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domingo, 7 de janeiro de 2018

Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala (2017)

Vilela e um disco morto
Considerada por dez entre dez pessoas como sendo a cantora do ano de 2017 e por três entre dez pelos críticos de música como uma cantora nonsense no cenário popular brasileiro, a cantora e compositora Ana Vilela surgiu do mundo da mídia esporádica (aquela que te levanta a moral, mas logo te trás para o planeta Terra) e foi alçada ao mundo do showbizz da mesma forma como uma Elis Regina ou Gal Costa surgiram na década de 1960 com seus estilos competentes e dotes artísticos. Mas há uma diferença gritante e relevante nessa minha comparação pífia: Elis e Gal batalharam para serem reconhecidas como cantoras profissionais e utilizaram a voz para mostrar algum talento (coisa que até hoje, no século 21, ambas conseguem ter), enquanto que Ana precisou das mídias para se autopromover. Há algo de errado nisso? Obviamente que não, mas se levarmos em conta que Elis e Gal não eram compositoras e que ralaram muito para provar algum talento, disso ninguém pode duvidar. O mundo de hoje é formado por bestas digitais (Umberto Eco poderia nos explicar isso melhor) e com tantas coisas correndo contra o relógio, eis que as gravadoras não estão mais se importando com aquilo que é vindo da internet. Algumas poucas cantoras surgiram dali e dali estão voltando para o esquecimento, enquanto outras, verdadeiramente genuínos no seu perfil de cantoras e cantores, batalharam por uma gravadora que lhes dessem suporte artísticos para poder mostrar um pouco de suas músicas e qualidades. Ainda que algumas cantoras surgissem de gravadoras, como os casos de Ana Carolina, Maria Gadú ou Maria Rita, as mesmas se encontram sumidas da grande mídia, sem discos lançados ou, quando lançados, quase ninguém presta atenção. Ana Vilela está nesse nicho chamado famosidades instantâneas, que logo voltará de onde saiu: a internet. Se sua música Trem-Bala foi uma apoteose no ano passado, com participação até de Luan Santana, seu disco passou desapercebido pelo grande público, mesmo com a famosa música O Leãozinho, composta por Caetano Veloso para o disco Bicho (1977). Muitos sequer sabiam que ela tinha lançado um álbum com treze faixas. Outros nem sabiam que Ana Vilela era a detentora da canção Trem-Bala. O disco nasceu morto, ficou morto e morreu sem enterrar, porque assim é a mídia do caos, como diz na canção do cantor mineiro Luiz Marques (2009) e que acaba sendo um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado internet, mídia digital e afins. A música de Luiz Marques se iguala com a música Senhas, de Adriana Calcanhotto (1992) em que diz eu não gosto do bom gosto. Ana fez muitas pessoas chorarem pelos cantos do país, mas e o resto do disco, por que ninguém comenta suas outras canções? Por que a mesma mídia que a elencou não mostra as outras faixas? A resposta é simples: não há o que escutar. Trem-Bala (2017 / 22,99) já é o suficiente para que Ana Vilela nos sufoque com suas músicas de uma única estação. Mas há uma boa notícia nisso tudo: Ana Vilela fala de amor e de igualdade em suas músicas e mesmo que Trem-Bala seja uma falácia contra o moralismo radicalizado nas pessoas, a canção passa um ar de mentira, de ilusão, de sonhos inexistentes ao mundo atual e, com isso, retornemos à Mídia do Caos de Luiz Marques e as Senhas, de Adriana Calcanhotto, que são mais verdadeiras que a música blasé de Ana Vilela.


Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Verdade Tropical - 20 anos depois

Leitura obrigatória
Leitura mais que obrigatória para todos os amantes e não amantes da boa música brasileira, o livro Verdade Tropical acaba de ser relançada por Caetano Veloso com uma capa nova (não menos bonita que a edição de bolso, mas com certeza mais bonita que a primeira versão) e com um capítulo bônus intitulado Carmen Miranda não sabia sambar. Trata-se de uma conversa sobre esses 20 anos que nos separam da primeira edição, construída a partir do próprio livro e das suas repercussões. Eis aqui um novo retrato de Caetano acerca do mundo da música e para dizer também que o mundo mudou. As questões cruciais de sua vida e de suas angústias diante das dores do mundo também se fazem presente. Caetano é um grande leitor de livros e grande homem de erudição. O novo texto pode até surpreender os que só o têm como um artista da canção popular, jamais os que acompanham de perto a sua trajetória. A singularidade que enxerga no Brasil e em seu destino como nação permanece de pé, a despeito de tudo o que estamos testemunhando nos últimos tempos. Embora eu particularmente ache o livro Verdade Tropical extenso, cansativo por vezes e arrastado em uma profusão de palavras difíceis, deixo aqui registrado que o livro é, na verdade, uma síntese da biografia do próprio Caetano perante sua carreira tropical, musical e intelectual. Porém, foi aqui neste livro que pude ter a honra de conhecer um dos intelectuais que mais influenciaram minha carreira pedagógica e intelectual, como o escritor Edgar Morin ou o artista multifacetado e original Hélio Oiticica. Assim como há passagens engraçadas, como o caso da cantora Gal Costa cantar por intermédio de uma panela ou a rixa entre o próprio Caetano e Roberto Carlos, a quem Maria Bethânia já era fã. Mas não comprem o livro apenas porque há um capítulo maravilhosamente extraordinário como bônus ou pela nova capa tropical do cantor. O livro é para ser lido por inteiro. Parafraseando Adriana Calcanhotto, é preciso devorá-lo (como canta na música Vamos Comer Caetano). Muito bem escrito, há aqui uma formação humanística impressionante, capaz de nos impressionar do primeiro ao último capítulo. O relançamento de Verdade Tropical coincide com os 50 anos do Tropicalismo, cujo é um dos temas centrais do livro.


Verdade Tropical – 20 anos depois
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de julho de 2017

Marisa Monte - 50 anos


Marisa - 50 anos de vida!
Marisa Monte chega aos 50 anos de idade com a mesma garra e vitalidade com que começou sua carreira, em 1987, ano que iniciou de fato na música popular brasileira com muito jazz, MPB e um estilo que a diferenciava de outras cantoras, mas que se esbarrava com o jeito sereno e arrebatador de Adriana Calcanhotto, cantora que veio um ou dois anos depois. Mas Marisa, no auge de seu estrelato, sabia o que queria fazer: administrar sua própria carreira, sem os mecanismos do sistema que ela sabia muito bem existir. Com uma maestria digna de grandes divas do showbizz, Marisa conduziu sua carreira fazendo aquilo que gostava de cantar, aquilo que gostava de compor e se cercou de artistas e pessoas que praticamente estavam indo no contrafluxo de uma carreira promissora, casos de Arnaldo Antunes que, mesmo estando no estrondoso Titãs, acabava compondo com Marisa pérolas incríveis. Nando Reis vinha dessa seara também, mas um pouco mais contido, com menos canções iniciais que o Arnaldo. Carlinhos Brown, seu melhor amigo e inspirador de todos os tempos, era desses compositores que fizeram com que a artista vendesse mais discos que água em farol engarrafado: o enorme sucesso de MM (1988) era motivado pela releitura da italiana Bem que se quis, que até hoje é referência em sua carreira, mas Verde Amarelo Anil Cor de Rosa e Carvão (1994), em que a música Segue o Seco estrondou em todos os canais de TV e estações de rádios e elevou o nome de Marisa às alturas. De lá para cá foram sucessos garantidos na voz dessa estrela, que teve divisão de vocal com bambas da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Tim Maia, Paulinho da Viola. Não é sempre que fazemos 50 anos e o Mais Cultura Brasileira se prontificou a homenagear Marisa desde o primeiro dia deste ano e irá fazê-lo até o último segundo de 2017. Reverenciar sua grandeza é sentir que a música brasileira pode ser alicerce para qualquer estado em nossas vidas. Parabéns, Marisa Monte pelos seus 50 anos de vida!

Marisa Monte – 50 anos
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto?


Por que devemos ouvir Adriana?
Dona de uma voz irresistível e detentora de discos antológicos, Adriana Calcanhotto é mais que uma letrista competente dentro da música popular brasileira. A gaúcha que contempla a paisagem carioca tem o domínio fácil de criar composições românticas dentro de um campo semântico de bel-prazer, atravessando os horizontes do infinito para aprofundar em sentimentos desesperados e desamparados com o brilhantismo de uma mente inquieta. Essa é Adriana Calcanhotto, a cantora que inspira multidões, que devaneia os sonhos mais perplexos e que instaura mistérios cabíveis de calmaria insana. Mas dentro da atmosfera musical de Adriana existe uma personalidade muito forte, incandescente, próspera e audaz que nos remete a uma indagação profunda: por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto? A resposta não é tão fácil quanto possível de ser explicada, mas existe uma contrapartida básica e singela para tal demonstração do porque devemos ouvir suas músicas. Adriana tem em seu currículo o panorama carioca registrada em músicas como Carioca e Maresia, tem o vendaval de explosão magnética em canções como Senhas, Vambora e Mentiras e tem a emoção aflorada em músicas como Inverno e Esquadros. Mas não é só isso. De todas as cantoras surgidas na década de 1990 (Marisa Monte e Adriana duelaram firmemente para se manterem no topo das melhores cantoras surgidas nesse tempo), Adriana foi a que melhor representou a MPB, tendo em consequência maior disso seu tino para compor aquilo que a população exigia. Se de um lado tínhamos Marisa Monte e seu lado mais alternativo de cantar e compor, de outro tínhamos Adriana com seu estilo mais calmo, denso e que adentrava por entre nossos poros e peles com um dissabor incansável. Sendo uma expoente do Tropicalismo de Caetano e Gil, Adriana nos apresenta em suas canções àquilo que outras cantoras não nos mostram: sua versatilidade entre o cantar e o brincar, sua sensação térmica em reestruturar canções antigas, sua magia em trazer à tona ilustres personagens já esquecidos pelo tempo. Foi assim que trouxe Frida Kahlo para o seu universo na música Esquadros e que reviveu Hélio Oiticica em Parangolé Pamplona, sobre o trabalho do artista de 1968 chamado Capa Feita no Corpo.  Waly Salomão certa vez disse que Adriana constitui uma ótima vitrine para a poesia e ele estava coberto de razão. Waly é remanescente do Tropicalismo, tem na bagagem ótimas letras e seu estilo de garoto fanfarrão se contrapôs com o estilo cinzento de Adriana, que é o estilo de uma artista que é cúmplice de seu próprio estilo. Além de trazer para a sua música todo o tropicalismo ocidental, traz também a poesia que muitos desconhecem, fazendo disso um arsenal ainda mais motivador para sua obra. A poesia de Mário de Sá Carneiro, Cid Campos e Augusto de Campos, Ferreira Gullar e Oswald de Andrade estão escancaradas em forma de música por sua voz tão aveludada quanto autoral. É por essas e outras que devemos ouvir Adriana: não é qualquer cantora que consegue unir o passado com o presente, fazer de um simples elo de sofisticação singular com a beleza popular e fazer delirar os corações apaixonados com seu semblante angelical. Precisamos ouvir Adriana Calcanhotto para termos a certeza de que a música popular brasileira é rica em detalhes e que pode ser útil também perante a poesia concreta e abstrata, perpassando pela pintura visível de grandes mestres das cores.

 

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Os mistérios e as coleções de Marisa Monte


Marisa: coleção de diva
Marisa Monte é uma cantora que guarda na manga muitos segredos musicais. Quando ninguém espera nada dela, eis que ela surge e consegue se safar do ostracismo opereta e se torna mais uma vez a rainha do cenário musical. São poucas cantoras que conseguem fazer isso e Marisa Monte se iguala à Adriana Calcanhotto no quesito originalidade quando se pensa que ambos os repertórios estão fadados ao cansaço ou ao celibato das velharias. Não é fácil ser Marisa Monte nos dias de hoje, ainda mais com tantas cantoras boas surgindo a cada esquina achando que serão Marisa Monte. Ser Marisa Monte é um árduo trabalho e uma dificílima tarefa. Fã de Anitta e de seus funks modestos, Marisa Monte conseguiu driblar seus fãs mais uma vez e lançou Coleção (2016 / EMI / 35,99) com pompa de grande estrela. Mas o que a cantora nos trás é uma coleção de músicas gravadas em outros carnavais e que não foram postas em discos. Não importa: a capacidade vocal da cantora e as canções já valeram pelo ano inteiro e só comprova a essência de Marisa em um país massacrado musicalmente. Sendo uma das maiores vozes do país, Marisa Monte lança Coleção em um momento que a própria música popular brasileira pede socorro às grandes vozes femininas, tendo em vista que apenas as medianas e popularescas lançaram discos paupérrimos. Marisa vai no contra fluxo deste paradigma e entra de cabeça no rol dos melhores CDs lançados até agora neste ano. Não chega a ser o melhor de sua carreira, mas um dos melhores dos últimos anos colocando em pauta todo o seu trabalho. Vale a pena ouvir e (re)ouvir as músicas deste álbum como sendo um acalanto para nossos ouvidos, um refresco para nossa alma e um sentindo aquele sentimento de que a música está salva de grandes impropérios suburbanas. Marisa Monte guarda segredos e contém muitos mistérios. Mas de uma coisa é fato: Marisa Monte é diva.

 

Os mistérios de Marisa Monte em Coleção (2016) / Marisa Monte
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Cantada: um disco arrastado, mas sútil de Adriana Calcanhotto

Disco experimental de Adriana
Há muitas singularidades informais no disco de Adriana Calcanhotto lançado em 2002: a começar pela título Cantada e pela boca com batom vermelho, o álbum também passei entre o nostálgico e as incertezas do amor, da paixão e do sentimento a dois. Não posso tirar aqui a qualidade musical de Adriana, mas posso conceber-te um apreço menor em notas comparando este com os seus trabalhos antigos e, automaticamente, posteriores. Não trata-se aqui de um disco maravilhoso, pautado entre as melhores rimas ou os melhores tinos poéticos, mas Adriana nos entregou um disco arrastado, cansativo na sua formalidade e pouco expressivo. Mesmo sendo um disco romântico e com levada mais pop que os anteriores, Adriana deixa a desejar em canções que poderiam ser melhor trabalhadas e melhor adaptadas. Os acertos foram poucos, mas consideravelmente aceitos, caso das músicas Depois de Ter Você (cantada anteriormente por Maria Bethânia) e Noite, em que a poesia de Adriana reina absoluto. Cantada (2002 / BMG / 27,99) é um disco mediano, bonitinho mas sem exageros, que passaria despercebido se não fosse algumas canções muito bem selecionadas para este projeto.  Sendo seu sexto álbum de carreira, a cantora apostou em sonoridades experimentais e evidencia mais o pop aqui que em discos mais autorais, o que fica evidente em releituras de Madonna e a sua entrega apaixonante e resistente à música Pelos Ares.  Seja como for, o disco de Adriana Calcanhotto não é dos melhores, não é o melhor de sua carreira, mas vale a pena ouvi-lo por ser um disco atípico, experimental e artistico no visual. Mesmo sendo arrastado e cansativo, vale a pena prestigiar a obra de Adriana nem que seja para acompanhar sua carreira.
 

Cantada / Adriana Calcanhotto
Nota 8
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Cadê o samba de Roberta Sá?


Cadê o samba, Roberta?
Roberta Sá já foi escolhida pelo Mais Cultura Brasileira como sendo uma das melhores intérpretes dos últimos anos dentro da MPB e já fora selecionada também como uma das grandes revelações musicais em um programa de TV que descobria novos talentos. Ela não chegou a ficar em primeiro lugar, mas foi apadrinhada por Ney Matogrosso e, mais tarde, caiu nas graças de Chico Buarque, com quem já dividiu faixas em duetos imperdíveis. Lançando seu sexto álbum, a cantora se deleita em um universo que conhece muito bem e que já foi muito bem recebida. Delírio (2015 / MP,B Discos / Som Livre / 29,99) é um disco atemporal, bom, estiloso, mas confuso. Primeiramente porque tem uma capa escura, remetendo ao disco de sambas de Maria Rita, Coração a Batucar (2014) e segundo que esse universo sambístico de Roberta está mais para o pop que o samba verdadeiramente dito. Mesmo tendo uma interpretação sensacional, a cantora deixa a desejar em canções que poderiam ser melhor executadas, como, por exemplo, na canção que leva o título do trabalho, Delírio: cadê a inspiração? Por onde anda a exuberância de Roberta Sá? Obviamente, esse novo álbum não lhe trouxe nenhuma grande oportunidade de poder continuar sendo uma das melhores cantoras de sua geração e com Delírio, a cantora mostra que o seu samba é mais popular que o popular. Se formos levar ao pé da letra, Roberta Sá poderia ter atribuído o samba em discos como o de estreia, Braseiro (2005), Que Belo e Estranho Dia Para se ter Alegria (2007) ou o último e morno Segunda Pele (2013). A bem da verdade, seu samba está mais para pagode de pé de mesa do que para o genuíno samba de morro, samba de pé ou samba de verdade. Mas a cantora não errou totalmente ao lançar um disco em homenagem ao samba e talvez o grande erro de Roberta tenha sido a inspiração que teve ao ouvir Micróbio do Samba (2011), da cantora Adriana Calcanhotto. Ao ouvir e se inspirar, Roberta decidiu que faria um disco em duas formas de homenagem: tanto para o samba como para Adriana. Errou duas vezes: quem conhece e acompanha a carreira de Roberta sabe que a cantora sempre cantou um ou outro samba em seus discos e sempre com a maestria e a sabedoria de uma grande estrela. O segundo erro foi se inspirar no disco de Adriana Calcanhotto, afinal, Micróbio do Samba não é um disco de samba, porque Adriana Calcanhotto não faz samba. Adriana Calcanhotto faz marchinhas de Carnaval, o que é totalmente diferente de samba. Delírio não influenciou em nada na carreira sólida de Roberta, mas ajuda a difundir aquilo que ela mais tem de melhor: a voz!

Cadê o samba de Roberta Sá?
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A loucura de Lupicínio Rodrigues por Adriana Calcanhotto (2015)

 

A loucura de Lupicínio por Adriana
Antes de iniciar este artigo, gostaria de te perguntar: você conhece a obra de Lupicínio Rodrigues? Já ouviu falar no cantor? Conhece alguma música dele? Na certa, não. Pode ser que tenha ouvido falar sobre ele aqui ou ali, mas nunca se atentou em tentar decifrar quem fora Lupicínio Rodrigues. Poucos o fizeram e poucos conhecem seu trabalho. Talvez suas músicas mais famosas sejam Nunca (cantada magistralmente por Zizi Possi), Cadeira Vazia (imortalizada na voz e na teatralidade de Elis Regina) e Felicidade (cantada quase na forma poética pelo próprio Lupicínio). Essa é a grande chance de poder conhecer um pouco mais sobre a obra intimista deste que foi o pioneiro na arte de cantar as dores e as incertezas do coração.  Elza Soares e Gal Costa bem que tentaram, mas foi Adriana Calcanhotto quem acertou no ponto ao trazer em CD o melhor do repertório deste cantor e compositor gaúcho, que conseguiu ser um dos compositores boêmios de maior prestígio dentro da música popular brasileira. Mas o que muitos deveriam fazer assim que comprarem Loucura (2015 / Sony Music / 24,99) é correr para saber que as músicas aqui cantadas não pertencem ao mundo de amores perdidos e corações amargurados vividos por Adriana, mas sim, de amores loucos e doentios vividos ou imaginados por Lupicínio. Vamos deixar uma coisa bem explicada ao fã de primeira viagem: Loucura é um registro em que Adriana cede seu lado atriz para interpretar canções de outro compositor. Lupicínio nasceu em 1934 e morreu em 1974, mas quase ninguém hoje em dia se atenta em querer regravar suas músicas e dedicar um álbum inteiramente a ele é arriscar alto para perder muito, pois o mercado fonográfico requer uma demanda muito crescente, mas com pouca qualidade. O que se vê em Loucura é algo totalmente inverso: Adriana causa arrepios furtivos em momentos delicados com sua densa e atemporal interpretação para músicas como Felicidade (1947), Volta (1957), Vingança (1951) e Homenagem (1961). Se estivesse vivo, Lupicínio estaria completando 101 anos de vida e esta homenagem é a mais justa de todas, pois há envolvimento mutuo entre o homenageado e a cantora. E ninguém melhor que Adriana para dar-te um exemplo de ajudar o público a reconhecer o talento de Lupicínio: assim como o cantor, Adriana também é gaúcha. Loucura surge em um momento maravilhoso no cenário musical e dentro da carreira de Adriana, que destila um verdadeiro arsenal de emoções cantando as dores, as emoções e os sentimentos vazios de um homem chamado Lupicínio.


Loucura (2015) / Adriana Calcanhotto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Zeca Baleiro revive Zé Ramalho em CD duvidoso


Um disco comum
2015 foi o ano das homenagens feitas de cantores da nova safra por cantores de outras gerações. Depois de Adriana Calcanhotto lançar álbum homenageando Lupicínio Rodrigues, agora é a vez de Zeca Baleiro dedicar uma justa adequação em forma de música para o cantor Zé Ramalho, que nunca recebera homenagens em discos completos. Não chega a ser o grande lançamento do ano, muito menos fará deste disco ser o melhor da carreira emblemática de Zeca, mas vale a pena ouvir as já manjadas canções do cantor paraibano cantadas aqui pelo cantor e compositor maranhense. Algumas regravações ficaram boas, casos de Chão de Giz e Eternas Ondas, mas outras, como o mega sucesso Avohai e Táxi Boy, ficaram suspensas no ar, com aquele clima de consternação musical. A capa do álbum é simples, negra e com a imagem de Zeca ao lado, mas a atmosfera do disco não atrai muito e, quando se trata em homenagens (ainda mais quando o homenageado está vivo!), o resultado deveria sair melhor que o esperado. Neste caso, esperamos muito de Zeca para pouco resultado, porque as canções cantadas por ele não soam com a mesma empatia e elegância que o dono das canções nos transpassam. Zeca uniu um repertório já manjado em que todas as letras são muito conhecidas do grande público, mas infelizmente não teve o preparo de fazer um grande disco. Mesmo assim, fica registrado um trabalho que merece respeito pelo fato de que todos os cantores reverenciam a obra e a pessoa de Zé Ramalho, mas ninguém ousou em dedicar um trabalho inteiro sobre ele. Em seu décimo quinto álbum, Zeca parece se equilibrar entre aquilo que quer lançar e aquilo que acha que vai dar certo, tanto que o cantor deixou de ser ponto forte nas composições que cria para dar ênfase total a composições de outros cantores (isso já vem ocorrendo com certa frequência na carreira do cantor). Meio rock pesado com som leve, misturado a guitarras, violão, banjo e acordeom, Chão de Giz (2015 / Som Livre / 24,99) é um disco que merece atenção mais pela ousadia que pela voz de quem o canta. Calma! Não estou aqui denegrindo a imagem de Zeca Baleiro, mas acontece que o disco é mediano, pouco convincente e muito comercial. O fã de Zeca poderá se assustar com o resultado, mas o fã de primeira viagem poderá adorar o resultado. No meu caso, que estou acostumado com o Zeca dos tempos de vacas secas de início de carreira, prefiro me contentar em acreditar que ele voltará a ser um dia tão musical quanto popularesco.
 

 
Chão de Giz (2015) / Zeca Baleiro
Nota 8
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A importância do álbum de Bebel Gilberto (1986)


Bebel: disco rejeitado por ela?
A primeira cantora a gravar Eu preciso dizer que te amo foi justamente uma das compositoras deste clássico, Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto. A canção, composta a seis mãos, foi gravada originalmente em 1986 para o disco inicial e experimental da cantora, intitulado apenas de Bebel Gilberto, contendo apenas 5 músicas. Não foi um grande lançamento na época e hoje em dia a própria cantora recusa saber a origem deste disco, mas o fato é que o álbum tem uma importância significativa dentro da história da MPB, na magnitude meteórica de Cazuza e, mais do que nunca, na vida da própria Bebel. Pra início de conversa, esse disco foi produzido pensando na amizade que Bebel tinha com Cazuza (seu grande amigo) e Dé Palmeira, seu então namorado. A época de seu lançamento, o disco não surtira efeito esperado e Cazuza não era tão famoso assim a ponto de ser reconhecido por suas letras e por esse motivo, passara desapercebido pelo grande público e crítica. Inclusive nos dias de hoje, o disco, raro no mercado, desperta a curiosidade apenas de fãs da cantora e por parte dos amantes da música nacional. Mas o que era para ser um motivo de orgulho, passa a ser um motivo de depreciação da cantora, que não gosta muito de seu início de carreira. Convenhamos que a voz de Bebel não era lá grande coisa e nem estava em evidência quando surgiu como interprete, tendo como concorrentes as principais vozes do escalão de Marina Lima, Zizi Possi, Angela Ro Ro, mas sua importância para os anos seguintes seria de grande valia. Seja como for, Bebel Gilberto (1986 / WEA / 35,00) é um disco que merece destaque e atenção pelo conjunto da obra. Produzido por Chico Neves, o disco fora de fato gravado em 1986 e teve como destaque duas grandes canções já imortalizadas nas vozes de Bebel, Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Zizi Possi, Ney Matogrosso, entre outros: Mais Feliz e Eu preciso dizer que te amo. Dois clássicos de extrema importância para ambos os cantores que fizeram destas canções verdadeiros hinos. Mas o que chama mais a atenção é a negação deste disco pela própria cantora nos dias de hoje. Bebel quase não canta essas músicas (Eu preciso dizer que te amo ela ainda cantarola), mas os outros nem sinal de que lhe pertencem. Algumas mídias colocaram em pauta que Tanto Tempo (2000) seria o primeiro trabalho de Bebel, o que não é verdade e mesmo assim, a cantora não chegou a desmentir esses veículos. Houve um boato até de que a cantora teria pedido para a gravadora Warner Arquivos retirar do mercado, sob escolta judicial, do CD do mercado recentemente, o que não ficou totalmente esclarecido, mas o fato é que o disco não se encontra tão facilmente. Embora Bebel tenha sido a grande detentora da música e ser a responsável pela gravação original, quem ganhou os holofotes pela primazia da canção foi Marina Lima, que a regravou, em 1987, para seu disco Virgem, tornando-se um dos grandes hits daquele ano e sendo campeã de vendas. A voz de Bebel era a de uma garota fanha, mais preocupada com os agitos dos amigos do que com a responsabilidade profissional em ser uma cantora. Anos depois houve um giro gigantesco em sua vida e Bebel pôde, enfim, mostrar sua versatilidade com discos antológicos e merecedores de aplausos tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Bebel Gilberto (1986) / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A maldição de Ed Motta


Ed: maldição passageira?
Quem me conhece sabe perfeitamente o quanto não suporto o cantor e compositor Ed Motta, mas não suas músicas e muito menos a sua pessoa, mas sim a sua ignorância, a sua maneira de soltar frases com sentido intelectual, mas detonando uma classe minotária particular ou simplória. E mais uma vez o cantor surgiu como uma bomba de efeito moral nas redes sociais com uma notícia bombástica. Obviamente que Ed Motta é um homem culto, de palavras e sons difícieis, sendo considerado por muitos criticos especializados como um dos maiores jazzistas brasileiros de todos os tempos, mas a capacidade de interpretar suas próprias opiniões acabam por dividir a sociedade em várias partes obsoletas, que faz com que essas mentes se fechem a ponto de ridicularizar o cantor. Aqui entra a hermenêutica, palavra pouco conhecida do grande público e que deveria ser mais utilizada por professores e críticos de um modo geral. Ed Motta soltou um texto em sua rede social e logo o público interpretou de uma maneira contrária, áspera e hostil às suas palavras. Portanto, hermenêutica significa a interpretação de textos. Porém, quem leu o texto jorrado por Ed, não conseguiu distinguir o que é moral, o que é certo, o que é errado, o que é nada. Primeiramente, parto de um pressuposto de que nossa música é, sim, um pólo cultural enraizado em mentes pequenas, sendo considerado fora do país como um país do axé, do pagode e do nefasto sertanejo universitário, com seus grupos de oito pagodeiros dançando ridiculamente em um palco em toques sincronizados que nada acrescentam na nossa rotina; seguindo com o sertanejo universitário, que Michel Teló, Luan Santanna e Gustavo Lima cismam em levar como demonstração de música de qualidade para países escandinavos, europeus e americanos, fazendo com que a nossa imagem se priorize dessa característica básica de roupagem musical; terminando com o axé de quinta categoria produzida por Ivete Sangalo, Claúdia Leite, Asa de Águia, Chiclete com Banana, Margareth Menezes, que usam a sensualidade para demonstrarem a banalidade cultural que existe por aqui. Neste quesito, concordo com Ed Motta de que sua música não se iguala a esses rotuladores de qualidade duvidosa. Em outro parâmetro, o que Ed disse em sua rede social nada mais é que o seu show nos Estados Unidos seria apenas um show internacional, portanto, fora de sua terra natal, o Brasil. E que nesse show, não teria nada que lembrasse o Brasil, nem músicas em português e tudo seria falado e cantado em inglês, que é uma língua universal. Todo mundo sabe que fora do Brasil existe um grupo de brasileiros que adoram badernas e se dizem cultos justamente por estarem ali, mas na verdade, esses brasileiros não sabem se comportar perante um show musical feito por brasileiros. Eles, os brasileiros, gritam músicas entre uma canção e outra e isso irrita profundamente o cantor no palco.  Por causa dessa iniciativa, o cantor Ed Motta tomou atitudes mais severas para punir os brasileiros que são formados em ouvir músicas de quilates inferiores. Joyce Moreno, Daúde, Bebel Gilberto, Rosa Passos, Barbara Mendes, Ceumar e outros tantos cantores que não são reconhecidos pelo seu talento em seu país de origem, deveriam fazer o mesmo, mesmo sabendo que cairão na maldição a qual Ed Motta passa atualmente. Podemos observar isso claramente em shows realizados aqui no Brasil (e aqui escrevo direcionado aos meus amigos brasileiros que moram no México, na Espanha e no Japão) de cantores como Adriana Calcanhotto, Chico Buarque, Gal Costa entre outros, que nem bem acaba a música, já gritam uma na qual o cantor fizera muito sucesso ou música muito antiga. Isso, por ventura, acaba tirando a atenção do cantor e este sabe que o público só está ali para ouvir músicas antigas, não prestando atenção, talvez, em seu novo trabalho. Ed Motta foi coerente em sua postura, foi sensato ao ponto ao pedir para que esses brasileiros não gastassem seu dinheiro para irem ao seu show, pura e simplesmente porque não estarão aptos para ouvirem as músicas novas de seu trabalho, AOR, e já evitando um estress maior ainda sabendo que o cantor não cantaria músicas como Manuel. Já pensando em um modo de não haver desgastamento em seu show, Ed Motta pisou em uma poça maior ainda: as palavras de baixo calão que enfrenta nas redes sociais. Se manter sua palavra até o final e não der a miníma bola para o que se fala a seu respeito por aí, Ed Motta poderá considerar sua maldição como bem menor. Mas por enquanto, o cantor vive uma maldição: a maldição de Ed Motta.

 

A maldição de Ed Motta
Marcelo Teixeira

domingo, 21 de setembro de 2014

As várias facetas de Bebel Gilberto em Tudo (2014)


 

Bebel em português, inglês e francês
Filha de João Gilberto e Miúcha e sobrinha de Chico Buarque de Hollanda a cantora Bebel Gilberto é praticamente a guardiã legítima do som que seus pais ajudaram a criar no Brasil, mas com uma diferença que soa bem para a sua carreira: Bebel consegue misturar a bossa nova de outrora com o som dançante de hoje em dia. Sim, Bebel é pop, o que na língua comum dos dias de hoje, significa popular. Mas Bebel não é tão popular assim: seus discos são a característica física de uma cantora com significação maior que o seu sobrenome, pois suas músicas são produzidas com requintes de qualidade superior e suas letras são redondas, perfeitas e simétricas. A cada disco, Bebel Gilberto trás uma ou outra canção que nos eriça e isso vem acontecendo desde o seu lançamento oficial com Tanto Tempo (2000), um dos discos mais comentados e aplaudidos nos Estados Unidos, Japão e, por incrível que possa parecer, aqui no Brasil também. De lá pra cá, a cantora não parou mais de produzir discos sensacionais, com parcerias incríveis e com uma sofisticação ímpar. Sendo o CD mais aguardado do ano pelos americanos e pelos brasileiros que lá moram, Tudo (2014 / Sony Music / 28,99) pode-se dizer que a cantora se superou em praticamente tudo, principalmente na ousadia de compor, no atrevimento de compactuar duetos sensacionais e no arremesso de cantar em uma terceira língua. Tudo tem tudo e um pouco mais: é um dos discos mais experimentais de Bebel Gilberto, por se tratar de um disco acima de sua capacidade de inovar. Aqui Bebel canta em inglês (Somewhere Else, Harvest Moon, Lonely In My Heart), em português (Nada Não, Tom de Voz, Novas Ideais, Tudo, Saudade Vem Correndo, Areia, Vivo Sonhando, Inspiração) e em francês, na deliciosa Tout Est Bleu, que parece que foi posta no disco para ser um hit das pistas de dança pelo mundo afora. Bebel se arriscou e conseguiu se distinguir de outros discos de sua carreira, que chegaram a ser calorosamente frios (mas não menos importantes em sua discografia), por terem letras e melodias densas demais, caso do disco Momentos (2007) ou All in One (2009), que fora praticamente produzido para o mercado internacional. Bebel Gilberto, acima de tudo, é uma cantora brasileira nascida nos Estados Unidos e, por esse motivo, recriou o jeito de se fazer música ao seu gosto e estilo e introduziu no Brasil uma linguagem nova (e muito aplaudida) em seus discos. Tudo é a prova maior dessa sua capacidade de se impor entre as melhores letristas e cantoras do mundo e, para que essa consagração seja maior, convidou a cantora e compositora Adriana Calcanhotto para fazerem juntas a letra da música que dá título ao disco. Convidou também o cantor e compositor Seu Jorge (que está bem nas paradas de sucesso em terras americanas) e, claro, não poderia faltar Tom Jobim marcando de vez que seu lado bossa novista fala mais alto. Tudo é um dos melhores discos de Bebel Gilberto, depois de Tanto Tempo, sem trocadilhos, literalmente.

 

Tudo / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os olhos de Adriana Calcanhotto


Os olhos de onda de Adriana
Desde Maritimo (1998), que Adriana Calcanhotto devia um disco a altura de seu talento. Não que os discos seguintes sejam menores, mas o fato é que a cantora passou a cantar acompanhada de banquinho e violão e deixou outros instrumentos para outro campo. Mas Adriana não precisa de outros instrumentos, porque o violão que a acompanha e o banquinho que lhe é seu melhor amigo, faz de todo o palco um ambiente confortável e original e a voz da cantora passa a ser um alívio de musicalidade quando começa a dedilhar as cordas. Lançando Olhos de Onda (2014 / Sony Music / 19,99), o disco seria um discão se não fosse alguns erros perdoáveis da cantora, como, por exemplo, ficar no ar bossa novista em tempos em que a música exige muito mais que isso. Não que a Bossa Nova esteja perdida no tempo, mas Adriana poderia utilizar da artimanha de se inovar no disco através de ousadias pitorescas que apenas ela consegue fazer (e vem fazendo isso com habilidade) para pincelar aqui ou ali um momento de descontração com relação à sua música. Pincelando canções de discos anteriores e mais focado nos esquecidos Maré (2008) e Cantada (2003), a cantora deu um sopro de respiração aguda e pensou numa estratégia para não cair no marasmo de Público (1999) que mais se parece com Olhos de Onda na sua forma mais ampla e elaborada. Olhos de Onda é o título da música número sete, inédita e simples, mas que tem o carimbo da cantora gaúcha. A sacada genial de Adriana Calcanhotto para que Olhos de Onda superasse os outros lançamentos e, automaticamente, ficasse em alta no mercado fonográfico do ano, foi a regravação de Me dê Motivos, imortalizada na voz inconfundível de Tim Maia e a versão de Back to Black, da cantora Amy Winehouse, fazendo uma comparação assim como em Cantada, quando a cantora deu voz a música Music, de Madonna e surpreendeu ao público pelo timbre agudo e pela inspiração que causou. Aqui não é diferente e até as fotos do encarte são sensacionais. Músicas manjadas, como Maresia, o álbum é repleto de sucessos que a própria Adriana não cantara mais em discos, como Metade, Esquadros ou Inverno. Mas vale a pena ouvir o disco porque Adriana Calcanhotto voltou renovada depois de Micróbio do Samba (2011) e trazendo na bagagem poemas de Augusto dos Campos, a música de Caetano Veloso, O Nome da Cidade, e a sua paixão pelo Rio de Janeiro. Não chega a ser o melhor disco de Adriana Calcanhotto, mas que o repertório foi muito bem pensado e elaborado, isso sem sombra de dúvidas ajudou e muito na sua colocação entre as melhores, fortes e firmes cantoras da velha e boa música popular brasileira.
 
Olhos de Onda / Adriana Calcanhotto
Nota 9
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

É melhor ser... Simone!


Um disco atrativo de Simone
Simone voltou e mais bela e confiante do que nunca. Assim a cantora sentencia seu novo disco, aos 63 anos de idade e em plena forma, lançando um disco apenas com músicas de cantoras brasileiras, dando uma reviravolta em sua carreira. É Melhor Ser (2013 / 26,99) tem um desfile de ícones brasileiras, como Angela Ro Ro, Rita Lee, Adriana Calcanhoto, Joyce, Fátima Guedes, Dona Ivone Lara, Marina Lima, Teresa Cristina, Joanna, Sueli Costa, Alzíra Espíndola.  As curvas femininas dão toda a diferença neste disco, que está redondo, como definiu a cantora em entrevistas recentes. O amor parece ser o fio condutor das 13 faixas, com suas calmarias e seus ventos uivantes que reinaram praticamente toda a carreira de Simone. É Melhor Ser é ousado e criativo, feminino e sedutor, capaz de nos envolver já nas primeiras notas do primeiro áudio e este momento sublime da cantora reflete de um modo geral dentro da MPB, que está repleto de cantoras novas, mas sem o brilho de Simone. O disco vem em um momento de transição na carreira da cantora, que vinha de um certo ostracismo, lançando discos atemporais e sem graça e sem o apoio da crítica especializada. Quem acompanha a carreira de Simone não estranhará seu lado autoral neste novo disco que, a propósito, recheia o disco com os privilégios femininos e suas pérolas predominantes do amor. Entre as que ainda não havia gravado destaca-se Mulher o Suficiente, de Alzíra Espíndola em parceria com Vera Lúcia Motta, Os Medos, de Joyce com Rodolfo Stroeter e Haicai, de Fátima Guedes. De Zélia Duncan surge Só se for, belo bolero que Simone também assina a co-autoria, Adriana Calcanhotto surge em Aquele plano para me esquecer e de Teresa Cristina temos Trégua suspensa. É Melhor Ser é um disco diferente na carreira de Simone por ser mais a cara de Simone e voltar aos tempos de estrelato total. Simone ainda continua na ativa, dando um show de interpretação e sendo considerada, ainda, um ícone da música popular brasileira. E para as cantoras novas que surgem a cada esquina sem um pingo de criatividade, aconselho a ouvir esse disco sensacional, com uma voz agradabilíssima e sem estrelismos.

 
É Melhor Ser / Simone
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Acústico Cássia Eller (2001): grande voz de uma artista (quase) completa


Cássia mereceu o Acústico MTV
Um artista nunca sabe quando será seu último trabalho, mas certamente sabe que está fazendo um trabalho diferenciado dos anteriores e foi justamente esse o pressentimento que Cássia Eller teve ao fazer o Acústico MTV, um dos maiores sucessos da cantora até hoje, mesmo após sua morte precoce. De todas as cantoras que surgiram dos anos 1980 para os anos 1990, Cássia Eller foi, sem dúvida, a maior. Marisa Monte e Adriana Calcanhotto surgiram praticamente no mesmo tempo, no final de 1987 para 1988, mas ambas seguiam uma linha mais voltada para a MPB, enquanto Cássia vinha com seu vozeirão com tudo para dentro do rock, tendo como amigos Cazuza, seu maior ídolo. Sua voz se coloca juntamente além da MPB e atravessa fronteiras jamais calculadas por críticos de arte e mesmo cantando samba, forró, countruy entre outros ritmos, Cássia foi acertando de uma maneira geral em sua carreira, especialmente nos shows, aonde sua performance era sempre imbatível (tenho fotos de quando ela fez o último show no Sesc Interlagos, repleto de pessoas). Apesar de sua boa reputação como sendo uma das cantoras mais prestigiadas de seu tempo, este reconhecimento só veio com o disco Com Você Meu Mundo Ficaria Mais Completo (1999), cujo a participação do ex-titã Nando Reis foi primordial. Talvez Nando Reis, à procura de uma grande voz para suas canções, não tenha percebido que estaria por incentivar a carreira de Cássia, mas a bem da verdade, é que o disco lançado em 1999 trouxe para a seara musical um novo folêgo, com a misteriosa volta por cima de Cássia, depois de vários discos sem tanto êxito.
Acústico MTV Ao Vivo Cássia Eller (2001 / Universal Music / 22,99) tem seus defeitos básicos, o que acabou dificultando a carreira de Cássia. Primeiro que a música E.C.T foi gravada pela terceira vez e mesmo tendo uma nova roupagem, a música ficou chata e um pouco parecida com as versões anteriores. Malandragem e Todo Amor que Houver Nessa Vida tiveram novas releituras e mesmo assim passaram pelo constrangimento de serem capengas. Vale ressaltar que Malandragem fora uma música composta por Cazuza dada de presente para Angela Ro Ro, que se recusou a grava-la. Anos depois, Cássia Eller a gravou, depois de achar a versão na casa de Frejat e o sucesso incomodou Angela (ela jura que não). Seja como for, as harmonias das canções citadas acima fizeram com que o disco ganhasse um tom melancólico, estranho, inquieto.
Talvez a faixa mais interessante de todo o disco e totalmente inédita na voz de Cássia, seja as releituras caprichadas de Partido Alto (de seu ídolo Chico Buarque) e Top Top, que os Mutantes gravaram há anos atrás. Vá Morar com o Diabo, um clássico de Riachão, também ficou divertida e hilária, assim como as sonoridades encontradas em duetos entre a MPB atual e contemporâneo: o rap paulista Xis (que deu uma bela sumida depois da morte da cantora) e do mangue-beat do grupo pernambucano Nação Zumbi. As regravações do sucesso de Edith Piaf, Non, Je Ne Regrete Rien e dos Beatles, Sgt. Peper’s Lonely Hearts Club mostram a interatividade e intelectualidade de Cássia.
Seja como for, Acústico MTV poderia ter sido melhor aproveitado se Cássia Eller não tivesse feito alguns erros à época, mas mesmo assim, o disco ainda continua sendo uma ponte de referência para todo o trabalho conquistado pela grande interprete.

 

Acústico MTV / Cássia Eller
Nota 7
Marcelo Teixeira