quarta-feira, 28 de maio de 2014

Por que Jair Rodrigues não poderia morrer?


 


Jair: sempre eterno
Jair Rodrigues foi um músico espetacular, de uma fineza sem constestamentos e um cantor extremamente brasileiro. Sua morte foi um abalo geral para todos nós, que não esperavámos por ela: dentro de sua casa, no seu lugar preferido, Jair estava morto. O clichê é gritante, mas faz parte: morreu o homem, mas não a sua voz, a sua trajetória de vida, o cantor. A voz de Jair estará sempre ecoando por este Brasil que não conhece o Brasil, em cada esquina e em cada coração brasileiro. Mas Jair era um cantor que não poderia (nem merecia) morrer. Jair era a parte viva de uma MPB morta. E era justamente por sua memória que o cantor não poderia morrer tão cedo. De todos os cantores que mais bradavam sobre os festivais da TV Record dos anos de 1960, a amizade com a cantora Elis Regina, o início do rap no Brasil, os encantamentos de uma música sertaneja, o samba, os amigos que não comentavam mais nada sobre a música do passado, tudo isso Jair contava em rima e prosa e agora tudo se calou. Jair Rodrigues gostava de contar os bastidores daqueles tempos áureos e tinha muita coisa na bagagem para ser contada ainda, mas o destino o quis calado. Assim como no último show de sua vida, registrado em Minas Gerais e que conta particularidades de Elis como se fosse um sussurro, Jair tinha muitas histórias e notas para contar. Morreu sabendo que fora feliz e que era um dos cantores de maior grandeza da música popular brasileira. Morreu no melhor momento de sua vida: trabalhando e fazendo samba. Assim como Caetano Veloso gosta de comentar o início da Tropicália e o movimento dos festivais, Jair Rodrigues também gostava de falar abertamente sobre tudo aquilo com sabedoria e maestria. Calou-se a voz de Jair aos 75 anos e espero que Caetano não se cale, embora já tenha quase 71 anos! Diferentemente de Gilberto Gil, Gal Costa ou Maria Bethânia, Caetano gosta de relembrar fases daqueles tempos em que lutar pela sobrevivência de uma boa música era significado maior de uma cantoria melhor para futuramente poder se expressar com o passado numa forma direta e franca. E assim como Jair, Caetano também tem cartas na manga ainda. Chico Buarque não fala praticamente mais nada sobre o tempo dos festivais; Geraldo Vandré não se mostra mais em público e nem em entrevistas; Nara Leão morreu; Roberto Carlos não fala mais de Jovem Guarda, embora Erasmo Carlos tenha boas recordações e cartas na manga também. Morreu o patrono do fino da bossa, morreu o menino pobre que vencera na música e se tornara amigo de uma das maiores intérpretes do país, morreu Jair Rodrigues no momento errado. Com a morte de Jair, a música fica mais pobre, mais cinza e mais triste, obviamente. Mas a morte de Jair traz outro significado ainda maior: aquietou-se o moleque cantor mais feliz da MPB e calou-se os bastidores de um festival!



 

Por que Jair Rodrigues não poderia morrer?
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Zizi Possi quebra o jejum em Tudo se Transformou



Zizi: velhas roupagens
Nove anos separam a cantora Zizi Possi do público. Nove anos separam Bossa, lançado em 2001 de Tudo se Transformou, lançado agora em 2014. Se Bossa tinha uma pegada mais pra MPB elitísta, Tudo se Transformou nos remete à Bossa. Zizi Possi pegou a todos de surpresa ao lançar um disco este ano, pois ninguém imaginava que isso fosse acontecer tão cedo, mesmo a cantora tendo feito shows com o mesmo repertório, aqui em São Paulo. Mas aconteceu e o que Zizi nos apresenta aqui é um álbum bonito, bem feito e com a boa música popular sendo bem representada, característica de sua carreira. Zizi deixou Bossa suspensa no ar, com muitas perguntas e sombras de sua carreira, mas Tudo se Transformou (2014 / Eldorado / 20,90) é um disco de capacidade única que consegue juntar uma excelente voz com um piano majestoso. Na verdade e musicalmente falando, o novo disco de Zizi é pura MPB, ressoando nas músicas a leveza e autenticidade de sua belissima voz. Zizi é uma das maiores cantoras deste Brasil e esteve no páreo de ser a nova sucessora de Elis Regina juntamente com Gal Costa, em 1982. Mas Zizi mostrou que seu talento é superior e trilhou seu caminho com discos de sucesso e músicas que adentraram na mente do público até hoje. Se Bossa foi friamente recebido pela crítica e público, aposto que certamente este novo lançamento não passará pelo mesmo crivo. Como disse, Zizi está cantando divinamente, o CD está com uma capa estonteante  e a cantora continua sendo a melhor dentre as melhores e os treze anos que separaram a cantora de seu público a fizeram selecionar as músicas e fazer um disco a sua altura. Mas erros fatais aconteceram para que Tudo se Transformou não entrasse de cabeça erguida para o mercado fonográfico como as boas vindas à Zizi. Primeiramente, a música de abertura, Filho de Santa Maria, foi composta sobre a poesia de Paulo Leminski musicada por Itamar Assumpção. E cadê o nome de Itamar nos créditos? Mas não precisava da voz de Webster Santos nos vocais desta música, porque ele não canta nada e mais parece um cantor esperando as notas dos jurados. Voz grave, forte e estranha que contrasta com a voz doce, pura e sentimental de Zizi. Outro erro fatal foi a regravação de Disparada, já cantada habilmente pela própria no disco Puro Prazer (1999), já que sua voz casou-se muito bem com o piano de Jether Garotti. Aqui a canção fica batida e mesmo tendo novos arranjos, ficou chato ter que ouvi-la em sua voz novamente. Tudo se transformou, do mestre Paulinho da Viola e que deu título ao novo trabalho da cantora, é um samba lamentação das dores ocorridas pelo amor e valeu a pena, porque Zizi dá um show de interpretação. O disco é todo caprichado desde a abertura até a décima e última faixa do show ao vivo, tendo neste meio tempo canções de Guilherme Arantes (Meu mundo e nada mais) e da estreante compositora Necka Ayala, No Vento. Luiza Possi, a filha ilustre, surge como compositora ao lado de Dudu Falcão na música arrastada Cacos de Amor, gravada no CD de Luiza, intitulado Seguir Cantando (2011) e Gonzaguinha ressurge das cinzas em Explode Coração. De Dominguinhos e Anastácia vem Contrato de Separação e Porta Estandarte (Fernando Lona e Geraldo Vandré) fecha o disco ao vivo com chave de ouro pela alegria contagiante que a música proporciona, alternando com Filho de Santa Maria. O bônus fica por conta dos tribalhistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown na música Sem Você, que fala dos sentimentos amorosos e da solidão. Aqui Zizi mostra todo o seu encanto ao dar vida a uma música de dois homens totalmente amorosos e a canção acaba sendo a melhor do disco. Tudo se Transformou é um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora. Merecidamente.

 

Tudo se Transformou (2014) / Zizi Possi
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de maio de 2014

De Gilberto Gil a João Gilberto: deu samba no encontro de Gilbertos


 

Um disco e tanto
Gilberto Gil devia um disco a altura de João Gilberto. O pai da bossa nova acaba de ganhar um disco em sua homenagem pelo patrono do Tropicalismo e essa junção se deu por conta do lançamento de Gilbertos Samba (2014 / Sony Music / 26,99), um disco mais experimental do ponto de vista crítico do que um disco essencialmente não comercial. Experimental porque Gilberto Gil sempre teve essa vontade de fazer um disco de samba para exprimir seu sentimento para com seu conterrâneo e não comercial pelo fato de não ser um disco simples. A começar pela capa contrastando o vermelho em letras garrafais com o azul quase escuro ao fundo, o ouvinte pode se entediar com as músicas apresentadas já na primeira vista. Mas não se enganem: por mais que o disco traga canções já conhecidas do grande público, Gil dá uma aula de profissionalismo, determinação no ofício de cantar e sabedoria em sua essência.  Aqui a bossa é realmente nova e Gilberto Gil consegue transpassar toda a sua vibração positiva a cada faixa cantada. Ao todo são dez músicas do repertório de João mais duas homenagens, sendo a faixa-título Gilbertos, onde cita outros bambas de sua época, como Dorival Caymmi, Chico Buarque, o amigo Caetano Veloso e a instrumental Um Abraço no João. Gilbertos Samba é um disco em que o cantor e compositor reinterpreta os clássicos gravados por João Gilberto e isso ele o faz com maestria. Se na primeira audição ficamos meio chocados com a onda gritante de pesadas guitarras e calmos violões em algumas faixas, esse susto passa com a segunda chance de poder ouvir as melhores músicas gilbertianas, que tem como parceria Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e Caetano Veloso. Quase tudo o que João Gilberto cantou, até mesmo seus primeiros compassos na música universal brasileira, Gil fez questão em poder regravar, incluindo O Pato, Desde que o samba é samba, Você e eu (música de trabalho), Eu vim da Bahia. O disco tem assinatura musical de Moreno Veloso e Bem Gil e está recheado de músicas de sucesso que ficaram ainda mais tocantes, vivas e suaves na voz doce e angelical de Gil. Um presente e tanto de Gilberto para Gilberto e quem ganha com isso é o público, fiél e escudeiro público da boa música popular brasileira.



 
Gilbertos Samba (2014) / Gilberto Gil
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morreu Jair Rodrigues!

Morreu um mestre da música
Pessoas especiais não morrem. Pessoas especiais são eternas. Jair Rodrigues morreu. Mas não morreu o artista, não morreu o cantor, não morreu o moleque que dançava, corria, pulava, instigava, cantava. Jair Rodrigues deixou um legado e tanto para a música popular brasileira: deixou sua marca ao lado da cantora Elis Regina, definitivamente nos festivais, marcou o início do rap no país, deixou sua pegada no samba brasileiro e, de quebra, entrou de cabeça erguida no sertanejo. Jair Rodrigues passeou por todos os ritmos brasileiros e em todos ele foi muito bem sucedido. Aos 75 anos, o cantor estava em alta, fazendo shows, feliz. No Brasil apenas dois cantores tem a capacidade de cantar com amor, emoção, carinho e devoção: Ivete Sangalo e Jair Rodrigues. Grande ícone da música, Jair partiu e deixará uma lacuna insubstituível. Ainda não dá para acreditar em sua morte, tão rápida e tão batida. Em momentos tão amargos neste mundo, tão delicados e tão comuns, o incomum aconteceu em um momento que não era para ser: sua morte não é uma morte nem uma passagem. Ele descansou. Descansou o nosso eterno moleque, nosso eterno garoto fanfarrão, nosso eterno Jair. Na música, ele misturava tudo e tudo dava certo. Sua voz ainda estava saudavel. Sua emoção ainda era passada para todos. Jair Rodrigues era o clima que o tornava brasileiro, moderno, atual, significativo.  Cantores como Jair, assim como Elis, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto Carlos serão eternos e serão eternos porque na época deles fazer música era complicado. Se houve um Chico Buarque, uma Nara Leão, um Paulinho da Viola é porque houve público para eles. Assim como houve até hoje público e espaço para o Jair. Nunca mais teremos a chance de ver um astro da música popular brasileira surgir como surgiu um Jair Rodrigues, que mesmo tantos anos depois, continuava na ativa, fazendo shows com plateia lotada e cativando crianças e adolescentes e fazendo dos novos artistas uma colisão de aprendizagem e arte. Confesso que não sei o que escrever, pois as lágrimas me tomam neste exato momento. Mas não vamos fazer da morte de Jair uma tristeza sem fim. Não aceito sua morte. Mas o suspiro me faz acreditar que não o teremos mais por perto fisicamente. Suas músicas serão eternas. E Jair Rodrigues é eterno. Até logo, Jair.

 

Adeus, Jair Rodrigues
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

As colheitas de Mariene de Castro


A força no canto de Mariene de Castro é sagrada e a sua luz é tão forte que provavelmente demorará a se apagar. Mariene está de disco novo e talvez seja o melhor de sua carreira, mesmo depois de mostrar os santos de sua casa e a homenagem a Clara Nunes. Não que sejam trabalhos menores, mas até ali, a cantora vinha provando o que o público queria realmente saber de sua musicalidade e agora Colheita veio acolher o seu tempero e sua apuração. Mariene destoa música caprichadas, bem arranjadas e com fácil apelo popular. Mas não pensem que o tal apelo popular seja sinal de música comercial: a música de Mariene de Castro vai mais longe e alcança ares mais profundos. Quem assina a produção do disco é o competente Max Pierre, que já produzira discos importantes no cancioneiro nacional. Em temporadas de surgimento de cantoras deprovidas de talento e voz, entre o certo e o errado e entre música de qualidade com bordões exdrúxulos, a qualidade de Mariene surpreende pelo seu canto, pela força de sua voz, pelo eco de seu brilho e pela brasilidade que carrega. Colheita (23,99 / Universal / 2013) é um disco de samba de raiz, de predicado, de respeito e de ginga e tem a participação mais que especial de Maria Bethânia em A força que vem da raiz (Roque Ferreira) e na faixa título, Colheita (Zeca Pagodinho / Rildo Hora). Beth Carvalho é a outra convidade, não com o mesmo brilho de Bethânia, e canta Samba da benção (Baden Powell / Vinicius de Moraes) e o maestro Jaques Morelembaum juntamente com a bateria da Portela estão em Aquela da Amazônia (Toninho Geraes / Toninho Nascimento). Baiana de nascimento, Mariene entra para o rol das grandes divas da música popular brasileira com um disco a sua altura e competência, com faixas que demonstra toda a sua cultura de grande dama do samba. O samba está em seu sangue e sua voz está por todas as partes.

 

Colheita (2013) / Mariene de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O samba pede passagem à Maria Rita

Emocionante e sensível
O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Coração a Batucar (2014 / Universal Music / 26,90) tem um pequeno deslize, mas o resultado soou muito bem, obrigado. O único deslize é a capa, que trouxe um ar sombrio, fúnebre e nada convencional com o samba, mas as músicas que abocanham o disco (e as fotos no encarte) por um todo faz com que esqueçamos rapidamente deste mero detalhe e entremos diretamente para o mundo do samba. Maria Rita cresceu e apareceu, ficou mais madura e responsável por sua voz e há uma diferença muito grande entre Samba Meu (2007) e Coração a Batucar (2014). Aqui as músicas foram selecionadas a dedo e Maria Rita está cantando divinamente, com uma voz brilhante, límpida e cristalina. Se no primeiro disco de samba não houve o tempo ou o respaldo para interagir com o manifesto, aqui a cantora conseguiu driblar toda a sua experiência e fazer com que Coração a Batucar batucasse nos corações e nas almas de todos aqueles que a odeiam e a amam. Sempre fui contra a carreira de Maria Rita. Desde que foi lançada a ideia de que a filha ilustre e desconhecida de Elis iria se lançar como cantora, em 2003, a imprensa, a mídia, a fonografia e todos os fãs se mobilizaram para a espera desta grande oportunidade. Todos estavam a espera de uma nova Elis e o que se viu foi uma Maria Rita timida, recatada e que cantava habilmente as canções que a MPB lhe propusera. O resultado foi um disco mediano, mas um disco a altura de Maria Rita. Os discos seguintes foram discos seguintes, sem grandes alardes em sua carreira, mas com um dedinho no samba, como na música Conta Outra, gravada ao vivo para o disco Segundo (2005), cujo teve uma repercussão plausível. A minha indignação com relação a Maria Rita trata-se apenas e oriundamente pelo fato da cantora estar sempre veinculada a imagem da mãe, desde em gestos faciais até posturas em palco. Mas quando Maria Rita canta samba tudo muda e ela encarna a própria Maria Rita. Como cita a música É corpo, é alma, é religião, Maria Rita não nasceu no samba, mas o samba nasceu em si numa forma complacente de que o seu terreno é a MPB, mas que o samba é seu ponto forte e é neste ritmo bem brasileiro que a cantora se mostra a que veio. Maria Rita canta divinamente todas as faixas do disco sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Fica até mesmo dificil dizer qual a melhor música de todo o álbum, mas arrisco dizer que  No Mistério do Samba, composta pela competente Joyce Moreno é uma lição do que é ser sambista. Joyce, que adora jazz e foi descoberta na época da bossa nova, perambulou pela MPB e se caracterizou no samba, é mestre no que faz e seu recado foi dado: há um mistério que ronda o samba de Maria Rita e há uma fidelidade da cantora para com o estilo. A cantora poderia se lançar fielmente ao segmento e só cantar samba, pois aqui Maria Rita se diverte, se anima e faz com que muitos a sigam por onde passa. Na sua plenitude e dentro deste universo sambístico, Maria Rita reina única e absoluta, juntando o brilho de sua voz e a capacidade de sua emoção. Mistério do samba ou não, o fato é que a cantora brilha sensivelmente em seu estilo e consegue fazer um dos melhores discos, mais completos e mais autênticos de sua carreira, dando a volta por cima e sendo, mais uma vez, Maria Rita. Que os deuses do samba possam sambar, pois aqui tem samba de verdade; abram as rodas porque aqui tem samba no pé; deixem de lado as sandálias porque aqui tem um coração a batucar. Maria Rita não nasceu no hemisfério do samba, mas deixa seu coração batucar mais forte quando cai numa roda de bamba. Viva o samba de Maria Rita.
 

Coração a Batucar (2014) / Maria Rita
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vanessa da Mata erra o som outra vez




Não segue o som, Vanessa!
Sinto uma enorme saudade da Vanessa da Mata que conheci em 2002, quando ainda era uma novata cantora que queria ser a salvadora da música popular brasileira, que encantava com seu canto, com suas letras, que abocanhava grandes nomes da música (como fizeram Maria Bethânia, Caetano Veloso e Chico César) e que era mais timida, recatada e solitária. Sim, Vanessa da Mata compunhava com vontade, voracidade e verdade, adjetivos raros em sua carreira ultimamente. Não que ela estivesse enfraquecida com os discos após o lançamento deste que levava o seu nome, mas nem todas as músicas seguintes agradariam aos seus fãs posteriores. Vanessa deixou de ser uma cantora de nome forte para ser uma cantora de MPB qualquer, compondo aqui ou ali umas músicas bacanas e fazendo de sua voz um arsenal de tiros de misericórdia. Lançando Segue o Som (2014 / Sony Music / 24,90), Vanessa da Mata deixa a desejar.  E muito. As músicas aqui cantadas não ecoam como no primeiro grande disco, não batem forte em nossos sentidos, não trazem mensagens positivas ou agradáveis, mas deixa um ar de insatisfação. Segue o Som é um disco de misturas eletrônica, pop, reggae, dance music e a voz de Vanessa soa cansativa, irritante e derivada de ajustes eletrônicos para se sair bem. Depois de Vanessa da Mata (2002), a cantora teria um grande momento em sua vida ao lançar Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias (2010), em que cantava com uma jovialidade e uma serenidade inacreditáveis, tendo a participação até mesmo de Gilberto Gil encerrando uma das faixas mais encantadoras do álbum. Teria Vanessa da Mata entrado para o time das cantoras desgastadas da MPB ou estaria passando (por que não passeando?) pelo mundo fantástico do ostracismo imaginário? As canções de Segue o Som são contagiantes do ponto de vista comercial, alegres e auto-astral, porém, parece que todas as músicas foram feitas no mesmo dia, na mesma calibragem e no mesmo sentido horário: as batidas e as melodias são uniformes, parecendo que não há interrupção de uma canção para outra. A música Toda Humanidade Veio de uma Mulher não tem ritmos, assim como Rebola Nêga, a melhorzinha do disco, que soa como se a cantora estivesse errando as notas ao cantar (característica de Vanessa, que já fez isso várias vezes em shows ao vivo). Homem Preto é uma canção legal, tem uma pegada mais romântica, mas que não leva nada ao nada com sua voz estridente e custosa. E as canções em inglês dão o recado de que talvez Vanessa queira adentrar no mundo internacional, assim como já tentara com o álbum Sim (2007), mas sem grandes alardes. Do mesmo modo como acontecera com o disco de 2007, Vanessa trouxe para o álbum atual as questões que martelam dentro de sua cabeça com relação as causas sociais existentes ao redor do mundo, como forma de politizar esses assuntos. Como uma salvadora das causas impossíveis no mundo musical, a cantora peca ao adentrar em pautas como o amor passeando por lugares distantes e imprevisíveis, como canta na música capenga Por Onde Ando Tenho Você. Por vezes, sentimos que Vanessa não consegue mais compor ou a impressão maior que passa é que o disco foi feito às pressas, para que pudesse estar na próxima novela qualquer. Assim como aconteceu com Essa Boneca Tem Manual (2005), Segue o Som também foi feito para ser um disco meramente comercial, sem se importar com as letras aqui produzidas. O apelo é forte e Vanessa não soube aproveitar o momento para fazer um grande disco. Já tinha dito que a superficialidade da cantora ao lançar um disco em projeto com uma grande marca de cosméticos para homenagear Tom Jobim, disco este lançado em 2013 pela mesma gravadora em parceria com a Jabuticaba, era crescente e gritante e aqui a superficialidade continua em alta, deixando em baixa toda a pluralidade que Vanessa conseguiu atrair no início de carreira. Chega a ser caricato ouvir frases do tipo fique aqui, tome alguma coisa, converse pra se distrair, vai ver que sou uma menina, só quero me divertir, cantada na música Toda Humanidade Veio de Uma Mulher, que abre o disco. Confesso que não entendi o teor do álbum e qual a sua mensagem maior, mas confesso que os últimos trabalhos de Vanessa da Mata, a garota pobre de Mato Grosso que conseguiu driblar o pai rigoroso do sertão para se tornar em uma das maiores cantoras do país, estão deixando e muito a desejar, abandonando assim um estilo único e próprio de mostrar sua musicalidade, que era plausível e admirada. Por esse motivo e por todo o seu comercialismo desprovido de intelectualidade musical, por favor, não seguem o som de Vanessa agora.

 

Segue o Som (2014) / Vanessa da Mata
Nota 6
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O som que vem do Norte: Patrícia Bastos


Patrícia: encantamento de voz e som
Há uma singularidade particular com o som que vêm do Norte: eles são fortes, formosos e encantam já na primeira audição. Há segredos e mistérios nesta região do país que muitos desconhecem e muitos querem descobrir. Zulusa, o disco bem caprichado de Patrícia Bastos, é a prova disso: aqui há de tudo um pouco, desde o som dos índios, passando pelo marabaixo e pelas belas paisagens de Macapá, sua terra natal. A beleza no canto de Patrícia faz com que esquecemos do corpo presente cheio de dívidas para cairmos num mundo na qual pouco estamos habituados: o mundo da fantasia, o mundo fantástico, rico de sol, rico de mar. A voz de Patrícia Bastos encanta pelo fato de ser irretocável: um misto de beleza e sensualidade, carregada com um toque de emoção e sentimentos. Patrícia encanta e canta as belezas de um lugar escondido do Norte brasileiro, sendo bem conduzida por Dante Ozzetti, diretor musical e de arranjos de Zulusa (2012/ Tratore / 25,00). O disco é feito de histórias e é através da música que a história se confunde com os ritmos e nos contam uma bela narrativa que nos conduz por 14 faixas muito bem cantadas por uma cantora inspirada, que através de seu canto nos mostra que a beleza está bem aqui, diante nossos olhos, ouvidos e poros. Este é o quinto disco da cantora, mas o que mais representatividade lhe prôpos: um retorno de muito trabalho e dedicação, feito com muito esforço para mostrar ao mundo (e a nós, brasileiros), que o Brasil é isso, feito de misturas de raças, cores e palavras. Quem me apresentou o canto de Patrícia Bastos fora Dante Ozzetti, ao sairmos de um show de sua irmã, Ná Ozzetti. Falou-me de uma cantora que morava no Norte, era afinadíssima e antenada com a cultura de seu povo, pronta a demonstrar seu canto. E Patrícia me arrebatou já no primeiro som que abre o disco, Canoa Voadeira, que é um passeio pelo vasto rio-mar que se vê nas belas paisagens do encarte. O povo negro aqui está bem retratado na canção Linha Cruzada, onde a sutileza na voz da cantora ecoa pelos cantos numa forma absurda de bradar algo preso na garganta. Patrícia emociona em Boi de Rua, cujo canta as influências amazônicas e  em Incantu, fala sobre o povo indígena.  Encantador do começo ao fim, Zulusa é um disco para se ouvir com ouvidos atentos, ouvidos de curiosidade, com afinco e com amor. Um disco caprichado, bem acabado, com sutilezas repletas de sonoridades distintas, abordando um tema pouco comum nos dias de hoje. Zulusa. Negros vindos da África, índios amapaenses, mulatos. Patrícia revisita a grande obra esquecida por milhares de brasileiros e expõe um disco magnífico a altura de seu talento e respeitabilidade. Zulusa é história do Brasil esquecida por brasileiros que se tornaram americanizados num país dentro do país. Zulusa é o Brasil esquecido dentro do Brasil e é nesse resgate que Patrícia reina absoluta. Zulusa é um tiro de espingarda calibrada direta e certeira na alma lírica brasileira. Zulusa não é para poucos aventureiros. Trata-se de um disco e tanto para a nossa cultura pouco valorizada. Que Zulusa possa trazer-te bons frutos e que Zulusa seja bem interpretado por analfabetos que assolam governar nosso país sem memória.

Zulusa (2012) / Patrícia Bastos
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O inquieto Tom Zé

O inquieto Tom
Tropicalista nato, Tom Zé veio ao mundo musical para provocar e incitar algo incomum que o desagrada. Faz tudo com ironia fina e requintada, que somente ele consegue fazer. Ilude corações amargurados ou felizes e diz em músicas que os americanos são tolos e eles aplaudem. Tom Zé é um marqueteiro da própria vida, tanto musical quanto a própria e é dessa profissão que o cantor e compositor baiano consegue irritar boa parte da população. Tudo o que Tom faz, canta ou compõe é fruto de alguma indgnação, de alguma euforia, de alguma felicidade e em Tribunal do Feicebuque (2013 / 19,99 / Independente) não foi diferente. Após uma polêmica com um grupo de bebidas gaseificadas, Tom Zé respondeu ao pessoas que o criticou pela rede social com a música título de seu EP lançado em 2013, num tom ácido, cortante e provacante.  No disco, o compositor divide autoria e interpretação de canções como a que batiza o EP com Marcelo Segreto e Gustavo Galo e traz versos como Tom Zé mané / baixou o tom / baba babe / bebe e baba / velho babão, além do provocador e irônico Que é que custava morrer de fome só para fazer música?. Além do tema que abre e abocanha todo o disco, o álbum tem ainda Zé a Zero, Papa Francisco Perdoa Tom Zé, Irará Iralá e Taí, feita por ele nos anos 1970 para um comercial de refrigerante.  Seja como for, o fato é que Tom irritou metade das pessoas com este EP fantástico e sensacional, que muitos jornalistas e críticos especializados praticamente negaram a comentar sobre ele em suas revistas eletrônicas. Mas Tom segue sua vida musical da melhor forma possível: irritando o próximo e sorrindo de tal gozação. Tom vive do seu jeito e do seu tom.

 

Tribunal do Feicebuque (2013) / Tom Zé
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Valesca é a grande aberração do século 21



Valesca: inteligência em outro lugar do corpo
Se a música popular brasileira for salva por Valesca (prefiro não colocar o seu sobrenome de guerra), prefiro a morte. Prefiro renunciar qualquer cultivo a música brasileira e em caráter de amor maior a minha vida e a minha cultura, prefiro esconder-me no mais fundo do fundo e do fundo do abismo para que ninguém possa me encontrar. A grande pensadora do século vinte e um é uma mulher loura, de curvas salientes, rosto feio que mais parece um E.T e que não pensa com a cabeça de cima e, sim, com o gosto popular. Valesca foi considerada a pensadora do século e eu me pergunto: o que escrever aqui agora? Resta-me fechar os olhos e rir da ignorância alheia, dos falsos pensadores, dos idiotas meretrizes da agonia, da falsa carapuça usada por quem está por trás desta grande pensadora de opiniões adversos. Valesca é a grande pensadora. E ponto. Mas há controvérsias. Quem é Valesca? Driblando todas as forças do mundo, essa persona saiu dos horizontes das trevas para poder estragar a música popular com sua voz fanhosa, fazendo com que todos entortacem as cabeças para um beijinho no ombro. Uma imbecilidade pueril, um ato retardado, uma ação desconjugada de rebeldia mútua de quem não tem o que fazer e apela qualquer coisa para estar no mais alto do topo. Valesca ultrapassou Anitta, agora plastificada, e ganhou status de a nova queridinha do funk. Ganhou fãs pelo mundo afora e seu cachê triplicou. Rebola seu gosto popular a torto e a direito e intimida as pessoas com seu olhar canibal. Valesca é o oposto da cultura: ela não canta, não sibila, não ensina, não tem moral, não tem musicalidade na veia, não sabe a que veio. Alguém poderia lhe mostrar o caminho da rua? Mais do que tentar cantar, Valesca chegou ao topo se mostrando uma cantora competente, com um clipe musical a altura de uma Lady Gaga e com vestimentas horrendas, fuleiras, capengas. Com um palavreado chucro, Valesca entrou para o mundo da fama pela porta que estava aberta, sabendo que não fora convidada para estar ali.  Logo o mais será despejada assim como fizeram com Anitta, a plastificada. Valesca é uma cantora fútil, que não agrega em nada na nossa cultura e que está se valendo de uma única música para se tornar a nova estrela nacional. Mas vale lembrar que o topo mais alto da fama é substituível e que toda estrela um dia se apaga.

 

Valesca, a grande pensadora!
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Zii e Zie (2009) e o transambas de Caetano Veloso


Zii e Zie: sambas e reflexões de Caê
Que Caetano Veloso é embalado por orixás e deuses da Bahia de todos os santos, disso todo mundo sabe, mas na música que fecha Zii e Zie,  Diferentemente, ele deixa claro que não crê em Deus, diferentemente de Osama e Condoleeza. A música fecha o disco com chave de ouro, tendo em vista que Zii e Zie (2009 / 28,99 / Universal Music) não trata de religião e sim, de sambas e mistérios que somente um certo Caetano consegue fazer. São sambas e bambas gingados com categoria de um grande disco, embora por vezes o inquieto e belo Rio de Janeiro deixe a impressão de que tudo é samba, paz e amor. Transambas é um subtítulo adquirido e muito bem aplicado no disco, mas Caetano ousou um pouco mais ao trazer músicas como Incompatibilidade de Gênios, de autoria de João Bosco e Aldir Blanc, destoando toda a sutileza irreal da atmosfera de todo o disco. Zii e Zie é um disco de samba sincopado, desses de se ouvir sentado, alimentando e digerindo cada palavra, cada som, cada melodia. Ao todo são treze faixas em que Caetano desfila sua eterna e alegre musicalidade, sendo na sua maioria a autoria e passeando por um Rio de Janeiro colorido das praias, das favelas, da Lapa e do Leblon, além de apontar para Guantánamo e outros distantes lugares do mundo. A denúncia em A Base de Guantánamo, sobre a base militar americana em solo cubano é retratada com afinco e sabedoria, assim como Lobão tem razão que, antes de ser gravada aqui, Caetano já havia apresentado em shows anteriores, tentando arrancar emoções do público por onde passava. Menina da Ria é um oposto e uma homenagem a Menino do Rio, eternizada na voz de Baby do Brasil e aqui ganha cores de uma negra, que tanto o compositor gosta. Contemplando o disco, ainda há pérolas como Perdeu, Cais, Por quem?, Falso Leblon, a engraçada Tarado ni você, Ingenuidade, Lapa e a atemporal Diferentemente. Caetano sabe que não é mais aquele jovenzinho que queria mudar o mundo e sabia que estava ficando velho ao lançar Zii e Zie, por isso talvez tenha se cercado de pessoas mais jovens para a realização deste trabalho. A ascensão brasileira, a política, o mar, as notas híbricas e a tristeza íntima mastigada por Caetano estão todos aqui retratadas de forma sublime em um disco de alto nível. É certo que o tempo passa para todos nós, porém Caetano sempre procura se manter atual, dentro do universo que o consagrou na juventude.

 

Zii e Zie (2009) / Caetano Veloso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Jota Quest e um disco chato

Funky Boom: chato, chato, chato
Há muito tempo que a banda Jota Quest deixou de ser o Jota Quest. Suas músicas passaram a ser tediosas, suas letras paupérrimas e a voz de Rogério Flausino passou a ser chata, inaudível. Formada em 1993, o grupo só veio a calhar mesmo nos anos 2000, depois que a onda pagodeira suavizou e depois que o dilúvio sertanejo aquietou-se. Com propostas boas no início de carreira, o grupo desenrolou um bom desempenho frente aos grupos e bandas já existentes e conseguiu alcançar um patamar excelente dentro do segmento. Cinco anos separam Funky Funky Boom Boom (2013 / 21,99) do público jovem do Jota Quest, mas o disco, que nasceu para ser audacioso, não vingou por alguns deslizes fatais: a voz do vocalista é insuportável, a banda já está para lá de se aposentar e as modernidades do grupo não soam mais como antigamente. Chega a ser ridículo ver Rogério Flausino com roupinhas coloridas, pulando timidamente e cantando o amor romântico de adolescentes felizes. Porém, o resultado do novo disco é uma capa extraordinariamente criativa e algumas (poucas) músicas boas.  Resgatando raízes da soul music com certos elementos do funk, as músicas ditas descoladas até que deram certo em alguns momentos, como a música que leva o título do álbum. Mas só. Mesmo sendo um disco dançante, pulante e eletrizante (para alguns), o disco não passa do mesmo espetáculo fraquinho ao qual o grupo mineiro sempre se dispôs: de peripécias ultrapassadas a músicas sem graça, Funky Funky Boom Boom só se salva pela capa, na sua maioria.  Disco comercial do início ao fim, o grupo parece não ter se preocupado tanto assim com as letras, fazendo rimas desnecessárias para impactar ou tentando inflamar o ego insustentável deles mesmo para pensarem que estavam fazendo um excelente disco. Lero engano. O disco é fraco e chato, deixando o ar de nostalgia e cansaço no ar. Ela é do Rio mostra o único salto positivo do grupo, que é justamente a arte de se reiventar, dando ao título do trabalho o significado maior: a faixa é um funk que ecoa nos ouvidos com um som descontraído e engraçado. Imperfeito e o meio sambinha Jota Quest Convidou se tornaram destaques de todo o álbum, mas são músicas aquem, que logo desliga o som, já não importamos com a letra. Jota Quest é assim: um grupo que morreu à mingua, que lança discos fracos, deixando a desejar e tentando ser importante.
 

Funky Funky Boom Boom / Jota Quest
Nota 6
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de março de 2014

De onde vem a crítica?


Faço crítica com arte!
Todos nós erramos na vida: ao nascermos já estamos errados se não choramos ou se estamos chorando demais. Na vida há muitas cobranças, pertinentes ou não, que norteiam nosso caminho a torto e a direito. Quando resolvi escrever sobre música brasileira, sabia que estava pisando em ovos. Ovos estes, quebráveis. Mas não intocáveis. Quando iniciei o Mais Cultura Brasileira!, em novembro de 2011, não sabia exatamente o que eu queria: se era criticar a música pobre, de esquina, dos marginalizados, dos arrogantes, dos iletrados ou se eu estava querendo destilar meu suave veneno em apostas vigorosas, discos esquecidos, cantoras e cantores que foram sucesso no passado, lançamentos indispensáveis. Não sabia ao certo. Pois bem: criei o blog sem ter um artigo pronto, apenas acordei de um sobressalto e estava lá o Mais Cultura Brasileira! Logo na primeira semana não obtive o resultado que queria: ninguém lia o que eu escrevia. Hoje, tudo o que escrevo vira repercussão de um jeito ou de outro e tudo começou quando criei o quadro As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos da MPB. A visibilidade foi enorme, o blog subiu ao topo de liderança que eu jamais pensei que fosse chegar e o meu nome foi capa de um jornal de Cultura de Mococa e, alguns meses depois, estava eu lá novamente em um tablóide do Amapá.  Alguns outros meses, meu nome e meu blog estavam na mesma coluna de resenhas com críticos do quilates de Charles Gavin (ex-Titãs) e Zé Vaz, do blog Som do Norte, sobre o lançamento do disco de Emília Monteiro. Isso pra mim foi o ápice maior de minha escrita: nunca pensei em imaginar que eu pudesse escrever em primeiro plano sobre uma cantora do Norte e, de quebra, ter o privilégio de alça-la a voôs longos. Está registrado: o primeiro a escrever sobre Emília foi o Mais Cultura, em seguida Charles Gavin e, por último, Som do Norte. Mas de onde vem a crítica? Esses dias fui criticado por um peso pesado da dita linha jornalística musical e isso tocou muito forte dentro de mim, pois o que escrevo, hoje, é natural de minha pessoa, de meus anseios sobre o disco, de minha persona sobre o que ouço, de minha característica de crítico e de presença sobre algo novo e que está a minha mão. Quando escrevo, despejo todos os adjetivos possíveis para que eu possa me satisfazer. Através desses artigos, consigo conversar com as palavras num tom peculiar, sentimental e rudimentar que apenas eu entendo e tento transpassar para as pessoas num tom mais elaborado. Mas todos nós erramos: erramos ao nascer, erramos ao crescer, erramos ao escrever um artigo. Antes eu pegava um disco qualquer e escutava apenas uma vez e dava a minha impressão sobre aquilo: não pegava os detalhes minímos. Com o tempo aprendi que para ser crítico, não preciso usar terno e gravata: posso ser normal como o vendedor de jornal. Ou seja: hoje quando escrevo, penso! Mas escrever é difícil e cansativo e por este motivo, só escrevo quando estou realmente desperto. Perguntaram-me uma vez como escrevia meus textos: simples. Eu preciso estar agitado. E para eu estar agitado, preciso de música, de poesia, de matéria, de café. Uso adjetivos, uso frases coloquiais, uso menos o barroco. E tento (ainda tento) escrever um artigo como se estivesse escrevendo um capítulo de um livro não acabado: escrevo conforme eu quero. Não preciso ser formado em jornalismo para escrever bem, pois a crítica dentro da crítica já está valendo. E mesmo escrevendo frases que soam como poesia, aqui para mim soam como suavidades extremas. Não preciso que me entendam, me interpretem. Não sou mais importante que o disco resenhado. O disco é mais importante que as minhas palavras. Se eu pudesse e eu ainda tenho tempo para fazer, excluíria todos os artigos que escrevi no início de carreira. Afinal, já entro no terceiro ano de Mais Cultura Brasileira! Hoje ninguém mais leria os artigos antigos, mesmo sendo um canal de aproveitamento ímpar futuramente. Mas aqui não faz importância alguma os artigos que me mandaram via email para que eu pudesse publicar em meu nome ou simplesmente os artigos na qual me debrucei quando deram mais credibilidade para mim. Tive parcerias maravilhosas em alguns artigos, fui pago em outros, tive a autorização em uns 4 ou 5 artigos para que esses mesmos artigos estivessem dentro do meu blog, com as mesmas palavras e significados e não me envergonho disso. Hoje, passados mais de 2 anos de blog e vida cultural voltada para a cultura brasileira exclusivamente, tenho a plena certeza de que fiz coisas certas e erradas, publiquei artigos errados em algumas vezes, acertei em vários artigos, critiquei e logo em seguida elogiei. Hoje tenho uma seleta lista de entrevistadas, como Márcia Tauil, Simone Guimarães, Emília Monteiro e Ná Ozzetti e para este ano de 2014 já tenho mais dois nomes de peso: um cantor de Minas Gerais que estimo pacas e o escritor Daniel Manzoni, amigo de longas datas, que lançará um livro sobre educação, ciência e cultura e é adorador de música brasileira. Nas palavras da cantora Emília Monteiro: sou um crítico. Mas críticos também erram. E meu defeito é tentar acertar. A minha crítica vem de dentro: em mim batem as sonoras batidas da música, certas ou erradas e é através disso que escrevo, critico e publico. E fazer crítica, para mim, é uma arte.

 

De onde vem a crítica?
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 26 de março de 2014

Iara por Iara Rennó: sutilezas


Iara: grande disco
Iara Rennó é um nome muito conhecido na mída e entre os artistas e em 2013 fechou o ano apontando uma grande surpresa: o lançamento de seu CD solo, recebendo o carinhoso nome de Iará. Produzido pelo selo Jóia Moderna, cujo o presidente é o DJ Zé Pedro, o álbum vem para enraizar a música de Iara Rennó, dando um mote a mais para a nossa cultura brasileira, mergulhando de vez no universo totalmente particular desta grande cantora. Entre participações, projetos coletivos e a participação na banda Dona Zica, Iará tem uma discografia variada. Assinando solo, a cantora estreou com o conceitual projeto Macunaíma Ópera Tupi em 2008 e só agora lança um disco de estreia, tão aguardado por muitos. É aqui que Iara Rennó se mostra mais Iara Rennó, sem personagens, sem historietas, sem dividir cenas. Entre tantas opções que a música oferece, essa é a mais nova, porém, o seu núcleo. E talvez seja por isso que faz todo o sentido assinar o disco com o seu nome. Criada em ambiente artístico, Iara tem família culta com referências que vão da raiz sertaneja matogrossense até a vanguarda paulista. Sua mãe, Alzira Espíndola e seu pai, o letrista Carlos Rennó, a tia Tetê Espíndola, o tio Jerry Espíndola foram os principais responsáveis pela criação de Iara, sem contar com os amigos próximos que orbitaram esse núcleo bem plural, como o inesquecível Itamar Assumpção, com quem Iara cantou durante quatro anos. Buscando todos os sons possíveis e imagináveis, seria impossível Iara lançar um disco qualquer no mercado. Sendo assim, ela chega em Iara com pompa de grande estrela. A estrela da MPB. Produzido por Moreno Veloso, o disco entrega seu conceito logo na letra da primeira faixa, Já Era, da própria Iara. Uma letra forte, decidida e certeira, que marca a entrada solo definitivamente da cantora dentro da MPB, denotando, aqui, o clima experimental e urbano, com o que lhe foi ensinado pela família de artistas. Roendo as Unhas, um samba magistral de Paulinho da Viola, se transforma num inquietante e metódico sambinha, totalmente adverso ao que Ney Matogrosso viria a regravar em seu disco Atento aos Sinais no final de 2013. Iara tem a sua cara, o seu jeito, o seu conceito, a sua magnitude, o seu temperamento, o seu rigor, o seu vigor, a sua qualidade e a sua brasilidade incomum, se mostrando autêntica, perfeita, plural, cativante, única. Particularmente falando, Iara Rennó trabalha de um jeito bem natural e dessa naturalidade é se que apresenta seu lado particular, que se resume em um disco leve, solto, descontraído. E lindo!

 

Iara (2013) / Iara Rennó
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de março de 2014

O espetacular Encarnado, de Juçara Marçal


Disco de estreia de Juçara: vale ouro
Ouçam com a devida atenção o disco de estreia da cantora Juçara Marçal: um conjunto de boa voz, bom repertório, boa capa, boas letras. A morte norteia todo o disco, dando aquela atmosfera sobrenatural para um assunto em que todos não gostam de opinar, mas que é uma parte de nós. Juçara Marçal veio com toda a sua força para dar a Encarnado (2014/ 26,99) um clima intimista, sofisticado e, acima de tudo, misterioso. Na estrada há mais de 20 anos, a cantora surge como um meteoro na música popular brasileira, em um momento crítico em que a música sofre com inclinações variantes e sons abalados. Juçara comprova que a arte não tem idade, não tem limites, não tem escalas e que se pode fazê-lo a qualquer tempo, época ou vontade. Mas de onde veio tanta inspiração para compor um disco tão intrigante? Juçara juntou-se aos músicos Kiko Dinucci e Rodrigo Campos e na seleta lista de canções inclui Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba e o que chama a atenção é a vinheta de Odoya, que antecipa Ciranda do Aborto. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. Presente de Casamento é uma música bruta, áspera, mas que mesmo assim soa como um soco no estomago de quem a ouve, pela sua dramaticidade e o som fica desconfortavelmente belo. Canção de Ninar Oxum foi feita para ser cantada ao ouvido e esse tom é o mais impressionante: parece que Juçara está colada ao nosso corpo, balbuciando palavras afetivas. Sempre antenada com o mundo da música, Juçara nos trouxe um disco com sonoridade máxima, expressão intrigante, capa divertida e um tema assustador e assombroso: a morte. Mas não é qualquer morte que se comenta nas faixas deste disco. É a nossa morte, a morte do próximo e a morte de todos nós.

 

Juçara Marçal
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 19 de março de 2014

O sucesso do Mulheres de 80


As Mulheres de 80: sucesso
Em meio a Carnavais, sambas do criolo doido, Lepo Lepo e outras aberrações musicais, o Mulheres de 80 veio com força total ao palco do teatro do Sesc Vila Mariana, quebrando todos os paradigmas musicais e mostrando que a música que cantaram naquela época não se diferencia muito do que cantam hoje. Muita coisa mudou, tanto na vida das cantoras quanto na vida política e cultural brasileira. Itamar Assumpção, um pai sempre presente, veio a falecer em 2003 decorrente de um câncer, Susana Salles e Alzira E. ficaram reclusas por um certo tempo e Ná Ozzetti e Virginia Rosa estavam lançando discos sensacionais a torto e a direito. A música popular brasileira e, sobretudo, essas quatro grandes cantoras, sobreviveram a atentados musicais, como o pagode, o sertanejo, o axé e outras insanidades mentais que passamos a conviver diariamente. Para tanto, a Vanguarda Paulista foi um movimento cultural e artistíco que revolucionou a música num todo, fazendo crer que a nossa loucura, a nossa tensão, a nossa vontade de viver aquilo era plenamente normal. Até mesmo para este crítico que vos escreve, que nascera nos anos 1980 e não vivenciou este momento, acredita que parte do que se vivia aquela época era motivo de loucura, de festa, de um comportamento geral diferenciado, de muita música e de muita responsabilidade. Faltou Vânia Bastos, outra principal integrante deste rico movimento, estar atrelada às quatro vozes. Para quem não vivenciou esta brilhante fase da música brasileira, pode ter vários meios de poder se abastacer culturalmente: os discos avulsos de Ná Ozzetti e Virginia Rosa dão a dimensão da grandiosidade que foi a Lira Paulistana, assim como a Caixa Preta com todos os discos imortalizados pelo mentor do grupo, Itamar Assumpção. Arrigo Barnabé, os grupos Rumo e Premê foram alguns dos nomes que estabeleceram a nova moda musical dos anos 1980, sendo chamados pela crítica de malditos, o que acabou irritando o líder da trupe, Itamar. Sim, eles eram independentes. Sim, eles eram autênticos. Sim, eles faziam a melhor música. Pra mim o espetáculo deveria se chamar As Mulheres de Itamar ou, então, As Meninas de Itamar, mas Mulheres de 80 caiu bem e chamou bem a atenção, não dando um nome específico para determinada cantora entrar em evidência. Espero profundamente que o projeto vire CD e DVD  para que os que não puderam viver a época, estarem a par do que foi esse movimento cultural.

 

Mulheres de 80
Marcelo Teixeira