domingo, 28 de agosto de 2016

A sofisticação de Clara Nunes ao cantar Tom e Chico


Clara: sofisticação na MPB
Engana-se quem pensa que Clara Nunes foi uma cantora apenas de samba ou que tinha a sua religiosidade à risca para cantar aquilo que o povo brasileiro precisava aprender sobre cultura africana. Óbvio que o reduto da cantora era poder mostrar que a africanidade existente dentro de cada um de nós era proveniente de uma religião, mas isso foi tão emblemático em sua vida particular, que hoje, decorrido mais de trinta anos de sua morte, ainda reverbera a imagem de Clara de que ela fora uma cantora de macumba. Isso, fora de contexto, serve de lição para os analfabetos de plantão, afinal, aquilo que Clara cantou reflete e muito em nossa vida cultural e religiosa. A África está ligada em nossas raízes mais ainda do que Portugal, que colonizou nosso país. Mas Clara foi muito mais que uma cantora de samba: ela cantou e encantou as músicas de Tom Jobim e Chico Buarque como nenhuma outra cantora ousou em fazer.  Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005 / EMI / 23,99) é uma coletânea original que reúne as canções gravadas por Clara de dois monstros sagrados da nossa música popular brasileira. Com produção de Luiz Linhares Garcia e Cláudio Rabello, o disco é impecavelmente perfeito pelo teor das composições, pela natureza de um repertório bem elaborado e pela delicadeza com que cada compositor gerou sua cria. Clara soube aproveitar o momento sublime em canções que enaltecem o romantismo, com teor político e sabor embolorado com rústicas minimalistas, com a perfeição de sua voz e a suavidade de sua imagem.  Fica impossível não resistir aos encantos de Sábia (1968), ao romance na luta de duas mulheres pelo mesmo homem amparadas pela guia de asfalto em Umas e Outras (1973), ao imperialismo português em Fado Tropical (1977), aos encantamentos amorosos e sentimentais à flor da pele de Novo Amor (1982), a política irrestrita e cabal de Apesar de Você (1977) e ao samba moderno e feito sob medida para Clara em Morena de Angola (1980), que fizeram o Brasil e a África sambarem ao samba encantador de Chico Buarque. Esse disco demonstra a importância de Clara na nossa música e de duas esferas na MPB: o patrono Tom Jobim e seu pupilo rebelde Chico Buarque.

 

Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005) / Clara Nunes
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O estado de poesia de Chico César


Chico César e sua poesia
Chico César é um dos melhores cantores e compositores de seu tempo e a prova disso é a quantidade de discos lançados sempre com a excepcional excelência de músicas consagradas e pelo aporte de cantoras que já o gravaram. Seu estilo vai muito mais além de Mama África, música que o consagrou e o revelou da Paraíba para o Brasil inteiro, fazendo de sua carreira um arsenal de metáforas consagradas. Chico César é um raro tipo de cantor que tem na veia a verdadeira música de raiz, brasileira, típica e nordestina. Estado de Poesia (2015 /Urban Jungle – Natura Musical / 24,00) é mais que um disco de músicas inéditas de Chico César: é um expoente de poesias catalisadas de um homem paraibano que consegue transpassar sua leitura através de sentimentos próprios e com significações alheias.  Estado de Poesia reflete o momento atual de Chico: mais poético, mais harmonioso, delicioso de ouvir e que une a delicadeza de ritmos brasileiros com a sonoridade universal, contendo, no mesmo disco, ritmos como samba, forró, toada e reggae, características unilaterais que sempre regeram a vida artística de Chico. Estado de Poesia se iguala a outros discos importantes na carreira do cantor, como Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2002) e De Uns Tempos Para Cá (2011) tamanha a sua força poética, lírica e unilateral.  Vale lembrar que a faixa-título do álbum foi gravada por ninguém menos que Maria Bethânia no DVD Carta de Amor, como celebração de sua amizade com o artista paraibano. E não é nenhum segredo o amor que a cantora baiana tem pelo Chico. Estado de Poesia é um disco que fala de amor, de amor próprio, de licença poética, de vida, de união. Expoente natural da cultura brasileira, Chico César nos brinda com mais um disco autoral, perfeito, sem retoques e com a sinfonia fina de sua rica intelectualidade.

 

Estado de Poesia (2015) / Chico César
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O pop juvenil de Tiago Iorc


Pop moderninho de Iorc
Dentro de seu mundinho pop juvenil, Tiago Iorc reina absoluto como o dono do pedaço, pedindo espaço entre Fiuk e Lucas Lucco, mas sem se ferir por completo, sendo que seu espaço está devidamente garantido entre as adolescentes afloridas de talco de nenêm. Mesmo sendo uma vertente poderosa a favor do cancioneiro moderno, o cantor e compositor não é uma das melhores e mais promissoras vozes da música brasileira, mas seu estilo de bom moço e partideiro de família abastada o fizeram ser um dos ícones mais importantes do cenário musical dos últimos tempos. Tiago tem lá suas qualidades, mas também tem lá seus defeitos. Por qualidades podemos dizer que ele entrou de cabeça na onda musical em um momento em que a sua música se distancia do estilo pop agresssivo de NX Zero, se distancia do pop romântico meloso de Fiuk e se distancia do pop eletrônico estranho de Lucas Lucco e, por esse quesito, ganha pontos satisfatórios para a sua carreira. Outro ponto positivo de Tiago é seu sorriso, que consegue ser real, mas não passa de um sorriso encabulado, tímido e sensato. Mas sempre onde há qualidades há defeitos e, nesse caso, o parâmetro se iguala. Tiago canta bem, mas é só. Não compõe tão magistralmente assim e, em resumo, não se sustenta em um disco inteiro. A qualidade da capa de seu primeiro trabalho solo é fantástica, mas se formos levar ao pé da letra pelo miolo da arte, temos um serviço incompleto: mesmo tendo uma voz legalzinha, o disco é enfadonho, cansativo, arrastado e que se iguala completamente entre uma mesmicíe e outra. Para maiores detalhamentos, não posso sugerir que a música de Tiago seja abafada, camuflada ou esquecida, pois ele é parte itinerante no mercado adolescente, mas o cantor peca pela exaustão de suas músicas, carregadas no romantismo peculiar nonsense e pelo exagero de profusão de ideias sentimentais que confundem seu verdadeiro lugar dentro da música. De resto, o cantor está merecidamente no seu posto de cantorzinho da menininha no portão, da mamãezinha que sabe que a filha ainda não tem um namoradinho e do papai que sabe que sua filhinha está indo bem na escola. Todos esses méritos devem-se exclusivamente a Tiago Iorc, o cantor que cativa com o sorriso, mas que é embalado por um disco imparcial.

 

O pop juvenil de Tiago Iorc
Nota 8
Marcelo Teixeira

sábado, 6 de agosto de 2016

Adeus, Vander Lee!


Vander Lee: morte precoce
Vander Lee não era um cantor muito conhecido do público em geral, mas tinha a o seu público especial, aquele público que acompanhava de perto a carreira do artista, que sabia de cor suas letras e não perdia seus shows. O cantor não tinha uma grande voz, não era popular, não era famoso, mas conseguiu fazer de sua música um instrumento de trabalho poderoso, cuidadoso, corajoso e audacioso. Mesmo não tendo uma voz característica de grandes artistas de seu tempo, ele sabia como hipnotizar seus ouvintes da melhor forma possível: através de sua composição certeira, arisca, rica. Foram poucas canções em uma carreira marcada pela amorosidade à música brasileira, mas destas, podemos dizer que foram suficientemente francas no ponto de vista solitário de um artista neutro, imparcial, não popularesco. Vander Lee teve pouco tempo de vida, morreu jovem, começou tarde na música, mas angariou letras sensacionais que em pouco tempo arrebatou nas vozes de Alcione, Leila Pinheiro, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Benneditto. Foram músicas fortes que falavam de Deus, romantismo, sinceridade e uma profusão de ideias e pensmentos e frases e amores que apenas Vander Lee conseguiu extrair de sua mente em ebulição. Saí de cena um musico exemplar, de uma categoria ímpar, de uma finesse perfeita para ficar em nossas lembranças um artista único, completo, sensível, amável. Mais conhecido por seus versos que falavam do amor cotidiano, Vander cantava sua singeleza como elemento de sua música autoral. Ele tinha 19 anos de carreira, nove discos gravados e sua madrinha era ninguém menos que Elza Soares!

 

Adeus, Vander Lee
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 30 de julho de 2016

Liniker - cantor e cantora ao mesmo tempo!


Liniker: ousadia e novidade em 2016
Sempre venho batendo na mesma tecla de que a música popular brasileira precisa de renovação e essa renovação não está apenas no sentido figurado de cantar, de compor ou de estar presente na representação conjunta de todo o conteúdo formal de musicalidade. É preciso uma reinventação única, capaz de nos hipnotizar, nos impactar, nos catalisar numa singela força de expressão, que nos faça arregar os olhos, abrirmos as bocas, arrepiar nossas peles e nos fazer sairmos do espetáculo com a mente inquieta, insana, cheia de música boa e com imagens jamais repartidas, quebradas ou esquecidas. Liniker nasceu homem, se comporta como homem, tem voz de homem e se apresenta como homem transvestido de mulher. Não chega a ser uma aberração para ninguém, mas Liniker soube provocar a ira de muitas pessoas ao se apresentar numa forma espontânea, capaz de nos prender o fôlego e prender a respiração tamanha a sua participação no palco, na música que canta e naquilo que produz. Liniker nasceu com o nome Liniker e é esse mesmo nome que o consagrou para que a música o revelasse ao Brasil com toda a sua formosura e sua docilidade em poder cantar suas canções numa totalidade máxima entre o prazer e o sabor de cada palavra soltada ao vento. A plateia delira, os músicos se rebelam ao bel-prazer geral e todos entram no clima. Sendo um misto de tudo aquilo que o Brasil já produziu de bom e da melhor qualidade artística, Liniker é o cantor de protesto que mais bem representa, nos dias de hoje, a sua verve artística, não se comparando com o fenomenal Filipe Catto e muito menos com o cafona Johnny Hooker. Ele é mais do que isso e seu testamento é maior que sua veia musical. Liniker pode ser uma miscelânea de tudo aquilo que já vimos anteriormente: um pouco de Luiz Melodia, uma pitada generosa de Itamar Assumpção, um sal de Maria Bethânia, um doce de Gonzaguinha, um gosto de Tulipa Ruiz, um  tempero de Rita Lee, uma gosto de Sandra Sá, um bocado de Tim Maia, um pedaço de Clara Nunes, um sorisso de Elis Regina, um canto Dolores Duran. Liniker é uma surpresa notória dentro da MPB e seu canto ecoará por muitos anos e ultrapassará fronteiras. É um cantor de verdade, com vontade própria, luz própria, sentimentos próprios e com carisma de artista generoso. O seu jeito feminino de cantar não assusta, pois sua música é muito maior que qualquer vestimenta ou adereço peculiar. Liniker é um cantor que já nasceu pronto, que tem astúsia pronta e que precisa ser ouvido o mais depressa possível.

Liniker – cantor e cantora ao mesmo tempo
Por Marcelo Teixeira

domingo, 24 de julho de 2016

O fraco encontro de Samuel Rosa e Lô Borges em disco ao vivo


Samuel e Lô: ontem e hoje
O Clube da Esquina foi um movimento musical que alcançou voo mais que significativo dentro do âmbito da música popular brasileira e que teve como principais articuladores Milton Nascimento e Lô Borges. O sucesso foi tão imediato que elevou a popularidade do estado de Minas Gerais para o centro das atenções e até o então presidente JK aderiu ao movimento, tornando-se fã número 1 de todos os integrantes. Mais de trinta anos se passaram e eis que a junção do ontem com o hoje voltou a povoar o mercado fonográfico com um disco que visa homenagear o movimento mineiro com pitadas de pop rock atual. O encontro de Samuel Rosa e Lô Borges não tem um significado maior que o simples fato de cantarem sucessos que ainda estão na boca do povo. O pop rock meloso de Samuel encontra a música singela de categoria ímpar de Lô Borges para formarem a dupla do momento em um encontro formal para cantarem sucessos renomados de um tempo áureo da MPB. Mas o que poderia ser bem feito acabou sendo desprezível: a voz de Lô Borges não é mais a mesma e a voz de Samuel Rosa é cansativa, arrastada, sufocada, melindrosa. Não existe uma ligação capaz de suprir o iddeal momento espontâneo com a qualidade musical de um tempo que ficou para trás, mas com raízes significativas e que deveriam ficar lá, quietas, intactas. Não há emoção no disco, assim como não há perfeição. Samuel Rosa e Lô Borges Ao Vivo (2016 / Sony Music / 35,00) é um disco morno quase esfriando, mas que tem um peso importante dentro da música nacional, que é o de resgatar pérolas embutidas em um cancioneiro próprio (o que, para mim, pessoalmente, deveria ficar intacta!).  Mas as duas pontas dessa história musical se encontram para consolidarem um momento único: o encontro de Samuel e Lô passa a ser um divisor de águas para aqueles que não conheceram o Clube da Esquina. Mesmo sendo um disco cansativo, o encontro dos dois não ficará mais do que pouco tempo registrado aqui, em um disco atemporal, tímido, mas com letras bem caprichadas e que elevaram um tempo glorioso da música popular brasileira.

 

Samuel Rosa e Lô Borges Ao Vivo (2016)
Nota 8
Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto?


Por que devemos ouvir Adriana?
Dona de uma voz irresistível e detentora de discos antológicos, Adriana Calcanhotto é mais que uma letrista competente dentro da música popular brasileira. A gaúcha que contempla a paisagem carioca tem o domínio fácil de criar composições românticas dentro de um campo semântico de bel-prazer, atravessando os horizontes do infinito para aprofundar em sentimentos desesperados e desamparados com o brilhantismo de uma mente inquieta. Essa é Adriana Calcanhotto, a cantora que inspira multidões, que devaneia os sonhos mais perplexos e que instaura mistérios cabíveis de calmaria insana. Mas dentro da atmosfera musical de Adriana existe uma personalidade muito forte, incandescente, próspera e audaz que nos remete a uma indagação profunda: por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto? A resposta não é tão fácil quanto possível de ser explicada, mas existe uma contrapartida básica e singela para tal demonstração do porque devemos ouvir suas músicas. Adriana tem em seu currículo o panorama carioca registrada em músicas como Carioca e Maresia, tem o vendaval de explosão magnética em canções como Senhas, Vambora e Mentiras e tem a emoção aflorada em músicas como Inverno e Esquadros. Mas não é só isso. De todas as cantoras surgidas na década de 1990 (Marisa Monte e Adriana duelaram firmemente para se manterem no topo das melhores cantoras surgidas nesse tempo), Adriana foi a que melhor representou a MPB, tendo em consequência maior disso seu tino para compor aquilo que a população exigia. Se de um lado tínhamos Marisa Monte e seu lado mais alternativo de cantar e compor, de outro tínhamos Adriana com seu estilo mais calmo, denso e que adentrava por entre nossos poros e peles com um dissabor incansável. Sendo uma expoente do Tropicalismo de Caetano e Gil, Adriana nos apresenta em suas canções àquilo que outras cantoras não nos mostram: sua versatilidade entre o cantar e o brincar, sua sensação térmica em reestruturar canções antigas, sua magia em trazer à tona ilustres personagens já esquecidos pelo tempo. Foi assim que trouxe Frida Kahlo para o seu universo na música Esquadros e que reviveu Hélio Oiticica em Parangolé Pamplona, sobre o trabalho do artista de 1968 chamado Capa Feita no Corpo.  Waly Salomão certa vez disse que Adriana constitui uma ótima vitrine para a poesia e ele estava coberto de razão. Waly é remanescente do Tropicalismo, tem na bagagem ótimas letras e seu estilo de garoto fanfarrão se contrapôs com o estilo cinzento de Adriana, que é o estilo de uma artista que é cúmplice de seu próprio estilo. Além de trazer para a sua música todo o tropicalismo ocidental, traz também a poesia que muitos desconhecem, fazendo disso um arsenal ainda mais motivador para sua obra. A poesia de Mário de Sá Carneiro, Cid Campos e Augusto de Campos, Ferreira Gullar e Oswald de Andrade estão escancaradas em forma de música por sua voz tão aveludada quanto autoral. É por essas e outras que devemos ouvir Adriana: não é qualquer cantora que consegue unir o passado com o presente, fazer de um simples elo de sofisticação singular com a beleza popular e fazer delirar os corações apaixonados com seu semblante angelical. Precisamos ouvir Adriana Calcanhotto para termos a certeza de que a música popular brasileira é rica em detalhes e que pode ser útil também perante a poesia concreta e abstrata, perpassando pela pintura visível de grandes mestres das cores.

 

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Brasil de Inclassificáveis por Ney Matogrosso


Brasil Inclassificável por Ney
A música Inclassificáveis foi composta e gravada por Arnaldo Antunes no ano de 1996 para o álbum O Silêncio e contava a participação de Chico Science, expoente da música nordestina de qualidade excepcional na época e que trata de um tema muito pouco conhecido por todos nós: a formação do povo brasileiro como um todo. Inclassificáveis traz a tona na seara musical a fenda dos olhos das pessoas perante o Socialismo, a Antropologia e a diferenciação de suas raças. Para inicio de conversa, não estamos falando de coisas fáceis: cantar Arnaldo Antunes já é uma tarefa dificil e seus pensamentos com relação àquilo que o rodeia é uma relação de complexidade muito maior que sua própria imginação conduz. Tendo como crítica clássica sobre um tema tão pouco minado no Brasil (Clara Nunes já vinha com essa miscegenação de raças em sua carreira na década de 1970), Arnaldo apenas reforçou um assunto subliminar sobre aquilo que sabemos que existe, mas que ninguém tem na consciência privada de que é importante para detectarmos quem realmente somos e sobre nossa própria origem, revelando nossos antepassados. Quando foi lançada, a música na voz de Arnaldo e Science não rendeu tantas promessas musicais, mas quando Ney Matogrosso e sua força teatral a cantou no excelente álbum que leva o título da canção, as pessoas pararam e refletiram: de onde é que viemos? Porém, Ney Matogroso não entrou na onda de ser um sociólogo da música popular brasileira: ele mesclou essa canção antropológica de Arnaldo com canções políticas de Cazuza,  Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil com o romantismo lírico de Itamar Assunpção e com os versos de peso moderado de Carlos Careqa e Pedro Luis. Óbvio que Inclassificáveis teve um peso muito maior neste álbum, pois a música não tem fácil articulação vocal e cantar da forma perfeita com a qual Ney canta a transformou em uma das melhores faixas do disco. Inclassificáveis (2008 / EMI / 28,99) é um disco completo, com uma capa perfeita e que traz um Ney Matogrosso ainda mais vigoroso dentro de sua arte, dentro de seu universo e dentro de suas conquistas.  Arnaldo Antunes compôs Inclassificáveis em um nível muito acima de sua intelectualidade: aqui ele trabalha com neologismos e construções harmônicas de modo a formar uma verdadeira coberta de tiras etno-culturais que formam a analogia do povo brasileiro, interrogando a todo momento a matriz exemplar desse povo (índio, branco e negro), indo direto ao ponto nevrálgico de novas formações culturais, como o mulato, o cafuzo e o mameluco. A partir dessas mesclagens surgem os crilouros, tupinamblocos, guaranisseis, ciganagôs e judárabes.  Somos brasileiros inclassificáveis, pois somos frutos de nossa combinação racial secular. Assim como enfatizou Arnaldo cantado brilhantemente por Ney, aqui não tem cor, tem cores. Ao analisar o disco inteiro de Ney Matogrosso e refletir basicamente o que uma canção tem a ver com a outra, entre socialismo, antropologia, política e romantismo, posso atestar que vivemos em um Brasil inclassificável.

 

Inclassificáveis (2008) / Ney Matogrosso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Maria Rita não empolga em disco ao vivo de samba


O samba de Maria Rita: particular
Maria Rita é sempre assim: quando acerta em um disco, erra no outro.  Não que seus discos sejam totalmente ruins, pelo contrário, mas é que algumas canções não caem bem em sua voz, ou a capa é estranha ou o sorriso é forçado ou alguma coisa não está bem, mas nunca que seus discos sejam ruins ou cansativos. Mas achei desesperada a ação da cantora em lançar um disco praticamente igual ao que ela acabara de lançar: Coração a Batucar (2014) é um dos melhores discos da carreira da cantora, mas colocar no mercado um disco ao vivo com as mesmas cançõe que o anterior e com algumas pinceladas de outros discos, não caiu bem e faz com que esse seja um desperdício musical total. Além de ter uma capa simples entre cores funebres e estranhas, Maria Rita errou feio ao cantar o mesmo repertório do disco anterior, chegando a ser caricato, paupérrimo, sinistro. Com uma pressa imediata para lançar o novo disco, a gravadora cometeu uma das maiores gafes do mundo da música: Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016 / Universal Music / 29,99) teve a oitava faixa, Coração a Batucar, trocada por Num Corpo Só, que não está originalmente neste repertório. A gravadora já se prontificou a ajustar o erro e quem comprou o CD com esse defeito, poderá fazer a troca através do site da Universal.  O Samba em Mim não é um bom disco, não há sustância para ser um disco de samba da melhor qualidade, porque Maria Rita já o fez anteriormente. Mas há naturalidade aqui: Maria Rita nos apresenta em O Samba em Mim um samba atualizado e na mais humilde das palavras, particular e familiar, que presta uma consideração à tradição sambista e que assume o livre-arbítrio de filtrá-la a partir da marca incomum de sua assinatura como cantora. Friso mais uma vez que esse não é o melhor disco da cantora, mas que este está interligado à Samba Meu (2007) e desde então está presente nos discos que produziu a partir deste. Samba Meu foi o primeiro grande desafio de Maria Rita no universo do samba e com este disco ela alcançou notas ainda maiores não apenas pessoal, mas com a conquista de público fiel ao seu trabalho.

 

O Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016) / Maria Rita
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Os Pássaros Urbanos (2014) de Raimundo Fagner



Os pássaros de Fagner
Raimundo Fagner é um dos melhores cantores nordestinos, sem tirar os méritos de outros grandes artistas de sua geração. Mas a capacidade vocal e a extensa lista de sucessos refletem em sua carreira sólida o status de um dos melhores de todos os tempos. Depois de quase cinco anos sem lançar um disco, o cantor e compositor cearense volta com a prioridade de reconquistar o público perdido, angariar mais ouvintes à sua música e disposto a provar que sua criatividade não se esgotou. Em Pássaros Urbanos (2016 / Sony Music / 22,00), o cuidado com a escolha de um repertório bem selecionado com uma sonoridade perfeita e letras bem arquitetadas, o cantor revisita o cenário nordestino como um pássaro musical marcado pela cultura de sua geração. O disco contém 11 faixas, sendo três regravações, que resumem quatro décadas de estrada de um dos nomes mais bem-sucedidos da história da MPB.  Fagner tinha sede de se lançar de novo ao seu público e muita vontade de jorrar para fora toda a sua cantoria embutida pelo longo hiato na qual submeteu. Pássaros Urbanos versa sobre amores urbanos com sons contemporâneos, um tom predominantemente romântico, que é a marca registrada do cantor. O repertório traz parceria com Fausto Nilo (Balada Fingida), Zeca Baleiro (Samba Nordestino) e Belchior (Paralelas), sendo uma releitura de um dos clássicos do repertório deste. Pássaros Urbanos mostra toda a versatilidade de Raimundo Fagner perante a sua regionalidade e toda a sua superação musical ao voltar ao cenário da MPB com um álbum de inéditas. O disco é uma verdadeira obra prima. Os pássaros de Fagner resolveram voar sem uma parada obrigatória.

 

Pássaros Urbanos (2014) / Fagner
Nota 9
Marcelo Teixeira


 

sábado, 18 de junho de 2016

A suma importância de Marina Lima


Marina: popular, elitista e agressiva no Rock
Há uma atmosfera que ronda a música popular de alma roqueira e agressiva de Marina Lima e que está gravada em praticamente toda a sua discografia, não deixando margens para que o seu universo se perca por entre ruínas dissoluveis e papiros transgressores. Para os anos de 1980, Marina Lima representou não apenas a alma roqueira da cantora brasileira como bem salientou que não era preciso ter voz para alcançar altas notas ou que fosse um mero produto do mercado naquele momento. Marina represento mais do que sua própria música exigia: representou o lirismo e a ingenuidade do rock na sua mais plena satisfação. A suma importância de seu nome na música brasileira representa a maior divindade corporativa de um segmento que ainda persiste até hoje, com outras nuances e outros objetivos. Sim, o rock mudou. A música brasileira mudou. Se de um lado havia uma Rita Lee tresloucada e uma Ângela Ro Ro que bebericava dessa mesma fonte mas numa outra vertente mais romântica, de outro lado e com mais conformismos, tínhamos Marina Lima, cantora composta dentro de sua neutralidade, que cantava auilo que sua voz permitia e aquilo que sabia que o povo queria ouvir. Por traduzir tão fantasticamente o cenário carioca, a cantora nascida no Piauí revela em seus discos o estilo único da mulher que consegue compor em sua forma magistral. Marina foi a nordestina que mais bem traduziu o Rio de Janeiro em sua forma geográfica, geométrica, plural, popular, elitista e hermética. Suas músicas são o reflexo poderoso de um tempo que o próprio tempo tenta apagar, com algumas ressalvas conservadoras e com alguns aspectos privativos. Atrevida, sensual, erótica, provocadora, instigante, Marina Lima foi tudo e mais um pouco em sua meteórica carreira blindada entre a solidão na arte de compor e a alegria na arte de se lançar. Marina conheceu a tristeza e as amarguras de uma década marcada pelo bom som e pela decadência da boa música, mas nem por isso sua majestade gloriosa derrapou: ela soube o momento de parar para dar lugar às novas vozes. Vozes essas que não chegaram ao seu estrelismo, ao seu magnetismo e nem ao seu talento. Marina Lima foi única, lunar, absolutamente ela. Longe dos holofotes devido a um grave problema de saúde nas cordas vocais e depois de uma depressão severa, a cantora ainda  lança discos (menos convidativos, mas originais) ainda é referência quando se fala de rock, de musicalidade nacional e de competência artistíca. Para quem não a conhece, seu nome é Marina Lima.
 
A suma importância de Marina Lima
Por Marcelo Teixeira

domingo, 12 de junho de 2016

O legado de Vanusa

O legado de Vanusa
São poucas as cantoras que conseguem unir presença de palco e voz marcante, seguindo de uma expressão facial caracteristica para cada canção e ter carisma, artifício que faz com a artista seja ainda mais valorizada pelo seu canto, pela sua arte. Em uma época em que cantoras tinham mais talento vocal e glamour personificado, muitas delas acabavam duelando-se entre si para poderem adquirir status de melhor cantora do momento. Isso foi há mais de 30 anos, porque hoje em dia o que permanece inato é o legado que cada uma trouxe na bagagem e o que cada uma pode representar na vida e na cultura intrínseca de cada individuo. Vanusa foi mais que uma cantora: ela foi uma vertente de explosão metafísica que conseguia explanar com serenidade e fervor o seu público, uma mulher de fibra e de potência vocal impressionante e uma cantora de pulso vibrante, corajoso e audaz. Vanusa foi a cantora que mais brilho teve nas décadas de 1970 e início da década de 1980. Foi, acima de tudo e de todas as outras presentes, a cantora romântica que cantava em protestos, cantava em favor de uma ordem e cantava para além do amor. Foi uma cantora que levou muitas pessoas ao delírio, ao estarrecedor mundo do obscuro com sua interpretação inquietante e sua doçura plena. Vanusa foi uma cantora. E ainda é uma cantora. Antes dessas novas cantoras pensarem em pegar em um microfone, elas precisam ouvir Vanusa, degustar Vanusa, entenderem Vanusa. E muitas podem até se comparar à Vanusa futuramente, mas Vanusa é apenas uma: ela própria. Sendo uma vertente única e uma exemplar de musicalidade de um tempo, Vanusa é preciso ser redescoberta pelos novos ouvintes que ainda insistem em dizer que cantoras bregas de hoje em dia são maiores que as de antigamente. Vanusa é sinônimo de música de verdade, de respeito e de categoria.  Musa da Jovem Guarda, Vanusa é a representação formal de uma cantora que conseguiu fazer de sua voz um arsenal a favor do Brasil e teve a audácia de duelar com cantores para estar no topo mais alto possível de seu enorme sucesso.  Depois de dedicar uma vida inteiramente para a música, sua estrela derrapou e, em 2009, o país a espinafrou depois que ela cantara o Hino Nacional erroneamente, em uma sessão na Assembléia Legislativa de São Paulo. Vale lembrar que nessa época, a cantora enfrentava uma depressão severa, agravada pelo uso de remédios controlados. Nos dias de hoje a cantora é mais conhecida por esse episódio do que pelas belas letras que cantara no passado.  O nome Vanusa já está marcado definitivamente na música popular brasileira como sendo uma das mais brilhantes cantoras, uma das mais poderosas vozes e uma das interpretes mais sensacionais deste mundo.  Vanusa é a estrela maior de toda uma geração, uma artista incandescente e uma cantora magistral. E esse é o seu maior exemplo, seu maior legado.

 

O legado de Vanusa
Por Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Os mistérios e as coleções de Marisa Monte


Marisa: coleção de diva
Marisa Monte é uma cantora que guarda na manga muitos segredos musicais. Quando ninguém espera nada dela, eis que ela surge e consegue se safar do ostracismo opereta e se torna mais uma vez a rainha do cenário musical. São poucas cantoras que conseguem fazer isso e Marisa Monte se iguala à Adriana Calcanhotto no quesito originalidade quando se pensa que ambos os repertórios estão fadados ao cansaço ou ao celibato das velharias. Não é fácil ser Marisa Monte nos dias de hoje, ainda mais com tantas cantoras boas surgindo a cada esquina achando que serão Marisa Monte. Ser Marisa Monte é um árduo trabalho e uma dificílima tarefa. Fã de Anitta e de seus funks modestos, Marisa Monte conseguiu driblar seus fãs mais uma vez e lançou Coleção (2016 / EMI / 35,99) com pompa de grande estrela. Mas o que a cantora nos trás é uma coleção de músicas gravadas em outros carnavais e que não foram postas em discos. Não importa: a capacidade vocal da cantora e as canções já valeram pelo ano inteiro e só comprova a essência de Marisa em um país massacrado musicalmente. Sendo uma das maiores vozes do país, Marisa Monte lança Coleção em um momento que a própria música popular brasileira pede socorro às grandes vozes femininas, tendo em vista que apenas as medianas e popularescas lançaram discos paupérrimos. Marisa vai no contra fluxo deste paradigma e entra de cabeça no rol dos melhores CDs lançados até agora neste ano. Não chega a ser o melhor de sua carreira, mas um dos melhores dos últimos anos colocando em pauta todo o seu trabalho. Vale a pena ouvir e (re)ouvir as músicas deste álbum como sendo um acalanto para nossos ouvidos, um refresco para nossa alma e um sentindo aquele sentimento de que a música está salva de grandes impropérios suburbanas. Marisa Monte guarda segredos e contém muitos mistérios. Mas de uma coisa é fato: Marisa Monte é diva.

 

Os mistérios de Marisa Monte em Coleção (2016) / Marisa Monte
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O ecletismo baiano de Vania Abreu


Vania: antiaxé
Longe dos holofotes que tantas cantoras buscam e distanciando-se das grandes vozes poderosas que conseguem alcançar notas quase impossíveis, Vania Abreu consegue ser dona de uma particularidade única: ser a detentora de maior de um universo musical rico em qualidade e sonoridade. Todos os discos de sua carreira contém sucessos de compositores consagrados e que está na boca do povo, porém, as pessoas muitas vezes não associam a música à cantora. Vania é magistral em tudo o que faz e seu sumiço da grande mídia faz com que seu talento respingue nas classes denominadas cultas por um grupo seleto que preza pela boa música. Seio da Bahia (1999 / 27,99) nasceu de um sonho antigo da cantora, que queria trazer para a juventude a lembrança de que as cantoras da década de 1930 não tinham um estilo único, cantando aquilo que queriam e não se limitando a extravagâncias musicais. Nesse disco, Vania comprova seu lado eclético, distanciando sua imagem com o axé da Bahia que nasceu do Carnaval que tanto gosta e da irmã, Daniela Mercury. Seio da Bahia, o terceiro álbum de Vania, comprova toda a sua sensibilidade artística, visceral e cultural de sua alma lírica musical. O disco tem um lado político a começar pelo título e talvez seja um recado direto e certeiro de Vania contra a cultura do axé que tanto disseminou pelos quatro cantos do país e se alastrou pelo mundo: sua irmã, Daniela, ajudou a difundir a música baiana num vapor de 360 graus, enquanto Vania dispara contra o ventilador e tenta mostrar que o seio da Bahia é justamente o oposto, sendo um dilatador refrigerado dentro de um pantaleão vulcânico. É preciso ouvir Seio da Bahia como se estivéssemos na Bahia, sentir a mistura contempôranea dos fatos, resistir ou tentar resistir aos blocos carnavalescos e aspirar todo o sabor formal que a verdadeira Bahia nos traz. Ouvindo esse disco temos a nítida sensação de que Vania complementa a obra de Dorival Caymmi, que sublinha com as canções de Assis Valente e passeia na pele transcedental de Caetano e Gil numa atmosfera mais densa, mais calma, mais serena de ter a baianidade em nossa pele híbrida.

 

O ecletismo baiano de Vania Abreu
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 22 de maio de 2016

Adeus, Cauby!


Cauby: eterno
A maior voz do Brasil se calou! Fecham-se as cortinas, cessam-se as palmas, entristecem as mulheres, choram os homens. As gargantas eclodem naquela vontade desesperada de chorar. Feliz daquele que pôde conhecer a obra fenomenal de Cauby Peixoto. Feliz daquele que pôde ouvi-lo cantar suas maiores canções. Feliz daquele que soube que foi feliz por vê-lo apenas falar. Cauby era mais que um cantor, era maior que sua própria vida, maior que sua própria personalidade. Era culto, refinado, ímpar. Era Cauby. O Cauby da Conceição, o Cauby da Ângela, o Cauby da Maria. Mas era também o Cauby do José, do Pedro e do Severino. Era o nosso Cauby. O Cauby que para algumas pessoas desse século puderam respeitar,admirar e ouvir. A juventude digital deu ao cantor toda a sua glória, todo o seu glamour, todo o seu prestígio. Cauby era admirado por todos e mesmo não sendo um cantor que vendesse milhares de discos nas últimas décadas, era reconhecido como o cantor das melhores vozes deste país. Morreu Cauby. O último cantor do Brasil que era romântico, fiel às suas origens, disciplinado com seus músicos, respeitado pelas crianças, adorado pelas avós, inquieto com suas fãs e com a juventude por querer mostrar-lhes e ensinar-lhes aquilo que viveram décadas atrás. Cauby Peixoto era o último grande cantor dos teatros de revista, dos palcos com gliter, dos ternos coloridos, das perucas diversas. Morreu Cauby, mas não sua essência. Seu brilho continuará e sua voz não se calará porque Cauby é eterno. E ele há de estar nos olhando lá de cima dizendo cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim...

 

Simplesmente Cauby!
Por Marcelo Teixeira

sábado, 7 de maio de 2016

Rita Ribeiro e o último disco tradicional de sua carreira


 

Rita Ribeiro: um bom disco
Rita Ribeiro lançou Comigo em 2001 e foi um disco muito bem recebido pela crítica popular, mas não pela crítica jornalística. O álbum é bom e de fato não chega a ser um divisor de águas na carreira de Rita, que agora assina como Beneditto, mas já deixava claro que a cantora precisava se afastar um pouco do cancioneiro de Zeca Baleiro e Chico César (tanto que ela gravou uma bela música de Vander Lee, Românticos, que virou referência em sua carreira e ofuscou músicas de compositores consagrados como Baleiro, César e Jorge Ben). Sendo o último disco antes da virada retórica e triunfal na vida da cantora para o misticismo e a religiosidade crescente em seu cárater pessoal, Comigo não deixou marcas profundas na carreira de Rita, mas alçou a musicalidade da cantora para um público que ainda não a conhecia, fazendo com que ela se tornasse uma referência ainda maior no Brasil. É bem verdade que Rita já vinha sendo conhecida pelas músicas compostas pelos amigos Zeca Baleiro e Chico César e isso estava fazendo com que a cada CD lançado fosse esperado ao menos três canções de cada, mas a grata surpresa foi ter a música Românticos como sendo o carro chefe deste trabalho. A música foi composta pelo mineiro Vander Lee, que estava iniciando na seara musical, mas que já vinha com uma música que muitas pessoas já tinham se identificado, Esperando Aviões. Comigo não é um disco em que temos que parar para ouvir com uma profundidade enorme, mas não podemos tirar todo o mérito deste álbum. Rita estava inspirada nos vocais, nas melodias, mas não estava inspirada por completa na arte visual, pois a capa e o encarte são horríveis. Tirando esse percalço, o disco tem um carisma profundo de brasilidade espontânea e a voz de Rita está impecável.

 

Comigo (2001) / Rita Ribeiro
Nota 7
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

25 anos sem Gonzaguinha


Gonzaguinha: saudades
Jamais haverá um cantor com a dimensão de Luiz Gonzaga Júnior: ele era mais do que um cantor. Era um dos melhores compositores de sua geração, um dos mais procurados pelas cantoras em ascensão dos anos 1980 e estava no auge da carreira artística quando sofreu um acidente de carro e partia para um outro plano, 1991. O Brasil perdia naquele momento seu filho mais ilustre, o artista completo, que conseguiu expor em canções todos os sentimentos possíveis e imagináveis, todas as amarguras e dissabores que uma pessoa possa ter, um cantor por excelência e um compositor por exatidão. Neste ano de 2016 completam-se 25 anos de sua morte e o Mais Cultura Brasileira faz uma ressalva para aqueles que não conhecem a obra magistral deste grande artista morto precocemente, na tentativa de poder resgatar sua imagem junto aos cantores que bradaram contra movimentos erradicados dentro do próprio país. É lastimável que um país com um vasto conhecimento musical fora de seu território, tenha populares que não conseguem enxergar para dentro de seu umbigo e reconhecer seus talentos. Essa injustiça acomete ao Gonzaguinha, um cantor que detestava holofotes, mas que gostava de entrar em brigas musicais, nas quais sempre ganhava. Mas e se vivo fosse, como seria a postura de Gonzaguinha? Na certa estaria bradando ainda mais contra a política, ainda mais contra os sentimentos aflorados e defendendo a figura feminina como sempre o fez.  No ano passado, o cantor faria 70 anos e pouca mídia fez questão de frisar isso, o que acaba pulverizando ainda mais o mecanismo de divulgação do artista para os dias atuais. A geração que nasceu com o advento da internet e das redes sociais em voga não teve a oportunidade de ouvir ou de acompanhar a carreira meteórica de Gonzaga Júnior, um cantor eletrizante e magnético, mas na certa essas mesmas pessoas já ouviram músicas como O que é, o que é, Grito de Alerta, Explode Coração ou Espere por mim, morena ecoando por ai nas vozes de outras cantoras. Mas essas mesmas redes sociais ajudam a fomentar a ideia de que Gonzaguinha está nas paradas de sucesso hoje e sempre, pois há várias páginas em homenagem ao cantor que faz com que o internauta possa conhecer a obra incandescente deste artista único.  São 25 anos de saudades, mas graças ao legado que o cantor nos deixou, nos apegamos às suas músicas e podemos sorrir sem medo e vergonha de sermos felizes.

 

25 anos sem Gonzaguinha
Por Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

1976: o ano de Milton Nascimento

Capa estranha e disco mediano de Milton
O ano de 1976 era o décimo na carreira artística de Milton Nascimento, um cantor que vinha agradando ao público desde os anos 1960 pela potência de sua voz e pelas composições de força impactante que produzia em um país sem alma. Foi um ano intenso, marcante , profundo e determinante em sua carreira. Além de produzir o álbum Geraes com a participação dos novos amigos Chico Buarque, Mercedes Sosa e o conjunto chileno Agua e de musicar Maria, Maria, a peça de estreia do grupo de dança contemporânea Corpo, Milton ainda encontrou um tempo em seu calendário para gravar o seu terceiro disco nos Estados Unidos. Dessa vez, um álbum com todas as canções traduzidas para o inglês para facilitar a divulgação nos mercados norte-americano e mundial. Deu certo. O novo disco foi intitulado apenas de Milton e seria o primeiro do contrato recém-assinado do cantor e compositor com a gravadora de maior prestégio lá fora, a A&M Records. Das nove músicas selecionadas, duas eram inéditas: Raça, composta em parceria com o grande amigo e poeta Fernando Brant e a bela, visceral e prodigiosa Francisco, composição solo de Milton. Milton estava em todas as bocas com o lançamento deste disco, mas esse feito só aconteceu devido o lançamento anterior, Geraes, que comoveu o público com ricas e belas canções, lançado também no emblemático ano de 1976. Ao todo, Milton lançava dois discos simultaneamente, um feito e tanto para um artista nos anos 1970. A grande sacada deste álbum foi o fato de mesclar músicos brasileiros tarimbados na missão de tocar com o genial autor de Travessia, como Novelli no baixo, Toninho Horta na guitrra e Robertinho Silva na bateria com alguns brasileiros radicos nos Estados Unidos, caso dos percussionistas Airto Moreira e Laudyr de Oliveira e o trombonista Raul de Souza, o tecladista uruguaio Hugo Fattoruso e os jazzistas americanos Wayne Shorter no sax e Herbie Hancock nos teclados.  Milton (1976 / A&M Records / 24,99) não é um grande disco na carreira de Milton Nascimento, mas confirma a sua identidade dentro da música popular brasileira. Agora o disco volta com força total às paradas devido a faixa Francisco ser tema de abertura da novela Liberdade, Liberdade (2016, Globo), em que homenageia Tiradentes e sua filha Joaquina. Seja como for, a impactante e majestosa canção ganha todo o disco, faz uma entrada triunfal na novela e capitula o vacalise de Milton Nascimento para sempre.

 
Milton (1976) / Milton Nascimento
Nota 9
Marcelo Teixeira

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Bang de Anitta



 



Sucessos descartados

Não existe comparação de Anitta com nenhuma outra cantora brasileira em atividade hoje em dia. E nem poderia existir porque Anitta é única e exclusiva: apenas ela consegue ser ela. E ela consegue ser melhor cantando do que falando, cantando do que dando entrevistas, cantando do que fazendo qualquer coisa. Mesmo que sua especialidade não seja a voz e nem a mente, Anitta se sobressai apenas com seus glúteos avantajados (Freud poderia explicar isso!). E só. Mas não posso deixar de dizer que Bang (2016 / Warner Music / 28,99), sua nova produção, é legalzinha dentro dos padrões do pop nacional. Mas as únicas músicas que se superam nesse disco é a faixa título e a número dois, Deixa ele sofrer, porque as outras faixas são de uma tristeza que só: músicas que não nos leva a lugar nenhum em questão de intelectualidade e/ou musicalidade. Óbvio que Anitta não é uma cantora que foi produzida para ser a musa da MPB e nem pensaram na possibilidade de fazer dela uma nova Elis Regina ou Gal Costa e, por esse mesmo motivo, a cantora consegue ser autoral naquilo que faz, consegue ser ingênua em suas entrevistas e muito sincera em suas opinões e, talvez por isso e nesse quesito, seja melhor ouvir suas músicas. Anitta é o tipo de cantora que precisa se conhecer mais e estar mais antenada com o mundo que gira ao seu redor e mesmo sabendo que isso poderá demorar muito para acontecer, ela parece que prefere ficar nesse mundinho pop fashion que não enriquece a ninguém culturalmente. Porém, preciso ressaltar aqui que a cantora consegue dar a volta por cima e lançar discos cada vez mais audaciosos, dispostos a estarem em primeiro lugar nas paradas de sucesso e a angariar status de diva da música popular brasileira. Anitta é a favorita de dez entre dez jovens e passou a ser a nova queridinha do momento glamour. Mesmo não cantando nada, a cantora mais esboça seu corpo do que canta suas músicas e isso não é um defeito maior, até porque Anitta passou a ter corpo para poder exibir nacionalmente. Mas o que peca aqui é a qualidade musical de seu novo álbum: apenas Bang consegue ser atraente, nada mais do disco é atrativo e isso se prova nas estações de rádio e programas de TV. Com várias participações especiais, Bang passa a ser o melhor da carreira da cantora por ser o mais bem produzido, o melhor adaptado, o mais hermético e o que traz uma sonoridade mais explícita de Anitta. Mas quem ouve Bang por inteiro logo pára para poder pincelar músicas antigas de sua carreira. De fato e tediosamente, a cantora consegue ser uma diva daquilo que produz, mas o que Anitta precisa entender é que as divas tropeçam, caem, se machucam, erram e umas nem levantam com o tempo.

 

Bang / Anitta
Nota 7
Marcelo Teixeira