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domingo, 9 de julho de 2017

Kátia - a voz da música brega dos anos 1980


Kátia: sucesso até hoje
Sendo uma das grandes representantes da música popular nas décadas de 1970 e 1980, Kátia hoje figura entre as cantoras mais nostálgicas de seu tempo, devido às letras carregadas de sentimentos amorosos e com frases de impactos que beiram entre o sofrimento brega e o amor ressentido. Tendo como padrinho artístico ninguém menos que Roberto Carlos, a estreante promessa da música nacional lhe apresentou canções próprias que caíram no gosto do mentor da Jovem Guarda. Roberto a indicou junto à gravadora CBS para que a cantora fizesse testes musicais e depois de tudo certo, Kátia estreou na música aos 14 anos, no ano de 1978, ao lançar o compacto com as músicas Tão só e Sensações, ambas composições suas, demonstrando o calibre autoral que já tinha. Mas seu sucesso mesmo veio em 1979 ao gravar para a mesma gravadora a música Lembranças, de Roberto e Erasmo Carlos, que foi feita especialmente para ela. Lembranças é uma das letras românticas mais lindas de todos os tempos e a voz da cantora ajudou a reforçar esse mérito, sendo um dos maiores sucessos de sua carreira. Depois disso, foi um sucesso atrás do outro, como o disco de 1980 que trazia outra canção especial da dupla Carlos, Cedo pra mim, que fez estonteante acontecimento musical. Já em 1982 saiu o disco Calor, que teve pequena representatividade no mercado musical, mas não diminuiu o talento da cantora. Depois de um hiato silencioso, Kátia lançou a música que a consagraria definitivamente como uma das cantoras mais queridas e lembradas da música dos anos 1980 pelo conjunto da obra: Não tem jeito, na versão da dupla Carlos para It Should Have Been Easy, sendo mais conhecida como Não está sendo fácil. Os discos seguintes não chegaram a marcar tanta presença no mercado, mas conseguiram manter um nível elevado de musicalidade com forte influência da personalidade da cantora, como Kátia (1989), Conversa Comigo (1990), Kátia (1992), Kátia (1994). No início da década de 1990 a onda sertaneja comandada por Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano e Chitãozinho e Xororó disputavam espaço acirrado com os pagodeiros do Só pra Contrariar, Katinguelê, Negritude Jr e Exaltasamba. Não mais que isso, o espaço era disputado também por ícones da música baiana, como Daniela Mercury, que vinha sozinha com um coro arrepiador, destoando seu suingue e rebolado e se firmando como a mãe do axé. Do outro lado vinha o romântico Latino, que conseguiu atrair milhares de olhares com seu jeito esdrúxulo de cantar e dançar. Por tudo isso, o esquecimento pela cantora Kátia se fez acontecer e a cantora se afastou por um tempo da música para se dedicar a trabalhar com distribuição de um programa sintetizador de voz para computadores, destinado exclusivamente a pessoas cegas, o DOSVOZ, desenvolvido por uma faculdade carioca.  Considerada por muitos como ícone da música brega romântica, Kátia deixou sua marca na cultura musical dos anos 1980 com grandes sucessos na bagagem e sendo uma grande vendedora de discos, tendo permanecido por 17 semanas na parada de sucessos da Billboard Latina com a música Tan sola. Nos anos 2000 voltou a ser prestigiada pelo público de festas que consagravam artistas dos anos 1980 e sua voz voltou a ser carimbada nos microfones. Kátia é referência musical ontem, hoje e amanhã.

 

Kátia – a voz da música brega dos anos 1980
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O lado B de Erasmo Carlos


Erasmo é rei no lugar do verdadeiro rei
Erasmo Carlos é um dos cantores mais populares do Brasil e o compositor que mais sucessos deu a Roberto Carlos nesses anos de musicalidade dividida entre os dois e para com o público. Se fossemos levar ao pé da letra, Erasmo é muito mais rei que o próprio rei Roberto, porque Erasmo é um cantor popular, de extrema timidez e de profunda simpatia com seu público cativo. Podemos levar em consideração também o fato de Erasmo atrair os jovens de hoje em dia em seus shows, cantando músicas antigas e novas e podendo demonstrar o quão argiloso e competente és em seu ofício. Sim, Erasmo é um cantor por excelência, um mestre em dominar os palcos, um sábio professor da magia musical e um conhecedor sistêmico da alma feminina. Dominação total sobre tudo e sobre todos, Erasmo deu um show à parte no Rock in Rio 30 Anos (2015) com seu brilhantismo roqueiro e sua altura galopante. Quem o assistiu ali no palco e pela televisão, pôde constatar a consagração de um monstro sagrado da música popular brasileira chamado Erasmo Carlos, que fez o público delirar, dançar, pular, chorar, se emocionar e cantar suas músicas com emoção e sentimentos profundos. Erasmo lançou este ano um disco que chamou a atenção do grande público em geral pela descrição que o mesmo fez sobre seu novo trabalho: o seu lado menos conhecido musicalmente. O cantor pincelou músicas que foram musicadas e que quase ninguém deu valor ou músicas que ele engavetou por diversos motivos. Eis agora que o fã mais que fã do cantor e o jovem admirador de Erasmo poderá desfrutar de Meus Lados B (2015 / Coqueiro Verde / 26,99), um disco autoral que mostra a versatilidade do Tremendão em todas as suas esferas. A aversão maior agora é abrir mão de uma vasta coleção de clássicos e mirar em seu repertorio em resgatar músicas menos conhecidas. O disco é completo e vale a pena ouvir cada faixa como se fosse a última, porque tudo soa como novo na voz de Erasmo. O formato é sensacional e bem caprichado e com um resultado perfeito, fazendo com que cada canção seja complemento da anterior. Sendo um dos melhores momentos do cantor, vale muito a pena ter um disco como este em casa, pelo simples fato do reconhecimento de Erasmo com suas músicas que tiveram pouco ou nenhum sucesso em alguma parte de sua carreira musical. Há várias surpresas, como Paralelas (Belchior), que fora lançada por Vanusa, De Noite na Cama (Caetano Veloso), grande sucesso na voz de Marisa Monte, Queremos Saber (Gilberto Gil), que ficu mais conhecida com Cássia Eller e até Gonzaguinha (Nunca Pare de Sonhar), entre outras. Erasmo mantém sua juventude de alma roqueira e coração de grande músico. Sem estrelismos e sabendo de sua importância dentro da música nacional, cismo em dizer que o verdadeiro rei da MPB é ninguém menos que o próprio Erasmo Carlos.

 

Meus Lados B / Erasmo Carlos
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 30 de maio de 2015

A orquestra de Max de Castro (2002)


Max e sua boa música
Assim como a grande mídia não dá o devido valor aos seus grandes compositores ou cantores dentro de seu próprio país de origem, alguns desses cantores tentam burlar essa autonomia flagelada para tentarem mostrar seus trabalhos com digno respeito de estrelas da música nacional. Muitas vezes, esses cantores acabam sendo esquecidos pelo público, que acabam descobrindo outros interpretes ou outras sonoridades e, com isso, muitos cantores ditos bons acabam sendo desvalorizados. Esse é o caso do cantor, compositor, guitarrista, instrumentista, inquieto e filho de Wilson Simonal, o super talentoso Max de Castro, irmão de Wilson Simoninha. Em 2002, o Brasil pôde conhecer melhor seu lado cantor, quando o mesmo lançou o sensacional Orchestra Klaxon (2002 / Trama / 28,99), em que mistura jazz, MPB, samba e até romantismo. Com participação de Paula Lima e letras de Marcelo Yuka, Erasmo Carlos e Nelson Motta, o CD é um dos mais belos de toda a história da música do século XXI, por ser emblemático, audacioso e inteligente. Max não poupou críticas ao mundo racial (O Nego do Cabelo Bom), ao mundo do carnaval (A História da Morena Nua que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval) e nem ao mundo da música vanguarda (O Futuro Pertence à Jovem Vanguarda) e tudo isso tem um apreço muito significativo tanto na carreira musical do cantor, como na vida pública e pessoal das pessoas. Antes de mais nada, Orchestra Klaxon é um CD de jazz, indiscutivelmente abrasileirado, bem aos moldes americanos e com uma privilegiada sonoridade, rica em detalhes, instrumentos e homenagens. O CD foi incorporado para prestar uma justa rebuscada busca na própria carreira pessoal do cantor, que conviveu com os maiores mentores da música popular brasileira, como Nara Leão, Tom Jobim, Milton Santos, João Donato, Dick Farney e artistas do naipe de Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Eumir Deodato, sem falar do pai, um dos mais prestigiados cantores de todos os tempos. Podemos classificar o CD de Max de Castro como uma experiência musical que deu certo dentro um segmento que ele talvez nem tenha imaginado que daria certo. O disco quando foi lançado causou um certo furor, pois era um disco caro de ser produzido, difícil de ser interpretado, difícil de ser degustado e que se tornou alvo fácil dos amantes da música. Max de Castro arrebatou milhares de pessoas com Orchestra Klaxon. E entrou para a história da música popular brasileira de uma vez por todas sendo ele mesmo. Sendo Max de Castro.

 

Orchestra Klaxon (2002) / Max de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 14 de julho de 2014

As emoções de Maria Bethânia ao cantar Roberto Carlos

As canções de Roberto por Bethânia
Não é tarefa para qualquer um cantar as músicas de Roberto Carlos com tamanha emoção e dedicação, ainda mais um disco inteiro. Escolher a dedo apenas onze faixas de um acervo de mais de quinhentas músicas é padecer em qualquer lugar quente deste planeta, mas Maria Bethânia conseguiu este feito ao lançar o audacioso projeto As canções que você fez pra mim (1993 / Polygram / 19,99), disco praticamente raro de encontrar hoje em dia. Trata-se de uma grande homenagem da cantora ao cantor e compositor Roberto Carlos, de quem Bethânia se considera fã. Maria Bethânia sempre foi dotada pelo respeitoso repertório daquilo que canta e ela sabe que canta com maestria, sofisticação, austeridade e potência sem deixar que o romantismo piegas dos tempos áureos se percam. A impressão que transpassa do disco para nós e, obviamente, de Bethânia para o disco, é que tudo foi feito com a sua forma e jeito, sem pressa e sem o apego das opiniões futuras: Maria Bethânia cantou aquilo que queria e pronto. Jogou no disco todo o seu respeito e amabilidade para com a obra de Roberto e fez tudo com muito amor e carinho, sem pensar no destino final. E, claro, o resultado soou como sendo um dos melhores discos da cantora, batendo recordes de vendas e fazendo com que a Abelha Rainha saísse ainda mais vitoriosa no circuito nacional. Do título às canções posteriores, tudo se enquadra perfeita e milimetricamente na voz da cantora, sem deixar que a conjectura do amor ou do falso amor falasse mais alto. Das dores de cotovelo ao amor surreal, as canções escolhidas casam-se diretamente com aquilo que foi sublinhado por Roberto e Erasmo Carlos no passado: Bethânia apenas colocou sua voz naquilo que já estava batido, mas não velho, dosando lirismo e poetismo, amor febril e amor puritano. A forma habitual das músicas cantadas por Maria Bethânia na sua pluralidade maior e na oração à mensagem fazem das rimas um par perfeito entre a emoção da canção e a fineza da alma lírica musicada por dois gênios românticos brasileiros. Maria Bethânia, no ar de sua graça e na leveza de seu espírito, transforma As canções que você fez pra mim em uma aula de etiqueta musical, tendo todo o reverberamento, a fenda e a quebra de sua personificação como grandeza maior.

 

As canções que você fez pra mim (1993) / Maria Bethânia
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Por que Jair Rodrigues não poderia morrer?


 


Jair: sempre eterno
Jair Rodrigues foi um músico espetacular, de uma fineza sem constestamentos e um cantor extremamente brasileiro. Sua morte foi um abalo geral para todos nós, que não esperavámos por ela: dentro de sua casa, no seu lugar preferido, Jair estava morto. O clichê é gritante, mas faz parte: morreu o homem, mas não a sua voz, a sua trajetória de vida, o cantor. A voz de Jair estará sempre ecoando por este Brasil que não conhece o Brasil, em cada esquina e em cada coração brasileiro. Mas Jair era um cantor que não poderia (nem merecia) morrer. Jair era a parte viva de uma MPB morta. E era justamente por sua memória que o cantor não poderia morrer tão cedo. De todos os cantores que mais bradavam sobre os festivais da TV Record dos anos de 1960, a amizade com a cantora Elis Regina, o início do rap no Brasil, os encantamentos de uma música sertaneja, o samba, os amigos que não comentavam mais nada sobre a música do passado, tudo isso Jair contava em rima e prosa e agora tudo se calou. Jair Rodrigues gostava de contar os bastidores daqueles tempos áureos e tinha muita coisa na bagagem para ser contada ainda, mas o destino o quis calado. Assim como no último show de sua vida, registrado em Minas Gerais e que conta particularidades de Elis como se fosse um sussurro, Jair tinha muitas histórias e notas para contar. Morreu sabendo que fora feliz e que era um dos cantores de maior grandeza da música popular brasileira. Morreu no melhor momento de sua vida: trabalhando e fazendo samba. Assim como Caetano Veloso gosta de comentar o início da Tropicália e o movimento dos festivais, Jair Rodrigues também gostava de falar abertamente sobre tudo aquilo com sabedoria e maestria. Calou-se a voz de Jair aos 75 anos e espero que Caetano não se cale, embora já tenha quase 71 anos! Diferentemente de Gilberto Gil, Gal Costa ou Maria Bethânia, Caetano gosta de relembrar fases daqueles tempos em que lutar pela sobrevivência de uma boa música era significado maior de uma cantoria melhor para futuramente poder se expressar com o passado numa forma direta e franca. E assim como Jair, Caetano também tem cartas na manga ainda. Chico Buarque não fala praticamente mais nada sobre o tempo dos festivais; Geraldo Vandré não se mostra mais em público e nem em entrevistas; Nara Leão morreu; Roberto Carlos não fala mais de Jovem Guarda, embora Erasmo Carlos tenha boas recordações e cartas na manga também. Morreu o patrono do fino da bossa, morreu o menino pobre que vencera na música e se tornara amigo de uma das maiores intérpretes do país, morreu Jair Rodrigues no momento errado. Com a morte de Jair, a música fica mais pobre, mais cinza e mais triste, obviamente. Mas a morte de Jair traz outro significado ainda maior: aquietou-se o moleque cantor mais feliz da MPB e calou-se os bastidores de um festival!



 

Por que Jair Rodrigues não poderia morrer?
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Lulu Santos emociona cantando Roberto e Erasmo

O novo disco de Lulu: ótimo

Já chamei Lulu Santos de vovô do rock e não gostava de suas aparições nas TVs ou programas de auditório. Achava suas músicas mais sincronizadas e românticas nas vozes de outras cantoras que conseguiam fazer com que sua música soasse mais intelectual e pessoal e criticava quando Nelson Motta o elogiava em esquetes rápidos em programas musicais. O fato é que ele voltou com força total em um disco homenageando os reis da música popular brasileira, Roberto e Erasmo e prova que regravar canções de ídolos pode ser algo realmente inovador.  Lulu Santos está com um novo disco na praça intitulado Lulu canta e toca Roberto e Erasmo e volta a uma era pré-Jovem Guarda, fazendo uma leitura retrô sobre composições do Rei Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Em seu primeiro trabalho exclusivo como intérprete, Lulu Santos busca um caldo especial para as canções de dois monstros sagrados da MPB.

Lulu Santos não é mais aquele jovem guitarreiro que subiu no palco do Rock in Rio de 1985 usando calça apertada e joelheiras. Hoje ele é um senhor de cabelos brancos (orgulhosamente assumidos desde a década de 1990 e que lhe fez muito bem, obrigado), barba volumosa e trajando colete e gravata. O velho roqueiro completou 60 anos. Mas para comemorar, o carioca se deu de presente um disco especial. Relembrar sucessos da dupla, que vão da Jovem Guarda, passam pelas incursões black e hippie, e chegam à atualidade romântica, foi uma de forma de Lulu resgatar a essência e a fonte da sua canção.

Egresso da geração roqueira dos Anos 80, Lulu Santos soube difundir bem por muitas praias. Rock, blues, pop, eletrônico, samba, funk são algumas coisas que sempre estiveram presentes na sua música. Mas, ele nunca deixou de se assumir um eterno romântico. E nesses assuntos de coração, ninguém fez melhor no Brasil do que Erasmo e Roberto. É verdade que, nem eles são os primeiros, nem Lulu é o último romântico. Mas em assunto de amor, os três sabem como poucos extrair melodias e histórias inesquecíveis.

O disco que vem com 13 músicas dos repertórios dos artistas e selecionadas por Lulu para o seu 24.º álbum gravado em fevereiro teve as gravações autorizadas pelos compositores que comandaram a Jovem Guarda. A direção musical e os arranjos ficaram a cargo do próprio Lulu Santos, que mesclou as canções um toque de blues bem perceptíveis como em Minha fama de mau (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1965), Sou uma criança, não entendo nada (Erasmo Carlos e Ghiaroni, 1974) e Festa de arromba (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1965), ainda foram gravadas canções como Quando (Roberto Carlos, 1967), As curvas da estrada de Santos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969), Se você pensa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968), Sentado à beira do caminho (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) Eu te darei o céu (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1966), Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos, 1967), É preciso saber viver (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968) e Emoções (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1981).

Vale a pena conferir!

Lulu Canta & Toca Roberto e Erasmo – Lulu Santos

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Viva Cauby!


 

Cauby Peixoto: o Rei
Com 81 anos de idade, Cauby Peixoto ainda está na ativa – para a nossa eterna felicidade! Voz caracterizada pelo timbre grave e aveludado, mas principalmente pelo estilo dândi, que inclui figurinos e penteados excêntricos, Cauby está em atividade desde a década de 1940, aonde é conhecido no meio artístico como Professor. A família tinha a música no sangue; o pai tocava violão e a mãe bandolim; os irmãos eram instrumentistas, e o tio grande pianista. Foi considerado pelas revistas Time and Life como: O Elvis Presley brasileiro. Convidado para uma excursão aos EUA, onde gravou, com nome artístico de Ron Coby, um LP com a orquestra de Paul Weston, cantando em inglês. De volta ao Brasil, comprou, em sociedade com os irmãos, a boate carioca Drink, passando a se dedicar mais a administração da casa e interrompendo, assim, suas apresentações.

Em 1980, em comemoração aos 25 anos de carreira, lançou pela Som Livre o disco Cauby, Cauby, cujo é o melhor de sua carreira, com composições escritas especialmente para ele por Caetano Veloso (Cauby, Cauby), Chico Buarque (Bastidores), Tom Jobim (Oficina), Roberto Carlos e Erasmo Carlos (Brigas de amor) e outros. Bastidores, particularmente, se converteria em um dos maiores sucessos do repertório do cantor. No mesmo ano, apresentou-se nos espetáculos Bastidores (Funarte, Rio de Janeiro) e Cauby, Cauby, os bons tempos voltaram, na boate Flag (SP).

Em 1982 uma temporada no 150 Night Club (SP), com os irmãos Moacir (piano) e Araquem (piston) e lançou o LP Ângela e Cauby, o primeiro encontro dos dois cantores em disco, com sucessos como Começaria tudo outra vez (Gonzaguinha), Contigo aprendi (Armando Manzanero), Recuerdos de Ipacaray (Z. de Mirkin e Demetrio Ortiz) e a valsa Boa-noite, amor (José Maria de Abreu e Francisco Matoso).

Em 1989, os 35 anos de carreira foram comemorados no bar e restaurante A Baiuca (São Paulo), ao lado dos irmãos Moacir, Araquem, Iracema e Andiara (vozes). No mesmo ano, a RGE relançou o LP Quando os Peixotos se encontram, de 1957. Em 1993 foi o grande homenageado, ao lado de Ângela Maria, no Prêmio Sharp. Foi lançada pela Columbia caixa com 2 CDs abrangendo as gravações de 1953 a 1959, com sucessos como Conceição entre outros.

Atualmente, apresenta-se nas noites de segunda-feira no Bar Brahma, tradicional templo da boemia paulistana, localizado na mais famosa esquina brasileira (av. Ipiranga com São João, em São Paulo, Brasil), em temporada que já dura há mais de oito anos, com ingressos concorridos.

Não é a toa que Cauby é Cauby. Teatros lotados, bares repletos de pessoas ansiados por vê-lo e a mesma desenvoltura de um garoto de quinze anos, mas com a sabedoria de um senhor que nos ensinou tudo dos bastidores da vida através de um único gesto: respeito!

 

Viva Cauby!

Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

18º Maior Cantora do Brasil: Wanderléa


A musa dos anos 1960
Sendo uma das principais cantoras dos anos 1960, Wanderléa foi uma sensação à parte para homens de todas as idades e influenciou as mulheres de sua geração por ousar, abusar e inserir na cultura brasileira as famosas minissaias, que viraram febre e sensação de desrespeito pelo clã vanguardista. A cantora saiu de Minas Gerais para se tornar a mais importante cantora da Jovem Guarda. Já aos 10 anos ganhava concursos em rádios e lançou em 1962 o primeiro compacto. No ano seguinte sai o primeiro LP, Wanderléa, pela CBS. Na gravadora conhece Roberto e Erasmo Carlos, com quem passa a apresentar em 1965 o programa Jovem Guarda pela TV Record de São Paulo. Transmitido nas tarde de domingo, o programa teve uma das maiores audiências da época e lançou diversos artistas. Wanderléa e Celly Campelo foram as primeiras estrelas do rock brasileiro. Participou de filmes ao lado de Roberto Carlos e, depois de terminada a Jovem Guarda, continuou a carreira como cantora pop.

Pouca gente sabe, mas Wanderléa já gravou Gonzaguinha, Sueli Costa, Luiz Melodia, Joyce e não apenas a turma do iê-iê-iê. E isto se torna uma preconceito tão gigantesco contra a cantora marcada por uma geração, que chega a ser ridículo. Wanderléa é muito mais que o movimento que a consagrou. Grandes compositores e grandes músicas fizeram parte de sua vida e isso a torna uma das grandes cantoras do Brasil, chegando ao posto de 18º lugar. Ser marcada e reconhecida como uma cantora de um determinado tempo ou período é natural, mas ficar estacionada no tempo, jamais. E Wanderléa não parou no tempo, tanto que até hoje grava discos, DVDs e reúne em seu acervo musical a mais concreta e justa cultura brasileira. Atualmente se apresenta cantando seus maiores sucessos, como Pare o Casamento (versão de Luís Keller), Ternura (Rossini Pinto) e Prova de Fogo (Erasmo Carlos).

 

18º Lugar: Wanderléa

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Roberto Carlos ainda é o cara?


O compacto com 4 músicas
Para suprir à audiência fenomenal da antecessora novela Avenida Brasil, a nova novela global, assinada pela competente Glória Perez, teve que rebolar para tentar suprir as necessidades que o novo público noveleiro não estava acostumado a ver na telinha e, para isso, escalou um elenco sensacional, novos rostos, texto mais ágil (geralmente as novelas da escritora são morosas) e escolheu a linda e bela Turquia para servir de cenário para um elenco sedente de interpretação. A novela já caiu nas graças do público, que anda se debulhando em lágrimas (artificiais ou não!) sobre o vai e vem no namoro entre Morena e Theo e, consequentemente, caiu nas minhas graças também, tendo em vista que sou um apaixonado pela Turquia. Aliás, sou fã confesso do escritor turco Orhan Pamuk e ver as cenas da novela Salve, Jorge passadas em Istambul, Bósforo, Mar Mediterrâneo, é como se eu estivesse vendo ali atrás a maldita judia Esther ou o cachorro canastrão do romance Meu Nome é Vermelho, ou o pai biológico do escritor e suas maletas e jornais e cadeiras vazias em A Maleta de Meu Pai, ou o moleque Necipe, a bela Ypek ou o poeta Ka perambulando pelas ruas no surpreendente Neve, que estou maravilhado com a trama só por este fato. Mas algo me tira do sério nesta novela. 

 

O cara que pensa em você toda hora

Que conta os segundos se você demora

 Que está todo o tempo querendo te ver

 Porque já não sabe ficar sem você

 

E no meio da noite te chama

 Pra dizer que te ama

 Esse cara sou eu

 

O cara que pega você pelo braço

 Esbarra em quem for que interrompa seus passos

 Está do seu lado pro que der e vier

 O herói esperado por toda mulher

 

Por você ele encara o perigo

 Seu melhor amigo

 Esse cara sou eu

 

Trecho de Esse Cara Sou Eu, de Roberto Carlos

 

 

Precisava de uma música que grudasse feito chiclete em nossa memória, para que quando tocasse nas rádios ou em qualquer lugar, lembrarmos da novela para que a mesma tenha audiência. Esse Cara Sou Eu é o nome da nova canção de Roberto Carlos. Que a carreira do Rei está abalada, disso todo mundo já sabe. Que Roberto Carlos não consegue mais emplacar um disco inteiro com sucessos dignos de um verdadeiro rei, disso todo mundo já sabe há tempos. Foi-se o tempo em Roberto Carlos vendia discos devido às belas canções românticas que ali continham. Esse Cara Sou Eu é uma canção chata. Estúpida. Irritante. Cafona.

Para tanto, Roberto Carlos logo correu para se aproveitar do grande sucesso que viria pela frente e lançou um compacto com apenas quatro musiquinhas fulas, reles e sem graça. Um Roberto dançante, um Roberto amoroso, um Roberto piegas e sem noção de seu tempo e espaço. Obviamente que o disco será um sucesso, pois o cantor não estava preparado para trabalhar em um disco em pleno final de ano. Pudera, com o Natal chegando, muitos esquecerão das músicas de Simone, para lembrarem da chatice do ano com a música Esse Cara Sou Eu.

Digno de um verdadeiro mau gosto musical, a música contradiz o maravilhoso Mesmo Que Seja Eu, cantada magistralmente por Ney Matogrosso ao vivo em 1998 para um disco contendo os seus maiores sucessos, composta pelo amigo/irmão-afastado Erasmo Carlos. Os versos da música se repete inúmeras vezes, dando uma canseira significativa para nossos neurônios que pescam aqui ou ali alguma insensível reação adversa do que a canção quer transpassar. Já entendemos que o cara que faz tudo pela moça é um completo romântico à moda antiga, desses raros encontrados hoje em dia, mas não é preciso estragar a canção com a interpretação horrenda e copiosa de Roberto, assim como não era preciso apelar por audiência com uma música que passa ostensivamente a cada troca de cena.

 

O cara que sempre te espera sorrindo

 Que abre a porta do carro quando você vem vindo

 Te beija na boca, te abraça feliz

 Apaixonado te olha e te diz

 Que sentiu sua falta e reclama

 Ele te ama

 

Esse cara sou eu

 Esse cara sou eu

 Esse cara sou eu

 Esse cara sou eu

 

Trecho final de Esse Cara Sou Eu, de Roberto Carlos

 

 

Daqui a pouco, os grupos de forrós universitários, sertanejos, pagodeiros, axezeiros, Calypseiros e até a neo-sertaneja Paula Fernandes, gravarão este imbatível sucesso, segundo alguns fãs ardorosos do Rei estão falando. Não demorará a tardar para que Roberto Carlos passe de rei a abóbora, porque, definitivamente, ele não é mais o cara há muito tempo.

 

Roberto Carlos ainda é o cara?

Marcelo Teixeira

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Na Ponta da Língua, de Leila Pinheiro (1998): ótimo paladar


Ótimo disco de Leila Pinheiro
Em 1998, Leila Pinheiro nos presenteou com um disco a sua altura, com canções que marcaram um tempo e com novidades extraordinárias que perpetuam até hoje em meus ouvidos. O disco em questão é Na Ponta da Língua e trás uma capa tão singela e ulterior e sagaz e impiedosa e original e maliciosa, que este álbum talvez seja o melhor de toda a sua carreira. Com aberturas e fechaduras de vinhetas que somente Walter Franco consegue compor, o disco é todo marcado por facetas múltiplas de uma Leila Pinheiro que conseguiu se desvencilhar de ser rotulada, até então, de bossanovista e enveredar pelo campo da música popular. Regravando grandes sucessos de Roberto e Erasmo Carlos (Sentado à Beira do Caminho) e Legião Urbana (Vento no Litoral), o disco é pautado pela sensibilidade de uma grande artista, que é reverenciada por grandes nomes da MPB, como Ivan Lins e Chico Buarque e que foi a queridinha de Tom Jobim em seus últimos anos de vida.

Abril, composição mais que charmosa de Adriana Calcanhotto, é a melhor música do álbum e transmite uma emoção plena de escolhas sem arrependimentos e recomeços de um novo ciclo. Assim como o samba encorpado de Sérgio Santos e Alvin L., Pra Dizer a Verdade, que tem uma letra deliciosamente linda, Na Ponta da Língua tem de tudo um pouco: além de sambas, tem a esmagadora Mais Uma Boca, composta com requinte pela fabulosa Fátima Guedes, que consegue exprimir, através da interpretação forte de Leila, uma letra inquietante e bela ao mesmo tempo. Destaque ímpar para a excelente música Por Favor, de Ivan Lins e Aldir Blanc, em que a língua bebe a estranheza (frase que mais gosto de todo o disco) e que ao mesmo tempo nos leva ao gosto de maçã, flor da nova Eva, com seus antecipamentos e suas incertezas.

 

Sinto o abraço do tempo apertar

E redesenhar minhas escolhas

Logo eu, que queria mudar tudo

Me vejo cumprindo ciclos

Gostar mais de hoje e gostar disso

 

Trecho da música Abril, de Adriana Calcanhotto

 

 

Seguindo sua influência regional de seu estado natal, Pará, Leila canta brilhantemente o forró quase universitário Influência de Jackson, composta pelos mestres Guinga e Aldir Blanc e Leila canta numa desenvoltura que somente ela consegue fazer e emocionar. Vale lembrar que a música é difícil de interpretar, mas Leila dá um banho de sensualidade e musicalidade. Indo para o lado sentimental do disco, Sorriso de Luz trás a leveza e a pureza do amor, com seus primeiros olhares e suas primeiras imaginações, fazendo da canção de Gilson Peranzzetta e Nelson Wellington um dos achados para a transmutação de Leila.

Setembro, de Alvin L., é uma canção amargurada e doce sobre os desencontros e armadilhas do amor que um dia fora belo e romântico. Leila é capaz de se desfazer de desmantelos ruborizados pela crítica e recria com magnitude a impactante Amor, Perigoso Amor, de Frejat e Dulce Quental, já imortalizada na grande voz firme e forte de Ângela Ro Ro. É nesta canção que Leila se despe e se mostra valente e única para poder recriar ao seu gosto as canções que fizeram parte musicalmente de outra voz.

Na Ponta da Língua demonstra o quanto a musicalidade de Leila Pinheiro é importante para cenário musical brasileiro e ter a certeza de que sua voz é única e saber não ser rotulada, é a forma mais pura e inocente de dizer que ela é uma cantora genuinamente brasileira. Na Ponta da Língua é simplesmente ótimo. Recomendo.

 

Na Ponta da Língua / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Gal Costa de 1968


 

Os clássicos de Gal estão aqui
Gravado em 1968 para ser lançado em 1969 durante um dos períodos mais pesados da ditadura militar, o primeiro disco solo da Gal Costa pode estar longe de ser um dos mais marcantes da sua carreira, mas para mim trata-se, sim, de um registro histórico que merece constar em todas as coleções simultâneas e por colecionadores, fãs, adoradores de música e para o que está para vir. Contrastando com o período tenso politicamente, que resultou no exílio dos colegas tropicalistas Caetano e Gil, Gal acaba optando por um disco que ainda cultivava suas raízes tropicalistas, a começar pela direção do maestro Rogério Duprat e temáticas ao mesmo tempo leves e provocativas. Talvez seja por que isso que a cantora abre o disco com Não Identificado, belíssima canção de Caetano Veloso que também gravou no disco próprio quase que paralelamente, Gal já anuncia sua opção por fazer uma canção de amor... para gravar num disco voador. Confesso minha inveja pessoal, pois quisera eu ter a capacidade de compor uma canção de amor para alguém especial.

Em seguida, Gal passeia pelo xaxado em Sebastiana, para interpretar em seguida outra canção de Caetano, também gravada por ele no disco contemporâneo: Lost in Paradise. Depois usa as metáforas típicas do tropicalista Tom Zé ao interpretar a aparentemente singela Namorinho no Portão, sem abrir mão da crítica velada ao momento político que o país atravessava no momento. Em Saudosismo, interpreta novamente Caetano Veloso em uma bela homenagem à Bossa Nova. As próximas marcam definitivamente sua opção pelo tom ao mesmo tempo romântico e provocativo, com a escolha de duas canções da dupla Roberto e Erasmo (que talvez admirados pela interpretação dela, no mesmo ano comporiam Meu nome é Gal, canção que marcou a sua carreira em seguida).

 

Você precisa saber da piscina

Da margarina

Da Carolina

Da gasolina

Você precisa saber de mim

Trecho de Baby, de Caetano

 

Primeiro com Se você pensa, uma espécie de recado à pessoa amada que se mantém indecisa. Recado dado, manteve a linha em Vou recomeçar.

Em Divino e Maravilho, de Caetano e Gil, a mensagem está claramente contextualizada. Essa canção inicia a sequência de três que se tornaram clássicas dela. Que Pena, a bela canção de Jorge Ben, Gal faz parceria belíssima com Caetano para estabelecer um belo diálogo. O importante, novamente, é a volta por cima em alto estilo ao sair de uma relação.

Mantendo a dupla com Caetano, segue com Baby, clássico incluído nesse disco após o sucesso no disco Tropicália ou Panis et Circenses, mas com um arranjo levemente diferente, em que sobressai um som orquestral. Majestoso!

Em Coisa mais linda que existe, de Gil e Torquato Neto, Gal mantém o astral leve e carinhoso na dose certa. O disco termina com Deus é Amor com a batida típica de Jorge Bem. Com a sua voz afinadíssima e belos arranjos, esse disco marcou de modo definitivo, para mim, o ingresso da Gal entre as maiores cantoras desse país.

 

Gal Costa / Gal Costa

Nota 10

Marcelo Teixeira