sexta-feira, 30 de março de 2012

Meio-Dia, Meia-Noite, de Chico Pinheiro: grandes nomes da MPB e um excelente disco



Grandes nomes da música neste disco
Quando lançou Meia-Noite, Meio-Dia (2003 / Art Music / 26,99 com relançamento em 2010), Chico Pinheiro talvez não tivesse tanta certeza de sua responsabilidade em chamar para dividir as canções cantores de alto escalão como Maria Rita Mariano (na época ela ainda usava o sobrenome do pai, Cesar Camargo Mariano), Ed Motta, Lenine, Chico César e a novata Luciana Alves. O resultado é tão perfeito e original, que Chico Pinheiro foi alçado ao patamar de um dos melhores violonistas do Brasil e um dos compositores mais prodígios que o país conheceu. Chegando de mansinho no cenário musical e tendo uma boa parcela de amigos na área, Chico Pinheiro usou e abusou do bom tom para conseguir angariar um excelente resultado: seu disco ganhou prêmios e arrebatou inúmeros fãs tanto aqui no Brasil quanto fora dele.

E para que este sucesso fosse maior, nada melhor do que ouvir maravilhas compostas por Chico sendo interpretadas por bambas da MPB. O time escalado deu conta do recado e o resultado é tão gostoso de ouvir, tão saboroso e tão interessante, que denota o quanto estava carente o cenário musical no início dos anos 2000. Para tanto, Chico Pinheiro foi destacado o melhor violonista e o melhor compositor jovem e o lançamento de Meia-Noite, Meio-Dia só reforçou aquilo que todos já sabiam: seu disco era ótimo.

Chico Cesar: boa parceria
De Chico Cesar podemos desfrutar de Aquela, música bonita e que deixa Cesar muito a vontade nos bastidores. A música se torna um dos melhores do disco e os refrãos se tornam ainda mais sensíveis à medida que o cantor a canta. A outra canção, Passagem, também demonstra uma sensibilidade à flor da pele com um toque de amor reprimido. Ambas as músicas, composta em parceria pelos músicos, são tão harmoniosas, que parece que foram feitas sobre encomendas. Sua carreira artística tem repercussão internacional. A maioria de suas canções são poesias de alto poder de encanto linguístico.

Ed Motta dá um tom jazzístico
Ed Motta surge com Essa Canção, dando um tom jazzístico ao disco. Sua música tem raízes nos estilos funk/soul e disco, mas também tem influências de jazz, bossa nova, reggae, rock. Com grande diversidade de estilos e vários álbuns lançados no exterior, Ed Motta possui uma longa carreira nacional e internacional, tendo tocado e gravado com inúmeros nomes do cenário mundial, como Incognito, Bernardie Purdie (baterista do Steely Dan), o grupo português Jazzinho, entre outros. Sobrinho do cantor carioca Tim Maia, Ed Motta ficou conhecido no fim da década de 1980, com as composições Manuel e Vamos Dançar, que gravou com a sua então banda Conexão Japeri. Na década de 1990 retornou às paradas de sucesso com os hits Fora da Lei, Vendaval e Colombina (esta, lançada em 2000).

Lenine: apenas sons vocais
Lenine aparece com Buritizais e ele faz o que mais gosta: sustenidos e gritinhos e arroubos marcam a canção, sem nenhuma frase. Um achado e tanto para um destacamento perfeito. Lenine já teve seu som gravado por Elba Ramalho, sendo ela a primeira cantora de sucesso nacional a gravar uma música sua. Depois vieram Fernanda Abreu, O Rappa, Milton Nascimento, Maria Rita, Maria Bethânia e muitos outros. Produziu Segundo, de Maria Rita e De uns tempos pra cá, de Chico César. Participou também da direção do musical de Cambaio, musical de João Falcão e Adriana Falcão, baseado em canções de Chico Buarque e Edu Lobo.

Lenine ganhou dois prêmios Grammy Latino: um pelo Melhor Álbum Pop Contemporâneo com seu álbum Falange Canibal; e outro em 2009 na categoria melhor canção brasileira com a música Martelo Bigorna.

Luciana Alves: as melhores faixas do disco são dela
Luciana Alves, esposa de Chico Pinheiro, herda as pérolas do disco, com as belas canções Jardim de Arroz, Meia-Noite, Meio-Dia, Na Beira do Rio, Ao Vento e Onde Estiver. Luciana Alves é paulistana, tem 27 anos de idade e nove de carreira. Filha de músico, ela tem contato com o meio artístico desde a infância e começou cantando em eventos esporádicos. Aos 18 anos, abraçou a música como profissão, apresentando-se em bares e participando da gravação de jingles. Como integrante do grupo Notícias dum Brasil, idealizado pelo compositor Eduardo Gudin, participou como principal solista do CD Pra Tirar o Chapéu e apresentou-se ao lado de renomados músicos, como Guinga, Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Elton Medeiros

Participou do CD Madeira que Cupim Não Rói do multiartista Antônio Nóbrega, e esteve presente na turnê do show Pernambuco Falando para o Mundo.

Ao lado de Joyce Moreno e Roberto Menescal, cantou Nara Leão dentro do projeto Boteco do Cabral, idealizado e apresentado pelo jornalista e escritor Sérgio Cabral. Em novembro de 2001, dentro do mesmo projeto, cantou Dolores Duran ao lado de Johny Alf e Alaíde Costa.

 No 2º Prêmio Visa de MPB -Edição Vocal, classificou-se entre os doze semifinalistas. No ano seguinte, no 3º Prêmio Visa - Edição Compositores, defendeu as músicas de Chico Pinheiro, compositor que conquistou o segundo lugar. Durante o Festival da Música Brasileira, realizado pela Rede Globo, participou ao lado de José Miguel Wisnik, sendo considerada pela crítica uma das grandes revelações do festival. Luciana integra também o grupo do compositor paulista André Hosoi, com quem lançou o CD Junina, e prepara-se para gravar seu primeiro CD solo.

Maria Rita ainda Mariano: perfeita
Maria Rita surge com a engraçada Popó, a inquietante De Frente e a amargurada Desde o Primeiro Dia. Maria Rita iniciou sua carreira com cerca de 24 anos, apesar de querer cantar desde os quatorze. O peso da carreira da mãe, bastante famosa no Brasil, influenciou o adiamento de sua obra. Segundo a própria: sempre tive a consciência de ser a única filha mulher de uma grande cantora. Antes de se tornar cantora profissional, ela fez um estágio em uma revista para adolescentes, tendo estudado Comunicação social e estudos latino-americanos na Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Apesar do sucesso recente, consagrou-se como novo ícone da MPB.

Ganhadora de seis prêmios Grammy Latino incluindo Grammy Latino de Melhor Artista Revelação, também já ganhou dois Prêmio Multishow de Música Brasileira, entre outros prêmios nacionais. Maria já vendeu 1,985 milhão de CDs e DVDs, somente no Brasil.

Chico Pinheiro: o anfitrião
E Chico abre o disco com Contemplação e encerra com a linda Choro Calado, ambos apenas ao violão. Com um belo disco e uma equipe de peso, Chico Pinheiro se consolida no cenário musical como um dos melhores artistas, únicos e detentores dos melhores encantamentos e entusiasmos que possamos destilar.



Faixas


·       1.Contemplação (Chico Pinheiro) Chico Pinheiro

·       2.Ao Vento (Chico Pinheiro - Guile Wisnik - Paulo Neves)  Luciana Alves

·       3.Meia-Noite, Meio-Dia (Chico Pinheiro) Luciana Alves

·       4.Aquela (Chico Pinheiro - Chico César) Chico César

·       5.Desde o 1º Dia (Chico Pinheiro - Guile Wisnik) Maria Rita Mariano

·       6.Essa Canção (Chico Pinheiro - Guile Wisnik - Paulo Neves) Ed Motta

·       7.Buritizais (Chico Pinheiro) Lenine

·       8.Jardim de Arroz (Chico Pinheiro - Guile Wisnik) Luciana Alves

·       9.Passagem (Chico Pinheiro - Chico César) Chico César

·       10.Na Beira do Rio (Chico Pinheiro - Paulo Neves) Luciana Alves

·       11.Popó (Chico Pinheiro - Aldir Blanc) Maria Rita Mariano

·       12.De Frente (Chico Pinheiro - Guile Wisnik) Maria Rita Mariano

·       13.Onde Estiver (Chico Pinheiro - Paulo Neves) Luciana Alves

·       14.Choro Calado (Chico Pinheiro) Chico Pinheiro



Produzido por Chico Pinheiro e Swami Jr.



Nota 10

Meia-Noite, Meio-Dia / Chico Pinheiro



Marcelo Teixeira

quinta-feira, 29 de março de 2012

Roberta Campos: surpresa mineira



Varrendo a Lua, de 2010: falando de amores
Roberta Campos chegou como quem nada queria: com um disco inteiro dedicado ao amor e com letras intimistas que falam sobre relacionamentos perdidos ou ansiosos, a cantora está sendo reconhecida por sua bela voz, calma e mansa e por seu talento merecedor plausível de aplausos efusivos. Roberta é compositora e compôs para seu disco de estreia praticamente todas as faixas de Varrendo a Lua, um disco belíssimo, caprichado, organizado e com mensagens tão positivas sobre o amor, que ficamos a mercê dela. A ansiedade em algumas faixas também predominam, mas isso refaz com que pensemos a respeito do próximo. O amor, em sua magnitude, está tão presente, que o disco, numa forma adolescente, se torna a arma de protesto de Roberta Campos.

Com uma mensagem lúcida e transparente, Varrendo a Lua (2010 / Deckdisc / 19,99) ganha todos os destaques que uma cantora iniciante merece: além de bem preparado, conta com a regravação perfeita de Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, grande sucesso na voz de Milton Nascimento no disco Pietá e com participação especialíssima de Nando Reis na eletrizante De Janeiro a Janeiro. Sendo a nova queridinha de Marcelo Camelo, Roberta Campos é uma cantora simples, discreta, mineira de Caetanópolis e muito talentosa.

O charme de sua musicalidade está no estilo de sua composição: sensata, inquietante e que fala de um amor que se foi, de um amor impossível, de um amor incapaz ou de um amor que está ali, bem próximo de nós, nos esperando na esquina. A singularidade com que expressa este sentimento que martela milhões de pessoas ao redor do mundo é o motim para a expressão verdadeira e transferível de Roberta Campos e a perfeição de sua bela voz é denotativa de recursos magníficos para que possamos adentrar neste universo chamado amor.

Deixar de ouvir ou comentar sobre Roberta Campos seria uma injustiça sem tamanho: pudera, ela ganhou um lugar cativo na minha estante e o meu respeito por seu trabalho vai além de qualquer possibilidade musical. Sendo nada arcaica com as frases e desejos que transpassa aos ouvintes, Roberta manifesta emoção e sentimentalismo em músicas como Acabou, forte carta de um amor rompido, Estou em Paz (Com Você), Para Aquelas Perguntas Tortas, Felicidade, se transformando em um pequeno mantra sobre o amor que está por vir ou a felicidade que está chegando e a bela faixa Varrendo a Lua, que abre o disco e é título do álbum.

Se há uma cantora com a qualidade de representar o amor na sua mais dolorosa formosura, recaindo aqui e ali sobre a possibilidade de encontrarmos desencontros e desilusões e de sermos atacados por pessoas ferinas e que nos querem demonstrar o lado horrível da dor de amar, esta cantora se chama Roberta Campos: sensível, maravilhosa, lindamente compenetrada e ágil. Musicalidade certa e direta. As pessoas ainda vão ouvir falar muito de Roberta Campos, desde que ela continue nesta pegada romântica, destoando seu sentimento para a nova MPB.



Faixas

·       1 – Varrendo a Lua (Roberta Campos)

·       2 – Mundo Inteiro (Roberta Campos)

·       3 – Felicidade (Roberta Campos / Carolina Zogoli)

·       4 – Acabou (Roberta Campos)

·       5 – De Janeiro a Janeiro (Roberta Campos)

ü  Part. Especial de Nando Reis

·       6 – Sinal de Fumaça (Roberta Campos / Nô Stopa)

·       7 – Aqui, Ali (Roberta Campos)

·       8 – Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (Lô Borges  / Márcio Borges)

·       9 – Para Aquelas Perguntas Tortas (Roberta Campos)

·       10 – Estou Em Paz (Roberta Campos)



Produzido por Rafael Ramos

Direção Artística: João Augusto



Nota 10

Varrendo a Lua  / Roberta Campos

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 28 de março de 2012

Zizi Possi: releituras e um ótimo disco, Puro Prazer, de 1999

Puro Prazer, de 1999: ótimo e intimista
Zizi Possi é uma das melhores cantoras da MPB. Sua voz é tão cristalina e inconfundível que logo nota-se sua qualidade musical. Suas músicas são de uma primazia única e seu talento está provado em canções que embalaram os anos 1980 e 1990. Detentora de inúmeros prêmios, Zizi emociona até hoje com a gravação que fez ao lado de Chico Buarque com a música Pedaço de Mim, de 1978. Considerada sucessora de Elis Regina, Zizi tem méritos próprios e encerrou a década de 1990 com um excelente disco, embora as músicas sejam muito marcadas. Zizi nunca se preocupou com rótulos e o disco que fecha mais um ciclo de sua brilhante carreira ganhou um destaque único: voz e piano.

Puro Prazer (1999 / Universal Music / 25,99) concretizou um antigo projeto de Zizi em gravar um disco apenas com voz e piano. Tendo como destaque a gravação de Disparada e concorrendo pelo prêmio Grammy Latino com a cantora argentina Mercedes Sosa, uma das cantoras que maior influência exerceu na carreira, no entanto, a colombiana Shakira venceu nas três categorias. O repertório apresentou regravações dos antigos sucessos entre outras canções consagradas e outras inéditas na voz, comemorando os dez anos de parceria entre a cantora e o pianista e maestro Jetther Garotti Júnior. Encerrava a década de 90 conquistando o Troféu Imprensa de melhor cantora (1999).

Puro Prazer tem um mérito especial: foi o disco que deu à Zizi a possibilidade de vender 100 mil cópias entrando para a galeria Disco de Ouro, numa época em que vender discos estava sendo tarefa difícil. Talvez embalada pelo mega sucesso do disco Per Amore (1997) e que vendeu 500 mil cópias entrando para a galeria Disco de Platina Duplo, o fato é que Zizi Possi arrebenta em Puro Prazer pelo simples fato de fazer música de respeito, qualidade, ética e sensibilidade.

Regravando grandes sucessos de sua carreira numa forma ainda mais autoral e intimista, Zizi consegue emocionar novamente quando canta Luiza, música que Tom Jobim fez em homenagem à sua filha, Luiza Possi, quando está nasceu. Gonzaguinha aparece com a belíssima Viver, Amar, Valeu e se torna a melhor faixa do disco pela poesia que a música transpassa. Rebento, grande sucesso na voz de Elis Regina e composta por Gilberto Gil, deixa um rastro de alegria e magia cantada por Zizi, ficando díspar da versão original. Chico Buarque, grande amigo da cantora, é o detentor de quatro canções do disco. Além de Pedaço de Mim, estão presentes Tanta Saudade (parceria com Djavan), Sobre Todas as Coisas (parceria com Edu Lobo) e Eu Te Amo (parceria com Tom Jobim).

Regravando um grande sucesso dos Paralamas do Sucesso, Meu Erro se tornou um hit incansável nas rádios de todo o país, mostrando que a popularidade de Zizi era arrebatadora. Pudera, a canção ficou de uma lindeza perfeita e harmoniosa e a junção voz e piano caiu como uma luva. As canções em italiano que Zizi cantou nos dois discos dedicado à Itália também estão aqui revestidos com nova roupagem e ainda mais incisivas.

Hoje, no dia de seu aniversario, o Mais Cultura! homenageia Zizi Possi, a cantora que mais prestigio teve na MPB. Completando 56 anos em plena atividade, Zizi hoje colhe aquilo que plantou e seus fãs a cultuam sempre. Sua musicalidade é única.



Faixas

·       1 Disparada (Théo de Barros, Geraldo Vandré)

·       2 Volver a los diecisiete (Violeta Parra)

·       3 Luiza (Tom Jobim)

·       4 Pedaço de mim (Chico Buarque)

·       5 Sobre todas as coisas (Chico Buarque, Edu Lobo)

·       6 Viver, amar, valeu (Gonzaguinha)

·       7 Rebento (Gilberto Gil)

·       8 Tanta saudade (Chico Buarque, Djavan)

·       9 Vurria (F. Rendine, Alberto Pugliesi)

·       10 Torna a surriento (Ernesto de Curtis)

·       11 Beatriz (Chico Buarque, Edu Lobo)

·       12 Eu te amo (Chico Buarque, Tom Jobim)

·       13 Meu erro (Herbert Vianna)

·       14 Che cosa (Gino Paoli)



Direção: Zizi Possi e Moogie Canázio

Piano:Jether Garotti Junior



Nota 10

Zizi Possi / Puro Prazer

Marcelo Teixeira

terça-feira, 27 de março de 2012

Valéria Sattamini: grata surpresa carioca

Samba Blim, de 2003: ótimas regravações
Valéria Sattamini é uma cantora carioca e que lançou apenas um único e belo disco. Sua voz é suave, doce e cristalina. Seu disco é recheado com o velho e bom samba rock ao estilo de Jorge Benjor e se iguala ao estilo de Paula Lima (embora Paula seja mais sofisticada neste segmento). Valéria utiliza o pop moderninho e o samba menos cadenciado para levar ao público um disco com regravações à altura de uma grande interprete e que consegue captar com extrema convicção o brilho de um tempo em que fazer música era sinal de respeito e responsabilidade.

Valéria Sattamini, dizem as boas línguas, é sobrinha do multi artista Nelson Motta e ainda é muito pouco conhecida no cenário musical. O primeiro CD da cantora Valeria Sattamini relembra balanços já conhecidos de Benjor como O homem da gravata florida e Agora ninguém chora mais, Novos Baianos com a música Swing de Campo Grande, Moacir Santos na sua mais alta formosura com Nanã e até resgatando o esquecido Orlan Divo comTamanco no samba, de onde foi tirado o título do CD.

Samba Blim (2003 / Fibra Records / 21,99) é um belíssimo trabalho da cantora carioca que mostra um repertório com um toque contemporâneo, resultando num álbum com o melhor do sambalanço, ritmo muito divulgado por Jorge Benjor. No disco também há um quê de Wilson Simonal, misturados ao samba-pop e a algumas composições próprias cheias de suingue. As releituras de Benjor – O Homem da Gravata Florida e Agora Ninguém Chora Mais – são os pontos altos de um disco bom do início ao fim (algo tão raro hoje...). Esta última, então, é daquelas de não sair da cabeça, de cantarolar o dia inteiro “Chorava todo mundo, mas agora ninguém chora mais, chora mais, chora mais...” Não porque seja uma música-chiclete, daquelas que infestam as rádios. Muito pelo contrário. Valeria desenterra a canção dos anos 60 e dá a ela um vigor e uma modernidade incríveis, fazendo ainda o favor de retirá-la do obscurantismo a que foi confinada por seu criador, que não consegue, ou não quer, fugir da obviedade de seu repertório atual.

Outro achado de Samba Blim é Swing de Campo Grande, dos Novos Baianos. A música foi gravada originalmente por Moraes, Pepeu e cia. no histórico LP Acabou Chorare, de 1972, sem dúvida um dos melhores discos da música brasileira. Valeria também apresenta uma nova leitura para a clássica Nanã. Famosa com Wilson Simonal, a música já foi gravada por meia MPB, mas ainda assim a cantora fez questão de incluí-la em seu disco de estreia. O nome do disco, aliás, foi retirado de um dos versos da música Tamanco do Samba, que abre o CD e é a primeira faixa de trabalho. Aqui, mais um resgate de Valeria, que traz de volta à cena o grande Orlan Divo (compositor da música ao lado de Helton Menezes), esquecido mestre do sambalanço.

O repertório de 12 músicas é completado com seis composições de Valeria, sem parceiros. O destaque é Quero Ver Você, com um delicioso clima de gafieira. Mas vale destacar também Tua Cicatriz e Soul Black, esta última com o reforço de Cecília Spyer nos vocais. Eu Não Sei e Bem Cedo destoam do restante do disco, trazendo um clima jazzístico.



Faixas



·       1 – Tamanco no Samba (Orlan Divo e Helton Menezes)

·       2 – O Homem da Gravata Florida (Jorge Benjor)

·       3 – Quero Ver Você (Valeria Sattamini)

·       4 – O Que Me Falta (Valeria Sattamini)

·       5 – Agora Ninguém Chora Mais (Jorge Benjor)

·       6 – Eu Não Sei (Valeria Sattamini)

·       7 – Nanã (Moacir Santos e Mário Telles)

·       8 – Swing de Campo Grande (Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira e Galvão)

·       9 – Tua Cicatriz (Valeria Sattamini)

·       10 – Soul Black – Participação especial: Cecília Spyer (Valeria Sattamini)

·       11 – Bem Cedo (Valeria Sattamini)

·       12 – Tamanco no Samba (Bossacucanova Remix) (Orlan Divo e Helton Menezes)



Produção: Valeria Sattamini, André Protasio e Flávio Mendes

Direção musical: André Protasio e Flávio Mendes



Nota 10

Samba Blim / Valéria Sattamini



Artigo de Marcelo Teixeira

segunda-feira, 26 de março de 2012

Rebeca Matta: surpresa baiana



Segundo disco da cantora: boa surpresa
Em seu novo disco, Rebeca Matta avança bastante em relação ao primeiro, Tantas Coisas (1998) que chamou a atenção da crítica em 1998 por sua inesperada e corajosa receita musical: uma bem conduzida adaptação do bel canto de inspiração nas vozes femininas da "vanguarda paulista" à música eletrônica e do rock. Um maior domínio do software musical por parte do produtor andré t e a adesão de uma banda vigorosa e coesa (o baixista Renato Nunes, o baterista Guimo Migoya e o ótimo guitarrista Pêu Souza) fizeram com que o som de Rebeca em Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar (2000 / Lua Discos / 19,99), ganhasse peso, profundidade e um caráter mais dançante - em especial na faixa de encerramento, a techno-batucada A Novidade.

Na maior parte do disco, o que predomina é o rock (havia um pouco mais de brasilidade no primeiro), de faixas longas, com muita sujeira eletrônica (no bom sentido), instrumental pesado e guitarras rasgando o estéreo. É o que se ouve nas faixas É Que a Vida É, Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar, que tem até palavras fortes, pesadas, mas que não foge disparate da crítica, Seja Lá o Que For (eletrônica e pesada), a funkeada Mal Necessário, grande sucesso de Secos & Molhados, O Olho Nu (mais depressiva e a mais bela do disco) e Um Beijo no Pescoço (que tem elementos bem reconhecíveis).

A presença da música brasileira fica mais evidente na versão de Xique-Xique (Parabelo) (de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, da trilha de um balé do Grupo Corpo), na excelente regravação do mestre João Bosco em parceria com Aldir Blanc na bela O Ronco da Cuíca e na boa Pra Que Sofrer (que tem gosto de samba-canção, com percussão-metralhadora e voz acelerada eletronicamente) e na releitura de Na Cadência do Samba (Ataulfo Alves / Paulo Gesta / Matilde Alves) - a voz de Rebeca se prende à melodia enquanto o acompanhamento enlouquece. Completam o bom pacote da cantora uma versão absolutamente inventiva e não-mangue de A Cidade (de Chico Science) e outra, delicada, com vibrafone, de música do francês Manu Chao (A Mentira). Tudo em Garotas Boas Vão Pro Céu E Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar é muito bem feito - o encarte, então, nem se fala.

Em 2006 Rebeca chegou a ser convidada para fazer os vocais femininos em substituição a Rita Lee na reunião do grupo Os Mutantes, ao lado dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista. Por estar às voltas com a gravação de seu terceiro disco, Rebeca declinou do convite, tendo assumido o lugar nos Mutantes a cantora Zélia Duncan. O terceiro disco de Rebeca, Rosa Sônica, saiu em 2006, também basicamente autoral, com arranjos mais voltados para a eletrônica. A única regravação desse disco é Vapor barato (Jards Macalé - Waly Salomão), sucesso de Gal Costa no início da década de 70.

Rebeca Matta se notabilizou por produzir MPB eletrônica numa cidade dominada pelas modas da Axé Music e Pagode, e mesmo não tendo estourado comercialmente, chamou a atenção para a cena rock baiana, o que possibilitou posteriormente o aproveitamento de outros artistas baianos que não fazem Axé ou Pagode, como a cantora Pitty, que se tornou um dos grandes sucessos do rock nacional poucos anos depois.





Faixas

·       1 É que a vida é ... (Rebeca Matta)

·       2 Xique-Xique (Parabelo) (Tom Zé, José Miguel Wisnik)

·       3 Garotas boas vão pro céu, garotas más vão pra qualquer lugar (Rebeca Matta)

·       4 Seja lá o que for (Rebeca Matta)

·       5 O olho nu (Rebeca Matta)

·       6 Mal necessário (Mauro Kwitko)

·       7 A mentira (Manu Chao, Rebeca Matta)

·       8 Um beijo no escuro (Rebeca Matta)

·       9 A cidade (Chico Science)

·       10 O ronco da cuíca (Aldir Blanc, João Bosco)

·       11 Pra que sofrer? (Rebeca Matta)

·       12 Na cadência do samba (Matilde Alves, Paulo Gesta, Ataulfo Alves)

·       13 A novidade



Nota 9

Rebecca Matta / Garotas Boas Vão Para o Céu, Garotas Más Vão Para Qualquer Lugar



Marcelo Teixeira

sexta-feira, 23 de março de 2012

O novo disco de Fabiana Cozza: merecedor de aplausos



Novo disco de Fabiana Cozza: merecedor
O samba é seu dom e ela sabe dar o recado perfeitamente quando o tema é música de verdade, de responsabilidade, de qualidade. Fabiana Cozza é o que há de melhor na nossa música popular brasileira e sua representatividade significa que o samba feito por mulheres consagradas por Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Alcione não está perdido. O samba tem nome, sobrenome e será muito difícil esquecermos uma interprete chamada Fabiana Cozza. Seu timbre de voz encanta e provoca sensações enérgicas tão equidistantes e sensíveis que é, de fato, uma presença marcante nos palcos e por onde passa. Fabiana veio para ficar em um reduto sambístico com pompas de honra, sendo vangloriada por muitos acadêmicos do segmento e louvada por fãs acalorados por seu gingado.

Com dois outros discos merecedores de aplausos efusivos, O Samba é Meu Dom (2004) e Quando o Céu Clarear (2007), Fabiana Cozza nos apresenta agora seu terceiro disco com a maestria da originalidade e mais um trabalho espetacular. Fica ainda mais difícil dizer que Fabiana é uma cantora passageira. Pudera: seus discos são obras-primas e de uma significância tão maravilhosa que nos deixa a sensação de que faltava algo para salvar o samba. Ou tentar.

Fabiana Cozza (2011 / Agô Produções / 25,90) é um disco delicioso por onde a cantora passeia entre o samba, o pagode, o partido alto, as crenças, os santos e a qualificação de um estilo único. Músicas caprichadas, compositores de primeira grandeza, harmonia e melodia e encantamento caminham de mãos dadas, como se mostrassem a Fabiana que o caminho a seguir era justamente aquele. E Fabiana está cantando melhor neste disco, deixando nítido que sua personalidade está equilibrada. Um disco tão perfeito que fica impossível ficarmos parados. O samba aparece na ponta do pé e a voz de Fabiana embala. E mais um disco destila todos os efeitos de que Fabiana Cozza é uma das melhores interpretes que este Brasil já conheceu.

A participação, assim como aconteceu em seu primeiro disco, de seu pai, Oswaldo dos Santos, emociona pela sensibilidade que a música exige. Pai e filha em um duelo marcante, voz magistral com voz potente num giro de palavras e sentimentos que nos deixam embasbacados e a certeza de que ainda teremos outros encontros como este. Mas o disco é muito mais. Fabiana regravou grandes bambas do samba, todos com a mesma intensidade e qualidade e respeito.

Ouçam com muita atenção as belas músicas deste disco, com destaque para Santa Bamba, a melhor faixa do disco. Mas ouçam, ouçam e cansam de ouvir Fabiana Cozza na sua melhor magnitude.

Fabiana Cozza é totalmente diferente do segundo álbum, Quando o Céu Clarear, mas muito próximo de O Samba é Meu Dom. Indiferente disso, as músicas que Fabiana canta neste seu terceiro disco são de uma competência única, espetacular e original.



Álbum Fabiana Cozza (2011)

·       Sandália Amarela (Wilson Moreira e Nei Lopes)

·       2. Lá fora (Elton Medeiros e Délcio Carvalho)

·       3. São Jorge (Kiko Dinucci)

·       4. Sabe Deus (Sombrinha, Marquinho PQD e Carlinhos Vergueiro)

·       5. Eternamente sempre (Sombrinha e Marquinho PQD)

·       6. Candeeiro de Deus (Roque Ferreira)

·       7. Festa do Zé (Sombrinha e Carlinhos Vergueiro)

·       8. Lupiciniana (Wilson das Neves e Nei Lopes)

·       9. Escudo (Wanderley Monteiro e Ivor Lancellotti)

·       10. Santa Bamba (Kiko Dinucci e Fabiano Ramos Torres)

·       11. Serenata de São Lázaro (Gilson Peranzzetta e Paulo César Pinheiro)

·       12. Solo Sagrado (Julio Marcos e Xuxu)

·       Narainã (Alvorada dos Pássaros) – (Ideval Anselmo, Jordão e Zecão)



Direção e Produção Musical: Paulão 7 cordas

 Produção Artística: Fabiana Cozza e Marcelino Freire



Nota 10

Fabiana Cozza / Fabiana Cozza


Marcelo Teixeira