caiu nas minhas graças também, tendo em vista que sou um apaixonado pela Turquia. Aliás, sou fã confesso do escritor turco Orhan Pamuk e ver as cenas da novela Salve, Jorge passadas em Istambul, Bósforo, Mar Mediterrâneo, é como se eu estivesse vendo ali atrás a maldita judia Esther ou o cachorro canastrão do romance Meu Nome é Vermelho, ou o pai biológico do escritor e suas maletas e jornais e cadeiras vazias em A Maleta de Meu Pai, ou o moleque Necipe, a bela Ypek ou o poeta Ka perambulando pelas ruas no surpreendente Neve, que estou maravilhado com a trama só por este fato. Mas algo me tira do sério nesta novela. 

 

O cara que pensa em você toda hora

Que conta os segundos se você demora

 Que está todo o tempo querendo te ver

 Porque já não sabe ficar sem você

 

E no meio da noite te chama

 Pra dizer que te ama

 Esse cara sou eu

 

O cara que pega você pelo braço

 Esbarra em quem for que interrompa seus passos

 Está do seu lado pro que der e vier

 O herói esperado por toda mulher

 

Por você ele encara o perigo

 Seu melhor amigo

 Esse cara sou eu

 

Trecho de Esse Cara Sou Eu, de Roberto Carlos

 

 

Precisava de uma música que grudasse feito chiclete em nossa memória, para que quando tocasse nas rádios ou em qualquer lugar, lembrarmos da novela para que a mesma tenha audiência. Esse Cara Sou Eu é o nome da nova canção de Roberto Carlos. Que a carreira do Rei está abalada, disso todo mundo já sabe. Que Roberto Carlos não consegue mais emplacar um disco inteiro com sucessos dignos de um verdadeiro rei, disso todo mundo já sabe há tempos. Foi-se o tempo em Roberto Carlos vendia discos devido às belas canções românticas que ali continham. Esse Cara Sou Eu é uma canção chata. Estúpida. Irritante. Cafona.

Para tanto, Roberto Carlos logo correu para se aproveitar do grande sucesso que viria pela frente e lançou um compacto com apenas quatro musiquinhas fulas, reles e sem graça. Um Roberto dançante, um Roberto amoroso, um Roberto piegas e sem noção de seu tempo e espaço. Obviamente que o disco será um sucesso, pois o cantor não estava preparado para trabalhar em um disco em pleno final de ano. Pudera, com o Natal chegando, muitos esquecerão das músicas de Simone, para lembrarem da chatice do ano com a música Esse Cara Sou Eu.

Digno de um verdadeiro mau gosto musical, a música contradiz o maravilhoso Mesmo Que Seja Eu, cantada magistralmente por Ney Matogrosso ao vivo em 1998 para um disco contendo os seus maiores sucessos, composta pelo amigo/irmão-afastado Erasmo Carlos. Os versos da música se repete inúmeras vezes, dando uma canseira significativa para nossos neurônios que pescam aqui ou ali alguma insensível reação adversa do que a canção quer transpassar. Já entendemos que o cara que faz tudo pela moça é um completo romântico à moda antiga, desses raros encontrados hoje em dia, mas não é preciso estragar a canção com a interpretação horrenda e copiosa de Roberto, assim como não era preciso apelar por audiência com uma música que passa ostensivamente a cada troca de cena.

 

O cara que sempre te espera sorrindo

 Que abre a porta do carro quando você vem vindo

 Te beija na boca, te abraça feliz

 Apaixonado te olha e te diz

 Que sentiu sua falta e reclama

 Ele te ama

 

Esse cara sou eu

 Esse cara sou eu

 Esse cara sou eu

 Esse cara sou eu

 

Trecho final de Esse Cara Sou Eu, de Roberto Carlos

 

 

Daqui a pouco, os grupos de forrós universitários, sertanejos, pagodeiros, axezeiros, Calypseiros e até a neo-sertaneja Paula Fernandes, gravarão este imbatível sucesso, segundo alguns fãs ardorosos do Rei estão falando. Não demorará a tardar para que Roberto Carlos passe de rei a abóbora, porque, definitivamente, ele não é mais o cara há muito tempo.

 

Roberto Carlos ainda é o cara?

Marcelo Teixeira

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Na Ponta da Língua, de Leila Pinheiro (1998): ótimo paladar


Ótimo disco de Leila Pinheiro
Em 1998, Leila Pinheiro nos presenteou com um disco a sua altura, com canções que marcaram um tempo e com novidades extraordinárias que perpetuam até hoje em meus ouvidos. O disco em questão é Na Ponta da Língua e trás uma capa tão singela e ulterior e sagaz e impiedosa e original e maliciosa, que este álbum talvez seja o melhor de toda a sua carreira. Com aberturas e fechaduras de vinhetas que somente Walter Franco consegue compor, o disco é todo marcado por facetas múltiplas de uma Leila Pinheiro que conseguiu se desvencilhar de ser rotulada, até então, de bossanovista e enveredar pelo campo da música popular. Regravando grandes sucessos de Roberto e Erasmo Carlos (Sentado à Beira do Caminho) e Legião Urbana (Vento no Litoral), o disco é pautado pela sensibilidade de uma grande artista, que é reverenciada por grandes nomes da MPB, como Ivan Lins e Chico Buarque e que foi a queridinha de Tom Jobim em seus últimos anos de vida.

Abril, composição mais que charmosa de Adriana Calcanhotto, é a melhor música do álbum e transmite uma emoção plena de escolhas sem arrependimentos e recomeços de um novo ciclo. Assim como o samba encorpado de Sérgio Santos e Alvin L., Pra Dizer a Verdade, que tem uma letra deliciosamente linda, Na Ponta da Língua tem de tudo um pouco: além de sambas, tem a esmagadora Mais Uma Boca, composta com requinte pela fabulosa Fátima Guedes, que consegue exprimir, através da interpretação forte de Leila, uma letra inquietante e bela ao mesmo tempo. Destaque ímpar para a excelente música Por Favor, de Ivan Lins e Aldir Blanc, em que a língua bebe a estranheza (frase que mais gosto de todo o disco) e que ao mesmo tempo nos leva ao gosto de maçã, flor da nova Eva, com seus antecipamentos e suas incertezas.

 

Sinto o abraço do tempo apertar

E redesenhar minhas escolhas

Logo eu, que queria mudar tudo

Me vejo cumprindo ciclos

Gostar mais de hoje e gostar disso

 

Trecho da música Abril, de Adriana Calcanhotto

 

 

Seguindo sua influência regional de seu estado natal, Pará, Leila canta brilhantemente o forró quase universitário Influência de Jackson, composta pelos mestres Guinga e Aldir Blanc e Leila canta numa desenvoltura que somente ela consegue fazer e emocionar. Vale lembrar que a música é difícil de interpretar, mas Leila dá um banho de sensualidade e musicalidade. Indo para o lado sentimental do disco, Sorriso de Luz trás a leveza e a pureza do amor, com seus primeiros olhares e suas primeiras imaginações, fazendo da canção de Gilson Peranzzetta e Nelson Wellington um dos achados para a transmutação de Leila.

Setembro, de Alvin L., é uma canção amargurada e doce sobre os desencontros e armadilhas do amor que um dia fora belo e romântico. Leila é capaz de se desfazer de desmantelos ruborizados pela crítica e recria com magnitude a impactante Amor, Perigoso Amor, de Frejat e Dulce Quental, já imortalizada na grande voz firme e forte de Ângela Ro Ro. É nesta canção que Leila se despe e se mostra valente e única para poder recriar ao seu gosto as canções que fizeram parte musicalmente de outra voz.

Na Ponta da Língua demonstra o quanto a musicalidade de Leila Pinheiro é importante para cenário musical brasileiro e ter a certeza de que sua voz é única e saber não ser rotulada, é a forma mais pura e inocente de dizer que ela é uma cantora genuinamente brasileira. Na Ponta da Língua é simplesmente ótimo. Recomendo.

 

Na Ponta da Língua / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A cultura é a nossa riqueza maior


 


Você faz a sua Cultura!
Para algumas pessoas opinar é um ato tão natural e inevitável quanto respirar. Opinar, pra mim, é uma maneira de desenvolver a nossa responsabilidade perante o assunto abordado, estarmos em sintonia com o que está sendo discutido e, mesmo que a opinião seja irrelevante para alguns, a pitada está lá, dada, colhida, absorvida. Gosto de criar polêmicas quando é para criar polêmicas, gosto de jogar um assunto qualquer e ver as pessoas se alfinetando, degladiando e criando polêmicas sobre assuntos que criei. Meus textos são pequenos troféus que jogo contra o ventilador e o mesmo se espalhar por todo o Brasil e alguns países afora. Meu objetivo como cronista da música popular brasileira é única: levar conhecimento a todos e, o mais importante, fazer voltar à ativa o antigo crítico de arte. Na minha infância, os jornais tinham críticos de todas as searas: de livros, de música, de TV, de futebol e com o tempo isso foi se perdendo. Cresci com a vontade de levar a minha escrita visceral as pessoas e para que elas tivessem a certeza de que o texto era meu, com meu jeito de escrever e de dizer que estou ali, presente, vivo.

Escrever não é uma das tarefas mais fáceis, como já disse aqui em um artigo. E crescer ouvindo que sou culto, que a minha vida é rodeada de cultura, é a mais pura balela que já ouvi em toda a minha vida. Cultura não significa que eu seja culto e culto não significa que a minha vida seja rodeada de livros, música, personalidades e tals. Transpiro cultura, respiro música, cheiro livros, absorvo palavras, mas ter cultura é diferente de ser a cultura. Em resumo geral, não sou culto. Apenas cultivo a cultura. Busco conhecer a musicalidade genuinamente brasileira dos nossos artistas brasileiros.

Mas o que é a cultura? Todos nós temos cultura, seja de maneira direta ou indireta, mas para mim, cultura é aquilo que cultivamos e aprendemos. Muitos conhecem os tons de cinzas americanizados, mas muitos desconhecem a cultura baiana de Jorge Amado. Muitos conhecem a cultura sartreana, mas poucos conhecem a cultura de Mello Neto, muitos conhecem a cultura de Virginia Woolf, mas poucos conhecem a cultura de Fagundes Telles ou Ferreira Gullar e isso sim, me envergonha culturalmente. Cultura é o que vi e vivi quando fui a João Pessoa e me instalei no belo apartamento de meu amigo Tom Costa e conheci a cultura privilegiada de Bruno Gil Santos. Cultura é o xaxado de Luiz Gonzaga, a baianidade de Jorge Amado, a mineirice de Clara Nunes e Adélia Prado, a musicalidade de Chico Buarque, Caetano, Gil, o rock, o sertanejo, o axé. Tudo se torna cultura quando executado com cautela, carinho, determinação e orgulho e não o que vemos por ai, jogado às traças.

Quando me falam que sou culto, respondo a altura: a minha cultura quem faz sou eu. Quem busca sou eu. Eu busco informação, busco conhecimento sobre o que é novo e nunca me esqueço o que é antigo. Sou fã incondicional de Carmen Miranda. Sou fã incondicional de Patrícia Mello, sou fã ardoroso de Chico Buarque. Adoro Clarice Lispector. Idolatro Ferreira Gullar. Sou fã de Elis Regina. Portanto, ter cultura não significa ser culto e quando me dizem que não me imaginam curtindo alguns pagodinhos e sertanejos, logo corro para dizer que aquilo é cultura brasileira. Não podemos, em hipótese alguma, menosprezar o que o Brasil tem de melhor e eu aprendi isso indo ao Nordeste.

Os artigos são meus troféus. A cultura é a minha riqueza.

Marcelo Teixeira