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sábado, 1 de julho de 2017

Marisa Monte - 50 anos


Marisa - 50 anos de vida!
Marisa Monte chega aos 50 anos de idade com a mesma garra e vitalidade com que começou sua carreira, em 1987, ano que iniciou de fato na música popular brasileira com muito jazz, MPB e um estilo que a diferenciava de outras cantoras, mas que se esbarrava com o jeito sereno e arrebatador de Adriana Calcanhotto, cantora que veio um ou dois anos depois. Mas Marisa, no auge de seu estrelato, sabia o que queria fazer: administrar sua própria carreira, sem os mecanismos do sistema que ela sabia muito bem existir. Com uma maestria digna de grandes divas do showbizz, Marisa conduziu sua carreira fazendo aquilo que gostava de cantar, aquilo que gostava de compor e se cercou de artistas e pessoas que praticamente estavam indo no contrafluxo de uma carreira promissora, casos de Arnaldo Antunes que, mesmo estando no estrondoso Titãs, acabava compondo com Marisa pérolas incríveis. Nando Reis vinha dessa seara também, mas um pouco mais contido, com menos canções iniciais que o Arnaldo. Carlinhos Brown, seu melhor amigo e inspirador de todos os tempos, era desses compositores que fizeram com que a artista vendesse mais discos que água em farol engarrafado: o enorme sucesso de MM (1988) era motivado pela releitura da italiana Bem que se quis, que até hoje é referência em sua carreira, mas Verde Amarelo Anil Cor de Rosa e Carvão (1994), em que a música Segue o Seco estrondou em todos os canais de TV e estações de rádios e elevou o nome de Marisa às alturas. De lá para cá foram sucessos garantidos na voz dessa estrela, que teve divisão de vocal com bambas da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Tim Maia, Paulinho da Viola. Não é sempre que fazemos 50 anos e o Mais Cultura Brasileira se prontificou a homenagear Marisa desde o primeiro dia deste ano e irá fazê-lo até o último segundo de 2017. Reverenciar sua grandeza é sentir que a música brasileira pode ser alicerce para qualquer estado em nossas vidas. Parabéns, Marisa Monte pelos seus 50 anos de vida!

Marisa Monte – 50 anos
Por Marcelo Teixeira

domingo, 28 de maio de 2017

O samba de Criolo


Criolo e seus espirais de vida
Sempre digo que Criolo é o expoente do Brasil perdido, o elo entre aquilo que a comunidade mais necessitada quer dizer daquilo que a elite não quer ouvir. Criolo é o tipo raro de cantor de rap que deu certo em todas as esferas e camadas musicais justamente por fazer de sua música uma forte batida contra os preconceitos e desfavorecimentos daqueles que nada têm.  Lançando o excelente Espiral de Ilusões (2017 / Oloko Records / 29,90), o cantor dita as modas em seu um álbum de inéditas que flerta com o samba em uma batida sincopada de alegorias sincronizadas e batidinhas de palmas eletrizantes. Nesse novo trabalho, o artista deu voz a dez faixas e segue o caminho inverso com relação ao seu último e bem recebido disco, o maravilhoso e pomposo Convoque Seu Buda (2014). Vale lembrar que hoje, no Brasil, são poucos os artistas nas quais esperamos discos de inéditas e Criolo enquadra-se nesse seleto grupo de competentes cantores nacionais. Espiral de Ilusões é um disco inteiramente voltado ao samba, reduto de sua infância no subúrbio Grajaú, aqui na zona sul de São Paulo e cujo Criolo já manifestara desejo em fazê-lo. No disco há de tudo um pouco: de racismo a política passando por discussões entre casais até na acalorada e prolífica redenção dos dias de hoje em que estamos vivendo, Criolo soube dar valor e vida aos personagens ocultos em músicas como Menino Mimado, Filha do Maneco ou Cria de Favela. Depois de ter suas capas em discos de cantores consagrados como Clara Nunes, Paulinho da Viola, Elis Regina e Chico Buarque, Elifas Andreato capricha nos detalhes da capa de Espiral, dando vida ao menino que se tornou homem chamado Kleber Cavalcante Gomes. Detalhando cada passo andado em seu habitat natural do passado, o cantor conseguiu exprimir todos os lados de sua formação social e humana para chegar com maestria a um disco sensacional, emocionado e que tem o samba como seta principal para dilacerar e formar um espiral em seu coração.

Espiral de Ilusões (2017) / Criolo
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 4 de março de 2017

A obra-prima de Eduardo Gudin


Obra-prima de Gudin
Se fosse apenas pela interpretação de Eduardo Gudin, Um Jeito de Fazer Samba (2007 / Dabliú Discos / 26,99) já seria um disco e tanto independentemente de sua categoria. Mas as participações de Paulinho da Viola, Vânia Bastos e Quinteto em Branco e Preto fazem tanta diferença, que fica impossível não dizer que esse disco de Gudin não seja perfeito dentro de sua esfera.  Centrado em seu jeito particular de fazer samba, um jeito característico do compositor, esta obra-prima projeta a evidência de seu lado cancionista, como letrista em composições inéditas de sua lavra, bem como em músicas também surgidas no decorrer da vida, mas nunca antes gravadas, em parcerias com Paulinho da Viola, Francis Hime, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit, J. C. Costa Netto, Nelson Cavaquinho e Roberto Riberti. Este belo e rico trabalho celebra a expressão de um artista em sua plena convicção autoral e dominadora, fortemente ligada ao samba e à cultura assimétrica do Brasil, sublinhando a sutil formação do conjunto de informações musicais que assolaram nosso país quando o disco fora lançado. De 2007 até hoje são 10 anos de diferença e lá naquela época a proposta musical como um todo era diferente da de hoje, que requer uma malandragem sambística atemporal que nunca se viu.  O repertório de Um Jeito de fazer Samba tem dois momentos sublimes: a participação de Francis na composição da exuberante Moto Perpétuo e Luiz Tatit em Sensação. Destaque maior para O Amor e Eu, um dos sambas mais lindos que Eduardo Gudin compusera em um momento de distraída atenção poética e que resultou no samba de maior destaque de todos os tempos e que está aqui, bem neste disco atemporal, com um frescor único e sensibilizado à flor da pele.

 

Um jeito de se fazer samba (2007) / Eduardo Gudín
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por que sou crítico? Uma reflexão sobre a minha arte de criticar


A minha arte de criticar música
A minha função como crítico de música é o de criticar, patrocinar a divulgação de um cantor e estar atento às novidades que os mesmos produzem, seja ele ruim ou excelente, canhestro ou bom, atemporal ou desanimador, estimulador ou inquieto, arrogante ou cristalino. Enquanto houver cantoras e sejam elas boas, medianas, ruins ou excelentes, meu papel aqui é o de criticar. Critico porque há a necessidade plural de uma sinceridade justa dentro de um contexto ideológico e que muitos precisam saber. Há a benevolência de uma magnitude singular que persiste estar antenado com o que há de novo e o que há de antigo, mesmo lembrando que o antigo muitas vezes é melhor aguçado que o novo e que o novo é sempre possível de mudanças ou reparações. Pensando por outro lado, temos que pensar no futuro da música, no futuro das cantoras e dos cantores, no futuro de um estilo que fale a nossa língua, a nossa ética, a nossa relevância, o nosso amanhã. Qual será o destino do CD físico? Ele vai sobreviver por muito tempo? Podemos dizer com toda a certeza que o estilo A não comporta com o estilo D, que, por sua vez, está interligado com o estilo de vida da classe B, mas que possui características físicas da classe dominante Z, que, por outro lado, tem formas e estilos formais da classe oriunda que perpetua o universo C? Óbvio que não! Mas podemos ter uma ideia ou percepção daquilo que está por vir, tendo em vista o cenário da música brasileira atual. Chico Buarque, grande compositor de excelentes clássicos nacionais, disse recentemente que o cenário da música atual reflete o Brasil atual. Ele está coberto de razão: os grandes barões da música financiam o grande capitalismo cultural, fazendo com que a massa não venha intervir em seus negócios. Quando será que nascerá de novo um Pixinguinha, um Paulinho da Viola, uma Elis, uma Clara, uma Gal ou até mesmo Caetanos, Miltons e Djavans? A música atual pede socorro e não mais passagem, porque ela adentra em nossa casa sem ao menos pedir licença. Apenas invade. Invade nosso espaço, invade nosso cérebro, invade nossa paz. E muitos críticos de música acabam caindo ou se rendendo ao sistema burocrático da verba ilícita para ajudar a patrocinar esses estilos difundidos pelos quatro cantos do país. Ser crítico é ser persistente na melhoria de algo e, no meu caso, insisto na melhoria da música brasileira por um todo. Precisa-se ter ética, postura. Precisamos descobrir mais cantoras, sem esquecer as do século passado e incluindo as atuais. Precisamos de mais cantores de qualidade exorbitante, pensando na junção destes atuais com os antigos e com os que virão. Ser crítico é saber respeitar o outro, saber distinguir que o que ele lançou hoje pode ser bom, mas que amanhã pode ser melhorado. Ser crítico é estarmos com o coração nas mãos a procura de uma nova voz para que possamos compartilhar. Ser crítico é ter olhar e sentimentos verdadeiros. E ser verdadeiro é ser crítico. Por que escrevo isso para vocês? Porque recebi uns e-mails recentemente de leitores e amigos que falam que escrevo com sinceridade e certeza. E para vocês eu respondo: não preciso agradar a ninguém para ser crítico. Portanto, o cantor precisa ter o termômetro de uma pessoa crítica, progressista e que lhe faça dizer: não estou aqui para passar-lhe a mão na cabeça, mas sim para ajudar na qualidade musical do Brasil. E é por isso que insisto em criticar a música.

 

Por que sou crítico?
Uma reflexão sobre a minha arte de criticar.
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O brilhantismo de Elis 1973


Elis 73: simples e luxo ao mesmo tempo
Entre o grande sucesso de O Bem Amado, primeira novela à cores no Brasil, escrita por Dias Gomes, o lançamento de três álbuns importantes dentro da música popular brasileira acontecia à revelia de um grande espetáculo de público e crítica: Nervos de Aço, do sambista Paulinho da Viola, em que o cantor aparece chorando na capa e Secos & Molhados, cujos os integrantes estão apenas com as cabeças em forma de guilhotina, com Ney Matogrosso como líder maior do grupo. O Brasil estava sob a ditadura austera de Médice e tudo o que era falado e/ou cantado passava por uma rigorosa tortura física e mental. Por outro lado, a Jovem Guarda já não fazia sucesso e o estilo de roupa e os cabelos tanto de homens quanto o de mulheres, faziam enorme sucesso entre as classes sociais mais abrangentes e que recaía sobre o proletariado da vez (os grandes consumidores de toda uma geração). A efervescência musical vinha por conta de grandes acontecimentos no país e mesmo sob forte domínio político, o mundo da música ganhava peso e força à medida em que os meses se passavam. Raul Seixas, Tom Jobim e Milton Nascimento lançaram músicas (e não discos) sensacionais e conseguiram ganhar a credibilidade de líderes do partido e até mesmo de políticos que se renderam às suas músicas. Mas o grande lançamento ficou por conta de uma cantora baixinha, ranzinza, cabelos masculinizados para uma época em que a feminilidade tomava conta: Elis Regina e seu verdadeiro disco de categoria. Elis 1973 (19,99 / Philips / 1973) vai do simples ao luxo com uma assombrosa tempestade lírica de uma das maiores cantoras do país. Partindo de uma naturalidade mórbida, Elis soube ousar em todas as faixas, recriando sua própria voz, se redescobrindo a cada canção, não poupando mágicas em suas cordas vocais e se superando em um país até então dominado por cantores. Simples ao seu jeito e luxuoso por completo, Elis 1973 é um dos melhores (senão o melhor!) disco de carreira da cantora. Com composições de Gilberto Gil, João Bosco e Pedro Caetano, a cantora pôde interpretar com maestria cada faixa, degustando o seu próprio domínio de estúdio e se mostrando versátil para a música num todo, não escondendo a enorme satisfação em fazer aquele trabalho. Elis não saberia naquele momento e talvez nunca soube em vida, mas seu disco era totalmente diferente daquilo que vinha fazendo até então: sem ter uma música sequer de Milton Nascimento, Tom Jobim, Chico Buarque ou Ivan Lins, a cantora optou por reunir um seleto time de compositores para dar corpo e alma ao seu disco daquele emblemático ano. Justamente os cantores e compositores que a ditadura tanto odiava e que eram perseguidos. Resultado: Elis 1973 se tornou referência e Elis conseguiu sair da aba do impulso musical que a dominava até então. Vale lembrar que um ano antes, 1972, Elis também veio com um disco sensacional, mas dominado de clichês e falta de senso comum: o disco, mesmo sendo bom, também conseguiu ganhar notoriedade por ser exemplar e moderninho para a época. Mas é em 1973 que o grande ano de Elis acontecia: sem ser demagoga, lançou um disco em que não era política nem assombrava as pessoas (exceto pela música Agnus Sei (João Bosco / Aldir Blanc), em que criticava a Igreja; pelo contrário, fazia com que o público se aproximasse dela com mais simpatia e menos arrogância e talvez isso explique o enorme sucesso de seu disco e show Falso Brilhante, em 1976, com composição do também João Bosco. Além de ser um dos discos indispensáveis em sua discografia (tanto para Elis quanto para o público), o disco trouxe particularidades que fizeram com que o mundo da música em seus bastidores entrasse em devaneio. A começar pela música Ladeira da Preguiça, que Elis pedira a Gilberto Gil por telefone e, enquanto conversavam, o compositor baiano escrevia a letra sem ser incomodado por uma Elis estridente do outro lado da linha. Recentemente, em seu disco Gilbertos Sambas (2014), Gil disse que era impossível não se lembrar de Elis e de sua história quando canta essa música. Em segundo lugar, teve a pequena rusga entre Elis e Beth Carvalho: a sambista recusou a música Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, pois seu disco já estava completo (fechado para ser reproduzido). Então, Nelson ligou para Elis e a cantou via telefone e a cantora gaúcha se derreteu e aceitou gravá-la. O enorme sucesso da canção fez com que Beth se sentisse traída, pois o grande trabalho de Elis 1973 seria É Com Esse que eu Vou, um samba-canção de Pedro Caetano, que ganhou dimensão rapidamente. Alguns anos depois, Elis dissera em entrevistas sobre esse episódio e Beth Carvalho (que tivera crises existenciais pelo sucesso de Clara Nunes) praticamente não fala no assunto. Seja como for, Elis 1973 é um dos melhores discos de Elis e não pode ficar de fora de qualquer lista que aborde os melhores discos nacionais de todos os tempos. Elis se mostrou como uma das melhores cantoras daquele ano (em 1974 veio com o excelente Tom & Elis, referência até hoje) e sua música, sua voz, seu carisma e sua popularidade eram gritantes mesmo em um período obscuro da nossa própria história.

 

Elis 1973 (1973) / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As verdades de Marisa Monte


As verdades de Marisa
Marisa Monte soube aproveitar boa parte do repertório de Verdade, Uma Ilusão (2014 / EMI / 24,99 ) para atrair o grande público, trazer de volta os fãs dispersos, fazer nova turma de fãs e angariar novas aventuras. Marisa Monte não é mais aquela cantora de início de carreira que tenta ser a nova queridinha do momento: ela tem estrada, chão e personalidade. Mas no decorrer do tempo, a cantora perdeu fãs para outras cantoras em atividade mais recente e isso deve-se muito ao fato da cantora demorar para lançar discos: os fãs se dispersaram e Marisa Monte deixou de produzir discos maravilhosos como as do início de sua carreira brilhante. É evidente que O Que Você Quer Saber de Verdade (2011) e Infinito Particular (2006) foram discos lançados com pompa de grande estrela, mas sem o quilates de público e crítica, diferentemente de Universo ao Meu Redor (2006),  que foi recebido com críticas positivas e com muita aceitação no mercado fonográfico. Aqui Marisa Monte se reinventa da melhor maneira possível: o jeito de ser Marisa Monte. Assim como fizera com Barulhinho Bom (1996), a cantora trouxe para este novo lançamento canções que já cantou em outros álbuns, sem grandes pretensões e sem grandes alardes. Com interpretação magistral, a cantora não dispensa seu timbre com o fraco repertório do disco anterior e realça obras-primas solúveis de outros tempos.  Mas o que Marisa fez foi extraordinário: pincelou aqui e ali músicas de seu repertório em discos que cairam no esquecimento do grande público e as cantou de modo absoluto, nunca antes regravados por ela ou por outro cantor, exceto E.C.T, imortalizado na voz de Cássia Eller. Da cantora californiana radicada no México Julieta Venegas vem Ilusão, uma doce canção de amor que teve versão da própria Marisa com o ex-titã Arnaldo Antunes. Entre uma canção e outra de O Que Você quer Saber de Verdade, surgem as pérolas como Diariamente, do CD Mais (1991), De Mais Ninguém, do CD Cor de Rosa e Carvão (1994), eleito até hoje um dos melhores da cantora, Arrepio, do CD duplo Barulhinho Bom (1996) e as populares Gentileza e Não Vá Embora, do CD Memórias,  Crônicas e Declarações de Amor (2000). Ainda tem uma regravação em italiano de Sono Come tu mi vuoi e depois disso nada mais é legal de ouvir. O disco é morno e não chega a ser considerado um novo Barulhinho Bom, que tem formato mais animado e menos popular.  Mesmo sendo um disco completamente tíbio, a cantora já lidera com mais um feito: Verdade, Uma Ilusão já é disco de Ouro, coisa normal na carreira magistral de Marisa Monte. Talvez o único defeito seja escolher um repertório tão fraco e menos visceral para tentar prender a platéia. Poderia ousar mais, colocando músicas mais animadas, dançantes ou então fazendo roupagens novas porque até a respiração de Diariamente é igual a gravada originalmente em 1991, com as mesmas entradas e saliências. Assim como De Mais Ninguém, que mais se parece com uma canção de Paulinho da Viola, mas é uma grande música da cantora com Arnaldo Antunes que fala das dores do amor abandonado, tem a mesma melodia da anterior. Se Marisa Monte ousasse ainda mais no capricho de suas canções, na certa este seria o disco do ano. Mas por enquanto, a verdade aqui é apenas uma ilusão.

 


Verdade, uma Ilusão / Marisa Monte
Nota 8
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O barulhinho bom de Marisa Monte


 

Marisa: barulhinho muito bom
O ano de 1996 foi de Marisa Monte. Barulhinho Bom (1996 / 29,99) causou tanto barulho, que foi obrigado a ser lacrado para não mostrar as fotos sensuais que o encarte trazia. Em países como os Estados Unidos, o disco teve que ser embalado em plástico preto, enquanto que aqui no Brasil, algumas lojas embalaram com plásticos rosas. Barulhinho Bom é um disco gravado ao vivo, duplo e com o melhor de Marisa Monte, mesclando músicas inéditas com o universo já particular da cantora, cantado em discos anteriores. Este é, sem sombra de dúvidas, um grande trabalho de Marisa e a complementação de Cor de rosa e carvão, seu disco anterior, foi gravado no Teatro  Guararapes, Recife e Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.  É muito gratificante ouvir músicas inéditas como Panis et Circenses, De Noite na Cama, A Menina Dança e Give me Love na sua voz, que casam muito bem com sua voz e sua doutrina como cantora. Já nas canções de seus repertórios antigos, o álbum conta com Segue o Seco, Bem Leve e Xote das Meninas. Destaque para Arrepio, Maraçá e Magamalabares, que são sensacionais. Um disco indispensável na prateleira de qualquer pessoa que preza e respeita a música brasileira. Disco sublime, maravilhoso, simples, brasileiro e tem um barulhinho bom que somente Marisa Monte consegue nos transpassar. A intimidade de Marisa para com as músicas fez com que o público e a crítica especializada logo reconhecesse o extraordinário talento da cantora mais uma vez. Cantando melhor que o disco anterior, Marisa surpreendeu com este disco ao vivo cheio de magia e emoção.  Mais autêntica do que nunca, Marisa se sente leve e solta neste disco com ar de quero mais, em um clima contemporâneo e delicado. Bom de ouvir do começo ao fim, Barulhinho Bom reflete o que há de melhor no cancioneiro desta grande cantora ultra-moderna.  De Caetano Veloso, passando por Ed Motta e Paulinho da Viola e encontrando mais abaixo com os Novos Baianos, Barulhinho Bom é um disco que remete à qualidade artistica de uma das grandes intérpretes que o Brasil tem. Marisa Monte comprova todo o seu brilho matinal em um disco altamente qualificado, sem deixar cair na mesmicie que muitas cantoras de sua época cairam. Marisa Monte transforma um barulhinho bom em um barulhinho encantador.

 

Barulhinho Bom / Marisa Monte
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Zizi Possi quebra o jejum em Tudo se Transformou



Zizi: velhas roupagens
Nove anos separam a cantora Zizi Possi do público. Nove anos separam Bossa, lançado em 2001 de Tudo se Transformou, lançado agora em 2014. Se Bossa tinha uma pegada mais pra MPB elitísta, Tudo se Transformou nos remete à Bossa. Zizi Possi pegou a todos de surpresa ao lançar um disco este ano, pois ninguém imaginava que isso fosse acontecer tão cedo, mesmo a cantora tendo feito shows com o mesmo repertório, aqui em São Paulo. Mas aconteceu e o que Zizi nos apresenta aqui é um álbum bonito, bem feito e com a boa música popular sendo bem representada, característica de sua carreira. Zizi deixou Bossa suspensa no ar, com muitas perguntas e sombras de sua carreira, mas Tudo se Transformou (2014 / Eldorado / 20,90) é um disco de capacidade única que consegue juntar uma excelente voz com um piano majestoso. Na verdade e musicalmente falando, o novo disco de Zizi é pura MPB, ressoando nas músicas a leveza e autenticidade de sua belissima voz. Zizi é uma das maiores cantoras deste Brasil e esteve no páreo de ser a nova sucessora de Elis Regina juntamente com Gal Costa, em 1982. Mas Zizi mostrou que seu talento é superior e trilhou seu caminho com discos de sucesso e músicas que adentraram na mente do público até hoje. Se Bossa foi friamente recebido pela crítica e público, aposto que certamente este novo lançamento não passará pelo mesmo crivo. Como disse, Zizi está cantando divinamente, o CD está com uma capa estonteante  e a cantora continua sendo a melhor dentre as melhores e os treze anos que separaram a cantora de seu público a fizeram selecionar as músicas e fazer um disco a sua altura. Mas erros fatais aconteceram para que Tudo se Transformou não entrasse de cabeça erguida para o mercado fonográfico como as boas vindas à Zizi. Primeiramente, a música de abertura, Filho de Santa Maria, foi composta sobre a poesia de Paulo Leminski musicada por Itamar Assumpção. E cadê o nome de Itamar nos créditos? Mas não precisava da voz de Webster Santos nos vocais desta música, porque ele não canta nada e mais parece um cantor esperando as notas dos jurados. Voz grave, forte e estranha que contrasta com a voz doce, pura e sentimental de Zizi. Outro erro fatal foi a regravação de Disparada, já cantada habilmente pela própria no disco Puro Prazer (1999), já que sua voz casou-se muito bem com o piano de Jether Garotti. Aqui a canção fica batida e mesmo tendo novos arranjos, ficou chato ter que ouvi-la em sua voz novamente. Tudo se transformou, do mestre Paulinho da Viola e que deu título ao novo trabalho da cantora, é um samba lamentação das dores ocorridas pelo amor e valeu a pena, porque Zizi dá um show de interpretação. O disco é todo caprichado desde a abertura até a décima e última faixa do show ao vivo, tendo neste meio tempo canções de Guilherme Arantes (Meu mundo e nada mais) e da estreante compositora Necka Ayala, No Vento. Luiza Possi, a filha ilustre, surge como compositora ao lado de Dudu Falcão na música arrastada Cacos de Amor, gravada no CD de Luiza, intitulado Seguir Cantando (2011) e Gonzaguinha ressurge das cinzas em Explode Coração. De Dominguinhos e Anastácia vem Contrato de Separação e Porta Estandarte (Fernando Lona e Geraldo Vandré) fecha o disco ao vivo com chave de ouro pela alegria contagiante que a música proporciona, alternando com Filho de Santa Maria. O bônus fica por conta dos tribalhistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown na música Sem Você, que fala dos sentimentos amorosos e da solidão. Aqui Zizi mostra todo o seu encanto ao dar vida a uma música de dois homens totalmente amorosos e a canção acaba sendo a melhor do disco. Tudo se Transformou é um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora. Merecidamente.

 

Tudo se Transformou (2014) / Zizi Possi
Nota 8
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morreu Jair Rodrigues!

Morreu um mestre da música
Pessoas especiais não morrem. Pessoas especiais são eternas. Jair Rodrigues morreu. Mas não morreu o artista, não morreu o cantor, não morreu o moleque que dançava, corria, pulava, instigava, cantava. Jair Rodrigues deixou um legado e tanto para a música popular brasileira: deixou sua marca ao lado da cantora Elis Regina, definitivamente nos festivais, marcou o início do rap no país, deixou sua pegada no samba brasileiro e, de quebra, entrou de cabeça erguida no sertanejo. Jair Rodrigues passeou por todos os ritmos brasileiros e em todos ele foi muito bem sucedido. Aos 75 anos, o cantor estava em alta, fazendo shows, feliz. No Brasil apenas dois cantores tem a capacidade de cantar com amor, emoção, carinho e devoção: Ivete Sangalo e Jair Rodrigues. Grande ícone da música, Jair partiu e deixará uma lacuna insubstituível. Ainda não dá para acreditar em sua morte, tão rápida e tão batida. Em momentos tão amargos neste mundo, tão delicados e tão comuns, o incomum aconteceu em um momento que não era para ser: sua morte não é uma morte nem uma passagem. Ele descansou. Descansou o nosso eterno moleque, nosso eterno garoto fanfarrão, nosso eterno Jair. Na música, ele misturava tudo e tudo dava certo. Sua voz ainda estava saudavel. Sua emoção ainda era passada para todos. Jair Rodrigues era o clima que o tornava brasileiro, moderno, atual, significativo.  Cantores como Jair, assim como Elis, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto Carlos serão eternos e serão eternos porque na época deles fazer música era complicado. Se houve um Chico Buarque, uma Nara Leão, um Paulinho da Viola é porque houve público para eles. Assim como houve até hoje público e espaço para o Jair. Nunca mais teremos a chance de ver um astro da música popular brasileira surgir como surgiu um Jair Rodrigues, que mesmo tantos anos depois, continuava na ativa, fazendo shows com plateia lotada e cativando crianças e adolescentes e fazendo dos novos artistas uma colisão de aprendizagem e arte. Confesso que não sei o que escrever, pois as lágrimas me tomam neste exato momento. Mas não vamos fazer da morte de Jair uma tristeza sem fim. Não aceito sua morte. Mas o suspiro me faz acreditar que não o teremos mais por perto fisicamente. Suas músicas serão eternas. E Jair Rodrigues é eterno. Até logo, Jair.

 

Adeus, Jair Rodrigues
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os sinais de Ney Matogrosso


 
Ney em boa fase
Ney Matogrosso consegue agradar à gregos e troianos, literalmente. É um cantor que não parou no tempo, não canta músicas para ficar na memória de um subconsciente qualquer, não canta músicas intelectualizadas, como faz hoje Chico Buarque ou João Bosco e entra na onda de Caetano Veloso, Djavan e Gilberto Gil, que fazem um som mais moderninho para a idade que tem. Ney Matogrosso virou pop, cult, cool. E essa onda de modismos a qual adentrou fez muito bem a sua carreira marcada por músicas fantásticas e egocêntricas e ao mesmo tempo se transformam num cartão postal para a modernidade e, quem sabe, para a posteridade. Ney Matogrosso lançou no final do ano passado o sensacional Atento aos Sinais (2013 / 28,99 / Som Livre) título que saiu da canção Oração, de Dani Black, um dos compositores mais procurados da atualidade e que traz uma nova roupagem ao mundo de Ney, como as parafernalhas e vestimentas que todos esperavam. Desde Inclassificáveis (2008), Ney não vinha se vestindo a carater e deixou a sua voz falar mais alto do que seus passos e danças. Com Atento aos Sinais volta ao ar o velho Ney Matogrosso, o pop, o cult, o cool. Ney Matogrosso é um dos artistas mais marcantes dentro da MPB e uma das figuras mais aclamadas pela crítica especializada. Assim, talvez, pode ser definido o cantor, dono de uma carreira marcada pela irreverência e pela ousadia em suas performances e que lançou no ano passado um disco que marca seus 40 anos de carreira. O CD tem interpretação singular de Ney para compositores novos e consagrados, como Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Criolo, Vitor Ramil entre outros. Mesclando canções em uma criteriosa seleção, o repertório inclui músicas como Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola, duas de Itamar e Oração, de Dani Black, música que inspirou o título do álbum. Atento aos Sinais é um disco intimista. Com músicas de alto astral e com pitadas de politicagem, o disco vem recheado de nuances, músicas conturbadas e com um acento mais politcamente correto. Ney volta a adotar o estilo descobridor de talentos, mas veio flertar com compositores de outras estirpes musicais, como Criolo, de quem gravou Freguês da Meia-Noite, passando por Rafael Rocha em Não Consigo e tendo o seu maior talento como prova maior de que os novos são talentosos, como o caso de Dani Black. Mas em quase todo disco de Ney já podemos esperar um pouco de Itamar Assumpção, Vitor Ramil, Alzíra Espíndola e Pedro Luís e aqui não foi diferente. Embora tenha sido um erro fatal regravar Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim (ambas de Itamar) e ter escolhido uma música menos calorosa de Pedro Luís, o disco ainda assim é um dos melhores que fecharam o ano de 2013. Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim foram gravadas anteriormente por Zélia Duncan em seu disco do ano passado, em que homenageia o grande Itamar Assumpção, morto em 2003 em decorrência de um câncer, na qual o próprio Ney faz uma bela participação na segunda música citada. Em seu próprio disco, Ney (re)transforma a música, dando o ar de sua graça, mas o que acontece é um festival de canção repetida. Porém, seria melhor ter regravado Fico Louco, que só fora regrada por Virginia Rosa em seu disco de estreia e trata-se de uma música atual. Já Incêndio relembra um tempo perdido de Pedro Luís no grupo A Parede e regravar está música talvez não tenha sido um achado e tanto para o cancioneiro de Ney, já que as músicas de Pedro são sempre sensacionais (vale lembrar Miséria no Japão ou Fraterno, ambas gravadas por Ney em discos anteriores e que foram as sensações do momento). Abrindo com Rua da Passagem, um protesto de Arnaldo Antunes e Lenine, a música se tornou um sucesso nas redes sociais e veio a calhar sobre a falta de educação das pessoas nas ruas e em ambientes sociais, o que veio a calhar bem na fase de protesto do disco. Ousadia é pouco perto da sensual Beijos de Ímã, da família musical Espíndola, que nos remete às músicas de gueixa com um sotaque que só o Ney consegue fazer. Há também a profusão de palavras em Tupi Fusão, que nos remete a música Inclassificáveis e a engraçada Samba do BlackBerry. Ney conseguiu fechar o ano passado com o pé direito, digno de poucos artistas com a sua magnitude. E ainda tem tempo para ser humano, homem e sensato em não se sentir estrela.
 

Atento aos Sinais (2013) / Ney Matogrosso
Nota 8
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O pagode de Leo Russo


Voz de preto, jeito moleque
A semelhança entre Leo Russo e Diogo Nogueira é enorme. Os dois tem olhos azuis, pele clara, são sambistas e, de quebra, quase a mesma voz. Mas isso não interfere em ambos os talentosos artistas, até mesmo porque ambos são excelentes cantores. Leo Russo está lançando um CD na praça em que convidou bambas cariocas para um divertimento e dessa festa nasceu parcerias musicais incríveis, como a participação de Dudu Nobre, o próprio Diogo Nogueira e a Velha Guarda da Portela, fazendo uníssono em algumas das belas canções. A única coisa chata na carreira de Leo é a sua semelhança com o filho ilustre de João Nogueira, porque o resto ele comanda a festa na melhor maneira possível. Leo Russo lança Leo Russo (2013 / Independente / 24,99) com pompa dos grandes sambistas do Rio e faz deste momento um único caminho para trilhar o sucesso. Tirando as aparências de lado, Leo canta e encanta nas catorze faixas que compõe o disco e nos presenteia com um pagode pé de serra feito pelos grandes bambas de outros carnavais, como Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Roberto Ribeiro. De uma coisa é fato: Leo Russo é um expoente desta geração a qual não viveu musicalmente, mas que cresceu ouvindo o melhor do pagode e do samba de sua cidade. O Rio de Janeiro produziu os melhores e maiores letristas, sambistas e puxadores de samba  de todos os tempos e Leo Russo veio para brilhar e dar continuidade a este segmento.

Voz de preto e jeito moleque, Leo Russo é um loiro que caiu no samba sendo influenciado por Zeca Pagodinho. Com um pandeiro nas mãos, o cantor reconhece que é preciso batalhar bastante para se ter um lugar ao sol. Dono de uma voz malemolente e contagiante, Leo faz de seu samba um tom maior para se firmar na música como sendo ele próprio mais um integrante das rodas cariocas. Suas letras são convidativas e sua alegria é presente nas faixas que encantam o ouvinte. Primeiro disco do cantor e compositor, Leo é um sambista romântico que consegue transformar as dores de amor por um bom partido alto.

Como vertente musical, Leo nasceria exatamente desta manifestação popular completamente ao seu estilo e registrando os acontecimentos musicais ao seu redor e sua música veio batizar esponteneamente o novo estilo de se fazer música, inovando o pagode derivado do samba carioca. A malandragem dos morros cariocas fez de Leo Russo ser um dos mais autênticos sambistas da atualidade e seu disco comprova esta autenticidade. Seu pagode, como manifestação cultural brasileira, aparece justamente no momento em que o estilo pede uma inovação no estilo.

Sua voz agrada, seu estilo agrada. Leo Russo é um cantor brasileiro, que canta samba ou pagode da melhor qualidade possível e isto reflete como sendo o melhor momento tanto para ele quanto para a nossa música popular brasileira.

Salve, salve, Leo Russo.

 
O pagode de Leo Russo / Leo Russo
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O melhor disco de Marisa Monte


As cores de Marisa Monte
Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão (1994 / EMI / 29,99) tido como um dos melhores discos de todos os tempos e na carreira de Marisa e para mim o mais bem acabado, este disco marca algumas mudanças de Marisa Monte, tais como a primeira produção dela própria, na verdade uma co-produção com Arto Lindsay (que já produzira o anterior, Mais), além de reafirmar seu trabalho autoral e ao mesmo tempo ampliar o universo de seus colaboradores. Nos bons tempos do mercado musical físico (o virtual continua a toda!), o disco vendeu mais de um milhão de cópias. Dos medalhões da MPB, este é um disco pra ficar na história. Estranhamenteeu eu não conseguia escrever sobre este disco e, decido a resenhá-lo, ouvi com a mais pura atenção e decidamente, este é o melhor disco de Marisa, apesar da projeção internacional da artista. O disco inicia com Maria de verdade (Carlinhos Brown, parceiro cada vez mais presente na sua vida e obra), sutil, com voz e violão a princípio, depois permitindo a entrada da banda inteira, tornando a música até dançante, com um baixo de dar gosto. Belo início.

Na estrada (MM/Brown/Nando Reis, este também participando mais intensamente, se tornando namorado na época), mais uma quase acústica e cheia de vozes extras da própria cantora. Ao meu redor (Nando Reis) traz como diferencial um trompete sinuoso e a mesma atitude acústica. Saltitante, inpirador, acústico e ótimo. Segue o seco (Brown) deu origem a um vídeo lindíssimo, sem esquecer que é uma bela e forte canção. Berimbaus e vozes de Brown ao fundo, antecipando o que seriam os Tribalistas.

Uma música de Lou Reed, Pale blue eyes, traz um aceno à cena americana. Boa e surpreendente escolha. Em seguida, a belíssima versão de Dança da solidão (Paulinho da Viola), com o auxílio luxuoso de Gilberto Gil no violão e vocais de apoio, sensacional, um dos pontos altos do disco! De mais ninguém dialoga com o grupo Época de Ouro, do choro clássico carioca, mesmo a música sendo de Arnaldo Antunes e Marisa. Quase anacrônica, mas cabe no projeto abrangente do disco. Alta noite já havia sido gravada pelo autor, Arnaldo Antunes, mas aqui ganha uma versão linda, acredito que com o saudoso violonista Raphael Rabelo. Belíssimas cordas ao fundo.

O céu (Marisa Monte/Nando Reis) é mais alegre e quase balançada, você fica querendo dançar, seu corpo começa a querer sacudir, bem legal. Bem leve (MM e Arnaldo Antunes) é fiel ao seu nome, meio valsa, violãozinho discretíssimo e um pandeiro dando o ritmo, um jogo de palavras. Balança pema (Jorge Ben) traz o balanço de volta, com violão, guitarra com wah-wah e bateria, com várias vozes da Marisa. Enquanto isso (MM/ Nando Reis) traz mais vozes e uma narrativa bem legal (incluindo trechos em inglês by Laurie Anderson), além de belos violões.

Pra terminar com extrema classe, Marisa traz as pastoras da Velha Guarda da Portela pra fazer uns vocais lindos nessa canção que poderia ser um samba-enredo, se o carnaval de desfile suportasse sutilezas e cadenciamentos mais lentos. Esta melodia foi um balão de ensaio do disco no qual a Marisa produziria esta mesma Velha Guarda, Tudo azul, que aparecerá por aqui inevitavelmente (é um dos meus discos de samba preferidos, inclusive pelo recurso sempre oferecido nos discos de MM: as músicas vem com letra e cifras com acordes!).

Ouçam!

 

Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão / Marisa Monte

Nota 10

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O mediano (e cansativo) disco de estreia de Maria Gadú


O CD: cansativo às vezes
A estreia da paulista radicada no Rio de Janeiro Maria Gadú não poderia ser mais luxuosa. Era preciso conhecermos uma grande cantora, que estivesse antenada com o seu tempo, mas também relembrando sucessos antigos. Maria Gadú foi uma promessa que deu certo no primeiro disco, pois sua cultura musical era imensa e repleta de suspense, pois até então, ninguém sabia seus gostos prediletos. Com o tempo, descobriu-se que Caetano Veloso era seu cantor preferido, Ana Carolina se tornou a melhor amiga e Maria Gadú continuou trilhando seu universo musical brilhantemente. Seu primeiro CD, autointitulado e lançado pela Som Livre em 2009, tem apresentação belíssima, com direito a capa dura, encarte colorido com letras, informações e inúmeras fotos.

A embalagem é diferenciada, em formato digipack que sai do padrão, digno das grandes estrelas. Além disso, amúsica, Shimbalaiê, estava em trilha de novela global e, curiosamente, praticamente todas as faixas tocavam nas rádios de todo o Brasil, inclusive o grande sucesso francês Ne Me Quitte Pas, imortalizada na voz de Edith Piaf, já cantada por Cássia Eller e Maysa.

Gadú, cujo nome de batismo é Mayra, tem um bonito timbre vocal, sem sombra de dúvidas. Existe uma semelhança com o som de Marisa Monte, sim, e isso se ressalta devido à sonoridade que a moça segue, que tem muito a ver com o estilo MPB pop da autora da estrela carioca. O clima fica ainda mais próximo devido ao uso de músicos de estúdio de ótimo gabarito, mas que acabaram por ajudar o disco a soar meio pasteurizado, semelhante demais ao que se tem feito no que se rotulou de nova MPB, e que frequentemente cai em um clima redundante e soporífero demais.

Oito das treze faixas incluídas em Maria Gadú, o CD, são de autoria da própria, e ela se mostra ainda em busca de uma assinatura própria, com repetição de frases melódicas e letras que investem mais em forma do que em conteúdo. Nas releituras, mostra-se mais à vontade, mas pouco acrescenta a clássicos como Ne Me Quitte Pas (de Jacques Brel) e A História de Lilly Braun (de Chico Buarque e Edu Lobo) em relação a gravações de outros artistas. O pior momento é a faixa que encerra o disco. Gadú tenta dar a Baba, aquela mesma de Kelly Key, um clima acústico descolado, e só consegue evidenciar o quanto essa música é fraca.

Muita gente deve ter ouvido Shimbalaiê (e depois se cansar com ela) e achado se tratar de uma nova de Marisa Monte, devido a sonoridade. Teve pessoas que juravam que a letra era de Marisa, assim como achavam que Altar Particular, um samba cadenciado, era uma parceria de Paulinho da Viola com Tereza Cristina. Creio que Maria Gadú tem futuro, apesar de tudo, apenas dos pormenores. Maria Gadú canta mais ou menos, mas o disco de estreia é legalzinho, não chega a ser ótimo, mas pode ser que ela sofra da mesma síndrome de outra cantora talentosa, Ana Cañas: faz bons shows, mas não consegue trazer esse clima para seus discos de estúdio. Vejamos o que o futuro irá proporcionar a elas. Tomara que algo melhore.

Escudos é a melhor faixa, assim como a delicada Linda Rosa. Tudo Diferente se torna cansativa e arrastada demais, chega a ser tão irritante, que prefiro nem ouvi-la, mas isso deve-se ao tempo que a canção leva com repetidas frases e a mesmice de sua mensagem. Laranja, cantada em parceria com Leandro Léo, é uma canção engraçada e Lounge parece ser feita por Ana Carolina, tamanha a semelhança. Seja como for, Maria Gadú canta bem, com sua voz meio rouca, meio masculinizada e isso por vezes soa satisfatório.

Maria Gadú tenta, através do CD de estreia, demonstrar tudo: boa música, boa voz, boas letras, arranjos sensacionais, mas esqueceu-se de que a música carece de muito mais do que tudo isso: o público fiel. Angariou diversas pessoas ao seu leque, cantou de Chico Buarque a Caetano em seus shows, mas a sua maior plateia é o público GLS, que lotam seus espetáculos. Maria Gadú é um disco gostoso de ouvir, mas apenas algumas vezes. Logo o mais, você o guarda na estante e só o descobre quando passa por ali despercebido. Pensa se ouve, pensa mais um pouco, e escuta uma faixa, pula a outra. Maria Gadú é assim: ainda encontrando sua identidade. Mas para um disco de estreia, patrocinada por uma grande empresa televisiva, tendo amigos diretores de telenovela como ajudantes centrais, fica muito mais fácil fazer um disco com pitadas de qualquer coisa. Só acho que Maria Gadú poderia ser melhor. Como? Cantando as suas verdades. Apenas as verdades.

 

Maria Gadú - Maria Gadú

Nota 7

Marcelo Teixeira

terça-feira, 26 de março de 2013

Na cadência de Gerlane Lops


Gerlane Lops, ótima voz
Quinze anos de estrada e sendo comemorados com maestria ao lado de um publico fiel e escudeiro e com a pincelada magistral de Elba Ramalho, não é para muitos cantores que estão tentando um lugarzinho ao sol. Mas Gerlane Lops conseguiu tamanha façanha, ao lançar um DVD e um CD com clássicos da música popular brasileira, embalando sucessos de velhos cantores bons da antiga e com suingue, sabedoria e um bom rebolado. Além de proporcionar canções de sua autoria, a cantora Gerlane Lops comemora seus 15 anos de carreira com DVD e presta homenagem aos grandes mestres do samba clássico, como Paulinho da Viola, Chico Buarque, dona Ivone Lara e Clara Nunes, além de reunir músicas de compositores pernambucanos. A cantora e percussionista Gerlane Lops, com passagem musical no Conservatório Pernambucano de Música e Licenciatura pela Universidade Federal de Pernambuco, conta em seu currículo com expressivas experiências. No Festival Canta Nordeste de 1996, da Rede Globo, obteve 1º lugar na eliminatória pernambucana e 3º na classificação geral com a música Tempo de Varanda, revelando-se como grande intérprete. Ganhou também o Prêmio de Melhor Arranjo para a música Minha Cara, em 1998 e 2000 e Prêmio de Melhor Intérprete com a música Alma de Poeta, ambos no Festival UNICANTO de Música.

Pernambucana, Gerlane Lops está lançando seu primeiro DVD, Da Branca, com o qual celebra 15 anos de uma carreira consolidada no Nordeste e iniciada em 1996, quando defendeu Tempo de Varanda (gravada por ela) no festival Canta Nordeste, da TV Globo. Gravado no Teatro Guararapes, Recife, Da Branca traz participações especiais de Elba Ramalho em uma faixa bônus, do sanfoneiro Cezzinha e de Gustavo Travassos. Através das 19 faixas, Gerlane não somente apresenta canções autorais como, sobretudo, confirma sua devoção ao samba ao recriar clássicos de ícones como Cartola e Chico Buarque.

Alguns compositores pernambucanos não poderiam ficar de fora desta celebração, caso de Lula Queiroga e Erasto Vasconcelos, autores de Piaba de Ouro,; Isaías do Cavaco (Ingrastidão) e, é claro, o mestre do frevo Capiba, de quem Gerlane escolheu A Mesma Rosa Amarela, primeiro samba composto por ele. O espetáculo tem direção cênica de André Brasileiro, cenografista de Marcondes Lima, direção musical de Bráulio Araújo e direção geral da própria Gerlane Lops.

O espetáculo já passou pelo Rio de Janeiro, onde foi apresentado em duas casas de shows (uma delas a recém-inaugurada Miranda Brasil), e por importantes teatros do Recife, como os de Santa Isabel, Luis Mendonça (Parque Dona Lindu) e Guararapes, onde foi gravado e exibido para todo o Nordeste como especial de fim de ano da Globo, em 31 de dezembro de 2010. Em janeiro foi visto por mais de 100 países através da Globo Internacional.

Nascida em Olinda, Pernambuco, a cantora, compositora e percussionista foi revelada, em 1996, no Festival Canta Nordeste, apresentado e promovido pela TV Globo. Ao longo de sua trajetória, consolidou seu nome no carnaval pernambucano. Participou do Galo da Madrugada, onde, em 2012, comandou, por exemplo, o trio da Ambev, ao dividir o palco de shows na cidade com nomes como Martinho da Vila. Participou do DVD com o Quinteto Violado homenageando Luiz Gonzaga e de CDs como Ecos do São Francisco, que reuniu grandes nomes da nossa música.

Gerlane Lops é uma raridade no meio musical, porque seu timbre é maravilhosamente encantador. Seu estilo musical, mesclando sons e atabaques, fazem dela uma cantora diferenciada dentro do próprio Nordeste e deixam a aura de Gerlane ainda mais poderosa. A cadência de Gerlane Lops agrada, emociona e pulveriza o ambiente por onde ela passa.

 

Na Cadência de Gerlane Lops
Nota 10

Marcelo Teixeira