terça-feira, 27 de novembro de 2012

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia


O disco: poucos destaques
Para início de conversa, Maria Rita é apenas a filha de Elis Regina e nunca será uma nova Elis como andam dizendo por aí. Às vezes, ao fecharmos os olhos temos a sensação de que a voz de Maria Rita se assemelha ao som de Elis, mas esses momentos são raros, tão raros, que não merecem destaques. Pudera: Maria Rita nasceu do ventre de Elis Regina. São 30 anos de morte da maior cantora do Brasil e 26 anos separam mãe e filha, artista e aspirante a artista. Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Maria Rita é apenas mais uma cantora do Brasil. Maria Rita bem que tentou, relutou, mas não conseguiu não regravar os sucessos que sua mãe deixou. Maria Rita sempre disse que não regravaria uma música de Elis em disco e isso não aconteceu em seus quatro discos anteriores, mas acabou gravando ora aqui ora ali músicas da mãe para alguns eventos e aparições em TV. Até aqui normal. Maria Rita não gravou sucessos da mãe nos quatro discos que gravou, mas regravou os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Os fãs de Elis sentiram-se órfãos com sua morte e não encontraram em nenhuma outra cantora sua imagem e semelhança e nem mesmo cantoras da estirpe de Gal Costa conseguiram suprir as necessidades artísticas de uma grande cantora. Milton Nascimento está à procura até hoje de uma nova Elis e, mesmo tendo gravado com diversas cantoras de excelente gabarito, sente-se frustrado por não conseguir o êxito maior em suas canções nas vozes femininas. E é justamente neste ínterim entre a morte de Elis e o surgimento de Maria Rita que os fãs de ambas não entendem: muitos veem em Maria Rita o renascimento de Elis, a feição, os traços, os trejeitos, mas Maria Rita só será Maria Rita quando encontrar o seu próprio caminho.

A voz de Maria Rita não é parecida com a voz da mãe. A feição é inevitável, o estrabismo também. O CD Redescobrir só veio a confirmar aquilo que eu sempre digo e bato na mesma tecla: Maria Rita é a cópia clara e obscura da mãe. Maria Rita imita Elis em tudo e isso também é inevitável, afinal, é mais do que normal os filhos serem cópias idênticas dos pais, o que não acontece com Jairzinho Oliveira, Max de Castro, mas acontece com Daniel Gonzaga, Leo Maia, Simoninha...

Mas Maria Rita ainda não encontrou o seu caminho e, para complicar sua situação, imita a mãe em inúmeros shows, fazendo caras, bocas, sustenidos, gracinhas e frases feitas como um gás lacrimogêneo no estomago. Sempre foi assim e sempre será, pois Maria Rita nasceu pronta para brilhar como cantora às margens da mãe, não tendo luz própria, não tendo características próprias como o irmão, Pedro Mariano, embora o mesmo tenha regravado ao menos um sucesso da mãe em todos os seus discos.

Redescobrir (2012/ Universal / 37,00) é um disco duplo com cores bem arranjadas, formato bonito, estrutura vital, bom acabamento, mas que não acrescenta em nada tanto na carreira artística de Maria Rita como para aficionados pela música popular brasileira. Para os jovens de hoje em dia, Redescobrir vale a pena como um produto novo, com músicas novas, como se fosse um marco zero e isso é muito benéfico para a carreira da cantora como para esses novos fãs. Mas para as pessoas que presenciaram Elis ou para quem acompanha a vida de Elis há mais de dez anos após sua morte e sabe praticamente tudo sobre sua vida e suas músicas, Redescobrir não significa absolutamente nada, a não ser mais um produto comercial.

O disco vêm como comemoração aos 30 anos de morte de uma cantora marcada por sucessos e por recaídas amorosas. Tudo iniciou como um show, mas já era possível prever que isso se transformaria em disco, claro. Tudo bem que o disco é uma sensação de emoções, mas há os contras e os poréns que este disco representa. Maria Rita regravou sucessos, músicas esquecidas e reverenciou, mais uma vez, os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Lembrando as fases do fino da bossa, da época dos festivais até chegar ao estrelato como uma verdadeira dama dos palcos, Redescobrir trás também o lado esquecido dos grandes clássicos de Elis, como faixas de discos estelares que o público de hoje desconhece, como Vida de Bailarina (música cantada por Ângela Maria, cujo Elis adorava tanto a cantora como a canção), Agora Tá, Onze Fitas, Querelas do Brasil, Doce Pimenta, Menino, Zazueira, Redescobrir. O público de hoje praticamente desconhecem estes sucessos de Elis e Maria Rita as canta de uma forma que lembra a mãe, com técnicas vocais muito parecidas. Destaque maior para a bela Bolero de Satã, numa interpretação magistral de Maria Rita, o ponto alto do disco.

Maria Rita pode dobrar e desdobrar as canções que a mãe cantou, pois ela é a filha da cantora que as cantou primeiro. Outra cantora qualquer sempre é mal vista quando regravam as canções que Elis imortalizou e lembro que Zizi Possi, que à época da morte de Elis era tida como uma nova Elis, fora muito crucificada com esta comparação. Maria Rita é apadrinhada pela mídia, pelos fãs e por saudosistas e estes praticamente não vêm riscos, defeitos e nem quebras no repertorio intocável de Elis. Maria Rita se salva por ser a filha.

O disco em si é mediano. Deve ser escutado apenas algumas vezes. Cansa ter que ouvir Maria Rita em 28 músicas ininterruptas. Definitivamente, Redescobrir não redescobriu Maria Rita, embora a palavra redescobrir pode significar muitas coisas: para a cantora, redescobrir o acervo musical da mãe e redescobrir o quanto o povo brasileiro ainda a idolatra e sente a presença da enorme grandiosidade de Elis, requer um redescobrimento muito mais atemporal do que qualquer outra coisa.

Trinta anos depois da morte de Elis, a filha trouxe a tona grandes sucessos, poucos conhecidos nos dias de hoje, compilando discos maravilhosos que a saudosa Elis nos deixou, mas houve erros drásticos quanto ao repertorio: a música Menino, por exemplo, não fora um grande sucesso na voz de Elis e sim, na voz de Milton, que o gravou no disco Geraes, de 1976. Do disco Falso Brilhante, gravado no mesmo ano com enorme sucesso de crítica e público lotado no teatro, veio apenas Como Nossos Pais e Tatuagem, sendo que as músicas de João Bosco do mesmo álbum foram muito mais marcantes pela dramaticidade. Assim aconteceu com Doce Pimenta, que não viria a ser um sucesso gravado por Elis e, sim, uma duplicidade com a amiga Rita Lee.

O que faltou em Maria Rita foi ousar. Chamar ao menos o irmão para dividir os vocais em algumas faixas, talvez, a qual sugeriria Águas de Março. Convidar os verdadeiros amigos de Elis, como Ivan Lins, Milton, Rita, João Bosco para um dueto. Essa ousadia não veio, não perdurou e o disco saiu cansativo. Claro, os sons são muito bons e as novas harmonias são sensacionais, mas faltou criatividade no formato geral. A impressão que nos passa, é que Maria Rita quis exclusividade ao fazer a passagem dos trinta anos de morte da mãe, da artista, da mulher, da guerreira, da Elis.

O que Maria Rita precisa redescobrir é a sua carreira, marcada com discos paupérrimos e com letras medianas. Redescobrir foi tudo aquilo que a mãe fizera em vida, seus trejeitos, suas notas, seus alcances vocais, seu público renovado. Maria Rita conseguiu o feitio de ser Elis por um dia, ser aclamada até por quem não curte seu trabalho e seu som e por quem ainda há de reconhecer que sua voz é um grito contra a efemeridade que existe por ai.

Redescobrir redescobriu Maria Rita por algumas horas. Elis é Elis. Maria Rita ainda precisa se descobrir.

 

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia

Nota 7

Marcelo Teixeira

4 comentários:

Debora Faili disse...

Exagero sua critica. Talento não se herda, se tem! O fato de ser a filha da Elis não muda outro fato do público se interessar pelo trabalho de Maria Rita. Ela leva muito da mãe como qualquer filho trás na baragem toda carga de sentimento dessa relação natural e incondicional - por isso agrada a homenagem aos 30 anos da morte da mãe. Porém, no atual cenário brasileiro, da falta de cultura de muitos jovens, com tantas músicas sem arte e letras sem composição, Maria Rita não venderia tantas cópias de discos apenas por ser filha da maior cantora do Brasil. Renovou um público jovem, e trouxe muito valor a grandes compositores esquecidos do passado, aproximou o MPB de uma faixa de público que compra seus trabalhos. Caso contrário do que mostra a carreira do irmão Pedro Mariano (fácil se fosse apenas uma questão de herança do nome vivo de Elis Regina).

Debora Faili disse...

Exagero sua critica. Talento não se herda, se tem! O fato de ser a filha da Elis não muda outro fato do público se interessar pelo trabalho de Maria Rita. Ela leva muito da mãe como qualquer filho trás na baragem toda carga de sentimento dessa relação natural e incondicional - por isso agrada a homenagem aos 30 anos da morte da mãe. Porém, no atual cenário brasileiro, da falta de cultura de muitos jovens, com tantas músicas sem arte e letras sem composição, Maria Rita não venderia tantas cópias de discos apenas por ser filha da maior cantora do Brasil. Renovou um público jovem, e trouxe muito valor a grandes compositores esquecidos do passado, aproximou o MPB de uma faixa de público que compra seus CDs. Caso contrário do que mostra a carreira do irmão Pedro Mariano (fácil se fosse apenas uma questão de herança do nome vivo de Elis Regina).

v. lima disse...

Realmente não há, qualquer comparação a Elis Regina (incomparável), mas pegou meio pesado com Maria Rita, que tem voz bonita sim, mas longe de se comparar com Elis, por isso ao menos devemos respeitar Maria Rita por ser o que é e não pelo que dizem quem ela que ser.

Vívian Lucena disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk a pessoa ler cada coisa... Rita vive o sucesso na sombra de Elis? Depois de 10 anos, 2,5 milhoes de cópias vendidas e recusando qualquer tipo de sensacionalismo ou oportunismo? kkkk piada.. Sua crítica foi na qualidade de um fanático por Elis. Mas lembre-se que você tá falando de um ser humano, que possui emoções e uma história de vida. É melhor conhecer e ler um pouco mais. Elis é Elis... Maria Rita é Maria Rita. Ambas incomparáveis.