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quinta-feira, 25 de junho de 2015

A morte prematura de Cristiano Araújo

Cristiano: Morte prematura
O que temos pra hoje é saudade”. Um dos últimos sucessos de Cristiano Araújo foi praticamente um prelúdio de sua morte prematura, um recado, uma sina, uma predestinação daquilo que poderia vir a ser sua saída de cena. Cristiano Araújo não era um cantor de grande mídia, não aparecia com frequência em programas de televisão e era muito tímido, reservado e ao mesmo tempo humilde. Seus shows eram todos lotados, repletos de homens e mulheres que curtiam seu som, que adoravam suas danças e que estavam atentos aos movimentos do cantor. A motivação maior de Cristiano Araújo era o poder imediato desse público para com sua voz, sua música regional, seu jeito de mostrar seu carinho para com elas. Mas Cristiano não precisava da mídia televisiva nem dos jornais impressos para mostrar o seu talento: ele tinha a magnitude avassaladora de um grande músico dentro da música sertaneja, caipira e de raiz. Por mais que suas canções não demonstrassem ou denotassem atos ilícitos ou pejorativos, o cantor conseguia driblar as letras sensuais e mostrar que sabia compor, cantar e encantar seus fãs. Confesso que não tinha muita admiração pelo cantor e que muitas vezes ouvia suas músicas pensando que fosse outro cantor qualquer do segmento. Sua imagem e semelhança não ficaram gravadas em meu subconsciente, assim como suas músicas não me retratam em nada absolutamente. O que mais choca o país e a todos nesse momento é a forma repentina como o cantor saiu de cena dos holofotes: a morte, para todos, é inevitável, mas uma morte trágica, fechada e dolorida, ficará em nossa memória para todo o sempre. A carreira meteórica de Cristiano foi pautada em sucessos que hoje, depois de garimpar sobre sua vida, pude ter conhecimento maior. Foram quase cinco anos de sucesso embutidos dentro de um armário, ou seja, dentro de um cubículo que apenas os fãs tinham direito. Esnobado pela grande mídia, o cantor trazia consigo o aplauso dos fãs, que o veneravam em todos os caminhos. Partindo de um início sensato, Cristiano Araújo tinha carisma pessoal intransferível: ele era capaz de agradar desde a criança até o senhor, mas sua popularidade maior com a música trouxe uma notoriedade exemplar. Na vida pessoal era tido como brincalhão, alegre e amoroso com os filhos, enquanto no palco transmitia a mesma alegria para seus fãs, mesmo sendo um tímido conservador. Mas sua morte trouxe uma lacuna para a música sertaneja, que tinha em Cristiano Araújo um adendo maior para demonstrar que nenhum cantor precisa de grandes holofotes. Sua música, de fato, era regional, tida por muitos como não universitária, o que deixava alguns meios de comunicação irritados. O que diferencia Cristiano Araújo de outros bambas da música regional como Luan Santanna e Gustavo Lima é sua responsabilidade musical e atemporal: Cristiano era um cantor maduro, tinha discernimento entre o certo e o errado, sabia falar no momento certo e se expor no momento certo, enquanto seus contemporâneos são mais atirados, querendo a todo custo aparecer, emplacar sucessos enfadonhos e sendo, a cada momento, irritantes com seus risinhos de cantores bem-sucedidos. Cristiano Araújo foi o oposto disso tudo: ele soube, atenciosamente, ser ele mesmo, sem estar preocupado com opiniões alheias e irrisórias. Cristiano foi o próprio mentor de sua carreira musical e pessoal, não dando margens para que o outro desse opinião diversificada sobre sua música. Esteve a todo momento cuidando de sua carreira pessoal e profissional e conseguiu ficar escondido em seu canto, longe da mídia que ao mesmo tempo eleva e depois derruba e conseguiu fazer o que muitos gostariam de fazer: lotar casas de show sem grandes estardalhaços. Sua morte precisou acontecer para que todos tomassem conhecimento de sua arte e isso já acontecera com outros grandes cantores nacionais, como Clara Nunes, Jessé, Gonzaguinha. Com sua morte, os quatro cantos do país estão chorando a perda de seu garoto prodígio e de sua música tenra, mas com certeza seus fãs nunca o esquecerão. Agora, o que essas fãs tem é saudade, como imortalizou Cristiano Araújo em uma de suas últimas músicas.

A morte de Cristiano Araújo
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Jessé: O Senhor da voz


Jessé: grande voz
Não houve e nem haverá um cantor igual a Jessé. Hoje esquecido das grandes mídias, o cantor vive na lembrança de quem viveu a década 1980 e os herdeiros destes, que, assim como eu, não o conheceu em vida. Mas graças ao meu pai, tive uma infância marcada por boa música, seja brega ou romântica, samba ou bossa nova e ouvi muito o cantor Jessé. Lembro-me dele nos programas do Chacrinha, sempre impecável, tímido, cantando para cada pessoa que o assistia. Mas por que Jessé me hipnotiza tanto? Muitos cantores de hoje se renderam ao fascismo da mídia e ao crescimento ilicíto do mercado fonográfico, que insiste em produzir música comercial de péssima qualidade. Exceto rarissimos cantores escondidos em nosso país, nos dias de hoje não temos mais um cantor que toque em nossa alma tão fundo e certeiro, que nos deixa transtornados a ponto de cairmos na tentação de varrer sua vida. Antigamente era assim: os fãs tinham mais liberdade em poder ter um ou outro cantor que lhe desse o direito de ser chamado de cantor. Jessé era mais que um simples cantor: ele era um artista completo, que emocionava plateias, adultos e crianças, mulheres e principalmente os homens, que ficavam embasbacados com sua maneira de impôr no palco. A frase Jessé não canta, ele humilha ganhou forças nas redes sociais que tentam manter a imagem do cantor ainda mais viva. Com sua voz de trovão e com sua postura de palco, o cantor revolucionou a música dos anos 1980 e se tornou líder absoluto no cenário nacional. No decorrer de sua brilhante carreira, Jessé gravou 12 discos, como os álbuns duplos O Sorriso ao Pé da Escada (1983) e Sobre Todas as Coisas (1984), mas o sucesso de maior grandeza é a música Porto Solidão, que até hoje faz de sua lembrança um dos maiores cantores brasileiros. A música foi apresentada no Festival MPB Shell e o cantor ganhou o prêmio de melhor intérprete. Jessé morreu em 1993 em um acidente de carro e daquele ano até hoje, muita coisa mudou, muitos cantores surgiram e desapareceram, o pagode e o sertanejo venceram barreiras e ao mesmo tempo despencaram e muitos esqueceram Jessé. O Mais Cultura Brasileira! traz um vídeo em que o cantor Jessé canta seu maior clássico, Porto Solidão e notem como era a sua postura e seu jeito irretocável de cantar. Portanto, VIVA JESSÉ!


 

Jessé
Marcelo Teixeira