domingo, 10 de dezembro de 2017

A "zuera" de João Bosco é coisa séria

O bom e velho João Bosco 
Acabo de ouvir pela terceira vez o novo e arrebatador disco de inéditas de João Bosco, depois de um hiato de oito anos sem lançar nada novo. Mano que zuera (2017 / Som Livre / 26,99) é um disco composto por 11 ótimas canções (e que acaba sendo melhor e mais preparado que o tão aguardado disco de Chico BuarqueCaravanas / 2017) e entre elas estão algumas parcerias inéditas com o filho Francisco Bosco, que também assina a produção musical de todo o álbum. Dessas parcerias o single Onde Estiver, que nasceu de conversas entre pai e filho, merece destaque pela força poética e arranjo primoroso, que já toca nas principais rádios do Brasil. Além das inúmeras parcerias com o filho, o projeto conta com clássico como Sinhá, parceria com Chico Buarque e gravada no penúltimo álbum deste, Chico (2011) retomando o dueto entre ambos depois de um estrondoso espaço de tempo, quando gravaram juntos uma música em destaque para o lançamento de um disco buarquiano de 1984. Duro na queda e João do pulo (parcerias com o inesgotável Aldir Blanc) soam memoráveis, ainda mais porque esta última música conta com uma fusão sonora com a canção Clube da Esquina Numero 2. O encontro inédito com a composição de Arnaldo Antunes em Ultraleve, onde a filha Júlia Bosco (que não merece tanto destaque assim pelo conjunto da obra) faz uma participação especial com sua voz com sabor de liquidificador, como diria Cazuza. Sim, Mano que zuera é um clássico da MPB, nasceu com direito a explosão meteórico e veio para confirmar a marca tradicional de Bosco como um dos compositores e cantores mais versáteis da linha refinada da Música Popular Brasileira.


João Bosco / Mano Que Zuera (2017)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 9 de dezembro de 2017

Vânia Bastos lança o clipe Lamentos (2017)

Vânia: elogiada entre as elogiadas
A cantora Vânia Bastos lança videoclipe do elogiadíssimo disco Concerto para Pixinguinha, pela VEVO Brasil e inaugura seu canal oficial no Youtube, que aconteceu no dia 7 último. Baseado na parte mais elogiada de sua turnê, Concerto para Pixinguinha foi tão aclamado que no canal recém-inaugurado da cantora o clipe já é o mais visto de todos. A canção do clipe é Lamentos, música composta por Pixinguinha que, anos depois, ganhou letra de Vinicius de Moraes e faz parte do álbum de Vânia, lançado em 2016. Destaque de público e mídia especializada, figurando nas listas de melhores discos do ano. Lamentos chega ao vídeo com a direção do premiado cineasta Pedro Jorge – autor de Diamante, O Bailarina, que percorreu uma série de festivais nacionais e internacionais, ganhando evidência na grande imprensa. O álbum foi o vencedor do Prêmio Profissionais da Música 2017, além de estar na estrada desde 2013, rodando diferentes pontos do Brasil. Foram mais de 60 apresentações de sucesso absoluto.

Link do clipe que entrou no ar na quinta-feira, 07 de dezembro, pela VEVO Brasil:


Vânia Bastos / Lamentos
Por Petterson Mello e Marcelo Teixeira



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A transformação de Eliana Printes em delicioso álbum de 2013

O disco: transição com o Brasil
A voz cintilante de Eliana Printes foi reconhecida nacionalmente quando ela interpretou maravilhosamente a canção Só vou gostar de quem gosta de mim, canção imortalizada na voz de Roberto Carlos nos anos 1980 e que estava no excelente álbum Pra lua tocar (2000). Transcorridos mais de quinze anos após esse lançamento, a cantora voltou a se radicar e a se dedicar ao Norte do país, onde faz festa entre seus nativos e é conclamada como rainha da música popular brasileira. Pudera: Eliana Printes é um poço de simpatia, uma riqueza em pessoa e tem uma voz cintilantemente pura, cristalina e purificada. Seus discos são tão bonitos e bem acabados, que fica impossível não elencar a sua carreira como a de uma verdadeira dama da MPB. Tudo em Movimento (2013) é o oitavo disco da cantora e que foi lançado em Manaus com tamanha festa, que passou despercebido por outros cantos do Brasil e que mesmo assim não perdera seu brilhantismo e sua importância. Seguindo uma tradição que se mantém há anos, a cantora fez de Manaus a sua primeira parada para todas as turnês de divulgação de cada disco e o Teatro Amazonas é a sua casa, seu refúgio e seu porto seguro. Mesmo sendo radicada no Rio de Janeiro, Eliana consegue se manter fiel às suas tradições e se impõe a cada dia como uma típica cantora que não se rotula e que não se propaga para ser tal. Produzido por Adonay Pereira e Julinho Teixeira, em parceria com a Indie Records e com distribuição nacional da Universal Music, Tudo em Movimento tem dez faixas que se entrelaçam. A ideia central do disco, expressamente dita no título, tem a ver com as mudanças que estavam acontecendo no país àquela época. A exemplo de seus predecessores, o disco teve participações para lá de especiais, como o falecido cantor Luiz Melodia, que divide os vocais em Congênito (autoria de Melô) e da cantora carioca Isabella Taviani, em Se tudo pode acontecer.  Outra participação especial do álbum aparece em La Condessa, composição de Ribamar Vaiz, Ricardo Bezerra e Soares Brandão. O registro dessa música foi feita na Alemanha, reforçando a tese de que o disco merece destaque.  Mas por que esse crítico de música veio nos mostrar apenas isso hoje, transcorridos quatro anos de seu lançamento? Por um motivo muito simples: os discos de Eliana Printes raramente chegam à São Paulo com pompas das grandes estrelas e para encontrá-los é preciso gabaritar muito. Encontrei esse disco em uma loja na zona Central de São Paulo e era peça única. Não hesitei em comprar. Mas não fique triste: se você não encontrar, poderá ouvir na internet algumas de suas belas faixas.

Eliana Printes / Tudo em Movimento (2013)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira


domingo, 19 de novembro de 2017

Lulu Santos tenta homenagear Rita Lee sem homenagens


Lulu: disco sem homenagem
Ainda tento entender o que acontece com a carreira de Lulu Santos: além de ser fantoche em um programa musical da maior emissora do país, o pop star vêm na onda das regravações que, como ele mesmo sugere, são homenagens aos artistas ainda vivo. Há quem goste e há os que discordam desse estilo de se fazer música e eu fico com a segunda opção quando tudo não passa de produto mercadológico e fonográfico para camuflar as ideias inexistentes. Aconteceu com Roberto Carlos em uma homenagem pífia, sem deslumbramentos e sem achados convenientes e agora volta a acontecer com a eterna rainha do rock nacional, Rita Lee, que reuniu a família para ouvir o tão esperado disco em sua finita homenagem. Não, definitivamente, não valeram os choros compulsivos de Rita para Lulu, pois o disco não passou de um disquinho que logo mais será esquecido em uma gaveta dos fundos, um baú qualquer despedaçado ou em mentes pouco equilibradas. Seria o fim de carreira de Lulu Santos ou apenas uma passagem fantasmagórica de insana desmemoria? Não vou aqui dizer que Lulu não fora importante para a música popular brasileira porque eu estaria veementemente mentindo, afinal, o cantor é considerado um ícone dos anos 1980 e brilhou diversas vezes nos anos 1990 e 2000, mas sua demanda popular não anda tão boa assim, dito pelas passagens televisivas atuais e por sua retórica blindagem se achando o tal. Com tantos erros atribuídos à sua imagem musical, Lulu não soube aproveitar o momento sublime de mais uma homenagem a uma grande artista da nossa música. Perdeu-se a chance de mostrar o quão valioso e potente é sua voz, o quanto é importante o momento da homenagem e como é suntuosa a parceria de harmonização entre a homenagem a homenageada. Lulu, o eterno jovenzinho do rock, com seus cabelos ora vermelhos ora brancos e com chapéus e terninhos modernos, não convenceu em nada nessa chinfrim homenagem retorcida em disco. Não há garantias de que o disco venha a ser o melhor de suas homenagens, pois nem para Roberto Carlos ele o fez. Homenagem à altura de Rita foi a que a cantora Ná Ozzetti fizera em 1995, com o LoveLeeRitta, com harmonias diferentes, delicadeza na voz, repertório bem caprichado e a beleza que Rita deixou em suas melodias. Lulu parece que esqueceu de alguns detalhes pormenores, correu para gravar, não estudou as letras e jorrou um disquinho com uma capa retro e com pedaços de décadas retorcidas.


Lulu Santos canta Rita Lee (2017)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira 

domingo, 12 de novembro de 2017

MC Livinho e a voz que ninguém deveria ouvir

Livinho e  voz que ninguém merece
Longe de ser um grande astro da música popular brasileira e de ser estrela da consolidação do pagode, MC Livinho tenta ser um cantor com popularidade exemplar em território nacional. Sem poder de vocalização e sussurrando suas melodiosas canções, o cantor agora tenta unir sua imagem ao pagode e indo de encontro com o rei dos magos pagodeiros, Péricles. Óbvio que essa união não sairia bem, ainda mais tendo uma desunião de vozes como as de Livinho, que é paupérrima e cansativa e arrastada. Péricles tem uma das melhores vozes do pagode e se consagrou no estilo há anos com sua marcante e impressionante presença de palco, mas o colocar em evidência com um cantor que não se iguala ao seu tipo vocal, chega a ser uma aberração aos nossos ouvidos. Mesmo a música Bandida tendo estrondosos 4 milhões de acesso, a música não vale ser ouvida e não garante sucesso para nenhum dos dois. O motivo é simples: a música é chata e, como já disse acima, MC Livinho não canta absolutamente nada, tendo uma voz arrastada e chata. Vale ressaltar que MC Livinho carrega umas broncas do público por outros motivos: uma por ser considerado homofóbico (o que ele desmente e outros dizem que foram os administradores de redes sociais que inventaram a desculpa) e outro puxão de orelha após o cantor lançar a estranha música, em agosto recente, Covardia. Lembrando que a música é acusada de ser apologia ao estupro, coisa que o cantor nega veementemente. Com teor de baixo calão, humilhando e rebaixando a mulher à pior espécie, Livinho tentou se retratar perante o caso, mas de nada adiantou. O cantor apenas carrega mais uma polêmica nas costas e, música de qualidade que é bom, nada. Por hora, MC Livinho é o lixinho musical que todos aplaudem, mas ninguém entende!


MC Livinho e a voz que ninguém deveria ouvir
Por Marcelo Teixeira

sábado, 11 de novembro de 2017

O delicado álbum de Wanda Sá

Wanda: expoente da Bossa Nova
Uma das mais expoentes expressões da Bossa Nova, a cantora Wanda Sá é referência de musicalidade reconhecida mais no exterior do que no próprio país de origem e, para ela, o grande êxito do gênero foi o fenômeno que o estilo bossa novista trouxe de renovação na década de 1960 e que teve, de fato, um valor sistemático e assentido mais outros países do que no Brasil. Apaixonada pela música e pelos amigos que fez ao longo de sua carreira, a cantora norteou um novo trabalho, que passou praticamente despercebido do grande público e por parte dos jornalistas e críticos de música. Cá entre nós (R$27,99 / 2016) é um disco que nos remete ao ano de 1972, pois ele reverencia todo os momentos pelas quais a cantora vivenciou e dos amigos que angariou, como Roberto Menescal, Marcos Valle, Tom Jobim. Por falar em Tom, Wanda pincelou uma preciosidade do cancioneiro do maestro com o poeta Vinicius de Moraes e achou a deliciosa Cala, meu amor, música desconhecida de ambos os músicos. A ideia era reunir canções inéditas de parceiros como o amigo Roberto Menescal, João Donato, Carlinhos Lyra e Nelson Motta, mas além de conseguir juntar essa galera, Wanda trouxe para o celeiro convidados que até então não faziam parte de seu rol musical, como o cantor e compositor Ivan Lins, Chico Batera, Nelson Faria e Ricardo Silveira. Trata-se de um disco refinado, culto, bossa novista e cheio de saudade de um tempo que ficou apenas na lembrança.


Cá entre nós (2016) / Wanda Sá
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Verdade Tropical - 20 anos depois

Leitura obrigatória
Leitura mais que obrigatória para todos os amantes e não amantes da boa música brasileira, o livro Verdade Tropical acaba de ser relançada por Caetano Veloso com uma capa nova (não menos bonita que a edição de bolso, mas com certeza mais bonita que a primeira versão) e com um capítulo bônus intitulado Carmen Miranda não sabia sambar. Trata-se de uma conversa sobre esses 20 anos que nos separam da primeira edição, construída a partir do próprio livro e das suas repercussões. Eis aqui um novo retrato de Caetano acerca do mundo da música e para dizer também que o mundo mudou. As questões cruciais de sua vida e de suas angústias diante das dores do mundo também se fazem presente. Caetano é um grande leitor de livros e grande homem de erudição. O novo texto pode até surpreender os que só o têm como um artista da canção popular, jamais os que acompanham de perto a sua trajetória. A singularidade que enxerga no Brasil e em seu destino como nação permanece de pé, a despeito de tudo o que estamos testemunhando nos últimos tempos. Embora eu particularmente ache o livro Verdade Tropical extenso, cansativo por vezes e arrastado em uma profusão de palavras difíceis, deixo aqui registrado que o livro é, na verdade, uma síntese da biografia do próprio Caetano perante sua carreira tropical, musical e intelectual. Porém, foi aqui neste livro que pude ter a honra de conhecer um dos intelectuais que mais influenciaram minha carreira pedagógica e intelectual, como o escritor Edgar Morin ou o artista multifacetado e original Hélio Oiticica. Assim como há passagens engraçadas, como o caso da cantora Gal Costa cantar por intermédio de uma panela ou a rixa entre o próprio Caetano e Roberto Carlos, a quem Maria Bethânia já era fã. Mas não comprem o livro apenas porque há um capítulo maravilhosamente extraordinário como bônus ou pela nova capa tropical do cantor. O livro é para ser lido por inteiro. Parafraseando Adriana Calcanhotto, é preciso devorá-lo (como canta na música Vamos Comer Caetano). Muito bem escrito, há aqui uma formação humanística impressionante, capaz de nos impressionar do primeiro ao último capítulo. O relançamento de Verdade Tropical coincide com os 50 anos do Tropicalismo, cujo é um dos temas centrais do livro.


Verdade Tropical – 20 anos depois
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 14 de outubro de 2017

O outro lugar de Tetê Espíndola

Tetê em ótimo estado
É impossível escutar Outro Lugar (2017 / 40,00), sem ao menos sentir a sensação de tranquilidade que Tetê Espíndola quer transmitir. Repertório quase que completamente feito por Tetê, de um bom tempo atrás até anos mais atuais. Outro lugar é um disco que realmente nos deixa ir para outro lugar. Cada um de nós tem que encontrar um lugar ou lugares dentro da gente mesmo, pode ser na loucura da cidade ou no meio da natureza. Encontrar a tranquilidade dentro de si mesmo. É a sina de todo ser humano, encontrar o seu lugar e a paz interior — conta Tetê, que retorna com este registro de inéditas, três anos após o lançamento do último trabalho, Asas do Etéreo (2014). Com doze faixas, a mato-grossense transporta memórias e músicas da artista para os dias de hoje com poemas compostos há cerca de 40 anos e musicados atualmente com a linha romântica que é característico de Tetê.  Trata-se de um dos melhores e mais autênticos discos da cantora, que retorna ao cenário fonográfico pelas mãos de seu ilustre filho, Daniel Black. 

domingo, 3 de setembro de 2017

MC Guimê prova que é o líder do funk em disco que reverencia a lua

Guimê: estrela do funk
Lançado no final do ano passado, o cantor e compositor MC Guimê deu vida ao seu álbum Sou filho da Lua (2016 / 26,99), que conta com participações que vão de nomes do rap nacional à cantora de axé Claudia Leitte.  O disco é o primeiro de estúdio completo lançado pelo cantor. Considerado uma das maiores vozes do funk ostentação, o cantor surgiu na esfera internética em 2010, conquistando seu espaço e divulgando suas canções pelas redes sociais. Seus maiores sucessos são Plaquê de 100, Na pista eu arraso e Tá patrão, cujo vídeo oficial já ultrapassa mais de 30 milhões de visualizações. O novo disco, descrito pelo próprio Guimê como u sonho realizado, traz várias participações, algumas delas bastante inusitadas. Entre elas estão Emicida, na bela música Sampa, Negra Li em Nem maior nem melhor (tenha fé), Marcelo D2 em Cadê a mina? e Claudia Leitte em Vou te dizer. É um disco totalmente diferente daqueles que Guimê já fez, mas vale muito a pena ouvir esse novo trabalho, pois aqui há a sonoridade de diversos ritmos, demonstrando que o funk pode ser bem vindo em outras searas, tirando de cima dos funkeiros essa responsabilidade que o estilo proporciona algo maléfico. Ainda dentro desse pantaleão musical, Guimê segue à risca com sua doutrina de líder ;do movimento funk no Brasil e consegue trazer a harmonia que todos precisam ter e entender. Seu disco novo propões essa sintonia de paz que busca o funk. Para todos os efeitos, Sou filho da lua é mais um espetacular disco desse que é um dos maiores e melhores nomes da música brasileira.


Sou filho da lua (2016) / MC Guimê
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O lado intimista de Daniela Mercury em O Axé, A Voz e O Violão (2016)

Daniela: do axé a Chico Buarque
Inventora do axé music e dona de uma voz que levanta a multidão, a cantora e compositora Daniela Mercury é um fenômeno que merece respeito por qualquer seara musical na qual explora. A prova cabal disso é que seu trabalho lançado no ano passado é uma mistura que engloba todos os ritmos nas quais a cantora transitou e que reúne desde Chico Buarque à Margareth Menezes, passando por Chico César e Lenine. Sendo a Rainha do Axé e com todo orgulho, a cantora fez o diferencial em sua carreira ao lançar o exuberante O Axé, A Voz e O Violão (26,99 / Biscoito Fino / 2016) que, na minha modesta opinião, é um disco que merece atenção, repeito e cumplicidade pelo trabalho integral de Daniela. Com 16 álbuns solos, além de canções inéditas nesse novo disco, Daniela nos brinda com ótimas releituras da MPB, o trabalho foi recebido mornamente pelo público e pela crítica. Aqui há emoção, sentimento, amor e a cantora nos remete a um passado em que as músicas eram tratadas com um zelo sem igual. Considero o disco como um todo um tanto minimalista em que a cantora vai esmiuçando o axé até se transformar em uma potente vocal e explosiva em pérolas da música popular brasileira e nos brindando com o melhor de seu cancioneiro, pois ela vai desde o início de sua carreira até chegar aos quilates da africanidade e se rendendo nos braços buarquianos. Aos 51 anos de idade, Daniela Mercury continua a se lançar a desafios que cada vez mais diversificados. Acostumada a sempre estar saracoteando nos palcos em movimentos amplos e largos, dançando praticamente sem parar, o som aqui fica praticamente a cargo da orquestra, movida pelo violão e pela suntuosa voz da cantora. Músicas carimbadas como O Canto da Cidade, Música de Rua, Você Não Entende Nada estão lá, em formato intimista e atemporal. Vindo desde os primórdios de sua carreira magistralmente bem conduzida, Daniela resolveu homenagear os mestres Chico Buarque e Gilberto Gil, assim como para mostrar que tudo é música brasileira, tudo é samba, tudo é brasilidade.  Vale a pena ouvir o som quase bossa novista da eterna rainha do axé em um momento único, especial e sublime.


O axé, a voz e o violão (2016) / Daniela Mercury
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 26 de agosto de 2017

Os Tribalistas de 2017: melhor que em 2002


Os tribalistas: melhor que em 2002
Com um estilo mais autoral e menos conturbado que o primeiro lançamento de 2002, os Tribalistas ressurgem em um momento transformador e único na vida dos três mosqueteiros amigos e fazedores de música. A volta dos cinquentões, como já havia escrito em artigo anterior, demonstra toda a versatilidade de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte em meio a crises musicais que o Brasil vem passando nos últimos tempos. O novo disco é muito melhor que o disco que o de outrora a começar pelas letras, muito mais elaboradas e menos populista e pela sofisticação da capa, das vozes e do cenário musical que cada um interpreta em seus estilos solitários. Pode parecer banal, mas Tribalistas (2017 / Universal Music / 29,99) é um disco que merece ser ouvido e reouvido porque a sonoridade produzida aqui é de uma maestria sem igual. Assim como ainda acredito que ser tribal é pertencer ao grupo criado pelo trio, ou seja, apenas amigos são convidados a cantar com eles em estúdio ou ao vivo, fazendo desse tribalismo um ato de amor à música. É como se amigos de outros tempos se reunissem e ficassem cantando ao luar: é assim como este belo álbum é representado. Para se unir ao trio de amigos, a cantora portuguesa Carminho fecha o disco com uma delicadeza sem igual, na faixa que soa como infantil Os peixinhos. Tribalistas traz algumas mudanças em seu jeito de cantar e de ver o mundo e não se iguala ao trabalho anterior no quesito musicalidade, mas músicas como Feliz e Fora da Memória (e talvez apenas as duas) se assemelham com o disco de 2002. Para tanto, o trio estão muito engajados e antenados com o que acontece ao redor do Brasil ao abordar a música Diáspora. Sendo uma das melhores fases criativas de Arnaldo, Carlinhos e Marisa, Tribalistas subiu no meu conceito e passa a ter um respeito dentro daquilo que considero o melhor da música popular brasileira.


Tribalistas (2017) / Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte
Nota 9
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eis o novo e velho Chico Buarque em Caravanas (2017)

Eis as caravanas de Chico Buarque
Mesmo sendo chamado de machista por metade daqueles que ouviram a faixa Tua Cantiga, disponibilizada dias atrás pelas redes sociais, Chico Buarque parece não ter dado muita trela e, mesmo com uma resposta singela sobre o caso, fez seu comboio passar a frente de uma dúzia de insatisfeitos e lançar seu novo trabalho à beira de muita crítica e muito blá blá blá. Depois de um hiato silencioso de seis anos, eis que Chico Buarque, o todo soberano cantor, poeta, político, compositor, amante das mulheres, dos bêbados, dos trabalhadores, solta o verbo em sete canções inéditas e em duas regravações. Não irei tratar aqui de um artista completo que Chico é, mas sim, medir esforços para não dizer o quanto insatisfeito ficarão os insatisfeitos e o quanto mais crítico fico com relação à sua música. Para todos os efeitos, gosto das músicas e de tudo aquilo que Chico faça ou venha a fazer, mas meu papel não é agradar aqueles que gosto ou defender um partido que na qual não estou disposto a fazê-lo. Caravanas (2017 / Biscoito Fino / 29,99) chega hoje às lojas físicas de todo o Brasil trazendo um disco bom (não ótimo), pegando rabeira em discos anteriores e se aproximando e muito de sua última criação, Chico, lançada em 2011, que já vinha com um martírio penoso de ter semelhanças com discos anteriores. Mas faz sentido o título que Chico deu ao seu novo trabalho: caravana é o mesmo que comitiva, comboio, frota e algo que remete a uma viagem; logo, Chico pega viagem em grandes distâncias para poder chegar a um lugar comum, que é o coração de alguém. Quem? Vamos por partes: quando lançou o espetacular As Cidades (1998), vindo de uma alegoria fantástica e criativa de Carioca (2006), o cantor não tinha nenhuma madame em mente. Alguns anos anteriores, Ivan Lins e Chico compuseram a emblemática Renata Maria, gravada magistralmente por Leila Pinheiro em seu disco Nos Horizontes do Mundo (2005), cujo até hoje soa como uma homenagem a alguma namorada. Depois disso, ele fez duas pérolas em formatos de trabalho (As Cidades e Carioca) e parou no tempo. Em 2011 lançou o morno Chico, em que nascera devido seu romantismo em torno da cantora e compositora Thaís Gullín. O namoro não deu certo e, cinco anos depois de separados, Chico conhece uma curitibana, com quem, segundo dizem, mantêm uma relação amorosa. Eis o ponto de partida para que o mestre do cancioneiro feminino tivesse prestes a voltar a compor. E isso de fato aconteceu com o nascimento de Caravanas. Será que Chico Buarque só vai conseguir compor quando estiver namorando? Seja como for, Caravanas não é um disco maravilhaso, mas como se trata de Chico Buarque, a espera é bem vinda e muito aguardada. Em alguns casos há um certo acerto, como o caso de Dueto, música que não é inédita, gravado com sua neta Clara Buarque, em que neta mostra ao avô o lado real e tecnológico das redes sociais. Outra sacada foi o também neto Chico Brown vir com sua esperteza em Massarandupió, onde o jogo de palavras rima perfeitamente com frases bem construídas, mas que nos remete a Subúrbio, onde há funk, palavrão e tudo aquilo que nunca esperamos de Chico, composta em 2006. Única faixa em espanhol, Casualmente é uma mistura simplória entre Havana e Brasil. E o samba-canção, marca registrada em discos iniciais, marca presença aqui com Desaforos, faixa que nos remete a Cotidiano. Enfim, a Caravana de Chico Buarque chegou, mas não trazendo tantas alegrias como era o esperado, porém, chegou um momento que transcende sua verve criativa dentro do imaginário dos netos, tão criativos quanto o avô, que, nesses últimos anos vem deixando a desejar, sem perder sua importância dentro da música popular brasileira.


Caravanas (2017) / Chico Buarque
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Fernando Lauria presta homenagem a Gonzaguinha

Homenagem a Gonzaguinha


O cantor Fernando Lauria lança o álbum Gonzaguinha Palavra por Palavra no próximo dia 29 de agosto (terça feira), às 21 horas, no Teatro Itália, em São Paulo. Lauria acompanhado por João Cristal no piano, Marcos Paiva no baixo-acústico e Daniel de Paula na bateria, apresenta uma bela homenagem ao eterno Gonzaguinha, morto prematuramente em 1991. Trata-se de uma das minhas maiores influências musicais e há tempos planejo este projeto, explica o cantor. O atual álbum possui 12 faixas e a gravação e a mixagem ficaram por conta de Luis Paulo Serafim e ainda contou com as participações especiais de Daniel Gonzaga (Feliz), Graça Cunha (Lindo Lago do Amor) e Cassio Ferreira (Galope). Mas outras canções belíssimas estão no repertório, como Explode Coração, Diga Lá Meu Coração, O que é o que é, entre outras. O cantor realiza o show em tom emocionado e carregado de sentimentos explosivos. Vale a pena conferir esse show, que está envolvido com o Projeto Terças Musicadas.
Serviços:
Terças Musicadas apresenta Fernando Lauria e Trio em Gonzaguinha Palavra por Palavra
Data: 29/08/2017 – 21 horas
Local: Teatro Itália – Av. Ipiranga, 344 – Edifício Itália – Subsolo – Metrô República
Vendas online pelo site: www.compreingressos.com.
Telefone da bilheteria do teatro: (11) 3155 – 1979

Créditos da foto: Rodrigo Castro

sábado, 12 de agosto de 2017

A volta dos cinquentões Tribalistas


Os cinquentões Marisa, Arnaldo e Carlinhos

Quem não sabia que os Tribalistas voltariam, por favor, que atire a primeira pedra contra a própria cabeça! Estava nítido que o trio Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown voltariam a atuar, mesmo que isso demorasse vinte ou trinta anos. Quinze anos depois de lançarem a explosão musical que uniria os três amigos, eis que eles voltam com um disco de inéditas repleto de sensações e vibrações positivas, com características marcantes e suavidade diferente de seu roteiro inicial. E o disco vem em um momento especial para os três: enquanto Arnaldo completará 57 anos em setembro e Carlinhos 55 em novembro, Marisa completou 50 em julho passado. O trio de cinquentões mudou a concepção de música adquirida em sua primeira incursão e agora conseguem explorar mais as nuances musicais que outrora era impessoal e não reconhecida por eles. O markenting deles é forte: lançar inicialmente 4 músicas no mercado internético para lançarem no final desse mês o disco pronto. A ideia central de reunir Marisa, Arnaldo e Carlinhos é tão simples quanto objetiva: no centro, Marisa, que é amiga e detentora de várias canções de ambos, defende a tese de que amigos são importantes em nossa vida e, por esse motivo, devem ser repatriados numa esfera atemporal, uniforme e sensata. Arnaldo e Carlinhos, díspares de uma mesma sintonia musical musicalizada por Marisa, encontraram em seus versos uma maneira de unir e monopolizar aquilo que ambos jamais poderiam encontrar, que é a voz de Marisa dentro de um mesmo patamar. Carlinhos e Arnaldo conseguem, cada qual ao seu jeito, unificar na voz cristalina de Marisa aquilo que ambos querem transmitir e, sendo assim, conseguem fazê-lo com uma maestria ímpar. Embora seja um trio, cada musico aqui têm uma particularidade diferente: Marisa é a mentora do grupo, enquanto Carlinhos destoa a atmosfera transloucada de versos improvisados, trazendo a africanidade regente em sua verve e Arnaldo, um típico filósofo da atualidade, que consegue mirar em profundas, ricas e pobres vertentes num olhar puro e certeiro. Os Tribalistas são criteriosos e, por isso mesmo, erram e acertam em algumas canções. Se no primeiro disco, cujo fui um crítico ferrenho para tal, transcorridos 15 anos, posso dizer que alguma coisa mudou com relação à música que eles produziram. Agora há uma sonoridade menos populista e mais autoral, mais rude e mais intelectual, o que não aconteceu com o primeiro. Já era dada como certa a volta dos três aventureiros tribais e foi bom que esse hiato de quinze anos tenha ocorrido, pois, assim, a sua música ficou boa, dentro de um limite audível que os Tribalistas propuseram a cantar.

 
 
 

A volta dos Tribalistas
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Leny Andrade - uma cantora brasileira


Leny : grande dama da MPB e sem rótulos
Embora muitos ou poucos a considerem como uma cantora de jazz, a própria Leny Andrade não se considera rotulada como tal. Leny gosta de ser chamada de cantora. Simplesmente cantora. Em alto e bom som e na sua mais plenitude definição. E por que e para quê limitá-la a um gênero quando se sabe que ela domina tantos outros? Se precisar for classificá-la de alguma maneira, a única palavra possível seria: brasileira. Então assim a chamemos: Leny Andrade, uma cantora brasileira. Assim como é uma cantora brasileira que fez mais sucesso (com merecimento) do que em solo americano, a própria Leny diz que é uma aspirante cantora americana. Nada nada e nada longe da verdade. Leny canta desde 1983, quase todo o ano, em Nova York. E tanto que, em 1993, dez anos depois, já com o Green card na bolsa, resolveu montar por lá um agradável espaço em formato de moradia onde pudesse pousar o corpo durante suas longas e lotadas temporadas no Ballroom, no Blue Note, no Town Hall e nas demais casas que disputavam o seu canto. Era também uma base confortável para onde retornar depois de se apresentar em Washington, em Los Angeles ou em cidades americanas. E até hoje é assim, com a diferença de que seu principal placo em Nova York passou a ser a casa de jazz mais respeitada do mundo: o Birdland, assim chamada para homeagear o saxofonista Charlie Bird Prker. Nenhuma cantora pode ser comparada à Leny, exceto Ella Fitzgerald. Excelente cantora que é, Leny é uma cantora que improvisa em vocais, lógica e assimétricas em explosivo dinamismo. Nascida no Rio de Janeiro em 1943, a cantora foi criada em conjuntos habitacionais e desde pequena sonhava em ser cantora. Ingressou na Bossa Nova tendo dois pontos centrais e cruciais: de um lado João Gilberto, que mantinha uma postura cool, equilibrada, simplista, justa e exata e de outro lado tinha a linha feminina que contrariava com a de Nara Leão, Dulce Nunes, Astrud Gilbert, Odette Lara, Wanda Sá, Joyce, Miúcha, Elza Soares, Elis Regina. Mas ao mesmo tempo que Leny tinha o exemplo e companheirismo de João Gilberto, ela se dividia entre outras inspirações e vertentes masculinas, como Wilson Simonal, Jorge Ben e Emílio Santiago. Mas ao adentrar na Bossa Nova, Leny provou que era Sambop, estilo totalmente diferente do estilo banquinho e violão. Um dos maiores desmentidos à história de que a bossa nova era cantar baixinho foi a entrada de Leny no movimento: cantar baixinho não era com ela. E mesmo assim, Leny foi a mais consagrada dentro desse time de cantoras extraordinárias. Miéle e Ronaldo Bôscoli foram os responsáveis pelo impacto da presença de Leny em solo brasileiro, quando produziram o histórico show Gemini V, que também contava com Pery Ribeiro e o Bossa Três. Depois disso, Leny percebeu que aqui não seria seu verdadeiro palco, embora saiba da sua responsabilidade em ser brasileira: o Brasil não a respeitaria como cantora, mulher e dona de uma das vozes mais autorais de seu tempo. Fez e faz sucesso nos Estados Unidos pelo conjunto da obra e lá o povo americano a reverencia como sendo a maior cantora de jazz do mundo.

Leny Andrade – uma cantora brasileira
Por Marcelo Teixeira

sábado, 5 de agosto de 2017

A morte de Luiz Melodia


Até qualquer hora, Luiz!
FOI  como uma bomba caindo sobre minha cabeça quando recebi nas primeiras horas da manhã de ontem que Luiz Melodia havia morrido. O Brasil ficou sem Luiz e sem Melodia. Se já estava complicado ouvir música em um país descabido de música, o que será de nós agora sem Luiz Melodia? O nosso ébano, nosso Zé Bedeu, nossa voz do morro carioca e nosso negro gato se foi para tristeza de muitos. Em 2015 me encontrei com Melodia em plena Avenida Paulista, aqui em São Paulo, onde falamos sobre as diferenças entre São Paulo e Rio de Janeiro e sobre muita música. Para quem não sabe, Luiz era um grande defensor da raça negra e lutava pela igualdade de valores e pela desigualdade que assolava nosso país. Foi um encontro natural, como de dois amigos que se reencontram em um momento qualquer. Luiz Melodia atravessou por mim como quem atravessa suas músicas por nossos poros, mentes e corpo. Perdemos a voz, perdemos o encanto, o jeito danado e o soul jazz de um dos maiores e melhores cantores do Brasil. Ontem passei o dia chorando, triste, relembrando desse dia que, para mim, já era importante e agora será mais ainda. Luiz Melodia não foi um cantor qualquer e muito menos um cantor de um estilo único: Luiz fora de uma categoria ímpar, de uma excelência sem igual, de uma humildade tamanha e de uma reciprocidade igual. Desde julho do ano passado, o cantor vinha se tratando de uma doença autoimune e chegou a passar por um transplante de medula óssea. Luiz, carioca da gema, estava internado no Hospital Quinta d’Or e morreu ontem pela madrugada aos 66 anos, devido à complicações de um câncer que atacou sua medula. O cantor foi sepultado agora pela manhã no cemitério do Catumbi, Rio de Janeiro. Familiares, amigos famosos e anônimos compareceram ao velório. Ele deixa a esposa Jane Reis e dois filhos, Mahal e Hiran. Sentiremos saudades, Luiz. Muitas saudades.

O adeus a Luiz Melodia
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Uma rosa de Elizeth Cardoso para Pixinguinha

Sofisticado disco de 1983
Chega a ser um verdadeiro absurdo um país que tem as melhores cantoras brasileiras não fazer zelar pela maior das vozes de todos os tempos: Elizeth Cardoso. Mais absurdo ainda, talvez, seja a proliferação de cantoras ingratas sem intelectual algum estarem em um topo desqualificável ao ponto de baterem no peito e dizerem que são as maiores cantoras e vozes de todos os tempos. Mas Elizeth só ouve uma e era carinhosamente chamada de A Divina. O artigo poderia muito bem encerrar aqui e tapar as bocas de cantoras despudoradas que vivem rebolando no palco ou com aquelas que utilizam do violão para dizerem que são multi em alguma coisa. Considerada por muitos como uma das mais brilhantes cantoras de todos os tempos, Elizeth era uma talentosa intérprete e reverenciada pelo público brasileiro e internacional, que exigia seus shows de duas a três vezes ao ano.  Mas Elizeth dispensa qualquer tipo de apresentação: seja A Divina, A Magnífica ou a A Enluarada, a cantora era uma das representatividades mais importantes de seu tempo e até hoje é exemplo de profissional competente para as cantoras que prestigiam sua personalidade.  Poderia ficar aqui escrevendo inúmeras linhas para elencar a importância de Elizeth dentro da música popular brasileira ou, então, convencer você que lê este artigo nas várias facetas da cantora. Mas nada é tão saboroso do que ouvir Elizeth. Nada é mais divino do que sabermos que temos uma Elizeth Cardoso para chamar de nosso! A prova maior de seu talento está registrada em Uma rosa para Pixinguinha (1983), em que a cantora canta e glorifica um dos maiores compositores de todos os tempos.  Salve, dona Elizeth!
 
 
 
 
Uma rosa para Pixinguinha (1983) / Elizeth Cardoso
Por Marcelo Teixeira

sábado, 29 de julho de 2017

O comodismo de Chico Buarque em Tua Cantiga (2017)



Chico: prolixo e difuso
Chico Buarque mobilizou o país inteiro essa semana com o lançamento de seu novo single, Tua Cantiga (2017), que fará parte do álbum de inéditas que será lançada agora em agosto com o título de Caravanas. Juram os especialistas de plantão, com carreira renomada e com título de doutor em criticar música que Tua Cantiga é a continuação de Todo Sentimento (1987), canção que marcou a retórica parceria entre Chico e Cristovão Bastos, cujo fora gravada no último disco de Elizeth Cardoso, em 1989 e sendo recontinuação de Futuros Amantes (1993), gravada depois por Gal Costa. Primeiro que não concordo com essa comparação pífia, pura e simplesmente porque ambas as músicas são díspares em suas nuances e propostas. Segundo porque Chico Buarque parece querer se afastar dessas músicas mais antigas e se apropriar de canções mais atuais e, por esse motivo, Tua Cantiga se assemelha mais com Chico (2011) do que com as compilações da década de 1980. Terceiro porque Chico encostou-se ao comodismo e no comodismo ficou encostado. Não gosto muito de escrever sobre canções jogadas ao público aleatoriamente, mas como essa é a nova onda do momento, tenho que me adequar, mas, mesmo sendo fã incondicional de Chico Buarque, tenho que reiterar que, por hora, Tua Cantiga não é uma surpresa itinerante, muito menos há um sabor de frescor.  Por pouco, enquanto ouvia Chico cantar, não via Machado de Assis conversando com Eça de Queiróz num banco de praça ou ver trólebus e casais apaixonados sendo embalados por longas serenatas, mas o que mais senti foi a real presença da singularidade humana e de uma realidade assemelhada ao mundo europeu e talvez isso tenha acontecido depois de ter lido seu último romance, O irmão alemão (2014), em que fala exatamente sobre a esperança do amanhã, do recomeço amoroso, da sutileza de gestos amáveis que não voltarão a existir. Falta a Chico a inovação, a esperança, a sutileza de entender que os dias mudaram, tal qual fizera com o espetacular As Cidades (1998) ou no atemporal e sensato e atual Carioca (2006), onde Chico se rendera aos encantos da pobreza local, do dilaceralante tempo equidistante entre o real e o imaginário e do perfeccionismo acerca de sua redoma musical. Mas ainda não estou criticando o disco num todo e sim, uma única canção, mas já posso ter uma noção do venha a ser a tal Caravanas de Chico. Tua Cantiga, por hora, se assemelha às canções de Chico (2011), mas ainda assim é cedo para poder dizer algo à altura do cantor. Prefiro ouvir o disco inteiro para poder criticar com veemência, mas, de antemão, Tua Cantiga demonstra o comodismo musical que assola a vida de Chico Buarque nesses últimos anos de hiato criativo.
 

Tua Cantiga (2017) / Chico Buarque
Por Marcelo Teixeira

domingo, 23 de julho de 2017

O novo álbum de Johnny Hooker não merece ser ouvido

Johnny Hooker: lixo
Ainda não entendi o que cantor Johnny Hooker faz na MPB e o porquê o mesmo insiste em cantar. Entendo que a cultura brasileira é rica e entendo também que temos que respeitar a sonoridade alheia, mas chega a ser uma aberração completa tê-lo em palcos brasileiros, enquanto o verdadeiro artista encontra-se escondido nas entrelinhas do Brasil. Venhamos e convenhamos: Johnny Hooker não canta absolutamente nada, não tem carisma, não tem sofisticação artística, não tem gabarito profissional, não tem lisura musical, não tem personalidade, não tem nada que chame atenção a não ser a sua aberração a favor daquilo que seja esdrúxulo, cansativo e arrastado. Sem nenhuma personalidade que o prevaleça, o antearquétipo de cantor está lançando um disco infame e sem consenso para ter uma crítica à altura de algo que prevaleça em sua carreira. Depois do insensato Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar (2015), o cantor acaba de lançar o sem graça Coração (2017), que não chega a ser um ótimo disco, mas é inferior ao primeiro, que já não tinha nem colocação entre uma infinita seleção dos melhores. Com uma mistura de sons refletidos em batuques desconexos, o álbum é uma configuração elitista de um artista que não se encontrou em território nacional, deixando a desejar em suas mensagens, suas transmissões e se preocupando mais com as causas de orientações sexuais do que propriamente com algo realmente benéfico à cultura brasileira. Seja como for, o disco, totalmente fora dos padrões e estéticas sociais culturais, é um dos piores discos do ano, sendo da pior espécie e se igualando ao primeiro trabalho do cantor. Se o beijo com Liniker para lançar a música Flutua já era uma aberração sem precedentes, com letra inspirada em uma aventura de amor e chegou há pouco mais de 1 milhão de visualizações, o disco Coração, com patrocínio do Natura Musical, mesmo com as 11 canções inéditas, não consegue ser uma alegoria de músicas sensatas e ditas cabíveis de serem a favor de uma crítica sensata. Eis aqui um disco horrível, com pegada incompreensível e difícil de ser digerida ou, como diria Sartre (1905 - 1980), degustiva. O ambicioso projeto de Hooker, que está disponível nas plataformas digitais a partir de hoje, não a pena ter o seu clique. Coração é o segundo disco da carreira do cantor e conta com a participação de Gaby Amarantos em Corpo Fechado e que tem músicas como Caetano Veloso e Escandalizar. Esse é o segundo disco de Hooker, mas bem que poderia ser o último!

Coração / Johnny Hooker
Nota 3
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira