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sábado, 1 de julho de 2017

Marisa Monte - 50 anos


Marisa - 50 anos de vida!
Marisa Monte chega aos 50 anos de idade com a mesma garra e vitalidade com que começou sua carreira, em 1987, ano que iniciou de fato na música popular brasileira com muito jazz, MPB e um estilo que a diferenciava de outras cantoras, mas que se esbarrava com o jeito sereno e arrebatador de Adriana Calcanhotto, cantora que veio um ou dois anos depois. Mas Marisa, no auge de seu estrelato, sabia o que queria fazer: administrar sua própria carreira, sem os mecanismos do sistema que ela sabia muito bem existir. Com uma maestria digna de grandes divas do showbizz, Marisa conduziu sua carreira fazendo aquilo que gostava de cantar, aquilo que gostava de compor e se cercou de artistas e pessoas que praticamente estavam indo no contrafluxo de uma carreira promissora, casos de Arnaldo Antunes que, mesmo estando no estrondoso Titãs, acabava compondo com Marisa pérolas incríveis. Nando Reis vinha dessa seara também, mas um pouco mais contido, com menos canções iniciais que o Arnaldo. Carlinhos Brown, seu melhor amigo e inspirador de todos os tempos, era desses compositores que fizeram com que a artista vendesse mais discos que água em farol engarrafado: o enorme sucesso de MM (1988) era motivado pela releitura da italiana Bem que se quis, que até hoje é referência em sua carreira, mas Verde Amarelo Anil Cor de Rosa e Carvão (1994), em que a música Segue o Seco estrondou em todos os canais de TV e estações de rádios e elevou o nome de Marisa às alturas. De lá para cá foram sucessos garantidos na voz dessa estrela, que teve divisão de vocal com bambas da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Tim Maia, Paulinho da Viola. Não é sempre que fazemos 50 anos e o Mais Cultura Brasileira se prontificou a homenagear Marisa desde o primeiro dia deste ano e irá fazê-lo até o último segundo de 2017. Reverenciar sua grandeza é sentir que a música brasileira pode ser alicerce para qualquer estado em nossas vidas. Parabéns, Marisa Monte pelos seus 50 anos de vida!

Marisa Monte – 50 anos
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Elis, trilha sonora do filme: mais uma obra de baú


Elis: CD de baú
Salvo pela ótima e excepcional interpretação de Andréia Horta, o filme Elis (2016) não tem nada de especial. Venhamos e convenhamos que o filme é mais um musical do que um filme propriamente dito, em que contasse as verdades de Elis, os julgamentos pessoais, o verdadeiro nascimento de uma estrela, seus verdadeiros amigos, suas inimizades musicais e pessoais, o caloroso amor por Milton Nascimento, a relação com os filhos, o desafeto com Tom Jobim e Chico Buarque, o rancor por Nara Leão e Maria Bethânia, o amor incondicional por Rita Lee e Gal Costa e o amor platônico por Clara Nunes. Cadê Tim Maia? Cadê Samuel Wainer, seu último namorado e que a vira estirada no chão do apartamento da rua Doutor Mello Alves, nos Jardins? Cadê a verdadeira história? Não houve nada disso e o público fora subestimado a assistir um musical reproduzido dos palcos brasileiros para as telonas. A qualidade do filme é excelente, as cenas são primorosas, a luz está perfeita, a direção foi impecável, mas o essencial faltou: não retrataram a vida de Elis conforme o enunciado. Trataram seu lado musical. Esqueceram de colocar suas famosas entrevistas, suas diversas frases de efeito moral, seus pensamentos acerca da música, seu carinho por João Bosco. E cadê a passagem com as drogas? Cadê o envolvimento rápido e conturbado com Fábio Junior e Guilherme Arantes? Não houve nada disso. Para além do filme houve o acontecimento rápido de se lançar um disco: tudo foi proposital. Primeiro lançam o filme mediano e em seguida um CD com os melhores sucessos da cantora. É sempre assim. Mas não trata-se de um grande filme (reitero que a interpretação de Andréia Horta e a direção estão impecáveis, mas faltaram argumentos para ser o filme do ano) e não trata-se de um grande disco. As prateleiras terão apenas mais um disco de coletâneas de Elis Regina com uma capa diferente. Porém, o que não foi retratado civilizadamente no filme foi colocado propositadamente no disco, como a faixa em que Nara Leão canta Borandá (1964) e Cartola interpretando O sol nascerá, registro também de 1964. Se a intenção era fazer um filme para homenagear uma das maiores cantoras do Brasil, o tiro saiu pela culatra, porque falta informação decente e coerente para com a artista que revolucionou a música brasileira e se tornou uma das maiores vozes do mundo através de sua garra e determinação. Faltou entusiasmo, carisma e o principal: a vida da artista. Para quem acompanha a carreira da cantora certamente ficou descontente com o resultado final, mas a ideia  central aqui é resgatar Elis para o público novo, para que sua imagem seja lembrada à nova geração. Portanto, tudo errado na diagramação de Elis. Por que não fizeram tal qual o filme Piaf – Um Hino ao Amor, em que retrataram fielmente sua ascensão e sua decadência, seus amores impossíveis e nostálgicos? Tanto tentaram camuflar a vida de Elis e seus turbulentos momentos de crise que o filme logo cairá no esquecimento e o CD com a trilha sonora logo será artigo de arquivo no baú.


Elis – o filme (trilha musical)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

sábado, 7 de março de 2015

Cadê a essência de Tiago Abravanel?


Cadê a essência?
Ainda que Tiago Abravanel, o neto ilustre de Silvio Santos, tente se distanciar da imagem e semelhança de Tim Maia, a figura espelhada do cantor do século vinte e um acaba se esbarrando na figura musical e mítica do rei do soul brasileiro do século vinte. Tiago Abravanel ficou marcado definitivamente pela imagem de Tim, o que pode ter lhe causado um certo prestígio e desconforto em sua carreira. Lançado recentemente o single Eclético, o cantor e ator tenta, propositadamente, se desligar por completo da alma e do peso nas costas de Tim, já que hoje em dia é quase impossível não olhar para Tiago e não se lembrar de Tim. Tarefa árdua será retomar sua própria personalidade, já que Tiago Abravanel ainda não se mostrou a que veio como cantor, mesmo tendo uma voz sensacional e um carisma incrível. Não é fácil ser cantor em um país hoje dominado por cantoras e é mais difícil ainda tentar emplacar um sucesso tendo a imagem de uma figura atemporal da música popular brasileira à sua frente. O tempo não será amigo de Tiago, que tenta, a todo custo, correr do vulto quase mística de Tim, cantor que embalou sucessos atrás de sucessos e que hoje se tornou referência na música brasileira. Ainda que tente ser um bom cantor, Tiago deixa a desejar como interprete, perdendo a sua essência e sua qualidade (mesmo tendo uma boa voz, mas um péssimo repertório) e o que salva é o seu carisma, sempre inabalável e com um alto astral imprevisto. Mas Tiago precisa repensar em sua carreira musical como um todo, senão ficará sempre a desejar em questão de música. Mesmo ganhando o Prêmio Qualidade Brasil em 2012 nas categorias melhor ator, direção e musical, o musico não ganhou o de melhor cantor, mesmo sendo considerado pela crítica especializada como um dos melhores da atualidade. Dançarino e ator eventual, Tiago é um dos poucos artistas que já coleciona, em apenas cinco anos de carreira, elogios e mais elogios à sua caminhada artística bem sucedida. Porém, o melhor elogio ainda não veio, porque seu CD não merece elogio nenhum.

 

Cadê a essência de Tiago Abravanel?
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os olhos de Adriana Calcanhotto


Os olhos de onda de Adriana
Desde Maritimo (1998), que Adriana Calcanhotto devia um disco a altura de seu talento. Não que os discos seguintes sejam menores, mas o fato é que a cantora passou a cantar acompanhada de banquinho e violão e deixou outros instrumentos para outro campo. Mas Adriana não precisa de outros instrumentos, porque o violão que a acompanha e o banquinho que lhe é seu melhor amigo, faz de todo o palco um ambiente confortável e original e a voz da cantora passa a ser um alívio de musicalidade quando começa a dedilhar as cordas. Lançando Olhos de Onda (2014 / Sony Music / 19,99), o disco seria um discão se não fosse alguns erros perdoáveis da cantora, como, por exemplo, ficar no ar bossa novista em tempos em que a música exige muito mais que isso. Não que a Bossa Nova esteja perdida no tempo, mas Adriana poderia utilizar da artimanha de se inovar no disco através de ousadias pitorescas que apenas ela consegue fazer (e vem fazendo isso com habilidade) para pincelar aqui ou ali um momento de descontração com relação à sua música. Pincelando canções de discos anteriores e mais focado nos esquecidos Maré (2008) e Cantada (2003), a cantora deu um sopro de respiração aguda e pensou numa estratégia para não cair no marasmo de Público (1999) que mais se parece com Olhos de Onda na sua forma mais ampla e elaborada. Olhos de Onda é o título da música número sete, inédita e simples, mas que tem o carimbo da cantora gaúcha. A sacada genial de Adriana Calcanhotto para que Olhos de Onda superasse os outros lançamentos e, automaticamente, ficasse em alta no mercado fonográfico do ano, foi a regravação de Me dê Motivos, imortalizada na voz inconfundível de Tim Maia e a versão de Back to Black, da cantora Amy Winehouse, fazendo uma comparação assim como em Cantada, quando a cantora deu voz a música Music, de Madonna e surpreendeu ao público pelo timbre agudo e pela inspiração que causou. Aqui não é diferente e até as fotos do encarte são sensacionais. Músicas manjadas, como Maresia, o álbum é repleto de sucessos que a própria Adriana não cantara mais em discos, como Metade, Esquadros ou Inverno. Mas vale a pena ouvir o disco porque Adriana Calcanhotto voltou renovada depois de Micróbio do Samba (2011) e trazendo na bagagem poemas de Augusto dos Campos, a música de Caetano Veloso, O Nome da Cidade, e a sua paixão pelo Rio de Janeiro. Não chega a ser o melhor disco de Adriana Calcanhotto, mas que o repertório foi muito bem pensado e elaborado, isso sem sombra de dúvidas ajudou e muito na sua colocação entre as melhores, fortes e firmes cantoras da velha e boa música popular brasileira.
 
Olhos de Onda / Adriana Calcanhotto
Nota 9
Marcelo Teixeira

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Recanto de Gal Costa


A mansidão de um recanto escuro
O que poderia ser um disco de mesmices, transformou-se em um dos mais belos discos ao vivo da carreira de Gal Costa, que coleciona inúmeros álbuns neste formato, desde homenagens à Tom Jobim como gravando os maiores sucessos. Recanto, disco que saiu no finalzinho de 2011, foi um estranhamento a primeira audição, mas que foi entrando em nossos poros a cada música sentida. Se foi experimentalismo ou inovação, como eu enfatizei no texto, não importa mais. O disco Recanto é um primor e alça mais uma vez, graças às mãos de Caetano Veloso, que fez com que Gal Costa saísse do marasmo de canções ora tropicalientes, ora bossa novista e/ou canções regravadas. O acerto foi tamanho, que o publico mais jovem passaram a ver Gal Costa com mais brasilidade e ao mesmo tempo, passaram a ouvi-la com mais intensidade.

Recanto Gal Ao Vivo por si só já valeria as canções originais do original, pois são de um brilhantismo maravilhoso ouvir músicas como Miami Maculelê e Tudo Dói, mas a direção assinada por Caetano Veloso preferiu inserir canções que fizeram sucesso na voz de Gal em cada etapa de sua vida, fazendo, assim, uma nova roupagem para músicas como Folhetim, Modinha para Gabriela, Baby e Vapor Barato. Destaque para Barato Total, que ficou bacanérrima.

Exceto Folhetim (Chico Buarque), Barato Total (Gilberto Gil), Deus é o Amor (Jorge Bem), Vapor Barato (Jards Macalé / Waly Salomão), Um Dia de Domingo (Michael Sullivan / Paulo Massadas) e Modinha para Gabriela (Dorival Caymmi) o resto do repertório é de autoria de Caetano Veloso sozinho ou acompanhado, caso de Divino Maravilhoso, que foi feita em parceria com Gilberto Gil.

Geralmente, as grandes músicas, os grandes sucessos, quando vem embalada de novos sons, nova sonoridade e novo arranjo, tendem a mascarar as músicas que estão sendo trabalhadas ultimamente e aqui em Recanto Ao Vivo não é o que acontece. Grande sacada colocarem Baby (cantadíssima até hoje dentro e fora do país) e que foi acoplada com o mega sucesso dos anos 70, Diana, como música incidental.  Outra grande sacada foi não estender as canções antigas, talvez para não abafar e soterrar as novas; sendo assim, Modinha para Gabriela, Meu Bem Meu Mal e algumas outras do passado glorioso de Gal, tiveram tempos curtos no álbum ao vivo.

A homenagem à Tim Maia fica por conta de Um Dia de Domingo, cantada na primeira parte por Gal e na segunda por uma Gal imitando, engraçadamente, a voz de Tim Maia. O público vai à loucura e ri e canta e aplaude, tudo isso num misto de encantamento.

Gal está leve no show e isso fez com que o CD saísse praticamente perfeito. Sua dramaticidade, suas emoções, sua voz, sua música, tudo se encaixou perfeitamente no recanto escuro que se tornou o Teathro Net Rio.

Em comum, Recanto traz o desejo de transgredir, de ir além, e mostra as várias Gals que pontuam uma carreira prestes a completar meio século de estrada. Além da voz límpida e do repertório que mescla composições inéditas com clássicos da MPB, todos devidamente reembalados para o século 21, o êxito do novo álbum também deve muito ao clima familiar dos bastidores e do visto em cena.

Por isso Recanto Gal Ao Vivo tem tudo para ser o melhor CD de 2013.

 

Recanto Ao Vivo – Gal Costa

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

As releituras de Seu Jorge e Almaz vão muito além da música


Ótimo disco em releituras e vozes
A voz de Seu Jorge consente a ele cantar o que ambicionar. Do estrondo do trovão ao sussurro, passando por diversos matizes timbrísticos, tudo cabe na voz de Seu Jorge. Do mesmo modo, mimeografando o passado e imprimindo futuros, os músicos da Nação Zumbi aprofundam a pesquisa de uma brasilidade braseira. Aconteceu o projeto que estava há anos engavetado e que saiu no finalzinho de 2009. Seu Jorge e Almaz. Sem mais. Sem palavras. O melhor de Seu Jorge sem o poder das grandes canções comerciais e indo mais fundo, mais profundo, mais adentro de músicas mais elaboradas, mais sofisticadas, mais elitizadas, mas ainda assim sem perder o preceito de uma música comercial. Para o projeto Seu Jorge e Almaz (EMI / 2010 / 29,99), o cantor acoplou sua energia vocal à tonelada rítmica de dois componentes do grupo Nação Zumbi - Pupillo e Lucio Maia -, além do conhecimento em trilhas sonoras de Antonio Pinto. O resultado é um disco forte: com sonoridades mestiças, volteios agradáveis e surpresas. Boas.

Reciclando canções diversas - de Tim Maia a Rodney Temperton, passando por Jorge Ben e Dorival Caymmi -, o quarteto compôs um conjunto sonoro autoral: um som livre de fixações universais e misturados. A poética Juízo final, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, sem perder o cavaquinho, ganhou uma moldura melódica atômica, biônica e eletron-sansônica irradiando a mensagem do amor que será eterno novamente.

Aqui, longe da destruição apocalíptica, o juízo final traz a esperança do sol que brilhará. A produção do grupo Almaz investe em uma tempestade de sons eletronicamente modificados para adensar o canto do desejo do sujeito à espera de mudança.

A performance vocal preguiçosa de Seu Jorge parece contrastar com o desejo do sujeito exposto. Porém, tal dicção pode ser lida como a tematização dos angonismos presentes na letra. Aliás, em Seu Jorge e Almaz o cantor investiu a mais não poder na sua dicção malandra, desleixada e, por isso, única. Em ritmo crônico, o sujeito da canção caminha rumor a além do horizonte, onde tropa de todos os baques existentes comporão com sons psicodélicos a luz do dia seguinte.

Recriar Baden Powell e Vinicius de Moraes com sofisticação, reconstruir Martinho da Vila com solidez, descaracterizar Dorival Caymmi com elegância e refazer Jorge Ben com sagaz complacência só poderia ser feito com a tenra desenvoltura de um cantor à altura de Seu Jorge, com sua voz de trovão e seu canto endiabrado.

Salve, Seu Jorge!

 

Seu Jorge e Almaz

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 9 de abril de 2013

Agenda Mais Cultura: De Tom a Tim, show de Nathália Lima em Brasília


 

Bela voz, belo som
Nathália Lima é uma das cantoras brasilienses com grande qualificação artística, voz sedutora, categoria digna do status que merece receber e consegue nos hipnotizar do início ao fim de uma canção. Recentemente gravou Elas Cantam Menescal, ao lado de Márcia Tauil, Sandra Duailibe e Cely Curado, tendo a participação do anfitrião, Roberto Menescal em praticamente todas as faixas. Nathália canta brilhantemente e agora os brasilienses, que já a conhecem, podem reverenciar a cantora mais uma vez. O Agenda Mais Cultura tem a honra de divulgar o mais novo show da cantora, De Tom a Tim, que, assim como a cantora sugere, é uma viagem musical.

O Show De Tom a Tim será uma viagem pela MPB e Pop Nacional. São destaques do repertório canções de: Tom Jobim, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Djavan, Vanessa da Mata, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zé Ramalho, Tim Maia e muito mais.

Se você está indo à Brasília ou está de passagem pela cidade, nada melhor do que assistir a um bom show, acompanhado de uma boa voz, com um show intimamente brasileiro.

É nesta quinta!

 

Voz: Nathália Lima

Violão: Hugo Coêlho

Percussão: Jorge Macarrão

 

Local: 11.04 no Nosso Mar (115 Norte) Brasília

Horário: 21:30

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

30º Maior Cantora do Brasil: Sandra de Sá


 

Sandra de Sá entre as melhores
Considerada a rainha da Música Preta Brasileira, Sandra de Sá tem sua africanidade literalmente na veia. Neta de um cabo-verdiano, assimilou o gingado e o ritmo dos seus ancestrais que com certeza muito a inspiraram; e como ela mesma costuma dizer, na sua família quem não é músico, é musical. Seu pai era baterista e com a família formava bandas para tocar no carnaval. Ainda criança, eles a levavam aos clubes; enquanto eles tocavam, ela brincava com os primos e amigos. Mais tarde, o destino eram os bailes. Aprendeu sozinha a tocar violão e a partir daí ninguém mais a segurou. Começou a compor suas músicas e colocar pra fora, toda a sua criatividade, traduzida em conscientização social.  Sandra sempre participava de festivais pelo Rio de Janeiro levada pela amiga Fafy Siqueira.

No último período da faculdade de psicologia conquistou o sucesso pra valer como cantora e compositora em 1980 quando participou do festival MPB 80 da Rede Globo. Sua música Demônio Colorido ficou entre as dez finalistas. Sandra acumulou vários prêmios ao longo desses 32 anos de sucesso, traçando também sua carreira internacional. E assim foi traduzida por Nelson Motta um dia: …Sandra de Sá afina como uma das mais expressivas cantoras brasileiras do nosso tempo.

O timbre e a potência de sua voz são inconfundíveis, únicos no Brasil. A originalidade e a personalidade, trazem na voz a assinatura única de Sandra de Sá. O CD AfricaNatividade (Cheiro de Brasil), concorreu em 2010 ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro. Esse disco com músicas inéditas foi o primeiro produzido pela própria Sandra. Nos arranjos, ela reforça seus laços culturais e musicais entre o Brasil e a África. Em 2001 já havia participado da edição Rio e em 2006 soltou a voz no Rock in Rio Lisboa. Em 2011, na volta do Rock in Rio ao Brasil, cantou ao lado de Bebel Gilberto, homenageando Cazuza; velhos amigos.

Sandra está como diretora da UBC (União Brasileira de Compositores) no resgate do respeito ao autor. Junto com outros artistas e produtores musicais lutou pela aprovação da PEC da música que objetiva a isenção tributária de fonogramas brasileiros. São muitas as idas à Brasília em prol da cultura brasileira. O mais recente projeto da artista é o Baculeju, que teve início do cervejal que rolava de vez em quando com a sua banda, e despretensiosamente eram experimentados vários ritmos e vertentes. A ideia deu tão certo, que Sandra resolveu dividir com os amigos e com seu público esse momento mágico, levando para os palcos uma brincadeira gostosa; esse caldeirão musical.

Carioca do subúrbio de Pilares, Sandra é considerada a rainha do soul brasileiro. É chamada por alguns de Tim Maia de saias, por se identificar com o falecido cantor no balanço e no timbre grave da voz . Cazuza dizia que ela era a Billie Holliday brasileira. Entre os jurados do festival estava Cazuza que se tornou admirador e grande amigo de Sandra. Quando Cazuza morreu, Sandra entrou em crise de depressão e abuso de drogas. A própria Sandra desponta como atriz na série Antônia, sobre cantores de rap da periferia de São Paulo, uma produção independente do cineasta Fernando Meirelles, veiculada a partir de novembro de 2006 pela Rede Globo. Ainda em 2006 participou de um show na Alemanha, durante a Copa do Mundo, ao lado de Gilberto Gil e Margareth Menezes.

Com grandes sucessos da década de 1980 que perduram até hoje na boca do povo, Sandra de Sá é uma das maiores cantoras que este país já produziu. E é por isto que hoje ela chega à 30º colocação entre as maiores cantoras do Brasil.

 

30º Lugar: Sandra de Sá

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O mundo dos cachorros, segundo Zeca Baleiro


Homenagem aos cães
O mundo dos cachorros nunca foi tão bem representado como o disco PetShopMundoCão (2002 / MZA – Abril Music / 29,00), de Zeca Baleiro, considerado pela crítica como sendo o seu melhor disco. Zeca Baleiro sempre foi pra mim um dos artistas mais criativos e originais de nossa época. Com sua mistura de samba, rock, rap e música eletrônica, sem a necessidade de ter um estilo próprio, ele consegue mesmo assim criar uma identidade única. Aqui temos mais um trabalho onde imperam as influências de música eletrônica e samba, flertando ainda com o rock e o rap, utilizando dos mais diversos instrumentos, como metais (flauta, sax, trumpete), violinos, corais, cantos gregorianos, beat box, tudo isto aliado às excelentes letras fazem deste o melhor trabalho que o compositor já fez. Com letras como Minha tribo sou eu, onde ele tenta fugir dos rótulos em um samba com levada tecno; Eu despedi o meu patrão, que acho que pode ser considerado o maior hino dos malandros desde Sossego do Tim Maia; Telegrama e Um filho e Um Cachorro, duas baladas ótimas bem no estilo do álbum anterior, Líricas; fica difícil destacar alguma música ou letra, já que todas tem seu charme se ouvidas com atenção. De início estas que eu citei são as que chamam mais a atenção, mas depois você vai percebendo as outras e fica difícil não querer ouvir o CD do início ao fim. As participações ilustres estão menores desta vez, ficam restritas aos instrumentistas. No quesito vocal, a única mais ou menos assim é a de Elba Ramalho na música Drumembêis. Já em As meninas dos Jardins e Mundo Cão temos a presença marcante do Rap que só Zeca Baleiro sabe misturar às suas canções e mais uma vez o compositor acerta em cheio.

Pra terminar o cantor mostra suas raízes africanas com duas canções que lembram os terreiros de umbanda: Filho da Véia e A Serpente (Outra Lenda), dois sambas de terreiro bem legais. Vale ressaltar o trabalho gráfico do CD, que vem com uma embalagem de luxo, e ainda traz um livro onde o cantor escreve sobre o processo de confecção deste trabalho, as participações especiais e traz muitas fotos legais.

 

PetShopMundoCão / Zeca Baleiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O pior álbum de Marisa Monte



A cantora Marisa Monte
Desde Mais (1991), o segundo disco de Marisa Monte em que ela realmente se mostrou capaz de ser muito mais do que uma cantora de música americanizada ou supostamente de jazz como aconteceu com Marisa Monte (1988) que a cantora veio se mostrando como ela realmente é: Marisa Monte. E sabemos exatamente o que esperar de cada disco de Marisa Monte: você sabe mais ou menos o que vai encontrar e ninguém (seja fã ou não) pode dizer que foi ludibriado. Pois Memórias, Crônicas e Declarações é nada mais (e nada menos) que um disco de Marisa Monte.

Tem a produção caprichosa-estilosa de Arto Lindsay (e co-produção de Marisa), um punhado de canções com Carlinhos Brown e/ou Arnaldo Antunes, um samba das antigas (Gotas de Luar, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, cantado com toda a reverência de quem produziu um disco da Velha Guarda da Portela) e alguns corretos resgates da MPB (Para Ver as Meninas, de Paulinho da Viola, e Cinco Minutos, de Jorge Ben). Se há algo curioso a se destacar neste quinto disco da cantora, já em sua segunda década de carreira, é a comovente simplicidade de algumas canções – o mais próximo da coesão estética em que ela chegou até hoje em disco.


Disco de 2000: horrível
Amor I Love You (parceria com Carlinhos Brown), Não Vá Embora (com Arnaldo Antunes), O Que Me Importa (música que poderia ter sido gravada pelo Roberto Carlos do começo dos anos 70, mas o foi por Tim Maia em seu terceiro disco, de 1972) e Não É Fácil (de Marisa, Arnaldo e Brown) são verdadeiras declarações de amor à música pop-romântica – e nem precisa ser fã de Marisa para gostar. Só estas músicas revelam a simplicidade da cantora e em nada se parece com Marisa Monte. São musiquinhas capengas, horríveis, pobres, nefastas e fúnebres, com um gosto e um apelo sentimental às breguices encontradas em músicas de cantores capengas, horríveis, pobres, nefastas e fúnebres.

E isso não acontecia há muito tempo, desde os excelentes Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão (1994) e Barulhinho Bom (1996) que Marisa não fazia algo tão horripilante como essas músicas bregas com apelo para atrair um público mais emblemático, arrastando asas para o determinado povão e sendo admirada e aclamada pelos quatro cantos do Brasil. As pessoas até então não compreendiam suas músicas e ela era considerada uma cantora de elite. Este conceito foi por água abaixo após o lançamento do pior disco de sua carreira ou talvez o menos aclamado. Após o sucesso de Amor I Love You, Marisa ainda nos brinda com o CD ainda mais brega, intitulado Marisa Monte (2001) sendo um compacto simples contendo a música A Sua.

Talvez pela falta de Nando Reis neste disco fraquissímo tenha dado este resultado horripilante. O passeio sem sobressaltos pelos pouco mais de 40 minutos de Memórias acaba em um Caetano Veloso inspirado com a bela canção Sou Seu Sabiá, nos remetendo aos bons e velhos tempos de Marisa Monte.



Faixas                                              



·       1 - Amor I Love You

·       2 - Não Vá Embora

·       3 - O Que Me Importa

·       4 - Não é Fácil

·       5 - Perdão Você

·       6 - Tema de Amor

·       7 - Abololô

·       8 - Para Ver As Meninas

·       9 - Cinco Minutos

·       10 - Gentileza

·       11 - Água Também é Mar

·       12 - Gotas De Luar

·       13 - Sou Seu Sabiá



Nota 5



Memórias, Crônicas e Declarações de Amor / Marisa Monte



Marcelo Teixeira