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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Sambas do absurdo comprova o que são absurdos


Sambas do absurdo: capa absurda
Se fosse apenas pela compreensão do que é samba, já seria um belo argumento para comprarmos o disco. Mas levando em conta que temos a junção de Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Gui Amabis, temos que rever nossos conceitos e saborear até onde puder para termos a certeza de que aqui há uma qualidade impressionante em boa parte do álbum. Não chega a ser um disco perfeito, mas a sonoridade que envolve o samba e a voz agradabilíssima de Juçara nos corrompe a uma satisfação plena de originalidade e astúcia. Mesmo havendo uma breve assimetria de durabilidade absurda de atos, fica impossível não absorvermos as canções como um todo, com a sua força extraordinária e sagaz, demonstrando toda a sua grandiosidade em torno de três grandes artistas da música nacional. Sambas do Absurdo (2017 / YB / 28,99) é um disco que reúne a saga competente de três artistas conceituados, cada qual com seu público fiel e que se reuniram para fazerem o impossível por uma causa justa: mostras as vicissitudes da samba. Havendo uma sincronia entre o sincretismo do samba com a poesia em sua essência total, o resultado desse álbum nos repele ao universo infiltrado de tempos soberbos em que o estilo se polemizou em áreas que não eram apenas o morro. Há simbioses existenciais dentro da cadência sincopada provocativa e erótica nas apimentadas canções, alimentados por uma perfilação de músicas com diversos temas transversais e com assuntos que se entrelaçam aqui e ali, como sexo, conflitos, urbanização, identidades de gêneros. São reflexões que nos remetem ao bom e velho cancioneiro de outrora, em que o ouvinte parava para refletir e discutir sobre a música de botequim, sobre o cantor, sobre a mulher, sobre a vida. São levezas de outrora que jamais voltarão ao mercado fonográfico. Com apenas oito faixas, Samba do Absurdo traz uma analogia diferenciada na titulação de suas músicas: todas elas são marcadas pelo mesmo nome, mas com numeração diferente. Assim, podemos dar nome pessoal às músicas como exemplificação e isso não acomete no desenrolar do disco, que são todas com o nome absurdo e com numeração de trás para frente. Uma bela e genial sacada do trio, que fez de um disco simples a um disco de primeira grandeza dentro do pantaleão destinado a evolução. Juçara Marçal é tão boa como intérprete que chega a nos dar um nó na garganta quando canta, mesmo com uma suavidade angelical que a rodeia. Encantadora do começo ao fim, sua voz é uma suavidade existencial aos nossos ouvidos, mesmo com faixas sombrias e temerosas, sufocantes e temidas, chocantes e norteadoras. Chega a ser um absurdo sua voz. Mas absurdo mesmo é não ouvir o disco.

Samba do Absurdo (2017) / Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Gui Amabis
Nota 8
Por Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os dez melhores lançamentos de 2014


Os melhores CDs de 2014
De Alberto Salgado à Mônica Salmaso, passando por Ceumar e Criolo, o ano de 2014 foi um dos anos mais promissores para o mercado fonográfico: muitos lançamentos e muitas surpresas. Obviamente que nem tudo é flores e teve muitos CDs desprezíveis, mas na sua maioria, o ano foi de muitas novidades e, sobretudo, de muita qualidade musical. Sem ter uma posição para cada lançamento, o Mais Cultura Brasileira e, de quebra, o crítico que vos escreve, passou o decorrer do ano ouvindo muita música, muitas vozes, muitos CDs, garimpando aqui e ali nas lojas do ramo e muita coisa passou longe do meu crivo, pois não mereciam nem espaço numa linha em branco. Não foi muito difícil selecionar os dez melhores discos deste ano, mas houve algumas dúvidas, normais até então, para poder classificá-las de mediano. Mas depois de tudo acertado, eis que chego a conclusão dos melhores discos mais bem produzidos em 2014, de janeiro a dezembro e o leitor pode conferir agora. Lançando o ótimo Além do Quintal, Alberto Salgado é a revelação masculina de 2014 no Mais Cultura Brasileira!, assim como Tito Marcelo, cantor recifense residente em Brasília, uma das gratas e boas surpresas  no cenário musical. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor. Majestoso do começo ao fim, Silencia é um dos melhores discos da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Juçara Marçal nos brinda com um disco sensacional. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Maria Rita canta divinamente todas as faixas de Coração a Batucar sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Dani Calazans é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. Tito Marcelo é um desses cantores que nasceram para encantar: sensível, carismático, letrista, poeta, brasileiro. Nascido em Recife, Tito mora em Brasília e é da capital federal que surge mais um cantor de primeira grandeza na música popular brasileira. Pra Ficar no Sol é um disco interessante, irresistível, caprichado, moderno e com uma capa incrível. Aqui está todo o universo magnífico de Tito Marcelo, que se baseou nas estruturas do amor e na brejeirice das levadas infantis para compor boa parte do álbum. Corpo de Baile é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica Salmaso. Nesse disco houve um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Grata surpresa foi quando Mallu Magalhães se juntou a Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda pro Mar , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar o som de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu Zizi Possi mostra todo o seu encanto ao dar vida a Tudo se Transformou, que se transformou, sem querer, em um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e o lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora, merecidamente. E assim se completa a lista de 2014: com qualidade e muita música, boa, os melhores lançamentos são sempre os melhores. E que venha 2015!

 

 

Os melhores lançamentos de 2014
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Buda, o amuleto de Criolo


Buda: o aguardado CD de inéditas
O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda (2014 / Oloko / 25,99) é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. E é fácil de explicar essa junção de adejtivos cortantes: Criolo nasceu no gueto da zona sul de São Paulo, mais precisamente no Grajaú, bairro periférico de altissíma onda de violência que gera os melhores e mais dissabores toques de sabedoria. E Criolo, ignorante e inteligente, agressivo e humano, racional e compassivo, soube aproveitar toda a sua verve periférica para expor em versos e rimas sua vida de uma forma sensata e magnífica. Seu som é o melhor do rap nacional e alcança todas as expectativas possíveis: somente um cantor de seu porte consegue juntar a sua voz com a de cantoras como Juçara Marçal e Tulipa Ruiz, contrariando a todos e a tudo. Criolo não teve pressa ao lançar Convoque Seu Buda, porque ele sabia que a pressão após o lançamento mais expressivo de sua carreira, Nó na Orelha (2011) seria inevitável. E foi. Todos esperavam pelo tão aguardado álbum de inéditas do cantor e quando isso aconteceu foi uma chuvarada de correria tanto para a internet e seus malditos baixamentos gratuitos, quanto para as lojas do ramo. Convoque Seu Buda virou referência e Criolo volta ao topo da lista dos cantores mais dignos da nova música. A começar pela capa e pelo excelente título, Criolo se lança num mundaréu de vendaval que corre a seu favor, demonstrando que ele não tem medo de críticas e nem de aperto psicológico.Tudo aqui tem a cara de Criolo e nada se moveu, exceto que o som de Convoque Seu Buda seja diferente de Nó na Orelha do ponto de vista de que as músicas são mais bem produzidas e mais planejadas. Há várias influências musicais no som de Criolo em seu novo e autêntico disco: desde pegadas altamente fortes em Plano de Voo, passando pelo tropicalismo em Pegue Pra Ela até chegar nas orquestras de rimas e versos cantados em Esquiva da Esgrima, uma deliciosa e forte canção. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. O buda de Criolo está aí para que todos tenham acesso, seja mental, experimental ou físico. Ele convocou seu buda e você?

 

Convoque seu Buda / Criolo
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Entrevista: Alberto Salgado




Alberto Salgado: o entrevistado*
Uma das melhores vozes masculinas dos últimos tempos, Alberto Salgado é um cantor inspirado e transpassa essa inspiração a quem o ouve. Tudo o que vêm de Alberto soa como poesia, lirismo ou pura música, pois como o próprio cantor diz, a música é a expressão da vida em forma de som. Seu CD, Além do Quintal, foi lançado recentemente e conta com uma brasilidade impressionante, misturando ritmos e tendências musicais e demonstrando todo o seu equilíbrio contagiante ao compôr sobre a pluralidade da vida, colocando sobre isso toda a sua magnitude ao se impor como um dos cantores mais espetaculares da atualidade. Aproveitando o lançamento de seu primeiro disco, o Mais Cultura Brasileira teve o privilégio e a honra de poder bater um papo com este grande músico. Elogiado por dez entre dez estrelas da música, Alberto Salgado faz com que Brasília acorde mais animada ao som de suas músicas, sempre procurando levar sua voz ao ouvinte que não o conhece.  Nesta entrevista surpreendente, que vai do samba ao baião, Alberto Salgado revela detalhes de seu minucioso trabalho, diz o que há além de seu quintal e que os melhores cantores são Emílio Santiago, Elis Regina, Kiko Klaus e Juçara Marçal.

 

Marcelo Teixeira: Alberto, o que é música pra você?

Alberto Salgado: Música pra mim é a expressão da vida em forma de som.

M.T: De onde surgiram as inspirações para o disco Além do Quintal (2014)?

A.S: O disco Além do Quintal foi construído a partir de composições antigas e de parceiros naturais daqui de Brasília (meu quintal) e de parceiros de outros estados (além daqui), o que deu a primeira ideia de se colocar o nome desse disco homônimo à música Além do Quintal, feita em parceria com Atan Pinho, e que trata esta de tema ecológico. O disco Além do Quintal é na verdade uma espécie de catálogo dos meus posteriores discos. Por isso preocupei-me bastante em colocar ritmos diversos, dos quais cada ritmo presente no disco, representa um segmento diferente de música. Por exemplo, a própria faixa intitulada Além do Quintal, tem uma pegada bem africana e com influências da música árabe e indiana, porém sem perder a brasilidade também presente. E pretendo fazer o próximo disco todo naquela pegada mais tribal. A fim de dar um caráter mais homogêneo ao disco.  E assim será com todas as demais composições. São 12 faixas, mais uma remix no álbum Além do Quintal. Então terei muito trabalho nessa vida, graças a Deus!

M.T: Suas músicas são de altíssima qualidade, com começo, meio e fim e com letras que fogem do determinado comum das coisas, não fala apenas de amor e sim da nossa realidade cotidiana. Você acha que a sua música ajuda a difundir a qualidade musical de hoje em dia?

A.S: Modéstia parte acredito sim. Não só pelas composições, como também pelos amigos que gravaram comigo. Tendo em vista que nos anos 90 por exemplo, pouco vi e ouvi de trabalhos autorais como vem ocorrendo agora. E acredito que atualmente (graças a internet) podemos acessar trabalhos maravilhosos que ajudam muito a enriquecer a música brasileira de qualidade, que parecia estar tirando férias em outros países. Citarei aqui alguns que admiro demais e tenho muito respeito aos seus trabalhos. São eles (as): Nathália Lima, Kiko Klaus, Paulinho Beissá, Wilson Bebel, Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Douglas Germano, André Abujamra, Raquel Coutinho, Fernanda Cabral, Vavá Afiouni, Andréa dos Santos, Alessandra Leão, Curumim, Túlio Borges, Litieh Pacelle, Eduardo Rangel, Silvério Pessoa, Arthur Maia entre outros que considero grandes artistas, que representam bem o lado bom da música brasileira. Sem contar os músicos e compositores que trabalham com música instrumental. Altíssimo nível!!!

M.T: Brasília sempre foi um pólo cultural muito rico e muito detalhado para todos nós. Do rock para a MPB, sempre esteve presente na vida cultural brasileira. Hoje Brasília recebe de braços abertos diversos ritmos musicais e a sua música tem apreço estimado por aí. Como se explica isso?

A.S: Brasília é um palco onde se reúne e apresenta a grande diversidade da cultura brasileira. Aqui temos acesso a todas as culturas presentes não só no Brasil, como também de diversos cantos do mundo. Sendo assim, percebi o quanto meu trabalho é aceito e recebido com muito carinho do público daqui. E por essa diversidade toda, acredito que não é difícil qualquer compositor com trabalho de qualidade passar batido, sem o devido e merecido reconhecimento do público. Temos público para tudo no Brasil. Porém o público daqui é bem exigente e com razão. Se a maioria gosta de boas coisas em minha cidade e estou no papel para servi-los com minha arte, terei que fazer o melhor possível para merecer esse precioso reconhecimento. O público é quem nos faz crescer e melhorar cada vez mais.

M.T: Pensa em fazer shows pelo Sudeste ou levar Além do Quintal para outras regiões do Brasil?

A.S: É o que mais quero! Percebi também que mesmo com a internet, ainda existe uma pressão sobre nós artistas em termos que sair de nossa cidade e buscar o eixo RJ-SP, para ampliar nossas portas e palcos. Infelizmente ou não, ainda é comum artistas fora desse eixo terem que abandonar suas cidades para fazer mais shows.

M.T: Em um país com tantas vozes femininas, a sua chega em um momento em que música pede passagem ou mais respeito?

A.S: Não diria mais respeito, pois temos belíssimas cantoras no Brasil. Mas não posso negar que minha voz pede passagem também. Ou melhor, espaço para mostrar meu canto.

M.T: Um cantor?
 
A.S: Emílio Santiago. Mas contemporâneo ao momento atual: Kiko Klaus.

M.T: Uma cantora?

A.S: Elis Regina. Mas contemporânea ao momento atual: Juçara Marçal.

M.T: Se você não fosse o excelente cantor que és, seria um excelente...?

A.S: Professor de música... (risos)

M.T: Numa de nossas conversas, você disse que não gostava de cantar nem de compor somente sobre o amor, sendo que a maioria das pessoas gosta de ouvir sobre isso e a maioria dos cantores canta sobre isso, mas você prefere ir para o lado contrário. Por quê?

A.S: Porque acredito demais no poder que nós compositores temos em auxiliar a sociedade e alertar para temas sociais de urgência. Como Saúde Pública, famílias que sofrem por ter alcoólatras ou usuários de crack, por exemplo, como citado na música Tem Uma Pedra, feita também em parceria com Atan Pinto. Aí com tantos problemas urgentes, não consigo ter um coração egoísta em exaltar apenas um amor que é menos abrangente (amor de namorados) que a necessidade do amor universal em ajudar muito mais pessoas com mensagem que reforcem uma ideia positiva de uma mudança a quem precisa. E muitas pessoas precisam, infelizmente. Porém nada tenho contra a quem canta só músicas românticas. Só sei do que gosto, do que não gosto e do que posso fazer. Mas também rolam duas canções neste álbum que soam como românticas, que são Cores da Vida e Lombra. Ambas de minha autoria.

M.T: Além do Quintal tem uma mistura de samba, baião, pitadas de romantismo, delicadeza. Qual foi o critério para fazer nascer o álbum?

A.S: Como é meu primeiro disco, o Além do Quintal, fiz escolha de algumas canções antigas, que eu precisava gravá-las para enfim, começar de fato outros discos com ritmos mais homogêneos. Sem desprezar a qualidade indiscutível do disco, claro. Porém, ele nasceu da necessidade de eu ter que montar um catálogo que represente através de cada música um segmento para cada próximo álbum.

M.T: Além do Quintal, para mim, é um dos melhores discos do ano de 2014, com ótimas letras, ótimas melodias e ótimas vibrações. Mas qual é o seu plano para depois deste mega sucesso?

A.S: Obrigado pelo elogio! Bem, meu plano é de circular ao máximo apresentando este trabalho a maioria das pessoas que eu puder. Quero cruzar o país com o passaporte que a música nos dá. Não sei se será possível, mas sonho é sonho e ainda bem que é de graça sonhar. Espero positivamente que eu possa alcançar e construir bons públicos através deste trabalho primoroso feito com muito amor e muito sonho.

M.T: O que há além do quintal, Alberto?

A.S: Além do quintal há muitos mundos a serem descobertos. Muitos sorrisos para serem admirados, muitos brilhos nos olhos. Mas também há muita gente precisando de ajuda e se conseguimos sair além do quintal, é porque de alguma forma merecemos ou precisamos.

M.T: Para encerrar, Alberto, como seria a vida sem música?

A.S: A vida não teria voz!

 
Muito obrigado por ceder um precioso tempo para esta entrevista, Alberto.

E pra você que quer conhecer um pouco mais da obra deste sensacional cantor e compositor, basta acessar os links abaixo para ter o melhor de sua música com apenas um clique.


Foto: Amanda Freitas
 

Links:

 






 

 

Entrevista com Alberto Salgado
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de março de 2014

O espetacular Encarnado, de Juçara Marçal


Disco de estreia de Juçara: vale ouro
Ouçam com a devida atenção o disco de estreia da cantora Juçara Marçal: um conjunto de boa voz, bom repertório, boa capa, boas letras. A morte norteia todo o disco, dando aquela atmosfera sobrenatural para um assunto em que todos não gostam de opinar, mas que é uma parte de nós. Juçara Marçal veio com toda a sua força para dar a Encarnado (2014/ 26,99) um clima intimista, sofisticado e, acima de tudo, misterioso. Na estrada há mais de 20 anos, a cantora surge como um meteoro na música popular brasileira, em um momento crítico em que a música sofre com inclinações variantes e sons abalados. Juçara comprova que a arte não tem idade, não tem limites, não tem escalas e que se pode fazê-lo a qualquer tempo, época ou vontade. Mas de onde veio tanta inspiração para compor um disco tão intrigante? Juçara juntou-se aos músicos Kiko Dinucci e Rodrigo Campos e na seleta lista de canções inclui Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba e o que chama a atenção é a vinheta de Odoya, que antecipa Ciranda do Aborto. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. Presente de Casamento é uma música bruta, áspera, mas que mesmo assim soa como um soco no estomago de quem a ouve, pela sua dramaticidade e o som fica desconfortavelmente belo. Canção de Ninar Oxum foi feita para ser cantada ao ouvido e esse tom é o mais impressionante: parece que Juçara está colada ao nosso corpo, balbuciando palavras afetivas. Sempre antenada com o mundo da música, Juçara nos trouxe um disco com sonoridade máxima, expressão intrigante, capa divertida e um tema assustador e assombroso: a morte. Mas não é qualquer morte que se comenta nas faixas deste disco. É a nossa morte, a morte do próximo e a morte de todos nós.

 

Juçara Marçal
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Entrevista com Ná Ozzetti




Ná Ozzetti: a entrevistada

Ná Ozzetti acaba de lançar um dos melhores discos de sua carreira, intitulado Embalar (2013), merecedor de vários prêmios e sendo considerado por público e crítica como um dos melhores lançamentos fonográficos  do ano passado. Ná já compôs com Zélia Duncan (Sobrenatural), Luiz Tatit (Meu Quintal / Miolo / Entre o Amor e o Mar) e a poeta Alice Ruiz (Olhos de Camões / Baú de Guardados) e ainda tem fôlego de sobra para trabalhar com gente nova no mercado, como o time de compositores da nova MPB, como Tulipa Ruiz, Makely Ka e Kiko Dinucci. O disco foi produzido pela própria Ná com a companhia do brilhante irmão, Dante Ozzetti e dos músicos Mário Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho e o selo de distribuição é o Circus e a produção fonográfica fica por conta de Ná Records. O balé de Ná em Embalar é tão perfeito, que chega a adentrar em nossos poros cada palavra, cada respiração, cada melodia soltada aos poucos. Com um time que vai de Mônica Salmaso dividindo os vocais em Minha Voz e Juçara Marçal em Musa da Música, a cantora nos brinda com um disco a altura de seu talento e diz que adora fazer música em conjunto. Carismática ao extremo, a simpatia de Ná transpassa a qualquer pessoa, através de seu sorriso sincero e de sua musicalidade que nos inspira e nos comove. Ná Ozzetti é hoje a minha entrevistada de honra, abrindo oficialmente o leque de entrevistas para o Mais Cultura Brasileira! de 2014. Nesta entrevista, a cantora diz que sente a falta de Itamar Assumpção, não acha suas músicas atraentes e que a maior voz do Brasil é a de Milton Nascimento.


 

Marcelo Teixeira -  Ná, Embalar veio em um momento em que a música popular brasileira precisava de renovação e a sua voz ainda é um sopro de alívio para muita gente que aspira e inspira MPB. O que você acha disso?

Ná Ozzetti - Primeiramente agradeço o elogio! Mas são justamente as tantas produções maravilhosas e instigantes que vejo hoje que me inspiraram. Acho que estamos vivendo um momento especial e histórico na música brasileira, com uma profusão de trabalhos criativos.

M.T. - Qual é o critério para compor suas músicas?

- Faço sempre as músicas, deixando as letras para os meus parceiros. Normalmente parto de idéias musicais que surgem e desenvolvo. Não há um critério específico. O processo de desenvolver essas idéias é que me atrai.

M.T. - Seus discos anteriores tinham muito de Itamar Assumpção e José Miguel Wisnik e em Embalar você trouxe os compositores mais jovens, mais atuantes na nova MPB, como Tulipa Ruiz e Makely Ka. Por que?

- Essa troca é natural. Quando fiz os discos anteriores, estava interagindo muito com o Itamar, o Wisnik, o Tatit. Continuo trabalhando com eles, mas o tempo traz novos criadores e gosto muito de acompanhar de perto as produções que me estimulam e que tenho afinidade, então acabam surgindo parcerias, inevitável.

M.T. – Em um artigo recente sobre o seu novo disco, eu citei que Embalar era uma continuação de Estopim, lançado em 1999. Podemos ter essa ideia de continuação?

-  A idéia é essa sim. Fiquei com vontade de retomar a atmosfera sonora do Estopim. Mas agora explorando as sonoridades e performances desta banda, com o Dante (Ozzetti), Mário Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho. É o terceiro disco consecutivo que fazemos juntos.

M.T. - Em seus shows, a sensibilidade de sua voz e os trejeitos sutis com as quais você nos transporta, faz com que nos apaixemos por sua música. Você se considera uma cantora sensível ou não gosta de ser rotulada?

- Não consigo ter um olhar de fora sobre meu trabalho. O que acontece é que o prazer por fazer música é tão grande, que algo deve bater nas pessoas. Mas nunca penso em mim quando faço shows. A arte é maior. Gosto de me surpreender.

M.T. - Itamar Assumpção sempre esteve muito presente em sua música (foi através dele que eu tive total acesso à sua arte). Como era a sua relação com ele e o que representa a falta dele dentro da MPB?

- Tive o privilégio de conviver com o Itamar. Sempre fui fã, não perdia seus shows, ficava embasbacada com tanto conteúdo, profundo, antenado, criativo. De onde ele tirava tudo aquilo? Ele era a criação em pessoa. Não parava de produzir. Quando propunha alguma parceria, ele aproveitava e me mandava outras letras na sequência. Hoje, quando ouço os discos da Caixa Preta (discografia completa lançada em 2009) continuo me surpreendendo e achando tudo muito inovador. Itamar está presente, mais do que nunca, nos dias de hoje. Mas sinto sua falta, sempre nos provocando.

M.T. - Trinta anos de uma carreira consolidada, com discos sensacionais e com uma voz divina, você é uma das poucas cantoras em atividade que conseguem lançar discos com músicas inéditas. Isso ocorreu em Meu Quintal (2011) e agora em Embalar (2013). O que a faz compor brilhantemente e em que pensa enquanto compõe?

- Obrigada pelo elogio! Mas nem acho minhas composições tão especiais. Apenas gosto do exercício de desenvolver idéias. Esse processo é o que norteia meu trabalho, independentemente de as canções serem de minha autoria ou de outros compositores.

M.T. - Regravar os sucessos de Carmen Miranda em Balangandãs (2009) com maestria e dedicação lhe renderam status de a grande dama da música brasieira. Aqui no Mais Cultura Brasileira!, Carmen ganhou o primeiro lugar como a maior cantora brasileira de todos os tempos e você, Ná Ozzetti, abocanhou o décimo quarto lugar, segundo pesquisas que foram feitas. O que acha disso?

- Nossa, não sabia! Fico muito feliz, claro.

M.T. - Tem alguma cantora ou cantor que gostaria de gravar um disco em homenagem?

- Por enquanto não. Não tenho idéia. Os discos que gravei, os quais são projetos especiais, como o Love Lee Rita (1996), Show (2001), Balangandãs (2009), não foram idéia minha. Foram convites muito bem recebidos por mim, porque de certa forma eu me reconheci nessas propostas. Foram trabalhos que adorei realizar. Então não costumo pensar em tributos, etc... eles é que acabam chegando até mim.

M.T. - Vamos falar de Embalar: Juçara Marçal, Marcelo Pretto, Mariana Furquim e Mônica Salmaso dividem algumas faixas do disco. Por que chamou tantas vozes para dividir os vocais?

- Por gostar tanto dessas vozes. Tem o Kiko Dinucci também, em Lizete. Nós, da banda, estávamos envolvidos com a exploração das sonoridades, timbres, o que me levou a ter vontade de ampliar também as sonoridades do canto ao ponto de interagir com outros cantores, outras personalidades. Adorei. Aliás o que mais gosto, desde sempre, é de fazer música junto.

M.T. - Ultimamente estão regravando obras primas do cancioneiro de Itamar Assumpção, como Zélia Duncan, Ney Matogrosso, Vírginia Rosa, Mônica Salmaso. Já pensou em fazer um disco inteiro para homenagea-lo?

- Amo o Itamar e sua obra! E tenho gostado muito de todos esses tributos. Mas por enquanto me sinto muito bem na posição de expectador.

M.T. - Embalar, a primeira música do disco, trata-se de um presente seu para seus fãs. A Lente do Homem, a terceira faixa, fala de fé e religião e Os Enfeitos de Cunhã, a décima faixa, fala dos encantos da Amazônia. Este disco veio como forma de dizer as várias facetas de Ná Ozzetti?

- Embalar fala da vida, sobretudo, de música. Cada compositor teve liberdade de explorar os temas. Não há uma mensagem que rege as canções. Se houver, é a própria música.

M.T. - Algumas de suas músicas, como Equilíbrio em Meu Quintal ou Meu Dia D em (1994), tratam a língua portuguesa como um todo, numa forma mero-línguistica cantada, soa rapidamente, como se fosse um trava-língua. Essa prática vem do Grupo Rumo ou é uma forma única e exclusiva sua de cantar?

- Esses trava-línguas aparecem bastante nas minhas composições. Isso porque gosto de ficar brincando com ritmos, daí quando vem a letra é um sufoco conseguir cantá-las. Mas me divirto.

M.T. - Meu Quintal (2011) é um disco que marca seus trinta anos de carreira. Posso dizer que é um disco autobiográfico?

- Parece ser, mas não é. Aliás, é e não é. Como disse, quem explora os temas das canções são meus parceiros. Fico com a parte musical. Quando reúno o repertório é que percebo com que cara o disco vai ficar. Daí começa um outro processo, de criar os arranjos e as sonoridades, de acordo com o que as canções pedem, e assim vamos dando forma ao disco. Claro que há uma idéia que norteia o trabalho, mas gosto de me surpreender no meio do processo.

M.T. - Lizete, a sexta faixa do disco, fala de um amor lésbico. Por que resolveu gravar uma música tão forte como essa?

- O Kiko Dinucci havia participado de um show meu em 2012 e cantamos juntos 3 composições suas, duas em parceria com Jonathan Silva e uma com a poeta Sinhá. Desde então pensei em convidá-lo para uma participação em Embalar, com uma daquelas canções. Acabei escolhendo Lizete, porque, além do tema, gosto da estrutura da composição, acho genial. E Lizete faz o maior sucesso nos shows também.

M.T. - Algum projeto para depois de Embalar?

- Sim, mas por enquanto gostaria de fazer muitos shows do Embalar por esse mundo afora.

M.T. – Pense rápido: qual a maior voz do Brasil?

- Milton Nascimento!

M.T. - A música brasileira mudou muito nos últimos tempos. Seus discos são como agulha no palheiro de tão brasileiro que é e de tão perfeitos que são. Voz e Piano, gravado com o pianista André Mehamari em 2005 é um disco perfeito, assim como , de 1994, que traz uma vertente e uma variante de sons e variações de mensagens. Mas na sua opinião, qual o melhor disco da sua carreira?

– Ainda não sei dizer.

M.T. - Tulipa Ruiz fecha o disco Embalar com a música Pra Começo de Conversa, juntamente com a sua autoria. Você já desenhou uma pétala de rosa no disco de estreia dela e esta é a primeira parceria das duas, cujo saiu perfeito. Pensam em trabalhar juntas num futuro próximo?

- Não há nada combinado, mas tenho a impressão de que é só começar.

 

Entrevista com Ná Ozzetti
Por Marcelo Teixeira