terça-feira, 6 de março de 2012

Eu Me Transformo em Outras, de Zélia Duncan e a injustiça da mídia com este disco

Disco lançado em 2004: perfeito.
Uma injustiça foi feita com a obra de Zélia Duncan. Praticamente não foi comentado, muito menos exposto na mídia o belo disco Eu Me Transformo Em Outras (2004 / Universal Music – Duncan Discos / 34,99), disco este indispensável para colecionadores e amantes da boa música. O disco em si é uma completa obra, um clássico que deve ser lapidado, ouvido e degustado da melhor forma possível. Zélia está cantando melhor, seu timbre de voz soa transparente e a emoção em algumas faixas se faz presente, na melhor das hipóteses, revelando ali uma cantora de extrema qualidade, persuasão e sentimentos. Com este disco, Zélia deixa claro que sua verve como uma cantora de verdade e que está aberta a qualquer modismo ou estilo é pura balela. Considerada por muitos como roqueira ou sucessora de Rita Lee, Zélia Duncan vem de uma coletânea de clássicos a cada disco lançado no mercado e a cada nova roupagem de músicas clássicas e antigas fica evidente que seu estilo não tem comparação e muito menos nome. Ela canta. E em qualquer estilo.

Eu Me Transformo Em Outras é um álbum grandioso e audacioso. O título, mais uma vez, vem do cancioneiro de Itamar Assumpção, de quem a cantora é fã absoluta. Mas o que chama a atenção neste disco é a disponibilidade de Zélia em misturar o que é antigo com o que é moderno. De Itamar a Dorival Caymmi, de Tom Zé a Luiz Tattit, de Tom Jobim a Cartola, passando por Herivelto Martins e Haroldo Barbosa, o disco é uma miscelânea de boa qualidade, de bom gosto e de boa conduta. Álbum que merece destaque pelo simples fato de ser um álbum sem grandes pretensões, sem grandiosidade, mas que prima pelo bom gosto. Com uma capa exuberante que nos remete a velhos tempos da senzala e dos escravos, Zélia entra por searas do Samba, da MPB, da Bossa Nova, do lirismo e do amor com requintes de qualificação extrema.

Outro atento neste maravilhoso disco é a audácia em trazer para o grande público uma seleção de 20 músicas que passeiam pelo ontem e hoje, cortando canções de Chiquinha Gonzaga, Ataulfo Alves e outros bambas da época de ouro. Regravou Eliseth Cardoso e sua obra maior, Doce de Coco, com tanta primazia, que fica impossível dizermos que a música não é perfeita. Em , de Tom Zé, a malandragem e esperteza de Zélia afloram e deixa aquele sabor de quero mais. Em Capitu, música de protesto virtual, a linguística de Luiz Tattit transparece e renova a qualidade do álbum.

Este disco é indispensável pelo fato de ser transgressor e nos trazer um dos melhores tempos da música popular brasileira, quando a música era tratada com verdadeiro sentimento e era motivo de zombação, de mandar recados amorosos ou impiedosos, de cortar os corações singelos, de brincar com a nega da janela, de falar de amor sem ter medos e rancores. Infelizmente hoje somos obrigados a ouvir músicas e frases cortantes de cantoras fúteis e sem qualidade. E o disco que Zélia colocou no mercado e que a mídia não deu a mínima chance de conhecimento é a prova concreta e sensata de que fazer músicas é uma responsabilidade extrema.



Nota 10

Eu Me Transformo Em Outras



Marcelo Teixeira

Um comentário:

leah black disse...

Gostei muito do post, mas acredito que personificar a mídia como alguém capaz de causar ou não sucesso para um disco é no mínimo simplório. Acredito eu que a proposta do disco em si não era e nunca foi essa, pois se fosse a gravadora e os músicos se encarregariam de "promover" das formas usuais, pagando para a música tocar em rádios, com seus relações públicas inserindo materias em jornais e revistas, em fim conseguindo assim a famosa mídia. Eu acredito que a proposta desse disco foi fazer um apanhado e reviver músicas maravilhosas, dar uma releitura à elas e se tornar assim praticamente uma referencia e patrimônio cultural, e não vender discos ou fazer shows, para mim vai muito mais além disso, se trata de mostrar e fazer com que outras pessoas tenham acesso à essas músicas que são tão difíceis de encontrar.