terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Filipe Catto fica sem fôlego em Tomada (2015)


 

Tomada sem muita força
Com uma capa horrível e um repertório fraco, paupérrimo e ao mesmo tempo melancólico, o cantor e compositor Filipe Catto consegue afundar seu nome na música brasileira com aquilo que mais sabe fazer: cantar e bem. Mesmo sendo um dos melhores cantores do seu tempo (do nosso tempo também), Filipe conseguiu deixar se levar pela diferenciação em repertórios e cair na mesmice que muitos cantores fazem: o de se deixar levar pela onda do pensamento próprio, ignorando seu início, seu meio e pondo um contraponto no final. Filipe Catto errou ao lançar um disco como Tomada (2015 / Radar Record / 28,99), em que foge do existencialismo de sua criação autoral para dividir canções com outros compositores competentes, mas que não estão na mesma pegada que o cantor gaúcho. A começar pelo título do disco, Tomada, tudo gira em torno de uma insignificância ímpar ao detonar seu lado artístico e derrubar seu equilíbrio musical sem pensar em seu lado empírico. Falta aqui um pouco de Fôlego (2011) e muito de Entre Cabelos, Olhos e Furacões (2013) para que Tomada soasse um pouco melhor. Sem contar o erro dramático de Filipe querer cantar as músicas de Cássia Eller em espetáculos Brasil a fora, o cantor parece ter tomado alguma coisa a mais em seu café da manhã para ter tantos erros e poucos acertos nos últimos trabalhos. Se muita gente se emocionou ao ver Catto cantando Cássia Eller, eu detestei: Filipe vestiu roupas anormais, touca estranha, cantou sem emoção e não mostrou nada de diferente para ninguém. Pelo contrário: se mostrou indiferente a cada apresentação e por sorte esse acontecimento não virou disco registrado. Vamos retornar à Tomada: o disco não é de todo ruim, mas não é um disco em que podemos parar para ouvir mais e mais e mais e que aos poucos se transforma em um disco com limitações e poucas vivências, sem muita empolgação e nostalgia e fraco para um cantor excelente, de gabarito e muito profundo.

Tomada (2015) / Filipe Catto
Nota 7
Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A irônia sem humor de Johnny Hooker


Johnny Hooker: imperfeito
Ainda que restem alguns cantores bons na música popular brasileira, alguns medíocres cismam em serem chamados de cantores pela mídia ou críticos da arte de cantar. Se o antigo causa um cansaço visual, musical ou atemporal para alguns, o novo causa uma sensação de frescor, jovialidade e desejo pelo que vai vir, pelo inesperado, pela desenvoltura. Mas nem sempre o que está no passado nos deixa com o ar cansado e nem sempre o novo nos causa uma sensação de alívio: muitas vezes o novo não nos surpreende, não nos detém aquela sensação de magia, de puro ar renovado, nem espanta com sua magnitude. Sim, pode causa espantamento pelo conjunto da obra, pela música inacabada, pela vestimenta, pela estranheza. E é justamente isso o que alguns críticos de música vêm fazendo atualmente: abortando muitos cantores bons e dando vida a muitos cantores sem fundamentos. Que a música brasileira sempre pediu socorro, isso sem dúvida todo mundo sabe, mas fazer com que a inteligência humana seja medíocre perante a intelectualidade crítica é padecer no inferno mais profundo do universo. O cantor, ator, compositor, diretor, artista e palhaço Johnny Hooker é de Recife e está sendo considerado um dos melhores cantores de sua geração, sendo ovacionado em casas lotadas e recebendo prêmios em que Maria Bethânia, Chico César e João Bosco já ganharam. O que causa estranheza nisso tudo é que Johnny Hooker não canta, não interpreta bem suas músicas e ironiza a todo custo com o sentimento alheio e isso faz com que a plateia entre em delírio constante, pois música que é bom, não há! Lançando Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015 / 27,99), Hooker se mostra imperfeito e desqualificado em sua função maior, que é o de cantar. Considerado como a categoria Rock Nacional, o cantor se perde em letras que buscam o surrealismo das coisas mais simples e elenca para a atmosfera carnal a revolta que o próprio sente dos amores que não deram certo em sua vida. Prova maior disso é o título irônico e vil de sua primeira obra musicada. Se levarmos em conta sua performance no palco, podemos dizer que ele pincelou um pouco de Ney Matogrosso, Maria Alcina e Itamar Assumpção e tentou utilizar a voz de Filipe Catto, cujo é uma das mais belas do momento. Agora pense tudo isso em Johnny Hooker: uma perfeita assimetria entre o ruim e o péssimo, entre aquele que ele desejou ser e não o é. Ney, Alcina, Catto e Itamar (em memória) são referência musical de qualidade e os comparar a Hooker é um grande erro, pois desmonta qualquer tipo e forma de musicalidade. A voz anasalada, a carência de personalidade e a falta de estrutura assistida de Hooker me causa uma revolta profunda, pois enquanto muitos cantores bons estão na estrada fazendo música do mais alto quilate, me surge um cantor medíocre, sem escrúpulos e sem competência para poder ser chamado de cantor.


Johnny Hooker
Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015)
Nota 0
Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Cinco cantores brasileiros!


Cinco cantores
Há muitos cantores brasileiros de gabarito personificado dentro da música popular brasileira de todos os tempos e esse mérito foi consagrado aqui mesmo no Mais Cultura Brasileira quando abordei os 10 maiores cantores dos últimos 10 anos dentro deste cenário. Não foi uma tarefa fácil, assim como não foi uma tarefa das mais difíceis, tendo em consideração o que esses cantores representavam (e ainda representam) dentro de um segmento linguístico, de forma representada e não de personalidade dentro de um conceito enquadrado, digno de uma singularidade plena de um estilo qualquer. Há muitos cantores bons, muitos esquecidos e muitos que precisam ser descobertos ainda, mas tive a audácia de selecionar, estudar e catalisar todos os maiores e melhores cantores das últimas décadas para uma seleta lista de dez, caindo para oito e fechando com cinco que, de fato, representam e aprimoram e enriquecem a nossa música nacional em um respeitado estilo musical qualificado por sonoridade, melodias e suas letras autorais. De cara e de olhos fechados, selecionei os cinco cantores, músicos e compositores que maior representatividade me orgulham pelo conjunto da obra e pelos vários discos lançados, cada qual com sua participação efusiva, cada qual com sua maneira de expressar sua arte e tendo uma sonoridade ímpar e autoral que distingue suas músicas dos cantores ditos populares. Nesse amplo caminho, Chico César é o cantor que, sem sombra de dúvidas, revela seu lado mais poético, mais singular e mais atemporal dentro de um sentimentalismo que tem por si só uma mistura de fina flor com arbustos dourados e metálicos em forma de glorificação e a prova disso é seu excelente disco atual, Estado de Poesia (2015). Ah, se todos fossem iguais ao Chico, quanta beleza a terra iria findar numa guloseima de sopa de letras e numa profusão de paródias letrais. Chico César, paraibano, poeta nato, cantor de sentimentos puros, olhar antenado e composição afinada. Alberto Salgado representa a ambiguidade masculina, retratando seu lado mais refinado dentro de um pantaleão de cores e objetos cortantes, que nos revelam notas dissonantes e versos sensacionais de calibre espinhal e arquitetônicos. Ah, Alberto, brasiliense, inquieto, sonhador, compositor dos mais inteligentes da atualidade e com um dos melhores discos de todos os tempos (Além do Quintal, 2014 ) Alberto é aquilo que a música brasileira de fato precisa: com um misto e legitimidade autoral incrível retratando a beleza da paisagem concreta e o dossal entre o singelo pluralismo abstrato em forma de desenho musicado, o cantor mostra o quão importante é a sua música para a atualidade numa forma coloquial, categorial e sincera. E o que dizer de Lenine, pernambucano, brejeiro, pensador sofisticado de palavras suaves, mas enorme salubridade sobre a vida, genioso e arteiro?  Lenine é o artista mais completo dentro de uma consistência musical harmoniosa, geniosa e lírica: sua música transcende aquilo que não possamos alcançar, o inatingível, o abstrato, o irreal que assola nossos poros, nossas artérias e o nosso ar vertical. É quase impossível não termos a sensação de que sua música é aquilo que ele mais nos representa: o homem na sua forma mais plena da sabedoria divina, do escárnio intelectual e da tenebrosa tempestade de versos histriônicos que repelem a uma dissecação de alegoria em forma de poesia. Zeca Baleiro é o cantor que representa a síntese do cantor popular que fala às multidões num gosto acelerado de riqueza nordestina, sendo ele mesmo um nordestino que consegue ater a atenção de todos por um simplório desejo musical. Se Zeca, maranhense, poeta inspirador, é um típico representante da comunidade e tem o poder de juntar gregos e troianos, isso requer dizer experimentar que ele é o fruto proibido entre a música regional e a música de seletivos críticos. De qualquer forma, seus discos nos fazem pensar na característica personalidade que o faz recitar poemas em letras tão melódicas e antissociais. São elementos essenciais para que Zeca componha de uma maneira difícil mas com o pensamento na realidade de todos os tempos. Enquanto todos seguem uma linha tênue entre o lirismo formal e fugindo da atmosfera platônica que envolve o homem e sua magnitude, Luiz Marques nos traz uma musicalidade em que o romantismo convencional ou reservado supere aquilo que falta em muitos (bons, medianos e ótimos) cantores: a do cantor popular sem ser caricato, buscando em suas letras e melodia a satisfação realista de sua beleza autoral, fazendo com que o seu intelectualismo nos permita transitar entre o belo e o cauto, entre Paris e Minas Gerais e entre a solidão masculina e a realização feminina num piscar de olhos. Esses arvoredos de sensações estão representados na maioria de suas belas canções, dentro daquilo que sugiro ser a mais pura forma de demonstrar o quão sensacional é a sua música. Ah, Luiz, mineiro, sonhador, pesquisador da boa música e merecedor de aplausos pelo espetacular CD Noite Azul (2015). Estar nesse patamar da música popular brasileira não é para qualquer cantor: é preciso muito mais que cantar e demonstrar sua arte! É preciso ter disciplina, ética e agarrar o ouvinte pelos ouvidos, pelos poros e pela alma. É ter a certeza de que sua música é fiel, verdadeira e que catalisa as pessoas pelo lado mais puro e doce, pelo lado mais concreto e real, pelo lado mais sereno e merecedor. Estar nessa criteriosa lista é estar entre os melhores da música contemporânea, é estar entre os melhores dos melhores e estar entre aqueles que sempre gosto de colocar: no topo mais alto da música. Alberto Salgado, Chico César, Lenine, Luiz Marques e Zeca Baleiro são os melhores cantores dos últimos anos, sem qualquer ponto de interrogação!

 

Cinco cantores brasileiros!
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por que sou crítico? Uma reflexão sobre a minha arte de criticar


A minha arte de criticar música
A minha função como crítico de música é o de criticar, patrocinar a divulgação de um cantor e estar atento às novidades que os mesmos produzem, seja ele ruim ou excelente, canhestro ou bom, atemporal ou desanimador, estimulador ou inquieto, arrogante ou cristalino. Enquanto houver cantoras e sejam elas boas, medianas, ruins ou excelentes, meu papel aqui é o de criticar. Critico porque há a necessidade plural de uma sinceridade justa dentro de um contexto ideológico e que muitos precisam saber. Há a benevolência de uma magnitude singular que persiste estar antenado com o que há de novo e o que há de antigo, mesmo lembrando que o antigo muitas vezes é melhor aguçado que o novo e que o novo é sempre possível de mudanças ou reparações. Pensando por outro lado, temos que pensar no futuro da música, no futuro das cantoras e dos cantores, no futuro de um estilo que fale a nossa língua, a nossa ética, a nossa relevância, o nosso amanhã. Qual será o destino do CD físico? Ele vai sobreviver por muito tempo? Podemos dizer com toda a certeza que o estilo A não comporta com o estilo D, que, por sua vez, está interligado com o estilo de vida da classe B, mas que possui características físicas da classe dominante Z, que, por outro lado, tem formas e estilos formais da classe oriunda que perpetua o universo C? Óbvio que não! Mas podemos ter uma ideia ou percepção daquilo que está por vir, tendo em vista o cenário da música brasileira atual. Chico Buarque, grande compositor de excelentes clássicos nacionais, disse recentemente que o cenário da música atual reflete o Brasil atual. Ele está coberto de razão: os grandes barões da música financiam o grande capitalismo cultural, fazendo com que a massa não venha intervir em seus negócios. Quando será que nascerá de novo um Pixinguinha, um Paulinho da Viola, uma Elis, uma Clara, uma Gal ou até mesmo Caetanos, Miltons e Djavans? A música atual pede socorro e não mais passagem, porque ela adentra em nossa casa sem ao menos pedir licença. Apenas invade. Invade nosso espaço, invade nosso cérebro, invade nossa paz. E muitos críticos de música acabam caindo ou se rendendo ao sistema burocrático da verba ilícita para ajudar a patrocinar esses estilos difundidos pelos quatro cantos do país. Ser crítico é ser persistente na melhoria de algo e, no meu caso, insisto na melhoria da música brasileira por um todo. Precisa-se ter ética, postura. Precisamos descobrir mais cantoras, sem esquecer as do século passado e incluindo as atuais. Precisamos de mais cantores de qualidade exorbitante, pensando na junção destes atuais com os antigos e com os que virão. Ser crítico é saber respeitar o outro, saber distinguir que o que ele lançou hoje pode ser bom, mas que amanhã pode ser melhorado. Ser crítico é estarmos com o coração nas mãos a procura de uma nova voz para que possamos compartilhar. Ser crítico é ter olhar e sentimentos verdadeiros. E ser verdadeiro é ser crítico. Por que escrevo isso para vocês? Porque recebi uns e-mails recentemente de leitores e amigos que falam que escrevo com sinceridade e certeza. E para vocês eu respondo: não preciso agradar a ninguém para ser crítico. Portanto, o cantor precisa ter o termômetro de uma pessoa crítica, progressista e que lhe faça dizer: não estou aqui para passar-lhe a mão na cabeça, mas sim para ajudar na qualidade musical do Brasil. E é por isso que insisto em criticar a música.

 

Por que sou crítico?
Uma reflexão sobre a minha arte de criticar.
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Virginia Rosa Canta Clara Nunes em bela homenagem


Virginia homenageia Clara Nunes
Não é qualquer cantora que pode se debruçar na obra intocável de Clara Nunes, uma das maiores e melhores cantoras da música popular brasileira de todos os tempos, porque Clara foi uma das percussoras do samba e uma das pioneiras que conseguiu ultrapassar os limites entre fronteiras com países bombardeados por guerra e preconceito. Várias foram as cantoras que tentaram fazer uma homenagem qualquer à Clara e várias delas morreram à mingua ou conseguiram um resultado satisfatório dentro de um parâmetro em que combinavam harmonia, singularidade e o melhor: musicalidade! É praticamente impossível invadir a obra imortalizada de Clara Nunes e são poucas as cantoras que conseguem fazer isso com maestria, dedicação e sofisticação. Essa cantora é Virgínia Rosa! Lançando o sexto CD de carreira, a cantora fez uma ampla pesquisa para poder ter um resultado (ultra) satisfatório para homenagear a grande dama do samba. Foram anos cantando Clara em shows para chegar a Virginia Rosa Canta Clara (2015 / Sesc SP / 24,99), em que a cantora paulistana faz um brilhante retrospecto sobre a música da mineira Clara. O resultado é envolvente e emocionante, ainda mais porque Virginia tem uma voz potente e que nos acaricia, nos embala e nos perpetua a sair sambando em qualquer lugar. Com uma capa sensacional, demostrando tanto a religião de Clara quanto as cores de sua escola de samba preferida, a Portela, Virginia Rosa nos saúda e nos brinda com o melhor da carreira de Clara, estando apta para ser ovacionada por quem não conhece seu trabalho e sendo a responsável por trazer a juventude atual os clássicos dessa grande artista. Em suma, são duas cantoras se completando sobre o trabalho da outra: Virginia, com seu brilhantismo e sua força musical, consegue sentir a presença onipresente de luz de Clara, nos dando a dimensão completa de uma emoção vocacionada pelo sentimento de vida, de música, de arte. Quem ouvir Virginia Rosa Canta Clara terá a certeza de que a música popular está a salva dos impropérios ouvidos hoje em dia e da enorme falta que ela nos faz. Não foi preciso um CD duplo para homenagear a grande Clara, muito menos reproduzir trechos emocionados de familiares, mas sim, cantar e encantar aquilo que ela fez em vida. Virginia conseguiu arrebatar não só os fãs de Clara, como soube valorizar cada respiração, cada momento emocionado, cada melodia, cada verso. Escolheu os melhores momentos de Clara em vida e pincelou as melhores canções. Era preciso um disco com essa magnitude nos dias de hoje, para que possamos ter a nítida certeza de que Clara ainda permanece viva e entre nós. Uma salva de palmas à Virginia Rosa que nos trouxe emoção, princípios e musicalidade com um disco a altura de seu talento.

 

Virginia Rosa Canta Clara (2015) / Virginia Rosa
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O mediano álbum Partir (2015), de Fabiana Cozza


Fabiana e seu disco novo: fraco
Fabiana Cozza é uma das cantoras mais respeitadas de todos os tempos dentro da música popular brasileira e nas rodas de samba de prestigio e categoria e seu nome hoje está associado às grandes damas da música nacional, estando ao lado de bambas como Clara Nunes, Alcione e Dona Ivone Lara. A cada disco lançado, Cozza tem uma inspiração nova, um motivo que a leve a cantar mais e melhor e com seu novo lançamento não fora diferente. A inspiração desta vez é a Bahia de todos os santos, solo por onde aportaram os primeiros navios negreiros no Brasil. Partir (2015 / Trattore / 29,00) não é o melhor disco de carreira de Fabiana, mas é o CD que mais se aproxima de sua religião, de sua encantadora fé e de sua respeitada vida. São ao todo 14 faixas embaladas por canções de todos os tipos de reza e oferenda e a voz de Cozza impera quase que triunfal por toda a atmosfera que o álbum exige. O álbum faz com que Fabiana transporte o ouvinte da África à Bahia num piscar de olhos, com suas danças, rodas e cantigas que ressalta a levada do Recôncavo Baiano até a nota mais importante de todo o lirismo saudosista que perpetua o disco. Mesmo com o aval de Maria Bethânia saudando o álbum como sendo um disco da maior competência de todos os tempos, tendo uma cantora com a voz lisa e clara, reconheço que há falhas redundantes neste, que poderia ser o melhor disco, de fato, da carreira de Fabiana Cozza (o melhor ainda é Quando o Céu Clarear, lançado em 2009). Buscando na evocação da ancestralidade africana o seu porto seguro (Clara Nunes sempre fizera isso em discos memoráveis), Cozza tentou rebuscar nas canções a sofisticação em um repertório simples para uma causa nobre: errou ao tentar fazer um disco surpreendente e fazendo deste momento um rechaçado canto superior de seu talento. Sem falar na capa, com um misto de tristeza fúnebre com um olhar perdido, olhando o nada, o vazio, o irreconhecível. Partir tem sons sutis, suaves, joviais e talvez esse seja o diferencial na carreira de Fabiana, que já vinha em outros discos explorando mais seu lado teatral com dosagem de uma grande voz. Mesmo não havendo lugares-comuns em algumas canções, Partir merece um pouco de atenção nas faixas Chicala (João Cavalcanti) e Entre o Mangue e o Mar (Alzira E. / Arruda), mas ressalvo: Partir não é o melhor disco de Fabiana Cozza, muito menos entrará na categoria de melhores discos do ano de 2015.


Partir (2015), o novo disco de Fabiana Cozza
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Johnny Alf Entre Amigos (2011)

Alf, um mestre brasileiro
Um pouco antes de morrer, vi Johnny Alf passar por mim no cruzamento das ruas Vieira de Carvalho e Aurora, no Centro Velho de São Paulo e fiquei com um misto de espanto com admiração e cutuquei meu amigo e disse: é o cara! Ele entrou em um bar com o que parecia ser seu irmão mais velho e o vi sumir. Um breve tempo depois veio a notícia de que Johnny Alf estava morto. E para tornar a minha angustia ainda maior, o cantor e compositor veio falecer um dia depois do meu aniversário, 04 de março do ano de 2010. Sendo um dos compositores mais prestigiados de todos os tempos, Johnny deixou sua marca dentro da MPB como sendo um cantor de enorme carisma e de uma sintonia fina entre seu piano e seu dom de compor o amor. A música de Johnny é como um antidoto que nos desperta para uma melodia sem fim de musicalidade brasileira que precisa urgentemente ser ouvida e esmiuçada por aqueles que ainda não entenderam que o Brasil foi feito por músicos de verdade. Johnny Alf era (e é!) um dos músicos mais respeitáveis deste mundo e seu ponto crucial foi batizado em discos que hoje tornaram-se raros, com epítetos de colecionador e mais valorizado fora que dentro de seu país de origem. Ao longo de sua carreira artística fez diversos amigos, verdadeiros,  cúmplices, reais e que lhe transportaram para mundos tão díspares e atemporais que é quase impossível não dizer que ele fora de fato o pai e mentor da Bossa Nova. Há profundidades em sua música. Há riqueza de detalhes em suas composições. E é tão bela quanto suas notas. Apesar do enredamento harmônico de imensa categoria, tudo soa como algo que não podia ser de outro modo, por isso apesar de tão elaborada, soa natural, mais natural do que nunca. Há amor na música de Alf, assim como há paixão, há brasilidade, há bossanovismo e há verdades. E, para ser sincero, gosto da verdade musical de Alf, gosto da brasilidade atemporal das cores musicais de Alf, gosto da beleza que ronda a atmosfera de Alf e gosto daquilo que invadia a alma do compositor como uma forma única de expressar seu lado discreto de mostrar seu lado poeta. Prova de tudo isso foi o lançamento da caixa  Johnny Alf Entre Amigos (2011 / 28,99), que reúne um verdadeiro arsenal artístico que dividiram os vocais com o grande cantor em algum momento de sua vida. Essa caixa é dividida em três CDs, que fazem uma justa homenagem a Alf, como forma de homenagear esse mestre, quase desconhecido do grande público mas com uma obra bastante significativa. Entre eles estão Leila Pinheiro, Joyce Moreno, Cida Moreira, Wanderléa, Alaíde Costa, Toquinho e Filó Machado. Um CD que precisa estar no pedestal reverenciando um dos artistas mais complexos, mais amorosos e mais humildes da música popular brasileira. Johnny Alf.
 
Johnny Alf Entre Amigos (2011)
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 24 de outubro de 2015

A hora e a vez de MC Gaspar


 
 
 
O Rap é um dos movimentos que mais traduz a periferia brasileira e em todos os lugares dos quatro cantos deste país. Através de seu grito de alerta, muitos periféricos e moradores de comunidades diversas se sentem protegidos com o estilo de música que cantam, com o estilo de vida de levam e com o orgulho que sentem ao dizerem que pertencem ao movimento. Mesmo sendo um estilo musical tido como marginalizado, criminalizado, música de preto e favelado, o Rap é um dos movimentos mais respeitados dentro da música popular brasileira, sendo um dos estilos mais próprios e organizados de todos os tempos. O pobre, negro e favelado que veem em suas letras como um mantra, se sentem protegidos com as rimas compassadas e com os trejeitos que seus líderes adornam quando cantam. As vestimentas são referências únicas, capazes de demonstrar que são diferenciados, únicos e detentores de uma marca musical que por mais que pareça segregada de outras, é um meio de defesa para dizerem que estão ali prontos para entoar uma rima em defesa do pobre, do negro, do favelado. Com críticas pesadas a diversos temas como a religião, a polícia e o mundo que os cerca, o cantor Gaspar lidera um dos grupos de Rap mais populares da zona sul de São Paulo, sendo considerado um dos ícones e precursores do movimento, com discos lançados à espreita de consagração e sendo um dos cantores do movimento mais respeitado de todos os tempos. Homenageando a África e a comunidade negra brasileira, o nome do grupo surgiu como proposta a simbolizar o Z de Zumbi dos Palmares, líder e ícone da resistência negra no Brasil. MC Gaspar é o líder absoluto desse grupo, que passou a ser visto com bons olhos por cantores do naipe de Zeca Baleiro, Céu e Emicida. Depois de 20 anos a frente do grupo que ajudou a fundar, o cantor MC Gaspar agora canta solo e lançou este ano o CD Rapsicordélico (2015 / 26,99), sendo um dos mais significativos e alternativos discos de Rap brasileiro. Há um grito de misericórdia neste CD, uma luta incessante pela democratização da música preta e uma sincronização entre Gaspar e os periféricos deste país. MC Gaspar é um arroubo de musicalidade, de personalidade, de esfinge atemporal que busca na cor escura o seu próprio grito alucinante: ele, branco, de olhos claros, se junta aos pretos para cantar pra eles e com eles. MC Gaspar é o cantor mais nobre de todos os tempos dentro do segmento musical do Rap, dando a cara a tapa para se consolidar entre os maiorais da música preta e periférica de um Brasil sem dono.

 

A hora e a vez de MC Gaspar
Por Marcelo Teixeira

                              

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A decadência moral de Joelma


A moral do ostracismo
Já vinha batendo numa mesma tecla desde quando a banda Calypso surgiu no cenário musical brasileiro: uma cantora fajuta, uma banda insossa e umas músicas bregas que não remetia em nada e a ninguém. A banda Calypso fora um grande sucesso dentro do Brasil e no Nordeste brasileiro pelo simples fato de ser uma banda pobre e sem graça e ao mesmo tempo uma banda que tinha uma cantora loura rebolando sem parar num palco qualquer e desafinando a todo momento suas músicas esdruxulas e sem conteúdo. Sim, Joelma é aquilo que representa as massas cinzentas menos favorecidas de conhecimentos, aquela aberração que sempre intimida o novo, uma cantora de baixo teor que explora o sentimento alheio com seus sentimentalismos fracos e redundantes. Pretendo não me estender tanto nesse artigo, pois não tenho mais argumentos para dizer que a pior cantora do Brasil trata-se de Joelma (e não vou atribuir todo o desprestigio a sua banda, pois os músicos não fazem parte desta semente embrionária), uma cantora que tentou monopolizar seus seguidores com pensamentos femininos, choradeira no palco e, agora, agressões verbais para com seu ex marido. Quem provocou o ostracismo da banda Calyspo fora a própria Joelma que, com seu humor negro, faz seu público agredir fisicamente Chimbinha, músico de quem gosto e aprecio por ser como ele é: autêntico e excelente guitarrista. Se tem uma pessoa que deveria colocar a mão na consciência e perceber todo o mal que fez às pessoas que estão ao seu redor, essa pessoa é a própria Joelma, que não percebe que faz um mal tremendo tanto para a sociedade quanto para a humanidade. Mas vamos lá: desde o início da banda Calypso, a cantora Joelma vêm recebendo críticas pela sua postura fora e dentro dos holofotes. Joelma é uma mãe que não gosta da filha, tornou-se evangélica e passou a perseguir os gays, destruiu seu casamento e fez com que o público virasse as costas para seu ex marido. Oras, se isso são assuntos pessoais, por que não trata-los em casa? Joelma assina um documento fatal em sua carreira ao silenciar a boca de Chimbinha e dizer publicamente que a lua a traiu, numa alusão ao seu ex companheiro. Suas danças de saias curtas agora passam a ser de calças longas, cabelos comportados e maquilagem menos carregada, dando a entender que a banda está a um passo do desaparecimento total. Óbvio que serei atacado mais uma vez por fãs enlouquecidos e por pessoas que idolatram a artista (?), mas vamos pôr os pingos nos is aqui: Joelma está estragando não apenas sua carreira musical, como pondo em risco a música popular brasileira com seus insultos e gestos sentimentais e, para complicar, contra-atacando seu lado feminino ao tentar se igualar à outras mulheres. Isso é um erro fatal para ela, que faz questão de ser vítima num momento em que tinha que ser mulher de verdade. Sua música não irá ser merecedora de qualquer ato político, muito menos de atos contra a moralidade de traições. Vamos ao exemplos mais reais: quando Marieta Severo resolveu se separar de Chico Buarque por uma suposta traição, os dois se trancaram num quarto e resolveram suas pendências. Ao abrir a porta, estavam rompendo uma separação de trinta anos. Marieta calou-se. Chico compôs a bela música Renata Maria numa alusão a suposta traição. Ambos são amigos, pais de belas e talentosas filhas. A mídia calou-se. E hoje quase não se fala mais nisso, até mesmo porque Marieta colocou sua profissão de atriz em um patamar ainda maior e Chico usou seu lado musical como primazia máxima. Quem ganhou a batalha foram os fãs de ambos artistas. No caso de Joelma e Chimbinha quem perde é aquele que mais contribuiu com seus sucessos: o fã. E é o mesmo fã que agride, bate, verbaliza e ironiza o outro. Essa foi a lição deixada pela banda Calyspo em seu tempo de existência: que a traição, para ser bem civilizada, precisa do apoio de todos para ser consentida. E sua música? Por onde anda?

 

A decadência moral de Joelma
Por Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O lado B de Erasmo Carlos


Erasmo é rei no lugar do verdadeiro rei
Erasmo Carlos é um dos cantores mais populares do Brasil e o compositor que mais sucessos deu a Roberto Carlos nesses anos de musicalidade dividida entre os dois e para com o público. Se fossemos levar ao pé da letra, Erasmo é muito mais rei que o próprio rei Roberto, porque Erasmo é um cantor popular, de extrema timidez e de profunda simpatia com seu público cativo. Podemos levar em consideração também o fato de Erasmo atrair os jovens de hoje em dia em seus shows, cantando músicas antigas e novas e podendo demonstrar o quão argiloso e competente és em seu ofício. Sim, Erasmo é um cantor por excelência, um mestre em dominar os palcos, um sábio professor da magia musical e um conhecedor sistêmico da alma feminina. Dominação total sobre tudo e sobre todos, Erasmo deu um show à parte no Rock in Rio 30 Anos (2015) com seu brilhantismo roqueiro e sua altura galopante. Quem o assistiu ali no palco e pela televisão, pôde constatar a consagração de um monstro sagrado da música popular brasileira chamado Erasmo Carlos, que fez o público delirar, dançar, pular, chorar, se emocionar e cantar suas músicas com emoção e sentimentos profundos. Erasmo lançou este ano um disco que chamou a atenção do grande público em geral pela descrição que o mesmo fez sobre seu novo trabalho: o seu lado menos conhecido musicalmente. O cantor pincelou músicas que foram musicadas e que quase ninguém deu valor ou músicas que ele engavetou por diversos motivos. Eis agora que o fã mais que fã do cantor e o jovem admirador de Erasmo poderá desfrutar de Meus Lados B (2015 / Coqueiro Verde / 26,99), um disco autoral que mostra a versatilidade do Tremendão em todas as suas esferas. A aversão maior agora é abrir mão de uma vasta coleção de clássicos e mirar em seu repertorio em resgatar músicas menos conhecidas. O disco é completo e vale a pena ouvir cada faixa como se fosse a última, porque tudo soa como novo na voz de Erasmo. O formato é sensacional e bem caprichado e com um resultado perfeito, fazendo com que cada canção seja complemento da anterior. Sendo um dos melhores momentos do cantor, vale muito a pena ter um disco como este em casa, pelo simples fato do reconhecimento de Erasmo com suas músicas que tiveram pouco ou nenhum sucesso em alguma parte de sua carreira musical. Há várias surpresas, como Paralelas (Belchior), que fora lançada por Vanusa, De Noite na Cama (Caetano Veloso), grande sucesso na voz de Marisa Monte, Queremos Saber (Gilberto Gil), que ficu mais conhecida com Cássia Eller e até Gonzaguinha (Nunca Pare de Sonhar), entre outras. Erasmo mantém sua juventude de alma roqueira e coração de grande músico. Sem estrelismos e sabendo de sua importância dentro da música nacional, cismo em dizer que o verdadeiro rei da MPB é ninguém menos que o próprio Erasmo Carlos.

 

Meus Lados B / Erasmo Carlos
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 3 de outubro de 2015

O desespero de Ângela Ro Ro


Desespero ou desesperada?
Não há como negar a existência de Ângela Ro Ro na música popular brasileira, assim como não há que negar seus escândalos e suas aventuras amorosas e suas amizades esdruxulas. Ângela é uma cantora de peso, com sucessos gravados e regravados por diversos nomes de categoria refinada e que merece destaque quando falamos de música de qualidade ou de cantoras que lutaram pela inclusão da mulher na seara dominada por homens. É bem verdade que seus escândalos amorosos com a cantora Zizi Possi tornaram sua vida pública ainda mais saborosa, fazendo com que sua música ficasse em segundo plano, impossibilitando a cantora de ser uma referência musical nos dias de hoje. Antes mesmo de escrever este artigo emergencial, saí às ruas (adoro fazer isso) para perguntar quem conhecia a cantora e dez entre oito pessoas jovens não sabiam de sua existência. Ângela está esquecida do grande público, não tem gravadora, não tem patrocinador, não tem plateia e não tem fãs, porque estes debandaram para a nova safra de cantoras ou migraram para outros nomes de pesos que preferem lançar discos cada vez mais autênticos, rebuscados e completos. Mas Ângela é daqueles tipos de cantoras que não levam desaforos para casa, não tolera a intolerância do outro, não usa o modernismo para se proclamar como a detentora do saber, não aceita modismos, não acata a rivalidade, mas quando entra na briga ela sabe que é pra ganhar. Recentemente a cantora se envolveu em mais uma polêmica, humilhando fãs, rebaixando funcionários do teatro, agredindo a quem estava lhe assistindo e, para piorar a situação, revidou aos insultos que estava sendo acometida. Ângela errou apenas em uma coisa neste episódio: denegrir a imagem do Ceará, um dos cartões postais mais belos do Nordeste e se auto afirmando ser uma cópia original carioca. Tudo bem que a cantora não precisa de público para ir aos seus shows, não precisa mais provar a ninguém que sabe fazer música de qualidade e não precisa mais estar entre as grandes cantoras para estar no auge de um sucesso, mas a mesma não consegue ficar longe de um holofote. Chega a ser vergonhoso senão pecaminoso seus versos filosóficos neste lamentável caso, em que a integridade moral de uma senhora de cabelos brancos deixa transpassar para todos aqueles que a estimam. Humilhar fãs não é caráter de nenhum artista, ainda mais quando este fã é jovem e que está dedilhando em poder conhecer sua carreira. Humilhar fãs não é caráter de um artista que trilhou um caminho de longa estrada para se chegar nesse ponto da vida e se ver desesperada com tal situação. Se em 2002 a cantora lançou um dos melhores discos do ano com o sensacional Acertei no Milênio e recentemente a cantora voltou às paradas de sucesso com Compasso, sendo muito executado nas rádios de todo o Brasil, a mesma Ângela que um dia cantou Amor, Meu Louco Amor e recusou de Cazuza a música Malandragem (cantada brilhantemente por Cássia Eller) se rende a histeria do desespero compassado com a tristeza de um abismo profundo.


O desespero de Ângela Ro Ro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar: uma bela homenagem


Bela homenagem
Nonato Buzar morreu em fevereiro do ano passado e deixou uma legião de canções imortalizadas nas vozes de Elis Regina, Maysa, Jair Rodrigues, Nana Caymmi, João Nogueira, Alcione e tantas outras personalidades importantes da nossa música nacional. Pouco se fala no cantor e compositor maranhense hoje em dia e muito de sua obra acabou sendo esquecida. Nenhum cantor ou cantora se debruçou para dedicar um disco inteiramente ao cancioneiro de Nonato e a cantora Sandra Duailibe, conterrânea de Nonato, teve a brilhante ideia em fazer jus às músicas desse grande artista brasileiro. Sandra Duailibe canta Nonato Buzar (2015 / 24,99) é um disco sensacional, com uma qualidade incrível na seleção de músicas e com a voz cristalina da cantora, que canta mais e melhor neste belo disco. Quinto disco da carreira de Sandra, esse tem um diferencial: além de ser um disco em forma de homenagem, a cantora transpassa uma energia positiva tão animadora, que fica difícil não dizer que Nonato está tendo essa felicidade também no plano de cima. As músicas selecionadas aqui rechaçam a ideia da capacidade poética e magnifica de Nonato, que conseguia transmitir beleza e garra, sensualidade e sofisticação, harmonia e fina flor. Sandra é uma das damas da música popular brasileira e sua voz cristalina é uma rica e poderosa arma a favor de sua musicalidade. Precisamos ouvir Sandra Duailibe, precisamos conhecer seu talento, seu trabalho, sua forma de expressar a qualidade de sua música. Seu mais novo CD é a articulação viva e real de que a música popular tem qualidade, tem um propósito, uma significação e uma reza.

 

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar / Sandra Duailibe
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Luiz Marques lança Noite Azul (2015): um dos melhores discos do ano


Luiz Marques e a excelência no cantar
A música tem seus horizontes, suas profundezas, seus mistérios, suas sutilezas, seus meandros e seus prazeres, portanto, podemos senti-la como num todo, com seus aspectos característicos, sua delicadeza e sua simplicidade. O som que vem de Minas Gerais é um som puro, angelical, sentimental, sincero e dentro deste canto soa uma das melhores e mais bem aguçadas vozes: Luiz Marques é um cantor moderno, autoral, perspicaz e autêntico. Sua música é como um mantra, que adentra em nossa alma e esquecemos do mundo real, patético e irrisório. Sua voz é de uma delicadeza ímpar, capaz de nos hipnotizar, nos catalisar e nos intimar para que possamos ouvir mais e mais e mais. Dificilmente um cantor consegue me arrebatar tanto como Luiz Marques. Lançando Noite Azul (Luma / 24,00 / 2015), o cantor prova que realmente é um dos raros cantores que conseguem ser digno de sua profissão: Luiz sabe o que faz e gosta do que faz. Sendo todas as composições de sua autoria, o cantor lança seu quinto álbum em um clima de muita expectativa e recheado de sabores mineiros. Sua sonoridade é tão preciosa, que não damos margem para que ela se acabe. O regionalismo se faz presente em algumas faixas (como em Meu Quintal), assim como o romantismo, que é a marca registrada do cantor, perpassa em canções como A Luz de Lyon, Mistério e Paixão e a sensacional Redemoinho. Posso dizer com propriedade de causa que Noite Azul é um dos melhores discos do ano e, de quebra, o melhor da carreira de Luiz Marques, que conseguiu segregar este dos outros álbuns lançados, tendo uma parcimônia nas melodias e sabendo usar as letras a favor de seu tempo. Há muita singeleza escondida em cada canção e que pode ser explorada quando ouvimos com delicadeza faixa a faixa do disco. E é justamente disso que o povo brasileiro precisa: de discos mais rebuscados, mais suaves, com mensagens que nos inspiram e nos direcionam a um lugar comum e isso Luiz Marques o faz com uma maestria incrível. Todas as músicas deste belo álbum se complementam e se alternam entre o intocável e o real. As músicas são orquestradas numa qualificação única entre a essência da sintonia com o elogio da eloquência divina. Há arroubos de saberes nas canções de Luiz Marques e essa expressão significativa está sublinhada aqui, entre o imperceptível e o sensível. As canções de Noite Azul são de uma primazia sem igual: aqui há um jogo de situações que nos faz pensar em lugares por onde gostaríamos de estar ou em amores que esquecemos lá atrás, num passado não tão distante assim. Pelo conjunto da obra e pelo excelente cantor que é, Noite Azul merece todos os ouvidos, todas as palmas e todos os méritos por ter lançado um disco tão caprichado, tão harmonioso e com uma qualidade sensacional. Nos dias de hoje, com tanta aberração musical, não há nada melhor do que ouvir um dos melhores CDs do ano de 2015, na voz imaculada de um dos maiores cantores do Brasil (que precisa ser (re)descoberto), Luiz Marques.

 

Noite Azul (2015) / Luiz Marques
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A loucura de Lupicínio Rodrigues por Adriana Calcanhotto (2015)

 

A loucura de Lupicínio por Adriana
Antes de iniciar este artigo, gostaria de te perguntar: você conhece a obra de Lupicínio Rodrigues? Já ouviu falar no cantor? Conhece alguma música dele? Na certa, não. Pode ser que tenha ouvido falar sobre ele aqui ou ali, mas nunca se atentou em tentar decifrar quem fora Lupicínio Rodrigues. Poucos o fizeram e poucos conhecem seu trabalho. Talvez suas músicas mais famosas sejam Nunca (cantada magistralmente por Zizi Possi), Cadeira Vazia (imortalizada na voz e na teatralidade de Elis Regina) e Felicidade (cantada quase na forma poética pelo próprio Lupicínio). Essa é a grande chance de poder conhecer um pouco mais sobre a obra intimista deste que foi o pioneiro na arte de cantar as dores e as incertezas do coração.  Elza Soares e Gal Costa bem que tentaram, mas foi Adriana Calcanhotto quem acertou no ponto ao trazer em CD o melhor do repertório deste cantor e compositor gaúcho, que conseguiu ser um dos compositores boêmios de maior prestígio dentro da música popular brasileira. Mas o que muitos deveriam fazer assim que comprarem Loucura (2015 / Sony Music / 24,99) é correr para saber que as músicas aqui cantadas não pertencem ao mundo de amores perdidos e corações amargurados vividos por Adriana, mas sim, de amores loucos e doentios vividos ou imaginados por Lupicínio. Vamos deixar uma coisa bem explicada ao fã de primeira viagem: Loucura é um registro em que Adriana cede seu lado atriz para interpretar canções de outro compositor. Lupicínio nasceu em 1934 e morreu em 1974, mas quase ninguém hoje em dia se atenta em querer regravar suas músicas e dedicar um álbum inteiramente a ele é arriscar alto para perder muito, pois o mercado fonográfico requer uma demanda muito crescente, mas com pouca qualidade. O que se vê em Loucura é algo totalmente inverso: Adriana causa arrepios furtivos em momentos delicados com sua densa e atemporal interpretação para músicas como Felicidade (1947), Volta (1957), Vingança (1951) e Homenagem (1961). Se estivesse vivo, Lupicínio estaria completando 101 anos de vida e esta homenagem é a mais justa de todas, pois há envolvimento mutuo entre o homenageado e a cantora. E ninguém melhor que Adriana para dar-te um exemplo de ajudar o público a reconhecer o talento de Lupicínio: assim como o cantor, Adriana também é gaúcha. Loucura surge em um momento maravilhoso no cenário musical e dentro da carreira de Adriana, que destila um verdadeiro arsenal de emoções cantando as dores, as emoções e os sentimentos vazios de um homem chamado Lupicínio.


Loucura (2015) / Adriana Calcanhotto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Zeca Baleiro revive Zé Ramalho em CD duvidoso


Um disco comum
2015 foi o ano das homenagens feitas de cantores da nova safra por cantores de outras gerações. Depois de Adriana Calcanhotto lançar álbum homenageando Lupicínio Rodrigues, agora é a vez de Zeca Baleiro dedicar uma justa adequação em forma de música para o cantor Zé Ramalho, que nunca recebera homenagens em discos completos. Não chega a ser o grande lançamento do ano, muito menos fará deste disco ser o melhor da carreira emblemática de Zeca, mas vale a pena ouvir as já manjadas canções do cantor paraibano cantadas aqui pelo cantor e compositor maranhense. Algumas regravações ficaram boas, casos de Chão de Giz e Eternas Ondas, mas outras, como o mega sucesso Avohai e Táxi Boy, ficaram suspensas no ar, com aquele clima de consternação musical. A capa do álbum é simples, negra e com a imagem de Zeca ao lado, mas a atmosfera do disco não atrai muito e, quando se trata em homenagens (ainda mais quando o homenageado está vivo!), o resultado deveria sair melhor que o esperado. Neste caso, esperamos muito de Zeca para pouco resultado, porque as canções cantadas por ele não soam com a mesma empatia e elegância que o dono das canções nos transpassam. Zeca uniu um repertório já manjado em que todas as letras são muito conhecidas do grande público, mas infelizmente não teve o preparo de fazer um grande disco. Mesmo assim, fica registrado um trabalho que merece respeito pelo fato de que todos os cantores reverenciam a obra e a pessoa de Zé Ramalho, mas ninguém ousou em dedicar um trabalho inteiro sobre ele. Em seu décimo quinto álbum, Zeca parece se equilibrar entre aquilo que quer lançar e aquilo que acha que vai dar certo, tanto que o cantor deixou de ser ponto forte nas composições que cria para dar ênfase total a composições de outros cantores (isso já vem ocorrendo com certa frequência na carreira do cantor). Meio rock pesado com som leve, misturado a guitarras, violão, banjo e acordeom, Chão de Giz (2015 / Som Livre / 24,99) é um disco que merece atenção mais pela ousadia que pela voz de quem o canta. Calma! Não estou aqui denegrindo a imagem de Zeca Baleiro, mas acontece que o disco é mediano, pouco convincente e muito comercial. O fã de Zeca poderá se assustar com o resultado, mas o fã de primeira viagem poderá adorar o resultado. No meu caso, que estou acostumado com o Zeca dos tempos de vacas secas de início de carreira, prefiro me contentar em acreditar que ele voltará a ser um dia tão musical quanto popularesco.
 

 
Chão de Giz (2015) / Zeca Baleiro
Nota 8
Marcelo Teixeira

domingo, 23 de agosto de 2015

1980 foi o ano de Rita Lee?

Rita é Lee
1980 foi o ano de Rita Lee, mesmo tendo como concorrente grandes cantoras da categoria de Maria Bethânia, Gal Costa, Alcione, Clara Nunes, Elis Regina. Detentora única do rock brasileiro, Rita Lee já demonstrava que seus discos seguintes seriam pautados dentro de um segmento voltado para a ironia fina de um humor rebuscado, colocando em prática toda a sua sagacidade espontânea que a consagrou como artista. Rita Lee lançou um disco longe de ser intelectualizado demais, correto demais ou puritano demais: esse é um dos melhores e mais preciosos discos de toda a carreira da já considerada Rainha do Rock Nacional. Desfilando um enxoval de sucessos, como Baila Comigo, Nem Luxo Nem Lixo, Caso Sério, o disco, que vem como título o nome e sobrenome da cantora, também é popularmente conhecido como Lança Perfume, música que abre o álbum. Cantando maravilhosamente bem, o álbum Rita Lee (1980 / Som Livre / 29,99) alçou a carreira da cantora para a Europa e a América do Norte, fazendo com que a cantora adentrasse definitivamente no showbizz como uma das compositoras mais influentes daquele ano. Mas é correto eu afirmar que o ano de 1980 fora realmente de Rita Lee? Óbvio que esse questionamento é errado em ser afirmado por qualquer crítico de música, mas vale lembrar que Rita lançou um disco que não continha apenas um ou outro sucesso, mas sim, todas as faixas foram cantadas e recantadas por todas as faixas etárias, sendo uma epopeia de musicalidade de boa categoria de uma expoente do rock. Se em 1978 Rita veio com Babilônia, disco que trouxe poucas melodias ditas ótimas, Rita Lee trouxe um desfiladeiro de eternas canções, que ainda hoje, mais de trinta anos depois de seu lançamento oficial, continuam na boca do povo com um ar de saudosismo. Aquele ano de 1980 estava revolto: Elis não tinha lançado um bom disco, Clara Nunes estava em festa com seu álbum, Gal Costa brilhava com sua voz cristalina, Maria Bethânia lotava os teatros nacionais, João Figueiredo era o Presidente do Brasil, Chico Buarque enlouquecia a todos com a Geni e o Zepelin, o cantor Raimundo Fagner conseguira se desligar do Ceará e ganhar o Brasil por inteiro e Rita Lee lançava o disco que revolucionaria seu mundo e o mundo de muita gente.  A turnê Lança Perfume lotou as casas de shows do Brasil e sua música ficara mais rica e mais autoral. Sendo assim, Rita passou a ser pertencente a um grupo em que a boa música pediria passagem e entraria definitivamente para o rol das grandes artistas nacionais. Todos os anos são os anos de Rita, mas 1980 foi o seu ano, com um disco sensacional e que não pode ficar fora da coleção de qualquer colecionador ou amante da MPB e do Rock Brasileiro. E é por esse motivo que Rita é Lee.
Rita Lee (1980) / Rita Lee
Nota 10
Marcelo Teixeira