segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os mistérios de Luísa Maita


 

misto de tédio e mistério

 

meio dia / meio termo

 

incerto ver nesse inverno

 

medo que a noite tem

 

que o dia acorde mais cedo

 

e seja eterno o amanhecer

 

 

(misto de tédio e mistério – leminski)

 

 

Luísa Maita era um mistério. Lero Lero foi um achado pra mim. Estava em João Pessoa com meu amigo Tom Chagas passeando no shopping sobre um sol de 40 graus quando entrei numa loja de discos e deparei-me logo na entrada com o disco de Luísa. Misto de mistério sem tédio. Uma poesia que só fui desvendar na sacada do apartamento do meu amigo, vendo a bela paisagem de João Pessoa (estado até então desconhecido por mim), com a bela voz de uma cantora que fui conhecer e me apaixonar longe de minha casa. E o disco foi se revelando devagarinho, na paz, como toda música ouvida pela primeira vez merece ser tratada. Abrindo com a sossegada Lero Lero, com voz de algodão acompanhada de um violão de batida marcante, Luísa Maita à vontade canta as coisas invisíveis e indizíveis da amizade. Uma música cantada em códigos. Códigos do olhar, da rua, da intimidade.

E assim segue: o disco todo desliza como se estivesse numa corda bamba. Os passos são lentos, mas a leveza e a graça são essenciais na travessia. É assim que eu escuto Lero Lero – a aspereza tratada com fragilidade. O repertório é cheio de fatos do cotidiano – amor, motoboys, uma pessoa andando de bicicleta, o mar. É a simplicidade transformada em poesia do dia-a-dia: e tem um samba ali, uma música eletrônica aqui, uma cuíca lá e uma viola do outro lado. Luísa Maita em Lero Lero coloca notas musicais na rotina de São Paulo. As cores aparecem, mesmo na aparente ausência de cor. O caos gris flutua e se transforma numa viagem.

O som parece artesanal, saído de um ateliê. Lero Lero é cheio de conversas paralelas, de velocidade, de alegria, de rastros jamaicanos. Onde é que aquilo ia dar/ E o medo vinha devagar/ Mas o desejo de sonhar tomava conta lugar. Lero Lero é um pedido de água, de trégua. É a poesia extraída de uma constelação nova. Supernova.

 

Lero Lero / Luísa Maita

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Gal Costa de 1968


 

Os clássicos de Gal estão aqui
Gravado em 1968 para ser lançado em 1969 durante um dos períodos mais pesados da ditadura militar, o primeiro disco solo da Gal Costa pode estar longe de ser um dos mais marcantes da sua carreira, mas para mim trata-se, sim, de um registro histórico que merece constar em todas as coleções simultâneas e por colecionadores, fãs, adoradores de música e para o que está para vir. Contrastando com o período tenso politicamente, que resultou no exílio dos colegas tropicalistas Caetano e Gil, Gal acaba optando por um disco que ainda cultivava suas raízes tropicalistas, a começar pela direção do maestro Rogério Duprat e temáticas ao mesmo tempo leves e provocativas. Talvez seja por que isso que a cantora abre o disco com Não Identificado, belíssima canção de Caetano Veloso que também gravou no disco próprio quase que paralelamente, Gal já anuncia sua opção por fazer uma canção de amor... para gravar num disco voador. Confesso minha inveja pessoal, pois quisera eu ter a capacidade de compor uma canção de amor para alguém especial.

Em seguida, Gal passeia pelo xaxado em Sebastiana, para interpretar em seguida outra canção de Caetano, também gravada por ele no disco contemporâneo: Lost in Paradise. Depois usa as metáforas típicas do tropicalista Tom Zé ao interpretar a aparentemente singela Namorinho no Portão, sem abrir mão da crítica velada ao momento político que o país atravessava no momento. Em Saudosismo, interpreta novamente Caetano Veloso em uma bela homenagem à Bossa Nova. As próximas marcam definitivamente sua opção pelo tom ao mesmo tempo romântico e provocativo, com a escolha de duas canções da dupla Roberto e Erasmo (que talvez admirados pela interpretação dela, no mesmo ano comporiam Meu nome é Gal, canção que marcou a sua carreira em seguida).

 

Você precisa saber da piscina

Da margarina

Da Carolina

Da gasolina

Você precisa saber de mim

Trecho de Baby, de Caetano

 

Primeiro com Se você pensa, uma espécie de recado à pessoa amada que se mantém indecisa. Recado dado, manteve a linha em Vou recomeçar.

Em Divino e Maravilho, de Caetano e Gil, a mensagem está claramente contextualizada. Essa canção inicia a sequência de três que se tornaram clássicas dela. Que Pena, a bela canção de Jorge Ben, Gal faz parceria belíssima com Caetano para estabelecer um belo diálogo. O importante, novamente, é a volta por cima em alto estilo ao sair de uma relação.

Mantendo a dupla com Caetano, segue com Baby, clássico incluído nesse disco após o sucesso no disco Tropicália ou Panis et Circenses, mas com um arranjo levemente diferente, em que sobressai um som orquestral. Majestoso!

Em Coisa mais linda que existe, de Gil e Torquato Neto, Gal mantém o astral leve e carinhoso na dose certa. O disco termina com Deus é Amor com a batida típica de Jorge Bem. Com a sua voz afinadíssima e belos arranjos, esse disco marcou de modo definitivo, para mim, o ingresso da Gal entre as maiores cantoras desse país.

 

Gal Costa / Gal Costa

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Minas, de 1975: a primazia de Milton Nascimento


 


A primazia de Milton

Minas talvez seja o álbum que mais me arrepie no momento e na carreira de Milton Nascimento. Minas talvez seja a música de abertura de um álbum que mais me arrepie no momento e de todos os discos de Milton Nascimento. Bituca tem conseguido me arrancar boas surpresas quando eu vou visitando sua discografia completa, que a Editora Abril está fazendo com capricho, orgulho e satisfação para aqueles que, como eu, nem era nascido. Ao todo serão vinte clássicos da obra do cantor carioca, criado em Minas Gerais e que aos poucos irei trazendo aqui para o Mais Cultura! O disco, com uma capa perfeita enaltecendo Minas e com uma foto cobrindo todo o rosto de Milton, foi lançado originalmente em 1975 e me deixa nauseado de arrepios quando ouço, hoje, mais de trinta anos depois. A foto, magnificamente bela, retrata com perfeição os negros, escravos e a África de onde todos nós viemos. Os arranjos de suas músicas são de beleza incomum e ainda conseguem agregar um tempero de virtuosismo. A bem da verdade, muitos já conseguiram isso, difícil mesmo é continuar me agradando com a música que é apresentada por ele ultimamente. Milton é um raro exemplo de artista que parece que não se perdeu na própria obra com o passar do tempo e basta observar isso em discos como Pietá, com participação da maravilhosa Simone Guimarães nas músicas mais bonitas do disco, ou em ...E a gente sonhando, aonde as batidas e sonoridades nos remetem à discos antigos, como este retratado hoje no blog ou Milagre dos Peixes, de 1974.

Para mim, um mestre dos arranjos vocais, Minas abre com meninos cantando de tal forma que me traz paz e tranquilidade. Sentimentos que a música instrumental tem um poder de passar de várias maneiras a cada pessoa. O disco segue com a intrincada Fé Cega, Faca Amolada, música dele que já foi regravada pelos Doces Bárbaros e Elis Regina, mas Bituca dá o seu tempero à música de tal forma que a torna única. Vale salientar que Os Doces Bárbaros e Elis também conseguem isso, cada um à sua maneira.

O álbum segue e a sensação de completude da obra se dá quando os meninos vão aparecendo de vez em quando durante o álbum, sempre uma grata surpresa em cada um desses momentos. Ponta de Areia, na minha opinião, é uma de suas músicas mais belas. Trastevere, Idolatrada e Leila (Venha Ser Feliz) é uma sequência que mostra Milton com uma variedade musical de impor respeito. Sabe as particularidades que caracterizam a diferença entre o Rock'n Roll e o Rock Progressivo? Parece que é exatamente isso que Milton e o Clube da Esquina como um todo inseriram na música brasileira.

Já perto do fim, a consagração de um início de uma parceria inédita entre Milton e Caetano Veloso resulta na excepecional Paula e Bebeto que fecha de forma belíssima o que foi começado em Minas. Ao cantar pra Vera que toda forma de amor vale a pena, imediatamente senti a confirmação do que pensei sobre o sentimento que tive ao escutar Minas. Simples fecha o álbum criando um certo paradoxo. Ela não é bem Simples e não fecha o disco. É o elo de ligação pro início de outro álbum de Milton Nascimento, Geraes.

Nada mais justo.

 

Minas / Milton Nascimento

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Falange Canibal, de Lenine: perfeito!


 

O ótimo disco de Lenine
Mantendo seu caminho de agregador, Lenine transforma um projeto coletivo numa obra bela e forte que ele intitulou de Falange Canibal, um disco muito bom, excelente e que denota toda a versatilidade do músico pernambucano. O álbum tem os melhores músicos da atualidade: Vulgue Tolstoi (grupo que forneceu o parceiro constante guitarrista Júnior Tolstoi), Monoaural (Kasin e Berna Ceppas), Tom Capone (produtor infelizmente falecido prematuramente, que aqui também contribui com programações, guitarra, baixos e otras cositas más), Xandão (guitarrista do Rappa e Caroçu). Além dos amigos compositores, dividem com o anfitrião quase todas as músicas os grandes compositores Carlos Rennó, Ivan Santos, Bráulio Tavares, Sérgio Natureza, Dudu Falcão, Paulo César Pinheiro e Lula Queiroga. A produção também é dividida por muita gente, incluindo Lenine, Tom Capone, Mauro Manzoli.

Gosto muito da sonoridade moderna e caprichada do Lenine. Ecos do ão fala sobre o fonema característico da nossa língua (e sempre difícil para estrangeiros) como linha condutora para também refletir sobre nós brasileiros.

nós temos violência e perversão

mas temos o talento e a invenção

desejos de beleza em profusão

e ideias na cabeça coração

a singeleza e a sofisticação

o choro, a bossa, o samba e o violão

mas se nós temos planos, e eles são

o fim da fome e da difamação

por que não pô-los logo em ação?

tal seja agora a inauguração

da nossa nova civilização

tão singular igual ao nosso ão

e sejam belos, livres, luminosos

os nossos sonhos de nação

 

Trecho de Ecos do Ão, de Lenine

 

Em seguida uma mais lenta, Sonhei, bela como de costume e com aquele violão percussivo e extremamente bem tocado. Mais uma com boa mistura de sons eletrônicos e acústicos, inclusive um bonito oboé. Umbigo começa com um violão magrinho e bateria do cara do Living Colour, Will Calhoun. Também a voz em inglês de Ani Difranco (alguém sabe quem é ela?), Eumir Deodato (o cara existe de verdade!) no hammond e piano elétrico com mão pesada. Com um trecho que diz gosto muito de conversar comigo/ umbigo meu nome é espelho/ não dou ouvidos nem peço conselhos/ umbigo meu nome é certeza/ só é real o que convém à realeza, a música e o disco já valem muito.

Lavadeira do rio tem uma história engraçada: gravada originalmente por Virginia Rosa em seu primeiro disco solo, Batuque, a música se chamava A Rita, mas Chico Buarque compusera nos anos 1960 a bela A Rita, que ficou conhecida nas vozes de Nara Leão e Gal Costa posteriormente. O público estava começando a ficar confuso com duas músicas com o mesmo título e, por este motivo, Lenine resolveu rebatizar a música e, talvez por esta conscientização, Lenine resolveu cantá-la neste disco. A Lavadeira do Rio começa meio balançada, eletrônica até, com uma guitarra invertida discreta. Depois vira um bom rockão! Tem até aquele clichê de bateria só com vocais empolgantes. Esta aqui tem participações especiais da galera do Skank (sem o Samuel Rosa, ufa!) e da Velha Guarda da Mangueira no coro.

Encantamento é uma montagem/colagem de várias músicas, emenda e surge a original do Lenine como se tudo levasse a isso. Nem sol, nem a lua, nem eu é daquelas belíssimas que Lenine compõe, lenta, quase sussurrada, com uns uivos caninos ou lupinos no fundo. Entre as participações especiais, Will Calhoun na wave drum e Xandão na guitarra. Caribantu é só voz e muitas percussões, a cargo do Cambaio (a pós-coisa), seja lá o que for isso, talvez um coletivo de percussão. A Velha Guarda da Mangueira também faz aquele coro bonito.

Quadro-negro é mais uma das bonitas, aqui com efeitos eletrônicos (até na voz) e a participação do Marcelo Lobato (Rappa) na bateria, teclados, theremin e vibrafone. Quem vai pagar a conta?/ quem vai lavar a cruz?/ o último a sair do breu/ acende a luz.

Chega a mais bela do disco, O silêncio das estrelas, com um arranjo lindo e criativo de cordas, incluindo um recurso arriscado, o glissando (os instrumentos vão subindo/descendo sem escalas nas notas temperadas, dando a impressão de desafinação). Solidão/ o silêncio das estrelas/ a ilusão/ eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos/ como um deus, e amanheço mortal. Termina com uma sanfona bonita, a cargo de Regis Gizavo.

No pano da jangada é muito legal, com uma percussão que na verdade são os pés do Lenine na areia e vozes, com vocais dobrados e processados. Viva a tecnologia e a criatividade! Rosebud (o verbo e a verba) é um conto divertido, uma música latina suingada e quebrada. Participação do grupo Yerba Buena nas vozes, percussões/bateria e trompete cucaracho.

E o fim é pra cima, a música com participação integral do Living Colour, O homem dos olhos de raio X que entrou para a minha galeria das melhores músicas do Lenine. Rock balançado e percussivo. Viva o nosso herói pernambucano.

 

Falange Canibal / Lenine

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A bossa de Sandra Duailibe e Cely Curado


 

Ótimo encontro de Sandra e Cely
Se o disco A Bossa no Tempo contasse apenas com a voz rouca e gostosa de Sandra Duailibe, já valeria a pena ouvir os clássicos do estilo que ainda hoje é vista como conceituada e requintada, mas para surpresa geral, a cantora convidou Cely Curado e o resultado é muito mais satisfatório, porque as vozes contrastam e o brilho nas canções realça ainda mais o repertório primoroso e genial dos grandes mestres da bossa. Voz aveludada e voz pujante caminham lado a lado nos dando a dimensão do que está por vir nas treze faixas do disco, nos deixando arrepiados, encantados e apaixonados por ambas as cantoras e pelo disco em si. Com participações do grande Roberto Menescal, o disco tem ainda a pincelada de Sérgio Galvão e a cortesia de Nonato Buzar, veterano na música.

Abrindo o disco com a saborosa A Banca do Distinto, Sandra e Cely interpretam com ousadia a canção de Billy Blanco, fazendo dela um delicioso dueto. Mas em Você Vai Ver é que a emoção carrega e somos obrigados a levantar e aplaudir as grandes divas do novo cenário musical que está se expandindo para além de outras áreas do Brasil. Com letra carregada de sentimentalismos vingativos de Tom Jobim, Sandra e Cely denotam a música como sendo um grande achado para a coleção musical de todos os amantes da MPB e, de quebra, conseguiram fazer da canção uma marca registrada com suas vozes latentes. Até então, pra mim, a música tinha um certo carisma na voz de Zélia Duncan cantada com Pedro Mariano (mais conhecido por ser o filho de Elis e o irmão de Maria Rita), mas agora posso garantir que Sandra Duailibe e Cely Curado conseguiram dar uma emoção maior à música, a deixando completa, rica e com a verdadeira mensagem imposta pelo poeta.

 

Rio, Copacabana

Poesia, muita paixão

Em Brasília, o azul celeste

É fonte de inspiração

Parece magia

Essa energia que tem lá e cá

Me faz mergulhar na onda do ar

Cantar e cantar

 

Trecho de Onda do Ar, de Marcia Forte e Sandra Duailibe

 

 

Samba em Prelúdio, do mestre Baden Powell com o poeta Vinicius de Moraes me arrepia. Arrepia porque as duas vozes se encontram e se desencontram, se harmonizam, se aquietam, se aniquilam e se atropelam numa forma voraz, sutil, doce, atroz, romântica e semeia um elo de sentimentos remanescentes que fica impossível não parar tudo o que estamos fazendo e ouvir com atenção a mistura de vozes, o concerto de rimas, a respiração de Sandra e Cely em nossos ouvidos. Balanço Zona Sul é ótima, as batidas originais e a leve sensação de malandragem na bossa nova estão aqui, alcançadas com maestria por duas vozes possantes. E o mesmo acontece com Lugar Comum, dos grandes gênios João Donato e Gilberto Gil. Esta canção, que já foi ovacionada pela cantora Joyce Moreno em um disco em tributo à Bossa Nova lançado apenas no Japão (anos depois veio ao Brasil para uma edição limitadíssima), demonstra aquilo que queremos ouvir de João: o lado oculto de sua musicalidade, da letra sem letra, do capricho da melodia e da sensatez de nos encaminhar para o rebuscamento da música. Donato é um gênio!

Roberto Menescal e Leila Pinheira, o pai e a filha da bossa, compuseram a música que fecha o disco, O Céu nos Protege, com uma letra intimista, abastada e forte. Mas não posso encerrar este artigo sem citar duas músicas que não fizeram parte da bossa, mas que está presente aqui numa forma carinhosa de homenagem ao estilo: Onda do Ar, composta por Marcia Forte e Sandra Duailibe, que é um justo tributo à tudo aquilo que se refere ao título do disco e Vem Amada, deliciosa música da competente Simone Guimarães, que também assina a direção musical e vocal do disco.

A Bossa no Tempo representa a bossa em nossas vidas e em nossos sentimentos, na nossa musicalidade e nos deixa aquela livre e aberta sensação de que ainda se pode fazer música, criar emoções, despertar humanos, abrir os poros e cantar o amor na sua mais sublime forma e este disco de Sandra Duailibe com participação honrosa de Cely Curado só veio comprovar que a bossa está em todos os tempos: seja ontem, seja hoje, seja amanhã. E o tempo de Sandra Duailibe e Cely Curado é para sempre.

 

Faixas

01. A banca do distinto (Billy Blanco)

02. Quando chegares (Carlos Lyra)

03. Você vai ver (Tom Jobim)

04. Samba em prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

05. Onda no ar

06. Balanço Zona Sul (Tito Madi)

07. Vem, amada (Simone Guimarães)

08. Preciso aprender a ser só (Marcos e Paulo Sérgio Valle)

09. Duas lágrimas

10. Jamais (Milena e Caio Tibúrcio)

11. Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil)

12. Estopim (Nonato Buzar e Ronaldo Bôscoli)

13. O céu nos protege (Roberto Menescal e Leila Pinheiro)

 

A Bossa no Tempo / Sandra Duailibe convida Cely Curado

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Quatro vozes para Roberto Menescal


 

As quatro belas vozes da MPB
Quando se pensava que o Brasil estava escasso de boas cantoras no cenário musical, eis que surgem quatro maravilhosas vozes que conseguem, em seus cantos solos ou em uníssono, fazer um dos mais belos discos em homenagem à Bossa Nova e, consequentemente, salvando parte da MPB que está voltada cada dia mais para o pop romântico ou para semânticos do duplo sentido, perdendo, muitas vezes, sua essência. Quando se pensava que a Bossa Nova estivesse esquecida ou fosse, hoje, produto exportado e adorado apenas por estrangeiros – americanos em sua maioria – eis que surge o belo e maravilhoso disco Elas Cantam Menescal (2012 / Albatroz) cheio de bossa, balanço, carisma e Roberto Menescal. Quatro vozes, quatro cantoras da melhor estirpe dividem os vocais para celebrar o melhor deste que foi um dos pais do estilo, ao lado de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Quatro vozes para homenagear Menescal, que continua na ativa e que consegue descobrir novos e excelentes talentos como Cely Curado, Márcia Tauil, Nathália Lima e Sandra Duailibe. Mas vamos com calma, porque aqui neste disco, as quatro vozes vão do melhor de Menescal ao inédito do mesmo e isso causa uma sensação de esperança na música, pois as cantoras de hoje ainda respiram o estilo com maestria e determinação.Já resenhei sobre Sandra Duailibe aqui no Mais Cultura! com seu delicioso disco Do Princípio ao Sem-Fim e Márcia Tauil esteve na lista das 20 melhores cantoras surgidas nos últimos 10 anos na MPB, alcançando o merecido quinto lugar, mas pra mim foi uma grata surpresa poder conhecer também os trabalhos (e as vozes encantadoras) de Cely e Nathália. Estilo único capaz de nos deixar encantados, o som que as quatro cantoras expõe é de uma delicadeza profunda, de um sentimentalismo aflorado e apurado e de uma magnitude centralizada na beleza de uma batida cadenciada que marcou gerações. Falar de Brasília, a capital do Brasil e não citar o movimento que marcou o início da nova geração do Rock, como Legião Urbana e Capital Inicial e que deu um salto significativo para a indústria fonográfica, eis que a capital volta a ser o centro das atenções, pois muita gente boa e de respeito mútuo está apontando por ali, caso das quatro cantoras e de algumas mais, como a sensacional Simone Guimarães.  Para ouvir o disco (e as lindas vozes) é preciso fechar os olhos e imaginar que estamos no Rio de Janeiro de 1960, nas noites cariocas, quando tudo era possível ou imaginado, quando a música brasileira estava trocando a noite pelo dia, literalmente, porque até então, a música era cantada e musicada durante a noite, os eventos musicais e as reuniões dos músicos eram centradas a noite e durante o dia nada acontecia, senão dormir e descansar. Um dos responsáveis por esse feitio era um jovem e promissor rapaz que, não por acaso, gostava de tocar violão, chamado Roberto. Roberto Menescal.

 

Tanto sol a iluminar

Por aqui e até no Japão

E a alma ri e se põe a dançar

Clube da Bossa

Quem não gosta deste lugar?

Das batidas do coração?

Nessa festa de luz eu vou

Nessa festa de sol eu vou

Nessa festa eu vou

Ah, vem também, meu amor

Trecho de Clube da Bossa, de Menescal e Márcia Tauil

 

Abrindo o disco com a provocante e bem humorada O Brasil Precisa Balançar, as quatro intérpretes dividem frases que mais parece uma provocação às pessoas que carecem de uma verdadeira musicalidade ou que vivem de músicas gratuitas e descartáveis. Você, aqui cantada extraordinariamente por Márcia Tauil ao lado do grande mestre, denota toda a sensibilidade afetiva de uma grande cantora com uma música que mexe com o nosso imaginário. Embora a voz de Cely Curado muitas vezes se parece com o da cantora Wanda Sá (grande amiga de Menescal), aqui as canções Me Diz e Amanhecendo nos deixa a sensação de que suas vozes são idênticas. Isso não faz perder a credibilidade da estonteante cantora Cely Curado, muito pelo contrário, porque a cantora carrega no timbre um ar de bossanovismo que faz a alma de Elas Cantam Menescal ficar com aquele ar saudade. Cely Curado nasceu em Brasília e faz um certo barulho em sua cidade natal, onde é muito popular e segue em shows cantando ao lado de Sandra Duailibe ou em shows solo, aonde canta clássicos da MPB. Aqui neste disco ela encanta pela voz potente, pelo belo timbre e pela sua música.
Nathália Lima esbanja emoção nas faixas Nós e o Mar (já cantada por Maysa) e Energia Feliz, talvez uma das melhores do disco também. A cantora, que também nasceu em Brasília, é muito popular em sua terra natal, aonde segue cantando clássicos da MPB e que aqui no disco interpreta com sutileza as pérolas de Menescal. Sandra Duailibe interpreta com sua voz rouca as belas faixas 3X4 e Copacabana de Sempre. Com batidas leves, lembrando suavemente as canções de bossa nova, Sandra reinventa uma maneira de cantar, não caindo na mesmice e deixando sua marca registrada no disco. Vale ressaltar que Sandra é uma dessas cantoras que devem ser sempre ouvidas e descoberta o mais depressa possível pelos amantes da MPB. Márcia Tauil nasceu em Guaxupé, Minas Gerais e já foi resenhada aqui no Mais Cultura! em dois artigos, sendo um deles sobre seu sensacional disco sobre as obras de Eduardo Gudin e Costa Netto e além de ser uma grande cantora, aqui ela se mostra uma compositora vertente e de calibre sutil. Compôs com Menescal a dançante Clube da Bossa e a sensação que a música nos passa é de que ali está centrada o novo clube que está reverenciando a bossa nova no século vinte e um. Clube da Bossa é uma junção de punhado de vários estágios do estilo bossanovista que já ouvimos por ai: às vezes soa como resposta a faixa O Brasil Precisa Balançar, às vezes remete à música Meditação, mas o que a canção transmite é a sensibilidade que a Bossa Nova passou às pessoas e ainda continua passando, com dias lindos, sol, flor, amor. E bossa é exatamente isso: o amor. Ninguém menos do que Menescal para reverenciar um dos grandes marcos na história da música popular brasileira, ainda na ativa, sendo respeitado e admirado por pessoas que cresceram ouvindo aqui ou ali suas melhores composições. Em Elas Cantam Menescal, as faixas escolhidas foram o ponto alto, pois não trazem canções conhecidas e aqui temos a oportunidade de ver o cantor e compositor sendo agraciado com as melhores vozes que o Brasil precisava ouvir e descobrir.

 


Elas Cantam Menescal / Cely Curado, Márcia Tauil, Nathália Lima e Sandra Duailibe
 
Nota 10
 
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sim, o disco vermelho de Vanessa da Mata


Um dos melhores discos de Vanessa
Alcançando o segundo lugar na lista das vinte melhores cantoras dos últimos 10 anos na MPB, Vanessa da Mata conseguiu uma proeza e tanto em sua brilhante carreira ao lançar Sim, um disco maravilhoso e sensacional. Sim, o disco vermelho de Vanessa da Mata é um disco feminino. Começando pela capa, com aquela manta que parece uma mancha de esmalte sobre a areia, e que voa quando abrimos o encarte. Sua voz é bonita e cristalina, num balanço na medida entre a delicadeza e a braveza. Um pêndulo que só existe dentro de uma mulher. Vanessa da Mata constrói um disco de sensações e sentimentos, que poderiam ser contados e cantados em grandes clichês, mas não, ela captura a magia do simples e o transforma em leveza. Deixa escorrer o desejo. Seu disco tem um encaixe redondo, os fios se encontram numa poesia tranquila sem grandes surpresas no caminho. Talvez a surpresa esteja aí, nesse rio que corre manso. Seus sons são bons de ouvir, tem algo nisso tudo de misterioso, de atraente.

Vermelho abre num crescente, com uma voz que vem de longe e vai chegando pertinho. Lânguida face. Os sons se misturam com barulhos de bolhas explodindo. Vermelho é o sangue: o quente que arde, o quente que queima, o calor que pede o aconchego, mas que traz o vazio, que deixa a alma na solidão. E a voz vai como veio, desaparecendo, sumindo, enquanto o mundo roda em vão. Fugiu com a novela é um charme! Gostosa até de ouvir com esse som de triângulo, com essa percussão melindrosa. Gosto muito da inversão de papéis: Vanessa da Mata canta um homem que reclama a perda de sua mulher para a novela das oito e bem agora que o caso estava no tom! Perfeito! Esse homem que parece mais um gato, que gostava de ser alisado, que contava piada e ela gargalhava, foi abandonado. A letra é uma crônica conhecida e capta justamente um lapso: o vão entre os dois lados de um mesmo homem – o que acariciava e às vezes nem tanto. Com graça e sem alarde, Vanessa toma da voz masculina para dar o recado: A vida era boa ela não reclamava/ Agora vive longe, não sei mais nada/ Fugiu da nossa casa com a televisão.

Baú é o lado do pêndulo bravo da estória. Num ritmo mais rápido, com um órgão que traz uma sonoridade ácida à música, Vanessa numa imagem linda de morrer, quer jogar o moço no seu baú vivo e mágico, cheio de desenhos herméticos, livrinhos de receita e palavras de Dalai Lama. Está louca pra transformar seu sapo em príncipe. É bem aquela coisa de mulher, que vai dando nos nervos… Mas claro, a estória poderia ser cantada ao contrário. Essa música é meio como búzios quando jogados na mesa, é tudo uma questão de encaixe, de interpretação.

Boa Sorte/ Good Luck é um encontro de dois tecidos transparentes. Gosto muito. Acho super legal essa ideia de sobrepor a mesma ideia em duas línguas diferentes: como se a tradução não fosse possível quando estamos falando de sentimento, então temos a necessidade das duas vozes. Estamos aqui falando da riqueza das línguas, como se fosse um concentrado de cultura e um código que tenta colocar pra fora tudo isso. Cada língua com suas nuances, com suas palavras ora mais carregadas, ora menos, e, como se tivessem vidas próprias, elas conversam entre si, e a música é só um pretexto onde todas essas ideias deslizam. E o Ben Harper é um parceiro mais que perfeito! Ele, na sua bagagem musical, esbanja liberdade, encontros e poesia.

Os dedos percorrem os pretos e os brancos do piano que abre Amado e com a voz mais doce do mundo, Vanessa da Mata mata já de cara: Fico desejando nós gastando o mar/ Pôr-do-sol, postal, mais ninguém. Em Amado, onde até a sonoridade respira e transpira num movimento único, Vanessa da Mata canta um amor livre: no mesmo espaço onde lá fora passa o tempo sem você, é o espaço sim, onde tudo pode acontecer. Sem prisão.

Pirraça é uma música visual e a única coisa que me vem à cabeça nessa música é esse monte de doces brilhantes e deliciosos. Em Você vai me destruir, Vanessa da Mata canta o que a gente também sente: o nó no peito do fim do amor. O som é dançante, feito mesmo para disfarçar a raiva, todo o desdém. A fúria dessa música também é bem feminina: a fúria que se mistura com a vontade de perdoar, de esquecer e de continuar amando com a potência do amor envolvente, aquele mesmo, aquele que te come, aquele cheio de contradição.

 

 E se é gostoso, por que não?

Se é bem bom pro coração

A gente vai pra ser feliz

Viva, tenha

Trecho de Quando um homem tem uma mangueira no quintal, de Vanessa

 

Ilegais é a minha música favorita! É malandrinha, com balanço, com malícia. Os vocais são discretos como devem ser, o eletrônico no fundo dando o tom, o trombone que aparece de curioso, enche um espaço e faz bonito, Vanessa da Mata funde tudo isso muito bem com sua letra dengosa. Uma música gostosa, com um nome sensacional. Nada mais sugestivo. Me entrego total e acho uma verdadeira delícia a velocidade de Quando um homem tem uma mangueira no quintal. Uma música cheia de duplos sentidos, sem vergonha, cheia de siricotico e aventura. Essa música tem uma graça incrível, ela é toda livre, como numa trança solta, uma gostosura.

Fico viajando nesse quintal: com grama verde e com uns pedaços ainda com terra. Terra às vezes molhada pela água da mangueira. Um lugar pra poder brincar de amar, sem pensar no amanhã, aproveitar a tarde vazia.

É uma homenagem ao tempo livre, ao tempo vazio, ao deixar-se sair do sério.

 

Sim / Vanessa da Mata

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Fernanda Takai (en)canta canções de Nara Leão


Fernanda Takai canta lindamente
Fernanda Takai tornou-se conhecida do grande público como integrante do Pato Fu, mas neste primeiro disco solo ela se revela uma outra cantora. Aliás, vale ressaltar que aqui mesmo eu já escrevi uma resenha sobre este disco em homenagem à Nara Leão, porém, ao vivo. Ainda que a produção e instrumentação tenham sido feitas quase toda pelo marido/parceiro de Pato Fu, John, o disco gravado no estúdio caseiro do casal difere do trabalho da banda no tom. A abordagem humorística típica do Pato fica muito mais sutil em favor das canções e da voz suave da Fernanda. A ideia de gravar músicas do repertório da Nara Leão partiu do Nelson Motta, coprodutor à distância do álbum. Os arranjos trazem um pouco das colagens musicais típicas do Pato Fu, mas a instrumentação concentra-se no básico, guitarra-baixo-bateria (eletrônica, aqui) e eventuais teclados.

O repertório é uma delícia e Com Açúcar com Afeto (Chico Buarque) é minha favorita, junto com Insensatez, que traz um solo lindíssimo de guitarra de ninguém menos que Roberto Menescal. O título do disco sai de um trecho da letra de Seja o Meu Céu (de Robertinho do Recife), uma das melhores do disco também. Outros destaques são o fox-chorinho-trote Odeon, Diz que Fui por aí e Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Uma delícia de disco, presente da voz relaxadamente deliciosa da Fernanda e do trabalho instrumental caprichoso do John. É só ouvir...

 

Fernanda Takai

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Micróbio Vivo, de Adriana Calcanhotto: fraco


Micróbio Vivo se mostra chato às vezes
Adriana Calcanhotto lançou Micróbio Vivo Multishow (Minha Música / Sony Music / 24,99) como uma referência ao seu bem sucedido disco de samba (o primeiro) lançado no ano passado, pegando a todos de surpresa, até mesmo porque ninguém esperava um lançamento da cantora para aquele momento e, o que era o mais impressionante, um disco totalmente voltado para o samba. Mas há algumas diferenças notáveis entre O Micróbio do Samba (2011) para este novo lançamento. Adriana Calcanhotto tentou ousar, tentou disfarçar, tentou cantar, mas o resultado não foi um dos melhores. Diferentemente do que aconteceu com Público, lançado no século passado, aonde teve a audácia de regravar um grande sucesso, Devolva-me, do ocorrido, e aonde este disco teve praticamente todos os seus grandes sucessos gravados no formato ao vivo numa forma divertida, distinguida e sobre o aspecto de novo, aqui em Micróbio, temos uma Adriana pautada no nervosismo e na sensação de que ela está envelhecendo. Em seu novo trabalho, a cantora gaúcha de 46 anos, se propôs a explorar em sua forma mais bruta o mais celebrado dos ritmos brasileiros, o samba.

A voz de Adriana em algumas canções soa enfraquecida, quase uma voz tremula, esganiçada e isso fica muito evidente logo no primeiro passo, a abertura com Eu Vivo a Sorrir, uma canção difícil de cantar e cansativa conforme os minutos passam, mas engraçada ao mesmo tempo. A voz de Adriana tentar a todo custo ficar firme, mas o nervosismo a deixa abatida e sua voz quase não aparece e percebemos sua respiração ofegante e puxada. O que não acontece com a faixa seguinte, Aquele Plano Para Me Esquecer, aonde vemos uma Adriana um pouco restabelecida do nervosismo e tenta, aos poucos, se mostrar uma cantora de presença. Seguindo com Dos Prazeres, Das Canções, uma divertida e apaixonante música de seu fiel companheiro Péricles Cavalcanti, Adriana se mostra mais autoritária e dona de seu palco, de sua voz e de seu carisma diante do público que a assiste ao vivo. É a partir desta música que ela canta melhor.

 

Pro caso de você virar a esquina

E adentrar a livraria

Pro caso de o acaso estar num bom dia

Pro caso de o destino me haver reservado a alegria

E o meu fado estar fadado a ser a sua sina

Eu vivo a sorrir, eu vivo a sorrir

 

Trecho de Eu vivo a sorrir, de Adriana

 

 

Não tem muito que falar deste disco. Adriana acerta o tom nas canções, tem um samba cadenciado, combina harmonia com técnica vocal e sensibiliza em algumas faixas por onde os poros possam dilatar, nos fazendo crer que ela acertou ao fazer um disco ao vivo. Se não fossem pelas canções que não estão no disco original, caso de Argumento, de Paulinho da Viola e Maldito Rádio (que não está ao vivo e sim gravado em estúdio) e a própria canção de Péricles, o disco iria cair na mesmice logo, logo. Mesmo assim, o disco não tem grandes novidades. A não ser pelas batidas, tendo em vista que a reclamação de alguns fãs foram resolutos na preparação do disco ao vivo. A reclamação maior foi que o disco original tinha as mesmas batidas cadenciadas de samba da primeira à última faixa e aqui temos quase a mesma coisa, mas em algumas faixas o rap, o instrumental, as batidas de caixas e até a parte eletrônica se fazem presentes.

Quando Adriana canta Argumento, ela praticamente imita Paulinho da Viola. Não que a música não tenha ficado legal com ela, mas o fato é que a canção ficou a cara do criador e parece que Adriana reduz o som da própria voz para cantar igual ao dono. Maldito Rádio é uma justa homenagem à Ângela Maria e é boa, nos faz sentir falta de uma peça que foi muito utilizada anos atrás e que hoje virou artigo de esquecidos ou apreciadores do passado.

Nas fotos exibidas nos encartes, temos uma Adriana masculinizada, que é o motim dessa nova temporada, mas deixando claro também sua preferencia sexual: vestida de preto, cabelos repartidos ao meio, rosto corado e sério, sisuda e chapéu bicolor, sem falar nos pares de sapatos que me soam masculino. Mas Adriana é muito mais do que uma vestimenta masculina: ela canta e encanta quem a assiste.

O fato geral do disco é que Adriana Calcanhotto errou ao lançar um disco ao vivo e seguir praticamente a mesma linha do disco original. O bom é que ela pôde brincar com a própria voz, elevando o tom em algumas passagens ou simplesmente dando pausas propositais como forma de enaltecer a canção. As faixas ficaram longas demais e em algumas músicas é inevitável ouvi-las até o fim.

 

Micróbio Vivo / Adriana Calcanhotto

Nota 7

Marcelo Teixeira