quarta-feira, 11 de abril de 2012

Idílio, de Marina de La Riva: uma perfeição




Filha de pai cubano com mãe mineira, a cantora carioca Marina de La Riva acaba de lançar seu segundo álbum, Idílio (2012 / Universal / 25,90) em que retoma a saborosíssima mistura de música brasileira com cubana, como havia feito e chamado muita atenção em 2007, com o trabalho de estreia e homônimo. Ela volta agora muito mais amadurecida e acompanhada de músicos de primeiríssimo nível. As faixas não foram escolhidas e organizadas aleatoriamente. Muito pelo contrário. Umas dialogam com as outras. Ela começa mergulhando no baú da música cubana, recuperando Añorado Encuentro, de Piloto Bea e Vera Morua, que conta com a participação do consagrado trombonista Raul de Souza. Ela é acompanhada pela romântica Ausência, de Vinicius de Moraes e Marília Medalha, marcada pela percussão de Pedro Bandera e Ricardo Valverde: Eu tinha feito da saudade / A minha amiga mais constante / Ela a cada instante / Me pedia pra esperar / E foi tudo o que eu fiz, te esperei tanto.

A maneira como a voz de Marina de La Riva dialoga com o violão de Daniel Oliva e o baixo acústico e o arco de Fabio Sá, em Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é de arrepiar. Já é uma das mais belas homenagens ao centenário do rei do baião. A delicadeza permanece na dengosa Canción de Las Simples Cosas, de Armando Tejada Gómez e César Isella, reforçada Pepi Olviedo, o baixo acústico de Fabian Garcia Caturía, o violino de Ernesto Villalobos e os timbales de Adel Gonzalez, que cuida das palmas junto com a cantora. É surpreendente observar como a voz de Marina de la Riva se transforma nesse canto de saudade: Por eso, muchacho, no partas ahoa, soñando el regreso / Que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Igualmente forte é Como Duele Perderte, de Flores, pontuada pelo tamborim de Ricardo Valverde e o violão de Emiliano Castro. Ela abre espaço para o bolero-ranchero Y, de Mario de Jesus, com direitinho a uma paradinha, que arrepia mais do que a feita atualmente pelas escolas de samba na Marques de Sapucaí, assim como a voz de Marina de La Riva, imitando um suave trombone: Y a que debo dime entonces tu abandono / Y em que rufa tu promesa se perdió / Y si dices la verdad yo te perdono / Y te llevo de recuerdo junto a Dios. É de arrepiar.

Idílio, novo disco de Marina de La Riva
Não à toa o álbum segue com o samba “Juracy”, de Antonio de Almeida e Cyro de Souza, gravada pelo rei da malandragem Moreira da Silva. Ela desbrava espaço para uma versão em mambo da dançante Estúpido Cupido, versão de Frank Jorge para sucesso de Neil Sedaka e Howard Greenfield, gravada por Celly Campello, na fase inaugural do rock brasileiro. Aqui ela é reforçada pelo piano de Pepe Cisneros e o sax-tenor de Ivan de Andrade. A canção seguinte é o chorinho Deixa Que Amanheça, de Oswaldo Santiago, gravada por Emilinha Borba e que aqui conta com o acompanhamento de um time de altíssimo nível, formado por Luizinho 7 Cordas, no violão de sete cordas; Alexandre Ribeiro, no clarinete; Deni Mastrodomenico, no cavaco; e Ricardo Valverde, na percussão. Ela abre espaço para “Dile Que Por Mi No Tema”, de T. Smith, que conta com arranjos de Pepe Cisneros e remete à chanson francesa.

Marina de La Riva parte, então, direto para a emplogante Muñeca, de Eddie Palmieri, mais uma faixa com arranjo de Pepe Cisneros, com o primoroso trombone de Raul de Souza e com uma letra safadíssima: Muñeca, quiero que me perdones / Muñeca, que yo no ló hago más / Me encontrastes em los brazos de otra nena / Son diversiones que no valen nada. Dá vontade de sair dançando pelo salão.

A cantora Marina de La Riva
Chega-se à faixa-título, Idílio, de Titi Amadeo, que conta com a bateria de Pupilo, da Nação Zumbi, e mantém o clima caribenho e bastante ensolarado. O álbum termina com mais duas canções charmosas e dançantes – Voy a Tatuarme, de Amaury Gutiérrez (vencedor do Grammy Latino de melhor cantautor em 2011), baseada no Soneto LXVI, de Pablo Neruda e Luiz Felipe Gama; e Voy a Guardar Mi Lamento, de Raul Vasquez, que conta com o trompete azeitadíssimo de Guizado, a guitarra de Junior Boca, a bateria de Pupilo e o baixo elétrico de Fabio Sá.

Portanto, Idílio reafirma Marina de La Riva como uma das melhores cantoras brasileiras da nova geração. Há quem diga que ela é apenas para ouvidos mais refinados. Mas, que nada, parece impossível escutar esse álbum e não se encantar e nem sentir vontade de sair dançando por aí, com uma pitada de saudade e um arco-íris ou uma Lua, rodeada de estrelas, no céu.



Nota 10

Idílio / Marina de La Riva

Marcelo Teixeira

terça-feira, 10 de abril de 2012

Karina Buhr: surpresa nordestina





Karina Buhr: revelação nordestina
Karina Buhr é aquilo que ela canta. Não me ame tanto / Eu tenho algum problema com amor demais / Eu jogo tudo no lixo sempre / Não me ame tanto / Não posso suportar um amor que é mais do que / O que eu sinto por dentro / Penso, garante a cantora e compositora baiana Karina Buhr, na contagiante Não me ame tanto. Mas como não se apaixonar por essa artista que passou boa parte da vida em Pernambuco, convivendo com as pastoras, o cavalo marinho e o maracatu? Afinal, ela possui a ousadia de quem aposta nos próprios versos, dialoga com o que há de melhor na música brasileira e aposta no experimentalismo.

 Ex-integrante do grupo Comadre Fulozinha, Karina Buhr já havia deixado parte da crítica especializada de queixo caído ao estrear com Eu Menti Pra Você (2010). Porém, ela chega ainda mais forte e amadurecida ao segundo álbum, Longe de Onde, onde é autora de todas as faixas e se faz acompanhar por ótimos músicos como o baterista Bruno Buarque e o baixista Mau, que produziram o álbum com ela; o tecladista André Lima, o trompetista Guizado e os guitarristas Edgard Scandurra e Fernando Catatau. Ela segue à risca o que o compositor Itamar Assumpção lhe disse um dia: “A música brasileira tem muitos melodistas populares. Luiz Gonzaga, Monsueto, Cartola, Lupicínio, Adoniran, as melodias são eternas, então se você diz que está na tal MPB tem que prestar atenção nisso, ser diferente é o mínimo!”.

Realmente, Karina Buhr é diferente, o que fica mais do que comprovado em Sem Fazer Ideia, onde recita os versos da canção, sendo acompanhada por uma sonoridade que remete às antigas fanfarras nordestinas. Em seguida, ela emenda com a doce Pra Ser Romântica, que possui certo toque do início do rock brasileiro, da época da Jovem Guarda: Nem ia imaginar / O sol, como você está / Nesse dia, esse viaduto lindo / Como calendário de verão / Do mês que a gente está / Na cidade que continua linda. Para completar com uma canção ensolarada, que remete de certo modo à Gal Costa e possui o título Cadáver – maior contraste impossível: Sua dúvida é produto da sua escravidão / Mantenha então / Sua sanidade em defesa do seu estômago.

O segundo disco: sonoridade diferente
Longe de Onde (2011 / Sony Dact / 19,99) começou a ser divulgado com o videoclipe da ótima Cara Palavra, em que Karina Buhr brinca com as palavras, remetendo aos poetas concretos: Cada fala / Cada palavra cala / E ganha um signovosignificado para mim / Desperta dor / Apaga dor / Vai embora / Fica / Meu amor. Essa é a canção que abre o álbum e tem continuidade com A Pessoa Morre, no caso, de tanto verbo. A temática da morte retorna em Copo de Veneno, cujos versos ganham certa candura na voz da artista: Não tenho medo de morrer / Pelos mesmos venenos / Por favor me dê um copo de veneno / Pelo menos / Com duas pedrinhas de gelo, / Pelo meio. No final, com boa pegada psicodélica, Karina desabafa: A cada pedaço meu que se vai / Um pouco do medo sai / E o que fica às vezes me atrai suficientemente / Pra acordar e depois dormir / Às vezes não / Não precisa me procurar mais não.

Assemelho Karina Buhr a Rebeca Matta, cantora baiana que mescla ritmos e estilos diferentes, mas com um particularidade extrema: Karina Buhr realmente é diferente. Karina Buhr é Recife e é São Paulo, Fortaleza, Salvador… Consistência artística e originalidade em alto grau. Além deste post e de qualquer explicação. Nada como sentir.



Nota 8

Longe de Onde / Karina Buhr

Marcelo Teixeira




segunda-feira, 9 de abril de 2012

O fim do mundo de Lula Queiroga




Disco recente de Lula: perfeito
Lula Queiroga, recifense de 51 anos, é um dos grandes nomes da música contemporânea pernambucana não é de hoje. Cantor, compositor, poeta, letrista, cineasta, escritor e publicitário brasileiro, ele ganhou destaque como parceiro de Lenine e acaba de lançar o consistente quarto álbum solo e independente Todo Dia é o Fim do Mundo, em que aposta nos experimentalismos e no choque produzido entre uma sonoridade animada e festiva e uma letra sincera e realista e, por isso mesmo, corrosiva e trágica para muitos. Esse é o caso da animada Os Culpados, que conta com vários efeitos, que simulam sons de tiros e da sirene da polícia, para ilustrar a ácida letra: Passam por debaixo de um país sem fronteira / passam pelo ar diante do seu nariz / narcotrafigrana / tem granada, pó e crack / para encher as bocas desse grande país / e a população procura em vão os culpados.

O álbum começa com a saborosa e sensual Se não for amor eu cegue (love), parceria com Lenine, que, de certo modo, abre espaço para o repente moderno Voo Cego, a qual remete um pouco ao trabalho de Alceu Valença. A faixa-título é um caldeirão de influências, em que é possível encontrar, por exemplo, Arnaldo Antunes e Raul Seixas. Com um vocal coletivo, aqui a alegria contrasta com a letra: Todo dia é o fim do mundo / Todo dia tem que respirar mais fundo / Todo dia é o fim do mundo / Dia vai e vem um outro em seu lugar / Não se apavore, muita calma nessa hora / Cada passo em falso é pura dinamite.

O samba Unha & Carne, parceria com Vinicius Sarmento, narra o encontro de uma revendedora de Avon e de um gerente que se conhecem via internet até que partem para a vida real e termina na separação e a briga pela guarda do filho. O tempo vai passar indiferente / Daqui a pouco os dois vão se esquecer. Está recuperada uma das vertentes mais tradicionais da música brasileira - a crônica social. Abre-se espaço para o rock, com pitadas de funk, Dias Assim, composta com Lucky Luciano e dedicada a Lula Côrtes, outro importante nome da música pernambucana, parceiro de Zé Ramalho e Alceu Valença, e que faleceu em 26 de março de 2011.

Uma das canções mais marcantes do álbum é Dos Anjos, parceria com Lula Oliveira, que conta com um quintal sonoro poderoso, produzido pela banda afiada, e mistura a doçura de uma canção romântica com a agressividade roqueira, numa letra extremamente lírica: E eu que nem acredito em anjos / Bati na porta do céu / Mas se ela quiser me seguir / Eu vou mostrar meu mundo secreto / Vou ensinar a ver estrelas / Do ponto de vista do chão. O rock retorna, numa linhagem bem contemporânea, em Padrões de Contato.

Há também dois duetos marcantes, um com Luiza Possi em Um do Outro, e outro com Isaar, em Atlantis. Outra participação especial é de Marcelo Jeneci, que toca sanfona e marimba na ótima balada Poeira de Estrelas, que encerra o álbum e conta também com o piano de Vitor Araújo e o violão 7 cordas de Vinicius Sarmento. Foi quando você dormiu / profundo / e eu fiquei a vigiar / seu mundo / fiz uma canção / que é só pra mim ; naquela hora / um jeito assim de não deixar / o tempo / ir embora.

Lula Queiroga
Multiinstrumentista e considerado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) o melhor compositor do ano, Lula Queiroga reúne a família no álbum e conta com o apoio de ótimos músicos, como Marcelo Lobato no theremin e Lucky Luciano no baixo, entre outros. Também chama atenção o criativo projeto gráfico do designer pernambucano Mateus Alves e a foto da capa de Marcelo Lyra. Todo Dia é O Fim do Mundo, portanto, só comprova a força desse artista, que, em 2011, teve canções gravadas por, entre outros, Roberta Sá, Mart'nália, Zé Renato, Elba Ramalho, Maria Rita, Teresa Cristina e Pedro Luís.

Já conhecia e muito o trabalho de Lula através do trabalho do grande cantor e compositor Lenine, mas vindo a João Pessoa tive a certeza da enorme grandeza de sua responsabilidade artística, musical e cultural. Embora ele seja recifense, o Nordeste em peso agradece a sua musicalidade incrível e capacitada. Salve, salve, Lula Queiroga... Sempre.



Nota 10

Todo Dia É O Fim Do Mundo / Lula Queiroga

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Vania Abreu e a doçura de ser Vania Abreu




A baiana Vania Abreu experimenta sempre. Já flertou abertamente com o pop sintetizado e até com o eletrônico, sempre mantendo como fio condutor o romantismo e a leveza da musicalidade do Estado de origem, mas com sabor que transcende fronteiras geográficas ou estilísticas. Em Misteriosa Dona Esperança (2007 / Tratore / 19,99) seu sexto trabalho, o tom é exatamente o mesmo, porém com atmosfera acústica, centrada basicamente em piano e violão.

Há canções inéditas e belas releituras de O Que Foi Feito Devera (Milton Nascimento/Fernando Brant) e O Que Foi Feito De Vera (Milton/Márcio Borges), unidas num pot pourri, e de Diga Que Me Ama (Péri). Os temas novos invariavelmente falam de amor, casos de Misteriosa Dona Esperança (Carlos Careqa), O Que Se Escreverá (Marcelo Quintanilha) e Novo Velho Amor (Vicente Barreto/Gustavo Sant'Anna).

Disco lançado em 2007: caprichado
A beleza das canções é realçada pelas interpretações doces de Vania Abreu. A cantora oferece abordagens intimistas, que dão ao ouvinte a gostosa sensação de proximidade. É como se ela estivesse na sala da casa de cada um, cantando acompanhada por piano e violão. O CD tem produção de Serginho Rezende e da própria Vania. Boa música, feita com qualidade, simplicidade e capricho. Música do primeiro LP de Djavan (A Voz, o Violão e a Música de Djavan, de 1976), Embola Bola é um dos destaques do repertório. Carlos Careqa assina a faixa-título e - em parceria com Zeca Baleiro – Cisco.

Irmã de Daniela Mercury, Vânia Abreu é sinônimo de sentimento, docilidade musical e pesquisa aprofundada. Ela é o que salva a música popular brasileira num todo em se falando de qualidade musical e artística. Vania Abreu é daquelas cantoras que fazem bem, aos ouvidos e à alma. Uma grande virtude na sua obra e nessa não é diferente, é a verdade com que interpreta as canções, de maneira tão própria e característica que qualquer coisa que cante, tem em sua voz um selo de garantia de qualidade.

Vania Abreu não precisa de holofotes, tem luz própria, é uma grande Artista e nas páginas da Musica Brasileira ela tem feito e vai fazer muita história. Esse novo CD, de grande beleza, trás mais uma vez grandes achados, mais um ponto para Vania que sabe como poucas fazer um trabalho de conteúdo. Vale a pena ouvir...



Faixas

·       Misteriosa Dona Esperança (Carlos Careqa)

·       2. Diga que me Ama (Péri)

·       3. Embola Bola (Djavan)

·       4. Mais uma Vez (Péri)

·       5. Novo Velho Amor (Gustavo Sant'Anna e Vicente Barreto)

·       6. Bom Dia, Sonho (Vítor Ramil)

·       7. Cisco (Carlos Careqa e Zeca Baleiro)

·       8. Da Maré (Luiz Tatit e Ricardo Breim)

·       9. Moda de Viola (J. Velloso)

·       10. O que se Escreverá (Marcelo Quintanilha)

·       11. O que Foi Feito Devera / O que Foi Feito de Vera (Milton Nascimento, Fernando Brant e Márcio Borges)





Nota 9

Misteriosa Dona Esperança / Vânia Abreu



Marcelo Teixeira


quarta-feira, 4 de abril de 2012

O novo disco de Céu: ótima viagem musical




Caravana Sereia Bloom: ótimo disco
O terceiro disco da cantora CéU, Caravana Sereia Bloom é totalmente diferente do primeiro, CéU (2005), que tinha muitas experimentações voltadas a tradicional MPB e muito próximo de Vagarosa (2009) no quesito sonoridade e ritmos diversificados, como o haitiano e o jamaicano. Mas o novo disco de CéU, Caravana Sereia Bloom (2012 / Universal Music / 25,99) é, acima de tudo, um estilo diferente na arte de se fazer musica no Brasil. Mesclando ritmos e estilos não encontrados em outra cantora brasileira, CéU conseguiu fazer um disco com tanta desenvoltura e musicalidade, que fica difícil não dizer que ela é uma cantora merecedora de méritos. Com este novo disco, ela realça ainda mais seu brilho como musicista e também como compositora competente que é.

O disco abre com Falta de Ar, uma canção perfeita e que martela em nossa mente, tanto em ritmo quanto em melodia. A letra de Gui Amabis (marido de CéU) é tão caprichada e simples, que fica impossível não cantarola-la diversas vezes. A batida desta música é única e o refrão em marte eu vou descer é divertido pacas. Amor de Antigos é uma canção bonita e talvez a mais caprichada de todo o disco, tanto em harmonia como em sensação de clima jamaicano. Asfalto e Sal também nos trás aquela sensação de que a música haitiana entrou definitivamente para o comportamento de CéU, que junta com a sonoridade brasileira, transformando a canção na mais pura beleza. Retrovisor é uma canção de amor reprimido, partido e que tem uma mensagem cortante.

Contravento é ótima e talvez a melhor faixa do disco. Nesta música, CéU reinventa a forma de cantar sustenidamente e ainda por cima recria a velha forma de rimar sem pecar. Palhaço, grande composição de Nelson Cavaquinho e cantada com estrondoso sucesso por Clara Nunes na década de 70, faz de CéU uma cantora única: brilhantismo e romantismo em uma canção que merece destacamento pela mensagem simplória e rica ao mesmo tempo. A interpretação de CéU ficou magnífica. Baile de Ilusão e Chegar em Mim são estilos haitianos com levada brasileira, mais parecendo um hip hop ou um suingue mais requintado e que não deixam a desejar no disco.

Como em todos os seus outros discos, CéU canta algumas faixas em inglês e, mesmo ela jurando que não pensa no mercado internacional, suas músicas são todas belas regravações de canções muito conhecidas lá fora. Em 2009 foi considerada pela revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes de 2009, vendendo mais de 25 mil cópias na Europa e, 100 mil nos Estados Unidos. Em Caravana Sereia Bloom, o teclado jazzista cede lugar a um tecladinho mais fuleiro, como ela mesmo define, e toda a ginga africana é substituída pelo brega – forte influência do guitarrista Fernando Catatau, que ainda integra a sua banda, dando um ar de nordestinidade ao álbum, o que não faz perder sua magia. Tudo isso sem esquecer da pitada de malemolência, que tanto lhe é peculiar.

Caravana Sereia Bloom deixa no retrovisor o suingue quebrado da estreia homônima e a psicodelia dub de Vagarosa e dá lugar a mais guitarras e um clima norte-nordestino brasileiro. O disco abre, logo de cara, com uma canção robertiana, meio jovem guarda. Falta de Ar é rock, mas com uma malemolência que só a paulistana parece alcançar. A leve mudança de sonoridade trouxe novidades para o público: CéU se firma como uma das melhores e magistrais cantoras de todos os tempos. Inclusive do seu próprio tempo.



Faixas

·       1 - Falta de Ar (Gui Amabis)

·       2- Amor de Antigos (Céu)

·       3 - Asfalto e Sal (Céu / Gui Amabis)

·       4- Retrovisor (Céu)

·       5- Teju Na Estrada (Gui Amabis)

·       6- Contravento (Lucas Santtana / Gui Amabis)

·       7 - Palhaço (Nelson Cavaquinho / Oswaldo Martins / Washington)

·       8 - You Wont’t Regret It (Lloyd Robinson / Glen Brown)

·       9 - Sereia (Céu)

·       10 - Baile de Ilusão (Céu)

·       11 - Fffree (Céu)

·       12 - Streets Bloom (Lucas Santtana)

·       13 - Chegar em Mim (Jorge Du Peixe)



Nota Dez

Caravana Sereia Bloom / CéU



Marcelo Teixeira

terça-feira, 3 de abril de 2012

A intelectualidade ácida de Carioca, de Chico Buarque




Carioca, de 2006: Chico volta mais intelectual
Quando lançou Carioca, Chico Buarque estava tão eufórico e pensativo que pensou que fosse ter um ataque de nervos. Pudera: desde que colocou no mercado As Cidades, em 1998, que ele não lançava um disco sequer na praça e os fãs estavam apreensivos com o novo disco que estava por vir. Carioca veio, surpreendeu a todos e principalmente a crítica, uma equipe generalizada que estava torcendo rezando para que o disco fosse um fracasso. E é sempre assim: quando uma pessoa que pensa e faz algo realmente benéfico para alguém, sempre tem um ou outro que mete o bedelho e faz com que a alegria dê lugar a tristeza. É sempre assim, seja em um lugar público ou privado. O disco não foi um fracasso, muito pelo contrário: o disco foi considerado o melhor lançamento do ano de 2006 e alçou mais uma vez Chico Buarque ao patamar de melhor letrista de todos os tempos. As músicas de Carioca entraram para o imaginário das pessoas e muitas canções foram parar em discos de outros cantores, como os de Ney Matogrosso e Elza Soares.

Carioca (2006 / Biscoito Fino / 34,99) realmente é um excelente disco. Com músicas distintas de outros discos do cantor, o álbum tem um talento merecidamente destacado por canções que realça ainda mais sua intelectualidade e sua forma de compor, dando uma dimensão do tamanho da importância dele na música popular brasileira. São doze faixas, todas compostas por Chico Buarque e algumas em parcerias com Ivan Lins, Carlinhos Vergueiro e Jorge Helder. Músicas que inspiram toda uma vida, este disco merece destaque pelo simples fato de ser um disco a altura de um grande compositor, que voltou com força total após o sucesso de As Cidades.

O álbum abre com Subúrbio, que faz uma justa homenagem ao Rio de Janeiro, cidade natal do cantor e que tem em sua letra refrãos que grudam e martelam durante muito tempo no nosso imaginário. Um choro-canção afinado e suave em que Chico parece sobrevoar a cidade. Fica difícil acreditar que um certo Chico Buarque de Hollanda fale palavrões, mas nesta faixa exclusivamente sim, ele fala palavrões, que passa desapercebido e até mesmo irônico e engraçado ao mesmo tempo. Outros Sonhos parece até ser uma continuação de Sonhos, Sonhos São, do disco As Cidades, mas com um teor e uma mensagem diferente, onde mostra Chico cantando em espanhol em alguns refrãos. Ode Aos Ratos é uma música composta em 2001 com Edu Lobo e que fora composta especialmente para o espetáculo Cambaio, de Adriana Falcão e João Falcão e a particularidade desta canção é a faixa Embolada, que foi acrescentada apenas na versão para o disco (não no musical). Essa música mais tarde foi regravada por Ney Matogrosso no excelente disco Inclassificáveis.

Ode aos Ratos revela o quanto a podridão está refletida nas pessoas, dentro das pessoas, com seus cabelos pintados e suas risadas falsas. Este mundo a qual pertenceu Chico Buarque está refletida nessa canção, em que abre os braços para uma nova equipe, sendo recebida de braços abertos, sem os clichês de personas non grata em sua vida. Ratos, muitos deles, fizeram parte de sua vida e hoje liberto, a canção cai como uma luva em Carioca.

Dura Na Queda foi composta em 2000 e foi composta especialmente para Elza Soares, que foi cantada e gravada no disco Do Cóccix até o Pescoço, elogiado pela crítica e público e com um artigo aqui no Mais Cultura!. A canção seria incluída no disco As Cidades, mas acabou ficando de fora. Esta música recebeu o subtítulo de Ela Desatinou Número 2, porque é uma continuação de Ela Desatinou, gravada no disco Chico Buarque de Hollanda Volume 3 (1968). Porque Era Ela, Porque Era Eu é uma música tão linda e apaixonante, que demonstra todo o sentimentalismo de Chico com relação ao amor. Assim como já homenageou os jogadores de futebol, os cantores de cabaré e até as aeromoças em músicas, As Atrizes é perfeita e faz de Chico um homem exemplar homenageando esta profissão com tamanho requinte. A música já foi tema até de um especial que uma emissora de televisão colocou no ar em homenagem ao cantor. Assim como Ela Faz Cinema, que também inspira-se no mundo das telas, a canção é tão bonita e caprichada, que fica impossível não dizer que Chico é um gênio.

Renata Maria, primeira parceria com Ivan Lins, foi composta em 2005 para o disco de Leila Pinheiro de inéditas daquele mesmo ano, mas que na verdade virou uma ponta de interrogação na vida do cantor. Dizem as más línguas que a canção foi feita especialmente para uma mulher, a nova namorada de Chico (que estava conhecendo realmente uma moça muito bonita) e cujo os fotógrafos flagraram o cantor saindo da praia carioca com uma mulher, a tal Renata Maria. Nunca foi confirmado nada sobre esta tal moça e nunca se soube se esta moça chamava Renata Maria, mas o fato é que Chico estava separado de Marieta Severo, sua esposa por mais de trinta anos e mãe de suas filhas e o pivô foi esta mulher misteriosa.

Leve foi composta juntamente com Carlinhos Vergueiro, antigo amigo do cantor e que foi inclusa no disco que Dora Vergueiro lançou em 1997, cujo é um bolero sobre a efemeridade do verão e seus amores. Sempre é uma canção romântica e que foi tema do filme de Cacá Diegues, O Maior Amor do Mundo. Despojadamente amorosa, a música se torna um achado e tanto para a carreira do cantor. Imagina conta com a participação de Mônica Salmaso, cujo é a queridinha do cantor. Esta música é, certamente, uma das mais lindas do mundo. Originalmente apenas instrumental e chamada Valsa Sentimental, ela foi feita muito antes por Tom Jobim em 1983 foi letrada por Chico para a trilha sonora do filme Para Viver Um Grande Amor, do cineasta Miguel Faria Junior. A parceria entre Mônica e Chico saiu tão cristalina e perfeita, que parece que a canção foi feita para os dois cantarem.

Oito anos separaram As Cidades de Carioca. Aos sessenta e dois anos, o velho e bom Chico Buarque nos presenteia com um disco maravilhoso, sendo este o quinquagésimo nono de sua carreira. Chico é popular e sofisticado. Criativo e humano. Cantor e compositor. Mas o resultado é nítido: uma capa perfeita, mostrando a cidade carioca estampada sobre o rosto de Chico, músicas de alta qualidade e um Chico Buarque destoando o que havia de melhor em sua intelectualidade. Além de ter uma aura crepuscular, Carioca é, definitivamente, um dos melhores discos do cantor e do ano de 2006.



Faixas

·       1 – Subúrbio (Chico Buarque)

·       2 – Outros Sonhos (Chico Buarque)

·       3 – Ode Aos Ratos (Chico Buarque / Edu Lobo)

·       4 – Dura Na Queda (Chico Buarque)

·       5 – Porque Era Ela, Porque Era Eu (Chico Buarque)

·       6 – As Atrizes (Chico Buarque)

·       7 – Ela Faz Cinema (Chico Buarque)

·       8 – Bolero Blues (Chico Buarque / Jorge Hélder)

·       9 – Renata Maria (Chico Buarque)

·       10 – Leve (Chico Buarque / Carlinhos Vergueiro)

·       11 – Sempre (Chico Buarque)

·       12 – Imagina (Chico Buarque / Tom Jobim)

ü  Part. Especial: Mônica Salmaso



Nota Dez

Carioca / Chico Buarque



Marcelo Teixeira

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Guerreira, de Clara Nunes



Guerreira, de 1978: o melhor disco de Clara
É muito difícil sugerir uma obra que Clara Nunes tenha deixado para a posteridade como sua obra maior e fica ainda mais difícil ao ouvirmos toda a sua coleção. São discos tão exemplares e tão singulares que a sensação que temos é que Clara, em toda a sua existência como cantora e interprete, deixou uma lista com músicas excepcionais e discos exemplares. Mas um disco em particular entra para a galeria dos melhores discos de sua carreira e de amantes da MPB e do Samba. Um disco incomparável, inconfundível e que não nos cansa nunca. Talvez pela sua magia, talvez pela sua força, talvez pela sua sensibilidade, Clara Nunes deixa para os fãs o disco Guerreira, que é o melhor de sua carreira.

Guerreira (1978 / EMI – Odeon / 24,99) é um disco que fala de amor, tradição aos orixás, da força de uma mulher que está a frente de suas origens, da humildade em se fazer canção. Clara está cantando mais e melhor e a cada faixa a sensação que fica é que Clara Nunes estava dando o melhor de sua vocação como interprete sensacional que fora e que não tinha noção deste detalhe. O disco Guerreira entrou para a lista dos mais vendidos de sua carreira, com 1.011.005 cópias vendidas. No álbum estão reunidos os melhores compositores, os melhores músicos e os melhores da música popular brasileira.

O álbum é primordial. Samba de primeira grandeza, o disco é um patrimônio que deve ser cultivado e o respeito pela obra e persona de Clara alçado ao patamar único. Guerreira não fala somente dos tributos aos santos, mas também do amor perdido, do amor reprimido, da luta de um povo sofrido e das tradições de uma humanidade. Um disco que merece destaque hoje e sempre pela sua magnitude, seu semblante e sua sapiência. Clara, ao lançar Guerreira, não tinha certeza e muito menos consciência, da responsabilidade que estava traçando. O disco é ótimo.

Não adianta traçar aqui o melhor do disco ou a melhor faixa. A melhor coisa a se fazer é adquirir o álbum e degusta-lo, se servir do que há de melhor no samba e na carreira desta grande mulher. Mas ouçam com atenção as faixas como se fosse ultima vez em sua vida. A estranheza de que Clara não está mais entre nós é o motim para que este disco sirva de exemplo a cantoras novatas. A sensação de que Clara está cantando melhor também é nítido e de uma emoção grandiosa. A percepção é de que Clara está aqui, do nosso lado, cantando em nosso ouvido.

Hoje Clara Nunes está completando 29 anos de morte. E o Mais Cultura! homenageia a Guerreira, com o disco de mesmo nome e que lhe deu um dolo ainda maior: o de maior cantora do Brasil através deste disco importante para todos.



Faixas



·       Guerreira (João Nogueira / Paulo César Pinheiro)

·       02. Mente (Eduardo Gudin / Paulo Vanzolini)

·       03. Candongueiro (Wilson Moreira / Nei Lopes)

·       04. Outro recado (Candeia / Casquinha)

·       05. Zambelê (Catoni / Rosa Maria Silva)

·       06. Quem me ouvir cantar (Aniceto da Portela)

·       07. Jogo de Angola (Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

·       08. Ninguém (Paulo César Pinheiro)

·       09. Moeda (Romildo Bastos / Toninho Nascimento)

·       10. Amor desfeito (Gisa Nogueira)

·       11. O bem e o mal (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito)

·       12. Tu que me deste o teu cuidado (Capiba / Manuel Bandeira) Poemas de Manuel Bandeira



Nota 10

Guerreira / Clara Nunes

Marcelo Teixeira