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sábado, 11 de novembro de 2017

O delicado álbum de Wanda Sá

Wanda: expoente da Bossa Nova
Uma das mais expoentes expressões da Bossa Nova, a cantora Wanda Sá é referência de musicalidade reconhecida mais no exterior do que no próprio país de origem e, para ela, o grande êxito do gênero foi o fenômeno que o estilo bossa novista trouxe de renovação na década de 1960 e que teve, de fato, um valor sistemático e assentido mais outros países do que no Brasil. Apaixonada pela música e pelos amigos que fez ao longo de sua carreira, a cantora norteou um novo trabalho, que passou praticamente despercebido do grande público e por parte dos jornalistas e críticos de música. Cá entre nós (R$27,99 / 2016) é um disco que nos remete ao ano de 1972, pois ele reverencia todo os momentos pelas quais a cantora vivenciou e dos amigos que angariou, como Roberto Menescal, Marcos Valle, Tom Jobim. Por falar em Tom, Wanda pincelou uma preciosidade do cancioneiro do maestro com o poeta Vinicius de Moraes e achou a deliciosa Cala, meu amor, música desconhecida de ambos os músicos. A ideia era reunir canções inéditas de parceiros como o amigo Roberto Menescal, João Donato, Carlinhos Lyra e Nelson Motta, mas além de conseguir juntar essa galera, Wanda trouxe para o celeiro convidados que até então não faziam parte de seu rol musical, como o cantor e compositor Ivan Lins, Chico Batera, Nelson Faria e Ricardo Silveira. Trata-se de um disco refinado, culto, bossa novista e cheio de saudade de um tempo que ficou apenas na lembrança.


Cá entre nós (2016) / Wanda Sá
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eis o novo e velho Chico Buarque em Caravanas (2017)

Eis as caravanas de Chico Buarque
Mesmo sendo chamado de machista por metade daqueles que ouviram a faixa Tua Cantiga, disponibilizada dias atrás pelas redes sociais, Chico Buarque parece não ter dado muita trela e, mesmo com uma resposta singela sobre o caso, fez seu comboio passar a frente de uma dúzia de insatisfeitos e lançar seu novo trabalho à beira de muita crítica e muito blá blá blá. Depois de um hiato silencioso de seis anos, eis que Chico Buarque, o todo soberano cantor, poeta, político, compositor, amante das mulheres, dos bêbados, dos trabalhadores, solta o verbo em sete canções inéditas e em duas regravações. Não irei tratar aqui de um artista completo que Chico é, mas sim, medir esforços para não dizer o quanto insatisfeito ficarão os insatisfeitos e o quanto mais crítico fico com relação à sua música. Para todos os efeitos, gosto das músicas e de tudo aquilo que Chico faça ou venha a fazer, mas meu papel não é agradar aqueles que gosto ou defender um partido que na qual não estou disposto a fazê-lo. Caravanas (2017 / Biscoito Fino / 29,99) chega hoje às lojas físicas de todo o Brasil trazendo um disco bom (não ótimo), pegando rabeira em discos anteriores e se aproximando e muito de sua última criação, Chico, lançada em 2011, que já vinha com um martírio penoso de ter semelhanças com discos anteriores. Mas faz sentido o título que Chico deu ao seu novo trabalho: caravana é o mesmo que comitiva, comboio, frota e algo que remete a uma viagem; logo, Chico pega viagem em grandes distâncias para poder chegar a um lugar comum, que é o coração de alguém. Quem? Vamos por partes: quando lançou o espetacular As Cidades (1998), vindo de uma alegoria fantástica e criativa de Carioca (2006), o cantor não tinha nenhuma madame em mente. Alguns anos anteriores, Ivan Lins e Chico compuseram a emblemática Renata Maria, gravada magistralmente por Leila Pinheiro em seu disco Nos Horizontes do Mundo (2005), cujo até hoje soa como uma homenagem a alguma namorada. Depois disso, ele fez duas pérolas em formatos de trabalho (As Cidades e Carioca) e parou no tempo. Em 2011 lançou o morno Chico, em que nascera devido seu romantismo em torno da cantora e compositora Thaís Gullín. O namoro não deu certo e, cinco anos depois de separados, Chico conhece uma curitibana, com quem, segundo dizem, mantêm uma relação amorosa. Eis o ponto de partida para que o mestre do cancioneiro feminino tivesse prestes a voltar a compor. E isso de fato aconteceu com o nascimento de Caravanas. Será que Chico Buarque só vai conseguir compor quando estiver namorando? Seja como for, Caravanas não é um disco maravilhaso, mas como se trata de Chico Buarque, a espera é bem vinda e muito aguardada. Em alguns casos há um certo acerto, como o caso de Dueto, música que não é inédita, gravado com sua neta Clara Buarque, em que neta mostra ao avô o lado real e tecnológico das redes sociais. Outra sacada foi o também neto Chico Brown vir com sua esperteza em Massarandupió, onde o jogo de palavras rima perfeitamente com frases bem construídas, mas que nos remete a Subúrbio, onde há funk, palavrão e tudo aquilo que nunca esperamos de Chico, composta em 2006. Única faixa em espanhol, Casualmente é uma mistura simplória entre Havana e Brasil. E o samba-canção, marca registrada em discos iniciais, marca presença aqui com Desaforos, faixa que nos remete a Cotidiano. Enfim, a Caravana de Chico Buarque chegou, mas não trazendo tantas alegrias como era o esperado, porém, chegou um momento que transcende sua verve criativa dentro do imaginário dos netos, tão criativos quanto o avô, que, nesses últimos anos vem deixando a desejar, sem perder sua importância dentro da música popular brasileira.


Caravanas (2017) / Chico Buarque
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Barbara Mendes não deixa nada pra depois em excelente disco


Barbara é barbara!
Barbara Mendes é mais conhecida em Nova Iork e na Grécia do que no seu próprio país de origem, mas graças a Deus, sua boa música foi alvo de elogios sensacionais do crivo de Djavan, Ivan Lins, Flávio Venturini e Tito Marcelo, que gravou com ela a bela canção Perdido na Lua, no CD dele, Frágil Verde, Força de Quebrar (2007), deixando sua marca registrada em um disco rico de sinônimos brasileiros. A voz de Barbara é um dos mais doces, singelos e caprichados e há pluralidade em sua bela forma de expressar sua música, transformando todo o ambiente em um ambiente sofisticado e requintado. É de se estranhar que uma cantora com o porte e gabarito de Brabara esteja camuflada em um país tão diversificado como o Brasil, mas talvez a resposta para as minhas muitas questões esteja na sua música: Barbara Mendes é um sopro de alívio para quem respira a boa música brasileira e o povo brasileiro, rico de cultura na sua minoria, não entenderia tamanha força desta cantora magistral. Lançando o excepcional Nada pra Depois (2008 / Trilhos artes / Trattore / 29,90), Barbara canta justamente músicas que elevam o nome e as cores brasileiras, que são festejadas pelos quatro ou mais partes do mundo, caso das músicas Brasil Invertido (uma alusão à sua própria vida musical) e Ouro e Marrom. O sotaque de Barbara me chama a atenção, porque ao mesmo tempo em que ela soa ser nordestina ou de alguma parte do Norte do país, deixando essa confusão mental em nossas cabeças, a cantora, na verdade é carioca da gema. Sendo um dos melhores que já ouvi em todos os tempos numa voz feminina, Barbara simplesmente me encantou já na primeira faixa do disco e é por esse motivo que, literalmente, Barbara é barbara.

 

Nada pra Depois (2008) / Barbara Mendes
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Fascinação é o melhor álbum de coletâneas de Elis - e só!


O melhor de Elis está aqui
Elis Regina ainda é considerada por alguns critícos medonhos como a maior cantora do Brasil, mas seus discos, na maior parte deles, não são tudo isso. Elis era histriônica e ficou mais conhecida não por sua música, mas sim por suas frases de efeito moral e constrangedor e pelo fato de ter lançado compositores ávidos por música boa e de qualidade e que estavam em um momento propício para isso. Seu álbum mais completo com relação as coletâneas lançadas após a sua morte é duplo Fascinação, lançado originalmente em 1988. Depois deste álbum, muitos outros vieram, com capas horrendas e músicas ditas inéditas, o que não é verdade. Em Fascinação (1988 / EMI / 25,99) temos praticamente tudo aquilo que Elis cantou em discos pouco caprichados ou sem acabamento algum e que reforçam, aqui, o melhor da cantora.

 Há vários momentos e fases na vida da Pimentinha, mas que nem sempre seus discos ajudavam, mas Elis fez discos que valeram muito a pena, como Elis (1973), Elis, Essa Mulher (1979), Falso Brilhante (1976) ou o antológico Elis & Tom, gravado em 1974, que foi um marco na carreira de Tom Jobim juntamente com a marrenta Elis Regina e um disco que não pode faltar na sua prateleira.

Fascinação é a melhor coletânea de Elis e isso fica evidente pelos trabalhos respectivos que vieram à tona: fracos, feios e oprimidos. Aqui, Elis recebe carinho e tratamento especial, com uma capa geniosa demonstrando sua face de cantora de protesto numa bela pintura e com estrelas norteando sua presença. As músicas retratam várias passagens da cantora, como O Fino da Bossa, época de grande prestígio tanto para Elis como para Jair Rodrigues, o grande amigo da cantora.

De João Bosco a Renato Teixeira, passando por Milton Nascimento e Ivan Lins, Fascinação tem de tudo um pouco e nos por vezes me faz acreditar que ela é a maior cantora do Brasil. Não desmerecendo a tragetória de Elis, que nos brindou com algumas das melhores músicas da MPB, aqui destacadas nesta coleção. Para gostar de Elis é preciso um disco assim, com os melhores sucessos de sua carreira e não um disco qualquer de um ano qualquer. Assim o ouvinte de primeira viagem poderá perder a vontade de conhecer toda a sua obra ou ao menos vasculhá-la.

Elis não tem as melhores músicas, mas gravou um punhado de canção legal, que futuramente, com algumas cantoras, como Zizi Possi ou Daniela Mercury soaram até melhor e menos agressivas. Elis era Elis e ainda continua sendo Elis, mas não foi a cantora suficientemente boa e pensante para fazer discos futuros para que pudessêmos ficar horas e horas ouvindo. Por vezes, cansa. Por dias a esquecemos. Mas vira e mexe estamos lá ouvindo ao menos uma canção sua. E Fascinação é uma boa pedida nesses momentos.

 

Fascinação – Elis Regina

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nos Horizontes de Leila Pinheiro


Um dos melhores de Leila
Leila Pinheiro é muito conhecida como uma bossa-novista que não esteve naquele tempo áureo de Tom Jobim ou Vinicius de Moraes, mas teve o aval e apadrinhamento do primeiro para poder cantar toda a discografia precisa do maior compositor brasileiro de todos os tempos. Mesmo com discos muito além da bossa nova, Leila Pinheiro conseguiu imprimir em sua discografia, discos quase autorais, como Na Ponta da Língua e Nos Horizontes da Vida, hoje retratado aqui no Mais Cultura. E Leila teve muito o que celebrar em 2005, ano do lançamento do disco, pela Universal. Contratada pela Biscoito Fino no ano seguinte, a cantora lançou um de seus melhores discos, Nos Horizontes do Mundo - o primeiro gravado com autonomia desde 1998, ano em que apresentou o delicioso CD Na Ponta da Língua (já resenhado aqui no blog).

Sem obstinação, Leila arriscou na disparidade e estimulou a nova onda de parcerias como Joyce com Luiz Tatit na saborosa Deu no que Deu, Marcos Valle com Jorge Vercilo, na dançante Pela Ciclovia e, sobretudo, Chico Buarque com Ivan Lins - na inquietante, Renata Maria). Leila gravou ainda soberbas inéditas de Fátima Guedes (A Vida que a Gente Leva) e Francis Hime, com participação de John Donne e Geraldo Carneiro (Gozos da Alma), além de ter recriado de forma sublime a triste canção Onde Deus Possa me Ouvir, do mineiro Vander Lee, em registro que superou (e muito) a gravação feita por Gal Costa em 2002, em Gal Tropical.

Tiranizar, de Caetano Veloso e César Mendes, foi um dos achados de Leila para compor o novo disco, porque a música ficou muito deliciosa de ouvir e dá aquela sensação de quero mais. Assim como O Amor e Eu, um sambinha genioso de Eduardo Gudin, outro grande amigo de Leila. Nuestro Juramento é um bolerão dos bons do porto-riquenho Benito de Jesus e ...E Muito Mais é uma boa embolada que somente os irmãos João Donato e Lysias Ênio sabem fazer.

Mas não são todos que conseguem gravar Minha Alma, do grupo O Rappa com tamanha maestria. Vânia Abreu o fez em seu disco Eu Sou a Multidão e o resultado ficou bacana. Aqui, Leila Pinheiro utiliza a música Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), com voz de Nelson, como incidental tanto no início como no fim da canção. Ficou boa, mas poderia ser melhor e nem por isso tira o mérito de todo o álbum.

A faceta de compositora aparece em Delicadeza tocada apenas ao piano e a parceria com Renato Russo surge em Hoje, uma música calcada no sentimento puro e sincero sobre a vida. Simone Guimarães a presenteia com Vem, Amada, uma canção leve, que trata sobre o amor e suas singelezas perdidas. Encerrando (assim como Na Ponta da Língua) com Walter Franco, grande amiga da cantora, A 60 Minutos Por Hora revela que sessenta minutos por hora não precisa ter pressa para chegar a lugar nenhum.

Nos Horizontes do Mundo (letra de Paulinho da Viola) repousa Leila Pinheiro no primeiro time de cantoras nacionais, depois de muito caminhar com discos a sombra da bossa nova.

 
Nos Horizontes do Mundo / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 16 de abril de 2013

Luiz Marques: de Minas Gerais para o mundo


Luiz Marques: elegância e sutileza
Fazia tempo que eu não encontrava um grande cantor para cobrir a carência que existia na MPB. Existe uma grande lacuna entre cantores bons, medianos e ótimos e essa grande lacuna não era preenchida há tempos. Vez por outra surge um grande nome masculino, um cantor que faltava na seara musical e que nos faz ouvir uma canção com certa sensibilidade e emoção. Há grandes nomes de outrora, como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Ivan Lins e João Bosco, assim como alguns novatos, como Filipe Catto e Marcelo Jeneci, mas nenhum dos dois tem a capacidade de emocionar tanto e com tanta maestria quanto Luiz Marques, que consegue, ao mesmo tempo nos encantar, emocionar, rir e sentir que a música popular brasileira está salva. Lançado em 2011, Mira Certa é um disco autoral (as dez canções são de autoria de Luiz) e teve participações de grandes músicos mineiros, como Célio Balona, André Campagnani, Sérgio Rabelo, Rogério Delayon, Frederico Heliodoro e Serginho Silva.

Vocalmente comparado à Lô Borges, Luiz Marques ecoa uma sonoridade a qual precisamos (re)descobrir, pois a sua musicalidade realça o som de Minas com tamanha característica que por vezes parece que estamos diante O Clube da Esquina. Algumas vezes, ao fechar os olhos, senti uma certa comparação à Renato Braz, tamanha a coincidência de vozes, mas isso são meros detalhes. A música de Luiz Marques é excelente. E ponto.

Comparações à parte (isso é notório dentro da música popular brasileira, quiçá mundial), Luiz Marques encanta pelo canal mais humano: ele emociona. Suas letras são de forte tino sentimental e transbordam brilho e profunda riqueza, que fica fácil nos identificarmos com algumas canções.

Quarto disco do cantor e compositor mineiro, o disco Mira Certa se transformou em DVD (sendo o primeiro de sua carreira) e que ganha ares sofisticados e ambiente intimista, passando uma impressão maravilhosa da atmosfera musical do cantor. Todas as faixas do DVD são de autoria de Luiz Marques, que conta com as coreografias sensacionais de Sandra Magalhães, na bela faixa Campo de Girassóis, cujo sua dramaticidade elucida o texto da canção e Luiza Marques, na música Nosso Velho e Novo Amor.

Devoto de Santa Terezinha assim como eu, a música Céu de Santa Terezinha é uma das melhores faixas do DVD, mas têm também outras pérolas, como Mira Certa, Itacoaticara, Sino e Maracatu Derradeiro.

Sino é um lirismo ingênuo e aflorado. A saga de João, José e Jessé é bem retratada na faixa A Saga de João Retirante, uma emocionada e triste letra, que só por esta canção já vale todo o DVD e demonstra as inúmeras facetas de compor do mineiro de Patos de Minas, revela o quão satisfatório é ouvir e ver Luiz Marques. Mistério e Paixão é dançante e mostra a felicidade e a sincronia dos músicos ao tocarem a música. Romântico e sensível, Luiz Marques conquista a plateia com suas canções de prumo intelectual, seu romantismo doce e suas letras lúcidas, cujo é visível em algumas faixas com a compenetração dos músicos.  Todas as faixas do CD estão no DVD recém lançado, cujo contém mais faixas autorais.

Intimista, tímido, desafiador e completo, Luiz Marques não deixa a desejar no show acústico que fez no Teatro Sesiminas, em Minas Gerais e conseguiu arrancar palmas esfuziantes da plateia que estava visivelmente emocionada. Luiz Marques é um dos cantores da nova geração e sua voz é tão tenra, tão acalentadora, que temos que ouvir e repetir para nos certificarmos de que o músico é brasileiro e a música é de excelente qualidade.

Em meio a tantos arrombos musicais destituídos de nenhuma elegância que se vê esfuziando por aí, Luiz Marques é uma salvação e uma exceção. Sua música ilumina a qualquer um. Suas letras são caprichadas, bem elaboradas e cabem perfeitamente em sua bela voz. Escrever estas linhas após assistir ao DVD foi um grande desafio, pois não há palavras no mundo que possa descrever o tamanho da minha emoção.

Luiz Marques encanta. Luiz Marques é um dos melhores cantores que o Brasil tem na atualidade e o país inteiro tem que descobri-lo a tempo. A sua musicalidade é única e exclusivamente brasileira e isso faz toda a diferença em sua brilhante carreira. O Mais Cultura têm o prazer de revelar a vocês, o sensacional e espetacular cantor Luiz Marques.

 

Mira Certa / Luiz Marques

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Entrevista com Simone Guimarães - Primeira Parte


Sensacional artista
É sempre uma grande satisfação conversar ou trocar algumas palavras com a espetacular Simone Guimarães: além de grande cantora e compositora, com discos bem caprichados, duetos com ícones da MPB, como Maria Bethânia e Milton Nascimento, Simone é, também, uma intelectual que pensa e muito nos segmentos do Brasil e na luta a favor da nossa cultura. Nascida em Santa Rosa de Viterbo, interior de São Paulo, hoje a cantora faz parte da efervescência que Brasília produz, estando ao lado de cantoras como Márcia Tauil, Sandra Duailibe, Roberto Menescal, Miúcha e outros, levando muita música de qualidade para os quatro cantos do país. Nesta primeira parte da entrevista, Simone Guimarães nos brinda com sua inteligência e sapiência em ver as coisas mais simples se transformarem em algo valioso. O Mais Cultura! (ou o Espaço Azul, como ela mesma apadrinhou o blog), tem o enorme prazer estar sendo condecorado com suas ricas frases de efeito moral.

 

Marcelo Teixeira - Seus discos são considerados, em alguns departamentos e lojas de CDs, como sendo uma cantora regional. Você tem medo de ser rotulada como tal?

Simone Guimarães - Não tenho medo de nada na arte, Marcelo. A arte é dinâmica, mutável, migrante, (eu migrei) a arte é memória, momento, tempo, movimento... Não devemos ter posturas rígidas e frias com ela, ela se apresenta numa ruptura e é de onde vem sua seiva e sangues, do conflito, dos contrastes, dos sentimentos em ebulição, da compreensão inconsciente, do vácuo sendo animado pela anti-matéria na consciência do vazio.

A música é invisível aos olhos, mas não ao coração. Coloquem os nomes que quiser nos meus trabalhos. Os codinomes são sempre o que se compreende do outro. Numa estante de disco, é alguma espécie de organização. Não posso ter medo, apenas discordar.

Sou de uma região interiorana de São Paulo e, portanto trago o canto da minha aldeia.

Se alguém tiver que vender um Chocolate especial, terá que lhe dar um nome especial. Acredito ser sim esse chocolate regional, porém já me misturei um pouco com o sabor das grandes cidades. Não que isso seja imperativo pra mim, aliás, eu gostaria de ter tido uma vida pacata e mais simples, mas meu caminho na arte me fez migrar.

Acredito que mundo e as pessoas deveriam ser apresentadas numa abordagem rica: dialética, semiótica, linguística, literária, poética, filosófica, histórica, humanista, e não de forma a se prender em notas de perfume quando o mais importante é a essência.

Eu comecei minha carreira fonográfica na Televisão fazendo trilhas para documentários, juntamente com Paulo Jobim, filho do Tom e uma orquestra inteira tocava um de meus temas, sendo regida pelo maestro Benito Juarez, com arranjos de Paulinho. Era regional?, Não.

Meu primeiro CD, o Piracema é um disco temático, assim como o segundo Cirandeiro: tem uma ocupação com temas voltados para a natureza, cenários bucólicos, mas a música apresenta gêneros diversos, como sambas, Shots, temas instrumentais, modas, etc. Por último, para responder a sua pergunta diria que as pessoas que me rotulam dessa forma ainda não tiveram a oportunidade de conhecer meu trabalho por inteiro. Não tenho preconceito com gêneros brasileiros. Toco-os todos indistintamente.

MT - Você cantou com grandes nomes da MPB, como Milton Nascimento, Maria Bethânia, Renato Braz, Leila Pinheiro, Ivan Lins. Tem algum cantor ou cantora que desejaria dividir um dueto?

SG - Gostaria de cantar com Sting . Sou fã desde que ouvi Russians no inicio da minha profissão de ouvinte. Ele é o máximo!

 

MT - Seu último CD, Chão de Aquarela, foi lançado agora em 2012 tendo apenas canções de sua autoria com Cristina Saraiva. Foi proposital fazer um disco somente pelas duas?

SG - Apenas reunimos as músicas que Cristina compôs comigo por um desejo de marcar essa parceria . A Cris é dona do Selo Tie music ,que me lançou no mercado fonográfico em 1997 e uma parceira das melhores que tenho. Somos amigas há trinta anos e isso ,creio, foi o fator decisivo para juntarmos nossas modas e cantigas regionais, que tanto amamos. Adoramos o pé de uma fogueira e um violåo!

MT - Sua música, por mais rica e de uma brasilidade completa, não chega a uma classe social mais popular. Por que isso acontece?

SG - No Brasil a indústria fonográfica não trabalha a favor da arte, mas sim do lucro, com exceções como Biscoito Fino, Lua Music, CID , Dubas, Tie music, Dabliu, Rob digital e outros tantos selos legais que fazem a nossa musica sobreviver e crescer lá fora.

O povo é massificado pelas avalanches tecno-pops do descartável da época.

Vivemos num país muito novo e sem igualdade social. O capitalismo é selvagem e poderia não ser: Se mirar , por exemplo nos capitalismos da Austrália, da Suíssa, da Noruega, talvez, mas a mentalidade dos empresários, em sua maioria, é colonialista e assim acontece na musica. Exportamos commodities e matérias primas. Acredito que se tivéssemos mais peito nessa questão do enfrentamento com as multinacionais que vem brincar com suas porcarias aqui dentro a musica se resolveria.

A presidenta Dilma está resolvendo o problema da miséria extrema. Musica também deveria ser um alimento pra todos.

Quanto mais variado o prato, mais saudável a nação!

Dá–se um produto de má qualidade ao seu povo quando não se tem interesse que esse povo consuma o substancial, o necessário para o seu crescimento, o melhor para o seu raciocínio,o mais caro para o seu coração de homem, no sentido de ser mais elaborado, morar melhor dentro de si mesmo.

Trabalho sem me preocupar com isso, querido Marcelo, mas gostaria de ser consumida pelas populações mais pobres: acho que eles iriam gostar da minha musica e de mim. Eu sou pobre- pobre- pobre- de –marré –marre-de- si. Tenho a certeza de que saberia me comunicar com meu povo.

MT - Em que você se inspira para compor?

SG - No amor , na beleza, na natureza. Também me inspiro indo ao cinema e vendo um documentário como A caverna dos sonhos esquecidos de Herzog. Assistir ao respeito com que nossa ancestralidade é tratada nesse filme me fez mais forte, como ler Nietzsche, Freud, Márcio Paschoal, ouvir Milton cantar ou Maria Rita.

MT - O que você acha da música produzida no Brasil hoje em dia?

SG - Eu tenho acesso a todo tipo de musica e o Brasil continua sendo o Melhor produtor nessa área! Amo a nossa musica. Quero que o brasileiro conheça a fundo seus artistas e um dia chegaremos lá.

Tanta coisa já mudou e ainda podemos mudar pra melhor, muito. Esse é o meu sonho. Ver o Brasil colher o que planta com seu trabalho e expulsar a corja de políticos corruptos do poder e deixar para quem sabe administrar, para quem tem idéias humanistas, a favor do coletivo. Na França, por exemplo tem um deputado Brasileiro no parlamento. Foi escolhido por seu mérito e por sua formação na área administrativa. Acredito que a democracia deveria ser mais explanadora nessa área, alertando os eleitores a votar em pessoas qualificadas para os cargos, de outra maneira continuaremos a eleger homo fóbicos e racistas.

 
A entrevista com a cantora e compositora Simone Guimarães continua na próxima semana, com mais revelações sobre a sua música e seus projetos.
 
Entrevista com Simone Guimarães - Primeira Parte
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

4º Maior Cantora do Brasil: Elis Regina


A inquietante Elis
Elis Regina pode até ter mudado a era dos festivais, ter dado cara nova aos espetáculos ou até mesmo dado vida a musicalidade e a teatralidade que pouco se vê hoje em dia, mas Elis não foi capaz de suprir expectativas marcantes e nem fora considerada por muitos como a maior cantora de todos os tempos. Sua música não é totalmente conhecida por pessoas que só conhecem as triviais e muitos de seus discos são paupérrimos, ou seja, Elis Regina ficou mais conhecida por seu jeito histriônico e suas frases de duras impactaçoes do que pela sua música rica ou alguns shows históricos. Para tanto, somente após sua morte que suas músicas foram alçadas por patamares distantes e canções até mesmo esquecidas passaram a ser referencia para milhares de pessoas.

Mesmo sendo a maior cantora do Brasil (o que muitos acham ser a do mundo), Elis chega a 4º posição da lista das maiores cantoras do Brasil pelo fato ser uma cantora que inovou o teatro, que inovou o jeito de cantar, que inovou nas articulações, mas que não elaborou sua musicalidade por completo.

Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945 e morreu em São Paulo no dia 19 de janeiro de 1982 e foi uma das maiores intérpretes brasileira. Conhecida por sua presença de palco esplendorosa, sua voz e sua personalidade, Elis Regina é considerada por muitos críticos, comentadores e outros músicos a melhor cantora brasileira de todos os tempos. A melhor e não a maior. Com os sucessos de Falso Brilhante e Transversal do Tempo, ela inovou os espetáculos musicais no país e era capaz de demonstrar emoções tão contrárias, como a melancolia e a felicidade, numa mesma apresentação ou numa mesma música. Como muitos outros artistas do Brasil, Elis surgiu dos festivais de música na década de 1960 e mostrava interesse em desenvolver seu talento através de apresentações dramáticas. Seu estilo era altamente influenciado pelos cantores do rádio, especialmente Ângela Maria, e a fez ser a grande revelação do festival da TV Excelsior em 1965, quando cantou Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo.

Tal feito lhe conferiu o título de primeira estrela da canção popular brasileira na era da TV. Enquanto outras cantoras contemporâneas como Maria Bethânia haviam se especializado e surgido em teatros, ela deu preferência aos rádios e televisões. Seus primeiros discos, iniciando com Viva a Brotolândia (1961), refletem o momento em que transferiu-se do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, e que teve exigências de mercado e mídia. Transferindo-se para São Paulo em 1964, onde ficaria até sua morte, logrou sucesso com os espetáculos do Fino da Bossa e encontrou uma cidade efervescente onde conseguiria realizar seus planos artísticos. Em 1967, casou-se com Ronaldo Bôscoli, diretor do Fino da Bossa, e ambos tiveram João Marcelo Bôscoli.

Elis Regina aventurou-se por muitos gêneros; da MPB, passando pela bossa nova, o samba, o rock ao jazz. Interpretando canções como Madalena, Como Nossos Pais, O Bêbado e a Equilibrista, Querelas do Brasil, que ainda continuam famosas e memoráveis, registrou momentos de felicidade, amor, tristeza, patriotismo e ditadura militar no país. Ao longo de toda sua carreira, cantou canções de músicos até então pouco conhecidos, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Renato Teixeira, Aldir Blanc, João Bosco, ajudando a lançá-los e a divulgar suas obras, impulsionando-os no cenário musical brasileiro.

Entre outras parcerias, é célebre os duetos que teve com Jair Rodrigues, Tom Jobim, Simonal, Rita Lee, Chico Buarque—que quase foi lançado por ela não fosse Nara Leão ter o gravado antes—e, por fim, seu segundo marido, o pianista César Camargo Mariano, com quem teve os filhos Pedro Mariano e Maria Rita. Mariano também ajudou-a a arranjar muitas músicas antigas e dar novas roupagens a elas, como com É Com Esse Que Eu Vou.

Sua presença artística mais memorável talvez esteja registrada nos álbuns Em Pleno Verão (1970), Elis & Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Transversal do Tempo (1978), Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980). Ela foi a primeira pessoa a inscrever a própria voz como se fosse um instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil e isso a faz ser especial. Elis Regina morreu precocemente em 1982, com apenas 36 anos, deixando uma vasta obra na música popular brasileira. Embora haja controvérsias e contestações, os exames comprovaram que havia morrido por conta de altas doses de cocaína e bebidas alcoólicas, e o fato chocou profundamente o país na época.

Elis fora um dos talentos mais marcantes de seu tempo, mas ainda assim, Elis foi mais uma das boas e sensacionais cantoras que o Brasil produziu com tamanha excelência.

 

4º Lugar: Elis Regina

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

16º Maior Cantora do Brasil: Fafá de Belém


Fafá: cantora sem rótulos
Maria de Fátima Palha de Figueiredo, mais conhecida como Fafá de Belém, sempre gostou de cantar. Dona de uma das mais expressivas vendagens de discos no mercado nacional, presença constante nas paradas de sucesso e à frente de atribulada agenda de shows, nos últimos anos Fafá de Belém conquistou duramente o posto de estrela da nossa canção popular. Das feiras de agropecuária no interior do país e shows em praça pública até temporadas no eixo Rio - São Paulo, incluindo o Cassino Estoril, em Portugal, ela é sempre vitoriosa. Em 1976, Fafá lançou o primeiro LP, Tamba Tajá. Seu canto seduziu até o demolidor crítico de música brasileira do Jornal do Brasil, o temido José Ramos Tinhorão, que se derramou em elogios à jovem artista, apontando-a como “uma cantora destinada a figurar no primeiro time da atual geração de grandes intérpretes brasileiras.” O álbum seguinte, “Água” (1977) confirmava todas as previsões: atingiu cerca de 95 mil cópias vendidas.

Embora jamais tenha pensado em ser cantora profissional, desde os 9 anos de idade, Fafá de Belém, era uma atração nas festas promovidas pela família ou nas casas de amigos. Apesar de menina, interpretava como gente grande “Ouça”, sucesso de Maysa, ou “Eu e a Brisa”, de Johnny Alf. Era uma garota que, como os da sua geração, amava os Beatles, era fã de Roberto Carlos e da turma da Jovem Guarda, mas também fascinada por jazz, música clássica, e que se emocionava ouvindo os grandes cantores de rádio, como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Núbia Lafayette e Orlando Silva, “Gente de punhal no peito”, que ela gosta de tomar como modelos para interpretar.

O amplo leque de sua formação musical está refletido na seleção de seu repertório. Ela gravou de tudo, sem preconceito. Música regional, pérolas do cancioneiro popular, como “Que Queres Tu De Mim”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, ou “Você Vai Gostar” (Casinha Branca) de Elpídio dos Santos. Rock, boleros, ritmos caribenhos, guarânias, afoxé, lambadas, sambas-canções, composições dos grandes nomes da MPB, Marcha-rancho, sertanejo, e muitos outros ritmos. Sem falar da polêmica apresentação que a musa das diretas deu ao Hino Nacional, contestada pela justiça e ovacionada pela plateia, cada vez mais numerosa de seus shows.

Foi a partir da decisão de virar a mesa e deixar o coração falar mais alto que Fafá tocou fundo a alma brasileira. Com a determinação que a caracteriza, os anos de estrada, uma forte intuição e o sucesso absoluto de canções escolhidas a dedo pela própria cantora em determinados momentos de sua vida, como “Bilhete”, de Ivan Lins e Victor Martins, que a fez romper o silêncio de um ano em 1982. Ou “Memórias”, de Leonardo, popular compositor pernambucano, responsável pela venda de meio milhão de cópias (Disco de Platina) do álbum “Atrevida”, Fafá atingia, então, o auge de sua carreira, sobretudo como cantora romântica.

Uma trajetória assombrosa, mas nada que surpreenda quem bem a conhece e às suas aparentes contradições. Não foi à toa que interpretava com tamanha emoção e propriedade os versos de um dos maiores sucessos de sua carreira, “Dentro De Mim Mora Um Anjo”, de Suely Costa e Cacaso: “Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim...”. Está aí uma das maiores verdades sobre Fafá de Belém, que sabe exatamente o que quer e do que é capaz.
 
Fafá virou marca nacional. Marca nacional de alegria, com aquela gargalhada sinceramente estrondosa que é capaz de levantar os ânimos de qualquer um. Marca nacional de saúde, a bela mulher brasileira que batizou até as lanternas do antigo Fusquinha, outra paixão popular. Marca nacional de liberdade, símbolo de um movimento político que fez milhões de brasileiros se emocionarem com sua interpretação do hino pátrio.

Esta é Fafá de Belém. Ou melhor: Fafá do Mundo.

Fafá de Belém é considerada uma das grandes cantoras da música popular brasileira. Já cantou fados, música sertaneja, sucessos nortistas meteóricos, cantou inclusive para o Papa (quando ele visitou o Brasil em 98), mas a base de sua trajetória musical é a música romântica. É uma cantora que tem como maior trunfo a sua capacidade de interpretação, é uma cantora emocional, intensa, voluptuosa, que sabe se fazer ouvir. E é por isso que Fafá chega ao décimo sexto lugar do Mais Cultura!, em uma seleta lista das maiores cantoras do Brasil.

 

16º Lugar: Fafá de Belém

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

29º Maior Cantora do Brasil: Simone


Simone e seu romantismo
Na história da MPB a tradição romântica de Simone foi intensificada nos anos 1980 e os temas de amor romântico e paixão, foram amplamente explorados por diversos cantores e compositores. Simone, que desde o início da carreira interpretou predominantemente canções românticas, figura dentre elas e é por isso que ela entra na categoria de cantora romântica. O repertório abrange mais de 380 interpretações, um dos mais vastos e diversificados dentre as vozes femininas, compondo um verdadeiro mosaico de estilos. O amor romântico ou idealizado, a paixão, (Começar de Novo, Jura Secreta, Corpo, Medo de Amar nº 2, Raios de luz, Lenha), o samba (O Amanhã, Disputa de Poder, Ex-amor) e a religiosidade (Cantos de Maculelê, Reis e rainhas do Maracatu, Então é Natal, Ave Maria, Jesus Cristo) são os mais recorrentes na obra. Ao longo da infância e juventude as principais referências deste repertório romântico foram Roberto Carlos, Milton Nascimento e Maysa Matarazzo, de quem é grande fã e que grande influência exerceu na carreira, Dolores Duran, Ângela Maria, Nora Ney e Elizeth Cardoso -- as maiores expoentes do gênero samba-canção ou fossa. O gênero, comparado ao bolero, pela exploração e exaltação do tema amor-romântico ou pelo sofrimento de um amor não realizado, foi chamado também de dor-de-cotovelo.

O samba canção (surgido na década de 1930) antecedeu o movimento da bossa nova (surgido ao final da década de 1950, em 1957), com o qual Maysa já foi identificada. Mas este último, herdeiro do jazz norte-americano, representou um refinamento e uma maior leveza nas melodias e interpretações em detrimento do drama e das melodias ressentidas, da dor-de-cotovelo e da melancolia. O legado de Maysa, ainda que aponte para dívidas com a bossa, é o de uma cantora mais dramática e a voz é mais arrastada do que as intérpretes da bossa e por isso aproxima-se antes do samba-canção e do bolero. O declarado gosto pessoal da cantora por boleros advém desta herança musical. Ao lançar o CD Fica Comigo Esta Noite, comentou que bolero é bolero, o que é fácil é fácil.

Já como intérprete, Ivan Lins, Vitor Martins, Milton Nascimento, Fernando Brant, Paulo César Pinheiro, Gonzaguinha, Chico Buarque, Martinho da Vila, Fátima Guedes, João Bosco, Aldir Blanc, Isolda, Roberto Carlos, Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho da Viola, Sueli Costa e Abel Silva são os compositores com maior número de interpretações na sua voz. O repertório atual inclui ainda Zélia Duncan, Cássia Eller, Adriana Calcanhotto, Aldir Blanc, Joyce, Martinho da Vila, Ivan Lins, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e Lenine.

Simone é uma das grandes cantoras deste país, sem sombra de dúvidas e precisamos manter viva esta categoria a qual ela pertence.

 

29º Lugar: Simone

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia


O disco: poucos destaques
Para início de conversa, Maria Rita é apenas a filha de Elis Regina e nunca será uma nova Elis como andam dizendo por aí. Às vezes, ao fecharmos os olhos temos a sensação de que a voz de Maria Rita se assemelha ao som de Elis, mas esses momentos são raros, tão raros, que não merecem destaques. Pudera: Maria Rita nasceu do ventre de Elis Regina. São 30 anos de morte da maior cantora do Brasil e 26 anos separam mãe e filha, artista e aspirante a artista. Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Maria Rita é apenas mais uma cantora do Brasil. Maria Rita bem que tentou, relutou, mas não conseguiu não regravar os sucessos que sua mãe deixou. Maria Rita sempre disse que não regravaria uma música de Elis em disco e isso não aconteceu em seus quatro discos anteriores, mas acabou gravando ora aqui ora ali músicas da mãe para alguns eventos e aparições em TV. Até aqui normal. Maria Rita não gravou sucessos da mãe nos quatro discos que gravou, mas regravou os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Os fãs de Elis sentiram-se órfãos com sua morte e não encontraram em nenhuma outra cantora sua imagem e semelhança e nem mesmo cantoras da estirpe de Gal Costa conseguiram suprir as necessidades artísticas de uma grande cantora. Milton Nascimento está à procura até hoje de uma nova Elis e, mesmo tendo gravado com diversas cantoras de excelente gabarito, sente-se frustrado por não conseguir o êxito maior em suas canções nas vozes femininas. E é justamente neste ínterim entre a morte de Elis e o surgimento de Maria Rita que os fãs de ambas não entendem: muitos veem em Maria Rita o renascimento de Elis, a feição, os traços, os trejeitos, mas Maria Rita só será Maria Rita quando encontrar o seu próprio caminho.

A voz de Maria Rita não é parecida com a voz da mãe. A feição é inevitável, o estrabismo também. O CD Redescobrir só veio a confirmar aquilo que eu sempre digo e bato na mesma tecla: Maria Rita é a cópia clara e obscura da mãe. Maria Rita imita Elis em tudo e isso também é inevitável, afinal, é mais do que normal os filhos serem cópias idênticas dos pais, o que não acontece com Jairzinho Oliveira, Max de Castro, mas acontece com Daniel Gonzaga, Leo Maia, Simoninha...

Mas Maria Rita ainda não encontrou o seu caminho e, para complicar sua situação, imita a mãe em inúmeros shows, fazendo caras, bocas, sustenidos, gracinhas e frases feitas como um gás lacrimogêneo no estomago. Sempre foi assim e sempre será, pois Maria Rita nasceu pronta para brilhar como cantora às margens da mãe, não tendo luz própria, não tendo características próprias como o irmão, Pedro Mariano, embora o mesmo tenha regravado ao menos um sucesso da mãe em todos os seus discos.

Redescobrir (2012/ Universal / 37,00) é um disco duplo com cores bem arranjadas, formato bonito, estrutura vital, bom acabamento, mas que não acrescenta em nada tanto na carreira artística de Maria Rita como para aficionados pela música popular brasileira. Para os jovens de hoje em dia, Redescobrir vale a pena como um produto novo, com músicas novas, como se fosse um marco zero e isso é muito benéfico para a carreira da cantora como para esses novos fãs. Mas para as pessoas que presenciaram Elis ou para quem acompanha a vida de Elis há mais de dez anos após sua morte e sabe praticamente tudo sobre sua vida e suas músicas, Redescobrir não significa absolutamente nada, a não ser mais um produto comercial.

O disco vêm como comemoração aos 30 anos de morte de uma cantora marcada por sucessos e por recaídas amorosas. Tudo iniciou como um show, mas já era possível prever que isso se transformaria em disco, claro. Tudo bem que o disco é uma sensação de emoções, mas há os contras e os poréns que este disco representa. Maria Rita regravou sucessos, músicas esquecidas e reverenciou, mais uma vez, os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Lembrando as fases do fino da bossa, da época dos festivais até chegar ao estrelato como uma verdadeira dama dos palcos, Redescobrir trás também o lado esquecido dos grandes clássicos de Elis, como faixas de discos estelares que o público de hoje desconhece, como Vida de Bailarina (música cantada por Ângela Maria, cujo Elis adorava tanto a cantora como a canção), Agora Tá, Onze Fitas, Querelas do Brasil, Doce Pimenta, Menino, Zazueira, Redescobrir. O público de hoje praticamente desconhecem estes sucessos de Elis e Maria Rita as canta de uma forma que lembra a mãe, com técnicas vocais muito parecidas. Destaque maior para a bela Bolero de Satã, numa interpretação magistral de Maria Rita, o ponto alto do disco.

Maria Rita pode dobrar e desdobrar as canções que a mãe cantou, pois ela é a filha da cantora que as cantou primeiro. Outra cantora qualquer sempre é mal vista quando regravam as canções que Elis imortalizou e lembro que Zizi Possi, que à época da morte de Elis era tida como uma nova Elis, fora muito crucificada com esta comparação. Maria Rita é apadrinhada pela mídia, pelos fãs e por saudosistas e estes praticamente não vêm riscos, defeitos e nem quebras no repertorio intocável de Elis. Maria Rita se salva por ser a filha.

O disco em si é mediano. Deve ser escutado apenas algumas vezes. Cansa ter que ouvir Maria Rita em 28 músicas ininterruptas. Definitivamente, Redescobrir não redescobriu Maria Rita, embora a palavra redescobrir pode significar muitas coisas: para a cantora, redescobrir o acervo musical da mãe e redescobrir o quanto o povo brasileiro ainda a idolatra e sente a presença da enorme grandiosidade de Elis, requer um redescobrimento muito mais atemporal do que qualquer outra coisa.

Trinta anos depois da morte de Elis, a filha trouxe a tona grandes sucessos, poucos conhecidos nos dias de hoje, compilando discos maravilhosos que a saudosa Elis nos deixou, mas houve erros drásticos quanto ao repertorio: a música Menino, por exemplo, não fora um grande sucesso na voz de Elis e sim, na voz de Milton, que o gravou no disco Geraes, de 1976. Do disco Falso Brilhante, gravado no mesmo ano com enorme sucesso de crítica e público lotado no teatro, veio apenas Como Nossos Pais e Tatuagem, sendo que as músicas de João Bosco do mesmo álbum foram muito mais marcantes pela dramaticidade. Assim aconteceu com Doce Pimenta, que não viria a ser um sucesso gravado por Elis e, sim, uma duplicidade com a amiga Rita Lee.

O que faltou em Maria Rita foi ousar. Chamar ao menos o irmão para dividir os vocais em algumas faixas, talvez, a qual sugeriria Águas de Março. Convidar os verdadeiros amigos de Elis, como Ivan Lins, Milton, Rita, João Bosco para um dueto. Essa ousadia não veio, não perdurou e o disco saiu cansativo. Claro, os sons são muito bons e as novas harmonias são sensacionais, mas faltou criatividade no formato geral. A impressão que nos passa, é que Maria Rita quis exclusividade ao fazer a passagem dos trinta anos de morte da mãe, da artista, da mulher, da guerreira, da Elis.

O que Maria Rita precisa redescobrir é a sua carreira, marcada com discos paupérrimos e com letras medianas. Redescobrir foi tudo aquilo que a mãe fizera em vida, seus trejeitos, suas notas, seus alcances vocais, seu público renovado. Maria Rita conseguiu o feitio de ser Elis por um dia, ser aclamada até por quem não curte seu trabalho e seu som e por quem ainda há de reconhecer que sua voz é um grito contra a efemeridade que existe por ai.

Redescobrir redescobriu Maria Rita por algumas horas. Elis é Elis. Maria Rita ainda precisa se descobrir.

 

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia

Nota 7

Marcelo Teixeira

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Na Ponta da Língua, de Leila Pinheiro (1998): ótimo paladar


Ótimo disco de Leila Pinheiro
Em 1998, Leila Pinheiro nos presenteou com um disco a sua altura, com canções que marcaram um tempo e com novidades extraordinárias que perpetuam até hoje em meus ouvidos. O disco em questão é Na Ponta da Língua e trás uma capa tão singela e ulterior e sagaz e impiedosa e original e maliciosa, que este álbum talvez seja o melhor de toda a sua carreira. Com aberturas e fechaduras de vinhetas que somente Walter Franco consegue compor, o disco é todo marcado por facetas múltiplas de uma Leila Pinheiro que conseguiu se desvencilhar de ser rotulada, até então, de bossanovista e enveredar pelo campo da música popular. Regravando grandes sucessos de Roberto e Erasmo Carlos (Sentado à Beira do Caminho) e Legião Urbana (Vento no Litoral), o disco é pautado pela sensibilidade de uma grande artista, que é reverenciada por grandes nomes da MPB, como Ivan Lins e Chico Buarque e que foi a queridinha de Tom Jobim em seus últimos anos de vida.

Abril, composição mais que charmosa de Adriana Calcanhotto, é a melhor música do álbum e transmite uma emoção plena de escolhas sem arrependimentos e recomeços de um novo ciclo. Assim como o samba encorpado de Sérgio Santos e Alvin L., Pra Dizer a Verdade, que tem uma letra deliciosamente linda, Na Ponta da Língua tem de tudo um pouco: além de sambas, tem a esmagadora Mais Uma Boca, composta com requinte pela fabulosa Fátima Guedes, que consegue exprimir, através da interpretação forte de Leila, uma letra inquietante e bela ao mesmo tempo. Destaque ímpar para a excelente música Por Favor, de Ivan Lins e Aldir Blanc, em que a língua bebe a estranheza (frase que mais gosto de todo o disco) e que ao mesmo tempo nos leva ao gosto de maçã, flor da nova Eva, com seus antecipamentos e suas incertezas.

 

Sinto o abraço do tempo apertar

E redesenhar minhas escolhas

Logo eu, que queria mudar tudo

Me vejo cumprindo ciclos

Gostar mais de hoje e gostar disso

 

Trecho da música Abril, de Adriana Calcanhotto

 

 

Seguindo sua influência regional de seu estado natal, Pará, Leila canta brilhantemente o forró quase universitário Influência de Jackson, composta pelos mestres Guinga e Aldir Blanc e Leila canta numa desenvoltura que somente ela consegue fazer e emocionar. Vale lembrar que a música é difícil de interpretar, mas Leila dá um banho de sensualidade e musicalidade. Indo para o lado sentimental do disco, Sorriso de Luz trás a leveza e a pureza do amor, com seus primeiros olhares e suas primeiras imaginações, fazendo da canção de Gilson Peranzzetta e Nelson Wellington um dos achados para a transmutação de Leila.

Setembro, de Alvin L., é uma canção amargurada e doce sobre os desencontros e armadilhas do amor que um dia fora belo e romântico. Leila é capaz de se desfazer de desmantelos ruborizados pela crítica e recria com magnitude a impactante Amor, Perigoso Amor, de Frejat e Dulce Quental, já imortalizada na grande voz firme e forte de Ângela Ro Ro. É nesta canção que Leila se despe e se mostra valente e única para poder recriar ao seu gosto as canções que fizeram parte musicalmente de outra voz.

Na Ponta da Língua demonstra o quanto a musicalidade de Leila Pinheiro é importante para cenário musical brasileiro e ter a certeza de que sua voz é única e saber não ser rotulada, é a forma mais pura e inocente de dizer que ela é uma cantora genuinamente brasileira. Na Ponta da Língua é simplesmente ótimo. Recomendo.

 

Na Ponta da Língua / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira