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domingo, 1 de abril de 2018

Thiago Miranda e o excelente Samba pra Elas (2017)

Thiago Miranda: empoderamento feminino
Sempre digo que há a falta de bons cantores no cenário musical brasileiro e que de uns tempos para cá, muitas cantoras (boas, medianas e ótimas), passaram a reinar em diversos estilos musicais com categoria ímpar de inspirações diversas. Não que não tenhamos cantores no Brasil, mas o nicho de qualidade musical está tão aquém, que raramente surge um bom ou ótimo cantor para nos brindar com a felicidade extra de ouvirmos uma boa música. Eis que de todo o vendaval que estamos passando atualmente, surge um dos melhores e mais capacitados cantores e compositores dos últimos anos e que tem na bagagem nada mais do que excelentes canções, excelente timbre vocal e perfeitas melodias. Thiago Miranda é uma das grandes novidades do mundo do samba e não há que ter uma comparação aqui: ele é único, autoral, completo e atemporal. Essa atemporalidade dentro de seu universo faz com que ele seja ainda mais moderno em seu habitat, pois o que ouvimos em seu recente lançamento é um apanhado de sambas com toques e batidas que nos remetem a um mundo em que o desejo era outro, os sonhos eram outros e a sensação de paz eram outros. Thiago Miranda nos transporta a um mundo decente, digno, capaz de nos divertir e de nos fazer refletir com tudo aquilo que nos cerceia, nos rodeia e nos catalisa. E é justamente aqui onde mora o diferencial de Thiago: sua simplicidade nas letras nos transportam a um devaneio de sensações híbridas e carregadas de sentimentos aflorados e sambas perfeitos. Samba pra Elas (2017 / Funalfa / 24,99) é um disco dedicado às mulheres e aos morros, às comunidades, às sambistas, às melodias carregadas de poder ponderado e centrado no semblante do outro que carrega nas costas o trabalho digno, a única roupa que usa, o pouco dinheiro na carteira, mas que são, acima de tudo, felizes. Samba pra Elas é o retrato fiel de que o respeito mútuo se faz presente em canções como Maria do Socorro (Edu Krieger), cantada magistralmente por Maria Rita (2007) e que aqui o cantor entoa uma nova alegoria de humanização. No disco podemos encontrar também as diversas outras marias espalhadas pelo Brasil afora juntamente com as giocondas, marias do mar, giseles, julianas, carolas, jandiras. E esse é o verdadeiro significado do disco: homenagear a singeleza da mulher brasileira em toda a sua esfera, em toda a sua dimensão e propriedade; seja ela de qualquer canto deste país ou dos quatro cantos do mundo. Uma sacada e tanto do cantor, que trouxe para esse universo do samba a redundância da mulher brasileira e de sua importância dentre tantas lutas e guerras geradas por anos a fio até a sua boniteza de sempre. Além do destaque autoral de Thiago para com as mulheres, o cantor presta uma homenagem a Gilberto Gil, remodelando a canção Super-homem, a canção (1979), que fala da fragilidade masculina perante a epopeia feminina dentro de um empoderamento de redoma ulterior e benigna. Encerrando o disco, Todas elas juntas num só ser (Lenine / Carlos Rennó) nos remete às nuances femininas em sua totalidade: a melodia traz aquela sensação de que há que ter um respeito gigantesco pela figura da mulher e ser humano que transmuta entre a menina e a mulher em sua maior predominância. Sendo muito bem representadas, o samba e a mulher são cantadas por um homem, capacitado para tal, para honrar a beleza de duas almas líricas importantíssimas para os dias atuais: a mulher e o samba. Thiago Miranda merece ser ouvido pelo conjunto da obra, pela simplicidade ao descrever situações cotidianas e pelo seu cantar trivial. Um cantor a altura de sua mais alta patente musical, de sua categoria perfeita e magistral e de sua competência artística. Com tantos arroubos musicais da atualidade, em que o que é desprezível acaba sendo degustado ou jorrado em nossa goela abaixo, ouvir e desfrutar as músicas de Thiago Miranda acaba sendo um alívio para nossos sensatos e imponentes ouvidos. 



Samba pra Elas (2017) / Thiago Miranda
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O universo do samba de Maria Rita

Sambas de Maria
Definitivamente dentro do universo do samba, como Joyce Moreno a descreveu em música, Maria Rita se consagra em um estilo único e próprio dela mesma, sem as amarras e caricaturas semelhantes às da mãe, Elis Regina, e sem o fantasma do estigma de que era uma cantora mediana graças ao talento de herdeiros. Sempre fui muito crítico com a carreira de Maria Rita, justamente porque ela não conseguia se desvencilhar da mãe e porque seus primeiros repertórios estavam fadados a ser um festival de continuidade na qual a mãe não conseguira cantar. Depois de muito tempo a cantora Maria Rita mostrou a que veio: uma verdadeira detentora do samba no século XXI. Não que seus primeiros discos sejam ruins, pois eles não o são, mas o fato de Maria estar cantando samba soa mais verdadeiro e genuíno de sua parte do que cantar músicas com roupagens fúnebres. Com lançamento oficial no dia de hoje,  Amor e Música (2018 / Universal Music / 35,00) é um dos melhores discos de samba da cantora e, de quebra, o melhor de toda a sua carreira e o fato disso acontecer é muito simples: Maria Rita, além de se consolidar no estilo do samba, conseguiu compreender que sua voz se enquadra melhor aqui do que nas canções ditas populares e intelectuais. Longe de ser uma intelectualizada na MPB, Maria já dava sinais de cansaço ao lançar discos sem graça e com apelo romantizado, coisa que não combinava em nada com seu estilo e que também não se assemelhava com o de sua mãe. Mesmo assim, La Rita vinha com trejeitos e nuances idênticos com as de Elis e isso dava a impressão de que não seria legal, que logo ela seria atacada de um monte de coisas e teria que mudar o revés do caso. Dei muitos pitacos em Maria Rita e depois que ela adentrou no universo do samba, muitas coisas aconteceram: a começar pela voz da cantora, que combina nítida e perfeitamente com o samba e dela trazer para esse ambiente cantores e compositores de outrora, misturando com os da atualidade. Com tudo isso, Maria Rita comprovou que é a detentora do samba, com bastante humildade e muita categoria. Mas tem uma coisa que me chamou a atenção nesse disco: a capa. E quem lê meus artigos desde o começo do meu ofício sabe que sou muito antenado com as capas (mesmo que muitas vezes o conteúdo seja mais significante). Primeiro que a cantora trouxe um ar da década de 1970 e 1980 com as letras no estilo medalhão de ouro e isso soa como uma nostalgia gostosa de ser lembrada e segundo porque a capa é de uma simplicidade sem igual, demonstrando que o pescoço da cantora, destoando a ideia de que sua voz é a maior potência de seu trabalho. Amor e Música mostra as diferentes gerações de compositores em diversos gêneros e a mistura agradável que isso proporcionou, como a parceria entre Arlindo Cruz e Davi Moraes, em Cara e Coragem. Não mais, a canção virou samba após Maria Rita perceber o potencial popular dela e Arlindo cair de cabeça na parceria, pois inicialmente a canção seria um blues.  Cadenciando no samba, La Rita transita entre as canções de amor às dores de saudade e o novo disco tem um fio nítido para a cantora: a faixa título, composta por Moraes Moreira no disco Cidadão em 1991, agora foi gravado em samba. A força de Maria Rita prova que a cantora se distanciou da imagem e semelhança da mãe, como sempre critiquei, e agora ela abocanha seu lugar no topo das verdadeiras cantoras da Música Popular Brasileira. O samba, hoje, pertence à Maria Rita!

 Amor e Música (2018) / Maria Rita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

domingo, 7 de janeiro de 2018

Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala (2017)

Vilela e um disco morto
Considerada por dez entre dez pessoas como sendo a cantora do ano de 2017 e por três entre dez pelos críticos de música como uma cantora nonsense no cenário popular brasileiro, a cantora e compositora Ana Vilela surgiu do mundo da mídia esporádica (aquela que te levanta a moral, mas logo te trás para o planeta Terra) e foi alçada ao mundo do showbizz da mesma forma como uma Elis Regina ou Gal Costa surgiram na década de 1960 com seus estilos competentes e dotes artísticos. Mas há uma diferença gritante e relevante nessa minha comparação pífia: Elis e Gal batalharam para serem reconhecidas como cantoras profissionais e utilizaram a voz para mostrar algum talento (coisa que até hoje, no século 21, ambas conseguem ter), enquanto que Ana precisou das mídias para se autopromover. Há algo de errado nisso? Obviamente que não, mas se levarmos em conta que Elis e Gal não eram compositoras e que ralaram muito para provar algum talento, disso ninguém pode duvidar. O mundo de hoje é formado por bestas digitais (Umberto Eco poderia nos explicar isso melhor) e com tantas coisas correndo contra o relógio, eis que as gravadoras não estão mais se importando com aquilo que é vindo da internet. Algumas poucas cantoras surgiram dali e dali estão voltando para o esquecimento, enquanto outras, verdadeiramente genuínos no seu perfil de cantoras e cantores, batalharam por uma gravadora que lhes dessem suporte artísticos para poder mostrar um pouco de suas músicas e qualidades. Ainda que algumas cantoras surgissem de gravadoras, como os casos de Ana Carolina, Maria Gadú ou Maria Rita, as mesmas se encontram sumidas da grande mídia, sem discos lançados ou, quando lançados, quase ninguém presta atenção. Ana Vilela está nesse nicho chamado famosidades instantâneas, que logo voltará de onde saiu: a internet. Se sua música Trem-Bala foi uma apoteose no ano passado, com participação até de Luan Santana, seu disco passou desapercebido pelo grande público, mesmo com a famosa música O Leãozinho, composta por Caetano Veloso para o disco Bicho (1977). Muitos sequer sabiam que ela tinha lançado um álbum com treze faixas. Outros nem sabiam que Ana Vilela era a detentora da canção Trem-Bala. O disco nasceu morto, ficou morto e morreu sem enterrar, porque assim é a mídia do caos, como diz na canção do cantor mineiro Luiz Marques (2009) e que acaba sendo um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado internet, mídia digital e afins. A música de Luiz Marques se iguala com a música Senhas, de Adriana Calcanhotto (1992) em que diz eu não gosto do bom gosto. Ana fez muitas pessoas chorarem pelos cantos do país, mas e o resto do disco, por que ninguém comenta suas outras canções? Por que a mesma mídia que a elencou não mostra as outras faixas? A resposta é simples: não há o que escutar. Trem-Bala (2017 / 22,99) já é o suficiente para que Ana Vilela nos sufoque com suas músicas de uma única estação. Mas há uma boa notícia nisso tudo: Ana Vilela fala de amor e de igualdade em suas músicas e mesmo que Trem-Bala seja uma falácia contra o moralismo radicalizado nas pessoas, a canção passa um ar de mentira, de ilusão, de sonhos inexistentes ao mundo atual e, com isso, retornemos à Mídia do Caos de Luiz Marques e as Senhas, de Adriana Calcanhotto, que são mais verdadeiras que a música blasé de Ana Vilela.


Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Maria Rita não empolga em disco ao vivo de samba


O samba de Maria Rita: particular
Maria Rita é sempre assim: quando acerta em um disco, erra no outro.  Não que seus discos sejam totalmente ruins, pelo contrário, mas é que algumas canções não caem bem em sua voz, ou a capa é estranha ou o sorriso é forçado ou alguma coisa não está bem, mas nunca que seus discos sejam ruins ou cansativos. Mas achei desesperada a ação da cantora em lançar um disco praticamente igual ao que ela acabara de lançar: Coração a Batucar (2014) é um dos melhores discos da carreira da cantora, mas colocar no mercado um disco ao vivo com as mesmas cançõe que o anterior e com algumas pinceladas de outros discos, não caiu bem e faz com que esse seja um desperdício musical total. Além de ter uma capa simples entre cores funebres e estranhas, Maria Rita errou feio ao cantar o mesmo repertório do disco anterior, chegando a ser caricato, paupérrimo, sinistro. Com uma pressa imediata para lançar o novo disco, a gravadora cometeu uma das maiores gafes do mundo da música: Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016 / Universal Music / 29,99) teve a oitava faixa, Coração a Batucar, trocada por Num Corpo Só, que não está originalmente neste repertório. A gravadora já se prontificou a ajustar o erro e quem comprou o CD com esse defeito, poderá fazer a troca através do site da Universal.  O Samba em Mim não é um bom disco, não há sustância para ser um disco de samba da melhor qualidade, porque Maria Rita já o fez anteriormente. Mas há naturalidade aqui: Maria Rita nos apresenta em O Samba em Mim um samba atualizado e na mais humilde das palavras, particular e familiar, que presta uma consideração à tradição sambista e que assume o livre-arbítrio de filtrá-la a partir da marca incomum de sua assinatura como cantora. Friso mais uma vez que esse não é o melhor disco da cantora, mas que este está interligado à Samba Meu (2007) e desde então está presente nos discos que produziu a partir deste. Samba Meu foi o primeiro grande desafio de Maria Rita no universo do samba e com este disco ela alcançou notas ainda maiores não apenas pessoal, mas com a conquista de público fiel ao seu trabalho.

 

O Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016) / Maria Rita
Nota 7
Marcelo Teixeira

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os dez melhores lançamentos de 2014


Os melhores CDs de 2014
De Alberto Salgado à Mônica Salmaso, passando por Ceumar e Criolo, o ano de 2014 foi um dos anos mais promissores para o mercado fonográfico: muitos lançamentos e muitas surpresas. Obviamente que nem tudo é flores e teve muitos CDs desprezíveis, mas na sua maioria, o ano foi de muitas novidades e, sobretudo, de muita qualidade musical. Sem ter uma posição para cada lançamento, o Mais Cultura Brasileira e, de quebra, o crítico que vos escreve, passou o decorrer do ano ouvindo muita música, muitas vozes, muitos CDs, garimpando aqui e ali nas lojas do ramo e muita coisa passou longe do meu crivo, pois não mereciam nem espaço numa linha em branco. Não foi muito difícil selecionar os dez melhores discos deste ano, mas houve algumas dúvidas, normais até então, para poder classificá-las de mediano. Mas depois de tudo acertado, eis que chego a conclusão dos melhores discos mais bem produzidos em 2014, de janeiro a dezembro e o leitor pode conferir agora. Lançando o ótimo Além do Quintal, Alberto Salgado é a revelação masculina de 2014 no Mais Cultura Brasileira!, assim como Tito Marcelo, cantor recifense residente em Brasília, uma das gratas e boas surpresas  no cenário musical. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor. Majestoso do começo ao fim, Silencia é um dos melhores discos da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Juçara Marçal nos brinda com um disco sensacional. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Maria Rita canta divinamente todas as faixas de Coração a Batucar sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Dani Calazans é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. Tito Marcelo é um desses cantores que nasceram para encantar: sensível, carismático, letrista, poeta, brasileiro. Nascido em Recife, Tito mora em Brasília e é da capital federal que surge mais um cantor de primeira grandeza na música popular brasileira. Pra Ficar no Sol é um disco interessante, irresistível, caprichado, moderno e com uma capa incrível. Aqui está todo o universo magnífico de Tito Marcelo, que se baseou nas estruturas do amor e na brejeirice das levadas infantis para compor boa parte do álbum. Corpo de Baile é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica Salmaso. Nesse disco houve um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Grata surpresa foi quando Mallu Magalhães se juntou a Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda pro Mar , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar o som de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu Zizi Possi mostra todo o seu encanto ao dar vida a Tudo se Transformou, que se transformou, sem querer, em um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e o lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora, merecidamente. E assim se completa a lista de 2014: com qualidade e muita música, boa, os melhores lançamentos são sempre os melhores. E que venha 2015!

 

 

Os melhores lançamentos de 2014
Marcelo Teixeira

domingo, 14 de setembro de 2014

As releituras de Mônica Salmaso em Corpo de Baile (2014)


Ótimas releituras
O penúltimo disco de Mônica Salmaso, Alma Lírica Brasileira, lançado em 2011, foi passado desapercebido pelo grande público e pela crítica especializada e acabou sendo um disco qualquer na sublime carreira da cantora, mesmo sendo esse disco um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Teve Adoniran Barbosa, José Miguel Wisnik, Paulo Vanzolini e o sambinha de Herivelto Martins, Meu rádio e meu mulato, mas o disco não emplacou. Agora a cantora acaba de lançar um dos discos mais nobres de sua carreira. Corpo de Baile (2014 / Biscoito Fino / 31,99) é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica. Destaques para a lindíssima Porto Araújo, já cantada brilhantemente pela cantora Simone Guimarães em seu disco Virada pra Lua (2001) e Bolero de Satã, imortalizada na voz de Elis Regina, que no disco Elis, Essa Mulher (1979) cantou ao lado de Cauby Peixoto. Recentemente, a cantora e filha de Elis, Maria Rita, deu um banho de interpretação nesta mesma música, pouco gravada do cancioneiro de uma das maiores vozes do Brasil. Quase todos os discos de Mônica são um convite para que possamos crer que a música popular brasileira está a salvo e Corpo de Baile prova mais que isso: que a música de dois gênios da música está para ser ouvida por todos e em todos os cantos. Mônica Salmaso apenas deu um verniz e explicou a importância de Guinga e Paulo César Pinheiro dentro da MPB. Corpo de Baile é um disco que merece ser ouvido. E respeitado!


Corpo de Baile / Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 24 de junho de 2014

A falsa baiana: Claudia Leite


 

Senta lá, Claudia!
Sinto pena da Claudia Leite, agora denominada Claudia Milk, talvez para ficar internacionalmente conhecida. Senti vergonha alheia de ver Claudia Leite, Milk ou o que seja, dançando, pulando, erguendo os braços num grito de gol. Foi uma fatalidade total ver a falsa baiana vestida de azul cravada de diamantes, enquanto a nossa bandeira é verde e amarela. Graças a um erro da Fifa, a cantora foi selecionada para abrir a Copa do Mundo aqui no Brasil e fazer de sua imagem uma seda rasgada, deteriorada e senil. Claudia Leite, ops, Milk, estava apagada, mal iluminada e com uma roupa cafona que custou metade daquele estádio. Sem estilo, a cantora não teve sintonia com as músicas, com o estádio, com a cantora Jennifer Lopez, com os torcedores: sua maquilagem estava carregada e seus olhos estavam mortos. Mas há vários motivos do porque Claudia não poderia ser eleita a cantora para a abertura da Copa: ela não tem estilo, não tem carisma, nem empatia, muito menos simpatia. Seu semblante é de uma pessoa depressiva, de poucos amigos. Falsa baiana que é, a cantora carioca até canta, tenta demonstrar carisma, mas não passa de uma ilusão à toa. Centrada em cantar pérolas brasileiras, a cantora demonstrou que precisa estudar o repertório que não conhece ou não teve tempo de conhecer e que precisa ser mais brasileira para ocupar o espaço de uma verdadeira estrela. Mesmo assim, Claudia subiu e cantou, mesmo que para risos esfuziantes da platéia ou do telespectador do mundo inteiro. Com tantos nomes muito mais relevantes e intelectualizados no país, por que a Fifa chamou logo Claudia Leite, uma cantora que não tem aquele charme e nem aquela pureza de cantora baiana? Ivete Sangalo e Daniela Mercury estavam livres para aceitar o convite, assim como Maria Rita, Gal Costa ou Zizi Possi. Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil estavam totalmente desocupados para ocupar o lugar daquele cantor que só agitava os braços. E por que chamar uma cantora do porte de Jennifer Lopez, se temos muito mais capacidade de ter ali uma cantora nossa? Se a Fifa não tem respostas, eu tenho: a Fifa não é brasileira e isso todos nós sabemos. Escolheu cantores, artistas, figurinistas, pessoas e crianças estrangeiras e demonstrou, a torto e a direito, que não conhecem o nosso país. No final de tudo, acho que a razão até esteja com Claudia, quando canta no trecho em português de We Are One: Não importa o resultado, vamos extravasar! Rainha do pior axé music de todos os tempos, a única coisa que resta aos brasileiros e a própria cantora é extravar e rezar para que o Brasil ganhe a Copa. Não importa para os amantes da MPB, o resultado final: o importante aqui é que a música produzida por Claudia Leite é da pior qualidade, mesmo ela ganhando dinheiro e muito dinheiro. Perante o vexame de ver Claudia Leite cantando no centro do mundo, tive a certeza de que estamos falidos musicalmente, ao menos naquele momento em que ela se requebrava. Pensei na luta de cantores que tentam um espaço para sobreviver e pensei na paz do mundo se não tivessemos uma Claudia Leite.

 

A falsa baiana / Claudia Leite
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Brasil de Gog e o choro de Maria Rita

Gog: uma voz na multidão
Há uma certa emoção e um pouco de alívio ao ouvir o cantor de rap Gog, estrela entre as estrelas do mundo das rimas perfeitas, quando ele canta a música Brasil com P, canção que é totalmente cantada pela palavra P no seu início. Gog é um cantor da periferia, das massas pobres que pensam, dos proletáriados que acordam cedo para ganhar o pão de cada dia, das mulheres fortes, dos homens comuns. No Brasil sempre houve cantores políticos: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Criolo, Seu Jorge, mas o mais político foi Gonzaguinha e vendo Gog cantar o que canta hoje, sinto que a música popular brasileira, sem rotulagem, se transforma em um Gonzaguinha dos gritos esbaforidos, do beijo na bandeira amarrada num saco plástico, no homem de olhar atento e arregalado que espera  a mulher passar para passar em seguida. Gog é um nome forte contra o governo nacional, contra as mazelas e cóleras que assombram Brasília, que luta a favor dos pobres e discrimina a elite denominada de grandeza secular que insiste em comandar o país. Um cantor verdadeiramente brasileiro, desses raros que encontramos no cenário nacional, dos poucos que dão a cara a bater e que não tem medo do que canta. Aliás, Gog canta, escreve, contesta, irrita, anima, estimula e cresce quando sua voz emerge nos palcos cantando justamente sobre os problemas sociais que estão aqui, ali, na esquina, nos bares, na vida pública e privada de todos nós. Gog nasceu em Brasília e seu nome de batismo é Genival Oliveira Gonçalves e desde os anos de 1990 tenta trilhar um caminho destinado à música. Conseguiu com grande mérito se tornar hoje um dos grandes nomes nacionais do rap, movimento que causa furor e constrangimento para a chamada classe burguesa. Mas Gog é muito mais do que uma abreviação: ele é a música em pessoa. Ao ouvirmos a música Brasil com P, temos a nítida sensação de que era disso que precisávamos para acordar e dizer que o Brasil é uma grande frustração e ao mesmo tempo uma grande nação. Mas há também, como contesta a canção, o homem trabalhador que acorda cedo e busca melhorar seu dia com muito esforço, mostrando que aqui e ali há peças fundamentais para o andamento do país. Contradizendo a história, Brasil com P tem dois elementos básicos representativos ontem, hoje, amanhã e sempre: o preto, pobre e periférico contra o político privilegiado  que recebe todas as honrarias e méritos que o preto e pobre deveria honrar. Se não fosse o bastante, Gog conseguiu transformar Brasil com P em uma obra-prima ao compor a música toda pela letra P, fazendo deste momento uma história comum e real de duas esferas humanas e irracionais. A canção por si só e na voz magistrosa, poderosa, firme e decidida de Gog já valeria por milhões e milhões de canções politizadas existentes no mundo, mas a participação definitiva, corajosa e rica de Maria Rita fazendo coro ao fundo, ganha um brilho a mais e faz com que Brasil com P seja uma música forte, certeira e um hino contra a magistração irregular do homem poderoso e viril. Maria Rita não canta, mas empresta sua voz para ser a mulher que chora num lamento fúnebre, arrancando arrepios e sensações adversas ao tentar balbuciar algo que está preso em sua garganta. Após a explosão de Gog, a música encerra e o sopro de Maria Rita se cala. Gog a abraça num acalanto. Brasil com P é isso: um peso na consciência de quem muito deve e um sopro de alívio de quem nada teme.
 
 

Brasil com P / Gog e Maria Rita
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O samba pede passagem à Maria Rita

Emocionante e sensível
O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Coração a Batucar (2014 / Universal Music / 26,90) tem um pequeno deslize, mas o resultado soou muito bem, obrigado. O único deslize é a capa, que trouxe um ar sombrio, fúnebre e nada convencional com o samba, mas as músicas que abocanham o disco (e as fotos no encarte) por um todo faz com que esqueçamos rapidamente deste mero detalhe e entremos diretamente para o mundo do samba. Maria Rita cresceu e apareceu, ficou mais madura e responsável por sua voz e há uma diferença muito grande entre Samba Meu (2007) e Coração a Batucar (2014). Aqui as músicas foram selecionadas a dedo e Maria Rita está cantando divinamente, com uma voz brilhante, límpida e cristalina. Se no primeiro disco de samba não houve o tempo ou o respaldo para interagir com o manifesto, aqui a cantora conseguiu driblar toda a sua experiência e fazer com que Coração a Batucar batucasse nos corações e nas almas de todos aqueles que a odeiam e a amam. Sempre fui contra a carreira de Maria Rita. Desde que foi lançada a ideia de que a filha ilustre e desconhecida de Elis iria se lançar como cantora, em 2003, a imprensa, a mídia, a fonografia e todos os fãs se mobilizaram para a espera desta grande oportunidade. Todos estavam a espera de uma nova Elis e o que se viu foi uma Maria Rita timida, recatada e que cantava habilmente as canções que a MPB lhe propusera. O resultado foi um disco mediano, mas um disco a altura de Maria Rita. Os discos seguintes foram discos seguintes, sem grandes alardes em sua carreira, mas com um dedinho no samba, como na música Conta Outra, gravada ao vivo para o disco Segundo (2005), cujo teve uma repercussão plausível. A minha indignação com relação a Maria Rita trata-se apenas e oriundamente pelo fato da cantora estar sempre veinculada a imagem da mãe, desde em gestos faciais até posturas em palco. Mas quando Maria Rita canta samba tudo muda e ela encarna a própria Maria Rita. Como cita a música É corpo, é alma, é religião, Maria Rita não nasceu no samba, mas o samba nasceu em si numa forma complacente de que o seu terreno é a MPB, mas que o samba é seu ponto forte e é neste ritmo bem brasileiro que a cantora se mostra a que veio. Maria Rita canta divinamente todas as faixas do disco sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Fica até mesmo dificil dizer qual a melhor música de todo o álbum, mas arrisco dizer que  No Mistério do Samba, composta pela competente Joyce Moreno é uma lição do que é ser sambista. Joyce, que adora jazz e foi descoberta na época da bossa nova, perambulou pela MPB e se caracterizou no samba, é mestre no que faz e seu recado foi dado: há um mistério que ronda o samba de Maria Rita e há uma fidelidade da cantora para com o estilo. A cantora poderia se lançar fielmente ao segmento e só cantar samba, pois aqui Maria Rita se diverte, se anima e faz com que muitos a sigam por onde passa. Na sua plenitude e dentro deste universo sambístico, Maria Rita reina única e absoluta, juntando o brilho de sua voz e a capacidade de sua emoção. Mistério do samba ou não, o fato é que a cantora brilha sensivelmente em seu estilo e consegue fazer um dos melhores discos, mais completos e mais autênticos de sua carreira, dando a volta por cima e sendo, mais uma vez, Maria Rita. Que os deuses do samba possam sambar, pois aqui tem samba de verdade; abram as rodas porque aqui tem samba no pé; deixem de lado as sandálias porque aqui tem um coração a batucar. Maria Rita não nasceu no hemisfério do samba, mas deixa seu coração batucar mais forte quando cai numa roda de bamba. Viva o samba de Maria Rita.
 

Coração a Batucar (2014) / Maria Rita
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O lado asco de Naldo: a sua música!


Naldo: totalmente oco
Nós tínhamos um excelente repertório no início de carreira”. A frase poderia ter saído da boca de um Caetano, um Chico, um Milton, um Gil ou um Djavan ou, até mesmo de uma Ná Ozzeti, Tiê, Tulipa Ruiz, Rita Lee, Maria Rita, mas não. Saiu da boca de um cantor fajuto que saiu da pobreza cantando marombas sem pé nem cabeça e embalando cabeças ocas e sem futuro. A frase é de Naldo agora Benny, porque talvez ele ache melhor ter um sobrenome americanizado. A frase dita por Naldo foi proferida no programa do apresentador Roberto Justus e quando dita, soltei uma risada iâmbica, assustadoramente igual ao da usurpadora Paola Bracho. Se Naldo tinha um excelente repertório no início de carreira, então o que ele canta hoje são louvores dignos de uma plateia repleto de ignorantes marginalizados que estão ali para ouvir e ver um cantor com mais músculos que inteligência musical. Naldo é um desses cantores que merecem ir para a latrina e ao darmos várias descargas, temos que ter a certeza de que ele não voltará a nos perturbar. Perturbação é com ele mesmo, por sinal. Ultimamente, o cantor tem participado de programas de auditorio e fazendo ar de garoto propaganda de vários patrocinadores com sua musiquinha horrenda e sem intelectualidade alguma.

Desejo vida curta ao Naldo pelo simples fato de que sua própria vida musical é digna de panfletagem mórbida. Naldo é a personificação da pior espécie de músico, o que consegue atrair para si um número gritante de loucas e alucinadas e ainda por cima consegue ser o centro das atenções até mesmo quando o assunto não é música, uma área que ele, definitivamente, não conhece. Lançando seu mais recente disquinho, Na Veia, Naldo emplacou apenas um sucesso, mas está mais conhecido como o garoto da dúvida entre wisk ou água de coco. Pra ele tanto faz.

A frase faz parte de uma pergunta de Justus sobre o início da carreira musical do cantor, que fazia dupla com o irmão, assassinado à tiros e que Naldo evitou tocar no assunto. Formavam um grupo de rap carioca e o tal disco fora lançado no inicio dos anos 2000. Nesse mesmo ano, quem estourava de norte ao sul do país era a diva baiana Daniela Mercury, que estava ao seu lado no programa e que mal conversaram. Deboche de si mesmo, Naldo é o pior cantor surgido nos últimos anos. Até mesmo um cantor sertanejo recém chegado ao mundo fonográfico seria melhor que ele. Venhamos e convenhamos, mas Naldo já deu o que tinha que dar.

 

O lado asco de Naldo: a sua música!

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A superficialidade e pouca intimidade de Vanessa da Mata cantando Tom Jobim


A bossa pop de Vanessa: bom e médio
 

Superar Elis Regina ou Gal Costa em um disco homenageando Tom Jobim, não é tarefa fácil. Não somente Tom, que foi um dos maiores maestros que o Brasil já teve, mas qualquer grande compositor brasileiro, o trabalho é árduo e o resultado tem que sair perfeito. Vanessa da Mata bem que tentou, mas derrapou feio ao homenagear Tom Jobim, tendo em vista que a cantora não é familiarizada com o repertório do compositor e nem gravou (ao menos que eu me lembre) alguma música do cancioneiro jobiniano. Vanessa é a estrela da vez do Projeto Nívea que homenageia artistas que foram importantes para a música brasileira. Anteriormente, Elis Regina vinha embalada pela voz da filha Maria Rita, que emocionou no começo, mas depois derrapou na mesmice de ser apenas a filha de Elis. Em 2012, Vanessa da Mata fez uma temporada de shows no Sesc Pompéia, em São Paulo, abordando a obra de Luiz Gonzaga com resultado surpreendente. Era patente a identificação da artista com aquela obra, ora exposta de forma leve e moderna em poucas apresentações que não tenho notícia se foram ou não gravadas. Deveriam ter sido.

Vanessa também já tem um cd autoral pronto para lançamento. Boa compositora lançada por Maria Bethânia em 1999, soa natural que este trabalho inédito seja até aguardado com mais interesse. Mas veio o projeto da Nívea Viva com a proposta de uma série de espetáculos com canções de Tom Jobim. Depois de Elis, o repertório do maestro mais conhecido do Brasil acabou se transformado em cd de estúdio intitulado Vanessa da Mata canta Tom Jobim (2013 / Sony Music / 25,99).

Mesmo antes do lançamento já se ouvia rumores pouco edificantes sobre o trabalho. Puro preconceito. Com arranjos de Eumir Deodato, produção de Kassin e uma boa seleção de músicos convidados, Vanessa da Mata Canta Tom Jobim, não é um tragédia. Está, porém, anos luz de ser digno de lembrança histórica. As músicas selecionadas são manjadas do grande público e nenhuma novidade foi presenteada aos fãs. Mas a voz de Vanessa agrada do começo ao fim e mesmo soando pop demais, o disco é bacaninha. Pop no sentido de atrair o público mais jovem e que não tem contatos com a obra de Tom, podem se render ainda mais à carreira de ambos os artistas.

O maior acerto do trabalho é mesmo a produção de Kassin. Aparentando uma busca de rejuvenescimento de canções tão famosas e pertencentes ao imaginário coletivo do brasileiro, as soluções do produtor em momento algum descaracterizam o cancioneiro de Jobim. Ao contrário, ajudam a dar uma cara jovem e atualizada a estes clássicos. Eumir também acerta em muito na atmosfera reverente dos arranjos, principalmente os de cordas. O problema é mesmo a Vanessa cantora.

Ainda que a matogrossense tenha bons momentos nas interpretações de Caminhos Cruzados (Jobim / Custódio Mesquita), música que abre o cd, Chovendo na Roseira (Tom Jobim), Só Danço Samba (Jobim / Vinícius de Moraes) e Este seu Olhar (Tom Jobim), o tom que domina o trabalho é estridente demais, alto demais. Muito pouco à vontade na ambientação de temas que exigem um pouco mais que apenas afinação (não, Vanessa não desafina no cd), o descompasso atinge seu auge em Dindi (Jobim / Aloysio de Oliveira), quase gritada a cada final de frase, e, principalmente, em Por Causa de Você, densa parceria de Jobim com Dolores Duran, que na voz de Vanessa soa rasteira, sem pingo de originalidade ou inspiração. Dindi, aliás, só consigo ouvir, atualmente, na voz de Virgínia Rosa no belo disco Voz & Piano (2010 / Lua Discos / 24,99) com o pianista Geraldo Flach.

A média de Vanessa da Mata Canta Tom Jobim fica num patamar bem aquém de outros tantos tributos outrora dedicados a Tom Jobim. Em que pese a boa produção de Kassin, o cd derrapa na superficialidade e na pouca intimidade da cantora com a obra do maior maestro brasileiro. Mas o disco é bonzinho.


Vanessa da Mata Canta Tom Jobim / Vanessa da Mata
Nota 7

Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pedro Mariano: sucesso e decadência


Pedro: sem rumo certo
Sempre me perguntei o porque Pedro Mariano nunca tinha gravado uma música com a irmã, Maria Rita. Isso não aconteceu nem no CD em homenagem à mãe, uma tal Elis, que Maria Rita gravou ao vivo e em disco duplo no ano passado. Critiquei a atitude de Maria Rita no artigo Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia, em não convidar o irmão meia boca para cantar os sucessos da mãe. Em vão. Pedro Mariano veio com um disco de estreia digno dos melhores para um iniciante e tentou se desvencilhar da imagem da mãe, que conseguiu com tamanha maestria. O disco foi muito bem aceito pela crítica, pelo público e por pessoas ávidos por uma boa música. Estou me referindo ao disco Voz no Ouvido, já retratado aqui no Mais Cultura Brasileira! e não o seu canhestro disco, lançado em 1997, chamado Pedro Camargo Mariano, lançado pela Sony Music, hoje quase uma relíquia ao ser encontrado nas lojas e departamentos e que infelizmente eu tenho para meu desgosto.

Pedro Mariano já passou por tantos infernos astrais, que apenas o sobrenome e a mãe que teve não podem fazer nada por ele. Depois de Voz no Ouvido, sua carreira acabou definitivamente. Tentando se valer de mocinho direito que faz a lição de casa corretamente, lançou em 2002 Intuição, que contou com composições de Jorge Vercilo, Tom Jobim, Lulu Santos e voz de Zélia Duncan e um grupinho da Trama. O disco não fez tanta repercussão como o anterior e em 2003 lançou com o pai, César Camargo Mariano, o delicioso disco Piano e Voz, com músicas de Noel Rosa, Gilberto Gil e Rita Lee. O disco passou despercebido pelo público, mas ainda assim, retoma a carreira de cantor de MPB que muitos esperavam de Pedro Mariano.

O que falta na carreira de Pedro Mariano deslanchar é sair da barra da saia da mãe e assumir uma posição maioral de cantor e que pode mandar em seu próprio nariz, assim como faz a irmã, Maria Rita. A briga que teve com o meio irmão, João Marcelo Bôscoli, em 2004, fez com que a carreira dele despencasse para o nicho. Pedro engordou e muito, ficou feio, sua voz já não estava mais agradando e seus discos estão caindo na cafonice. Esperemos que a volta por cima do cantor seja rápida, pois o grupo da Trama veio para se firmar como os filhos ilustres dos pais que fizeram muito pela nossa música.

 

Pedro Mariano: sucesso e decadência

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A briga das cantoras Maria Rita e Rita Maria perdura desde 2003


A afinadíssima Rita Maria
A briga começou em 2003 e até hoje rende uma fofoca ali ou acolá sobre o assunto: a cantora Maria Rita (não a filha de Elis) foi obrigada a trocar de nome para não ter complicações na carreira e, assim, passou a ser chamada de Rita Maria. Na estrada há quinze anos, a cantora agora chamada de Rita Maria descobriu ao longo de 2003 que ia ter de mudar de nome. Virou Rita Maria, para escapar da confusão com a outra Maria Rita, a filha de Elis Regina, a que agora todo mundo conhece e que lançou seu primeiro disco em 2003, fazendo enorme sucesso de público e crítica. Definindo-se cantora genérica num divertido texto em seu site (www.mariarita.mus.br), Rita Maria conta o auge a que chegou a confusão, quando um show seu coincidiu com o de Chico Pinheiro, no qual estreava Maria Rita Mariano: “As pessoas iam ao camarim chorando e me dizendo: 'Você é a cara da sua mãe, sua voz é igual à dela'. Caíram muitas fichas para mim.

Rita Maria é cantora e compositora paulistana, que desde o início de sua carreira desenvolve trabalho autoral e inédito. O primeiro registro dessa trajetória é o CD FORA DE ÓRBITA – gravação independente com distribuição da Tratore. Sua formação musical inclui aulas de canto lírico (com Elenis Guimarães na Escola Municipal de Música de São Paulo), canto popular com Beth Amin e Regina Machado, percussão corporal (com Fernando Barbosa – barbatuques), piano, improvisação vocal, arranjo vocal e regência coral.

Rita Maria também é professora de canto popular em escolas renomadas da capital paulista (Espaço Musical, Canto do Brasil e Intermezzo) e aluna do curso de licenciatura em música da Universidade de São Paulo. Atualmente prepara a gravação de seu segundo CD, com produção de Gilberto Assis.

Assim como Rita Ribeiro, que hoje assina Rita Benedditto ou a cantora Anna Luiza, que agora assina Anna Ratto, Rita Maria trocou o nome para não haver confusão futuramente. Já chegou ao ponto de Rita Maria estar sendo entrevistada e tocar ao fundo uma música de Maria Rita.

Zélia Duncan já fora Zélia Cristina, Gal Costa era Maria da Graça, Gonzaguinha já fora Luiz Gonzaga Junior, Jorge Ben Jor agora é Jorge Ben, Sandra Sá agora é Sandra de Sá, Joyce virou Joyce Moreno, Marisa Gata Mansa virou apenas Marisa, Baby Consuelo agora é Brasil. No caso de Rita Benedditto e Anna Luiza, as cantoras também eram confundidas aqui no Brasil e no exterior com outras cantoras com mesmo nome. Anna Luiza é uma outra cantora que canta ao lado de Luiz Felipe Gama e que tem uma voz cristalina e de difícil alcance e que não se parece com a Anna Luiza que agora virou Ratto. Já Rita Ribeiro é muito confundida em Portugal. Confuso? Um pouco, ainda mais quando não se conhece profundamente as cantoras.

Como toda grande estrela, Rita Maria deixou de ser Maria Rita, mas não perdeu sua verdadeira identidade.


Maria Rita vira Rita Maria porque Maria Rita é a filha de Elis Regina

Marcelo Teixeira

terça-feira, 5 de março de 2013

Virada Pra Lua, ótimo disco de Simone Guimarães





Um dos melhores de 2001
Simone Guimarães é uma dessas raras e poucas cantoras que nos pegam de supetão na primeira audição e seu terceiro disco de carreira, Virada Pra Lua (2001 / Lua Discos / 24,99) é um desses achados que encontramos e não desgrudamos jamais pelo alto teor de riquezas musicais, bela voz, ótimas letras e um brilho capaz de nos transportar a regiões distantes a quais praticamente só a lembrança é capaz de nos levar. Leve e harmonioso, o disco nos dá a sensação de prazer misturado a capacitação de que a música brasileira não precisa se calar diante boas letras. E é justamente isso o que acontece com Simone Guimarães e seu excelente disco Virada Pra Lua. Tendo como padrinho Milton Nascimento, a qual empresta sua voz na canção Imagem e Semelhança (mais tarde esta mesma música e dueto viria a fazer parte do ótimo CD Pietá, lançado por Milton com participação da própria Simone e das cantoras Marina Machado e Maria Rita), o disco também conta com a parceria de Guinga em alguns arranjos bem selecionados.

Além de submergir por sua amabilidade, o disco surpreende pela variedade sonora, fazendo com que a cantora se perca ou se ache em seu rótulo como cantora de MPB, regional ou o que quer que seja: Simone não precisa de rótulos. Virada Pra Lua comprova isso, embora algumas faixas nos remetem a regionalidade a qual a cantora pertenceu. Na faixa-título, Simone manda um sambinha de melodia sofisticada, assim como em Imensidade (com letra em reverência aos negros brasileiros).

Ainda num fato mais dançante, vêm Night-club, acudida em um ritmo delicadamente delicioso, com tom de bolero, e 30 Anos, que ganhou arranjo de metais e batida black. Vale menção também ao leve sabor nordestino de Sertão das Águas (Dois). E ainda se arrisca em uma curiosa marchinha Marilyn, cujo canta as mulheres fortes e determinadas do Brasil e do Mundo e que fecha o disco com um toque bem-humorado. Na outra ponta do disco, Simone nos leva a trafegar bem em localidades mais líricas. Caso da bela harmonia de Cenários, apreciada pelo vicissitude entre piano e sax soprano no arranjo, e das doces Meu Coração e A Fábula do Riacho.

Simone Guimarães merece ser ouvida 365 dias.

 

Faixas

1. Virada Pra Lua (Simone Guimarães / Sergio Natureza)

2. Cenários (Misael da Hora / Julio Moura)

3. Imagem E Semelhança (Bena Lobo / Kiko Continentino / Milton Nascimento) - com Milton Nascimento

4. Imensidade (Simone Guimarães)

5. Porte De Araújo (Guinga / Paulo César Pinheiro) - com Guinga

6. Night Club (Kiko Continentino / Simone Guimarães)

7. 30 Anos (Ivan Lins / Vitor Martins)

8. Meu Coração (Thomas Roth)

9. Sertão Das Águas (Yuri Popoff / Simone Guimarães)

10. A Fábula Do Riacho (Simone Guimarães / Cristina Saraiva)

11. Cumbuca (José Márcio Castro Alves)

12. Convulsionada (Simone Guimarães)

13. Marilyn (Simone Guimarães / Rosana Zaidan)

 

Virada Pra Lua / Simone Guimarães

Nota 10

Marcelo Teixeira