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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Anitta: vedete, cantora, medíocre

Anitta: voz do funk?
A bestialidade é a condição de quem ou daquilo que é bestial, temendo um comportamento que assemelha o homem e  mulher à besta com uma brutalidade ou imoralidade perceptível. Não podemos negar que Anitta seja um furacão estrondoso com uma potência relevância dentro da MPB, mas dizer que ela é a maior cantora com nível de voz acentuado e um pouco de sensatez dentro da música popular é incoerente aos padrões estéticos musicais vigentes. Não podemos, reitero também, menosprezar o tamanho de sua importância e valor perante seus milhões de fãs pelo agora mundo afora, mas é preciso respeitar os limites éticos e políticos que a pluralidade e a transversalidade exigem. Anitta voltou ao topo da parada de sucesso com um meteoro estilístico que marcou sua entrada no mundo das vedetes e cantoras e outras medíocres artistas que polarizam nossas mentes e reações. Anitta encabeça todas essas qualidades: é vedete, é cantora, mas também é medíocre. Seu mais recente sucesso, Vai Malandra, nada mais é que um tiro no peito do cidadão brasileiro que adere às políticas da boa vizinhança quando diz respeito aos valores morais da constituição musical. Não que a música tenha que ter um certo limite ou uma compreensão da filosofia dentro do contexto social e antropológico, mas a música e, principalmente, o clipe, são uma afrontosa negligência aos apelos civilizados de pessoas que lutaram anos e anos a fio por uma contra censura monopolizada e que hoje recebem bem na sua cara uma chuvarada de bundas e peitos e homens e mulheres pelados. Com ou sem silicone, o que mais se vê nesse clipe é a apologia ao sexo gratuito, à vulgaridade explícita, ao papel cafajeste do homem do morro e da mulher que usa cabelos estilo rastafári para poder se impor como mulher de respeito ou, em outras palavras, mulher de malandro. Está nitidamente claro e evidente que Anitta não voltou ao mundo do funk apenas por voltar: tem um contexto social e político da própria cantora acerca desse movimento. Anitta não criou o funk brasileiro e nem é detentora do estilo. Anitta não resgatou o funk e muito menos será coroada a rainha funkeira do morro e da comunidade, mas a música deixa em destaque que a mulher precisa de um empoderamento perante a sociedade para exigir respeito.O respeito por meio da bunda, dos glúteos siliconados ou não e do peitão à mostra. Enquanto Elza Soares (A Mulher do Fim do Mundo, 2016) veio com um disco sensacional em prol da luta pelas mulheres, pelos negros e pelos esfarrapados, Anitta surge com uma música que extrapola os limites da selvageria imoral ao abordar o mesmo tema. Gosto da Anitta e a respeito como cantora, como mulher e artista que és, mas não posso me curvar diante tanta insensatez imoral para poder se autorretratar perante uma canção que mostra glúteos deformados, partes pélvicas suadas e cabelos oxigenados mostrando que a periferia tem voz e vez. Lembremos que a comunidade precisa ter voz e vez, mas não com um festival de imbecilidade assistida como esse clipe de Vai Malandra. Enquanto a comunidade e o funk lutarem por uma democracia de igualdade e equidade sem mostrar seus dotes corpóreos, estaremos falando a mesma língua para uma emancipação da sociedade. Mas enquanto estiverem lutando em prol de glúteos, o movimento e a comunidade retratada perdem seus direitos pela tal igualdade e por uma tal de equidade.


Anitta: vedete, cantora, medíocre
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Leny Andrade - uma cantora brasileira


Leny : grande dama da MPB e sem rótulos
Embora muitos ou poucos a considerem como uma cantora de jazz, a própria Leny Andrade não se considera rotulada como tal. Leny gosta de ser chamada de cantora. Simplesmente cantora. Em alto e bom som e na sua mais plenitude definição. E por que e para quê limitá-la a um gênero quando se sabe que ela domina tantos outros? Se precisar for classificá-la de alguma maneira, a única palavra possível seria: brasileira. Então assim a chamemos: Leny Andrade, uma cantora brasileira. Assim como é uma cantora brasileira que fez mais sucesso (com merecimento) do que em solo americano, a própria Leny diz que é uma aspirante cantora americana. Nada nada e nada longe da verdade. Leny canta desde 1983, quase todo o ano, em Nova York. E tanto que, em 1993, dez anos depois, já com o Green card na bolsa, resolveu montar por lá um agradável espaço em formato de moradia onde pudesse pousar o corpo durante suas longas e lotadas temporadas no Ballroom, no Blue Note, no Town Hall e nas demais casas que disputavam o seu canto. Era também uma base confortável para onde retornar depois de se apresentar em Washington, em Los Angeles ou em cidades americanas. E até hoje é assim, com a diferença de que seu principal placo em Nova York passou a ser a casa de jazz mais respeitada do mundo: o Birdland, assim chamada para homeagear o saxofonista Charlie Bird Prker. Nenhuma cantora pode ser comparada à Leny, exceto Ella Fitzgerald. Excelente cantora que é, Leny é uma cantora que improvisa em vocais, lógica e assimétricas em explosivo dinamismo. Nascida no Rio de Janeiro em 1943, a cantora foi criada em conjuntos habitacionais e desde pequena sonhava em ser cantora. Ingressou na Bossa Nova tendo dois pontos centrais e cruciais: de um lado João Gilberto, que mantinha uma postura cool, equilibrada, simplista, justa e exata e de outro lado tinha a linha feminina que contrariava com a de Nara Leão, Dulce Nunes, Astrud Gilbert, Odette Lara, Wanda Sá, Joyce, Miúcha, Elza Soares, Elis Regina. Mas ao mesmo tempo que Leny tinha o exemplo e companheirismo de João Gilberto, ela se dividia entre outras inspirações e vertentes masculinas, como Wilson Simonal, Jorge Ben e Emílio Santiago. Mas ao adentrar na Bossa Nova, Leny provou que era Sambop, estilo totalmente diferente do estilo banquinho e violão. Um dos maiores desmentidos à história de que a bossa nova era cantar baixinho foi a entrada de Leny no movimento: cantar baixinho não era com ela. E mesmo assim, Leny foi a mais consagrada dentro desse time de cantoras extraordinárias. Miéle e Ronaldo Bôscoli foram os responsáveis pelo impacto da presença de Leny em solo brasileiro, quando produziram o histórico show Gemini V, que também contava com Pery Ribeiro e o Bossa Três. Depois disso, Leny percebeu que aqui não seria seu verdadeiro palco, embora saiba da sua responsabilidade em ser brasileira: o Brasil não a respeitaria como cantora, mulher e dona de uma das vozes mais autorais de seu tempo. Fez e faz sucesso nos Estados Unidos pelo conjunto da obra e lá o povo americano a reverencia como sendo a maior cantora de jazz do mundo.

Leny Andrade – uma cantora brasileira
Por Marcelo Teixeira

sábado, 6 de agosto de 2016

Adeus, Vander Lee!


Vander Lee: morte precoce
Vander Lee não era um cantor muito conhecido do público em geral, mas tinha a o seu público especial, aquele público que acompanhava de perto a carreira do artista, que sabia de cor suas letras e não perdia seus shows. O cantor não tinha uma grande voz, não era popular, não era famoso, mas conseguiu fazer de sua música um instrumento de trabalho poderoso, cuidadoso, corajoso e audacioso. Mesmo não tendo uma voz característica de grandes artistas de seu tempo, ele sabia como hipnotizar seus ouvintes da melhor forma possível: através de sua composição certeira, arisca, rica. Foram poucas canções em uma carreira marcada pela amorosidade à música brasileira, mas destas, podemos dizer que foram suficientemente francas no ponto de vista solitário de um artista neutro, imparcial, não popularesco. Vander Lee teve pouco tempo de vida, morreu jovem, começou tarde na música, mas angariou letras sensacionais que em pouco tempo arrebatou nas vozes de Alcione, Leila Pinheiro, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Benneditto. Foram músicas fortes que falavam de Deus, romantismo, sinceridade e uma profusão de ideias e pensmentos e frases e amores que apenas Vander Lee conseguiu extrair de sua mente em ebulição. Saí de cena um musico exemplar, de uma categoria ímpar, de uma finesse perfeita para ficar em nossas lembranças um artista único, completo, sensível, amável. Mais conhecido por seus versos que falavam do amor cotidiano, Vander cantava sua singeleza como elemento de sua música autoral. Ele tinha 19 anos de carreira, nove discos gravados e sua madrinha era ninguém menos que Elza Soares!

 

Adeus, Vander Lee
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O poder de Elza Soares


Elza e o fim do mundo
Não é fácil ser Elza Soares. Embora sua imagem esteja inúmeras vezes associada a Garrincha, Elza Soares é muito mais que a ex mulher de um dos maiores jogadores de futebol do Brasil. Considerada a melhor e a maior voz de todos os tempos pela BBC de Londres, Elza sofreu racismo, apanhou, gritou, cantou o amor, cantou a desilusão, vociferou contra as mazelas e a favor de um povo oprimido e carente. A música em sua vida sempre foi prioridade, assim como aquilo que canta, que mais soa como verdade e transpassa a sua emoção que irradia de sua pele para a pele seguinte. Elza pediu passagem, ganhou liberdade e continuou vociferando contra vozes ocultas dentro de um segmento musical, racista, feminino e caricatural. Elza é Elza, negra, mulher, cantora, a maior de todas. Caiu no ostracismo, Chico Buarque a ajudou a dar a volta por cima, tombou, se machucou, ralou os braços, cortou as mãos e Caetano Veloso fez das tripas coração para ver do cóccix até o pescoço inteira, em pé, vibrante, rosto entonando para o alicerce de uma luz sem fim, reinando poderosa e soberba sobre aquilo que já sofrera, já se arrependera e se machucara. Elza sobreviveu! E sobrevivendo desses ostracismos e dessas guerras mundiais e musicais, voltou triunfal em 2002 pelas mãos de dois gênios da música popular brasileira e caindo nas graças, mais uma vez, do público e da crítica especializada. Passados mais de dez anos desde o lançamento de inéditas, Elza adentra com o pé direito e nos ensina o que é ter quase 80 anos de idade e lançar um disco maravilhoso, saboroso e original como o que lançou no ano passado! Eu me rendo, porque Elza não esmorece e sabe que seu lugar é o de ponta na MPB: há requintes de sabedoria aqui, há música de verdade, há voz de Elza sobre canções verdadeiras, ideológicas, caprichadas. Entre palavrões e machadadas de pensamentos periféricos, A Mulher do Fim do Mundo (2015 / Circus / Natura Discos / 29,99) é um belo retrato entre a paisagem da favela e da menina que se transforma em mulher por entre becos cheirando a drogas e calcinhas penduradas no varal. O reflexo entre o submundo do circuito inteiro das mulheres que se transformam em escravas do lar perante seus homens é um divisor de águas neste disco, sendo retratada de forma explorada em praticamente todas as faixas do álbum: há tiros, pulverização de terra batida, becos mal iluminados, ruas vazias sendo observadas por meninos pretos que logo serão bandidos e donos do pedaço. Há a mulher prostituta, há o lirismo sutil de Berenice, há a aclamada guerreira Maria da Vila Matilde. Há belezas com a sofreguidão estampada no estampido do revólver do marginal, há o cenário destruído e pobre de um fim do mundo que pode ser bem ali, na porta da entrada da sua casa. Elza pediu passagem, ganhou a liberdade e conseguiu ser ouvida pelo povo oprimido, pelos novos compositores, para chegar ao sopro de um disco à altura de seu peso e acima de seu poder. Eis aqui o poder de Elza Soares!

 

A Mulher do Fim do Mundo (2015) / Elza Soares
Nota 10
Marcelo Teixeira 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os haikais de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik em Ná e Zé (2015)


Ná e Zé: 30 anos de música
Uma coisa dentro da música popular brasileira é fato: é muito difícil cantar as músicas de José Miguel Wisnik. Suas letras são densas e com uma carga emocional muito grande, que muitas vezes ficamos tomados pela emoção, pois suas canções não saem de nossas mentes tão facilmente. Repito: as músicas de José Miguel Wisnik não são fáceis. Há um rebuscamento de paisagens abstratas que requer uma atenção mútua na melodia e que faz com que esqueçamos o mundo real lá fora para adentrarmos em um universo wisniquiano repleto de solitude, musicalizado pelo refinamento audacioso de um dos melhores compositores que a MPB ainda precisa (re)descobrir. Mas não precisamos mais esperar tanto, porque a cantora e compositora Ná Ozzetti fez esta audaciosa arte em prol tanto da música brasileira quanto de uma justa homenagem ao criador de obras primas como Mais Simples, O Tapete, Pérolas aos Poucos e Mortal Locura. Ná Ozzetti sempre gravou Zé Miguel em seus discos, desde quando ela ainda pertencia ao Grupo Rumo, nos idos anos de 1980 e dessa amizade de mais de 30 anos, surgiu um disco inteiramente dedicado ao cancioneiro de Miguel Wisnik. De Paulo Leminski, passando por Cacaso e Oswald de Andrade, José Miguel deu o ar de sua graça com as composições mais bonitas de seu cancioneiro e ajudou a aprimorar a finíssima riqueza da música nacional, miscigenando poesia, lirismo, música e a bela voz de Ná. Ná e Zé (2015 / Circus / 32,90) é um disco cantado por Ná Ozzetti e com participações do próprio Zé Miguel em todas as faixas, seja cantando ou em algum instrumento e de Arnaldo Antunes (Noturno do Mangue). Todas as músicas têm uma passagem especial na vida de ambos e regravá-las tem um significado importante para os dois: as músicas cantadas vão de um longo espaço de tempo entre 1978 até 2014. A voz cristalina de Ná Ozzetti ajuda a entender a atmosfera de Wisnik à medida que sua amplitude se mostra em um véu de sentimentalismos aflorados dentro de um segmento rítmico entre a coesão de uma filosofia harmoniosa e um destino que os uniram: a magnitude da música e o virtuosismo da amizade. Dedicar um disco inteiramente a uma amizade é desejo para poucos e refutados amigos que se entendem através da música (ou da batida perfeita) e neste conceito de musicalidade, Ná Ozzetti entende perfeitamente o que Zé Miguel diz em suas letras. Se antes tínhamos Zizi Possi como detentora oficial das obras de Miguel, agora podemos dizer que Miguel herdou mais uma: Ná Ozzetti. Zizi Possi, Mônica Salmaso, Elza Soares, Susana Salles e tantas outras já gravaram parte do cancioneiro de Miguel, sempre com a mesma dramaticidade emocional, seja em músicas divertidas, caso de Bambino, gravada por Elza em Do Cóxxix até o Pescoço (2002) ou em canções mais emblemáticas como Mundo Cruel (Zizi), em que a interpretação foi arrebatadora. Mas Ná tem um apreço maior agora: ela passa a ser em Ná e Zé a intérprete, aquela que canta de uma forma magistral as melodias e pensamentos filosóficos de um dos compositores mais sutis e misteriosos da nossa cultura. Afinal de contas, quem é José Miguel Wisnik? Um homem sem rótulos, um professor de Literatura Brasileira, ensaísta e compositor, amante das palavras complexas. Seu mundo é irreal, mas real dentro de um patamar rigoroso, por onde sua veia artística aflora em um misterioso intricado de palavras cruzadas que formam suas músicas. E quem é Ná Ozzetti? Uma mulher corajosa que canta as músicas de José Miguel Wisnik há muitos anos com muita garra e determinação e que tem uma das melhores vozes do mundo, capaz de nos emocionar com um simples olhar. Uma cantora que merece cantar o que quer por ser simplesmente Ná.  E neste momento, seu mundo é o mundo de Zé. Um mundo de ilusões irrisórias, de amores perdidos, de amizades duradouras, de teologias obscuras, de loucuras, de música. O encontro de Ná e Zé foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos na música popular brasileira e essa amizade resultaria em um dos discos mais aguardados do ano. Porque Ná é Zé e Zé é Ná.

 

Os haikais de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik em Ná e Zé (2015) / Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Pura, de Luciana Oliveira, revela a tradução de uma excelente cantora


Lu Oliveira: beleza pura
Sou apaixonado por cantoras e isso não é novidade para mais ninguém que acompanha o Mais Cultura Brasileira ou me conhece pessoalmente. O ofício de cantora requer uma postura disciplinar, um jeito único de cantar, ter uma bela voz, presença de palco, essencia. Se a cantora tiver todos esses atributos e um pouco mais, ela está no páreo de ser, para mim, ponto crucial para ser pertencente ao meu mundo, à minha música, a minha predileção. E Luciana Oliveira, uma cantora de excelente gabarito, conseguiu preencher todas as lacunas que a música popular brasileira exige e, de quebra, ganhou a minha simpatia e virei seu fã. Não é difícil dizer ou tentar explicar aqui o porque Luciana Oliveira caiu nas minhas graças: o seu canto ecoa dentro de seu coração, pulsa em suas veias e circula facilmente pelo sangue que corre em seu corpo numa ressonância que consegue exprimir a qualidade e a capacidade musical que habita em seu corpo. Luciana Oliveira é, sem sombra de dúvidas, a cantora que faltava no mercado fonográfico ou a cantora que o público seletivo de MPB precisava encontrar. E encontrou. Luciana Oliveira tem axé, tem afoxé, tem samba, tem bossa, tem o canto dos negros cravado na garganta, tem cabelos crespos volumosos e bonitos, tem pulseiras, miçangas, saia rodada, tem voz. A valorização de sua música vêm de raízes antigas e sua peregrinação por estes caminhos seria fatal: a música a fisgou, o público ganhou. Luciana Oliveira é uma cantora que pensa na música do passado e consegue exprimir na contemporaneidade a interpretação precisa para cada canção, sendo ela mesma, autêntica, única, perspicaz e guerreira. Luciana lançou seu segundo CD, intitulado Pura (2013 / 20,70), cujo teve a produção magistral do competente Alê Siqueira e teve uma boa repercussão entre os críticos especializados e pelo público, que soube valorizar o talento desta grande cantora. Com participações mais que especiais de Elza Soares na engraçada Condicionada, a segunda faixa do disco e vale a pena ouvir atentamente a esta faixa pelo simples fato de haver aqui um contraste, um contraponto de vozes entre as duas cantoras. O resultado ficou formidável e é impossível não ouvir a música várias vezes. Luciana solta sua voz doce ao sussurrar Pura (Eduardo Brechó), nos deixando arrepiados da cabeça aos pés e nos envolve a largar os tamancos em Samba em Pliet, de sua autoria. Luciana Oliveira está totalmente pura em um álbum solo, carregado de sonoridades distintas, ritmos negros, hip-hop bem cadenciado, sambas alegres, reggae e outros sons legais, que fica difícil não dizer que Luciana Oliveira é, sem qualquer sombra de resquícios, uma cantora completa.

 

Pura / Luciana Oliveira
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vivo Feliz (2003), de Elza Soares


 

Elza: homenagem ao Rio
Falar de música negra é falar de Elza Soares. Falar de música popular brasileira é falar de Elza Soares. Falar de música por um todo é falar, essencialmente, de Elza Soares. A cantora se orgulha em ser negra, em ser do morro, em ser mulher, favelada e cantora. Reconhecida e tarimbada como a voz do milênio por uma emissora americana, Elza Soares lançou Vivo Feliz (2003 / Trattore / 25,99) em grande estilo, logo após lançar Do Coccix até o Pescoço (2002) em que foi obrigada a voltar aos palcos brasileiros pelas mãos de Chico Buarque e Caetano Veloso. Não foi a toa que Elza regravou dois medalhões da MPB, como Volta Por Cima (Paulo Vanzolini) e Opinião (Zé Ketti), talvez para dar algum recado diretamente a alguém. Seja como for, Vivo Feliz retrata, acima de qualquer suspeita, o momento mais mágico e feliz de uma grande artista (esquecida por muitos) como Elza Soares. Retratando o Rio de Janeiro que tanto ama através da capa e da música Rio de Janeiro, composta por ela e pelo então namorado, Anderson Lugão, o álbum veio com uma sonoridade mais eletrônica que o anterior e isso fez com que muitos fossem ouvir o novo trabalho da cantora. O bom resultado é que Elza agregou valores e referências neste disco, como a vinda de compositores mais novos, casos de Nando Reis e Fred 04, que fizeram toda a diferença aqui com suas jovialidades. O outro lado bom deste disco é o lado compositora de Elza, cujo compôs a salsa Somos Todos Iguais em um clima de (re)visita ao passado e a sensacional derradeira Lata D’Água, que fecha o disco em grande astral. O disco é perfeito e sem retoques, desde a introdução até os momentos em que Elza brinca com sua voz, passando pelos pontos eletrônicos exigidos pelo produtor Arthur Joly. Resultado de grandeza para Elza Soares, que fez um disco pensando na sua sonoridade e na ampliação de seus fãs. E para quem duvidava do estado de graça de Elza Soares, basta ouvir o disco para saber...

 

Vivo Feliz / Elza Soares
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A música negra brasileira

Dia de festa ao povo negro
A cultura brasileira e, logicamente, a rica música que se faz e consome no país estruturam-se a partir de duas básicas matrizes africanas, provenientes das civilizações conguesa e iorubana. A primeira sustenta a espinha dorsal dessa música, que tem no samba sua face mais exposta. A segunda molda, principalmente, a música religiosa afro-brasileira e os estilos dela decorrentes. Entretanto, embora de africanidade tão expressiva, a música popular brasileira, hoje, ao contrário da afro-cubana, por exemplo, distancia-se cada vez mais dessas matrizes. E caminha para uma globalização tristemente enfraquecedora. A presença africana na música brasileira, pelo menos em referências expressas, vai se tornando cada vez mais rarefeita. Aparece, via Jamaica, no carnaval dos blocos afro baianos e nos sambas-enredo das escolas cariocas e paulistanas – especialmente nas homenagens a divindades. Mas nada de modo tão intenso como ocorre na música que se faz em Cuba e em outros países do Caribe. Mesmo com a explosão comercial da chamada salsa, a partir de Porto Rico e via Miami, na música afro-caribenha de hoje é raro um disco que não contenha pelo menos uma cantiga inspirada em temas da religiosidade africana e interpretada com fervor apaixonado. Tito Puente, Mongo Santamaría, Célia Cruz, Rubén Bladez e muitos outros são exemplos fortes, o mesmo não acontecendo no Brasil, pelo menos na música mais largamente consumida. No Brasil, o pagode, a partir da década de 1990, apesar da voga inicial de grupos cujos nomes, mas só os nomes, evocavam a ancestralidade africana (Raça Negra, Negritude Júnior, Suingue da Cor, Os Morenos etc.), entendemos que foi se transformando em um produto cada vez mais fútil e imediatista para se preocupar com etnicidade. E isto talvez por conta do conjunto de estratégias de desqualificação que ainda hoje sustentam as bases do racismo antinegro no Brasil. É esse racismo que, no nosso entender, vai cada vez mais separando coisas indissociáveis, como o samba e a macumba, a ginga e a mandinga, a música religiosa e a música profana, desafricanizando, enfim, a música popular brasileira. Ou africanizando-a só na aparência, ao sabor de modas globalizantes made in Jamaica ou Bronx.

 
Clementina de Jesus, cantora nascida em Valença, RJ, em 1901, e falecida no Rio, onde vivia desde menina, em 1987, foi uma grande presença de personalidade negra no Brasil. Descoberta para a vida artística já sexagenária, afirmou-se como uma espécie de elo perdido entre a ancestralidade musical africana e o samba urbano. Seu trabalho de maior expressão fez-se através da interpretação de jongos, lundus, sambas da tradição rural e cânticos rituais recriados, como o já Benguelê, de Pixinguinha. Logo depois do surgimento de Clementina, outra importante interseção entre a música popular brasileira e a religiosidade africana ocorre com os afro-sambas (Canto de Ossanha, Ponto do Caboclo Pedra Preta etc) lançados por Baden Powell e Vinícius de Moraes em 1966. E é o mesmo Vinícius que, agora em parceria com Toquinho, veio a lançar um Canto de Oxum, em 1971, e um Canto de Oxalufã, em 1972. Daí em diante, a vertente começa a se rarefazer, com raras incursões, como a do cantor e compositor Martinho da Vila, que, em um de seus discos do final dos anos 70, registrou uma seqüência de cantigas rituais da umbanda.

Clara Nunes nasceu em Minas Gerais no ano de 1942 e morreu no Rio de Janeiro no ano de 1983 e foi uma das maiores cantoras do Brasil, considerada uma das maiores influências do país na música negra. Pesquisadora damúsica popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à umbanda. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos. Clara e Clementina gravaram juntas um partido alto reverenciando a música negra, o lundu, os atabaques. E festejaram juntas este feito.

Desafricanização, como sabemos, é o processo por meio do qual se tira ou procura tirar de um tema ou de um indivíduo os conteúdos que o identificam como de origem africana. À época do escravismo, a principal estratégia dos dominadores nas Américas era fazer com que os cativos esquecessem o mais rapidamente sua condição de africanos e assumissem a de negros, marca de subalternidade. Isto para prevenir o banzo e o desejo de rebelião ou fuga, reações freqüentes, posto que antagônicas.O processo de desafricanização começava ainda no continente de origem, com conversões forçadas ao cristianismo, antes do embarque. Depois, vinha a adoção compulsória do nome cristão, seguido do sobrenome do dono o que representava, para o africano, verdadeira e trágica amputação. Então, vinham as distinções clássicas entre da costa e crioulo, entre boçal e ladino. Acreditamos que a música popular brasileira, de raízes tão acentuadamente africanas, seja vítima de um processo de desafricanização ainda em curso. Senão, vejamos. Quando a bossa-nova resolveu simplificar a complexa polirritmia do samba e restringir sua percussão ao estritamente necessário, não estaria embutido nesse gesto, tido apenas como estético, uma intenção desafricanizadora? E quando a indústria fonográfica procura modernizar os ritmos afro-nordestinos (de maracatu para mangue-beat, por exemplo), não estará querendo fazer deles menos boçais e mais ladinos, pela absorção de conteúdos do pop internacional? Pois esse pop milionário, sem pátria e sem identidade palpável (mesmo quando pretende ser étnico), é exatamente aquela parte da música dos negros americanos que a indústria do entretenimento desafricanizou. Por tudo isso e como sempre disse a grande dama negra da música popular brasileira, Elza Soares, a música preta pede passagem, que o dia da Consciência Negra é celebrado com maestria e com muita música por artistas negros de ontem e de hoje em eventos espalhados por todo o Brasil. De Negra Li a Elza Soares, passando por Jorge Ben e Fabiana Cozza, a música negra é rica em elementos sofisticados diferenciados do pagode do início da década de 1990 e menos conturbado, hoje, do que na época de início de carreira da dama Elza Soares. Viva a música negra brasileira, viva o povo negro, viva o povo brasileiro. Negro na sua maioria!

 

A Música Negra Brasileira
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

26º Maior Cantora do Brasil: Elza Soares


A grande Elza Soares
Considerada a primeira e única voz do século pela rede BBC de Londres, Elza Soares nasceu em 23 de Junho de 1937 no Rio de Janeiro. Filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro. Cantava, desde criança, com a voz rouca e o ritmo sincopado dos sambistas de morro. Aos 12 anos, já era mãe e aos 18, viúva. Foi lavadeira e operária numa fabrica de sabão e, com 20 anos aproximadamente, fez seu primeiro teste como cantora, na academia do professor Joaquim Negli, sendo contratada para cantar na Orquestra de Bailes Garan e a seguir no Teatro João Caetano. Em 1958, foi a Argentina com Mercedes Batista, para uma temporada de oito meses, cantando na peça Jou-jou frou-frou. Quando voltou, fez um teste para a Rádio Mauá, passando a se apresentar de graça no programa de Hélio Ricardo. Por intermédio de Moreira da Silva, que a ouviu nesse programa, foi para a Rádio Tupi e depois começou a trabalhar como crooner da boate carioca Texas, no bairro de Copacabana, onde conheceu Silvia Teles e Aluísio de Oliveira, que a convidou para gravar.

No seu primeiro disco, gravado em 1960, pela Odeon, cantou Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), alcançando logo grande sucesso. Esse samba fez parte de seu primeiro LP, com o mesmo titulo da música. A seguir, foi para São Paulo SP, para trabalhar no show Primeiro festival nacional de bossa nova, no Teatro Record e na boate Oásis, gravando depois seu segundo LP, A bossa negra. Em 1962, como artista representante do Brasil na Copa do Mundo, que se realizava em Santiago, Chile, cantou ao lado do representante norte-americano, Louis Armstrong. Nessa época ficou conhecendo o futebolista Garrincha, com quem casaria mais tarde. No ano seguinte, gravou pela Odeon o LP Sambossa, tendo como destaque as músicas Rosa morena (Dorival Caymmi) e Só danço samba (Tom Jobim e Vinícius de Moraes); e, em 1964, lançou pela Odeon Na roda do samba (Orlandivo e Helton Meneses), faixa-título do LP.

Realizando inúmeras apresentações pelo Brasil e nas emissoras de televisão, os LPs se sucederam: em 1965, foi a vez de Um show de beleza, pela Odeon, com, entre outras, Sambou, sambou (João Melo e João Donato), e Mulata assanhada (Ataulfo Alves); em 1966, saiu pela mesma gravadora o LP Com a bola branca, onde cantou Estatuto de gafieira (Billy Blanco) e Deixa a nega gingar (Luís Cláudio). Apresentou-se, em 1967, no Teatro Santa Rosa, no show Elza de todos os sambas, e, novamente pela Odeon, gravou em 1969, o LP Elza, Carnaval & Samba, cantando sambas-enredo, como Bahia de todos os deuses (João Nicolau Carneiro Firmo, o Bala, e Manuel Rosa) e Heróis da liberdade (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira). Em 1970 foi para a Itália, apresentando-se no Teatro Sistina, em Roma, e gravando Que maravilha (Jorge Ben e Toquinho) e Mascara negra (Zé Kéti).

Nesse mesmo ano, gravou o LP Sambas e mais sambas, pela Odeon, interpretando músicas como Maior é Deus (Fernando Martins e Felisberto Martins) e Tributo a Martin Luther King (Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli). De volta ao Brasil, em 1972, lançou, pela mesma etiqueta, o LP Elza pede passagem, onde interpretou Saltei de banda (Zé Rodrix e Luís Carlos Sá) e Maria-vai-com-as-outras (Toquinho e Vinícius de Morais), e apresentou-se no teatro carioca Opinião, no show Elza em dia de graça. Ainda nesse ano, passou uma temporada realizando um show no navio italiano Eugênio C, fez um espetáculo de duas semanas na boate carioca Number One, cantou no Brasil Export Show, realizado na cervejaria Canecão, do Rio de Janeiro, e recebeu o diploma de Embaixatriz do Samba, do conselho de música popular do Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro.

Em 1973, gravou o LP Elza Soares, pela Odeon, cantando Aquarela brasileira (Silas de Oliveira) e Pranto de poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito); e apresentou-se no show Viva Elza, que estreou no T.B.C., na capital paulista, e que depois foi levado em vários Estados. Nos dois anos seguintes, lançou pela Tapecar mais dois LPs, Elza Soares, com Bom-dia, Portela (Davi Correia e Bebeto de São João) e Chamego da crioula (Zé Di); e Nos braços do samba, com faixa-título de Neoci Dias e Dida. Gravou ainda Pilão+Raça=Elza (1977), Somos todos iguais (1986) e Voltei (1988). A partir de 1986, com a morte de Garrinchinha, seu filho com o jogador de futebol Garrincha (1933 – 1983), passou nove anos na Europa e nos EUA. De volta ao Brasil, gravou em 1997 o CD Trajetória, só de sambas, com músicas de Zeca Pagodinho, Guinga e Aldir Blanc, Chico Buarque, Noca da Portela, Nei Lopes e outros.

Chegando ao 26º lugar na lista das 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos, Elza Soares se mostrou uma cantora de fibra, coragem e muita ousadia, marcando para sempre a sua geração e todas as gerações seguintes.

 

26º Lugar: Elza Soares

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O retorno de Baby do Brasil


 

Baby e o filho, Pedro: a volta
Baby* sempre foi do Brasil, mesmo quando assinava Consuelo. Apesar de ter trocado o nome artístico em meados dos anos 90, a vida inteira misturou toda sorte de ritmos em seu caldeirão, prevalecendo sempre o sabor tropical, bem brasileiro. Não é por acaso que ela é a nossa única cantora brasileira que fez sucesso cantando chorinho depois da fase áurea da rainha do gênero, Ademilde Fonseca e, também uma das raras a cantar samba de um jeito furioso e esfuziante como outra de suas referências, Elza Soares. E Baby também sempre fora polêmica. Ora com a barriga de fora, ora cantando praticamente como se estivesse recebendo um santo qualquer, Baby reproduziu no Brasil a espécie de uma das cantoras mais populares e descoladas dos anos 1970.

Quando Baby e Pepeu Gomes (seu então marido na época) alcançaram o topo das paradas de sucesso, foram participar imediatamente do Festival da Música em Montreux [1980, Suíça], onde cada um gravou seu primeiro disco ao vivo. Vale ressaltar que naquela época, somente os verdadeiros e bons cantores da MPB ou de movimentos ricos de imaginação e criação, eram convidados a participar do Festival da Suíça. Também participaram do Rock In Rio [1985, Rio de Janeiro], onde Baby estava grávida do seu filho caçula. Foi um choque para a população ver Baby cantando com a barriga de fora, já que isso, na época, era uma coisa fora do normal. Baby também aparece coberta de metais entortados por Thomaz Green Morton. 

Depois de um tempo afastada da mídia e dos palcos e sem lançar praticamente nenhum disco, Baby troca o Consuelo pelo do Brasil e se torna evangélica (o que, para mim, é a mais pura identidade desprovida de consolidação artística). Encontrou-se única e detentora de seus direitos através da igreja a qual pertencia e a partir deste momento, uma nova transformação acontece na vida da cantora. Retornou aos palcos na década de 90, já casada com o produtor Nando Chagas. O casamento durou 8 anos. Baby finalmente assume o nome artístico Baby do Brasil. Grava um especial com os Novos Baianos [Infinito Circular], em 1997. Também lança um livro chamado Peregrina ... Meu Caminho no Caminho, onde conta a sua passagem pelo caminho de Santiago de Compostela [Espanha].

A verdadeira responsável pela volta de Baby aos palcos foi da cantora Gal Costa, que, em conversa com Pedro, filho guitarrista de Baby, propôs a ele a ideia de dirigir a mãe em comemoração aos seus 60 anos de carreira, a qual ficou denominado Baby Sucessos. Talvez seja um choque para todos, mais uma vez vinda de uma das cantoras mais loucas da MPB: com uma carreira marcada por polêmicas e por altos e baixos, igrejas evangélicas, filhas pastoras, maridos calados, filhos numerosos, musicalidade boa, troca de nomes, cabelos coloridos, viagens, livros e a comemoração de seus 60 anos. É esperar para ver.

 

O retorno de Baby do Brasil

Marcelo Teixeira

*artigo idealizado por Diogo Silva, escrito por Marcelo Teixeira.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O ostracismo de Vanusa


A cantora Vanusa
Símbolo de beleza e de excelente capacidade vocal, a cantora Vanusa sempre foi motivo de polêmica e cantoria. Loira, linda, exuberante e símbolo sexual de uma geração, pertenceu a Jovem Guarda, movimento musical que ajudou a afundar a Bossa Nova e a complicar a novata Tropicália. Todas queriam ser como a cantora Vanusa, com todos os seus adjetivos, seus trejeitos, seu corte de cabelo, sua pele branca como nuvem, seus lábios vermelhos, sua vivacidade. Se os Estados Unidos da América tinham sua Marilyn Monroe, nós tínhamos a nossa loira Vanusa. Casada com o grande cantor e compositor Antônio Marcos, Vanusa vivenciou todo o processo de luta do cantor contra o álcool e contra a depressão que ele passara. Vivenciou os altos e baixos de sua carreira brilhante, confidenciou letras de músicas que se tornariam sucesso e foi apaixonada por um dos músicos mais brilhantes que o Brasil já tivera e perdera.

Vanusa Flores é mais conhecida apenas como Vanusa. Gravou alguns sucessos como Manhãs de Setembro (uma alusão ao mês de seu nascimento), Mudanças, Paralelas entre outras. Fora sempre explosiva no falar, era polêmica nas entrevistas, mas mantinha uma doçura ao cantar que afastavam todos os adjetivos ruins à sua pessoa. Conheceu o ostracismo de perto e teve filhos não tão talentos assim. Durante muito tempo não cantou nada e não lançou discos, vivendo apenas de sucessos antigos e muitos programas não a chamavam mais para cantar. Passou a viver apenas de lembranças musicais de um tempo sem volta.

Recentemente, Vanusa foi parar nas redes sociais pelo fato de ter cantado o Hino Nacional errado, de torto a direito. Estava bêbada e acusou o efeito dos medicamentos contra a depressão para o feito. Todo mundo sabe que medicamentos para depressão não causam tonturas excessivas como aconteceram com ela, a não ser que seja tomado em grandes quantidades, como o frasco todo! Vanusa, a linda mulher loura que todas gostariam de ser e de estar perto, com o exuberante batom vermelho e com pele de nuvem, estava fadada ao fracasso e a única chance de dar a volta por cima (como fizera Elza Soares um dia),foi derrotada pelo inimigo que levou seu grande amor: o álcool.

Um amigo do Mais Cultura!, Edson Guedes, me contatou esses dias para noticiar-me de que Vanusa estava fazendo um show bem perto de sua residência, em Santo André, e a viu de uma maneira irreconhecível: bêbada, suja e maltrapilha. Assustou-se ao deparar com uma mulher com marcas no rosto, poros dilatados e que se mantinha firme para tentar ficar em pé. Vanusa estava na região para cantar na noite da terceira idade e o que se vira foi um festival de horror vindo da musa da Jovem Guarda.

Uma pena que o Brasil tenha que registrar momentos tão esdrúxulos como os de Vanusa, que disse a quase duas semanas que pretende parar de cantar e ficar reclusa no apartamento em que vive ou no interior de São Paulo. Espero que sua música seja mais forte que seu pesadelo. E esperemos, profundamente, que ela dê a volta por cima.

 

O ostracismo de Vanusa

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Segundo lugar: Marcelo Jeneci - Os 10 Melhores Cantores dos Últimos 10 Anos




Marcelo Jeneci: segundo lugar
Filho de pernambucanos, o paulista Marcelo Jeneci se criou rodeado por sanfonas no bairro de Guaianases, um dos redutos nordestinos de São Paulo. Seu pai, Manoel, ganhava a vida consertando acordeões e não perdia a oportunidade de exibir à clientela os dotes do menino, que desde cedo dedilhava o instrumento. Muitas das feras que passavam pela casa da família - em geral, ases do forró, como Dominguinhos - davam uma dica ou outra para o aspirante a músico profissional. Mas o sonho de Manoel não era ver o filho tocando gêneros regionais. Ele queria mesmo é que Jeneci virasse pianista de jazz - e daqueles bem virtuosos.

Hoje, Marcelo Jeneci se tornou uma das principais promessas da música brasileira, elogiado por colegas e jornalistas. Se não seguiu o caminho do jazz, tampouco abraçou os ritmos nordestinos ou o sertanejo. As baladas e os rocks que o cantor e compositor produz têm inspiração essencialmente urbana. No circuito alternativo paulistano, vários artistas de sua geração apostam que ele em breve conquistará as massas sem perder o aval da crítica. Vale dizer que, embora também seja pianista, Jeneci continua fiel à sanfona. Só que o instrumento se insere em seu trabalho da mesma maneira que no pop da mexicana Julieta Venegas, do francês Yann Tiersen e do grupo canadense Arcade Fire.

O primeiro disco: belo, simples e ótimo
A rotina do filho de Manoel começou a mudar quando o acordeonista Toninho Ferragutti lhe avisou que o cantor Chico César estava saindo em turnê e precisava de um sanfoneiro que tocasse piano. Após uma semana de treino intenso, o adolescente de 17 anos se apresentou, carregando uma sanfona presenteada por Dominguinhos, e ganhou a vaga. Em seguida, passou a acompanhar um mundaréu de gente: Elza Soares, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata. Foi com a ajuda de Vanessa, aliás, que concluiu sua primeira composição, Amado. A estreia não poderia ter sido mais feliz. Na voz da intérprete, a canção emplacou em A Favorita, novela da Globo, e ainda faturou o Prêmio Multishow de 2009 na categoria melhor música. Longe, outra criação dele, dessa vez com Arnaldo Antunes e Betão Aguiar, acabou entrando na novela Paraíso, também da emissora carioca, mas na voz de Leonardo.

O primeiro disco de Jeneci, Feito pra Acabar, chegou às lojas justamente pelo Slap, selo da Som Livre, o braço fonográfico das Organizações Globo. Produzido por Kassin, com arranjos de cordas de Arthur Verocai e participações de Curumin e Edgard Scandurra, Feito pra Acabar tem vários hits em potencial, como Pra Sonhar e Copo D'água. Guilherme Arantes, uma grande referência para Jeneci, ouviu o álbum e ficou encantado com o resultado. Amigo de Tulipa Ruiz e Marina Wisnik, Marcelo Jeneci é o destaque da segunda colocação na lista dos 10 Melhores Cantores dos Últimos 10 Anos do Mais Cultura!, posição de pleno respeito e credibilidade.



Segundo Lugar: Marcelo Jeneci

Os 10 Melhores Cantores dos Últimos 10 Anos



Marcelo Teixeira

terça-feira, 3 de abril de 2012

A intelectualidade ácida de Carioca, de Chico Buarque




Carioca, de 2006: Chico volta mais intelectual
Quando lançou Carioca, Chico Buarque estava tão eufórico e pensativo que pensou que fosse ter um ataque de nervos. Pudera: desde que colocou no mercado As Cidades, em 1998, que ele não lançava um disco sequer na praça e os fãs estavam apreensivos com o novo disco que estava por vir. Carioca veio, surpreendeu a todos e principalmente a crítica, uma equipe generalizada que estava torcendo rezando para que o disco fosse um fracasso. E é sempre assim: quando uma pessoa que pensa e faz algo realmente benéfico para alguém, sempre tem um ou outro que mete o bedelho e faz com que a alegria dê lugar a tristeza. É sempre assim, seja em um lugar público ou privado. O disco não foi um fracasso, muito pelo contrário: o disco foi considerado o melhor lançamento do ano de 2006 e alçou mais uma vez Chico Buarque ao patamar de melhor letrista de todos os tempos. As músicas de Carioca entraram para o imaginário das pessoas e muitas canções foram parar em discos de outros cantores, como os de Ney Matogrosso e Elza Soares.

Carioca (2006 / Biscoito Fino / 34,99) realmente é um excelente disco. Com músicas distintas de outros discos do cantor, o álbum tem um talento merecidamente destacado por canções que realça ainda mais sua intelectualidade e sua forma de compor, dando uma dimensão do tamanho da importância dele na música popular brasileira. São doze faixas, todas compostas por Chico Buarque e algumas em parcerias com Ivan Lins, Carlinhos Vergueiro e Jorge Helder. Músicas que inspiram toda uma vida, este disco merece destaque pelo simples fato de ser um disco a altura de um grande compositor, que voltou com força total após o sucesso de As Cidades.

O álbum abre com Subúrbio, que faz uma justa homenagem ao Rio de Janeiro, cidade natal do cantor e que tem em sua letra refrãos que grudam e martelam durante muito tempo no nosso imaginário. Um choro-canção afinado e suave em que Chico parece sobrevoar a cidade. Fica difícil acreditar que um certo Chico Buarque de Hollanda fale palavrões, mas nesta faixa exclusivamente sim, ele fala palavrões, que passa desapercebido e até mesmo irônico e engraçado ao mesmo tempo. Outros Sonhos parece até ser uma continuação de Sonhos, Sonhos São, do disco As Cidades, mas com um teor e uma mensagem diferente, onde mostra Chico cantando em espanhol em alguns refrãos. Ode Aos Ratos é uma música composta em 2001 com Edu Lobo e que fora composta especialmente para o espetáculo Cambaio, de Adriana Falcão e João Falcão e a particularidade desta canção é a faixa Embolada, que foi acrescentada apenas na versão para o disco (não no musical). Essa música mais tarde foi regravada por Ney Matogrosso no excelente disco Inclassificáveis.

Ode aos Ratos revela o quanto a podridão está refletida nas pessoas, dentro das pessoas, com seus cabelos pintados e suas risadas falsas. Este mundo a qual pertenceu Chico Buarque está refletida nessa canção, em que abre os braços para uma nova equipe, sendo recebida de braços abertos, sem os clichês de personas non grata em sua vida. Ratos, muitos deles, fizeram parte de sua vida e hoje liberto, a canção cai como uma luva em Carioca.

Dura Na Queda foi composta em 2000 e foi composta especialmente para Elza Soares, que foi cantada e gravada no disco Do Cóccix até o Pescoço, elogiado pela crítica e público e com um artigo aqui no Mais Cultura!. A canção seria incluída no disco As Cidades, mas acabou ficando de fora. Esta música recebeu o subtítulo de Ela Desatinou Número 2, porque é uma continuação de Ela Desatinou, gravada no disco Chico Buarque de Hollanda Volume 3 (1968). Porque Era Ela, Porque Era Eu é uma música tão linda e apaixonante, que demonstra todo o sentimentalismo de Chico com relação ao amor. Assim como já homenageou os jogadores de futebol, os cantores de cabaré e até as aeromoças em músicas, As Atrizes é perfeita e faz de Chico um homem exemplar homenageando esta profissão com tamanho requinte. A música já foi tema até de um especial que uma emissora de televisão colocou no ar em homenagem ao cantor. Assim como Ela Faz Cinema, que também inspira-se no mundo das telas, a canção é tão bonita e caprichada, que fica impossível não dizer que Chico é um gênio.

Renata Maria, primeira parceria com Ivan Lins, foi composta em 2005 para o disco de Leila Pinheiro de inéditas daquele mesmo ano, mas que na verdade virou uma ponta de interrogação na vida do cantor. Dizem as más línguas que a canção foi feita especialmente para uma mulher, a nova namorada de Chico (que estava conhecendo realmente uma moça muito bonita) e cujo os fotógrafos flagraram o cantor saindo da praia carioca com uma mulher, a tal Renata Maria. Nunca foi confirmado nada sobre esta tal moça e nunca se soube se esta moça chamava Renata Maria, mas o fato é que Chico estava separado de Marieta Severo, sua esposa por mais de trinta anos e mãe de suas filhas e o pivô foi esta mulher misteriosa.

Leve foi composta juntamente com Carlinhos Vergueiro, antigo amigo do cantor e que foi inclusa no disco que Dora Vergueiro lançou em 1997, cujo é um bolero sobre a efemeridade do verão e seus amores. Sempre é uma canção romântica e que foi tema do filme de Cacá Diegues, O Maior Amor do Mundo. Despojadamente amorosa, a música se torna um achado e tanto para a carreira do cantor. Imagina conta com a participação de Mônica Salmaso, cujo é a queridinha do cantor. Esta música é, certamente, uma das mais lindas do mundo. Originalmente apenas instrumental e chamada Valsa Sentimental, ela foi feita muito antes por Tom Jobim em 1983 foi letrada por Chico para a trilha sonora do filme Para Viver Um Grande Amor, do cineasta Miguel Faria Junior. A parceria entre Mônica e Chico saiu tão cristalina e perfeita, que parece que a canção foi feita para os dois cantarem.

Oito anos separaram As Cidades de Carioca. Aos sessenta e dois anos, o velho e bom Chico Buarque nos presenteia com um disco maravilhoso, sendo este o quinquagésimo nono de sua carreira. Chico é popular e sofisticado. Criativo e humano. Cantor e compositor. Mas o resultado é nítido: uma capa perfeita, mostrando a cidade carioca estampada sobre o rosto de Chico, músicas de alta qualidade e um Chico Buarque destoando o que havia de melhor em sua intelectualidade. Além de ter uma aura crepuscular, Carioca é, definitivamente, um dos melhores discos do cantor e do ano de 2006.



Faixas

·       1 – Subúrbio (Chico Buarque)

·       2 – Outros Sonhos (Chico Buarque)

·       3 – Ode Aos Ratos (Chico Buarque / Edu Lobo)

·       4 – Dura Na Queda (Chico Buarque)

·       5 – Porque Era Ela, Porque Era Eu (Chico Buarque)

·       6 – As Atrizes (Chico Buarque)

·       7 – Ela Faz Cinema (Chico Buarque)

·       8 – Bolero Blues (Chico Buarque / Jorge Hélder)

·       9 – Renata Maria (Chico Buarque)

·       10 – Leve (Chico Buarque / Carlinhos Vergueiro)

·       11 – Sempre (Chico Buarque)

·       12 – Imagina (Chico Buarque / Tom Jobim)

ü  Part. Especial: Mônica Salmaso



Nota Dez

Carioca / Chico Buarque



Marcelo Teixeira