sábado, 18 de março de 2017

Disco (2013) de Arnaldo Antunes é um grande disco poético


O disco de Arnaldo
Não é de hoje que venho alimentando o desejo de escrever sobre Arnaldo Antunes e de poder dizer que o cantor e compositor se sobressai melhor em carreira solo do que com a banda Titãs. Isso fica claro e evidente em seus discos autorais e em músicas que a banda recusou, colocando o grande artista em destaque inferior (assim como fizeram com Nando Reis, ex titã). Arnaldo já passeou por todos os estilos musicais e por todas as esferas, que fica quase impossível dizer que não tenha sido explorador de alguma categoria musical. Grande poeta que consegue transpassar para a música o seu recado, Arnaldo vêm de uma veia roqueira com o coração manso, passando pelo mundo infantil (Pequeno Cidadão) até chegar os sensacionais e líricos Qualquer (2006) e Iê Iê Iê (2009). Pelo conjunto da obra e pela sofisticação territorial que conseguiu alcançar, o músico chegou à sua extensão poética de qualidade ímpar e solitária com o disco que chega a ser o ápice de sua carreira: Disco (2013 / Rosa Celeste / 27,99). Mas por que esse disco é tão bom assim? O que têm de tão especial que os outros discos dele não têm? Disco é simplesmente o resumo categórico de vinte anos que podaram a inteligência monumental de sua existência física e mental. A métrica simples que foi incorporada a todo o momento de forma única é o que marca a simetria de Disco, uma obra que praticamente nasceu pronta, mas que ficara guardada por muitos anos, em um simbolismo cultural arcaico perante os olhos de uns e sentimental e puro perante os olhos do autor principal. Tudo aqui soa muito simples, muito calmo e muito lúdico e, por esse motivo, Disco acaba sendo um disco atemporal, lírico e sincero.

 

Disco (2013) / Arnaldo Antunes
Nota 9
Marcelo Teixeira

 

 

sábado, 11 de março de 2017

Olívia Gênesi canta Chico Science


Olívia: grande cantora
Se estivesse vivo, Chico Science estaria completando agora no dia 13 de março, 51 anos, mas o Brasil acaba de completar no dia 02 de fevereiro, exatos 20 anos de sua partida. Pernambucano, Chico Science era um dos músicos mais completos de seu tempo e tendo a evolução à sua frente, com uma capacidade incrível de juntar ritmos, tocar instrumentos diversos dentro de uma mesma melodia e criar o Movimento Mangue Beat, ainda na década de 1990. Mesmo tendo uma carreira meteórica, o cantor e compositor teve dois discos gravados, turnês mundiais, crítica a seu favor, uma profusão de ideias na cabeça, amigos e músicos que se rendiam ao seu talento ímpar. Muitos cantaram Chico Science, mas poucos de fato reconheceram nele seu real significado. Chico era um artista tão completo que poucos conseguiam desvendar seu lado atemporal e essa atemporalidade permitiu que muitos cantores não ultrapassassem a linha horizontal entre o que de fato Science queria dizer com as letras de sua música como não chegaram ao ápice de uma verdade absoluta. O fato é que para cantar e representar dignamente a obra de Chico Science é preciso uma explosão de sentimentos provocados pelo próprio Science.  Pertencente a uma mesma cultura e homenageando o artista, a multi-instrumentista, cantora e compositora Olivia Gênesi vem desenvolvendo um projeto em que canta seus maiores sucessos, como A Cidade, A Praieira, Manguetown e as menos conhecidas do grande publico, como Maracatu de Tiro Certeiro, Samba Makossa e Cidadão do Mundo.  Olivia é uma expoente da boa música brasileira e está no projeto Manguebeat 20 Anos sem Chico Science, em que traz à tona toda a riqueza de detalhes do Mangue para o palco de forma acalorada, acústica e rica, dando uma remodelada nas músicas, com muito lirismo e muita poesia, dentro do contexto de Science. Vale ressaltar os belíssimos figurinos tanto de palco quanto de roupagem dos artistas que seguem a cantora, Bruno Balan (percuteria) e Fabio Dregs (guitarra). Olivia brilha no piano e na voz. Vale muito a pena ver a performance de uma artista como Olivia homenagear o artista único que foi Chico Science.
 
 

 

Olivia Gênesi canta Chico Science
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 4 de março de 2017

A obra-prima de Eduardo Gudin


Obra-prima de Gudin
Se fosse apenas pela interpretação de Eduardo Gudin, Um Jeito de Fazer Samba (2007 / Dabliú Discos / 26,99) já seria um disco e tanto independentemente de sua categoria. Mas as participações de Paulinho da Viola, Vânia Bastos e Quinteto em Branco e Preto fazem tanta diferença, que fica impossível não dizer que esse disco de Gudin não seja perfeito dentro de sua esfera.  Centrado em seu jeito particular de fazer samba, um jeito característico do compositor, esta obra-prima projeta a evidência de seu lado cancionista, como letrista em composições inéditas de sua lavra, bem como em músicas também surgidas no decorrer da vida, mas nunca antes gravadas, em parcerias com Paulinho da Viola, Francis Hime, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit, J. C. Costa Netto, Nelson Cavaquinho e Roberto Riberti. Este belo e rico trabalho celebra a expressão de um artista em sua plena convicção autoral e dominadora, fortemente ligada ao samba e à cultura assimétrica do Brasil, sublinhando a sutil formação do conjunto de informações musicais que assolaram nosso país quando o disco fora lançado. De 2007 até hoje são 10 anos de diferença e lá naquela época a proposta musical como um todo era diferente da de hoje, que requer uma malandragem sambística atemporal que nunca se viu.  O repertório de Um Jeito de fazer Samba tem dois momentos sublimes: a participação de Francis na composição da exuberante Moto Perpétuo e Luiz Tatit em Sensação. Destaque maior para O Amor e Eu, um dos sambas mais lindos que Eduardo Gudin compusera em um momento de distraída atenção poética e que resultou no samba de maior destaque de todos os tempos e que está aqui, bem neste disco atemporal, com um frescor único e sensibilizado à flor da pele.

 

Um jeito de se fazer samba (2007) / Eduardo Gudín
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chico Buarque e um clássico que não virou clássico e hoje encontra-se perdido


Chico 1967: obra-prima
Talvez o próprio Chico Buarque saiba que seu segundo disco de carreira, o antológico Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 (1967 / RGE / 26,99) não chega a ser considerado um disco de primeira grandeza em sua carreira. Primeiro que o disco praticamente passa desapercebido do grande público hoje em dia e esse trabalho de relembrá-lo fica apenas restrito aos amantes e apaixonados pela obra do cantor e compositor carioca, que produziu o Volume 2 no rastro do enorme sucesso de seu disco de estreia, em especial por causa da faixa A Banda, pois a maioria de suas canções – tanto do primeiro quanto do segundo disco – não frequentaram as paradas de sucesso. O povo queria saber apenas de A Banda e da menininha timida que cantara ao seu lado nos festivais da TV Record – a musa da bossa nova, Nara Leão. Mas há de deixarmos claro e evidente aqui que mesmo que Volume 2 não tenha tido êxito na época de seu lançamento, algumas faixas viraram febre nacional e são hits que figuram na lista de preferidas de seu público, como Noite dos Mascarados, Morena dos Olhos d’Água, Quem Te Viu, Quem Te Vê. O novo álbum é cingido pelo mesmo lirismo nostálgico de seu antecessor e das 12 faixas, 8 tratam diretamente do amor. A música Com Açúcar, Com Afeto é um marco importantíssimo na carreira de Chico e foi essa a primeira composição em que ele se colocou na posição de uma mulher ao compor, sendo um recurso poético que, com o tempo, se tornaria uma de suas mais admiráveis marcas registradas. Chico atravessou boa parte de 1967 como que arrastado pelo sucesso contagiante de A Banda. A canção valera-lhe um programa na TV Record, o Pra Ver a Banda Passar, em que Chico apresentava em dupla com Nara Leão. Foi a partir deste ano que Chico diversificou sua criatividade. Travou um duplo contato inaugural com o cinema, atuando e compondo a trilha sonora do filme Garota de Ipanema, escreveu Roda-Viva, sua primeira peça teatral dita adulta e no ano seguinte, 1968, esse mesmo elenco de Roda-Viva seria agredido covardemente pelo Comando de Caça aos Comunistas. Mas o ano de 1967 era de fato um divisor de águas na vida de Chico: além de ter um programa na TV de maior sucesso com a musa da bossa nova, ver seu disco ser revenciado pelas pessoas (tanto o primeiro quanto o segundo) e ser um autor de peças teatrais consagrado, o seu plano pessoal o casamento com a iniciante atriz Marieta Severo lhe renderia um ano na ponte área Rio-São Paulo. Tudo isso era um turbilhão para o filho do historiador e antropólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pois seu quarto filho de um total de sete, tinha apenas 22 anos quando viu seu mundo deslanchar.

O disco herda de seu antecessor, Chico 1, o mesmo lirismo nostálgico: suas 12 faixas enveredam por temas como os amores fugazes de Carnaval, dor de cotovelo e saudades, todos emoldurados em sambas, marchas e modinhas de melofia cativante e letras de elevada voltagem poética. O novo álbum, no entanto, passa à margem de certas questões que atormentavam o compositor naquele momento, porque quatro de suas canções haviam sido compostas nos dois anos anteriores e duas delas, Morena dos Olhos d’Água e Será que Cristina Volta?, chegaram a ser gravadas para seu primeiro LP, mas acabaram ficando de fora. O fato é que Chico, em 1967, brigava com muitas frentes para ter seus direitos preservados: lutava contra o governo autoritário, contra a sociedade de consumo americanizada, contra as indústrias culturais e, em especial, contra a imagem de bom moço que construía em torno de sua figura. Era essa a sua roda-viva. Até mesmo com o movimento tropicalista Chico se estranhou: ao ler o livro de Caetano Veloso, Verdade Tropical ( 1997 ), pude perceber o quanto Chico era um verdadeiro empecilho (palavras de Caetano Veloso) na vida dos tropicalistas. O tropicalismo, vertente baiana e iconoclasta da MPB de então, estava em alta em 1967. Alegria, Alegria, de Caetano, fora a quarta classificada no III Festival de MPB da Record, enquanto Domingo no Parque, de Gilberto Gil, ficou em segundo. Entre ambas, Chico e sua Roda-Viva. A campeã de fato foi Poneio, de Edu Lobo e Capinamm interpretada por Marília Medalha. Caetano e Gil, veladamente, haviam incorporado guitarras elétricas aos seus arranjos e aventuravam-se em novas experimentações poétias e de linguagem, coisa que Chico não aceitava. Para Caetano e Gil, Chico era um passadista. Para tanto, a ala mais militante da MPB cobrava de Chico um maior engajamento na luta contra a ditadura. Chico, por sua vez, odiava o rótulo de cantor de protesto.

Além de ter tudo ao mesmo tempo em sua vida e se ver ao lado de Nara Leão mas contrário à Caetano e Gil, ele viu que a MPB, na verdade, era apenas a face mais visível de um racha que começava a se desenhar entre os opositores à ditadura no Brasil. Não compensava ficar de birra em início de carreira e, portanto, tentou uma aproximação mais contundente dos tropicalistas baianos – que nessa altura já estavam próximos de Rita Lee e seus mutantes. Pesquisando por conta própria para elaborar e escrever este artigo, tive uma grata surpresa ao me deparar com um depoimento assombroso: até hoje muita gente acha que os atores de Roda-Viva foram espancados pelos gorilas do CCC por encenarem uma peça considerada subversiva. Não era nada disso ou daquilo: o espetáculo tinha muito pouco a ver com a política. A tal roda-viva tinha muito mais a ver com as engrenagens implacáveis do show bussiness que na época assustavam Chico e muitos achavam que a peça identificava-se com a ditadura.

Esquivando-se completamente de Chico e Gil, Chico voltaria sua atenção para Tom Jobim, Vinicius de Moraes e, curiosamente, Ronnie Von. Ronnie era de outro estilo musical que assolava o Brasil, a Jovem Guarda, mas a parceria entre os dois foi motivado pelo filme Garota de Ipanema. O fato é que Ronnie era um de estilo mais timido – e que conquistava muitos fãs – dentro da Jovem Guarda, mas o próprio Ronnie parecia que não se sentia muito a vontade dentro de seu próprio estilo. Em 1968 a Jovem Guarda se desfez – e dizem que a culpa fora dos Tropicalistas. Dito pelo não dito o fato é que Chico estava envolvido cada vez mais com sua música e sabia que ele e Caetano, díspares musicais, eram competidores hábeis.

Mesmo o disco de 1967 não sendo um grande sucesso de início e tendo tantos dissabores ao longo de sua caminhada naquele ano, as composições foram feitas com a primazia que Chico soube aplicar nas canções. Apesar de sua graça suave, Um Chorinho é até hoje uma canção pouco conhecida de sua obra por inteiro, assim como outras canções desse mesmo álbum entrariam para o rol de lugar secundário na discografia de Chico, como Lua Cheia, um samba cheio de desencanto composto em 1965 em parceria com Toquinho. As composições Ano Novo, com seus versos longos e curtíssima duração – pouco mais de 1 minuto – Logo Eu?, samba sobre um marido desprezado por sua mulher (cujo Mônica Salmaso o regravou em seu disco em homenagem a Chico em 2006) e Televisão, uma crítica aos novos hábitos consumistas da época, também foram recebidas com indiferença pelo público e até hoje praticamente não se falam ou as cantam. A bem humorada Será que Cristina Volta?, Fica e a terna Realejo conquistaram fãs silenciosos, mas nenhuma delas chegou a fazer grande sucesso.

A doce Morena dos Olhos d’Água e a melancólica Quem Te Viu, Quem Te Vê deixaram suas marcas, assim como a encantadora Noite dos Mascarados, cantada aqui com os Três Moraes, ainda é obrigatória em qualquer baile de carnaval que se preze.  Mas a obra-prima do disco, no entanto, é mesmo a quase mediunicamente feminina Com Açúcar, Com Afeto. A música, encomendada pela cantora Nara Leão, teve na contracapa do disco assinada pelo próprio autor que, por razões óbvias, ele não poderia cantá-la. Ou seja, ele não era uma mulher e a música tem um apelo feminino inacreditável. A voz límpida de Jane Morais suavizou bastante a interpretação. A canção fora composta em 1966 e naquele tempo era inconcebível um homem interpretar uma mulher. Mesmo sendo um Chico Buarque.

É bem provável que Chico Buarque de Hollanda Volume 2 jamais venha a figurar entre os álbuns fundamentais do compositor. De todo modo, é um disco importante em sua trajetória. Tecnicamente irreparável, poeticamente serena e inspiradora. Tudo em sua confeccão parece ter corrido sem transtornos. A única exceção fica por conta da capa, em que Chico, de pé, segura um violão, tendo ao fundo a paisagem deslumbrante da lagoa carioca Rodrigo de Freitas. Para obter essa imagem, o fotógrafo David Zingg, americano radicado no Brasil, deitou-se no asfalto da avenida que circunda a lagoa e, por pouco, não foi atropelado por um caminhão.

 

Fontes:

VELOSO, Caetano; Verdade Tropical, 1º ed, São Paulo, Cia de Bolso, 2008, 513 pgs.

HOMEM, Wagner; Chico Buarque – História de Canções, 1 ed, São Paulo, Leya Brasil, 2009, 428 pgs.

 

Chico Buarque de Hollanda – Vol. 2 (1967) / Chico Buarque
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Elis, trilha sonora do filme: mais uma obra de baú


Elis: CD de baú
Salvo pela ótima e excepcional interpretação de Andréia Horta, o filme Elis (2016) não tem nada de especial. Venhamos e convenhamos que o filme é mais um musical do que um filme propriamente dito, em que contasse as verdades de Elis, os julgamentos pessoais, o verdadeiro nascimento de uma estrela, seus verdadeiros amigos, suas inimizades musicais e pessoais, o caloroso amor por Milton Nascimento, a relação com os filhos, o desafeto com Tom Jobim e Chico Buarque, o rancor por Nara Leão e Maria Bethânia, o amor incondicional por Rita Lee e Gal Costa e o amor platônico por Clara Nunes. Cadê Tim Maia? Cadê Samuel Wainer, seu último namorado e que a vira estirada no chão do apartamento da rua Doutor Mello Alves, nos Jardins? Cadê a verdadeira história? Não houve nada disso e o público fora subestimado a assistir um musical reproduzido dos palcos brasileiros para as telonas. A qualidade do filme é excelente, as cenas são primorosas, a luz está perfeita, a direção foi impecável, mas o essencial faltou: não retrataram a vida de Elis conforme o enunciado. Trataram seu lado musical. Esqueceram de colocar suas famosas entrevistas, suas diversas frases de efeito moral, seus pensamentos acerca da música, seu carinho por João Bosco. E cadê a passagem com as drogas? Cadê o envolvimento rápido e conturbado com Fábio Junior e Guilherme Arantes? Não houve nada disso. Para além do filme houve o acontecimento rápido de se lançar um disco: tudo foi proposital. Primeiro lançam o filme mediano e em seguida um CD com os melhores sucessos da cantora. É sempre assim. Mas não trata-se de um grande filme (reitero que a interpretação de Andréia Horta e a direção estão impecáveis, mas faltaram argumentos para ser o filme do ano) e não trata-se de um grande disco. As prateleiras terão apenas mais um disco de coletâneas de Elis Regina com uma capa diferente. Porém, o que não foi retratado civilizadamente no filme foi colocado propositadamente no disco, como a faixa em que Nara Leão canta Borandá (1964) e Cartola interpretando O sol nascerá, registro também de 1964. Se a intenção era fazer um filme para homenagear uma das maiores cantoras do Brasil, o tiro saiu pela culatra, porque falta informação decente e coerente para com a artista que revolucionou a música brasileira e se tornou uma das maiores vozes do mundo através de sua garra e determinação. Faltou entusiasmo, carisma e o principal: a vida da artista. Para quem acompanha a carreira da cantora certamente ficou descontente com o resultado final, mas a ideia  central aqui é resgatar Elis para o público novo, para que sua imagem seja lembrada à nova geração. Portanto, tudo errado na diagramação de Elis. Por que não fizeram tal qual o filme Piaf – Um Hino ao Amor, em que retrataram fielmente sua ascensão e sua decadência, seus amores impossíveis e nostálgicos? Tanto tentaram camuflar a vida de Elis e seus turbulentos momentos de crise que o filme logo cairá no esquecimento e o CD com a trilha sonora logo será artigo de arquivo no baú.


Elis – o filme (trilha musical)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Onde está a esfera de Tássia Reis?


Tássia: sem graça
Ainda não entendi bem o real significado musical e a proposta de trabalho da cantora Tássia Reis, que está sendo chamada aos quatro ventos de a nova queridinha da música popular brasileira. É preciso, antes de mais nada, entender o seu real teor, a sua real batida e a sua proposta para que seja batido o martelo sobre aquilo que podemos ser considerado como a nova queridinha da MPB. Tássia é uma rapper e que nasceu cantando rapper e que queria se imortalizar como rapper, mas no entanto o mundo a guiou para o mundo das calmarias e atemporalidades que a música popular a resgatou com toda a ternura e objetividade possível. Mas Tássia Reis, nome forte, maquiagem poderosa, postura de guerreira, olhar decisivo e canto morno, nasceu dentro do rapper. A mudança de um estilo à outro é normal dentro de um segmento musical, ainda mais no caso de Tássia, cantora conhecida dentro de seu mundo de rimas sincronizadas, mas totalmente desconhecida para o público que cultiva e respira MPB. Mas sua entrada foi bem aceita por nove entre dez pessoas e esse feito é sensacional, mas ainda é preciso de um pouco de parcimônia para poder dizer se Tássia de fato é uma nova cantora de MPB ou apenas fantoche do final de ano. Sendo um grito pulsante na internet e liderando a causa negra como meta, Tássia Reis é uma cantora que luta contra as minorias e a favor próprio pela sobrevivência. Suas músicas retratam esses momentos, principalmente em seu último disco, Outra Esfera (2016 / 24,99), que tem uma pegada levemente africana e com muita sinceridade poética. Isso apenas não resultaria em um bom ou ótimo disco, mas Tássia não está totalmente perto da perfeição como cismam algumas pessoas: ganhando corpo e forma em uma esfera que praticamente nunca pisara, a cantora se mostra a cópia fiel de outra cantora, a popular e ambientalista Tulipa Ruiz. Com vozes idênticas, Tássia acaba sendo uma complementação da obra inacabada de Tulipa, que não preserva agudos em suas músicas e canta o mais alto que puder. Tássia não chega a berra no microfone, mas acredito que sua música ainda não seja atribuída à sua performance para ser considerada a revelação de 2016. Falta muita coisa para que isso de fato aconteça, mas já seria de bom tamanho pensar em uma forma de se mostrar mais brasileira e menos importada, tanto nos trejeitos enquanto canta, como nas vestes, na maquiagem e na formatação de seus discos. Por hora, Tássia Reis é apenas Tássia. Sem reis.

 

Outra Esfera (2016) / Tássia Reis
Nota 6
Por Marcelo Teixeira

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Marília Mendonça e a retratação infiel do sertanejo brasileiro


O estranho, o sertanejo e a Marília
Nem tudo aquilo que reluz é ouro e nem tudo aquilo que é meramente repentino é sensacional. Muitas vezes aquilo que é novo passa a ser algo supérfluo e aquilo que não é escutado com cautela com o tempo nos revela ser uma grande obra prima. Pode acontecer também de surgir do nada uma nova voz e acharmos que trata-se de uma voz poderosa e que marcará gerações, mas também pode ocorrer dessa mesma voz ir se desmanchando com o tempo, ficando irresistívelmente cansativo e atemporal. Poderia eu ficar aqui destilando mil e uma formatações de vozes e estilos, assim como eu poderia ir direto à chave central deste artigo: em 2016 o Brasil viu surgir uma nova voz sertaneja que eclodiu pelos quatro cantos do país como sendo uma revelação musical dita da melhor qualidade, do melhor estilo e do melhor momento. Evidentemente que Marília Mendonça não é uma voz carismática, Marília Mendonça não é um talento aprazível, Marília Mendonça não é uma grande revelação da música sertaneja, Marília Mendonça não é nada, a não ser uma cantora que acha que é cantora, que não tem postura alguma de cantora, que não canta absolutamente nada de novo e que não vai ser nada de nada. Com uma voz que nos remete à Ana Carolina (apenas uma comparação de vozes, não querendo rebaixar em hipótese alguma a cantora Ana Carolina), Marília Mendonça surgiu em um momento em que o estilo sertanejo pedia. Enquanto Anitta briga com Ludmilla um espaço vanglorioso dentro de seus estilos pop urbano, Sandy, Manu Gavassi e Wanessa duelaram um espaço entre o público jovem e pré adolescente, Ivete Sangalo e Claudia Leite foram assistidas de camarote por Daniela Mercury para ver quem é a mais legítima baiana e Luan Santana agora encontrou em Tiago Iorc um desafio irrecusável, Marília Mendonça foi fabricada às pressas para duelar diretamente com a desamparada Paula Fernandes. Óbvio que o brilho das duas sertanejas se sobrecaem repentinamente em um emaranhado de superficialidades musicais e estéticamente falando, mas o fato é que Marília não se comporta como cantora e nunca será dita de ser uma a altura das grandes divas sertanejas, como Inezita Barroso ou As Irmãs Galvão. Falta-lhe coro, falta-lhe estima, falta-se discernimento acentuado de mulher, falta-lhe estilo, falta-lhe carisma, falta-lhe tantos adjetivos que não me atrevo mais a continuar. Com uma brega música ridícula que gruda na mente, a neo-cantora parece que engoliu um balão de oxigênio e flutua nos palcos como se fosse balão inflamado. Caracteristicamente, sua voz não agrada, seu sorriso é forçado, suas vestes não se adequam e sua tez é de uma pessoa mundana, meramente comercial, nada cultural. Infelizmente o Brasil carece de cultura e, mesmo tendo que respeitar diversas delas, somos obrigados a aceitar Marília Mendonça dentro dessa parte globalizada. Sendo a nossa Adelle suburbana, Marília Mendonça consegue ser o fundo do poço que assolou o mundo sertanejo com vozes femininas depois de Paula Fernandes e nesse estilo quem se salva é Bruna Viola, que é a típica cantora regional com prestígio e determinação musical invejável.O que me dói como ser humano é ver diversas mulheres se passando por Marília Mendonça retratada em suas músicas. Uma pena que isso aconteça, pois enquanto mulheres se sentem traídas e infiéis, mais o mundo globalizado perde seus direitos éticos e morais.

 
Marília Mendonça e a retratação infiel do sertanejo brasileiro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O MM de Marisa Monte (1989)


MM: antológico e perfeitinho
Disco antológico de Marisa Monte lançado para ser um sucesso de crítica e público, MM (1989 / EMI / 31,90) é um dos melhores discos da carreira da cantora e compositora carioca pelo simples fato de ter tudo aquilo que Marisa gosta: MPB, rock, samba antigo, jazz e muita simplicidade.  A partir deste conjunto de sons e referências, a carreira da cantora deslanchou de uma forma que já era esperada, com casas noturnas lotadas, disco vendendo muito bem e uma sequência de obras que foram lançadas no decorrer dos anos de 1990. Marisa era um fenômeno de público, venda, crítica e dela mesma, que não aceitava erros em suas diagramações vocais. Nascia ali uma diva que seria insubstituível, uma cantora que nascera dos palcos e ganhava o mundo afora com sua voz, seu carismo e sua determinação em fazer uma música de alta qualidade para um público popular. De Candeia aos Mutantes passando pelo rock agressivo de Titãs e uma versão meticulosa de Negro Gato, imortalizada por Roberto Carlos em disco lançado em 1966, Marisa Monte fez a extensão de sua própria ideologia musical com a tênue sensatez que o ouvinte precisava ouvir e o resultado disso são alcances primorosos de agudos solares impressionantes para uma cantora que fizera sua carreira inicialmente nos palcos, feito raro para qualquer artista, pois o que muitas vezes acontece é o inverso: o artista inicia nos barzinhos, passa para o estúdio e complementa nos palcos. Óbvio que Marisa passou por alguns barzinhos, mas sua formação, como ela sempre dissera, está ligada ao mundo dos palcos. Depois de uma longa temporada estudando canto lírico (sua paixão) em Roma, Marisa resolveu voltar ao Brasil para fazer carreira aqui. Há quem diga (e talvez seja pura verdade) que o produtor musical Nelson Motta seja o grande influenciador de Marisa Monte nessa sua primeira incursão pelo mundo dos LPs, tanto que eles chegaram a namorar um tempo. Verdade ou mito, o fato é que MM é uma obra prima grandiosa e parte itinerante de qualquer discografia daqueles que idolatram a MPB.  MM prova todo o lado eclético de uma cantora que nasceu lírica e com um universo totalmente particular, que conseguiu driblar a própria censura ao ser identificada com as tendências que nunca seguiu.

 

MM (1989) / Marisa Monte
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Dona Onete grava seu primeiro DVD


Dona Onete: rainha do Norte
Não é sempre que uma típica rainha do Norte é homenageada fora de seu país local e dentro do território americano. Pois este feito foi conquistado pela diva atemporal Dona Onete, que foi parar em solo americanizado e muito paparicada pelo baiano Caetano Veloso, que se rendeu aos seus encantos e sua ternura. Além de fazer shows em breve aqui em São Paulo (logo mais trarei maiores detalhes sobre esse momento mágico), eis que a cantora e compositora está esbanjando alegria devido à gravação de seu primeiro DVD. A matéria completa desta sensacional notícia está no site http://zip.net/bctCk0 

 
 
Dona Onete grava seu primeiro DVD
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Síssi da Marina Lima


Síssi na Sua: último disco bom
Lançado originalmente no ano 2000, Síssi na Sua (2000 / Universal Music / 29,00) foi relançado por um site de músicas no ano de 2016 com formato de download e o feito foi tão grande que alçou a carreira meteórica da cantora Marina Lima ao topo das mais clicadas virtualmente. Pudera: Síssi na Sua é um disco deliciosamente primoroso, com começo, meio e fim e que tem um brilho sinestésico capaz de nos hipnotizar profundamente. Quando lançado, a voz de Marina já não estava tão boa, passando por uma depressão repentina que afetou suas cordas vocais a ponto da cantora pensar em desistir da carreira. Sem lançar discos há um tempo, Síssi na Sua é um disco que tem a missão de retomar a carreira da cantora, passando a limpo todos os pontos nevrálgicos de sua estadia dentro da música e de mostrar sua importância e seu talento assimetricamente. Aqui estão reunidos seus maiores sucessos, como Fullgás, À Francesa, Nem Luxo Nem Lixo, Deixa Estar e Acontecimentos. A depressão, tão recorrente em sua vida, assim como a maioria das canções compostas anteriormente à Síssi falam de desencontros, solidão e de uma infinita busca pela respiração em meio aos ruídos da metrópoles. A cantora piauiense com naturalidade carioca faz ótimas releituras em grande estilo e com a primazia de uma grande intérprete da nossa música, sendo alguns deles com arranjos novos e outras sem retoques. Mesmo com a voz não soando brilhantemente como nos tempos áureos, a cantora faz questão de mais recitar suas pérolas do que cantá-las, mas isso não importa tanto, pois o que vale aqui são as músicas, coisa que nós mesmos, como ouvintes, podemos fazer. Estando mais leve e sem a preocupação de querer agradar, Marina se mostra mais autêntica e solta do que em discos anteriores, em que o crivo central era a massificação pela canção perfeito e o respaldo em ser o disco do ano. Roqueira nata, a cantora deixa claro que o que importa é a sua música como mote maior e o que ela mais pede em Síssi na Sua é que cantemos com ela. Então, cantemos com Marina Lima suas depressões, suas solidões e seus tormentos.

 

Síssi na Sua (2000) / Marina Lima
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Mais Cultura Brasileira - 2017


Ano novo, músicas antigas
Eis que estamos aqui mais uma vez iniciando os trabalhos de 2017 sem pausa para descanso. Neste ano que se inicia o Mais Cultura Brasileira celebrará o seu sexto ano com muitas novidades: e quem ganha é você. Para tanto, há de ser comentado aqui que os planos para este blog foram pensados em 2016, mais precisamente entre Julho e Agosto, para serem executados com exatidão este ano. A meta é manter o mesmo foco, a mesma determinação, o mesmo entusiamo em poder escrever a verdade sobre a música, a verdade sobre as informações, a verdade sobre os cantores e a verdade sobre a fonte recebida. As mudanças são sempre bem vindas e cabíveis de um entorno de reciprocidade compactuada com aqueles que lêem os artigos diariamente, sendo assim, a primeira grande novidade para este ano de 2017 é a celebração de dois cinquentões: a primeira grande homenageada do ano será a cantora e compositora Marisa Monte, que completará 50 anos de idade em Julho e por esse motivo, ela será ovacionada com artigos diversos, fotos de sua carreira e passagens aqui ou ali no mundo da música, enaltecendo sua importância, sua capacidade artística e sua vocação para com a música popular brasileira. Outro grande homenageado será o cantor e compositor Chico Buarque, que terá um longo artigo sobre o lançamento de Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 em 1967, sendo o segundo disco de sua carreira e que o consagrou definitivamente como o maior intelectual de nosso tempo. Mas as novidades não param por aí: além da pesquisa diária sobre o novo, o que é novidade, o que vai ser novidade (assim como o que é descartável tamvém), vamos manter o foco em buscar novos entrevistados e reverenciar livros que tratam de música, na qual chamo carinhosamente de música para os olhos e a mente. Não será um ano fácil, tendo em vista que para escrever é preciso de muita pesquisa, uma determinação escomunal para levar o meu sentimento verdadeiro para que você tenha total segurança sobre determinado artista e disco resenhados. O meu papel como crítico de música é justamente este: o de entreter você à ouvir a boa música, pensar sobre a música duvidosa e a conhecer aquilo que está apenas no meu infinito particular musical. O Brasil é vasto de cantoras e cantores que precisam ser conhecidos mais profundamente e independentemente de ano e estilo, o blog nasceu para isso. E não é a toa que estamos entrando em seu sexto ano de escrita musical. Os planos estão aí, agora vamos pôr as mãos na massa. Feliz 2017!

 
Mais Cultura Brasileira – 2017
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O crítico de música e o crítico clichê: as nuances musicais


Existe crítico verdadeiro?
Sibelius (1865 – 1957) um dia disse: não devemos dar demasiada atenção ao que os críticos dizem. Nunca foi erguida uma estátua em honra de um crítico. Discordando da frase do compositor filândes de música erudita, mas acreditando sumariamente que não é preciso de estátua para criticar algo ensaísticamente, acredito na liberdade de imprensa para poder escrever aquilo que bem quiser em um blog totalmente independente, estando liberto das agruras dominadoras de patrões e chefes alienados com o pudor de escrever corretamente sobre determinado cantor ou cantora, sobre seus discos e sobre suas atemporalidades.  Talvez Sibelius soubesse que sua música erudita não atraía multidões e acreditando em sua impopularidade mundo afora, tenha creditado que os críticos de música o criticavam veementemente. Criticavam sua música e não sua pessoa – arrogante, feroz, atroz, mas intelectual, culto e refinado.  Acredito na significativa despudorada de poder resenhar tal artista com as minhas próprias palavras, marca característica e herdada de uma forma natural e que angaria um semblante favorável à minha pessoa. E acredito, piamente, que o mundo precisa de críticos de música com mais verdade, com mais ideal, com mais frescor, com mais tinta, com mais austeridade, com mais postura, com mais crítica. Gustave Flaubert (1821 – 1880), esritor francês de personalidade psicológica marcante, disse faz-se crítica quando não se pode fazer arte. Concordo plenamente com a frase de Flaubert, mas o que seria de nós, críticos de arte, se também fossemos artistas de artes como a música ou a dramaturgia? Quem poderia nos criticar? O público é leigo no assunto criticidade e quando o fazem, não conseguem discernir o que é capaz de ser criticado daquilo que pode ser uma solução para a crítica. Acima de qualquer coisa, sou um crítico que critica o que precisa ser criticado. Sou um ensaísta, um cronista, um escritor que escreve sobre aquilo que realmente precisa ser escrito. Não procuro aquilo que deve necessariamente estar postado e prostrado no meu mural: eu escrevo conforme meu tempo, sem a necessidade sumária de preencher a alegria de patrões, de gravadoras, de artistas. Não sou pago para escrever aquilo que não acho legal e não sou pago para elogiar um artista só porque está na mídia. Artistas precisam ser criticados, assim como seus discos precisam de notas avaliativas para estarem no crivo de uma sensata resenha. Escrevo sobre música porque gosto, porque aprecio e porque sinto a necessidade ulterior de divulgar a nossa música popular brasileira ao outro. Não preciso escrever sobre o cantor da modinha, não preciso exaltar a cantora que lançou um disco mediano apenas para dizer que sou antenado com a música. A música está jorrada aos quatro ventos e a cada dia nasce uma cantora nova, um cantor novo. Mas não preciso, categoricamente afirmo, me humilhar para escrever aquilo que acho desnecessário. Existe um milhão de artistas que não merecem sequer uma crítica negativa, assim como existe uma infinidade de artistas que vivem enclausurados para um seleto grupo de seguidores e é sobre esses artistas que gosto de resenhar: seja o artista de beco, seja o artista consagrado, seja o artista popular, seja o artista impopular, seja o artista ruim, seja o artista bom, seja o artista da grande mídia ou seja o artista de pequena mídia, eu escrevo para que o meu leitor tenha ciência de que existe uma seleção de achados e perdidos espalhados por aí que precisam ser (re) conhecidos para um devaneio de musicalidade. O verdadeiro crítico de música não busca apenas palavras confortantes para agradar ao artista, mas busca na sua interpretação, no seu projeto, no seu propósito aquilo que está escondido por trás de cada música. Não julgo o disco pela capa, não julgo o artista pela voz, não julgo o artista pela roupa, não julgo o artista por outrora: julgo o conjunto da obra, incluindo aqui a capa, o artista, a voz, a roupa, o que ele representou no passado. O bom crítico de música sabe reconhecer que o disco X foi merecedor de nota alta enquanto o disco Z é merecedor de uma nota mais baixa: saber reconhecer isso é o mínimo de todo e bom crítico de música. Não podemos nos vender por tão pouco, como vejo outros críticos se rendendo ao brasão da empresa em que trabalham. Sejamos mais humanos. Sejamos mais realistas. Sejamos mais críticos de música verdadeiramente honrados em criticar com gosto, com vontade, com verdade. A música agradece. A escrita agradece. O leitor agradece.  Fechando com a bela frase do mágico californiano Channing Pollock (1926 – 2006) um crítico é um homem sem pernas que ensina a correr. Que venha 2017!

 

O crítico de música e o crítico cliclê: as nuances musicais.
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Chico Buarque de Hollanda Volume 1 - 50 anos depois


Chico e o primeiro LP: 1966 - 2016
Bastaram as canções que já havia composto durante a primeira metade dos anos de 1960 para que Chico Buarque recheasse Chico Buarque de Hollanda (1966 / RGE / 26,99), seu primeiro disco, lançado em dezembro de 1966. Fora isso, ainda sobraram duas músicas para o álbum seguinte. Essas composições iniciais vêm carregadas de um lirismo nostálgico e de uma riqueza poética que, logo de cara, caíram nas graças do público e de boa parte da crítica. A faixa A Banda, que pouco antes vencera o II Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, tornou-se um hit instântaneo, uma mania nacional cantada em cada canto do Brasil por gente de todas as idades. O disco de fato é fundamental em qualquer antologia da moderna MPB e suas músicas, dotadas de recursos poéticos inovadores para a época e de extrema originalidade melódica, colocam o samba urbano num novo e elevadíssimo patamar de qualidade. Chico Buarque tinha apenas 20 anos e uma timidez ainda não muito bem equacionada, um rosto juvenil, iluminado por olhos de um verde transparente. Ainda não tivera a chance de conhecer a mulher de sua vida (este artigo será postado em 2017), mas ele sabia de sua importância dentro dos festivais que assolavam o país de canto a canto. A Banda, interpretada por ele e Nara Leão, conquistou o primeiro lugar em Outubro de 1966, dividindo o lugar com Disparada, de autoria de Theo de Barros e Geraldo Vandré, magnificamente defendida e interpretada por Jair Rodrigues, que logo mais seria parceiro e amigo de Elis Regina no programa O Fino da Bossa. A Banda rendeu a Chico Buarque o status de cantor do ano, o intelectual do momento e vários artistas voltaram suas atenções para aquele rapazinho timido. Carlos Drummond de Andrade, o poeta mais respeitado de todos os tempos, soltou a pérola frase que venha outra banda. Nada mal para um novato nos palcos. A Banda rendeu ainda a Chico seu primeiro programa na TV brasileira, chamado Pra Ver a Banda Passar, em dupla com Nara Leão. A timidez de ambos era tanta que Manoel Carlos lhes sapecou o título de os maiores desanimadores de auditório da televisão brasileira.  O disco lançado em 1966 vendeu pouco mais de 100 mil cópias, um feito e tanto para a época e a causa desse sucesso estrondoso de fato fora a intepretação de dois cantores que tinham a sintonia em primeiro plano. A Banda é um divisor de águas na vida e na carreira de Chico Buarque e dali em diante nenhum dos dois, Chico e Nara, jamais seriam os mesmos. O mesmo se aplica para a MPB e, de certa forma, para o próprio Brasil.

Chico Buarque de Hollanda 1, como ficaria conhecido o disco, foi produzido apenas com o estoque de boas canções que Chico já havia composto. Praticamente todas as suas faixas têm em comum um lirismo nostálgico e comovente. Muito mais que isso, o disco eleva a tradição do samba urbano a um novo patamar poético. As letras, além de originais, têm uma arquitetura musical primorosa. O compositor, de certo modo, resgata a tradição dos melhores letristas cariocas, como Noel Rosa e Wilson Btista e tempera-a com ingredientes da Bossa Nova. Chico venerava esse movimento e seus expoentes – em especial João Gilberto, com que sua irmã, Miúcha, se casou um ano antes. Mas logo se esquivou da bossa nova e desenvolveu o seu próprio estilo. O samba, aqui neste disco, não só é um ritmo: é um tema recorrente que pode ser avordado por uma ótica melancólica, como em Sonho de Um Carnaval, que o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré interpretou para Chico no I Festival da Record. O efusivo Meu Refrão e o socialmente engajado Tem Mais Samba são obras-primas relicárias e Chico considera esta última, composta em 1964, o marco-zero de sua carreira. A tocante Olé Olá, outra joia do disco, é um samba-canção carregado de saudosismo e desconforto, dotado de uma harmonia sofisticadíssima. Fora nesse tempo que Caetano Veloso conhecera Chico Buarque em 1965, enquanto o carioca cantava trechos de Olé Olá (cantado mais tarde por Maria Bethânia) no teatro e disse à época que tinha conhecido um cara que era a coisa mais linda.

Em Chico Buarque de Hollanda 1 a leveza e a alegria ficam por conta de três composições, curiosamente todas batizadas com nomes próprios: Juca, A Rita e Madalena Foi pro Mar. A primeira, quase um samba de breque, foi composta após a polícia ter sido chamada ao bar em que Chico e seus amigos se entregavam à cantoria sem muita atenção aos decibéis. Essas noitadas musicais em São Paulo foram sistematicamente batizadas de sambafos. A Rita é um bem humurado samba-canção que exalta a capacidade das mulheres de devastar corações masculinos. Madalena Foi pro Mar é outro lamento quase debochado de um homem deixado na mão por sua amada. De todas essas, A Rita ganhou diversas regravações, sendo a mais importante defendida por Gal Costa.

Nenhuma dessas canções, no entanto, sequer se aproxima do alvoroço e sucesso desencandeados por A Banda: com sua irresistível doçra, ela cativou o público, conquistou a crítica e transformou em fãs de Chico mesmo os espíritos mais avessos a sua figura.  Um desses espíritos era o genioso escritor, dramaturgo e cronista esportivo carioca Nelson Rodrigues, cujos comentários e tiradas mordazes eram temidos tanto por craques dos gramados quanto dos palcos. Mas Nelson gostou tanto de Chico e, em especial da música, que disse em artigo que A Banda era uma marchinha genial.

E lá se completa 50 anos do lançamento do antológico disco Chico Buarque de Hollanda 1, disco que praticamente nasceu pronto, sem redomas e com certa timidez, carregado na sobriedade de um Chico Buarque novinho em folha e acompanhado de uma grande cantora que o inspirara a vencer o primeiro grande desafio: Nara Leão.

 

Chico Buarque de Hollanda Volume 1 – 50 anos depois
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O ostracismo anunciado de Sandy


Sandy e o ostracismo musical
E lá se vai 2016 e nada de Sandy produzir um disco a sua altura. Talvez seja uma tarefa difícil, talvez seja uma tarefa de se repensar em sua trajetória de vida artística e colocar em plano um disco verdadeiramente autoral e brasileiro, sem esses lances de ser piegamente americanizada. Sandy é uma cantora de excelente qualidade, mas se perdeu em nuances nada estratégicos ao se desfazer da dupla com seu irmão. Óbvio  que nada dura para sempre e seria extremamente estranho ver Sandy e Junior cantando músicas romantizadas com teor adolescente e clichê adulto para uma plateia que os viram crescer.  Em 2011 anunciei aqui no Mais Cultura Brasileira que Sandy enfrentaria um ostracismo gigantesco em tempo recorde e fui abatido com espinafradas generalizadas por todos os cantos do país, de fãs exaltados pela minha escrita e até de amigos enfurecidos com o teor da minha resenha. Entre 2011 e 2016 a cantora não produziu nada de significação extremamente extraordinária para o campo musical e nem angariou fãs pela estrada afora. Pelo contrário: neutralizou esses fãs e gravou um disco aqui e outro acolá, mas com a mesma superficialidade de sempre. Contraiu o distanciamento de pessoas que seguiam seu trabalho e marcou definitivamente seu nome no mundo dos cantores em decadência excessiva. Sandy, reitero, é uma boa cantora, tem talento e tem voz, mas ultimamente lhe falta o essencial: carisma. Com o nascimento de seu filho, a cantora passou a ter uma atitude incoerente com relação ao mundo que a cerca e passou a se sentir perseguida por algo que parece que estava a incomodando. Ainda que seja fácil o seu retorno triunfal ao mundo do showbizz, a cantora precisará utilizar um recurso muito válido para artistas que enfrentam esse frama – o ostracismo do ostracismo. Sandy não chegou a inda no que chamo de o segundo ostracismo, que é aquele que ninguém mais comenta ou lembra do artista, mas poderá facilmente chegar nele se continuar com uma postura impiedosa para os dias de hoje. Sandy não conseguiu encontrar a realidade fora de seu globo blindado e insiste em ser a meninina nobre e boa de família, que segue a risco os tradicionais calendários anuais e que foge de todo e qulquer resquício de bombardeio. É preciso uma mudança radical em seu mundo para que a cantora seja novamente a queridinha de dez entre dez fãs. O mundo da música mudou, a história mudou, as cantoras mudaram, mas Sandy continua com o ar de se mostrar verdadeiramente prolixa para o seu público e para aqueles que estão iniciando em sua jornada. Enquanto Sandy prefere enfrentar o ostracismo decalarado, sua inimiga musical sopra de vento em pompa em seu universo. Refiro-me a cópia quase perfeita de Sandy, a cantora adolescente Manu Gavassi.

O ostracismo anunciado de Sandy
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nara Leão - a musa da bossa nova?

Nara: musa da bossa nova?
Nove entre dez pessoas acreditam que a bossa nova começou no apartamento de Nara Leão, no Posto 4 de Copacabana, em alguma época dos anos de 1950. A ideia e a de que, naquele mítico endereço, todas as noites se reuniam rapazes e moças que, armados com seus violões, brincavam de cantar e tocar baixinho para não incomodar os vizinhos. Isso, óbvio, ia até altas horas e foi a partir desses encontros que surgiu o estilo suave e sofisticado que iria revolucionar a música popular brasileira que perpetua até hoje.  Esses rapazes e moças seriam, além da própria Nara, os violonistas Carlos Lyra, Roberto Menescal e Chico Feitosa, o violonista e pianista Oscar Castro Neves e os irmãos Mario, Leo e Iko, também músicos, o letrista e repórter Ronaldo Bôscoli, o pianistas Luiz Eça e Luiz Carlos Vinhas, o flautista Bebeto Catilho, entre outros. Porém, Nara nunca admitiu que o estilo bossanovista tivesse nascido em seu apartamento. Por um lado ela tinha razão, em partes, sobre o assunto, mas o fato é que se não fosse o encontro desses cantores em seu apartamento, nada teria acontecido. Podemos dizer que Nara Leão fora a responsável por esses encontros e por ser, digamos, a mãe nata da Bossa Nova. Em 1957, Roberto Menescal, outro grande responsável pelo feito, levou ninguém menos que João Gilberto, que acabara de conhecer, ao apartamento de Nara. João ficou encantado com aquelas reuniões, mas seu estilo era ainda mais contido e reservado no cantar, o que deixou os outros músicos ainda mais encantados não apenas por ele como pela música. Tudo era moderno, atrevido, inesperado e uma batida levemente ágil, sincopada e nova começava a nascer, diferentemente de tudo o que se ouvira até então. E Nara, a única mulher, era o centro das atenções. Nara era a grande inspiração, a musa da bossa nova e a responsável pela gravação de inúmeros sucessos desses cantores. Como muher, a cantora era também uma sedução, pois era morena, tinha lábios cheios e carnudos, dentes grandes, corpo bonito e era muito tímida. É impossível pensar em bossa nova e não falarmos em Nara Leão, cantora que conseguiu exprimir o verdadeiro sentimento deste estilo que ultrapassou barreiras, fronteiras, ganhou o mundo e é por esse motivo que devemos muito respeito a imagem e à obra desta grande cantora da música popular brasileira e de sua suma importância em nosso cenário cultural.

Nara Leão
Por Marcelo Teixeira

sábado, 3 de dezembro de 2016

Os encontros e as despedidas de Milton Nascimento


A mudança de Milton em 1985
Os anos de 1984 e 1985 foram especialmente intensos para Milton Nascimento. Além de entrar de corpo e alma na campanha pelas eleições diretas para presidente, chegando a compor duas músicas – Coração de Estudante e Menestrel das Alagoas – que seriam cantadas em todos os comícios em praça pública, transformando-se em verdadeiros hinos de liberdade, Milton curou a decepção pela derrota da emenda das diretas no Congresso Nacional com o apoio à candidatura de Tancredo Neves à presidência. Abalado com a morte de Tancredo e vendo o país chorar a morte de seu filho querido, Milton resolvera mudar os ares de sua vida por completo: além de se mudar de Belo Horizonte para Rio de Janeiro, ele já se sentia mais confortável como pessoa e artista, pois era mais valorizado  e respeitado por dentre entre dez artistas mundiais. Por esse mesmo motivo, o cantor e compositor carioca sentiu-se à vontade para fazer o que bem quisesse no ano de 1985 e, para seu bel-prazer, inpirou-se em seus sentimentalismos para desfilar um fiandeiro de músicas emotivas e sensatas para o belo disco Encontros e Despedidas (1985 / Phillips) 19,00), que tem uma ancestralidade e uma africanidade incrível. No início de carreira, Milton assinou a melodia, mas também as letras de várias canções – Canção do Sol e Morro Velho talvez sejam os melhores exemplos de seu talento como letrista. À medida que foi encontrando os parceiros certos, porém, o cantor passou a se concentrar na elaboração das frases musicais, abrindo espaço para que seus amigos Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos participassem ativamente de sua obra. Escolhia o parceiro para cada música, determinava o tema, dava palpites e logo voltava-se à criação de novas composições. Era a efervescência de Milton Nascimento dando nova roupagem à sua carreira a partir de 1985. No disco Encontros e Despedidas, o cantor quebrou a regra de todo um protocolo artistíco: as 12 músicas deste álbum foram feitas por Milton com a participação de sete parceiros diferentes e em sete faixas Milton aparece não como autor das melodias, mas o autor das letras. Não chega a ser um disco fácil de ser ouvido, porque Milton utiliza de um artíficio que nos impede de contermos a emoção em faixas como a homenagem à Mandela (Lágrimas do Sul), a africanidade em Raça, a participação forte e vibrante de Clara Sandroni em A Primeira Estrela e na própria canção-título do disco. Nascia aqui um novo Bituca, mais autêntico e mais forte do que nunca.

 

Encontros e Despedidas (1985) / Milton Nascimento
Nota 10
Por Marcelo Teixeira