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sábado, 26 de novembro de 2016

Entrevista com Virgínia Rosa


Virgínia Rosa: a entrevistada
Não é fácil ser Virgínia Rosa¹: além de dar vida à papéis importantes tanto na TV como no teatro, a cantora conseguiu uma brecha em sua agenda para receber o Mais Cultura Brasileira e nos brindar com sua simpatia e cordialidade para nos falar sobre sua história musical e seus planos futuros. Seus trabalhos são expressivos e marcantes, como a Dora, a mãe protetora da personagem de Camilia Pitanga na novela Babilônia – 2015; uma das mulheres retratadas em música na peça Palavra de Mulher – 2011 até o momento; faz uma bela homenagem à Carmen Miranda no musical Na Batucada da Vida – 2009 até o momento e Dona Zica em Cartola, O Mundo é um Moinho – 2016. Cantou Monsueto com brilhantismo total, dividiu vocal com inúmeros artistas conceituados e hoje reina absoluta com uma carreira sólida que conquistou aos poucos. De Itamar Assumpção passando por Cartola e Clara Nunes,  a cantora nos conta suas preferências, suas inspirações e sua paixão musical. Elogiada por dez entre dez estrelas do nosso cenário artístico, Virgínia é uma artista humilde, que tem sempre o sorriso largo no rosto e que nos cativa com seu canto, seu olhar e sua voz poderosa, impactante e emocionante. Nestes cinco anos de escrita homérica sobre a música nacional, tenho o prazer e a felicidade de poder entrevistar uma das cantoras que estava namorando para este momento desde 2012.

¹foto de Gal Oppido (acervo Virgínia Rosa)

 
Marcelo Teixeira - A sua relação com Itamar Assumpão era muito forte e vibrante e o próprio Itamar deixava a todos no palco inquietos com suas provocações musicais. O que você herdou de Itamar e o que você mais guarda de lembrança dele?

Virgínia Rosa - Tenho uma lembrança muito boa e instigante. Itamar foi um artista genial e extremamente exigente que às vezes era até difícil conviver, mas que me passou essa inquietação boa que nos deixava na corda bamba e nos empurrava para frente a todo momento, não tinha acomodação. Tudo era novidade pra mim naquele tempo, a estética musical muito diferente  do que eu já tinha ouvido, as pessoas... Mas como papai em casa já me mostrava coisas novas como os Secos & Molhados, The Beatles e etc, essa curiosidade e abertura para o novo já começava no meu lar através  do Sr. João, quando recebi o convite para estar na Banda Isca de Polícia. Aceitei, mesmo não sabendo muito bem onde chegaria com esse novo som. Meu pai me disse: Vá, minha filha, quem sabe abrem umas portas para você? E eu fui!

MT -  Em Cartola – O Mundo é Um Moínho (2016), você interpretou  um ícone dos bastidores do samba e foi uma responsabilidade enorme,  que te trouxe o grande reconhecimento do público e da mídia. Como foi a sensação de poder ser Dona Zica no teatro?

VR - Foi um presente, um convite, uma oportunidade de mergulhar em um personagem que existiu e que traz em sua trajetória de vida toda a força de superação, ternura e amor ao ser humano, à vida! A construção da minha Dona Zica não existiria sem as indicações generosas de sua neta Nilcemar Nogueira, toda cumplicidade com Flavio Bauraqui e a confiança de Roberto Lage e Jô Santana que viram em mim essa possibilidade. No mais segui a minha intuição pedindo licença à Dona Zica e que ela me abençoasse.

MT – Você fez uma linda homenagem à Clara Nunes no disco Virginia Rosa Canta Clara (2015). De onde veio a inspiração para poder homenagear uma das maiores cantoras do Brasil?

VR - Ouvi Clara Nunes dentro do meu lar, minha mãe já cantarolava. Depois já cantora profissional, precisamente em 2004, participei de um show em homenagem aos ABC do samba, Alcione, Bete Carvalho e Clara Nunes juntamente com outras cantoras. Nesse show escolhi  6 canções do repertório da Clara, entre elas Canto das Três Raças e cantando essas músicas e especialmente o CANTO DAS TRÊS RAÇAS me comoveu muito e também percebi a emoção tomar conta da plateia. E essa emoção me levou a um lugar que eu nunca tinha estado antes que é o encontro com a nossa ancestralidade e essa sensação me levou à vontade de cantar mais Clara, conhecer mais o seu repertório e sobre ela. Daí comecei a fazer os shows por São Paulo e algumas outras cidades. Como era um show já pronto fui propor um circuito de shows pelo SESC e como resposta recebi um convite através do professor Danilo Miranda para gravar um CD sobre esse trabalho para minha surpresa.

 MT   Um disco?

VR - Canção do Amor Demais    (Elizeth Cardoso)

MT – Um cantor e uma cantora.

VR - Luiz Melodia e Concha Buika.

MT  Quais foram suas influências musicais?

VR – Muitas. Vou citar algumas cantoras que passearam por mim, entre elas: Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Edith Piaf, Clementina de Jesus, Maria Callas, Billie Holiday, Meredith Monk, Laurie Anderson, Marisa Monte, Cássia Eller, Amália Rodrigues, Madonna e assim vai... Quanto aos músicos, as influências foram Astor Piazzolla e Bill Evans.

MT – Vírginia Rosa por Vírginia Rosa.

VR - Uma pessoa em busca. Inquieta e calma ao mesmo tempo. E essa busca é algo que dê sentido a nossa existência tão efêmera e o que podemos fazer para valer o tempo que passamos nesse mundo. Busco isso no meu dia-a dia e através da minha arte. Essa sou seu.

MT – O que te inspira a cantar?

VR - Uma vontade enorme de fazer uma coisa bonita, no caso, cantar e ver a reação de prazer que isso me causa e também nas pessoas que me ouvem. A emoção sempre está nos meus shows e isso é transformador para mim e para a platéia.

MT – Televisão, teatro, música... o que podemos esperar de Virginia Rosa para 2017?

VR - Ainda não sei, mas estou aí, viva e atenta aos sinais e convites que possam vir (risos) Concreto: A temporada do musical Cartola no Rio de janeiro entre março, abril e maio e  devemos fazer algumas capitais também. Continuarei a fazer shows de lançamento do CD Virgínia Rosa Canta Clara pelos SESCs, os projetos especias também devem continuar, Palavra de Mulher, Na Batucada da Vida... E começarei a trabalhar o novo disco.

MT - Música é...?

VR - Um bálsamo para humanidade.


O Mais Cultura Brasileira e eu, ensaísta e crítico musical deste blog, assim como os inúmeros leitores, agradecemos à você, Virgínia, por este momento único. Muito obrigado e sucesso sempre!


Entrevista com Virgínia Rosa
Por Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Por que devemos ouvir Virgínia Rosa?

Virgínia Rosa: uma voz espetacular
A elegância, a sofisticação, a naturalidade de sua voz e o respeito para com seu público são marcas registradas da cantora e atriz Virgínia Rosa, que acabou de fazer uma das temporadas teatrais mais emocionante do ano ao interpretar Dona Zica em Cartola – O Mundo é um Moinho, no teatro Sérgio Cardoso, fora a sua magistral interpretação em Palavras de Mulher, ao lado de Lucinha Lins e Tânia Alves, que rodou o Brasil inteiro cantando as músicas de Chico Buarque. Os resquísitos básicos de uma grande diva da música são estes citados acima, mas para Virgínia é preciso muito mais adjetivos para poder contempletá-la. As nuances de sua voz assim como as possibilidades de perfeição que alcança com as notas lançadas dão o frescor de sua garra como cantora e nos levam ao delírio máximo de êxtase absoluto. Enquanto os elementos mais alienados da música popular brasileira usam de todos os meios possíveis para se promover e agir, a cantora segue por uma linha que beira a bonança e o triunfo por chegar em um momento sublime da carreira sem desprezar ninguém. Virgínia trabalhou com Itamar Assumpção, o louco maldito da música vanguarda dos anos 1980 e desse experimento surgiu uma mulher completa na cultura brasileira, sendo capaz de nos hipnotizar com seu carisma e nos brindar com sua categoria postural e brilhante.  Virgínia canta com emoção, com sentimento, alma e são essas energias que a fazem brilhar cada dia mais. A questão da música popular brasileira vir sofrendo uma dependência quimíca abstrata nos tempos atuais faz com que a qualidade musical seja cada vez mais banida de uma esfera de categoria que engloba a resolução de uma resposta imediata para a massa que necessita ouvir boas coisas, mas Virgínia impera absoluta neste campo e consegue transmitir seu recado sem a necessidade de se perder ou se expor de forma contrária. É preciso ouvir Virgínia Rosa porque ela representa a alma lírica da música popular, traduzindo sua fidelidade e comunicação com o povo brasileiro, pois quem a ouve entende perfeitamente sua química, seu encantamento, sua beleza e seu resultado gratificante. Ouçamos mais Virgínia Rosa pela astúcia de seu trabalho, pelo vigor de sua responsabilidade cultural, pelo seu talento descomunal e pela conservação de seu canto. Ouçamos Virgínia Rosa pela densidade de sua categoria exemplar, pela fibra que carrega, pela disposição de seu carinho. Ouçamos Virgínia Rosa e isso será um ato de respeito à nossa própria cultura.
 

Por que devemos ouvir Virgínia Rosa?
Por Marcelo Teixeira

domingo, 16 de outubro de 2016

Cartola - O Musical: emoção à flor da pele

Cartola e Zica: muito samba
Chega a ser difícil segurar a emoção e conter as lágrimas quando vemos Cartola (1908 – 1980) e Dona Zica (1903 – 2003) bem de frente para nós, com suas roupas de outrora, seus passos envelhecidos, seus trejeitos amadurecidos e suas histórias de vida sendo muito bem representados pelos atores e cantores Flávio Bauraqui (perfeito, impecável, espetacular) e Virgínia Rosa (linda, esplêndida, maravilhosa). É impressionante a dramatização que o musical Cartola – O Mundo é um Moinho¹ transpassa para o público que lotou o Teatro Sérgio Cardoso neste sábado, 15 de outubro: com uma sincronização perfeita, elenco afiado e texto primoroso, todos ali presentes estavam ansiosos pela próxima cena, que era muito bem narrada pelo ator, cantor e escritor Hugo Germano (um banho de interpretação). O público estava fervilhando de emoção com cada música cantada, com cada movimento no palco, mas o momento mais esperado era o encontro entre Cartola e Dona Zica. E isso acontece, óbvio, mas para chegar nesse período sublime (e real) é preciso contar toda a trajetória do cantor e compositor carioca, que preferia o morro do que a comodidade de um lar digno de reis e marajás. O musical não deixa a desejar em nenhuma ocasião e a plateia fica tão extasiada, que as palmas eclodem o lotado teatro a todo instante. Que perfeito casal de atores! Flávio e Virgínia estão em um momento espetacular, tendo em vista que há tantos musicais importantes na cidade que já foram produzidos e que estão em fase de produção.  Com idealização do ator e produtor Jô Santana, dramaturgia de Artur Xexéo, direção e encenação de Roberto Lage, pesquisa detalhada da neta do homenageado, Nilcemar Nogueira (que também é diretora do Museu do Samba no Rio de Janeiro) e direção musical de Rildo Hora, Cartola - O Mundo é um Moinho conta a trajetória de um dos maiores nomes do samba, cujo fora o fundador de uma das escolas mais antigas e com toda a certeza a mais popular: Estação Primeira de Mangueira. Vá agora assistir ao musical, porque é uma obra-prima! Mas leve um lencinho, porque você vai se emocionar do começo ao fim. Chegando ao final do espetáculo é preciso parar para uma reflexão: na última cena, em que Cartola e Dona Zica fincam seus nomes no samba e com uma alegria insana, é possível dizer que eles estavam de fato presentes ali no teatro. Vírginia cresce virginosamente no final do primeiro ato para o início do segundo e consegue colocar nos eixos a vida de Cartola e a sua música perene.  É inconcebível reconhecer os atores como eles mesmos, pois a caracterização de todos é tão impactante, que chega a beirar a perfeição com tantos detalhes importantes. Vale destacar também a bela apresentação de Adriana Lessa (sem palavras, grande atriz, excepcional artista), Edu Silva e seu magistral Carlos CachaçaSilvetty Montilla (divina em um papel feito exclusivamente para ela), que nos deram momentos de risos deslubrantes. Destaque para Augusto Pompêo, que interpretou o pai de Cartola, nos dando um banho de intepretação, André Muato que ironizou Nelson Cavaquinho, Paulo Américo com seu vozeirão magnífico dando voz também ao Zé Ketti, Lu Fogaça e sua Nara Leão bem tímida e perfeitinha e Gabriel Vicente, que conseguiu captar detalhes homéricos de Francisco Alves. Palmas esfuziantes para os astros da noite: Flávio Bauraqui e Virgínia Rosa e seus talentos extraordinários! Viva Cartola!
¹A peça fica em cartaz até o dia 31/10/2016
Elenco: Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Adriana Lessa, Hugo Germano, Augusto Pompêo, Ivan de Almeida, Silvetty Montilla, Edu Silva, Renata Vilela, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente, Rodrigo Fernando e André Muato.
Serviços:
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Temporada: de 11 de setembro a 31 de outubro
Horário: As sextas, 20h; sábados às 21h, domingos às 18h e segundas, às 20h.
Classificação etária: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: De R$ 30,00 a R$ 120,00
Vendas: ingressorapido.com.br

 

Cartola – O Mundo é um Moinho
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Virginia Rosa Canta Clara Nunes em bela homenagem


Virginia homenageia Clara Nunes
Não é qualquer cantora que pode se debruçar na obra intocável de Clara Nunes, uma das maiores e melhores cantoras da música popular brasileira de todos os tempos, porque Clara foi uma das percussoras do samba e uma das pioneiras que conseguiu ultrapassar os limites entre fronteiras com países bombardeados por guerra e preconceito. Várias foram as cantoras que tentaram fazer uma homenagem qualquer à Clara e várias delas morreram à mingua ou conseguiram um resultado satisfatório dentro de um parâmetro em que combinavam harmonia, singularidade e o melhor: musicalidade! É praticamente impossível invadir a obra imortalizada de Clara Nunes e são poucas as cantoras que conseguem fazer isso com maestria, dedicação e sofisticação. Essa cantora é Virgínia Rosa! Lançando o sexto CD de carreira, a cantora fez uma ampla pesquisa para poder ter um resultado (ultra) satisfatório para homenagear a grande dama do samba. Foram anos cantando Clara em shows para chegar a Virginia Rosa Canta Clara (2015 / Sesc SP / 24,99), em que a cantora paulistana faz um brilhante retrospecto sobre a música da mineira Clara. O resultado é envolvente e emocionante, ainda mais porque Virginia tem uma voz potente e que nos acaricia, nos embala e nos perpetua a sair sambando em qualquer lugar. Com uma capa sensacional, demostrando tanto a religião de Clara quanto as cores de sua escola de samba preferida, a Portela, Virginia Rosa nos saúda e nos brinda com o melhor da carreira de Clara, estando apta para ser ovacionada por quem não conhece seu trabalho e sendo a responsável por trazer a juventude atual os clássicos dessa grande artista. Em suma, são duas cantoras se completando sobre o trabalho da outra: Virginia, com seu brilhantismo e sua força musical, consegue sentir a presença onipresente de luz de Clara, nos dando a dimensão completa de uma emoção vocacionada pelo sentimento de vida, de música, de arte. Quem ouvir Virginia Rosa Canta Clara terá a certeza de que a música popular está a salva dos impropérios ouvidos hoje em dia e da enorme falta que ela nos faz. Não foi preciso um CD duplo para homenagear a grande Clara, muito menos reproduzir trechos emocionados de familiares, mas sim, cantar e encantar aquilo que ela fez em vida. Virginia conseguiu arrebatar não só os fãs de Clara, como soube valorizar cada respiração, cada momento emocionado, cada melodia, cada verso. Escolheu os melhores momentos de Clara em vida e pincelou as melhores canções. Era preciso um disco com essa magnitude nos dias de hoje, para que possamos ter a nítida certeza de que Clara ainda permanece viva e entre nós. Uma salva de palmas à Virginia Rosa que nos trouxe emoção, princípios e musicalidade com um disco a altura de seu talento.

 

Virginia Rosa Canta Clara (2015) / Virginia Rosa
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O grande encontro entre Vírginia Rosa e Geraldo Flach

Um grande encontro
Uma das vozes mais poderosas do Brasil, a cantora Vírginia Rosa juntou-se ao pianista Geraldo Flach (1945 / 2011) para juntos fazerem um dos discos mais belos da MPB. Voz & Piano (2010 / Lua Music / 22,99) é uma compilação de sucessos antigos já gravados pela cantora, como outras releituras fundamentais dentro da música popular brasileira, casos de Kalu (Humberto Teixeira), Cacilda (José Miguel Wisnik) e Maria Maria (Milton Nascimento / Fernando Brant). Inicialmente seria um projeto feito para a cantora e atriz Lucinha Lins, que faz uma bela participação no disco na música Prenda Minha, um folclore gaúcho e que fecha o disco. A moldura na voz cristalina e poderosa de Vírginia combinou perfeitamente com os dedos delicados de Geraldo sobre os pianos: várias vezes a voz de Vírginia brilha num monólogo abrindo espaço para que o músico adentre suas notas num lirismo puro e que nos emociona. Baseados musicalmente a partir da ideia de um encontro inesperado, surgiu a possibilidade de fazer um disco com essa colisão perfeita e o resultado final ficou impressionante. As músicas foram muito bem selecionadas e o casamento de amizade entre os dois artistas soou nitidamente sensacional. Gravado ao vivo na versão voz/piano, a cantora canta sucessos de Elis Regina e Luiz Gonzaga com tamanha perfeição, que chega a emocionar. Destaque também para a feroz canção Mercedita (Ramón Sixto Rios), que faz de Vírginia Rosa um monstro sagrado da música atual, tamanha a sua voracidade ao cantar e se expressar através de sua potência vocal. Relembrando sucessos de seus discos anteriores, como A Voz do Coração (Celso Fonseca / Ronaldo Bastos) e A Flor (Fernando Figueiredo), que foi feita sob medida para o disco de estreia da cantora, o disco tem um corportamento sereno e corresponde de imediato com o que é exigido pelo público de MPB: Voz & Piano é um disco surpreendente, capaz de nos envolver a tal ponto que até o mais sensível dos homens se rende aos encantos da cantora.


Voz & Piano / Vírginia Rosa e Geraldo Flach
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 19 de março de 2014

O sucesso do Mulheres de 80


As Mulheres de 80: sucesso
Em meio a Carnavais, sambas do criolo doido, Lepo Lepo e outras aberrações musicais, o Mulheres de 80 veio com força total ao palco do teatro do Sesc Vila Mariana, quebrando todos os paradigmas musicais e mostrando que a música que cantaram naquela época não se diferencia muito do que cantam hoje. Muita coisa mudou, tanto na vida das cantoras quanto na vida política e cultural brasileira. Itamar Assumpção, um pai sempre presente, veio a falecer em 2003 decorrente de um câncer, Susana Salles e Alzira E. ficaram reclusas por um certo tempo e Ná Ozzetti e Virginia Rosa estavam lançando discos sensacionais a torto e a direito. A música popular brasileira e, sobretudo, essas quatro grandes cantoras, sobreviveram a atentados musicais, como o pagode, o sertanejo, o axé e outras insanidades mentais que passamos a conviver diariamente. Para tanto, a Vanguarda Paulista foi um movimento cultural e artistíco que revolucionou a música num todo, fazendo crer que a nossa loucura, a nossa tensão, a nossa vontade de viver aquilo era plenamente normal. Até mesmo para este crítico que vos escreve, que nascera nos anos 1980 e não vivenciou este momento, acredita que parte do que se vivia aquela época era motivo de loucura, de festa, de um comportamento geral diferenciado, de muita música e de muita responsabilidade. Faltou Vânia Bastos, outra principal integrante deste rico movimento, estar atrelada às quatro vozes. Para quem não vivenciou esta brilhante fase da música brasileira, pode ter vários meios de poder se abastacer culturalmente: os discos avulsos de Ná Ozzetti e Virginia Rosa dão a dimensão da grandiosidade que foi a Lira Paulistana, assim como a Caixa Preta com todos os discos imortalizados pelo mentor do grupo, Itamar Assumpção. Arrigo Barnabé, os grupos Rumo e Premê foram alguns dos nomes que estabeleceram a nova moda musical dos anos 1980, sendo chamados pela crítica de malditos, o que acabou irritando o líder da trupe, Itamar. Sim, eles eram independentes. Sim, eles eram autênticos. Sim, eles faziam a melhor música. Pra mim o espetáculo deveria se chamar As Mulheres de Itamar ou, então, As Meninas de Itamar, mas Mulheres de 80 caiu bem e chamou bem a atenção, não dando um nome específico para determinada cantora entrar em evidência. Espero profundamente que o projeto vire CD e DVD  para que os que não puderam viver a época, estarem a par do que foi esse movimento cultural.

 

Mulheres de 80
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de março de 2014

Entrevista com Ná Ozzetti




Ná Ozzetti: a entrevistada

Ná Ozzetti acaba de lançar um dos melhores discos de sua carreira, intitulado Embalar (2013), merecedor de vários prêmios e sendo considerado por público e crítica como um dos melhores lançamentos fonográficos  do ano passado. Ná já compôs com Zélia Duncan (Sobrenatural), Luiz Tatit (Meu Quintal / Miolo / Entre o Amor e o Mar) e a poeta Alice Ruiz (Olhos de Camões / Baú de Guardados) e ainda tem fôlego de sobra para trabalhar com gente nova no mercado, como o time de compositores da nova MPB, como Tulipa Ruiz, Makely Ka e Kiko Dinucci. O disco foi produzido pela própria Ná com a companhia do brilhante irmão, Dante Ozzetti e dos músicos Mário Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho e o selo de distribuição é o Circus e a produção fonográfica fica por conta de Ná Records. O balé de Ná em Embalar é tão perfeito, que chega a adentrar em nossos poros cada palavra, cada respiração, cada melodia soltada aos poucos. Com um time que vai de Mônica Salmaso dividindo os vocais em Minha Voz e Juçara Marçal em Musa da Música, a cantora nos brinda com um disco a altura de seu talento e diz que adora fazer música em conjunto. Carismática ao extremo, a simpatia de Ná transpassa a qualquer pessoa, através de seu sorriso sincero e de sua musicalidade que nos inspira e nos comove. Ná Ozzetti é hoje a minha entrevistada de honra, abrindo oficialmente o leque de entrevistas para o Mais Cultura Brasileira! de 2014. Nesta entrevista, a cantora diz que sente a falta de Itamar Assumpção, não acha suas músicas atraentes e que a maior voz do Brasil é a de Milton Nascimento.


 

Marcelo Teixeira -  Ná, Embalar veio em um momento em que a música popular brasileira precisava de renovação e a sua voz ainda é um sopro de alívio para muita gente que aspira e inspira MPB. O que você acha disso?

Ná Ozzetti - Primeiramente agradeço o elogio! Mas são justamente as tantas produções maravilhosas e instigantes que vejo hoje que me inspiraram. Acho que estamos vivendo um momento especial e histórico na música brasileira, com uma profusão de trabalhos criativos.

M.T. - Qual é o critério para compor suas músicas?

- Faço sempre as músicas, deixando as letras para os meus parceiros. Normalmente parto de idéias musicais que surgem e desenvolvo. Não há um critério específico. O processo de desenvolver essas idéias é que me atrai.

M.T. - Seus discos anteriores tinham muito de Itamar Assumpção e José Miguel Wisnik e em Embalar você trouxe os compositores mais jovens, mais atuantes na nova MPB, como Tulipa Ruiz e Makely Ka. Por que?

- Essa troca é natural. Quando fiz os discos anteriores, estava interagindo muito com o Itamar, o Wisnik, o Tatit. Continuo trabalhando com eles, mas o tempo traz novos criadores e gosto muito de acompanhar de perto as produções que me estimulam e que tenho afinidade, então acabam surgindo parcerias, inevitável.

M.T. – Em um artigo recente sobre o seu novo disco, eu citei que Embalar era uma continuação de Estopim, lançado em 1999. Podemos ter essa ideia de continuação?

-  A idéia é essa sim. Fiquei com vontade de retomar a atmosfera sonora do Estopim. Mas agora explorando as sonoridades e performances desta banda, com o Dante (Ozzetti), Mário Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho. É o terceiro disco consecutivo que fazemos juntos.

M.T. - Em seus shows, a sensibilidade de sua voz e os trejeitos sutis com as quais você nos transporta, faz com que nos apaixemos por sua música. Você se considera uma cantora sensível ou não gosta de ser rotulada?

- Não consigo ter um olhar de fora sobre meu trabalho. O que acontece é que o prazer por fazer música é tão grande, que algo deve bater nas pessoas. Mas nunca penso em mim quando faço shows. A arte é maior. Gosto de me surpreender.

M.T. - Itamar Assumpção sempre esteve muito presente em sua música (foi através dele que eu tive total acesso à sua arte). Como era a sua relação com ele e o que representa a falta dele dentro da MPB?

- Tive o privilégio de conviver com o Itamar. Sempre fui fã, não perdia seus shows, ficava embasbacada com tanto conteúdo, profundo, antenado, criativo. De onde ele tirava tudo aquilo? Ele era a criação em pessoa. Não parava de produzir. Quando propunha alguma parceria, ele aproveitava e me mandava outras letras na sequência. Hoje, quando ouço os discos da Caixa Preta (discografia completa lançada em 2009) continuo me surpreendendo e achando tudo muito inovador. Itamar está presente, mais do que nunca, nos dias de hoje. Mas sinto sua falta, sempre nos provocando.

M.T. - Trinta anos de uma carreira consolidada, com discos sensacionais e com uma voz divina, você é uma das poucas cantoras em atividade que conseguem lançar discos com músicas inéditas. Isso ocorreu em Meu Quintal (2011) e agora em Embalar (2013). O que a faz compor brilhantemente e em que pensa enquanto compõe?

- Obrigada pelo elogio! Mas nem acho minhas composições tão especiais. Apenas gosto do exercício de desenvolver idéias. Esse processo é o que norteia meu trabalho, independentemente de as canções serem de minha autoria ou de outros compositores.

M.T. - Regravar os sucessos de Carmen Miranda em Balangandãs (2009) com maestria e dedicação lhe renderam status de a grande dama da música brasieira. Aqui no Mais Cultura Brasileira!, Carmen ganhou o primeiro lugar como a maior cantora brasileira de todos os tempos e você, Ná Ozzetti, abocanhou o décimo quarto lugar, segundo pesquisas que foram feitas. O que acha disso?

- Nossa, não sabia! Fico muito feliz, claro.

M.T. - Tem alguma cantora ou cantor que gostaria de gravar um disco em homenagem?

- Por enquanto não. Não tenho idéia. Os discos que gravei, os quais são projetos especiais, como o Love Lee Rita (1996), Show (2001), Balangandãs (2009), não foram idéia minha. Foram convites muito bem recebidos por mim, porque de certa forma eu me reconheci nessas propostas. Foram trabalhos que adorei realizar. Então não costumo pensar em tributos, etc... eles é que acabam chegando até mim.

M.T. - Vamos falar de Embalar: Juçara Marçal, Marcelo Pretto, Mariana Furquim e Mônica Salmaso dividem algumas faixas do disco. Por que chamou tantas vozes para dividir os vocais?

- Por gostar tanto dessas vozes. Tem o Kiko Dinucci também, em Lizete. Nós, da banda, estávamos envolvidos com a exploração das sonoridades, timbres, o que me levou a ter vontade de ampliar também as sonoridades do canto ao ponto de interagir com outros cantores, outras personalidades. Adorei. Aliás o que mais gosto, desde sempre, é de fazer música junto.

M.T. - Ultimamente estão regravando obras primas do cancioneiro de Itamar Assumpção, como Zélia Duncan, Ney Matogrosso, Vírginia Rosa, Mônica Salmaso. Já pensou em fazer um disco inteiro para homenagea-lo?

- Amo o Itamar e sua obra! E tenho gostado muito de todos esses tributos. Mas por enquanto me sinto muito bem na posição de expectador.

M.T. - Embalar, a primeira música do disco, trata-se de um presente seu para seus fãs. A Lente do Homem, a terceira faixa, fala de fé e religião e Os Enfeitos de Cunhã, a décima faixa, fala dos encantos da Amazônia. Este disco veio como forma de dizer as várias facetas de Ná Ozzetti?

- Embalar fala da vida, sobretudo, de música. Cada compositor teve liberdade de explorar os temas. Não há uma mensagem que rege as canções. Se houver, é a própria música.

M.T. - Algumas de suas músicas, como Equilíbrio em Meu Quintal ou Meu Dia D em (1994), tratam a língua portuguesa como um todo, numa forma mero-línguistica cantada, soa rapidamente, como se fosse um trava-língua. Essa prática vem do Grupo Rumo ou é uma forma única e exclusiva sua de cantar?

- Esses trava-línguas aparecem bastante nas minhas composições. Isso porque gosto de ficar brincando com ritmos, daí quando vem a letra é um sufoco conseguir cantá-las. Mas me divirto.

M.T. - Meu Quintal (2011) é um disco que marca seus trinta anos de carreira. Posso dizer que é um disco autobiográfico?

- Parece ser, mas não é. Aliás, é e não é. Como disse, quem explora os temas das canções são meus parceiros. Fico com a parte musical. Quando reúno o repertório é que percebo com que cara o disco vai ficar. Daí começa um outro processo, de criar os arranjos e as sonoridades, de acordo com o que as canções pedem, e assim vamos dando forma ao disco. Claro que há uma idéia que norteia o trabalho, mas gosto de me surpreender no meio do processo.

M.T. - Lizete, a sexta faixa do disco, fala de um amor lésbico. Por que resolveu gravar uma música tão forte como essa?

- O Kiko Dinucci havia participado de um show meu em 2012 e cantamos juntos 3 composições suas, duas em parceria com Jonathan Silva e uma com a poeta Sinhá. Desde então pensei em convidá-lo para uma participação em Embalar, com uma daquelas canções. Acabei escolhendo Lizete, porque, além do tema, gosto da estrutura da composição, acho genial. E Lizete faz o maior sucesso nos shows também.

M.T. - Algum projeto para depois de Embalar?

- Sim, mas por enquanto gostaria de fazer muitos shows do Embalar por esse mundo afora.

M.T. – Pense rápido: qual a maior voz do Brasil?

- Milton Nascimento!

M.T. - A música brasileira mudou muito nos últimos tempos. Seus discos são como agulha no palheiro de tão brasileiro que é e de tão perfeitos que são. Voz e Piano, gravado com o pianista André Mehamari em 2005 é um disco perfeito, assim como , de 1994, que traz uma vertente e uma variante de sons e variações de mensagens. Mas na sua opinião, qual o melhor disco da sua carreira?

– Ainda não sei dizer.

M.T. - Tulipa Ruiz fecha o disco Embalar com a música Pra Começo de Conversa, juntamente com a sua autoria. Você já desenhou uma pétala de rosa no disco de estreia dela e esta é a primeira parceria das duas, cujo saiu perfeito. Pensam em trabalhar juntas num futuro próximo?

- Não há nada combinado, mas tenho a impressão de que é só começar.

 

Entrevista com Ná Ozzetti
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A preciosidade de Embalar (2013), de Ná Ozzetti


Um dos melhores de 2013
Sempre há uma expectativa da minha parte para os lançamentos futuros da cantora e compositora Ná Ozzetti. Assim que lança um disco novo na praça, não dando tempo nem desse respirar, já anseio pelo próximo trabalho e fico aguardando frenetica e ansiosamente pelo outro. Ná é uma das poucas cantoras que conseguem fazer isso comigo. Mal lançou Meu Quintal no final de 2011, a cantora vêm com carga total com Embalar, disco que faz uma reviravolta em sua carreira, com participações especiais e dividindo letras com cantoras mais novas. Embalar, antes de mais nada, é um disco de profusões de palavras, característica mais que assídua da cantora e que demonstra uma clareza vocal exuberante. A impressão que passa é que Embalar é uma sequencia magistral de Estopim, lançado em  1999, a começar pela capa, aonde mostra em ambas, Ná dançando balé clássico. As letras de Embalar também nos remetem à Estopim, tanto pela maneira de galgar as palavras quanto pelo estilo musical, que se difere de Meu Quintal. Ná é uma das principais vozes femininas do Brasil e disso não há o que discutir e Embalar comprova, nitidamente, o quanto sua presença é marcante dentro da Música Popular Brasileira. Mantendo um estilo cativo de manter-se inerte em seu mundo, a cantora lança discos sensacionais, não repetitivos, com qualidade, supremacia e, sobretudo, musicalidade. O que Ná talvez não saiba é que a sua música, para poucos, como bem disse na canção Pérolas aos Poucos (José Miguel Wisnik) no CD Voz e Piano (2005) é rica para alguns e misteriosa para outros.

Poucos conhecem Ná Ozzetti. Mas todos deveriam ter a obrigação de conhecer o seu trabalho. Lançando seu décimo álbum, Ná Ozzetti é respeitada por críticos e músicos pela sua voz, pelo seu canto, pela sua música. Ná Ozzetti é a voz principal da Vanguarda Paulista, que teve como padrinho o inesquecível Itamar Assumpção e foi através deste excepcional cantor que tive o prazer de conhecer o trabalho de Ná (e, por consequencia, de Virginia Rosa, Susana Salles, Vânia Bastos). Embalar (2013 / Circus / 24,99) foi produzido pela própria cantora em parceria com o irmão Dante Ozzetti e os amigos Mário Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho e já está à disposição nas melhores redes para vendas.

Com 11 faixas, o CD está recheado de participações especiais, como a amiga Mônica Salmaso na faixa Minha Voz e Juçara Marçal em Musa da Música, num trava-língua irresistível. Marcelo Preto divide os vocais com a cantora em Olhos de Camões. A polêmica sobre o lesbianismo surge em Lizete, numa engraçada forma de rimar e Nem Oi é uma parceria entrosada entre Dante Ozzetti e o mineiro Makely Ka.

Surpresa agradável foi a composição entre Ná e Tulipa Ruiz, que fecha o disco com a mambembe Pra Começo de Conversa. Surpresa mais que agradável, tendo em vista que as parcerias, letras, melodias, ritmos e tudo o que completa neste sensacional disco, faz parte agora do cancioneiro da MPB por um todo. Ná é sempre Ná e seu novo disco é um dos favoritos a entrar para a categoria de melhor do ano. Sem papas, choros e velas, o disco é um presente aos fãs da cantora e chega em um bom momento, enquanto só se falam de Rock in Rio, divas americanas, conversas de Anittas e papagaiadas de Ivetes.

Salve, salve dona Ná!


Embalar / Ná Ozzetti
Nota 10
Marcelo Teixeira