domingo, 30 de setembro de 2018

A morte da maior cantora do Brasil: Ângela Maria

Luto pela dama 
Hoje estamos órfãos! Órfãos de uma grande voz, de uma grande cantora que estava no auge de seus 89 anos e na ativa, nos palcos, ao lado do seu público, da sua gente, da mocidade, das pessoas, de todos. Órfãos! Quando uma grande cantora morre, a responsabilidade daqueles que ficaram é preservar sua imagem, sua voz, reverenciar dia após dias o seu legado e não deixar que sua obra também morra. Morreu Ângela Maria, a cantora que influenciou Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Simone e uma infinidade de cantoras. Morreu Ângela Maria, a última cantora do rádio, a amiga de Carmen Miranda, de Cauby Peixoto, de Agnaldo Timóteo. Perdemos uma cantora de qualidade, de respeito, de carisma, que tinha um respeito imenso pela música e pelo seu instrumento principal: a voz! Morreu querendo estar nos palcos, morreu querendo cantar, morreu se preocupando com seus fãs.

Ângela era a maior cantora viva desse país chamado Brasil, com uma trajetória invejável. Aos 89, com mais de 115 discos gravados, mais de 60 milhões vendidos, caminhava entre as melodias e letras que por si compõem a história de ao menos 70 anos de MPB. De Hervilton Martins e Roberto Carlos a Cazuza, cantou as dores, os amores, as alegrias e as tristezas para muitas gerações e sempre com uma entonação de emoção.

A artista Ângela Maria era um motor humano que não parava um segundo. Mesmo com as dificuldades de visão e outras que acumulam com o passar dos anos, não parava com seus shows e os planos para o ano em que completaria 90 anos. Gostava de cantar, gostava de estar rodeada de amigos e gostava de ouvir atentamente cada faixa antes de gravar. Gente Humilde, de Chico Buarque, foi uma dessas conquistas selecionadas a dedo (ou ao ouvido). Chega a ser um mantra aos nossos sentimentos mais humanos ouvir essa obra-prima e não pensar na delicadeza e na doçura de Ângela Maria em sua plena vocação.

Depois de 34 dias agonizando em um hospital particular em São Paulo, a ilustre cantora descansou. Mas sua voz marcante, doce, pura, cristalina e sutil e sua simpatia e cordialidade estarão sempre presentes em nossas vidas!
Descanse, DAMA ÂNGELA MARIA!

A morte de Ângela Maria
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 30 de julho de 2018

A bela sonoridade eclética de Rebeca Matta

Rebeca e o som da nova MPB
Rebeca Matta não é uma dessas cantoras que estão a todo o momento na TV, suas músicas não aparecem em trilhas sonoras de novelas, seu rosto e seu nome é totalmente desconhecido por aqueles que gostam das modinhas musicais de hoje em dia e sim, Rebeca Matta é uma grande artista.  Quando se tem ideias e inquietação sobre aquilo que se quer, tudo pode ser possível para que se torne real. E foi assim com Rebeca, a garota baiana que abandonou um bom emprego e foi atrás de seus sonhos e daquilo que lhe fazia se sentir bem: a música.

Antes da carreira solo, estudou canto, foi integrante de uma banda em Salvador, que misturava diversos ritmos. Seu primeiro trabalho solo e original foi o disco Tantas Coisas (1998), lançado de maneira independente e que foi aclamado pelos críticos mais atentos e que lhe rendeu o prêmio de Revelação de 1999, dado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

No início dos anos 2000 saiu seu segundo disco, Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar, pela Lua Discos e esse trabalho lhe rendeu maior visibilidade, pois trata-se de um disco para quem quer ouvir um som diferente e não ficar indiferente. É um disco sonoro eletrônico, pop, dançante e que tem uma MPB rústica, aguda e sombria, completamente diferente daquilo que se ouvia até então. Há uma modernidade nesse disco (como já resenhado em artigo anterior sobre esse disco), em que as composições próprias de Rebeca ressoam nos clássicos da MPB uma sonoridade moderna e caprichada.

Já no ano de 2006 foi lançado o sensacional Rosa Sônica, o terceiro álbum da cantora, cujo a base da música de Rebeca Mata é a eletrônica, mais precisamente o Trip Hop, aliado a elementos da MPB, do Jazz, do Samba e do Rock. Essa mistura de ritmos é característica musical da cantora, que já havia experimentado isso no eclético disco do ano 2000. A voz doce e suave conversa com a voz agressiva e atemporal da cantora que se casam perfeitamente com as guitarras distorcidas e todos os elementos que formam a sua rica música. Dessa forma, Rebeca Matta trouxe uma roupagem nova e um estímulo próprio à acomodada MPB.

Tente ouvir o som de Rebeca sem as cobranças que a música atual nos impõe em certos momentos, sem aquela rabugice de que somos e temos que estar atrelados aos momentos certos da música e que somos obrigados a seguir determinado cantor ou cantora apenas porque estão na modinha. Às vezes ouvir algo realmente diferente aos nossos ouvidos nos faz um bem danado e Rebeca Matta é a prova disso.


A bela sonoridade eclética de Rebeca Matta
Por Marcelo Teixeira

domingo, 29 de julho de 2018

O submundo musical de Silva

Silva e seus mundos
Silva é um daqueles cantores que você só consegue ouvir se estiver apaixonado ou muito apaixonado ou, na melhor das hipóteses, se estiver pensando em se apaixonar. Avesso ao mercado fonográfico de grande repercussão imediata, o cantor iniciou sua carreira se aproximando da musicalidade de Marisa Monte para, enfim, mostrar a que veio. Antes desse álbum em homenagem à Marisa, Silva já tinha feito outro trabalho, mais modesto, mas ainda assim, pouco visível. Óbvio que todo cantor ou artista sonha com uma grande oportunidade de estar à frente de uma grande plateia ou de estar no centro de uma profusão de mentes dançantes motivados pela sua letra. E foi justamente isso o que Silva fez: saiu do conforto de Marisa Monte e se aproximou da furação Anitta.

Confesso que não queria mais falar de Anitta pelo menos até o final do ano, mas foi impossível não fazê-lo quando pensei em resenhar sobre o novo trabalho de Silva, afinal, a cantora está envolvida musicalmente com ele. Há poucos meses ele gravou Fica Tudo Bem (2018), em parceria com a cantora carioca, mas vale dizer que no currículo do cantor, há parcerias também com Lulu Santos. O clipe da música dos dois cantores ultrapassou a marca de 10 milhões de visualizações em poucos dias e chegou a ser o assunto mais comentado nas redes sociais. Pode parecer incrível, mas muitos ainda não conhecem o cantor Silva.

Com diversos discos de MPB romantizada na galeria de sua enciclopédia, Silva é um desses raros cantores que fazem sucesso entre o público jovem e os amantes da boa e velha música popular brasileira. A discografia do rapaz é boa: Claridão (2012), o excelente Vista pro Mar (2014), Júpiter (2015), Silva Canta Marisa (2016), Silva Canta Marisa Ao Vivo (2017). O trabalho em que canta Marisa Monte, sem dúvidas, lhe trouxe uma visibilidade maior, a mídia acatou seu trabalho, mas o grande público ainda não sabe exatamente como é sua feição.

Isso é uma coisa muito estranha e desengonçada ao se fazer música nos dias de hoje: o cantor se lança, vai para a mídia, mas o público não sabe quem ele é. Ouve suas músicas nas estações de rádio, nas novelas, nas propagandas, mas não sabem como é seu cabelo, sua barba, sua tez. E Silva parece não se importar muito com isso: de parcerias de Marisa Monte a Lulu Santos até a explosão de sua música com Anitta e chegando a mais de 10 milhões de visitas, o que ele mais quer é fazer música e ficar escondido mesmo.

Foto: Jorge Bispo

O submundo musical de Silva
Por Marcelo Teixeira




sábado, 28 de julho de 2018

Os truques de Anitta

Os truques salientes de Anitta
Não podemos tirar o mérito da cantora Anitta de que ela é um sucesso estrondoso aqui no Brasil e angaria a passos tímidos sua incursão em países da América Latina, Europa e todo o Continente. Em alguns países, como México, por exemplo, ela praticamente domina as paradas de sucessos e já é muito requisitada para programas de TV e rádios locais. Mas em países como Colômbia (em que precisará brigar muito com a dona do pedaço, Shakira), Anitta ainda não reinou, mas conseguiu entrar bem timidamente. Portugal, Argentina, Paris, Londres e em alguns outros países ela ainda engatinha, mas o efeito maior mesmo está no país do Chaves, Chesperito e Chapolin Colorado, talvez como uma troca de favores.

Diferentemente do que muitos pensam, Anitta é muito mais esperta que todos no quesito fazer truques: ela tira onda em suas músicas, planeja muito bem como fazer de seus singles um verdadeiro fenômeno e tira de tudo isso um proveito absurdo, sem ao menos... abrir tanto a boca. Explico: em músicas como Bang, de 2015 (mesmo que ainda cante e bem), Paradinha (2017) Vai Malandra (2017), Machika (2018) e o agora sucesso Medicina (2018), Anitta mal abre a boca, mais dança do que canta e nos engana muito bem com seu portunhol esquisito. Não estou aqui querendo dizer que Anitta não é uma boa cantora ou que seu sucesso não é merecido. Estou dizendo justamente o contrário, até porque, no início de sua carreira eu mesmo fui totalmente contrário ao seu estilo de fazer música brasileira e a chamei de medíocre quando queria usar e abusar da comunidade carente para se autopromover.

Mas se você reparar bem nas músicas da cantora, verá que a mesma praticamente não canta muito, que mais dança e rebola do que pratica o ato de soltar a voz. Outra coisa que me deixa muito intrigado é o fato da cantora sempre ter um parceiro para dividir os vocais e isso está em praticamente noventa por cento de suas músicas. Em Vai Malandra ela canta tão pouco, que cheguei a acreditar que ela não estava no clipe. Agora em Medicina o efeito se repete: além de colocar várias crianças e jovens de outros países fazendo o refrão (La La La La La La), ela canta pouco, explora mais o cenário e os países pelos quais perpassa e pronto: clipe feito, música cantada, sucesso estrondoso e ‘bora’ fazer outro sucesso.

Formada em Administração, Anitta é o fenômeno que é devido ao seu caráter, seu estilo despojado e seu lado humano: o povo precisava de uma cantora que os representassem. Isso aconteceu com Carmen Miranda nos anos de 1930, Clara Nunes e Elis Regina nos anos de 1970, Rita Lee e Marina Lima nos anos 1980, Daniela Mercury nos anos 1990, Ivete Sangalo nos anos 2000, Anita nos anos 2010. Ainda risco em dizer que Anitta é a cópia de Ivete, mas em graus diferenciados, porque Ivete explorou muito seu lado baiano, enquanto que Anitta não tem uma identidade cultural, não ficando restrita apenas ao Rio de Janeiro, mas representando todo o Brasil, indo de encontro com a identidade ideológica da História.

Todas essas cantoras citadas tiveram e têm uma representatividade muito grande dentro da MPB e souberam utilizar seus espaços com uma organização temporal incríveis. Hoje Anitta é a maior cantora do Brasil, segundo especialistas de música mais antenados do que esse crítico que vos escreve aqui e agora e que você está lendo-o. Sua grandiosidade artística impera entre aqueles que se sentem representados por ela e que estão órfãos com tantos acontecimentos em prol da maior detentora do pódio musical brasileiro: Ivete teve duas filhas, se afastou da mídia por um tempo, se dedicou à família e o público não consegue ficar muito tempo sem uma representante oficial, mesmo que essa representante não tenha sutilezas ao fazer músicas que perdurem vinte ou trinta anos, como uma Carmen, uma Clara, uma Elis, uma Rita ou uma Daniela. Anitta é a Carmen Miranda do século XXI, mas seu espelho maior é a sombra da Ivete, só que em tamanho menor.


Os truques de Anitta
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de julho de 2018

O Marginal (1992): um disco esquecido de Cássia Eller


Cássia e o segundo disco da carreira
Revirando meu acervo de CDs, encontrei um álbum que raramente é divulgado na mídia, mas que fez grande diferença na vida pessoal e profissional de uma das grandes cantoras que o Brasil perdeu: Cássia Eller. O álbum em questão é O Marginal, lançado originalmente em 1992, em que sua pegada musical era forte e mostrava uma Cássia firme e determinada musicalmente. No ano de lançamento do disco e nos momentos de introspecção na gravação em estúdio, a cantora estava se sentindo muito realizada em poder explorar um trabalho em que tinha a sua marca registrada: a potência de sua voz. Aqui neste belíssimo trabalho, Cássia ficou ainda mais conhecida ao fazer um dueto incrível com Edson Cordeiro, que na década de 1990 reinava absoluto nas paradas de sucesso e era frequentador assíduo de programas de auditório. Ambos cantaram, no disco em questão, a célebre música Satisfaction, dos Rolling Stones e o que mais chamou a atenção foi a inusitada diferença entre vozes: Cássia deu voz a um homem enquanto que Edson, a de uma mulher.  O Marginal foi o segundo disco de carreira da cantora e além de ser muito pouco conhecido ainda nos dias de hoje, é um trabalho subestimado e dos mais realizados pela artista, que, apesar de ter sido o menos vendido de sua carreira, contém grandes interpretações de pérolas da música nacional e internacional, que era o jeito Cássia Eller de fazer discos.

O disco abre com Caso você queira saber e a voz de Cássia se sobressai de cara, tamanha a intensidade que ela se entrega logo na abertura do álbum, nesta composição de Beto Guedes. A guitarra de Nelson Faria também faz bonito. Já a canção Sonhei que viajava com você é mais suave, um clima mais intimista, como um blues mais arrastado e Cássia consegue se sair excelentemente bem. Em Sensações, uma composição de seu amigo Luiz Melodia, aparece um suingue e um naipe de metais para enriquecer os arranjos e o solo de guitarra volta a se destacar. Teu bem, composição de Arrigo Barnabé, é outra de clima suave, que ficou deliciosamente boa, sedutora e universal. Amnésia, outra de Melodia, também carrega no suingue boas pitadas daquele funk gostoso de ouvir e que poucos no cenário musical pop atual conseguem e sabem fazer. Cássia e Melodia eram mestres nisso.

A faixa-título é uma das poucas e boas composições de Cássia Eller, em parceria com outros compositores: trata-se de um rock and roll com muito mais atitude e uma pegada que todas essas bandinhas que infestam nossos ouvidos tentam fazer atualmente. Eles também é uma composição de Cássia e segue ricamente perfeita. Também entra no time Rita Lee, com a música Bobagem, em que soa mais como homenagem em forma de música cantada de uma para a outra do que um trabalho para ser levado a sério. E esse era o mote principal de Cássia: ser leve mesmo quando o assunto era sério. O Marginal é um grande álbum, de qualidade superior, com canções inspiradas, parcerias incríveis e que infelizmente não teve o merecido destaque pela mídia em seu lançamento, muito menos hoje, onde tudo é tão rápido, passageiro, barato...


O Marginal (1992) / Cássia Eller
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Ananda (Quero que tu vá): hit viral e passageiro

Ananda: sem novidades
Fernanda Gama Lins é mais conhecida como Ananda, a cantora do hit viral Quero que tu vá, que está bombando nas redes sociais e a alçou ao estrelato da noite para dia e da madrugada para o amanhecer mais ensolarado que esse planeta já teve. Ao menos para ela, óbvio. O êxito maior dessa música foi o fato de muitos artistas passarem a cantar o refrão de forma sistemática e até fazerem pequenos clipes pessoais para mandarem indiretas para os fãs que tomam conta de suas vidas. Até aqui não há nada de anormalidade, afinal, um hit viral nada mais é do que um hit viral e tudo acaba da mesma forma como começa: de repente! Mas vamos por partes e tentar entender um pouco da música e de quem a canta: se fosse ser chamada de Fernanda Gama ou Fernanda Lins ou apenas Fernanda, não seria legal, tendo em vista que há muitas cantoras chamadas Fernanda e ela seria apenas mais uma na seara. Se pusesse o sobrenome Gama ou Lins, não soaria nada legal, então, optou por colocar Ananda, um nome que praticamente nenhuma cantora tem (exceto Ananda Acosta, atriz, cantora e apresentadora). Primeiro ponto importante para Fernanda foi se transformar em Ananda. O segundo ponto determinante foi manter a voz suave e doce no meio do cenário artístico. A cantora já vinha fazendo parte de uma banda chamada Coquetel Banda Larga, mas seu lance maior era fazer sucesso sozinha.  Mas como chegar ao estrelato de uma hora para outra? Vamos para a apelação, óbvio. A cantora tem uma voz invejável, muito bonita, mas cansativa. Se ficarmos ouvindo Ananda por muito tempo é capaz de não suportarmos tamanha dor de ouvido. Não chega a ser cristalina, pura, sensível. É estridente mesmo cantando baixo. Ananda queria ser viral e o conseguiu: trouxe uma música apelativa assim como seu nome de carreira e pôs a cara no mundo com o hit (que eu me recuso a chamar de música) Quero que tu vá. Cheio de palavrões desnecessários, o hit traz um panorama irônico das pessoas sem paciência com relação às curiosidades alheias. Dito tudo isso, vamos para o choque de realidade: toda cantora despreparada mental, musical ou artisticamente, acaba apelando para o baixo nível, para o nicho da massa e para os sentimentos mundanos. Isso é uma coisa tão natural quanto fazer um bolo de canela com paçoca. Ananda apelou para os palavrões e foi justamente essa a parte de sua música que chama mais a atenção. As pessoas gostam disso, querem isso e sentem prazer em serem representadas  por um hit à altura de suas formas de pensar. Hit viral é tão passageiro que quando foi já não é. É preciso manter o ritmo, demonstrar que canta com letras que nos faz pensar e que é digno de uma personalidade única. Tentando, talvez, refazer seu erro para se colocar na real situação de cantora, Ananda logo pôs em suas redes sociais um pequeno clipe em que canta um clássico de Amy Winehouse, mas o que chama mais a minha atenção é o fato da voz de Ananda e Amy serem idênticas. Sem pretensão de ser diferente. Então, assim como cantoras passageiras que lançam hits passageiros no mercado fonográfico do século XXI, Ananda não vai longe. Ainda mais se pegarmos exemplos como Ana Villella, Kell Smith, Luka, Vinny, Maurício Maniere, Jojo Todynho...


Ananda: hit viral e passageiro
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O novo disco de Sandy: mais do mesmo

Sandy e o mais do mesmo em 2018
Sandy Leah inicia nova fase em sua vida com a preparação de um novo disco, prometido para esse segundo semestre do ano. Aos 35 anos de idade e com cinco discos solos, a cantora e compositora formada em Letras, pretende trazer ao público canções românticas com doses de calmarias iguais aos seus discos anteriores.  Não chega a ser uma notícia exclusiva, até mesmo porque a calmaria é o que mais impera na carreira da cantora, sendo até um cansaço físico e mental ouvi-la atualmente. Foram cinco anos de uma espera infinita para os fãs de Sandy por um disco novo recheada de canções melosas em que fala sobre o amor, o amo, o amor e o amor. Mas, para a alegria desses mesmos fãs, a cantora já está com um pé nos pensamentos acerca desse novo trabalho, que ainda não tem título nem muita coisa formalizada. O lado bom nisso tudo é que a cantora não está pensando em dividir vocais com seu irmão, Junior.


O novo disco de Sandy: mais do mesmo
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O marketing na volta de Simone e Simaria aos palcos

A dupla de sertanejas Simone e Simaria
Você pode até gostar essa dupla de cantoras sertanejas, amar suas músicas, idolatras suas vozes, mas podem ter certeza de que não podem concordar com o marketing exposto por elas, por empresários ou por quem quer que seja. Simaria ficou afastada da mídia e dos holofotes por causa de uma doença gravíssima, procurou ajuda médica e se tratou. Até aqui nada mais do que o normal. Mas o fato é que houve muita especulação enquanto a cantora estava em repouso se tratando: especulação essa desnecessária, tendo em vista que a dupla nada evoluiu nesses tempos conturbados.  Depois do rebuliço todo, a dupla anunciou que está de volta já a partir dessa semana com agenda hiper mega lotada e com aparição inicial em um programa global jornalístico dominical de fim de noite. Tudo preparado mecanicamente para soar verdadeiro. O que, se colocarmos a cabeça para funcionar, nada disso foi tão banal do que o que será apresentado na TV. A dupla se afastou da mídia, dos fãs, a Simone apareceu poucas vezes em um palco (em muitas vezes mais reclamou de estafa do que de alegria pelo trabalho) e agora, depois que o povo praticamente se contentou com o fim da dupla, eis que elas ressurgem das cinzas como se nada tivesse acontecido, ou melhor, até aconteceu, mas agora bola pra frente porque atrás vem gente e podem tirar o trono delas. Sucessos antigos, notícias da doença, das férias forçadas no exterior, das piadinhas infantis da Simaria, do arroubo de forçação de barra da Simone e um público contagiante: tudo isso será visto daqui para o final do ano. Música nova, sucesso novo? Provavelmente não. Essa é a dupla do marketing, ou melhor, a dupla Simone e Simaria.


O marketing na volta de Simone e Simaria
Por Marcelo Teixeira

domingo, 1 de abril de 2018

Thiago Miranda e o excelente Samba pra Elas (2017)

Thiago Miranda: empoderamento feminino
Sempre digo que há a falta de bons cantores no cenário musical brasileiro e que de uns tempos para cá, muitas cantoras (boas, medianas e ótimas), passaram a reinar em diversos estilos musicais com categoria ímpar de inspirações diversas. Não que não tenhamos cantores no Brasil, mas o nicho de qualidade musical está tão aquém, que raramente surge um bom ou ótimo cantor para nos brindar com a felicidade extra de ouvirmos uma boa música. Eis que de todo o vendaval que estamos passando atualmente, surge um dos melhores e mais capacitados cantores e compositores dos últimos anos e que tem na bagagem nada mais do que excelentes canções, excelente timbre vocal e perfeitas melodias. Thiago Miranda é uma das grandes novidades do mundo do samba e não há que ter uma comparação aqui: ele é único, autoral, completo e atemporal. Essa atemporalidade dentro de seu universo faz com que ele seja ainda mais moderno em seu habitat, pois o que ouvimos em seu recente lançamento é um apanhado de sambas com toques e batidas que nos remetem a um mundo em que o desejo era outro, os sonhos eram outros e a sensação de paz eram outros. Thiago Miranda nos transporta a um mundo decente, digno, capaz de nos divertir e de nos fazer refletir com tudo aquilo que nos cerceia, nos rodeia e nos catalisa. E é justamente aqui onde mora o diferencial de Thiago: sua simplicidade nas letras nos transportam a um devaneio de sensações híbridas e carregadas de sentimentos aflorados e sambas perfeitos. Samba pra Elas (2017 / Funalfa / 24,99) é um disco dedicado às mulheres e aos morros, às comunidades, às sambistas, às melodias carregadas de poder ponderado e centrado no semblante do outro que carrega nas costas o trabalho digno, a única roupa que usa, o pouco dinheiro na carteira, mas que são, acima de tudo, felizes. Samba pra Elas é o retrato fiel de que o respeito mútuo se faz presente em canções como Maria do Socorro (Edu Krieger), cantada magistralmente por Maria Rita (2007) e que aqui o cantor entoa uma nova alegoria de humanização. No disco podemos encontrar também as diversas outras marias espalhadas pelo Brasil afora juntamente com as giocondas, marias do mar, giseles, julianas, carolas, jandiras. E esse é o verdadeiro significado do disco: homenagear a singeleza da mulher brasileira em toda a sua esfera, em toda a sua dimensão e propriedade; seja ela de qualquer canto deste país ou dos quatro cantos do mundo. Uma sacada e tanto do cantor, que trouxe para esse universo do samba a redundância da mulher brasileira e de sua importância dentre tantas lutas e guerras geradas por anos a fio até a sua boniteza de sempre. Além do destaque autoral de Thiago para com as mulheres, o cantor presta uma homenagem a Gilberto Gil, remodelando a canção Super-homem, a canção (1979), que fala da fragilidade masculina perante a epopeia feminina dentro de um empoderamento de redoma ulterior e benigna. Encerrando o disco, Todas elas juntas num só ser (Lenine / Carlos Rennó) nos remete às nuances femininas em sua totalidade: a melodia traz aquela sensação de que há que ter um respeito gigantesco pela figura da mulher e ser humano que transmuta entre a menina e a mulher em sua maior predominância. Sendo muito bem representadas, o samba e a mulher são cantadas por um homem, capacitado para tal, para honrar a beleza de duas almas líricas importantíssimas para os dias atuais: a mulher e o samba. Thiago Miranda merece ser ouvido pelo conjunto da obra, pela simplicidade ao descrever situações cotidianas e pelo seu cantar trivial. Um cantor a altura de sua mais alta patente musical, de sua categoria perfeita e magistral e de sua competência artística. Com tantos arroubos musicais da atualidade, em que o que é desprezível acaba sendo degustado ou jorrado em nossa goela abaixo, ouvir e desfrutar as músicas de Thiago Miranda acaba sendo um alívio para nossos sensatos e imponentes ouvidos. 



Samba pra Elas (2017) / Thiago Miranda
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 10 de março de 2018

O samba de Larissa Cavalcanti

Samba de verdade
Ainda extasiado com a voz marcante e potente de Larissa Cavalcanti, não pude me conter em poder ouvir por diversas vezes esse disco que, para mim, se torna um clássico da música popular brasileira pelo conjunto da obra: desde a voz perfeita e nítida da cantora, passando pelos desenhos do disco e, por fim, pela fineza na arte de compor de Caetano Júnior, um dos melhores letristas e poetas dos últimos tempos. Cantando genuinamente o samba que se encontrava perdido pelo mundo, Larissa encanta pela suavidade contida nas belas faixas de Pele Morena e Azul (2015 / Trattore / 24,99), um disco capaz de nos transportar para lugares diversos, para os lugares mais distantes e para o mundo do samba. Aqui há uma confraria de afinidades que sucedem a um dos melhores momentos tanto do samba quanto da música atual, pois os artífices do que traduzem como a verdadeira nata do samba faz com que Larissa Cavalcanti tenha um bate-bola criativo e bem-humorado com alto teor de vida real com as letras e as melodias. Isso tudo se faz presente na atemporalidade consensual e extrai graça de tudo e de todos em nome da flor, da mulher, da vida, do semblante risonho e do amor.  Pele Morena e Azul é um disco pra frente e pra cima, no seu mais alto astral possível. Pra frente porque acolhe ao universo do samba uma nova geração, que o impulsiona de novo, com elegância, a partir do diálogo com o passado e com o presente para pensar no futuro. Pra cima porque é difícil não se sentir à vontade em qualquer canto em que você esteja e não sair cantarolando refrões que caberiam com extrema naturalidade na boca de qualquer sambista nato, qualquer transeunte, qualquer turista estrangeiro, qualquer cidadão. Se você gosta de samba, corra para ouvir um dos melhores discos de samba da atualidade e que tem uma vivacidade e uma força com dimensões espetaculares. Todas as faixas merecem destaque, assim como a bela voz da cantora, que encanta brilhantemente aos nossos ouvidos. O samba pede passagem e nas canções de Caetano Júnior, a cantora Larissa Cavalcanti mandou muito bem. É de arrepiar!


Pele Morena e Azul / Larissa Cavalcanti
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Maria Alcina homenageia Caetano Veloso em disco primoroso

As loucuras de Maria Alcina
Assim que foi revelada no Festival Internacional da Canção com a emblemática Fio Maravilha, em 1972, a cantora Maria Alcina foi contratada para gravar seu primeiro disco e uma das músicas escolhidas foi Mamãe Coragem, de Caetano Veloso e Torquato Neto. Desde então o compositor baiano passou a fazer parte do repertório da cantora, que lançou no ano passado o sensacional Espírito de Tudo (2017 / 28,00), mais um trabalho ousado na sua discografia. Todas as décadas de Caetano estão presentes nas dez músicas que integram o disco, desde os anos 1960 (Tropicália e A Voz do Morto) aos anos 2000 (Rocks e A Cor Amarela) passando pelos anos 1970 (Os Mais Doces Bárbaros e Gênesis), chegando a nostalgia do melhor de Caetano, como Língua e O Estrangeiro, até a espetacular Fora da Ordem, da década de 1990. O convite para fazer esse disco surgiu a partir de conversas noturnas do produtor Thiago Marques Luiz com Alcina e, por meio de suntuosas alegrias e felicitações, ela abraçou a ideia e se jogou num processo de criação coletiva com os três jovens multi-instrumentistas que elaboraram os arranjos do álbum misturando rock, pop e música eletrônica: Rovilson Pascoal nas guitarras, Ricardo Prado nos teclados e baixo e Arthur Kunz nas baterias e programações. Os três pertencem ao grupo Strobo e fizeram um disco mais que sensacional ao lado de Maria Alcina reverenciando todo o currículo de Caetano Veloso.

Espírito de Tudo (2017) / Maria Alcina
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Jojo Todynho: modinha em forma de tiro

Jojo: aberração musical
Anitta fez dois desserviços ao mesmo tempo e, como isso, poluiu o cenário da música brasileira com dois quilos de lixos que o público está digerindo de uma forma inescrupulosa: além do cantor Pabllo Vittar, a cantora Jojo Todynho está infestando as pessoas com a modinha de Que tiro foi esse?, uma espécie de moda passageira que nasce instantânea e morre à míngua assim que um outro hit do momento aparecer. Com um tremendo mau gosto, a música bombardeia as pessoas de uma tal maneira, que fica impossível não deixar a música penetrar nossos ouvidos e mentes por alguns milésimos de segundos. Alçou Jojo ao estrelato, ao mundo da fama e ao mundo subservo das contrariedades. Tudo aqui soa como um tremendo destrato para com aqueles que ainda idolatram uma música de qualidade com requintes de pensamentos verdadeiros. Mas a culpa disso tudo parte, em grande parte, de dois meios diretivos que conseguem manter esse e outros tipos estranhos na música popular por muito tempo: os veículos de comunicação e o público, que seguem cantando suas paródias num ritmo alucinante e enganador. Afinal, músicas desse nível não servem para nada a não ser para provar que essas pessoas são tão baixas quanto seus idealizadores. O mesmo tiro que Jojo dispara hoje será o mesmo tiro que acertará em cheio sua carreira amanhã, fuzilando-a e a retirando do estrelato momentâneo. 

Jojo Todynho: modinha em forma de tiro
Por Marcelo Teixeira 


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O universo do samba de Maria Rita

Sambas de Maria
Definitivamente dentro do universo do samba, como Joyce Moreno a descreveu em música, Maria Rita se consagra em um estilo único e próprio dela mesma, sem as amarras e caricaturas semelhantes às da mãe, Elis Regina, e sem o fantasma do estigma de que era uma cantora mediana graças ao talento de herdeiros. Sempre fui muito crítico com a carreira de Maria Rita, justamente porque ela não conseguia se desvencilhar da mãe e porque seus primeiros repertórios estavam fadados a ser um festival de continuidade na qual a mãe não conseguira cantar. Depois de muito tempo a cantora Maria Rita mostrou a que veio: uma verdadeira detentora do samba no século XXI. Não que seus primeiros discos sejam ruins, pois eles não o são, mas o fato de Maria estar cantando samba soa mais verdadeiro e genuíno de sua parte do que cantar músicas com roupagens fúnebres. Com lançamento oficial no dia de hoje,  Amor e Música (2018 / Universal Music / 35,00) é um dos melhores discos de samba da cantora e, de quebra, o melhor de toda a sua carreira e o fato disso acontecer é muito simples: Maria Rita, além de se consolidar no estilo do samba, conseguiu compreender que sua voz se enquadra melhor aqui do que nas canções ditas populares e intelectuais. Longe de ser uma intelectualizada na MPB, Maria já dava sinais de cansaço ao lançar discos sem graça e com apelo romantizado, coisa que não combinava em nada com seu estilo e que também não se assemelhava com o de sua mãe. Mesmo assim, La Rita vinha com trejeitos e nuances idênticos com as de Elis e isso dava a impressão de que não seria legal, que logo ela seria atacada de um monte de coisas e teria que mudar o revés do caso. Dei muitos pitacos em Maria Rita e depois que ela adentrou no universo do samba, muitas coisas aconteceram: a começar pela voz da cantora, que combina nítida e perfeitamente com o samba e dela trazer para esse ambiente cantores e compositores de outrora, misturando com os da atualidade. Com tudo isso, Maria Rita comprovou que é a detentora do samba, com bastante humildade e muita categoria. Mas tem uma coisa que me chamou a atenção nesse disco: a capa. E quem lê meus artigos desde o começo do meu ofício sabe que sou muito antenado com as capas (mesmo que muitas vezes o conteúdo seja mais significante). Primeiro que a cantora trouxe um ar da década de 1970 e 1980 com as letras no estilo medalhão de ouro e isso soa como uma nostalgia gostosa de ser lembrada e segundo porque a capa é de uma simplicidade sem igual, demonstrando que o pescoço da cantora, destoando a ideia de que sua voz é a maior potência de seu trabalho. Amor e Música mostra as diferentes gerações de compositores em diversos gêneros e a mistura agradável que isso proporcionou, como a parceria entre Arlindo Cruz e Davi Moraes, em Cara e Coragem. Não mais, a canção virou samba após Maria Rita perceber o potencial popular dela e Arlindo cair de cabeça na parceria, pois inicialmente a canção seria um blues.  Cadenciando no samba, La Rita transita entre as canções de amor às dores de saudade e o novo disco tem um fio nítido para a cantora: a faixa título, composta por Moraes Moreira no disco Cidadão em 1991, agora foi gravado em samba. A força de Maria Rita prova que a cantora se distanciou da imagem e semelhança da mãe, como sempre critiquei, e agora ela abocanha seu lugar no topo das verdadeiras cantoras da Música Popular Brasileira. O samba, hoje, pertence à Maria Rita!

 Amor e Música (2018) / Maria Rita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Discos para ouvir: Novo Rumo - Glau Piva canta Caetano Júnior

Novo Rumo: a cara da MPB
O rumo da música popular brasileira não anda lá essas coisas há um certo tempo e é preciso garimpar muito para poder encontrar cantores que realmente salvam o estilo com músicas que elevam nossos sentimentos e nos fazem pensar a respeito da vida, do tempo, das coisas mais absortas. A prova mais cabal de que esse sentimento de renovação ainda existe é o CD Novo Rumo (2017 / Trattore / 23,99) em que a cantora Glau Piva canta Caetano Júnior. Sendo um dos mais belos CDs lançados no ano passado e um dos mais lindos e sentimentais que já ouvi em toda a minha vida, o CD ganha notoriedade pela força de expressão na voz de Glau e pela sutileza e habilidade nas canções de Caetano. A entrega total da cantora fez toda a diferença neste trabalho, pois sua voz casou perfeitamente com os recados anunciados nas canções como Novo Dia, Nuvem Branca ou Contraponto, em que há o ar de uma suavidade ímpar, tamanha a grandeza desse álbum. Totalizando 13 composições de Caetano Júnior (uma melhor que a outra, havendo uma sintonia total entre as faixas), Glau amarra com firmeza o uso de sua potente instrumentação primorosa com as letras bem delineadas de Caetano, que escapam do óbvio e, em uníssono, garantem um duelo de faixas inundas por um sentimento grandioso. Volátil em todas as estâncias e nuances do disco, o registro deste trabalho formidável transita por diferentes setores do cancioneio brasileiro, promovendo tanto músicas carregadas de um lirismo autoral quanto de um foolk abrasileirado ou de um sambinha moderno em ritmo jazzístico. Mesmo que a presença instrumental, letrada e poética de Caetano Júnior esteja por todos os cantos do trabalho (ele também está nos pianos), a voz de Glau é quem abocanha o resultado chamando as atenções para um desfiladeiro de músicas redondamente lindas e assimétricas. Mais do que figuras presentes nesse trabalho com a cara da música popular brasileira, os comandos dos dois grandiosos artistas ganham destaques mutuamente pelo conjunto da obra: a inteligência poética de Caetano que ganha letra, forma e música e cai como uma luva na voz cintilante de Glau, que rebate nos pianos e nos instrumentos focalizados no mais cristalino de sua voz. Há um elo de bola de neve que combina com o resultado harmonioso e que gira em torno da presença musical ricamente produzida por músicos de qualidade e competência primordial. Os elementos de outrora personificados pelas letras de Caetano dão à Glau Piva a interpretação romântica, excêntrica, melancolicamente louca e passivamente sensível dentro de suas capacidades e imaginações, com uma interpretação verdadeira de pura intensidade. A calmaria que prevalece em algumas faixas surge com a exaltação da música anterior, quebrando qualquer tipo de regra ou, na melhor das hipóteses, qualquer tipo possível de linearidade das canções.  O delinear apoio em distintos e afáveis campos da música acaba posicionando o ouvinte dentro de um variado universo sonoro, em que a transformação a cada audição acaba sendo uma somatória de musicalidade e novas interpretações, onde reconfigura suas lógicas de pensamento. Ou seja, você acaba ouvindo novamente as faixas e uma nova roupagem lhe vêm à mente.  Esse vasto conjunto de elementos, sons e fórmulas que delimitam todas as canções acabam por fim traduzindo a grandiosidade do registro de um dos melhores trabalhos feitos para e pela música popular brasileira, transformando Novo Rumo em uma parte intrínseca de um vasto e amplo momento musical.


Novo Rumo (2017) / Glau Piva canta Caetano Júnior
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ano Luiz Melodia no MCB: o clássico Pérola Negra (1973)

Pérola Negra: clássico dos clássicos
Luiz Melodia é o grande homenageado do Mais Cultura Brasileira neste ano de 2018 (título que no ano passado foi de Marisa Monte) e durante todo esse ano será lembrado aqui e ali por músicas, composições ou álbuns importantes de sua carreira. O artista foi considerado um dos 100 mais influentes do cancioneiro nacional pelo conjunto da obra e suas músicas são referência para muitos cantores que estão inserindo nessa caminhada de fazer música do bem.  Pérola Negra (1973 / Phillips / 19,99) foi o primeiro disco lançado por Melodia, que teve direção musical de Péricles Albuquerque e que foi recebida mornamente na época. A gravação do álbum veio após o sucesso estrondoso das gravações de Gal Costa e Maria Bethânia em 1971 e 1972, respectivamente, das canções Pérola Negra – que dá nome ao título e até hoje é cantada ou reverenciada pelo nome – e Estácio Holly Estácio. Apesar do sucesso de crítica, o álbum não teve o mesmo êxito comercialmente. O disco mescla elementos de diversos elementos ao universo sambista que caracteriza as origens do artista e reflete influências de blues, rock, soul e até samba-canção, de um universo habitado por jazzistas e artistas que Melodia fora influenciado.  Porém, o álbum é famoso por conter uma participação especial do musico dito marginal Daminhão Experiença, que foi convidado para contribuir com o backing vocal na faixa Forró de Janeiro.  Pérola Negra traz dez faixas arranjada pelo violonista Pedrinho Albuquerque. Um solo de flauta de Canhoto, acompanhado por seu regional, dá a largada à eternidade de Melodia, no samba Estácio, Eu e Você, inspirado em Cartola. A segunda faixa já é um blues (e dos bons) Vale Quanto Pesa, em instrumentação acústica. O disco ainda tem o clássico Magrelinha, que anos depois se transformou em outra marca registrada do cantor e compositor carioca. Pérola Negra é o ápice do ápice da música popular brasileira e pude dizer isso pessoalmente ao Melodia em um encontro que tivemos na Avenida Paulista no ano de 2016, quando ele já estava sentindo algumas dores lombares (coisa que a mídia ainda não sabia). Há estética, há beleza, há samba, há blues, há a voz de Melodia estrondando tudo e a todos. Todas as suas obras são e serão reforçadas pela tese de que o começo foi aqui, em 1973, com este emblemático disco que, anos e anos mais tarde, foi incluído na posição 32 na lista dos 100 maiores discos da música popular brasileira pela conceituada Revista Rolling Stone Brasil.


Pérola Negra (1973) / Luiz Melodia
Por Marcelo Teixeira

domingo, 7 de janeiro de 2018

Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala (2017)

Vilela e um disco morto
Considerada por dez entre dez pessoas como sendo a cantora do ano de 2017 e por três entre dez pelos críticos de música como uma cantora nonsense no cenário popular brasileiro, a cantora e compositora Ana Vilela surgiu do mundo da mídia esporádica (aquela que te levanta a moral, mas logo te trás para o planeta Terra) e foi alçada ao mundo do showbizz da mesma forma como uma Elis Regina ou Gal Costa surgiram na década de 1960 com seus estilos competentes e dotes artísticos. Mas há uma diferença gritante e relevante nessa minha comparação pífia: Elis e Gal batalharam para serem reconhecidas como cantoras profissionais e utilizaram a voz para mostrar algum talento (coisa que até hoje, no século 21, ambas conseguem ter), enquanto que Ana precisou das mídias para se autopromover. Há algo de errado nisso? Obviamente que não, mas se levarmos em conta que Elis e Gal não eram compositoras e que ralaram muito para provar algum talento, disso ninguém pode duvidar. O mundo de hoje é formado por bestas digitais (Umberto Eco poderia nos explicar isso melhor) e com tantas coisas correndo contra o relógio, eis que as gravadoras não estão mais se importando com aquilo que é vindo da internet. Algumas poucas cantoras surgiram dali e dali estão voltando para o esquecimento, enquanto outras, verdadeiramente genuínos no seu perfil de cantoras e cantores, batalharam por uma gravadora que lhes dessem suporte artísticos para poder mostrar um pouco de suas músicas e qualidades. Ainda que algumas cantoras surgissem de gravadoras, como os casos de Ana Carolina, Maria Gadú ou Maria Rita, as mesmas se encontram sumidas da grande mídia, sem discos lançados ou, quando lançados, quase ninguém presta atenção. Ana Vilela está nesse nicho chamado famosidades instantâneas, que logo voltará de onde saiu: a internet. Se sua música Trem-Bala foi uma apoteose no ano passado, com participação até de Luan Santana, seu disco passou desapercebido pelo grande público, mesmo com a famosa música O Leãozinho, composta por Caetano Veloso para o disco Bicho (1977). Muitos sequer sabiam que ela tinha lançado um álbum com treze faixas. Outros nem sabiam que Ana Vilela era a detentora da canção Trem-Bala. O disco nasceu morto, ficou morto e morreu sem enterrar, porque assim é a mídia do caos, como diz na canção do cantor mineiro Luiz Marques (2009) e que acaba sendo um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado internet, mídia digital e afins. A música de Luiz Marques se iguala com a música Senhas, de Adriana Calcanhotto (1992) em que diz eu não gosto do bom gosto. Ana fez muitas pessoas chorarem pelos cantos do país, mas e o resto do disco, por que ninguém comenta suas outras canções? Por que a mesma mídia que a elencou não mostra as outras faixas? A resposta é simples: não há o que escutar. Trem-Bala (2017 / 22,99) já é o suficiente para que Ana Vilela nos sufoque com suas músicas de uma única estação. Mas há uma boa notícia nisso tudo: Ana Vilela fala de amor e de igualdade em suas músicas e mesmo que Trem-Bala seja uma falácia contra o moralismo radicalizado nas pessoas, a canção passa um ar de mentira, de ilusão, de sonhos inexistentes ao mundo atual e, com isso, retornemos à Mídia do Caos de Luiz Marques e as Senhas, de Adriana Calcanhotto, que são mais verdadeiras que a música blasé de Ana Vilela.


Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Os bichos de Caetano Veloso (1977)

Os bichos de Cae
Havia vida inteligente na década de 1970 e Caetano Veloso se destaca ainda mais nessa seara musical que tanto fazia seus concorrentes a produzirem mais músicas de qualidade.  A vasta criatividade intelectual de Caetano estava tão aflorada em 1977, que seria impossível não produzir um disco sensacional como Bicho (1977 / Phillips / 21,99) e vale dizer que esse disco trouxe uma das sequências musicais mais emblemáticas da MPB, pois Odara possui um ritmo dançante e frenético em seus quase sete minutos de duração e ainda hoje e já no século vinte e um, a música é referência na discografia do cantor. Sendo um dos discos menos lembrados da carreira, mas curiosamente, o disco que tem um festival de canções cantadas por muitos até hoje, Bicho trouxe na bagagem canções com Um Índio, Tigresa, Gente, Leãozinho.  Tigresa é uma bela homenagem à Sônia Braga e Zezé Motta, duas das inspirações de Caetano naquela época e que tem belas poesias embaladas por um violão elegante.  Para registrar Bicho, Caetano se cercou de um time de excelentes músicos que contribuíram para com a estética do disco, que traz altos arranjos e elaborados artistas. Se hoje vemos Anitta reverenciar as comunidades cariocas, Caetano já o fazia isso e com muita intelectualidade, representando uma pegada forte, dançante e atemporal, que era a proposta de Bicho, como a nova favela brasileira, pois Caetano queria lançar um disco especialmente para as pessoas mais carentes dos subúrbios. O resultado é um disco extremamente culto, refinado, dançante, popular e com a cara tanto do rico quanto do pobre.  Além das músicas e letras, Caetano também assina a capa do disco, com a borboleta, o sol, a lua em fundo branco e a palavra bicho, uma gíria muito comum usada entre os músicos na época. Reitero: esse é um dos melhores e mais completos discos de Caetano Veloso.


Bicho (1977) / Caetano Veloso
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Elis Regina 70 anos - box com quatro discos indispensáveis

Elis: atemporal ao tempo
Lançado originalmente em 2014, a caixa Elis Regina 70 Anos ($149,90/2014) contendo quatro discos da carreira meteórica de Elis Regina (1945 – 1982) se faz presente em um momento conturbado da música popular brasileira e é por esse mesmo motivo que abro 2018, quatro anos depois desse lançamento, para poder elencar a imagem e semelhança da cantora. Se no ano passado tivemos tantos desperdícios musicais e tantas vozes desestruturadas com linguagens estranhas e desafinadas, ouvir uma música sequer do cancioneiro de Elis já é o bastante para lubrificar a mente a alma daqueles amantes da incultura nacional. A caixa nos proporciona momentos sensacionais de sua obra inquietante, como, por exemplo, o CD Saudades do Brasil (1980) e o emblemático e sutil Essa Mulher (1979). Em sua breve passagem pela Warner no final dos anos 1970, pouco antes de sua morte, Elis deixou registrados dois álbuns fundamentais em sua discografia: Essa Mulher tem um lado de empoderamento feminino, coisa que Elis já instaurara nos anos de 1979 e Saudades do Brasil, um disco político e emblemático que exaltava a dramaticidade da cantora e que agora retornam ao catalogo com áudios remasterizados e capas, contracapas, encartes e rótulos originais. Completando o primeiro póstumo da cantora – o disco Ao Vivo em Montreux, lançado originalmente pela Warner em 1982. Revisitar a obra de Elis Regina aqui e ali é sempre um prazer, mesmo que em tempos atuais e complexos como os de hoje.



Elis Regina 70 Anos / Elis Regina

Por Marcelo Teixeira