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domingo, 1 de abril de 2018

Thiago Miranda e o excelente Samba pra Elas (2017)

Thiago Miranda: empoderamento feminino
Sempre digo que há a falta de bons cantores no cenário musical brasileiro e que de uns tempos para cá, muitas cantoras (boas, medianas e ótimas), passaram a reinar em diversos estilos musicais com categoria ímpar de inspirações diversas. Não que não tenhamos cantores no Brasil, mas o nicho de qualidade musical está tão aquém, que raramente surge um bom ou ótimo cantor para nos brindar com a felicidade extra de ouvirmos uma boa música. Eis que de todo o vendaval que estamos passando atualmente, surge um dos melhores e mais capacitados cantores e compositores dos últimos anos e que tem na bagagem nada mais do que excelentes canções, excelente timbre vocal e perfeitas melodias. Thiago Miranda é uma das grandes novidades do mundo do samba e não há que ter uma comparação aqui: ele é único, autoral, completo e atemporal. Essa atemporalidade dentro de seu universo faz com que ele seja ainda mais moderno em seu habitat, pois o que ouvimos em seu recente lançamento é um apanhado de sambas com toques e batidas que nos remetem a um mundo em que o desejo era outro, os sonhos eram outros e a sensação de paz eram outros. Thiago Miranda nos transporta a um mundo decente, digno, capaz de nos divertir e de nos fazer refletir com tudo aquilo que nos cerceia, nos rodeia e nos catalisa. E é justamente aqui onde mora o diferencial de Thiago: sua simplicidade nas letras nos transportam a um devaneio de sensações híbridas e carregadas de sentimentos aflorados e sambas perfeitos. Samba pra Elas (2017 / Funalfa / 24,99) é um disco dedicado às mulheres e aos morros, às comunidades, às sambistas, às melodias carregadas de poder ponderado e centrado no semblante do outro que carrega nas costas o trabalho digno, a única roupa que usa, o pouco dinheiro na carteira, mas que são, acima de tudo, felizes. Samba pra Elas é o retrato fiel de que o respeito mútuo se faz presente em canções como Maria do Socorro (Edu Krieger), cantada magistralmente por Maria Rita (2007) e que aqui o cantor entoa uma nova alegoria de humanização. No disco podemos encontrar também as diversas outras marias espalhadas pelo Brasil afora juntamente com as giocondas, marias do mar, giseles, julianas, carolas, jandiras. E esse é o verdadeiro significado do disco: homenagear a singeleza da mulher brasileira em toda a sua esfera, em toda a sua dimensão e propriedade; seja ela de qualquer canto deste país ou dos quatro cantos do mundo. Uma sacada e tanto do cantor, que trouxe para esse universo do samba a redundância da mulher brasileira e de sua importância dentre tantas lutas e guerras geradas por anos a fio até a sua boniteza de sempre. Além do destaque autoral de Thiago para com as mulheres, o cantor presta uma homenagem a Gilberto Gil, remodelando a canção Super-homem, a canção (1979), que fala da fragilidade masculina perante a epopeia feminina dentro de um empoderamento de redoma ulterior e benigna. Encerrando o disco, Todas elas juntas num só ser (Lenine / Carlos Rennó) nos remete às nuances femininas em sua totalidade: a melodia traz aquela sensação de que há que ter um respeito gigantesco pela figura da mulher e ser humano que transmuta entre a menina e a mulher em sua maior predominância. Sendo muito bem representadas, o samba e a mulher são cantadas por um homem, capacitado para tal, para honrar a beleza de duas almas líricas importantíssimas para os dias atuais: a mulher e o samba. Thiago Miranda merece ser ouvido pelo conjunto da obra, pela simplicidade ao descrever situações cotidianas e pelo seu cantar trivial. Um cantor a altura de sua mais alta patente musical, de sua categoria perfeita e magistral e de sua competência artística. Com tantos arroubos musicais da atualidade, em que o que é desprezível acaba sendo degustado ou jorrado em nossa goela abaixo, ouvir e desfrutar as músicas de Thiago Miranda acaba sendo um alívio para nossos sensatos e imponentes ouvidos. 



Samba pra Elas (2017) / Thiago Miranda
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O lado intimista de Daniela Mercury em O Axé, A Voz e O Violão (2016)

Daniela: do axé a Chico Buarque
Inventora do axé music e dona de uma voz que levanta a multidão, a cantora e compositora Daniela Mercury é um fenômeno que merece respeito por qualquer seara musical na qual explora. A prova cabal disso é que seu trabalho lançado no ano passado é uma mistura que engloba todos os ritmos nas quais a cantora transitou e que reúne desde Chico Buarque à Margareth Menezes, passando por Chico César e Lenine. Sendo a Rainha do Axé e com todo orgulho, a cantora fez o diferencial em sua carreira ao lançar o exuberante O Axé, A Voz e O Violão (26,99 / Biscoito Fino / 2016) que, na minha modesta opinião, é um disco que merece atenção, repeito e cumplicidade pelo trabalho integral de Daniela. Com 16 álbuns solos, além de canções inéditas nesse novo disco, Daniela nos brinda com ótimas releituras da MPB, o trabalho foi recebido mornamente pelo público e pela crítica. Aqui há emoção, sentimento, amor e a cantora nos remete a um passado em que as músicas eram tratadas com um zelo sem igual. Considero o disco como um todo um tanto minimalista em que a cantora vai esmiuçando o axé até se transformar em uma potente vocal e explosiva em pérolas da música popular brasileira e nos brindando com o melhor de seu cancioneiro, pois ela vai desde o início de sua carreira até chegar aos quilates da africanidade e se rendendo nos braços buarquianos. Aos 51 anos de idade, Daniela Mercury continua a se lançar a desafios que cada vez mais diversificados. Acostumada a sempre estar saracoteando nos palcos em movimentos amplos e largos, dançando praticamente sem parar, o som aqui fica praticamente a cargo da orquestra, movida pelo violão e pela suntuosa voz da cantora. Músicas carimbadas como O Canto da Cidade, Música de Rua, Você Não Entende Nada estão lá, em formato intimista e atemporal. Vindo desde os primórdios de sua carreira magistralmente bem conduzida, Daniela resolveu homenagear os mestres Chico Buarque e Gilberto Gil, assim como para mostrar que tudo é música brasileira, tudo é samba, tudo é brasilidade.  Vale a pena ouvir o som quase bossa novista da eterna rainha do axé em um momento único, especial e sublime.


O axé, a voz e o violão (2016) / Daniela Mercury
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de julho de 2017

Marisa Monte - 50 anos


Marisa - 50 anos de vida!
Marisa Monte chega aos 50 anos de idade com a mesma garra e vitalidade com que começou sua carreira, em 1987, ano que iniciou de fato na música popular brasileira com muito jazz, MPB e um estilo que a diferenciava de outras cantoras, mas que se esbarrava com o jeito sereno e arrebatador de Adriana Calcanhotto, cantora que veio um ou dois anos depois. Mas Marisa, no auge de seu estrelato, sabia o que queria fazer: administrar sua própria carreira, sem os mecanismos do sistema que ela sabia muito bem existir. Com uma maestria digna de grandes divas do showbizz, Marisa conduziu sua carreira fazendo aquilo que gostava de cantar, aquilo que gostava de compor e se cercou de artistas e pessoas que praticamente estavam indo no contrafluxo de uma carreira promissora, casos de Arnaldo Antunes que, mesmo estando no estrondoso Titãs, acabava compondo com Marisa pérolas incríveis. Nando Reis vinha dessa seara também, mas um pouco mais contido, com menos canções iniciais que o Arnaldo. Carlinhos Brown, seu melhor amigo e inspirador de todos os tempos, era desses compositores que fizeram com que a artista vendesse mais discos que água em farol engarrafado: o enorme sucesso de MM (1988) era motivado pela releitura da italiana Bem que se quis, que até hoje é referência em sua carreira, mas Verde Amarelo Anil Cor de Rosa e Carvão (1994), em que a música Segue o Seco estrondou em todos os canais de TV e estações de rádios e elevou o nome de Marisa às alturas. De lá para cá foram sucessos garantidos na voz dessa estrela, que teve divisão de vocal com bambas da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Tim Maia, Paulinho da Viola. Não é sempre que fazemos 50 anos e o Mais Cultura Brasileira se prontificou a homenagear Marisa desde o primeiro dia deste ano e irá fazê-lo até o último segundo de 2017. Reverenciar sua grandeza é sentir que a música brasileira pode ser alicerce para qualquer estado em nossas vidas. Parabéns, Marisa Monte pelos seus 50 anos de vida!

Marisa Monte – 50 anos
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de outubro de 2016

Cala a boca, João!


Voz e Violão: excelente
Há quem o odeie e há os que o ama! Há também aqueles que ficam neutros quando o assunto é João Gilberto, um ícone da Bossa Nova e um dos pais do movimento que inspirou as pessoas a cantarem em ritmo mais lento e tendo como companheiros um banquinho e um violão. Não é fácil ser João, um gênio da música popular brasileira que hoje vive mais recluso do que nunca em seu apartamento, nos Estados Unidos. Obviamente que Cala a Boca, João (título deste artigo) foi uma referência à música de Dorival Caymmi, Cala a Boca, Menino (1973), pois João é um típico cantor que odeia berros, sobressaltos, devaneios e qualquer coisa que o deixa atormentado.  Com o surgimento de Chega de Saudade a reviravolta na música brasileira se fez presente e a revolução musical foi uma constante. A influência notória de João Gilberto foi fundamental para todo esse universo novo e para a posteridade, pois fora através dele que surgiram Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco e os mais atuais, como Fernanda Takai, Ná Ozzetti e outros. Para todos os efeitos, Voz e Violão (2000 / 27,90) é um disco que merece atenção por ser um disco não apenas de coletâneas, mas por ser um álbum em que contempla a importância de um grande catalisador da música ainda vivo. O que não dá para entender é como as gerações após 1960 não conseguem compreender ou encaixar João Gilberto dentro de um contexto musical ou intelectual e nem ao menos dão o seu devido valor, mesmo os grandes críticos de música saberem disso. Esse descontentamento para com ele entristece aqueles que gostam de sua música e fazem com que a geração que nasceu com Voz e Violão o desconhece. Vale a pena ouvir suas músicas, ler livros que falem sobre o cantor e estarem por dentro de sua musicalidade irretocavelmente perfeita!

 

Voz e Violão (2000) / João Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 8 de outubro de 2016

Daniela Mercury: do axé à MPB


Daniela: rainha da axé
Sempre digo que a música baiana é dividida em blocos importantes: a primeira retrata a música de Dorival Caymm e Assis Valente, o segundo bloco é representado pela onda de baianidade intelectualizada formada por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Baby do Brasil, Moraes Moreira e outros e o terceiro e mais importante bloco é representado apenas por uma única mulher, que revolucionou a música com três palavras determinantes: ginga, energia e determinação. A década de 1990 foi marcada pela geração de Daniela Mercury, que conseguiu uma legião de fãs por todo o Brasil com sua voz, sua dança, seu balé, sua sofisticação e seu axé. Estávamos saindo de uma onda roqueira, embalada por roqueiros e bandas com alguma simpatia cordial e estavámos enojados com o pagode brejeiro de grupos multifacetados que aspiravam a demagogia do riso forçado, que caminhava lado a lado com as duplas sertanejas que ascendiam lareiras fervilhantes, mas que nada se comparava aos mitos Chitãozinho e Xororó. As únicas cantoras que estavam no posto de donas da vez eram díspares em suas camadas musicais, sendo elas Marina Lima no rock e Daniela Mercury no chamado axé, pois Marisa Monte, que vinha de um disco maravilhoso de 1988 e Adriana Calcanhotto, que receberia as glórias em 1990, duelavam entre si pelo posto mais alto da música, mas o caminho de Daniela estava livre para mostrar o seu talento e, de quebra, aquilo que ninguém até então tinha ouvido cantar, falar e comentar. Ao longe e timidamente, cantoras do naipe de Cássia Eller, Zélia Duncan, Fernanda Abreu apareciam aqui ou ali em apresentações medianas. Mas 1991 foi um divisor de águas na carreira meteórica de Daniela Mercury, que nesta altura já tinha desistido de ser bailarina para se tornar a maior estrela da música nacional. Arrastou multidões com a música Swing da Cor (1991), que lhe rendeu centenas de shows e lhe valeu a fama de cantora das multidões. De fato, não havia uma cantora nacional com aquela popularidade enorme e Daniela tinha todos os atributos para ser a rainha do axé. Daniela Mercury era um fenômeno por onde passava e o axé tinha uma representante à altura. Com coreografias sensacionais, a cantora deixou seu nome registrado na música nacional como sendo a maior de todos os tempos. Depois de seu sucesso estrondante, artistas do naipe de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque passaram a reverenciar sua voz, seu canto e seu estilo e a tornaram ainda mais em evidência: era o primeiro passo da cantora no mundo da MPB. A bem da verdade, Daniela já flertava com a música popular brasileira em algumas faixas de seus discos e esse sempre foi o desejo da baiana em ser um dia uma cantora distante do axé. Não que o estilo fosse negativo, mas Daniela sempre almejou ser uma nova Gal Costa, dando a chance de mostrar para outros públicos o quanto sua voz poderia ser privilegiada fora de um contexto elétrico. Com a chegada de Ivete Sangalo e, mais tarde, de Claudia Leite, Daniela deu vazão para o mundo da MPB e foi abandonando aos poucos a axé que um dia lhe consagrou. A mudança não surtiu tanto efeito assim para os fãs ardorosos da cantora, mas Daniela soube usar a inteligência e já havia sacado que se não mudasse de estilo o mais rápido possível, poderia cair no ostracismo. Não foi o que aconteceu: com ótimas releituras e com a voz ainda mais valorizada, Daniela conseguiu respeito e admiração de um público cada vez maior e que conseguia nutrir uma satisfação nada egocêntrica de sua parte. Daniela conseguiu mostrar sua voz para a cidade e realizou o sonho de ser uma menina baiana que um jeito que Deus dá.

 

Daniela Mercury: do axé à MPB
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de outubro de 2016

A obra, o legado, a decadência e o mito Raul Seixas


Raul: mito do Rock
Raul Seixas morreu em agosto de 1989, derrubado pelos excessos. Deixou músicas que se tornaram hinos à rebeldia e à inconformidade com as coisas caretas do mundo e milhares de fãs desolados. Gente de todos os tipos choraram sua partida, desde ricos, pobres, caminhoneiros, roqueiros, urbanóides, sertanejos e estudantes. Raul não tinha rótulos, embora o rock estivesse em sua veia, mas o cantor passeio pelo baião, pelo samba e pelas baladas, compondo pérolas como Rock das Aranhas, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone, entre tantas outras maravilhas. Mas o que esperar de um garoto problemático que cresce ouvindo Elvis Presley, Luiz Gonzaga, Chuck Berry e Jackson do Pandeiro? Raul transitava por todas as searas musicais, dizendo que não tinha um título que o rotulasse. Gostava de Genival Lacerda, mas também admirava Cauby Peixoto. Nascido na Bahia em 1945, Raul Seixas gostava mesmo era de intimidar as pessoas com suas tiradas e sacadas geniais. Várias de suas músicas foram censuradas pela Ditadura Militar, algumas foram engavetadas para uma gravação futura, outras tiveram que ter letras trocadas para não serem grampeadas pelo governo. Seu primeiro disco foi lançado em 1986, com o título de Rauzito e os Panteras, pela EMI-Odeon, não sendo um grande sucesso de público e muito menos de crítica. Com tanta desilusão musical, o cantor desfez a banda e voltou aos estudos, no curso de Filosofia. Não tardou muito e o cantor voltou à música, em 1972, inscrevendo-se para o VII Festival Internacional da Canção, classificando aqui duas músicas que se tornariam hinos consagrados: Let me Sing, Let me Sing e Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo. Através dessa classificação sensacional, o cantor e agora compositor reconhecido é contratado pela grande gravadora, a Phillips. Com sua ida à Phillips, Raul deparou-se com um escritor fracassado, metido a bruxo e com um lado místico efervescente: Paulo Coelho, que acreditava em discos voadores e extraterrestres. Através desse encontro, a vida de ambos, cantor e escritor, passa por uma transformação avassaladora: eis a parceria mais importante da música popular brasileira. Em 1973 lança sua mais pura perfeita tradução musical com Ouro de Tolo e a irônica e zombeteira Mosca na Sopa. Perseguido pelos militares em 1974, Raul exila-se nos Estados Unidos e mais uma vez é surpreendido pelo acontecimento histórico e inacreditável: o encontro com o ícone da música americana John Lennon. Volta ao Brasil no mesmo ano e compõe Sociedade Alternativa, O Trem das Sete e Gita, que se transformou em um disco antológico. Mas nem tudo eram flores na vida musical de Raul e, por esse motivo, em 1975 lança Novo Aeon, um disco fraco e que vendeu muito pouco, deixando a todos os empresários cabisbaixos, mas a qualidade desse disco é igual ou melhor que o de 1974. É nesse disco que se encontra um dos maiores selos românticos da obra do cantor: A Maçã. Já em 1977 lança O Dia em que a Terra Parou, compondo ao lado de Cláudio Roberto o hino hippie Maluco Beleza e que, por consequência disso, passa a ser o apelido de Raul. Esse disco passa a ser uma obra-prima também para o próprio Raul, pois Gilberto Gil dá uma canja no violão na música Que Luz é essa? Em 1978 lança Mata Virgem e retoma a parceria com o escritor Paulo Coelho, que estava meio estremecida desde 1975. Deprimido com público e crítica que rejeitaram seu disco Por quem os Sinos Dobram (1979), Raul exagera no consumo de bebidas e drogas, onde passa por várias internações e perde metade do pâncreas em uma cirurgia. Apesar dos problemas pessoais, o cantor volta com carga total e lança um mediano álbum, Abre-te Sésamo (1980), com relíquias como Anos 80 e Rock das Aranhas. Tendo uma boa repercussão por causa desse disco, Raul inicia uma pequena turnê pelo interior de São Paulo, preferindo apresentar-se em cidades pequenas, levando sua arte àqueles que não podiam ir aos seus shows de grandes proporções. Essa iniciativa não deu tão certo assim, embora a crítica o aplaudisse de pé: o cantor era visto bêbado nas padarias, sempre ao lado de um copo. Raras vezes o encontravam com um bloquinho e uma caneta rabiscando alguma música. Desse bloquinho ainda surtiram efeito de luz no fim do túnel e Raul põe no mercado, agora pelo selo Eldorado, o disco Raul Seixas, que conseguiu emplacar Carimbador Maluco e a música infantil Plunct-Plact-Zumm. Já em 1984, o cantor lança Metrô Linha 743, pela Som Livre, que teve uma música censurada: Mamãe Eu Não Queria (Servir o Exército).  Depois desse disco e sendo cada vez mais chamado de Maluco Beleza, Raul passaria por outras gravadoras e isso virou piada entre o meio musical, pois mostrava a já decadência do artista. Porém, em 1987, no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Bém-Bum!, pela Copacabana, nasceu um de seus últimos hinos: a bela Cowboy Fora da Lei. O ano de 1988 não começou bom para o cantor, que vinha se tratando de vários problemas relacionados a álcool e lança um disco mais fraco que o de início de carreira, em 1968 e o de 1979. A Pedra do Gênesis (1988) foi muito mal recebida por todos e Raul decide-se se isolar por completo. Mas graças ao amigo e cantor Marcelo Nova (nesse tempo, Paulo Coelho já estava afastado de Raul), o convence a gravar novamente. O último disco da carreira de Raul chama-se A Panela do Diabo (1989), sendo um convite a sua saída derradeira aos 44 anos de idade e sendo um ícone da música nacional brasileira. O grande legado que Raul Seixas deixa para a música contemporânea é o seu mundo representado por músicas místicas envolvidas por ritmos até então nunca imaginadas juntas.  Raul não fora apenas um cantor que ministrou o baião, o samba e o rock no mesmo palco, mas sim, um grande cantor que estava desenhando o seu mundo imaginário através daquilo que achava justo e correto cantar.

 

O legado de Raul Seixas
Por Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto?


Por que devemos ouvir Adriana?
Dona de uma voz irresistível e detentora de discos antológicos, Adriana Calcanhotto é mais que uma letrista competente dentro da música popular brasileira. A gaúcha que contempla a paisagem carioca tem o domínio fácil de criar composições românticas dentro de um campo semântico de bel-prazer, atravessando os horizontes do infinito para aprofundar em sentimentos desesperados e desamparados com o brilhantismo de uma mente inquieta. Essa é Adriana Calcanhotto, a cantora que inspira multidões, que devaneia os sonhos mais perplexos e que instaura mistérios cabíveis de calmaria insana. Mas dentro da atmosfera musical de Adriana existe uma personalidade muito forte, incandescente, próspera e audaz que nos remete a uma indagação profunda: por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto? A resposta não é tão fácil quanto possível de ser explicada, mas existe uma contrapartida básica e singela para tal demonstração do porque devemos ouvir suas músicas. Adriana tem em seu currículo o panorama carioca registrada em músicas como Carioca e Maresia, tem o vendaval de explosão magnética em canções como Senhas, Vambora e Mentiras e tem a emoção aflorada em músicas como Inverno e Esquadros. Mas não é só isso. De todas as cantoras surgidas na década de 1990 (Marisa Monte e Adriana duelaram firmemente para se manterem no topo das melhores cantoras surgidas nesse tempo), Adriana foi a que melhor representou a MPB, tendo em consequência maior disso seu tino para compor aquilo que a população exigia. Se de um lado tínhamos Marisa Monte e seu lado mais alternativo de cantar e compor, de outro tínhamos Adriana com seu estilo mais calmo, denso e que adentrava por entre nossos poros e peles com um dissabor incansável. Sendo uma expoente do Tropicalismo de Caetano e Gil, Adriana nos apresenta em suas canções àquilo que outras cantoras não nos mostram: sua versatilidade entre o cantar e o brincar, sua sensação térmica em reestruturar canções antigas, sua magia em trazer à tona ilustres personagens já esquecidos pelo tempo. Foi assim que trouxe Frida Kahlo para o seu universo na música Esquadros e que reviveu Hélio Oiticica em Parangolé Pamplona, sobre o trabalho do artista de 1968 chamado Capa Feita no Corpo.  Waly Salomão certa vez disse que Adriana constitui uma ótima vitrine para a poesia e ele estava coberto de razão. Waly é remanescente do Tropicalismo, tem na bagagem ótimas letras e seu estilo de garoto fanfarrão se contrapôs com o estilo cinzento de Adriana, que é o estilo de uma artista que é cúmplice de seu próprio estilo. Além de trazer para a sua música todo o tropicalismo ocidental, traz também a poesia que muitos desconhecem, fazendo disso um arsenal ainda mais motivador para sua obra. A poesia de Mário de Sá Carneiro, Cid Campos e Augusto de Campos, Ferreira Gullar e Oswald de Andrade estão escancaradas em forma de música por sua voz tão aveludada quanto autoral. É por essas e outras que devemos ouvir Adriana: não é qualquer cantora que consegue unir o passado com o presente, fazer de um simples elo de sofisticação singular com a beleza popular e fazer delirar os corações apaixonados com seu semblante angelical. Precisamos ouvir Adriana Calcanhotto para termos a certeza de que a música popular brasileira é rica em detalhes e que pode ser útil também perante a poesia concreta e abstrata, perpassando pela pintura visível de grandes mestres das cores.

 

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado


1968 foi um ano emblemático para a história da música popular brasileira: de um lado tinha a turma de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda, do outro os festivais de música da TV Record, de um outro lado horizontal tinha a Bossa Nova e suas nuances perfeitas para enaltecer o que era belo e mais sagrado e por um curto espaço de tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil se juntara a Nara Leão, Os Mutantes, Rogério Duprat e Gal Costa para criarem um movimento audacioso e inteligente, que ganharia o nome de Tropicália. Quase cinquenta anos nos separam do fatídico ano de 1968, época da ditadura militar no Brasil, para os dias atuais, em que a música carece de muita criatividade e audácia, para ficarmos nas lembranças temidas pelo disco e por depoimentos de quem vivenciou aquele precioso tempo. No meu caso, apenas carrego na bagagem cultural o que se falam ou escrevem sobre o movimento, tendo em vista que eu nem era nascido para poder contar história. Mas até hoje, muitos intelectuais, musicólogos, filósofos e críticos de música tentam explicar a necessidade poética e harmônica de Tropicália ou Panis et Circencis (1968 / Philips / 30,00), disco em que há uma miscelânea de vozes e uma caricatura autoral persistente dos artistas mais badalados de então. Caetano Veloso e Gal Costa eram amigos e já tinham gravado Domingo, música que abriu várias fronteiras para ambos, enquanto Gilberto Gil ainda engatinhava no cenário musical apenas nos bastidores, mas sua presença fora marcante e precisa para dar o pontapé inicial em um dos movimentos mais importantes não apenas para os criadores, como para toda uma geração. Em seu livro biográfico Verdade Tropical (1997), Caetano disse que Gil falava demais e com certa eloquência verbal que passara a ser hermético e cansativo demais, enquanto os demais tentavam falar a língua nativa, natural, habitual. Mas o que muitos talvez não entendessem na época, é que essa maneira de Gil falar fora totalmente importante para o surgimento de canções assimétricas, como Misere Nobis, que abre o álbum. Perguntas até hoje não respondidas persistem em nossos imaginários: por que Maria Bethânia, a irmã de Caetano e até então a única a brilhar efusivamente em teatros lotados, não participara do disco? Por que Gilberto Gil segura a foto emoldurada em quadro de Chico Buarque? Por que Nara Leão pertenceu ao grupo tropicalista? Apenas, talvez, a última pergunta tenha resposta e ainda assim contraditória. Nara Leão gostava de perambular por todas as esferas musicais, tais como a própria bossa nova, a MPB, o samba de morro e para ela não seria novidade pisar em ovos tropicalistas. Deu certo essa iniciativa. Mas uma quarta questão surge: por que Tom Zé, baiano de Irará, que era tropicalista como os outros, não participara do momento de fato, mesmo aparecendo na capa do álbum? A participação de Tom Zé fora pequena e passou desapercebida pelo grande público da época e até hoje associam a imagem do cantor à outras fases tropicalistas, menos nesse disco. Sua única canção, Parque Industrial, fora cantada por todos, menos por Nara, que cantou apenas Lindoneia, a quarta faixa do disco. Podemos afirmar então que Nara Leão era tropicalista? Nas palavras de Caetano, sim, ela pertencera ao grupo, mas isso não deixa de ser evidente, assim como a meia participação de Tom Zé. Seja como for, Tropicália é um disco que fora iniciado sem a pretensão de ser concluído: havia ali a intenção clara e objetiva de seus líderes, Caetano e Gil, em influenciar mudanças grotescas no mundo moderno. O ano de 1968 eclodia de um militarismo sem igual e fazer ou falar qualquer coisa resultaria em morte, mas a turma da Tropicália queriam mais: queriam ser alvo de visão e audição. Ganharam o mundo depois que Caetano Veloso tivera contato imediato com a obra de Glauber Rocha, o lendário cineasta morto precocemente e de Hélio Oiticica, o pai do tropicalismo, que influenciou e muito a obra e a vida dos músicos envolvidos. A propagação da causa tropicalista pelo disco Tropicália ou Panis Circences persevera por quase cinquenta anos com o mesmo brilho e com a mesma simbologia desde 1968 já com a intenção de nunca terminar. Havia uma necessidade incessante de Caetano e Gil preverem que o álbum seria histórico? Talvez sim. A capacidade intelectual de todas as cabeças pensantes fizera do disco uma obra-prima sem igual, elogiado até hoje por amantes e críticos da música universal. O ideário tropicalista foi formado não apenas pelas discussões ardilosas de seus condutores e/ou pelos ajuntamentos de intelectuais, como a dos poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari. Apesar de impactante para o momento e diante da importância dessa coleção de ideias e fatos revolucionários que formigaram a estrutura cultural nacional, é preciso lembrar que tudo girava em torno de discos sensacionais lançados naquele tempo e contra a censura enclausurada de outros movimentos que persistiam em lograr para um ponto certo no lugar certo. E Tropicália ou Panis et Circences permanece até hoje como reduto de um álbum magnífico, precioso e atual a tal ponto de nunca ser concluído.

 

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado

Marcelo Teixeira

sábado, 11 de julho de 2015

O culto a voz de Maria Bethânia


50 anos de Maria Bethânia na MPB
Ao longo de sua carreira, a cantora Maria Bethânia se mostrou como uma interprete maior de sua arte, de sua música, de sua veia cênica e de sua voz. Seu talento nunca foi questionador, mas sempre foi motivo de sondagens por cantoras em início de carreira. Pautada entre o certo e o incerto que dá certo, Bethânia é uma das raras cantoras que consegue comover o Brasil com sua voz poderosa e sua presença marcante de palco. Não é qualquer cantora que consegue chegar aos 50 anos de carreira sendo elogiada por quem realmente entende de música: para se chegar a essa idade comemorativa, é preciso muita disciplina, muita dedicação, meta e foco. E tudo isso Maria Bethânia conseguiu fazer com uma maestria impecável. O título deste artigo foi tirado do livro Verdades Tropicais (VELOSO, Caetano ,  Companhia das Letras, 1997, pag. 58), de onde o cantor e irmão Caetano revela que antes mesmo de Bethânia ser uma cantora profissional, ela já impactava o público com sua voz. O livro, em sua primeira parte, é um retrato fiel das andanças de Caetano e Bethânia por Santo Amaro, na Bahia, e pelo desamor da cantora pela Bahia; assim como posso retratar o livro como sendo um tributo de proteção do irmão para com a irmã e, por final, posso atribuir o livro como ilustração de Caetano defendendo a irmã como sendo uma artista nata dentro de sua própria casa e cujo a viu nascer, crescer e cantar. Maria Bethânia queria ser atriz depois que vira em sua terra natal alguns filmes europeus; se encantara com o mundo de Clarice Lispector e Fernando Pessoa e ao mesmo tempo era sondada a cantar em noites de estreia teatral na coxia e com as luzes apagadas e, assim, havia um mistério enorme em torno da imagem dela. O mistério sempre rondou a vida de Bethânia e o culto em torno de sua voz passou a ser, profissionalmente, como um mantra, uma reza e uma oração aos amantes de sua arte. Mas Bethânia é justamente isso: um misto de cultura, uma assombração de mistérios, uma divindade da música popular brasileira. O primeiro contato com Clarice Lispector foi aos quinze anos, quando leu, emocionada, Legião Estrangeira, publicado na extinta revista Senhor, tendo em vista que o irmão era leitor fervoroso da publicação. Maria Bethânia ficou tão embriagada com esta leitura, que resolveu mostrar sua paixão e sua loucura pela literatura hermética de Clarice. Desta troca de cumplicidades nasceu uma amizade entre a escritora e a já consagrada cantora de MPB, que tinha, entre seus amigos, Vinicius de Moraes, Gal Costa, João Gilberto, Gilberto Gil entre outros. Clarice não perdia os shows de Bethânia: Maria Bethânia é faíscas no palco, dissera a escritora quando a cantora encenou o show Rosa dos Ventos. Não é difícil imaginar que a carreira brilhantemente construída por Bethânia tenha o consentimento de Caetano Veloso para uma visão solidão de profissionalismo dentro da música. No livro isso deixa evidente, mas a própria cantora foi a mentora de sua própria vida artística, cultural e pessoal. São cinquenta anos de música dentro de seu próprio país, dentro de seu segmento, dentro de sua história. Aqui tudo se entrelaça, desde a literatura, a poesia, a música, a voz de Bethânia como um trovão emergente. Ao ouvirmos Bethânia, temos a nítida certeza de que a música está a salvo de tantas ignorâncias musicais que assolam atualmente a cultura de todos nós: graças a Bethânia, somos obrigados a concordar que a música popular brasileira é rica de qualidade, categoria e civilização. Há na cantora uma sombra assustadora de energia positiva, capaz de nos enrolar em um manto azul e branco sagrado de proteção contra mazelas estereotipadas e desengonçadas. Garanto que não é qualquer cantora que chega aos cinquenta anos de carreira sendo coerente com sua musicalidade e com sua motivação em cantar e inspirar novas cantoras e com o respeito para com a música popular brasileira. O culto ao canto de Maria Bethânia é muito mais que isso.

O culto ao canto de Maria Betânia
Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cristiano Araújo e a carnavalização de sua morte


Cristiano: sertão, carnaval e morte
Quando noticiaram a morte de Cristiano Araújo, logo me manifestei nas redes sociais, dizendo que não conhecia o cantor, mas que a nossa música ficaria ainda mais rica com o seu silêncio. Disse isso sem arrependimentos ou traumas por não conhecer a fundo a carreira do cantor sertanejo, mas sabendo que suas músicas eram de um recorro comercial apelativo. Logo fui prestar um grande serviço à minha memória: ouvir o som de Cristiano Araújo. Tudo bem que o cantor não era lá grandes coisas, suas músicas não são de todo ruim, não há duplo sentido como ouvimos em outros estilos mais enfadonhos e até mesmo dentro do estilo sertanejo, mas assistindo aos vídeos de Cristiano, pude notar que há, sim, conotação sexual em suas danças e há, sim, um apelo comercial generalizado por grandes empresas. Disse no artigo anterior que Cristiano Araújo fora um cantor que trilhou o próprio caminho para chegar, por ele próprio, ao estrelato que tanto queria, assim como disse também que ele era um homem sensato, pensativo e de carisma pessoal incrível. Não retiro uma virgula do que disse no artigo anterior, mas ressalvo aqui neste novo post que Cristiano não era bem um desses cantores populares que nasceram do dia para a noite num estalar de dedos ou num piscar de olhos. O cantor teve o aparato de outras estrelas e sub estrelas do mundo dos negócios, do dinheiro fácil e da fama repentina. E acabou pagando da pior forma por todo este aparato: com sua própria vida. Perguntaram-me onde estava a minha diversidade e onde estava a filosofia da cultura sertaneja enraizada dentro de mim e eis que respondo: a diversidade está espalhada em todos os cantos, seja na música, na pintura ou na novela, mas cada um sabe interpretar e aceitar a sua diversidade da forma que bem entender. Aqui não utilizo a ferramenta da diversidade, mas sim a pluralidade diversificada que todos nós carregamos quando depreciamos algo. O multiculturalismo existente em todos os povos se faz presente quando possamos demonstrar algo diferente da nossa cultura popular e, neste sentido, Cristiano Araújo pôde mostrar perfeitamente sua música regional de forma sensata, original e atemporal para o Brasil inteiro, mesmo que às custas da mídia regedora deste país. A diferença entre multiculturalismo, diversidade e pluralidade diversificada é que a minha opinião se diz onipresente a opinião do outro e que nem sempre somos obrigados a aceitar o que o outro diz, sabendo que talvez esse outro tenha a mesma opinião formada que temos. Mais tomado pela emoção da comoção sofrida pelo público presente entre notícia, velório, sepultamento e o dia após a morte, escrevi um artigo brando na semana passada, em que tentei comparar o distanciamento profissional entre Cristiano, Luan Santanna, Gustavo Lima e, para ficar apenas no sertanejo universitário de hoje em dia, não me atrevi a buscar nomes que lutaram verdadeiramente para que a música sertaneja fosse, definitivamente, colocada em seu devido lugar. A posição em que Cristiano Araújo estava ainda poderia ser a de melhor posição, pois a mídia o renegava, mas o público lhe era fiel. Luan e Gustavo tinham a mídia ao seu bel prazer e mesmo lançando discos com classificação baixa, lucram e levam porcariada musical para dentro de nossos tímpanos. Nessa categoria, Cristiano Araújo venceu a batalha: através do entrave entre divulgação de show / mídia global / casa lotada, o cantor vencia em todos os aspectos. A música caipira, regional, sertaneja sempre foi reduto de anedotas e preconceito, mas vale lembrar que todos os ritmos brasileiros, desde o samba de Clara Nunes, Noel Rosa, Martinho da Vila, passando pelo pagode de Katinguêle, Exaltasamba, Pixote e até a música romântica produzida por Fábio Junior, Mauricio Mattar e outros são alvos de piadas, mas os sertanejos ficam mais ofensivos quando os atacam. Por que? Porque o psicológico do sertanejo é mais lento. Explico: todos os sertanejos dizem que nasceram na roça, de uma origem familiar rude e pobre, mas que conseguem o estrelato através da música, que acaba sendo mais que a fé em Deus que todos eles têm. Atribuem o sucesso ao pai, que lutou tanto para que o filho (ou os filhos) chegassem à roda da fortuna musical, se orgulham de não terem entrado para a faculdade e se orgulham de elevar o nome de sua terra natal aos jornais. O primeiro ato de preconceito parte diretamente deles, dos sertanejos e quando acontece alguma fatalidade como a que vitimou Cristiano Araújo e muitos tentam explicar os motivos pela sua morte repentina, eles, os sertanejos, se veem atirados num lamaçal de esgoto. Esse ato pejorativo de preconceito se chama pluralidade cultural e parte não da mídia escolarizada, mas sim de um grupo que já nasceu dentro do seio sertanista. A diversidade está dentro de cada um de nós, enraizada em cada pessoa que cultiva a sua própria cultura. Mas o que se viu nesta semana foi uma festa: nunca a morte de um cantor meramente desconhecido do grande público se fez presente nas redes sociais, no mundo da fofoca, do showbiz, da música. Cristiano Araújo levou para seu enterro uma bagatela de gente anônima, choradeiras de parto prematuro, que somados chegou a quase 61 mil estridentes. Suas músicas se tornaram hinos (e isso está acontecendo ainda mais agora que ele está há sete palmos de terra!). Mulheres em sua maioria se agarrando à outras desconhecidas pela mesma causa: pela carnavalização da morte de um cantor desconhecido do Brasil. Há de nascer vários cristianos agora, não no mundo da música, mas em forma de homenagem. Assim como já mataram verbalmente o jogador português Cristiano Ronaldo (para demonstrar que realmente o cantor era um mero desconhecido), tive que dar muita risada quando foi comparada a morte do sertanejo universitário ao dos Mamonas Assassinas: irrisório, hilário e, para não dizer canhestro. Mamonas Assassinas já tinham fama e um certo prestígio quando morreram naquele desastre aéreo, mas dizer que Cristiano Araújo tem o mesmo patamar de morte por levar multidões ao choro desengonçado, é dizer que somos analfabetos natos. O que me faz falta é a cultura que vem de dentro de casa, dos pais, dos avós, do irmão mais velho para demonstrar que mesmo havendo uma música descartável, temos também a música que nos faz pensar, que temos Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Chitãozinho e Xororó, Pena Branca e Xavantinho, Elomar (este sim, um verdadeiro regional brasileiro) e tantos outros artistas verdadeiramente capacitados para nos mostrar que a música é a arte maior de pensamento único. A carnavalização na qual fomos obrigados a degustar, digerir e participar dos ensaios foi tão grotesca, tão irracional, tão desumana, que chegou ao ponto de todos os meios de comunicação ficarem maciçamente abordando o assunto, fazendo deste cerimonial um ato de bravura, de enriquecimento humano, de emoção sentimental para com quem nem chegamos a nos familiarizar. O  que se viu foi uma aberração completa, um sepultamento musical privilegiado para muitos que mesmo não querendo ver, estavam curiosos para ver o apito final e dizer acabou! Não me interpretem mal, pois o que estou falando é a mais pura verdade: Cristiano Araújo levou mais gente para o seu enterro que para seu próprio show. Fomos obrigados a participar desta coletividade fazendo parte das estatísticas de que o cantor realmente atraía multidões. Muitos que lá estavam no dia final não se conheciam, óbvio, assim como muitos que acompanhavam o sepultamento estavam ali mais pela curiosidade que pela emoção. Afinal: mesmo Cristiano Araújo lotando casas noturnas como fazia, seu público não era tão gigantesco assim, ou seja, faltava muito para realmente ser um Cristiano Araújo de verdade. Precisou o cantor morrer para provar que tinha mais público fora que dentro das casas noturnas.

 

 

Cristiano Araújo e a carnavalização de sua morte
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O brilhantismo de Elis 1973


Elis 73: simples e luxo ao mesmo tempo
Entre o grande sucesso de O Bem Amado, primeira novela à cores no Brasil, escrita por Dias Gomes, o lançamento de três álbuns importantes dentro da música popular brasileira acontecia à revelia de um grande espetáculo de público e crítica: Nervos de Aço, do sambista Paulinho da Viola, em que o cantor aparece chorando na capa e Secos & Molhados, cujos os integrantes estão apenas com as cabeças em forma de guilhotina, com Ney Matogrosso como líder maior do grupo. O Brasil estava sob a ditadura austera de Médice e tudo o que era falado e/ou cantado passava por uma rigorosa tortura física e mental. Por outro lado, a Jovem Guarda já não fazia sucesso e o estilo de roupa e os cabelos tanto de homens quanto o de mulheres, faziam enorme sucesso entre as classes sociais mais abrangentes e que recaía sobre o proletariado da vez (os grandes consumidores de toda uma geração). A efervescência musical vinha por conta de grandes acontecimentos no país e mesmo sob forte domínio político, o mundo da música ganhava peso e força à medida em que os meses se passavam. Raul Seixas, Tom Jobim e Milton Nascimento lançaram músicas (e não discos) sensacionais e conseguiram ganhar a credibilidade de líderes do partido e até mesmo de políticos que se renderam às suas músicas. Mas o grande lançamento ficou por conta de uma cantora baixinha, ranzinza, cabelos masculinizados para uma época em que a feminilidade tomava conta: Elis Regina e seu verdadeiro disco de categoria. Elis 1973 (19,99 / Philips / 1973) vai do simples ao luxo com uma assombrosa tempestade lírica de uma das maiores cantoras do país. Partindo de uma naturalidade mórbida, Elis soube ousar em todas as faixas, recriando sua própria voz, se redescobrindo a cada canção, não poupando mágicas em suas cordas vocais e se superando em um país até então dominado por cantores. Simples ao seu jeito e luxuoso por completo, Elis 1973 é um dos melhores (senão o melhor!) disco de carreira da cantora. Com composições de Gilberto Gil, João Bosco e Pedro Caetano, a cantora pôde interpretar com maestria cada faixa, degustando o seu próprio domínio de estúdio e se mostrando versátil para a música num todo, não escondendo a enorme satisfação em fazer aquele trabalho. Elis não saberia naquele momento e talvez nunca soube em vida, mas seu disco era totalmente diferente daquilo que vinha fazendo até então: sem ter uma música sequer de Milton Nascimento, Tom Jobim, Chico Buarque ou Ivan Lins, a cantora optou por reunir um seleto time de compositores para dar corpo e alma ao seu disco daquele emblemático ano. Justamente os cantores e compositores que a ditadura tanto odiava e que eram perseguidos. Resultado: Elis 1973 se tornou referência e Elis conseguiu sair da aba do impulso musical que a dominava até então. Vale lembrar que um ano antes, 1972, Elis também veio com um disco sensacional, mas dominado de clichês e falta de senso comum: o disco, mesmo sendo bom, também conseguiu ganhar notoriedade por ser exemplar e moderninho para a época. Mas é em 1973 que o grande ano de Elis acontecia: sem ser demagoga, lançou um disco em que não era política nem assombrava as pessoas (exceto pela música Agnus Sei (João Bosco / Aldir Blanc), em que criticava a Igreja; pelo contrário, fazia com que o público se aproximasse dela com mais simpatia e menos arrogância e talvez isso explique o enorme sucesso de seu disco e show Falso Brilhante, em 1976, com composição do também João Bosco. Além de ser um dos discos indispensáveis em sua discografia (tanto para Elis quanto para o público), o disco trouxe particularidades que fizeram com que o mundo da música em seus bastidores entrasse em devaneio. A começar pela música Ladeira da Preguiça, que Elis pedira a Gilberto Gil por telefone e, enquanto conversavam, o compositor baiano escrevia a letra sem ser incomodado por uma Elis estridente do outro lado da linha. Recentemente, em seu disco Gilbertos Sambas (2014), Gil disse que era impossível não se lembrar de Elis e de sua história quando canta essa música. Em segundo lugar, teve a pequena rusga entre Elis e Beth Carvalho: a sambista recusou a música Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, pois seu disco já estava completo (fechado para ser reproduzido). Então, Nelson ligou para Elis e a cantou via telefone e a cantora gaúcha se derreteu e aceitou gravá-la. O enorme sucesso da canção fez com que Beth se sentisse traída, pois o grande trabalho de Elis 1973 seria É Com Esse que eu Vou, um samba-canção de Pedro Caetano, que ganhou dimensão rapidamente. Alguns anos depois, Elis dissera em entrevistas sobre esse episódio e Beth Carvalho (que tivera crises existenciais pelo sucesso de Clara Nunes) praticamente não fala no assunto. Seja como for, Elis 1973 é um dos melhores discos de Elis e não pode ficar de fora de qualquer lista que aborde os melhores discos nacionais de todos os tempos. Elis se mostrou como uma das melhores cantoras daquele ano (em 1974 veio com o excelente Tom & Elis, referência até hoje) e sua música, sua voz, seu carisma e sua popularidade eram gritantes mesmo em um período obscuro da nossa própria história.

 

Elis 1973 (1973) / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A música e a religião de Rita Beneditto em Encanto (2014)



Rita: música e religião
Depois de lançar o emblemático Tecnomacumba e se ver rodeada de problemas religiosos por causa de sua música, a cantora maranhense Rita Beneditto volta após oito anos deste lançamento para enfim colocar voz no delicioso Encanto, que é uma sequencia do primeiro. Lançado pela Manaxica Produções em parceira com a Biscoito Fino, o novo disco comemora os vinte e cinco anos de carreira de Rita. Encanto (2014 / 24,99 / Manaxica – Biscoito Fino) é o primeiro disco de Rita após a mudança de nome de Ribeiro para Beneditto. A regravação em tom roqueiro de sucesso de Roberto Carlos impulsiona o disco, onde Rita apresenta músicas inéditas entre ousadas releituras de canções de compositores como Djavan, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Em uma viagem às fronteiras do Brasil, Rita canta Babalu, um dos grandes sucessos da compositora cubana Margarita Lecuona, imortalizada na voz de Ângela Maria. Na matriz africana descende De Mina, música de Josias Sobrinho gravada com a guitarra de Roberto Frejat. E, como a fé a música nunca tiveram fronteiras, Encanto aporta ao fim do terreiro do samba com O que e dela é meu, samba bamba carioca de Arlindo Cruz feito especialmente para Rita. É o fecho simbólico de Encanto, disco que não deixa dúvidas de que, em qualquer terreiro ou lugar, a religião de Rita Beneditto é a música.

 

Encanto / Rita Beneditto
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 24 de junho de 2014

A falsa baiana: Claudia Leite


 

Senta lá, Claudia!
Sinto pena da Claudia Leite, agora denominada Claudia Milk, talvez para ficar internacionalmente conhecida. Senti vergonha alheia de ver Claudia Leite, Milk ou o que seja, dançando, pulando, erguendo os braços num grito de gol. Foi uma fatalidade total ver a falsa baiana vestida de azul cravada de diamantes, enquanto a nossa bandeira é verde e amarela. Graças a um erro da Fifa, a cantora foi selecionada para abrir a Copa do Mundo aqui no Brasil e fazer de sua imagem uma seda rasgada, deteriorada e senil. Claudia Leite, ops, Milk, estava apagada, mal iluminada e com uma roupa cafona que custou metade daquele estádio. Sem estilo, a cantora não teve sintonia com as músicas, com o estádio, com a cantora Jennifer Lopez, com os torcedores: sua maquilagem estava carregada e seus olhos estavam mortos. Mas há vários motivos do porque Claudia não poderia ser eleita a cantora para a abertura da Copa: ela não tem estilo, não tem carisma, nem empatia, muito menos simpatia. Seu semblante é de uma pessoa depressiva, de poucos amigos. Falsa baiana que é, a cantora carioca até canta, tenta demonstrar carisma, mas não passa de uma ilusão à toa. Centrada em cantar pérolas brasileiras, a cantora demonstrou que precisa estudar o repertório que não conhece ou não teve tempo de conhecer e que precisa ser mais brasileira para ocupar o espaço de uma verdadeira estrela. Mesmo assim, Claudia subiu e cantou, mesmo que para risos esfuziantes da platéia ou do telespectador do mundo inteiro. Com tantos nomes muito mais relevantes e intelectualizados no país, por que a Fifa chamou logo Claudia Leite, uma cantora que não tem aquele charme e nem aquela pureza de cantora baiana? Ivete Sangalo e Daniela Mercury estavam livres para aceitar o convite, assim como Maria Rita, Gal Costa ou Zizi Possi. Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil estavam totalmente desocupados para ocupar o lugar daquele cantor que só agitava os braços. E por que chamar uma cantora do porte de Jennifer Lopez, se temos muito mais capacidade de ter ali uma cantora nossa? Se a Fifa não tem respostas, eu tenho: a Fifa não é brasileira e isso todos nós sabemos. Escolheu cantores, artistas, figurinistas, pessoas e crianças estrangeiras e demonstrou, a torto e a direito, que não conhecem o nosso país. No final de tudo, acho que a razão até esteja com Claudia, quando canta no trecho em português de We Are One: Não importa o resultado, vamos extravasar! Rainha do pior axé music de todos os tempos, a única coisa que resta aos brasileiros e a própria cantora é extravar e rezar para que o Brasil ganhe a Copa. Não importa para os amantes da MPB, o resultado final: o importante aqui é que a música produzida por Claudia Leite é da pior qualidade, mesmo ela ganhando dinheiro e muito dinheiro. Perante o vexame de ver Claudia Leite cantando no centro do mundo, tive a certeza de que estamos falidos musicalmente, ao menos naquele momento em que ela se requebrava. Pensei na luta de cantores que tentam um espaço para sobreviver e pensei na paz do mundo se não tivessemos uma Claudia Leite.

 

A falsa baiana / Claudia Leite
Marcelo Teixeira