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domingo, 28 de maio de 2017

O samba de Criolo


Criolo e seus espirais de vida
Sempre digo que Criolo é o expoente do Brasil perdido, o elo entre aquilo que a comunidade mais necessitada quer dizer daquilo que a elite não quer ouvir. Criolo é o tipo raro de cantor de rap que deu certo em todas as esferas e camadas musicais justamente por fazer de sua música uma forte batida contra os preconceitos e desfavorecimentos daqueles que nada têm.  Lançando o excelente Espiral de Ilusões (2017 / Oloko Records / 29,90), o cantor dita as modas em seu um álbum de inéditas que flerta com o samba em uma batida sincopada de alegorias sincronizadas e batidinhas de palmas eletrizantes. Nesse novo trabalho, o artista deu voz a dez faixas e segue o caminho inverso com relação ao seu último e bem recebido disco, o maravilhoso e pomposo Convoque Seu Buda (2014). Vale lembrar que hoje, no Brasil, são poucos os artistas nas quais esperamos discos de inéditas e Criolo enquadra-se nesse seleto grupo de competentes cantores nacionais. Espiral de Ilusões é um disco inteiramente voltado ao samba, reduto de sua infância no subúrbio Grajaú, aqui na zona sul de São Paulo e cujo Criolo já manifestara desejo em fazê-lo. No disco há de tudo um pouco: de racismo a política passando por discussões entre casais até na acalorada e prolífica redenção dos dias de hoje em que estamos vivendo, Criolo soube dar valor e vida aos personagens ocultos em músicas como Menino Mimado, Filha do Maneco ou Cria de Favela. Depois de ter suas capas em discos de cantores consagrados como Clara Nunes, Paulinho da Viola, Elis Regina e Chico Buarque, Elifas Andreato capricha nos detalhes da capa de Espiral, dando vida ao menino que se tornou homem chamado Kleber Cavalcante Gomes. Detalhando cada passo andado em seu habitat natural do passado, o cantor conseguiu exprimir todos os lados de sua formação social e humana para chegar com maestria a um disco sensacional, emocionado e que tem o samba como seta principal para dilacerar e formar um espiral em seu coração.

Espiral de Ilusões (2017) / Criolo
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os dez melhores lançamentos de 2014


Os melhores CDs de 2014
De Alberto Salgado à Mônica Salmaso, passando por Ceumar e Criolo, o ano de 2014 foi um dos anos mais promissores para o mercado fonográfico: muitos lançamentos e muitas surpresas. Obviamente que nem tudo é flores e teve muitos CDs desprezíveis, mas na sua maioria, o ano foi de muitas novidades e, sobretudo, de muita qualidade musical. Sem ter uma posição para cada lançamento, o Mais Cultura Brasileira e, de quebra, o crítico que vos escreve, passou o decorrer do ano ouvindo muita música, muitas vozes, muitos CDs, garimpando aqui e ali nas lojas do ramo e muita coisa passou longe do meu crivo, pois não mereciam nem espaço numa linha em branco. Não foi muito difícil selecionar os dez melhores discos deste ano, mas houve algumas dúvidas, normais até então, para poder classificá-las de mediano. Mas depois de tudo acertado, eis que chego a conclusão dos melhores discos mais bem produzidos em 2014, de janeiro a dezembro e o leitor pode conferir agora. Lançando o ótimo Além do Quintal, Alberto Salgado é a revelação masculina de 2014 no Mais Cultura Brasileira!, assim como Tito Marcelo, cantor recifense residente em Brasília, uma das gratas e boas surpresas  no cenário musical. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor. Majestoso do começo ao fim, Silencia é um dos melhores discos da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Juçara Marçal nos brinda com um disco sensacional. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Maria Rita canta divinamente todas as faixas de Coração a Batucar sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Dani Calazans é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. Tito Marcelo é um desses cantores que nasceram para encantar: sensível, carismático, letrista, poeta, brasileiro. Nascido em Recife, Tito mora em Brasília e é da capital federal que surge mais um cantor de primeira grandeza na música popular brasileira. Pra Ficar no Sol é um disco interessante, irresistível, caprichado, moderno e com uma capa incrível. Aqui está todo o universo magnífico de Tito Marcelo, que se baseou nas estruturas do amor e na brejeirice das levadas infantis para compor boa parte do álbum. Corpo de Baile é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica Salmaso. Nesse disco houve um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Grata surpresa foi quando Mallu Magalhães se juntou a Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda pro Mar , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar o som de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu Zizi Possi mostra todo o seu encanto ao dar vida a Tudo se Transformou, que se transformou, sem querer, em um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e o lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora, merecidamente. E assim se completa a lista de 2014: com qualidade e muita música, boa, os melhores lançamentos são sempre os melhores. E que venha 2015!

 

 

Os melhores lançamentos de 2014
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Buda, o amuleto de Criolo


Buda: o aguardado CD de inéditas
O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda (2014 / Oloko / 25,99) é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. E é fácil de explicar essa junção de adejtivos cortantes: Criolo nasceu no gueto da zona sul de São Paulo, mais precisamente no Grajaú, bairro periférico de altissíma onda de violência que gera os melhores e mais dissabores toques de sabedoria. E Criolo, ignorante e inteligente, agressivo e humano, racional e compassivo, soube aproveitar toda a sua verve periférica para expor em versos e rimas sua vida de uma forma sensata e magnífica. Seu som é o melhor do rap nacional e alcança todas as expectativas possíveis: somente um cantor de seu porte consegue juntar a sua voz com a de cantoras como Juçara Marçal e Tulipa Ruiz, contrariando a todos e a tudo. Criolo não teve pressa ao lançar Convoque Seu Buda, porque ele sabia que a pressão após o lançamento mais expressivo de sua carreira, Nó na Orelha (2011) seria inevitável. E foi. Todos esperavam pelo tão aguardado álbum de inéditas do cantor e quando isso aconteceu foi uma chuvarada de correria tanto para a internet e seus malditos baixamentos gratuitos, quanto para as lojas do ramo. Convoque Seu Buda virou referência e Criolo volta ao topo da lista dos cantores mais dignos da nova música. A começar pela capa e pelo excelente título, Criolo se lança num mundaréu de vendaval que corre a seu favor, demonstrando que ele não tem medo de críticas e nem de aperto psicológico.Tudo aqui tem a cara de Criolo e nada se moveu, exceto que o som de Convoque Seu Buda seja diferente de Nó na Orelha do ponto de vista de que as músicas são mais bem produzidas e mais planejadas. Há várias influências musicais no som de Criolo em seu novo e autêntico disco: desde pegadas altamente fortes em Plano de Voo, passando pelo tropicalismo em Pegue Pra Ela até chegar nas orquestras de rimas e versos cantados em Esquiva da Esgrima, uma deliciosa e forte canção. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. O buda de Criolo está aí para que todos tenham acesso, seja mental, experimental ou físico. Ele convocou seu buda e você?

 

Convoque seu Buda / Criolo
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Trio Bonito: a nova sensação de Brasília


Trio: uma mulher, dois homens
Já disse em outros artigos o quanto a voz de Nathália Lima é doce e cristalina. Brasiliense e grande pesquisadora da música popular brasileira, Nathália é uma das maiores cantoras do Brasil, sendo reconhecida até mesmo por Roberto Menescal, um dos pais da Bossa Nova, ao qual fez uma bela participação no disco Elas Cantam Menescal. O ano nem começou direito e Nathália já entrou de cabeça em planos que vão além de sua rica e saudável voz: a cantora se juntou a dois amigos e juntos criaram o Trio Bonito, que já vem fazendo um certo barulho na capital do Brasil, local onde o grupo foi formado.  Nascido em Janeiro deste ano, o Trio Bonito é composto pela competência e jovialidade de Nathália Lima (voz), pelas guitarras de João Baptista e pelo percussionista Mariano Toniatti e o grupo surgiu para trazer alegria por meio das músicas mais bonitas e amadas no mundo, vulgo a nossa música popular brasileira. Com influências de grandes compositores populares da antiga e da nova geração, como Gonzaguinha, Roque Ferreira, Chico Buarque, Edu Krieger, Zeca Baleiro, Criolo e de grandes mestres do brega, como Reginaldo Rossi e Nelson Ned, o Trio apresenta os mais variados ritmos brasileiros e suas referências, tudo com muita modernidade e com novas roupagens, em clima de festa.  Portanto, quem gosta de músicas boas, interpretadas por uma voz bonita e talentosa, tem que conhecer o trabalho de Nathália Lima. Basta acessar o site www.soundcloud.com/triobonito e conferir a voracidade e capacidade vocal da cantora. Simplesmente belo, o Trio Bonito tem tudo para emplacar como um dos trios mais sensacionais dos últimos tempos, tanto pela qualidade vocal, quanto pela técnica de todos envolvidos. A porta-voz do trio é uma jovem muito bonita e já mostrou maturidade artística ao lado do monstro sagrado Menescal e ajuda a conservar a área musical brasiliense com sua rica formação musical. A voz firme e diáfana de Nathália viaja dos graves ao agudo com extrema facilidade e leveza e esse brilho em sua carreira de interprete faz toda a diferença. O estilo do Trio Bonito é fortemente ligado às raízes brasileiras de forte qualidade e grande relevância musical, sendo marcado principalmente pela cultura e pelo reverenciamento brasileiro e é essa a diferença e sofisticação do trio, que consegue captar toda a alegria, dramaticidade, sensibilidade e carência nas músicas, dando-lhes novos acordes. Gostei e muito do que ouvi ao som do Trio Bonito e a vontade é de estar sentado de frente à eles, os vendo cantar, tocar e nos alegrar. E apostem: o Trio Bonito será uma grande referência musical para todos nós.

 

Trio Bonito
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os sinais de Ney Matogrosso


 
Ney em boa fase
Ney Matogrosso consegue agradar à gregos e troianos, literalmente. É um cantor que não parou no tempo, não canta músicas para ficar na memória de um subconsciente qualquer, não canta músicas intelectualizadas, como faz hoje Chico Buarque ou João Bosco e entra na onda de Caetano Veloso, Djavan e Gilberto Gil, que fazem um som mais moderninho para a idade que tem. Ney Matogrosso virou pop, cult, cool. E essa onda de modismos a qual adentrou fez muito bem a sua carreira marcada por músicas fantásticas e egocêntricas e ao mesmo tempo se transformam num cartão postal para a modernidade e, quem sabe, para a posteridade. Ney Matogrosso lançou no final do ano passado o sensacional Atento aos Sinais (2013 / 28,99 / Som Livre) título que saiu da canção Oração, de Dani Black, um dos compositores mais procurados da atualidade e que traz uma nova roupagem ao mundo de Ney, como as parafernalhas e vestimentas que todos esperavam. Desde Inclassificáveis (2008), Ney não vinha se vestindo a carater e deixou a sua voz falar mais alto do que seus passos e danças. Com Atento aos Sinais volta ao ar o velho Ney Matogrosso, o pop, o cult, o cool. Ney Matogrosso é um dos artistas mais marcantes dentro da MPB e uma das figuras mais aclamadas pela crítica especializada. Assim, talvez, pode ser definido o cantor, dono de uma carreira marcada pela irreverência e pela ousadia em suas performances e que lançou no ano passado um disco que marca seus 40 anos de carreira. O CD tem interpretação singular de Ney para compositores novos e consagrados, como Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Criolo, Vitor Ramil entre outros. Mesclando canções em uma criteriosa seleção, o repertório inclui músicas como Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola, duas de Itamar e Oração, de Dani Black, música que inspirou o título do álbum. Atento aos Sinais é um disco intimista. Com músicas de alto astral e com pitadas de politicagem, o disco vem recheado de nuances, músicas conturbadas e com um acento mais politcamente correto. Ney volta a adotar o estilo descobridor de talentos, mas veio flertar com compositores de outras estirpes musicais, como Criolo, de quem gravou Freguês da Meia-Noite, passando por Rafael Rocha em Não Consigo e tendo o seu maior talento como prova maior de que os novos são talentosos, como o caso de Dani Black. Mas em quase todo disco de Ney já podemos esperar um pouco de Itamar Assumpção, Vitor Ramil, Alzíra Espíndola e Pedro Luís e aqui não foi diferente. Embora tenha sido um erro fatal regravar Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim (ambas de Itamar) e ter escolhido uma música menos calorosa de Pedro Luís, o disco ainda assim é um dos melhores que fecharam o ano de 2013. Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim foram gravadas anteriormente por Zélia Duncan em seu disco do ano passado, em que homenageia o grande Itamar Assumpção, morto em 2003 em decorrência de um câncer, na qual o próprio Ney faz uma bela participação na segunda música citada. Em seu próprio disco, Ney (re)transforma a música, dando o ar de sua graça, mas o que acontece é um festival de canção repetida. Porém, seria melhor ter regravado Fico Louco, que só fora regrada por Virginia Rosa em seu disco de estreia e trata-se de uma música atual. Já Incêndio relembra um tempo perdido de Pedro Luís no grupo A Parede e regravar está música talvez não tenha sido um achado e tanto para o cancioneiro de Ney, já que as músicas de Pedro são sempre sensacionais (vale lembrar Miséria no Japão ou Fraterno, ambas gravadas por Ney em discos anteriores e que foram as sensações do momento). Abrindo com Rua da Passagem, um protesto de Arnaldo Antunes e Lenine, a música se tornou um sucesso nas redes sociais e veio a calhar sobre a falta de educação das pessoas nas ruas e em ambientes sociais, o que veio a calhar bem na fase de protesto do disco. Ousadia é pouco perto da sensual Beijos de Ímã, da família musical Espíndola, que nos remete às músicas de gueixa com um sotaque que só o Ney consegue fazer. Há também a profusão de palavras em Tupi Fusão, que nos remete a música Inclassificáveis e a engraçada Samba do BlackBerry. Ney conseguiu fechar o ano passado com o pé direito, digno de poucos artistas com a sua magnitude. E ainda tem tempo para ser humano, homem e sensato em não se sentir estrela.
 

Atento aos Sinais (2013) / Ney Matogrosso
Nota 8
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Virada Cultural 2013 - Os Mais Cotados


Virada Cultural 2013
Chico Buarque, o mais cotado para comparecer como uma das atrações principais da Virada Cultural, já disse que não vai. Prestes a fechar a lista com o nome dos artistas que se apresentarão na Virada Cultural deste ano, o cantor Chico Buarque nega o pedido de se apresentar no evento. Por outro lado, o Catraca Livre me mandou uma lista exclusiva e mostra as presenças confirmadas de Gal Costa, Tulipa Ruiz e Pitty. 

Seu Jorge, Criolo e Marisa Monte foram alguns dos nomes mais citados na votação que o Catraca Livre conseguiu através de pesquisas. A ideia era saber qual artista os paulistanos gostariam de ver na edição 2013 da Virada Cultural. Com exclusividade, já é sabido que Chico Buarque não aceitou o convite. Estão confirmadas, porém, nomes como Pitty, Gal Costa e Tulipa Ruiz, como citei acima. A Secretaria de Cultura da cidade se compromete a avaliar as indicações feitas pelos leitores do Catraca Livre.

Vale lembrar que o resultado da votação será encaminhado aos organizadores do evento, mas pode ser que o artista não seja contratado para se apresentar no evento. A Secretaria não tem obrigação legal de contratar os primeiros colocados. Trata-se, portanto, de uma consulta para democratizar a escolha dos nomes.

Confira os dez principais destaques da programação

1. Charile Brown Jr 2.62%

2. Chico Buarque 2.6%

3. Teatro Mágico 2.23%

4. Seu Jorge 2.22%

5. Nando Reis 2.22%

6. Criolo 2.02%

7. Marisa Monte 1.95%

8. Caetano Veloso 1.92%

9. Lenine 1.87%

10. Planet Hemp 1.82%

 

Virada Cultural São Paulo

Marcelo Teixeira

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O rap positivo de Criolo


Sensacional disco de Criolo
Para começo de conversa, Criolo (que até pouco tempo era Criolo Doido) disponibiliza em seu site oficial o disco para baixar gratuitamente (www.criolo.net). Ponto positivo, que demonstra que além de estar conectado, sabe – talvez melhor do que muita gente por ai – que nos tempos atuais mais do que tentar inutilmente criar mecanismos para dificultar o download de suas músicas, o mais importante é utilizar de forma positiva as mídias atuais para divulgar o trabalho. E funciona, além de demonstrar, mais uma vez, uma postura simpática perante o público. Só que obviamente o fato de ter respostas inteligentes e postura simpática perante o público não seria suficiente para ser incluído nesse blog se tivesse algum disco realmente digno de nota.

Com a carreira mais fortemente fixada no rap desde 1989, nesse seu último disco (o segundo de estúdio) ele optou por misturar gêneros, estilos e instrumentos de forma muito inteligente e, certamente, isso contribuiu para que tivesse maior reconhecimento. O disco inicia-se com Bogotá, uma inteligente letra com um estilo de dificílima definição, levada ao som de trompete e saxes. Gosto disso. Subirusdoistiozin, a seguinte, tem uma pegada mais próxima às suas raízes e já tinha sido lançada anteriormente como single, sendo uma das mais conhecidas de sua carreira.

Pausa para uma balada triste em Não existe amor em SP, um retrato belo da sua própria cidade, paradoxalmente dona de uma efervescência cultural e triste impessoalidade, retratada tão bem na letra dessa canção. A mudança de ritmos e estilos continua em Mariô, com uma pegada que lembra sons de umbanda com uma crítica social. Me perdoem os que conhecem aspectos de umbanda ou se falei besteira aqui, mas foi apenas uma referência sem nenhum rigor científico implícito nessa definição.

Freguês da meia-noite é quase um tango com todo o drama inerente ao estilo, que tem a cidade de São Paulo como palco. Como se não bastasse ser uma bela canção, tem um clipe excelente, muito bem feito (com qualidade HD) que vale a pena ver e ouvir. Nova reviravolta com Grajauex, som em que suas raízes do rap retornam com toda força. Até mesmo eu que não sou muito desse estilo, gostei dessa. Já o histórico de letras engajadas que combatem as desigualdades está bem presente nas duas seguintes: Samba Sambei e Sucrilhos.

A penúltima música começa com um som de violino e viola para entrar com uma letra forte e autobiográfica. A mistura de estilos ao longo do disco se faz presente em uma só canção em Lion Man, um rap que conta com uma sonoridade ímpar, sem perder a seu engajamento. Sensacional.

O nó da tua orelha ainda dói em mim... E Cebolinha mandou avisar... Quando a "fleguesa" chegar...Muitos pãezinhos há de degustar... O disco finaliza com um samba muito bem humorado e inteligente em Linha de Frente, trazendo a turma da Monica (aquela mesmo, do Maurício do Souza) para a rotina da periferia de São Paulo. Faustosa.

Enfim, confesso que demorei a conhecer o trabalho do Criolo, já que o rap não é muito a minha praia (apesar de respeitar o estilo). Só resolvi parar e dar atenção ao seu som quando vi, em rede social, trecho de uma entrevista dele em que dá uma resposta excelente a uma brincadeira infeliz de fundo homofóbico do apresentador de um programa (que prefiro nem citar porque o objetivo aqui não é criar polêmica, ao menos não com este artigo!). Então, deixei o preconceito com o rap de lado, escutei suas músicas e gostei tanto que virei fã. Como diria o Criolo, Não precisa morrer pra ver Deus... Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você.

 

Nó na Orelha / Criolo

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quarto lugar: Leo Cavalcanti - Os 10 Melhores Cantores dos Últimos 10 Anos


Leo Cavalcanti: o quarto lugar
Leo Cavalcanti é cantor, compositor, multi-instrumentista, arranjador e é considerado um dos novos nomes da MPB. Em dezembro de 2010, lançou seu primeiro CD Religar, pela DeleDela em parceria com a YBMusic, gravado no Estúdio Traquitana, distribuído pela Tratore. Religar é também o título de uma das canções do repertório desse CD, que foi escolhido pela Revista Manuscrita o melhor dos melhores 100 discos de 2010. Seu trabalho vem rendendo mais comentários como o de Fernanda Takai, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes e Caetano Veloso, que disse que seu talento é genuíno.

Depois de vencer o 3º Festival da Semana da Canção Brasileira em São Luiz do Paraitinga (2009), Leo Cavalcanti foi premiado no Edital ProAC nº18 (2009), para gravação de disco inédito no Estado de São Paulo. Em maio/junho de 2010, foi convidado para tocar com seus músicos no Festival Tensamba (Tenerife e Gran Canária), na Espanha; no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, Portugal; e em Londres, no Momo’s e no Bloomsbury Lanes, com excelente repercussão.

Leo Cavalcanti frequentemente colabora com outros artistas da cena musical de São Paulo como Tulipa, Arícia Mess, Tatá Aeroplano, Karina Burh, Trupe Chá de Boldo, entre outros, participando de shows e da gravação dos CDs.

E hoje Leo Cavalcanti brilha absoluto no quarto lugar da lista dos 10 Melhores Cantores dos Últimos 10 Anos, que já contou com Criolo, Edu Krieguer e Rodrigo Maranhão.



Quarto Lugar: Leo Cavalcanti
Os 10 Melhores Cantores dos Últimos 10 Anos

Marcelo Teixeira