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sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

sábado, 3 de outubro de 2015

O desespero de Ângela Ro Ro


Desespero ou desesperada?
Não há como negar a existência de Ângela Ro Ro na música popular brasileira, assim como não há que negar seus escândalos e suas aventuras amorosas e suas amizades esdruxulas. Ângela é uma cantora de peso, com sucessos gravados e regravados por diversos nomes de categoria refinada e que merece destaque quando falamos de música de qualidade ou de cantoras que lutaram pela inclusão da mulher na seara dominada por homens. É bem verdade que seus escândalos amorosos com a cantora Zizi Possi tornaram sua vida pública ainda mais saborosa, fazendo com que sua música ficasse em segundo plano, impossibilitando a cantora de ser uma referência musical nos dias de hoje. Antes mesmo de escrever este artigo emergencial, saí às ruas (adoro fazer isso) para perguntar quem conhecia a cantora e dez entre oito pessoas jovens não sabiam de sua existência. Ângela está esquecida do grande público, não tem gravadora, não tem patrocinador, não tem plateia e não tem fãs, porque estes debandaram para a nova safra de cantoras ou migraram para outros nomes de pesos que preferem lançar discos cada vez mais autênticos, rebuscados e completos. Mas Ângela é daqueles tipos de cantoras que não levam desaforos para casa, não tolera a intolerância do outro, não usa o modernismo para se proclamar como a detentora do saber, não aceita modismos, não acata a rivalidade, mas quando entra na briga ela sabe que é pra ganhar. Recentemente a cantora se envolveu em mais uma polêmica, humilhando fãs, rebaixando funcionários do teatro, agredindo a quem estava lhe assistindo e, para piorar a situação, revidou aos insultos que estava sendo acometida. Ângela errou apenas em uma coisa neste episódio: denegrir a imagem do Ceará, um dos cartões postais mais belos do Nordeste e se auto afirmando ser uma cópia original carioca. Tudo bem que a cantora não precisa de público para ir aos seus shows, não precisa mais provar a ninguém que sabe fazer música de qualidade e não precisa mais estar entre as grandes cantoras para estar no auge de um sucesso, mas a mesma não consegue ficar longe de um holofote. Chega a ser vergonhoso senão pecaminoso seus versos filosóficos neste lamentável caso, em que a integridade moral de uma senhora de cabelos brancos deixa transpassar para todos aqueles que a estimam. Humilhar fãs não é caráter de nenhum artista, ainda mais quando este fã é jovem e que está dedilhando em poder conhecer sua carreira. Humilhar fãs não é caráter de um artista que trilhou um caminho de longa estrada para se chegar nesse ponto da vida e se ver desesperada com tal situação. Se em 2002 a cantora lançou um dos melhores discos do ano com o sensacional Acertei no Milênio e recentemente a cantora voltou às paradas de sucesso com Compasso, sendo muito executado nas rádios de todo o Brasil, a mesma Ângela que um dia cantou Amor, Meu Louco Amor e recusou de Cazuza a música Malandragem (cantada brilhantemente por Cássia Eller) se rende a histeria do desespero compassado com a tristeza de um abismo profundo.


O desespero de Ângela Ro Ro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A loucura de Lupicínio Rodrigues por Adriana Calcanhotto (2015)

 

A loucura de Lupicínio por Adriana
Antes de iniciar este artigo, gostaria de te perguntar: você conhece a obra de Lupicínio Rodrigues? Já ouviu falar no cantor? Conhece alguma música dele? Na certa, não. Pode ser que tenha ouvido falar sobre ele aqui ou ali, mas nunca se atentou em tentar decifrar quem fora Lupicínio Rodrigues. Poucos o fizeram e poucos conhecem seu trabalho. Talvez suas músicas mais famosas sejam Nunca (cantada magistralmente por Zizi Possi), Cadeira Vazia (imortalizada na voz e na teatralidade de Elis Regina) e Felicidade (cantada quase na forma poética pelo próprio Lupicínio). Essa é a grande chance de poder conhecer um pouco mais sobre a obra intimista deste que foi o pioneiro na arte de cantar as dores e as incertezas do coração.  Elza Soares e Gal Costa bem que tentaram, mas foi Adriana Calcanhotto quem acertou no ponto ao trazer em CD o melhor do repertório deste cantor e compositor gaúcho, que conseguiu ser um dos compositores boêmios de maior prestígio dentro da música popular brasileira. Mas o que muitos deveriam fazer assim que comprarem Loucura (2015 / Sony Music / 24,99) é correr para saber que as músicas aqui cantadas não pertencem ao mundo de amores perdidos e corações amargurados vividos por Adriana, mas sim, de amores loucos e doentios vividos ou imaginados por Lupicínio. Vamos deixar uma coisa bem explicada ao fã de primeira viagem: Loucura é um registro em que Adriana cede seu lado atriz para interpretar canções de outro compositor. Lupicínio nasceu em 1934 e morreu em 1974, mas quase ninguém hoje em dia se atenta em querer regravar suas músicas e dedicar um álbum inteiramente a ele é arriscar alto para perder muito, pois o mercado fonográfico requer uma demanda muito crescente, mas com pouca qualidade. O que se vê em Loucura é algo totalmente inverso: Adriana causa arrepios furtivos em momentos delicados com sua densa e atemporal interpretação para músicas como Felicidade (1947), Volta (1957), Vingança (1951) e Homenagem (1961). Se estivesse vivo, Lupicínio estaria completando 101 anos de vida e esta homenagem é a mais justa de todas, pois há envolvimento mutuo entre o homenageado e a cantora. E ninguém melhor que Adriana para dar-te um exemplo de ajudar o público a reconhecer o talento de Lupicínio: assim como o cantor, Adriana também é gaúcha. Loucura surge em um momento maravilhoso no cenário musical e dentro da carreira de Adriana, que destila um verdadeiro arsenal de emoções cantando as dores, as emoções e os sentimentos vazios de um homem chamado Lupicínio.


Loucura (2015) / Adriana Calcanhotto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A importância do álbum de Bebel Gilberto (1986)


Bebel: disco rejeitado por ela?
A primeira cantora a gravar Eu preciso dizer que te amo foi justamente uma das compositoras deste clássico, Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto. A canção, composta a seis mãos, foi gravada originalmente em 1986 para o disco inicial e experimental da cantora, intitulado apenas de Bebel Gilberto, contendo apenas 5 músicas. Não foi um grande lançamento na época e hoje em dia a própria cantora recusa saber a origem deste disco, mas o fato é que o álbum tem uma importância significativa dentro da história da MPB, na magnitude meteórica de Cazuza e, mais do que nunca, na vida da própria Bebel. Pra início de conversa, esse disco foi produzido pensando na amizade que Bebel tinha com Cazuza (seu grande amigo) e Dé Palmeira, seu então namorado. A época de seu lançamento, o disco não surtira efeito esperado e Cazuza não era tão famoso assim a ponto de ser reconhecido por suas letras e por esse motivo, passara desapercebido pelo grande público e crítica. Inclusive nos dias de hoje, o disco, raro no mercado, desperta a curiosidade apenas de fãs da cantora e por parte dos amantes da música nacional. Mas o que era para ser um motivo de orgulho, passa a ser um motivo de depreciação da cantora, que não gosta muito de seu início de carreira. Convenhamos que a voz de Bebel não era lá grande coisa e nem estava em evidência quando surgiu como interprete, tendo como concorrentes as principais vozes do escalão de Marina Lima, Zizi Possi, Angela Ro Ro, mas sua importância para os anos seguintes seria de grande valia. Seja como for, Bebel Gilberto (1986 / WEA / 35,00) é um disco que merece destaque e atenção pelo conjunto da obra. Produzido por Chico Neves, o disco fora de fato gravado em 1986 e teve como destaque duas grandes canções já imortalizadas nas vozes de Bebel, Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Zizi Possi, Ney Matogrosso, entre outros: Mais Feliz e Eu preciso dizer que te amo. Dois clássicos de extrema importância para ambos os cantores que fizeram destas canções verdadeiros hinos. Mas o que chama mais a atenção é a negação deste disco pela própria cantora nos dias de hoje. Bebel quase não canta essas músicas (Eu preciso dizer que te amo ela ainda cantarola), mas os outros nem sinal de que lhe pertencem. Algumas mídias colocaram em pauta que Tanto Tempo (2000) seria o primeiro trabalho de Bebel, o que não é verdade e mesmo assim, a cantora não chegou a desmentir esses veículos. Houve um boato até de que a cantora teria pedido para a gravadora Warner Arquivos retirar do mercado, sob escolta judicial, do CD do mercado recentemente, o que não ficou totalmente esclarecido, mas o fato é que o disco não se encontra tão facilmente. Embora Bebel tenha sido a grande detentora da música e ser a responsável pela gravação original, quem ganhou os holofotes pela primazia da canção foi Marina Lima, que a regravou, em 1987, para seu disco Virgem, tornando-se um dos grandes hits daquele ano e sendo campeã de vendas. A voz de Bebel era a de uma garota fanha, mais preocupada com os agitos dos amigos do que com a responsabilidade profissional em ser uma cantora. Anos depois houve um giro gigantesco em sua vida e Bebel pôde, enfim, mostrar sua versatilidade com discos antológicos e merecedores de aplausos tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Bebel Gilberto (1986) / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os haikais de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik em Ná e Zé (2015)


Ná e Zé: 30 anos de música
Uma coisa dentro da música popular brasileira é fato: é muito difícil cantar as músicas de José Miguel Wisnik. Suas letras são densas e com uma carga emocional muito grande, que muitas vezes ficamos tomados pela emoção, pois suas canções não saem de nossas mentes tão facilmente. Repito: as músicas de José Miguel Wisnik não são fáceis. Há um rebuscamento de paisagens abstratas que requer uma atenção mútua na melodia e que faz com que esqueçamos o mundo real lá fora para adentrarmos em um universo wisniquiano repleto de solitude, musicalizado pelo refinamento audacioso de um dos melhores compositores que a MPB ainda precisa (re)descobrir. Mas não precisamos mais esperar tanto, porque a cantora e compositora Ná Ozzetti fez esta audaciosa arte em prol tanto da música brasileira quanto de uma justa homenagem ao criador de obras primas como Mais Simples, O Tapete, Pérolas aos Poucos e Mortal Locura. Ná Ozzetti sempre gravou Zé Miguel em seus discos, desde quando ela ainda pertencia ao Grupo Rumo, nos idos anos de 1980 e dessa amizade de mais de 30 anos, surgiu um disco inteiramente dedicado ao cancioneiro de Miguel Wisnik. De Paulo Leminski, passando por Cacaso e Oswald de Andrade, José Miguel deu o ar de sua graça com as composições mais bonitas de seu cancioneiro e ajudou a aprimorar a finíssima riqueza da música nacional, miscigenando poesia, lirismo, música e a bela voz de Ná. Ná e Zé (2015 / Circus / 32,90) é um disco cantado por Ná Ozzetti e com participações do próprio Zé Miguel em todas as faixas, seja cantando ou em algum instrumento e de Arnaldo Antunes (Noturno do Mangue). Todas as músicas têm uma passagem especial na vida de ambos e regravá-las tem um significado importante para os dois: as músicas cantadas vão de um longo espaço de tempo entre 1978 até 2014. A voz cristalina de Ná Ozzetti ajuda a entender a atmosfera de Wisnik à medida que sua amplitude se mostra em um véu de sentimentalismos aflorados dentro de um segmento rítmico entre a coesão de uma filosofia harmoniosa e um destino que os uniram: a magnitude da música e o virtuosismo da amizade. Dedicar um disco inteiramente a uma amizade é desejo para poucos e refutados amigos que se entendem através da música (ou da batida perfeita) e neste conceito de musicalidade, Ná Ozzetti entende perfeitamente o que Zé Miguel diz em suas letras. Se antes tínhamos Zizi Possi como detentora oficial das obras de Miguel, agora podemos dizer que Miguel herdou mais uma: Ná Ozzetti. Zizi Possi, Mônica Salmaso, Elza Soares, Susana Salles e tantas outras já gravaram parte do cancioneiro de Miguel, sempre com a mesma dramaticidade emocional, seja em músicas divertidas, caso de Bambino, gravada por Elza em Do Cóxxix até o Pescoço (2002) ou em canções mais emblemáticas como Mundo Cruel (Zizi), em que a interpretação foi arrebatadora. Mas Ná tem um apreço maior agora: ela passa a ser em Ná e Zé a intérprete, aquela que canta de uma forma magistral as melodias e pensamentos filosóficos de um dos compositores mais sutis e misteriosos da nossa cultura. Afinal de contas, quem é José Miguel Wisnik? Um homem sem rótulos, um professor de Literatura Brasileira, ensaísta e compositor, amante das palavras complexas. Seu mundo é irreal, mas real dentro de um patamar rigoroso, por onde sua veia artística aflora em um misterioso intricado de palavras cruzadas que formam suas músicas. E quem é Ná Ozzetti? Uma mulher corajosa que canta as músicas de José Miguel Wisnik há muitos anos com muita garra e determinação e que tem uma das melhores vozes do mundo, capaz de nos emocionar com um simples olhar. Uma cantora que merece cantar o que quer por ser simplesmente Ná.  E neste momento, seu mundo é o mundo de Zé. Um mundo de ilusões irrisórias, de amores perdidos, de amizades duradouras, de teologias obscuras, de loucuras, de música. O encontro de Ná e Zé foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos na música popular brasileira e essa amizade resultaria em um dos discos mais aguardados do ano. Porque Ná é Zé e Zé é Ná.

 

Os haikais de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik em Ná e Zé (2015) / Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os dez melhores lançamentos de 2014


Os melhores CDs de 2014
De Alberto Salgado à Mônica Salmaso, passando por Ceumar e Criolo, o ano de 2014 foi um dos anos mais promissores para o mercado fonográfico: muitos lançamentos e muitas surpresas. Obviamente que nem tudo é flores e teve muitos CDs desprezíveis, mas na sua maioria, o ano foi de muitas novidades e, sobretudo, de muita qualidade musical. Sem ter uma posição para cada lançamento, o Mais Cultura Brasileira e, de quebra, o crítico que vos escreve, passou o decorrer do ano ouvindo muita música, muitas vozes, muitos CDs, garimpando aqui e ali nas lojas do ramo e muita coisa passou longe do meu crivo, pois não mereciam nem espaço numa linha em branco. Não foi muito difícil selecionar os dez melhores discos deste ano, mas houve algumas dúvidas, normais até então, para poder classificá-las de mediano. Mas depois de tudo acertado, eis que chego a conclusão dos melhores discos mais bem produzidos em 2014, de janeiro a dezembro e o leitor pode conferir agora. Lançando o ótimo Além do Quintal, Alberto Salgado é a revelação masculina de 2014 no Mais Cultura Brasileira!, assim como Tito Marcelo, cantor recifense residente em Brasília, uma das gratas e boas surpresas  no cenário musical. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor. Majestoso do começo ao fim, Silencia é um dos melhores discos da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Juçara Marçal nos brinda com um disco sensacional. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Maria Rita canta divinamente todas as faixas de Coração a Batucar sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Dani Calazans é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. Tito Marcelo é um desses cantores que nasceram para encantar: sensível, carismático, letrista, poeta, brasileiro. Nascido em Recife, Tito mora em Brasília e é da capital federal que surge mais um cantor de primeira grandeza na música popular brasileira. Pra Ficar no Sol é um disco interessante, irresistível, caprichado, moderno e com uma capa incrível. Aqui está todo o universo magnífico de Tito Marcelo, que se baseou nas estruturas do amor e na brejeirice das levadas infantis para compor boa parte do álbum. Corpo de Baile é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica Salmaso. Nesse disco houve um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Grata surpresa foi quando Mallu Magalhães se juntou a Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda pro Mar , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar o som de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu Zizi Possi mostra todo o seu encanto ao dar vida a Tudo se Transformou, que se transformou, sem querer, em um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e o lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora, merecidamente. E assim se completa a lista de 2014: com qualidade e muita música, boa, os melhores lançamentos são sempre os melhores. E que venha 2015!

 

 

Os melhores lançamentos de 2014
Marcelo Teixeira

terça-feira, 24 de junho de 2014

A falsa baiana: Claudia Leite


 

Senta lá, Claudia!
Sinto pena da Claudia Leite, agora denominada Claudia Milk, talvez para ficar internacionalmente conhecida. Senti vergonha alheia de ver Claudia Leite, Milk ou o que seja, dançando, pulando, erguendo os braços num grito de gol. Foi uma fatalidade total ver a falsa baiana vestida de azul cravada de diamantes, enquanto a nossa bandeira é verde e amarela. Graças a um erro da Fifa, a cantora foi selecionada para abrir a Copa do Mundo aqui no Brasil e fazer de sua imagem uma seda rasgada, deteriorada e senil. Claudia Leite, ops, Milk, estava apagada, mal iluminada e com uma roupa cafona que custou metade daquele estádio. Sem estilo, a cantora não teve sintonia com as músicas, com o estádio, com a cantora Jennifer Lopez, com os torcedores: sua maquilagem estava carregada e seus olhos estavam mortos. Mas há vários motivos do porque Claudia não poderia ser eleita a cantora para a abertura da Copa: ela não tem estilo, não tem carisma, nem empatia, muito menos simpatia. Seu semblante é de uma pessoa depressiva, de poucos amigos. Falsa baiana que é, a cantora carioca até canta, tenta demonstrar carisma, mas não passa de uma ilusão à toa. Centrada em cantar pérolas brasileiras, a cantora demonstrou que precisa estudar o repertório que não conhece ou não teve tempo de conhecer e que precisa ser mais brasileira para ocupar o espaço de uma verdadeira estrela. Mesmo assim, Claudia subiu e cantou, mesmo que para risos esfuziantes da platéia ou do telespectador do mundo inteiro. Com tantos nomes muito mais relevantes e intelectualizados no país, por que a Fifa chamou logo Claudia Leite, uma cantora que não tem aquele charme e nem aquela pureza de cantora baiana? Ivete Sangalo e Daniela Mercury estavam livres para aceitar o convite, assim como Maria Rita, Gal Costa ou Zizi Possi. Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil estavam totalmente desocupados para ocupar o lugar daquele cantor que só agitava os braços. E por que chamar uma cantora do porte de Jennifer Lopez, se temos muito mais capacidade de ter ali uma cantora nossa? Se a Fifa não tem respostas, eu tenho: a Fifa não é brasileira e isso todos nós sabemos. Escolheu cantores, artistas, figurinistas, pessoas e crianças estrangeiras e demonstrou, a torto e a direito, que não conhecem o nosso país. No final de tudo, acho que a razão até esteja com Claudia, quando canta no trecho em português de We Are One: Não importa o resultado, vamos extravasar! Rainha do pior axé music de todos os tempos, a única coisa que resta aos brasileiros e a própria cantora é extravar e rezar para que o Brasil ganhe a Copa. Não importa para os amantes da MPB, o resultado final: o importante aqui é que a música produzida por Claudia Leite é da pior qualidade, mesmo ela ganhando dinheiro e muito dinheiro. Perante o vexame de ver Claudia Leite cantando no centro do mundo, tive a certeza de que estamos falidos musicalmente, ao menos naquele momento em que ela se requebrava. Pensei na luta de cantores que tentam um espaço para sobreviver e pensei na paz do mundo se não tivessemos uma Claudia Leite.

 

A falsa baiana / Claudia Leite
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Zizi Possi quebra o jejum em Tudo se Transformou



Zizi: velhas roupagens
Nove anos separam a cantora Zizi Possi do público. Nove anos separam Bossa, lançado em 2001 de Tudo se Transformou, lançado agora em 2014. Se Bossa tinha uma pegada mais pra MPB elitísta, Tudo se Transformou nos remete à Bossa. Zizi Possi pegou a todos de surpresa ao lançar um disco este ano, pois ninguém imaginava que isso fosse acontecer tão cedo, mesmo a cantora tendo feito shows com o mesmo repertório, aqui em São Paulo. Mas aconteceu e o que Zizi nos apresenta aqui é um álbum bonito, bem feito e com a boa música popular sendo bem representada, característica de sua carreira. Zizi deixou Bossa suspensa no ar, com muitas perguntas e sombras de sua carreira, mas Tudo se Transformou (2014 / Eldorado / 20,90) é um disco de capacidade única que consegue juntar uma excelente voz com um piano majestoso. Na verdade e musicalmente falando, o novo disco de Zizi é pura MPB, ressoando nas músicas a leveza e autenticidade de sua belissima voz. Zizi é uma das maiores cantoras deste Brasil e esteve no páreo de ser a nova sucessora de Elis Regina juntamente com Gal Costa, em 1982. Mas Zizi mostrou que seu talento é superior e trilhou seu caminho com discos de sucesso e músicas que adentraram na mente do público até hoje. Se Bossa foi friamente recebido pela crítica e público, aposto que certamente este novo lançamento não passará pelo mesmo crivo. Como disse, Zizi está cantando divinamente, o CD está com uma capa estonteante  e a cantora continua sendo a melhor dentre as melhores e os treze anos que separaram a cantora de seu público a fizeram selecionar as músicas e fazer um disco a sua altura. Mas erros fatais aconteceram para que Tudo se Transformou não entrasse de cabeça erguida para o mercado fonográfico como as boas vindas à Zizi. Primeiramente, a música de abertura, Filho de Santa Maria, foi composta sobre a poesia de Paulo Leminski musicada por Itamar Assumpção. E cadê o nome de Itamar nos créditos? Mas não precisava da voz de Webster Santos nos vocais desta música, porque ele não canta nada e mais parece um cantor esperando as notas dos jurados. Voz grave, forte e estranha que contrasta com a voz doce, pura e sentimental de Zizi. Outro erro fatal foi a regravação de Disparada, já cantada habilmente pela própria no disco Puro Prazer (1999), já que sua voz casou-se muito bem com o piano de Jether Garotti. Aqui a canção fica batida e mesmo tendo novos arranjos, ficou chato ter que ouvi-la em sua voz novamente. Tudo se transformou, do mestre Paulinho da Viola e que deu título ao novo trabalho da cantora, é um samba lamentação das dores ocorridas pelo amor e valeu a pena, porque Zizi dá um show de interpretação. O disco é todo caprichado desde a abertura até a décima e última faixa do show ao vivo, tendo neste meio tempo canções de Guilherme Arantes (Meu mundo e nada mais) e da estreante compositora Necka Ayala, No Vento. Luiza Possi, a filha ilustre, surge como compositora ao lado de Dudu Falcão na música arrastada Cacos de Amor, gravada no CD de Luiza, intitulado Seguir Cantando (2011) e Gonzaguinha ressurge das cinzas em Explode Coração. De Dominguinhos e Anastácia vem Contrato de Separação e Porta Estandarte (Fernando Lona e Geraldo Vandré) fecha o disco ao vivo com chave de ouro pela alegria contagiante que a música proporciona, alternando com Filho de Santa Maria. O bônus fica por conta dos tribalhistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown na música Sem Você, que fala dos sentimentos amorosos e da solidão. Aqui Zizi mostra todo o seu encanto ao dar vida a uma música de dois homens totalmente amorosos e a canção acaba sendo a melhor do disco. Tudo se Transformou é um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora. Merecidamente.

 

Tudo se Transformou (2014) / Zizi Possi
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A bossa de Zizi Possi


A bossa sensível de Zizi
Quando Zizi Possi lançou Bossa, houve muita confusão, porque todos acharam que o disco seria uma homenagem à bossa nova e, quando ouvimos música a música, uma ou outra canção remetia ao movimento. Zizi Possi, na verdade, não queria fazer de Bossa um disco de bossa nova. Ou melhor, queria fazer um disco de não-bossa, armando-se de complexas explicações conceituais sobre células de bossa nova e outros babados. Ela cai numa contradição ao tentar explicar demais a obra, principalmente porque, entre a bossa e a anti-bossa, Zizi não escolhe nem uma nem outra: prefere a si mesma. Assim, não dá para deixar de notar que a tal reinterpretação do cânone bossanovístico nem ficou tão inovadora e inédita assim - pois mais do que qualquer conceito, o que impera em Bossa é a diva, cantora de técnica impecável e eternamente no fio entre a dramaticidade do canto e a aspiração cool dos arranjos que a cercam. Mediano como disco de bossa nova e meio frustrante como viagem criativa, o novo CD é, mais de tudo, ótimo em um gênero no qual a cantora é única: o ser Zizi Possi.

A bossa de Zizi é elegante, feita de sonoridades sutis (reforçadas pelas inevitáveis cordas gravadas em Londres). A condução do álbum é dada pelo violão de batida joãogilbertiana de Camilo Carrara, que permeia o disco (quase) de ponta a ponta. Assim como elegante também é a cantora que se derrama em um repertório quase todo já conhecido, à exceção de duas faixas. Uma delas, Qualquer Hora, talvez seja o melhor momento do CD, na qual Zizi sussurra a bordo de um arranjo intrigante e desconstruído.

A outra novidade é um Herbert Vianna não exatamente memorável (Eu Só Sei Amar Assim, que apesar de tudo tem um refrão bonitinho). Novidade também há na duplicada Preciso Dizer que Te Amo, que ganha uma versão normal para abrir o álbum e outra alterada para fechá-lo. Essa segunda passagem pela canção pode ser mais perto que Zizi poderia chegar de um trip-hop, sob a produção de Dudu Marote.

As referências mais explícitas à bossa ficam também nas entrelinhas - como o atropelamento da métrica tradicional em Caminhos Cruzados, e também na versão de Preciso Aprender a Ser Só (que ganhou ares de jazz-song, com contrabaixo e piano em primeiro plano). Mas quando desencana e canta com tudo o que pode - como na bela So Many Stars - Zizi faz a todos mais felizes.

 

Bossa / Zizi Possi

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Fascinação é o melhor álbum de coletâneas de Elis - e só!


O melhor de Elis está aqui
Elis Regina ainda é considerada por alguns critícos medonhos como a maior cantora do Brasil, mas seus discos, na maior parte deles, não são tudo isso. Elis era histriônica e ficou mais conhecida não por sua música, mas sim por suas frases de efeito moral e constrangedor e pelo fato de ter lançado compositores ávidos por música boa e de qualidade e que estavam em um momento propício para isso. Seu álbum mais completo com relação as coletâneas lançadas após a sua morte é duplo Fascinação, lançado originalmente em 1988. Depois deste álbum, muitos outros vieram, com capas horrendas e músicas ditas inéditas, o que não é verdade. Em Fascinação (1988 / EMI / 25,99) temos praticamente tudo aquilo que Elis cantou em discos pouco caprichados ou sem acabamento algum e que reforçam, aqui, o melhor da cantora.

 Há vários momentos e fases na vida da Pimentinha, mas que nem sempre seus discos ajudavam, mas Elis fez discos que valeram muito a pena, como Elis (1973), Elis, Essa Mulher (1979), Falso Brilhante (1976) ou o antológico Elis & Tom, gravado em 1974, que foi um marco na carreira de Tom Jobim juntamente com a marrenta Elis Regina e um disco que não pode faltar na sua prateleira.

Fascinação é a melhor coletânea de Elis e isso fica evidente pelos trabalhos respectivos que vieram à tona: fracos, feios e oprimidos. Aqui, Elis recebe carinho e tratamento especial, com uma capa geniosa demonstrando sua face de cantora de protesto numa bela pintura e com estrelas norteando sua presença. As músicas retratam várias passagens da cantora, como O Fino da Bossa, época de grande prestígio tanto para Elis como para Jair Rodrigues, o grande amigo da cantora.

De João Bosco a Renato Teixeira, passando por Milton Nascimento e Ivan Lins, Fascinação tem de tudo um pouco e nos por vezes me faz acreditar que ela é a maior cantora do Brasil. Não desmerecendo a tragetória de Elis, que nos brindou com algumas das melhores músicas da MPB, aqui destacadas nesta coleção. Para gostar de Elis é preciso um disco assim, com os melhores sucessos de sua carreira e não um disco qualquer de um ano qualquer. Assim o ouvinte de primeira viagem poderá perder a vontade de conhecer toda a sua obra ou ao menos vasculhá-la.

Elis não tem as melhores músicas, mas gravou um punhado de canção legal, que futuramente, com algumas cantoras, como Zizi Possi ou Daniela Mercury soaram até melhor e menos agressivas. Elis era Elis e ainda continua sendo Elis, mas não foi a cantora suficientemente boa e pensante para fazer discos futuros para que pudessêmos ficar horas e horas ouvindo. Por vezes, cansa. Por dias a esquecemos. Mas vira e mexe estamos lá ouvindo ao menos uma canção sua. E Fascinação é uma boa pedida nesses momentos.

 

Fascinação – Elis Regina

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

13º Maior Cantora do Brasil: Zizi Possi




Zizi na lista das melhores
Zizi Possi é o exemplo de uma cantora que toma as rédeas de sua carreira e se dá bem. Apareceu no cenário musical no final dos anos 70 através da música Pedaço de Mim, de Chico Buarque, mostrando uma bela voz e uma sensibilidade interessante. Na década de 80 teve sua fase pop onde até emplacou algumas músicas nas paradas de sucesso. Mas Zizi sabia que poderia fazer mais e melhor. E fez. Deu uma guinada radical e resolveu assumir os riscos de bancar um projeto que fugia do padrão mercadológico vigente. O resultado desta virada foi o disco Sobre Todas as Coisas, um trabalho de repertório belíssimo, com arranjos enxutos e músicos extremamente competentes. Uma banda mínima com um som enorme! A partir desse momento, Zizi começou a delimitar um espaço musical valioso. Voltou a ser ouvida e respeitada por um público seleto e crítico. Virou referência, tanto pela ousadia, como pela capacidade. Lançou um CD após o outro com esta preocupação de cantar o melhor da música brasileira. Fez regravações e ainda cantou músicas inéditas de compositores ainda pouco conhecidos. Sucesso absoluto de crítica.

Mais uma vez Zizi resolve girar a roda de sua vida e muda radicalmente o estilo, cantando em italiano. Assume a sua origem mediterrânea e seu CD Per Amore, aonde vende mais de 600 mil cópias. Caiu no gosto popular. É cantada por jovens e velhos, tornando-se também um sucesso de público. O disco Passione, lançado em 1998, também com músicas italianas, segue a mesma tendência. Olhando para trás e vendo tudo que Zizi Possi fez e aconteceu é difícil imaginar qual será seu próximo passo. Que mudança, que novo rumo ela dará em sua carreira. O que sobra para quem gosta de música é esperar e pagar para ver. Com certeza, Zizi Possi é uma das 30 maiores cantoras deste país das mulheres.

 

13º Lugar: Zizi Possi

As 30 Melhores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

 

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O início de Adriana Calcanhotto


 


Enguiço tem a bela voz de Adriana
Muito conhecida hoje por trabalhos autorais, já que nos últimos CDs a maioria das canções são de autoria própria, nesse primeiro disco ela optou por priorizar seu lado intérprete, ainda que também tenha músicas próprias, como Enguiço (que deu nome ao disco) e Mortaes. Embora eu goste muito de suas composições que certamente contribuíram para consolidar sua carreira nesses mais de vinte anos, esse primeiro disco acabou ficando marcado por algumas interpretações de canções de outros músicos, mas que com a voz e arranjos dela, adquiriram vida própria. Depois de iniciar com a citada Enguiço, ao som de uma banda de metais (saxofones, trumpetes, trombones, etc), vem Naquela Estação, bela canção de João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos que tocou muito nas rádios na época e serviu para apresentar Adriana Calcanhoto ao público.

Em seguida, ela transformou completamente a canção do Roberto e Erasmo, Caminhoneiro (cuja original eu particularmente não gostava). Com novo arranjo e uma voz límpida, o resultado ficou muito bom. Em seguida, fez a mesma coisa com Sonífera Ilha, desacelerando completamente a conhecida música dos Titãs, incluindo cordas e empregando à canção um novo sentido. Ao interpretar a canção de Luiz Peixoto e Vicente Paiva feita para Carmen Miranda, quando retornou ao Brasil após sua primeira viagem aos Estados Unidos, Adriana Calcanhoto consegue outro belo resultado para Disseram que voltei americanizada.

Na sequência, Calcanhoto desfila seu Orgulho de um Sambista, de Gilson de Souza numa suave canção de amor de carnaval. Fiel às suas origens (ainda que hoje seja, antes de tudo, uma cantora brasileira), ela ainda inclui no repertório Nunca, de Lupicínio Rodrigues, o mais clássico compositor gaúcho, novamente acompanhada por instrumentos de cordas que valorizam sua voz, embora a canção tenha caído como uma luva na voz de Zizi Possi.

Depois de Pão Doce de Carlos Sandroni, que conta com a participação do também gaúcho Renato Borghetti (Borghettinho) e de Mortaes, a segunda música autoria própria nesse seu primeiro disco, ela finaliza com a bem humorada Injuriado de Eduardo Dusek, acelerando o ritmo, dando boa demonstração de sua versatilidade.

Desde o lançamento desse disco, em 1990, Adriana Calcanhoto (que também desenvolve excelentes trabalhos paralelos como Adriana Partimpim) vem consolidando cada vez mais sua carreira e hoje é, certamente uma das cantoras e compositoras brasileiras mais versáteis. E embora discos posteriores dela possam ser considerados até melhores, Enguiço serviu como cartão de visita de uma intérprete que concilia suavidade com personalidade. Felizmente para nós, ela seguiu atrás de algo impressionante.

 

 

Enguiço / Adriana Calcanhotto

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 25 de julho de 2012

João Bosco - 40 Anos Depois


João Bosco em sua plena forma
Se Elis Regina estivesse viva, na certa gravaria Papel Marchê, música composta por João Bosco e Aldir Blanc nos anos 90 e que foi a música mais executada e gravada por grandes nomes da MPB. Se João Bosco tivesse composto a canção nos anos 70, certamente Elis a gravaria e com estrondoso sucesso. Zizi Possi, que fora cogitada como a sucessora de Elis após sua morte precoce, gravou a canção lindamente, que não precisaria de retoques ou outra grande interprete para canta-la. Assim como Milton Nascimento, as músicas de João Bosco foram feitas para Elis, mesmo as compostas nos anos 90 e no início do século vinte e um. As músicas do disco Na Esquina remete ao disco Elis 1973, tamanha a bela conjuntura de jogos de palavras. Isso acontece com o disco Os Malabaristas do Sinal Vermelho (2003), em que algumas faixas nos dão a dimensão de que Elis está ali, captando o som, administrando as palavras, sentindo a letra da canção.

Se 40 minutos são uma eternidade, 40 horas são demoradas e podem-se produzir maravilhas, imagina o que se pode fazer em 40 anos! São tantos se, que João Bosco, completando 40 anos de sucesso e carreira, pode se dar ao luxo de dizer que fez muito pela música, pela MPB, pela cultura brasileira e por todos nós. Cantado por ilustres bambas da MPB, de Clementina de Jesus a Caetano Veloso, Ana Carolina, Céu, Maria Rita, Chico Buarque, Clara Nunes e Rebecca Matta, João Bosco é um ícone a ser respeitado no cenário musical de todos os tempos e seu legado é de extrema competência.

Aos 65 anos, o cantor e compositor de Ponte Nova, cidade da zona da mata mineira, retorna para onde tudo começou: a canção Agnus Sei, parceria dele com Aldir Blanc, lançada em 1972, num disco de bolso comercializado pelo jornal O Pasquim. Com forte influência da arte barroca mineira, o cantor dá nova roupagem à canção ao contar com a participação especial dos também mineiros Milton Nascimento e Toninho Horta. Faces sob o sol, os olhos na cruz / Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã / Vão levar ao reino dos minaretes / A paz na ponta dos arietes / A conversão para os infiéis.

Os tais mestres da tradição e de geração escolhidos por João Bosco são Tom Jobim, presente com Fotografia; o cubano Ernesto Grenet, com a charmosa Drume Negrita; Paulinho da Viola, com Tudo Se Transformou; Noel Rosa, na parceria com Vadico, Pra Que Mentir; e Milton Nascimento, com a parceria com Márcio Borges, Tarde (um dos símbolos do Clube da Esquina) e instrumental Julia (ironicamente o nome de sua filha, a também cantora Julia Bosco), que conta com a participação do amigo de longa data e pianista Cristóvão Bastos. Chico Buarque é o autor de Bom Tempo, a qual interpreta com João Bosco e que termina como se fosse um poderoso samba-enredo.

Chico Buarque faz outro dueto com João Bosco num dos maiores sucessos deste, O Mestre-Sala dos Mares, parceria com Aldir Blanc lançada no álbum Caça a Raposa, de 1975. Do mesmo trabalho, vem outras três parcerias com Blanc – a faixa-título, “Bodas de Prata, que conta com Toninho Horta e Cristóvão Bastos; e De Frente Pro Crime, com a cantora Roberta Sá e o instrumental Trio Madeira Brasil. Esse trio também está presente em Plataforma, outra composição de Blanc-Bosco, originalmente do álbum Tiro de Misericórdia, de 1977.

Da safra mais recente, aparecem Tanajura, do disco Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, de 2009; Jimbo no Jazz, parceria com Nei Lopes, do mesmo trabalho; e a maravilhosa Eu Não Sei Seu Nome Inteiro, do disco Os Malabaristas do Sinal Vermelho composta com o filho Francisco Bosco e o eterno amigo João Donato, que participa tocando piano.

João Bosco é acompanhado de músicos que já estiveram com ele nas estradas da vida. São eles: Ricardo Silveira (guitarra), Nelson Faria (guitarra), Jorge Helder (baixo acústico), João Baptista (baixo elétrico), Armando Marçal (percussão) e Kiko Freitas (bateria). E, desse modo, o artista estabelece, mesmo que sem se valer das músicas mais conhecidas do grande público, um intenso diálogo com seu passado e com o futuro.



João Bosco – 40 Anos Depois

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Marina Wisnik: surpresa na MPB





A cantora Marina Wisnik
Ela é filha do escritor, poeta, compositor, intelectual, cantor e artista qualificado José Miguel Wisnik, que teve suas canções imortalizadas nas vozes de Zizi Possi, Zélia Duncan, Mônica Salmaso, Virgínia Rosa e isso para ficarmos nas grandes cantoras. Seu nome é Marina Wisnik, uma cantora tão refinada e qualificada quanto o pai. Escritora, Marina Wisnik formou-se em Letras e encontrou na música seu caminho mais delicado para soltar sua bela voz, capaz de nos hipnotizar a cada verso cantado.

Na Rua Agora (2012 / Circus Produções), com produção de Marcelo Jeneci e Yuri Kalil, só está disponível pela internet por enquanto, mas a qualidade musical está acima de qualquer suspeita. Dona de um carisma incrível, Marina vem conseguindo impor seu estilo musical nas redes sociais e a quantidade de pessoas que estão indo atrás de seu trabalho é respeitável. No Site Musicoteca (www.musicoteca.com.br/marinawisnik), você consegue baixar todo o disco e se arrepiar com músicas de altíssimo nível. Vale lembrar que logo o mais o disco estará à venda nas melhores lojas do segmento fonográfico e assim que sair do forno, o Mais Cultura! divulgará em primeira mão.

O que torna irresistível o trabalho de Marina é a técnica vocal e as letras muito bem compostas, com um início, meio e fim. Marina sabe o que canta e interpreta suas próprias canções com um certo intimismo e uma delicadeza profunda, deixando nítido que ela veio para ficar. Seu disco de estreia contêm onze faixas e é a mais pura e verdadeira MPB.

O romantismo aflora em Na Rua Agora e na maioria de suas faixas o som que Marina produz é diferente do que há disponível hoje na chamada nova MPB. As músicas são singelas, puras, doces, ingênuas e de alcance único. E isso faz o diferencial entre Marina Wisnik e as demais cantoras. Seu som é sutil e sua musicalidade é simétrica e depurada.

Abrindo o disco, Na Rua Agora, que dá nome ao seu trabalho é uma música alegre, descontraída e contagiante, dando a dimensão da mensagem que Marina transpassa: ela está ali agora, na rua, para mostrar a que veio e que não está somente de passagem. O jogo de vocábulos se manifesta na solene e romântica Deitada em Si, música que brinca com a repetição de palavras e que se transforma numa lindeza do começo ao fim, com suas nuances, dando a sensação de que Marina está cantando bem ao pé do nosso ouvido. Jardim de Inverno é ótima, divertida e a afinação de Marina é perfeita para contar as desventuras de um amor e a diversificação de jardins existentes na vida.

Em Sei lá, a quarta faixa, a voz de Marina soa cristalina, pura e de uma energia magnífica e sensual e talvez seja a melhor faixa do disco. Mar Te Achar tem de tudo um pouco: música cantada com uma certa rapidez, como num jogo de palavras, passando para música falada em versos curtos e em determinado ponto temos a sensação de que estamos defronte ao mar, com suas conchas, suas ondas, a areia por perto, transformando a canção maravilhosamente bela. Mas é em Miragem que a grandiosidade de Marina Wisnik aflora: em meio a uma atmosfera meio mística, meio surreal, sentimos, ao ouvir a canção, uma certa miragem, qualquer miragem, a verdadeira miragem, se fecharmos os olhos ao som de sua suave voz, deixando a música adentrar em nossa pele, nossos poros, nossa alma. A melhor faixa do disco está aqui, dando a dimensão de todo o disco. Esta música tem participação de seu pai, José Miguel Wisnik.


Marina em um show: voz cristalina e doce
Manhã de Manhã é uma canção que foi feita para acordar, com sua beleza, seus versos e sua característica matinal. Veneno é uma música falada, estilo hoje que poucos cantores ousam fazer, talvez temendo que a fórmula esteja ultrapassada ou que soe sem sentimentos, mas o fato é que aqui Marina consegue versar as palavras num ritmo que não se perde no fio condutor da canção. A suavidade da voz doce de Marina aparece também em Dezesseis, música que fala de uma pessoa que pensa a todo instante em alguém e vira do avesso a cada pensamento. Esta música tem uma particularidade: é a única faixa do disco que tem passagens em inglês, cantada por Thiago Pethit.

Primeiro Céu é a música que nos surpreende e mostra toda a versatilidade de uma cantora: aqui, Marina se mostra sutil e agressiva. Sutil nas melodias, na letra da música e nos primeiros acordes, mas a canção vira do avesso e nos revela uma Marina agressiva no sentido roqueiro, com sons eletrônicos, ruídos e muita sujeira boa na canção. Música perfeita para encerrar o disco.

Mesmo chegando tarde ao cenário musical, Marina Wisnik apareceu em um momento que mais precisávamos: a MPB está redondamente perfeita de cantoras boas e de altíssimo calibre e tendo agora Marina em seu casting é agraciar e enriquecer nossa cultura com sua poesia urbana.



Faixas

·       1 – Na Rua Agora

·       2 – Deitada Em Si

·       3 – Jardim de Inverno

·       4 – Sei Lá

·       5 – Mar Te Achar

·       6 – Miragem

ü  Part. Especial de José Miguel Wisnik

·       7 – Manhã de Manhã

·       8 – Fim de Estrada

·       9 – Veneno

·       10 – Dezesseis

ü  Part. Especial de Thiago Pethit

·       11 – Primeiro Céu



Produzido por Marcelo Jeneci e Yuri Kalil



Nota 10

Na Rua Agora / Marina Wisnik

Marcelo Teixeira