Mostrando postagens com marcador Mallu Magalhães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mallu Magalhães. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de junho de 2017

As indiretas diretas de Mallu Magalhães em Vem (2017)


Mallu: capa perfeita
Quem me conhece sabe o quanto gosto da Mallu Magalhães, mesmo sabendo que ela nunca figurará entre as melhores cantoras do Brasil, muito menos terá a melhor voz amanhã ou depois de amanhã. Mas na certa Mallu Magalhães é uma cantora diferenciada nos dias de hoje e a prova disso é que a cada disco lançado, uma pitadinha de indireta vai para alguém a quem ela gostaria de mandar uma direta bem certeira. Entendeu? OK, eu explico. Mallu sabe que não é dessas cantoras que agradam apenas pelo fato de ser uma cantora brasileira que tenta (eu disse tenta) estar entre as tops das cantoras brasileiras. Ela não precisa, evidentemente, de estar entre as tops cantoras brasileiras porque ela não precisa estar nesse roll. Mas Mallu sabe que não é uma cantora dita sensacional, ótima, perfeita e charmosa, mas sabe que tem muito mais qualidade que muitas cantoras clichês que estão espalhadas por aí com roupas curtas e sapatos altos, dançando com os quadris para lá e para cá. As indiretas diretas certeiras de Mallu se fazem presente em todos os seus discos e desde quando ela se entende musicalmente por gente que critica parcial ou totalmente o seu trabalho. Acata quem quer, responde quem aceita. Mallu é muito mais que uma cantora: ela é uma super cantora! Digo que Mallu é uma raposa e como todas as raposas, ela aparece, mostra seu serviço e volta a ficar no seu cantinho. O tempo para isso é tão rápido que você nem percebeu que ela passou. Poucos conseguem entender o mundo filosófico de Mallu e é justamente este o grande insight de sua carreira: ela é um mistério e ao mesmo tempo uma saborosa surpresa. Esqueça se você vai ouvir o novo disco com a intenção de encontrar aqui sinais de Banda do Mar (2014) ou qualquer coisa que Mallu já tenha lançado antes. Dividida entre Portugal, a bossa nova, o Rio de Janeiro e São Paulo, o disco tem uma atmosfera caricatural dela mesma, ou seja, de Mallu Magalhães dentro de sua melhor esfera: o da menina que se transforma em mulher, a artista que se transmuta de mistérios e preciosidades, tal qual a primeira peça teatral escrita por Clarice Lispector (1920 – 1977), Pobre Menina Rica (1930).  Seria demais dizer que Mallu Magalhães é a Clarice Lispector da música e perguntar que mistérios tem Mallu? Seis anos após o lançamento do espetacular Pitanga (2011), Mallu volta à cena musical com o gostosinho e diferente Vem (2017 / Sony Music / 29,99), disco este que causa uma estranheza ao primeiro som justamente por ser o oposto daquilo que a cantora vinha produzindo anteriormente. Esta mudança quase repentina em seu estilo tem um propósito: transformar-se em uma cantora sólida para as futuras gerações, das pessoas que hoje não tem cérebro, mas que amanhã perceberão o quanto perderam em não ouvir suas músicas hoje.

 

Vem (2017) / Mallu Magalhães
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Entrevista com Tito Marcelo


Tito Marcelo: o entrevistado
Tito Marcelo é de Recife, mas é em Brasília, a capital federal do Brasil, que o cantor e compositor aspira e respira música, sempre transbordando sua verve poética, sensível e autoral. Com dois CDs lançados, Tito é um cantor de excelente gabarito, de uma simpatia extrema e de um talento incrível. Cedendo seu precioso tempo entre uma viagem e outra, o cantor me concedeu uma entrevista exclusiva em que conta um pouco de sua musicalidade, de sua terra natal, de seus planos, da vontade que tem de dividir vocais com Elba Ramalho e que a maior voz do Brasil é a de Mallu Magalhães.

 

Mais Cultura Brasileira: Tito Marcelo, o que é música para você?
 
Tito Marcelo: Nunca pensei em definir música, assim com um significado específico, mas eu imagino que música seja a emoção, o sentimento que há nos sons. Acho que música é a tristeza, a felicidade, a raiva, a surpresa, o medo, etc., que sentimos quando ouvimos algo.

MCB: Você é um dos melhores cantores surgidos nos últimos anos, com qualificações e prêmios dentro da música popular brasileira, mas por que sua música ainda não chegou aos grandes centros musicais, inclusive aqui em São Paulo ou no Rio de Janeiro?

Tito Marcelo: Nossa! Estou muito, muito longe de ser um dos melhores cantores surgidos ultimamente. Na verdade, eu nem busco isso. Nunca busquei. A música me faz muito bem, e se eu puder continuar me divertindo com ela, como tem acontecido, vou estar mais do que feliz e satisfeito. E ainda imaginar que a música que eu faço faz com que outras pessoas se sintam bem também, esse sim, pra mim, é o maior prêmio de todos. Bom, não sei responder como, quando e até onde minha música vai chegar. Tenho até buscado algumas maneiras para divulgar mais meu trabalho, mas o que penso, e até gosto dessa ideia, é que minha música vai chegar onde as pessoas a levarem, especialmente as pessoas que a curtem. É isso que tem acontecido até agora.

MCB: Você canta MPB com pegada POP, o que deixa a sua música com uma boa levada. Você tem medo de rótulos sobre o seu trabalho?

Tito Marcelo: Eu não gosto dos rótulos, acho que eles limitam muito um trabalho, especialmente se for um trabalho artístico. Mas também não tenho medo deles. Acho que algumas pessoas têm a necessidade de classificar as coisas para se sentirem mais a vontade com elas. Eu entendo isso e acabo não ligando se definem minha música como POP, MPB... Faço música. Apenas música mesmo. E se as pessoas se divertem e se emocionam com minha música, fico muito feliz com isso, pouco importa o estilo na qual elas a inserem ou a rotulam.

MCB: Qual sua maior inspiração para compor?

Tito Marcelo: Acho que as pessoas e suas histórias. Fico viajando nas histórias que me são contadas, sejam pelas próprias pessoas que as viveram, sejam por aqueles que apenas as relatam, sejam essas histórias observadas ou vividas por mim mesmo no dia a dia. Livros, filmes, de ficção ou verídicos, quase tudo que é contado é sobre histórias de pessoas. Acho que essa é minha maior inspiração pra compor. A partir dessas histórias, tento usar a maneira que vejo, entendo e imagino o universo, a natureza, o cotidiano urbano e as próprias pessoas pra brincar com a poesia que tudo isso me proporciona e me permite viajar mais ainda quando escrevo.

MCB: Um cantor e uma cantora.

Tito Marcelo: Ed Sheeran e Elba Ramalho. Atualmente são os dois artistas que mais tenho ouvido.

MCB: Você dividiu os vocais com as cantoras Barbara Mendes, Perdido Pra Lua (Frágil Verde, 2011) e Gabriela Doti, Adonde El Viento Vá (Pra Ficar no Sol, 2014). Gostaria de dividir os vocais com qual cantor(a)?

Tito Marcelo: A Barbara e a Gabi são duas cantoras fantásticas. Eu já gravei também com a Zizi Villa-Lobos que é uma rapper muito talentosa de Brasília. Pra mim, foi uma honra ter gravado com elas. Sou muito fã da Elba, e como disse antes, eu tenho ouvido muito o trabalho dela. Eu ficaria muito feliz se um dia pudéssemos gravar juntos.

MCB: Em seu CD Frágil Verde, Força de Quebrar (2011), o lado ecológico leva todo o conceito de sua música, desde a capa, passando por composições e até no elemento físico. Você é um tipo de cantor que pensa também na ecologia do planeta? Foi difícil abordar um tema tão complexo como esse nos dias de hoje em letra e música?

Tito Marcelo: Quando eu fiz as músicas do Frágil Verde, Força de Quebrar eu nem estava pensando em gravar um disco. Eu estava compondo despretensiosamente, e as músicas surgiam de maneira muito natural, orgânica, sem um tema central, sem um conceito único que as relacionassem. O fato de as músicas escolhidas para o disco falarem, de alguma maneira, da natureza foi mais um reflexo de minha inspiração no momento de fazê-las, do que de uma intenção, propriamente dita, de escrevê-las sobre esse tema específico. Foi um conceito muito mais descoberto do que desenvolvido para o disco. Mesmo assim, acho que as canções por si sós também acabam indicando minha relação com a natureza e com a maneira que tento preservar e cuidar melhor do lugar onde vivemos. Eu sempre penso nisso sim.

 
MCB: Você é um cantor recifense e na música Bem Maior (Frágil Verde, Força de Quebrar, 2011) você relata os problemas sociais do Nordeste. Essa música é um pouco da sua vida, retratando alguma passagem, com fundo biográfico?

Tito Marcelo: Não. Essa música não retrata uma experiência pessoal, vivida por mim. Eu sou nascido e fui criado num ambiente urbano, numa cidade do litoral. Apesar disso, conheço alguns lugares e tenho amigos do sertão, o que me faz ter um pouco da ideia do é a vida por lá. Mas essa música, especificamente, eu fiz quando estava assistindo a um noticiário que mostrava duas cidades do sertão que sofriam com os castigos e estragos, uma da seca e a outra das chuvas. Fiquei pensando nos extremos do clima e da natureza em que vivem as pessoas do sertão. Acho que a música acabou ficando uma reflexão, uma pequena homenagem à força e à fé do sertanejo, pessoas que admiro e por quem tenho muito respeito.

Mas veja, eu não gosto muito de explicar minhas músicas, não. Primeiro porque muito das coisas que escrevo, eu mesmo nem entendo. E, segundo, prefiro que as pessoas entendam as músicas da maneira que elas as sentem. E falo isso com carinho. Não é arrogância, de jeito nenhum. É só a minha maneira de achar que não importa o que o autor quer dizer quando faz uma música. O que importa mesmo é o que cada pessoa vai sentir quando ouvir essa música.

MCB: Pra Ficar no Sol (2014) teve maior aceitação do público e trouxe mais o seu nome para o cenário musical. Todo o disco foi de composição sua, autoral, e através desta sua postura, posso dizer que o disco ficou do jeito que você queria?

Tito Marcelo: Acho que foi o processo de criação e produção do disco que fez com que ele tenha ficado do jeito que eu queria. Quando eu faço uma música, eu nunca me prendo à ideia de como ela tem que ficar exatamente quando gravada. Depois de composta, eu acho que uma música pode tomar vários caminhos, especialmente por conta do arranjo que vai ser pensado pra ela. Com as músicas do Pra Ficar no Sol foi assim. À medida que Renatinho (*) criava os arranjos, e nós íamos discutindo as ideias, as músicas iam naturalmente se transformando, sem que perdessem suas essências. E eu curto muito essa maneira de trabalhar, de produzir. Eu gosto de ver as músicas que faço sendo transformadas pelas ideias de quem as arranja. E Renatinho é muito talentoso. Um cara cheio de ideias, extremamente virtuoso e que entende perfeitamente a minha música. É muito bom trabalhar com ele.

(*) Renato Fonseca, arranjador e produtor do disco Pra Ficar no Sol.

 
MCB: Pensa em fazer shows fora de Brasília?

Tito Marcelo: Claro que sim! Já fizemos alguns shows fora de Brasília e estamos agendando outros.

MCB: Pra você, Tito, qual o segredo de ser um músico com as qualidades que você tem?

Tito Marcelo: Penso que qualidade seja um conceito muito relativo, principalmente quando se trata de um músico ou um artista. Eu até me sinto bem à vontade quando estou compondo, mas eu não sou um músico virtuoso, nem me sinto um cantor talentoso. Pelo contrário, cantar, pra mim, é uma coisa até difícil, meio tensa. O que tento fazer é passar para a música que estou cantando e tocando, acima de qualquer outra coisa, a emoção que sinto.

MCB: O que há no canto de Tito Marcelo?

Tito Marcelo: Verdade.

MCB: Qual a maior voz do Brasil?

Tito Marcelo: Poxa, não tenho nem competência para responder essa pergunta, porque não conheço sequer a metade das vozes desse nosso país, repleto de excelentes cantores e cantoras. Mesmo assim, não costumo pensar em melhor ou pior, ou até mesmo bom ou ruim nos meus critérios. Na verdade, eu tento me apegar principalmente às diferenças entre as vozes, entre as interpretações. Acho que assim eu consigo perceber o que cada cantor ou cantora tem de único, de especial. Mas para a pergunta não ficar assim tão sem resposta, eu curto muito ouvir a Mallu Magalhães cantando. Acho bem original e muito espontâneo o jeito como ela canta, especialmente quando ela canta as músicas dela.

MCB: Pra Ficar no Sol (2014) marca muito o seu lado com o regionalismo pernambucano, com instrumentos e sons de xote e forró e isso fica evidente na música Perto do Final. Esse é um jeito de manter vivas as suas raízes?

Tito Marcelo: Na verdade, esse é um jeito de minhas raízes me manterem vivo. Não o contrário. Eu que preciso de minhas raízes, porque elas fazem parte de quem eu sou, da minha história e da minha identidade. Pra mim é muito natural que minha música tenha nela o nordeste, Pernambuco e Recife.

MCB: Pra ficar no sol é...?

Tito Marcelo: Pra ficar no sol é consequência. É continuar a aventura, ainda que de maneira despretensiosa. É também claridade. É enxergar melhor, entender mais. Pra ficar no Sol é música. Apenas música.

MCB: Para encerrar, Tito, como seria a vida sem a música?

Tito Marcelo: Eu costumo dizer que não vivo de música, eu vivo para a música. De tudo que eu faço hoje, acho que a música é o que mais me move. Se não houvesse a música na minha vida, eu teria que achar outra coisa pela qual valesse a pena, digamos assim, me jogar.
 
 

 

Entrevista com Tito Marcelo
Por Marcelo Teixeira


sábado, 15 de novembro de 2014

A grata surpresa de Bando do Mar

Banda do Mar: grata surpresa
Há uma diferença singular entre a Mallu Magalhães antes e depois de Pitanga (2011) seu delicioso disco lançado pós Marcelo Camelo. Desde o primeiro disco que Mallu já demonstrava toda a sua super potência musical, mas ainda estava indecisa quanto ao ritmo certo a cantar: considerada a nova Janis Joplin por alguns e uma legítima cantora que herdaria o folk como destino final, Mallu sempre demonstrou que era capaz de muito mais em discos lançados com o decorrer dos anos. A cantora e compositora que foi descoberta através da internet, sempre teve fama de ser uma péssima cantora e a mesma sempre esteve dividida entre a cruz e a espada entre os fãs e não fãs. Mallu cresceu, apareceu e mostrou, depois de Pitanga, que é sim uma excelente cantora. Assim como seus discos, Mallu Magalhães mostrou que sabe cantar, compor e rir dessas e outras críticas que fazem a seu respeito. A participação de Marcelo Camelo foi fundamental para que o crescimento da menina/cantora/desafinada desenrolasse naturalmente e ela produzisse mais e mais e mais. Sempre com categoria afinada e buscando pelo ideal refinado dentro da música brasileira e dentro de seu limite musical, Mallu se juntou ao próprio Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda do Mar (2014  / Sony Music / 19,99) , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu compondo versos mais decisivos e fortes e isso já tinha acontecido em Pitanga, quando disse, à época, que poderiam falar o que quisesse dela, pois ela estava ficando velha e louca. Assim como no disco solo anterior, a cantora mais uma vez manda indiretas para os críticos ferrenhos que insistem em debochar de sua carreira, dizendo que está ótima na faixa Me Sinto Ótima. Marcelo, por sua vez, tece delicadeza acentuada nas faixas Pode Ser, que tem vocais de Mallu fazendo contraponto delicioso e sentimental. Nada deixa a desejar em Banda do Mar, exceto o estilo de gravação: as músicas que Mallu compôs foram cantadas por ela como uma declaração de amor a Camelo, suas artimanhas para se mostrar que é uma menina-moleca-que-canta (e bem!), suas indiretas certeiras e para falar de amores guardados em seu peito tanto por homens maduros e pela sua gata Mia (retratada em música). Marcelo também segue a linha romântico e deixa fluir naturalmente músicas singelas como Vamo Embora e Solar. Infelizmente, não houve uma troca de identidade musical entre os dois: Marcelo poderia cantar a música de Mallu e vice versa, mas isso não aconteceu. Mesmo assim, só pela brilhante ideia de saírem de casa para fazerem um disco juntos foi uma grata surpresa. Tanto para o público brasileiro, quanto para os fãs de ambos os cantores (e compositores) e para dizer que Marcelo sobrevive sem o Los Hermanos e Mallu, pela força e vitalidade de seu canto, sobrevive a qualquer tempestade em um copo d’água.
 

Banda do Mar / Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Fred
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 11 de março de 2013

O sorriso de Bruna Caram


O belo sorriso de Bruna Caram
Quando lançou Feriado Pessoal, Bruna Caram se firmava como uma das mais importantes e celebres cantoras da chamada Nova MPB, composta especialmente por cantoras jovens, bonitas e com talentos memoráveis. Feriado Pessoal vinha embalado por sucessos inquestionáveis de Guilherme Arantes e JC Costa Netto e por composições próprias que davam todo o brilho e diferença de seu trabalho e que estava a frente do mega sucesso disco anterior, Essa Menina, seu álbum de estreia a qual alcançou absoluto sucesso de público e crítica. O novo trabalho tem bons momentos em composições alheias e já pode ser considerado um marco na brilhante carreira de Bruna. Um bom exemplo é a graciosa Especialmente Criativa, de Mallu Magahães. Das músicas que levam a sua assinatura, Pode Se Animar (parceria com Pedro Luís) é bastante agradável (aquela música que vale um repeat).

Abrindo com Bem-vindo, uma graciosidade imensa, a música é um convite pra ouvir Bruna Caram do começo ao fim, de coração aberto. Síntese do disco com todo seu frescor, coragem, alegria e independência, Bem-vindo tem uma responsabilidade imensa perante todo o disco, pois é ele quem traz a essência do álbum, misturado com a bela voz da cantora. Não Perca o Final é uma pérola do mestre Zé Rodrix felizmente encontrada e abocanhada por Bruna, praticamente esquecida no cancioneiro do cantor e compositor falecido há pouco. Sabedoria bem-humorada, se torna uma canção irresistível.

Esfera é um retrato do desejo genuíno de que o mundo possa realmente ser melhor. Com a consciência de que a mudança começa dentro de cada um de nós. Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar até parece uma provocação, mas é mais uma das delicias de Jorge Ben Jor que Bruna alçou deliciosamente. Uma das mais deliciosas frases já usadas pra iniciar uma canção, a música reflete um momento único na carreira da jovem cantora. Quentura do início ao fim!

 

Ter que voltar

Ter que lamentar

Mas deixar levar

Me entender um pouco mais

Me entregar

A cada sonho, cada esquina, cada olhar

Quem sabe um dia a gente possa olhar pra trás

E se orgulhar

Da marca que hoje eu trago

 

(Trecho de Bem-Vindo, de Paulo Novaes)

 

Flor do Medo é a canção sobre o momento específico entre a sedução que instiga o amor e o beijo que o inaugura. Obra prima de Djavan, a música tem tudo para ser a mais tocada nas rádios que adoram MPB. Apaixonante assim. Assim como já fizeram em discos de cantores carimbados e respeitados dentro da MPB, como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Roberta Sá, Pedro Luís agora engata uma bem elaborada trama de enredos com a sensacional Pode se Animar, que trata de perdas e danos, de ganhos e recebimentos do amor. E se o amor que você perdeu pudesse voltar pra você? Canção-feitiçaria de Bruna com Pedro Luís traz seu amor de volta em até 5 audições.

Amanhecendo é uma música cíclica sobre um amor que precisa, mas não consegue terminar. A mais dolorosa do disco, com direito a lágrimas e lencinhos e que tem como arrebatadora a voz singela de Bruna, que adentra em nossos poros com uma desenvoltura tremenda. Divertida, engraçadinha, romântica e espetacularmente divina, Especialmente Criativa é alegre, irônica, clown, crítica, divertida, sincera. Canção-presente da Mallu Magalhães que fala sobre ser artista na vida real.

Ponto alto do disco, Segredo é uma das canções mais executadas do cancioneiro de Dalva de Oliveira, cantada por medalhões da MPB e que teve a mais sublime interpretação na voz do filho de Dalva com Herivelto Martins, o saudoso Pery Ribeiro, que nos deixou há pouco tempo. Canção do repertório da Rainha da Voz, como era chamada, Bruna aprendeu esta canção ouvindo com seus avós. E aqui ela canta brilhantemente com a excepcional cantora Marina de La Riva em um dueto de arrepiar.

Purinho é um frevo safado livremente inspirado nas folias dos carnavais do Recife e que foi composto pela foliã Bruna Caram. Atrás do bloco o mundo gira sem parar. Encerrando o disco com Peito Aberto a maior declaração de amor do disco. Vale a pena ressaltar que o produtor se emocionou no segundo take e não a deixou gravar mais. Portanto, a voz não foi editada e a performance é real.

Um dos mais brilhantes discos da MPB com a categoria de uma estrela chamada Bruna Caram.

 

Será Bem Vindo Qualquer Sorriso / Bruna Caram

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O futuro de Wanessa


A cantora pop Wanessa
A cantora Wanessa (sem o sobrenome famoso) está começando a cair no meu conceito. Sou uma pessoa exigente musicalmente falando e, em todos os aspectos, não gosto de música teen, nem norte-americana, dando vazão e preferencia à música inteiramente brasileira, ora com pitadas europeias ou de língua castelhana (como faz Marina de La Riva) e quando há a junção das línguas estrangeiras, como fazem as cantoras Bebel Gilberto, Thaís Gullín e Mallu Magalhães. Alguns cantores de excelente gabarito, como Maria Gadú e Lenine, interagem em uma canção ou outra em seus discos com outros idiomas, o que não fica chato, nem muito menos caricato. Mas dedicar sua carreira inteiramente à um estilo que não é o tradicional para poder cair definitivamente nas graças de uma galera nada exigente, que quer apenas dançar, pular e se divertir, sem se interessar pela mensagem da canção, é fazer rir da desgraça alheia e estar no patamar mais elevado para enfim, poder dizer que se tornou uma cantora rica de fãs, rica de personalidade, rica de atitudes e rica de muita burrice.

Assim a cantora Wanessa, que já foi criticada aqui no Mais Cultura! como umas das piores cantoras do Brasil, conseguiu cair no meu conceito: estive verificando sua nova trajetória há quase três meses e confesso que me orgulho em ver que ela saiu da barra da aba da cantora perdida Sandy, para viver o seu mundo, imitando, agora, cantoras de um país que adora eleger as louras ao topo das melhores do mundo, como Adele, Lady Gaga, Madona, Britney Spears. Para tanto, Wanessa tingiu os cabelos de louro, imagino eu que para ser confundida com uma delas futuramente. Sair da aba de Sandy para ser praticamente igual às americanas, é sofrer para não padecer e isso está tirando o meu sono, literalmente. Wanessa não precisava ir tão longe para se igualar às cantoras de um país que por aqui fazem enorme sucesso. Bastava virar a esquina que logo encontrava o seu caminho.

Mas Wanessa foi mais longe: seu idioma agora passa do português ao inglês como num piscar de olhos e sua trupe aumentou (ouvi dizer que já passam de trezentos mil dançarinos no palco para fazerem a volta dela ao show bizz) e sua roupa, seus colares, seu cabelo também mudaram. Se igualar a cantora Sandy não dera muitos frutos, se igualar às americanas, dará? Retirar o famoso sobrenome e dançar ao estilo de Madona a fará mais famosa internacionalmente, com toda a certeza cabível de sustentação de artigos como este, mas dizer que Wanessa será uma das maiores cobiças de cantoras nacionais que deram certo lá fora, isso será impossível. Nem Ivete Sangalo conseguiu este feito.

Que saudades eu tenho de Carmen Miranda, que colocou os EUA, o Brasil e Cuba em suas mãos! Mas deixo um recado à Wanessa: não tente imitar as americanas. Tente imitar a si mesma, assim, a esquina que você poderia entrar, estará totalmente iluminada. Ou não.

 

O futuro de Wanessa

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O determinado álbum de Mallu Magalhães


Ótimo disco de Mallu
Mallu Magalhães sempre me chamou atenção. De longe ouvia falar de seu nome, de toda a estória do MySpace, das suas composições, da sua adolescência que se misturava com sua habilidade em consertar seus próprios instrumentos musicais. Ao fim tive contato com sua voz infantil, meio amanteigada – que ao invés de entrar pelos nossos ouvidos, escorrega, devagarinho. E confesso que achei o máximo! Quando pinta um único olho de azul nos seus shows, Mallu me faz lembrar Rita Lee – garota mutante com seus coraçõezinhos no rosto na sua fase Tropicália. Mas Mallu me lembra também Bethânia, que aos 16 anos subiu no palco do Teatro Opinião. Essas intervenções feitas por criaturas tão jovens são de uma ternura incrível, porque o limite entre a brincadeira e a coisa séria, entre o medo e coragem, são muito tênues.

Seu disco é muito delicado, gostoso mesmo de ouvir. Muitas das músicas parecem ter sido compostas com alto teor de amor no sangue. My home is my man é rock retrô, forte, guitarra presente em volume alto. Tudo rapidinho e aos poucos o som vai desbotando. Shine Yellow é outra de que gosto muito! Meio reggae, com sopros e percussões.

Esse segundo disco parece um tanto autobiográfico e Make it easy deixa claro isso. A música bastante blues começa com um assovio, como um calmante para a alma na hora de enfrentar a mãe. O disco, forte, às vezes parece meio complicado, as faixas por vezes não harmonizam a beleza do disco e muitas das vezes, Mallu se perde na própria voz e nesta fase, ela ainda não conheceria Marcello Camelo mais à fundo (isso veio acontecer depois e desta união estável de marido/mulher, nasceu o ótimo Pitanga).

Make it easy: essa é a minha favorita! Música de uma paz incrível e a ideia de transformar em canção essa angústia feminina na hora de encarar o tamanho do amor, é maravilhosa. E o vocal masculino é do (ainda) namorado.

Bee on the grass me lembra um tanto o som dos Beatles, slow, cheio de sopros, vozes abafadas e borbulhentas, como se drogas psicodélicas estivessem navegando pelas superfícies líquidas dos nossos canais. Outra muito boa, country total é  You ain’t gonna loose me.

E o disco acaba com O herói, o marginal. Sua canção mais forte, linda, com um arranjo definitivo. E aí Mallu Magalhães quase deixa seu tom de menina e entra fortalecida, viajando na sua própria voz, cresce e termina. E outra vez, Tropicália!

 

Mallu Magalhães / Mallu Magalhães

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sou, de Marcelo Camelo: Genial


Sou (2008), um ótimo disco solo de Camelo
Fim de domingo depressivo. É quando eu escrevo os textos para os posts de segunda-feira, sabendo que esse metrô cheio de gente (sim, iniciei este artigo num vagão de metrô), mas vazio de sentimentos, me aguarda mecanicamente frio e esnobe, transformando qualquer esperança de transportar-me decentemente nessa cidade em uma realidade bruta, barulhenta e amarga. A trilha sonora para a viagem da segunda-feira sempre é mais especial. Preciso do equilíbrio entre algo novo que estou começando a escutar e algo que eu já ouvi muito, mas que não me canso de dar play de novo. E se tem um álbum que eu não canso de escutar é o Sou do Marcelo Camelo. Assim como o Sweet Jardim da Tiê, o Sou é o CD que naquele momento de não sei o que ouvir agora, preciso de algo que me distraia o suficiente e não me faça querer pular nenhuma música, ele sempre é uma das primeiras opções.

Estaria sendo presunçoso demais se eu falasse que Marcelo Camelo é um dos maiores gênios nacionais da atualidade. Mas é difícil algo me fazer mudar de ideia quanto a isso. Claro que existem outros artistas geniais por aí, mas nada que particularmente me faça ter a mesma sensação de quando ouço Los Hermanos/Marcelo Camelo. Um cara qualquer, sem apelo midiático, que dispensa o status de famoso pra ser reconhecido pela música que faz; um cara que, antes de qualquer outra coisa, transmite sentimento e emoção nas músicas. Interpretação da dor sem exageros, a saudade transformada em música. Genial.

Ouvir o Sou me faz esquecer quem está a minha volta, ao mesmo tempo em que fico tentando imaginar o que cada uma daquelas pessoas no metrô está sentindo no momento. Será que elas estão felizes porque o time delas ganhou no domingo? Será que estão tristes porque já é segunda-feira e as vidas delas continuam a mesma merda? Envolto nesses pensamentos está o som calmo de músicas como Téo e a Gaivota dizendo que Toda dor repousa na vontade, todo amor encontra sempre a solidão e Doce Solidão, que associa a solidão à liberdade nos primeiros versos Posso estar só, mas sou de todo mundo.

Não faltam elogios nem palavras pra falar sobre esse CD. E ultimamente as músicas desse disco se tornaram tão especiais na minha vida, que me trazem boas e más lembranças. As músicas Liberdade e Santa Chuva (música gravada com grande emoção por Maria Rita em seu disco de estreia) carregam uma força emocional muito grande, meus olhos ficam marejados toda vez que as ouço. Choro todas as noites de saudade.



“É Deus, parece que vai ser nós dois até o final


 Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro”.




Marcelo Camelo lançou nesse ano o segundo álbum solo dele, Toque Dela. Tem ótimas músicas e futuramente quero escrever sobre ele também. Mas novamente associando ao Sweet Jardim da Tiê, o Sou (lançado originalmente em 2008) é outro álbum de estreia que eu gosto muito mais do que o segundo CD. Só de pensar que estão juntas as músicas Tudo Passa, Janta (com a mulher Mallu Magalhães), Menina Bordada, Copacabana, Vida Doce, além das que eu citei acima e outras, não tem como pular uma faixa sequer do CD, não tem como não gostar ou não se emocionar.

O álbum tem algumas participações, como a de Dominguinhos no acordeom, duas músicas no fim somente no piano, letras croniqueiras, de amor, de saudade, e claro, o violão contagiante do Camelo em todas as composições. Não perca tempo, não morra sem ouvir esse CD. O metrô se tornará um ínfimo problema enquanto você estiver ouvindo-o.



Sou / Marcelo Camelo

Nota 10

Marcelo Teixeira