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sexta-feira, 10 de abril de 2015

A maldição de Ed Motta


Ed: maldição passageira?
Quem me conhece sabe perfeitamente o quanto não suporto o cantor e compositor Ed Motta, mas não suas músicas e muito menos a sua pessoa, mas sim a sua ignorância, a sua maneira de soltar frases com sentido intelectual, mas detonando uma classe minotária particular ou simplória. E mais uma vez o cantor surgiu como uma bomba de efeito moral nas redes sociais com uma notícia bombástica. Obviamente que Ed Motta é um homem culto, de palavras e sons difícieis, sendo considerado por muitos criticos especializados como um dos maiores jazzistas brasileiros de todos os tempos, mas a capacidade de interpretar suas próprias opiniões acabam por dividir a sociedade em várias partes obsoletas, que faz com que essas mentes se fechem a ponto de ridicularizar o cantor. Aqui entra a hermenêutica, palavra pouco conhecida do grande público e que deveria ser mais utilizada por professores e críticos de um modo geral. Ed Motta soltou um texto em sua rede social e logo o público interpretou de uma maneira contrária, áspera e hostil às suas palavras. Portanto, hermenêutica significa a interpretação de textos. Porém, quem leu o texto jorrado por Ed, não conseguiu distinguir o que é moral, o que é certo, o que é errado, o que é nada. Primeiramente, parto de um pressuposto de que nossa música é, sim, um pólo cultural enraizado em mentes pequenas, sendo considerado fora do país como um país do axé, do pagode e do nefasto sertanejo universitário, com seus grupos de oito pagodeiros dançando ridiculamente em um palco em toques sincronizados que nada acrescentam na nossa rotina; seguindo com o sertanejo universitário, que Michel Teló, Luan Santanna e Gustavo Lima cismam em levar como demonstração de música de qualidade para países escandinavos, europeus e americanos, fazendo com que a nossa imagem se priorize dessa característica básica de roupagem musical; terminando com o axé de quinta categoria produzida por Ivete Sangalo, Claúdia Leite, Asa de Águia, Chiclete com Banana, Margareth Menezes, que usam a sensualidade para demonstrarem a banalidade cultural que existe por aqui. Neste quesito, concordo com Ed Motta de que sua música não se iguala a esses rotuladores de qualidade duvidosa. Em outro parâmetro, o que Ed disse em sua rede social nada mais é que o seu show nos Estados Unidos seria apenas um show internacional, portanto, fora de sua terra natal, o Brasil. E que nesse show, não teria nada que lembrasse o Brasil, nem músicas em português e tudo seria falado e cantado em inglês, que é uma língua universal. Todo mundo sabe que fora do Brasil existe um grupo de brasileiros que adoram badernas e se dizem cultos justamente por estarem ali, mas na verdade, esses brasileiros não sabem se comportar perante um show musical feito por brasileiros. Eles, os brasileiros, gritam músicas entre uma canção e outra e isso irrita profundamente o cantor no palco.  Por causa dessa iniciativa, o cantor Ed Motta tomou atitudes mais severas para punir os brasileiros que são formados em ouvir músicas de quilates inferiores. Joyce Moreno, Daúde, Bebel Gilberto, Rosa Passos, Barbara Mendes, Ceumar e outros tantos cantores que não são reconhecidos pelo seu talento em seu país de origem, deveriam fazer o mesmo, mesmo sabendo que cairão na maldição a qual Ed Motta passa atualmente. Podemos observar isso claramente em shows realizados aqui no Brasil (e aqui escrevo direcionado aos meus amigos brasileiros que moram no México, na Espanha e no Japão) de cantores como Adriana Calcanhotto, Chico Buarque, Gal Costa entre outros, que nem bem acaba a música, já gritam uma na qual o cantor fizera muito sucesso ou música muito antiga. Isso, por ventura, acaba tirando a atenção do cantor e este sabe que o público só está ali para ouvir músicas antigas, não prestando atenção, talvez, em seu novo trabalho. Ed Motta foi coerente em sua postura, foi sensato ao ponto ao pedir para que esses brasileiros não gastassem seu dinheiro para irem ao seu show, pura e simplesmente porque não estarão aptos para ouvirem as músicas novas de seu trabalho, AOR, e já evitando um estress maior ainda sabendo que o cantor não cantaria músicas como Manuel. Já pensando em um modo de não haver desgastamento em seu show, Ed Motta pisou em uma poça maior ainda: as palavras de baixo calão que enfrenta nas redes sociais. Se manter sua palavra até o final e não der a miníma bola para o que se fala a seu respeito por aí, Ed Motta poderá considerar sua maldição como bem menor. Mas por enquanto, o cantor vive uma maldição: a maldição de Ed Motta.

 

A maldição de Ed Motta
Marcelo Teixeira

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os dez melhores lançamentos de 2014


Os melhores CDs de 2014
De Alberto Salgado à Mônica Salmaso, passando por Ceumar e Criolo, o ano de 2014 foi um dos anos mais promissores para o mercado fonográfico: muitos lançamentos e muitas surpresas. Obviamente que nem tudo é flores e teve muitos CDs desprezíveis, mas na sua maioria, o ano foi de muitas novidades e, sobretudo, de muita qualidade musical. Sem ter uma posição para cada lançamento, o Mais Cultura Brasileira e, de quebra, o crítico que vos escreve, passou o decorrer do ano ouvindo muita música, muitas vozes, muitos CDs, garimpando aqui e ali nas lojas do ramo e muita coisa passou longe do meu crivo, pois não mereciam nem espaço numa linha em branco. Não foi muito difícil selecionar os dez melhores discos deste ano, mas houve algumas dúvidas, normais até então, para poder classificá-las de mediano. Mas depois de tudo acertado, eis que chego a conclusão dos melhores discos mais bem produzidos em 2014, de janeiro a dezembro e o leitor pode conferir agora. Lançando o ótimo Além do Quintal, Alberto Salgado é a revelação masculina de 2014 no Mais Cultura Brasileira!, assim como Tito Marcelo, cantor recifense residente em Brasília, uma das gratas e boas surpresas  no cenário musical. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor. Majestoso do começo ao fim, Silencia é um dos melhores discos da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Juçara Marçal nos brinda com um disco sensacional. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Maria Rita canta divinamente todas as faixas de Coração a Batucar sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Dani Calazans é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. Tito Marcelo é um desses cantores que nasceram para encantar: sensível, carismático, letrista, poeta, brasileiro. Nascido em Recife, Tito mora em Brasília e é da capital federal que surge mais um cantor de primeira grandeza na música popular brasileira. Pra Ficar no Sol é um disco interessante, irresistível, caprichado, moderno e com uma capa incrível. Aqui está todo o universo magnífico de Tito Marcelo, que se baseou nas estruturas do amor e na brejeirice das levadas infantis para compor boa parte do álbum. Corpo de Baile é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica Salmaso. Nesse disco houve um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Grata surpresa foi quando Mallu Magalhães se juntou a Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda pro Mar , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar o som de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu Zizi Possi mostra todo o seu encanto ao dar vida a Tudo se Transformou, que se transformou, sem querer, em um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e o lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora, merecidamente. E assim se completa a lista de 2014: com qualidade e muita música, boa, os melhores lançamentos são sempre os melhores. E que venha 2015!

 

 

Os melhores lançamentos de 2014
Marcelo Teixeira

sábado, 8 de novembro de 2014

Três anos de Mais Cultura Brasileira

Três anos de Mais Cultura
E o Mais Cultura Brasileira! chegou ao seu terceiro ano. Para chegar até aqui não foi uma tarefa fácil, mas sim uma tarefa de muito trabalho, muita dedicação, pesquisas, conversa com cantores, horas e mais horas ouvindo músicas, recebendo convites para shows, enfim, um ano marcado pela amplitude de um trabalho que gosto muito: o de ser crítico de música. Este ano de 2014 foi melhor que o ano passado, porque o blog teve mais reconhecimentos por cantoras e cantores carimbados da nossa música e teve mais respeito por entre os leitores. Falar de música de qualidade em um país em que se preza a música descartada não é tarefa fácil, mas com um pouco de esforço e dedicação podemos chegar um pouco mais longe. Este ano o Mais Cultura Brasileira! alcançou vôos mais longos e chegou com mais força ao Nordeste e ao Norte do Brasil e aterrizou com mais afinco na capital federal, Brasília. As entrevistas foram determinantes para que a credibilidade e a assiduidade com a cultura permanecessem com a qualidade superior de quando iniciei os trabalhos. E confesso: nunca pensei que um dia pudesse entrevistar a cantora Ná Ozzetti, minha paixão musical. Entrevistas com cantores da categoria de Alberto Salgado e a descoberta de Tito Marcelo foram cruciais para que o Mais Cultura! voltasse as suas origens de revelações musicais para o grande público. Tive o prazer de conhecer e conversar com Fabiana Cozza (e surpresas virão para 2015) e com a cantora Ceumar, que mesmo da Holanda, podemos trocar algumas firulas e tive prazer igual em poder conhecer a cantora Ná Ozzetti e seu irmão Dante Ozzetti e este me presentear com a novidade de Macapá, Patrícia Bastos. Agradeço as inúmeras conversas que tive nos bastidores com a cantora Márcia Tauil, sempre grato por suas aulas e inspirações e sempre serei grato pelos inúmeros emails que recebo para poder divulgar no blog com sugestões de cantoras espelhadas por este mundaréu chamado Brasil. Posso garantir que 2015 será ainda mais dedicado ao mundo da música e que batalharei por entrevistas e artigos especiais. O Mais Cultura Brasileira! completa três anos, mas quem ganha é você, leitor!
 

Três anos de Mais Cultura Brasileira
Marcelo Teixeira

sábado, 25 de outubro de 2014

O silêncio de Ceumar em Silencia (2014)

O silêncio de Ceumar
O que seria da música brasileira sem a voz de Ceumar? Poderia formular a questão: o que seria de nós, brasileiros, sem a presença de Ceumar?  Ceumar é uma das vozes mais cristalinas da música brasileira e a cantora está de volta com novo disco, Silencia (2014 / Circus / 26,99), um dos mais belos discos do ano de 2014 e o sexto de sua carreira. Seguindo o limite ampliado em trabalhos antecedentes, a cantora atinge um trabalho acústico, desta vez acompanhada por músicos que criam uma atmosfera perfeita para as suas canções. No novo disco, gravado em São Paulo em dezembro de 2013, Ceumar assina nove faixas com alguns parceiros, e ainda abre espaço para obras de Déa Trancoso, Kiko Dinucci, Vitor Ramil e Osvaldo Borgez. A direção musical de Vincent Ségal, também responsável pelo violoncelo e pela maioria dos arranjos, é imaculável. A voz envolvente de Ceumar é suturada com afetuosos arranjos de cordas e percussão, pincelados aqui e ali por um clarinete ou um acordeom. Silencia já ganha a atenção pela capa: um autorretrato da cantora, com cabelos volumosos e negros, envolto de uma capa branca, que nos traduz uma calma serena, repleta de luz e harmonia. Majestoso do começo ao fim, o disco é um dos melhores da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Ao encerrar o disco, Ceumar canta como num mantra: o que este silêncio tem a dizer? A ideia de homenagear o silêncio não foi um dos pontos de partida do disco, mas sim o fim de um processo imaginário, de liberdade intuitiva. A fala mansa de Ceumar ajudou e muito a ocupar espaço nesse silêncio de redemoinhos magistrados e há por detrás de cada música uma busca pessoal de silenciar os vários momentos de sua vida. Portanto, Silencia é um disco biográfico de Ceumar.  No lugar de barulho, silêncio. No lugar de guerras, silêncio. Ceumar soube como ninguém interpretar cada faixa de seu disco, buscando inspirações no silêncio escondido em meio a orações, mantras, cânticos e meditações. Se o silêncio quer dizer paz, então o novo disco de Ceumar é um convite a paz que muitos deveriam encontrar e obter.

 
Silencia / Ceumar
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 4 de agosto de 2013

Ceumar em edição especial


Ceumar: mineira internacional
Morando na Holanda há dois anos, a cantora e compositora mineira Ceumar lançou em 2010 seu disco Live in Amsterdam, gravado no Tropentheater. Após lançar o disco, a cantora vinha comentando que era uma estrangeira agora e isso tem vários caminhos, várias sutilezas. Este é o segundo disco que Ceumar grava com o marido, o produtor musical e técnico de som holandês Ben Mendes. No repertório de Live in Amsterdam, músicas de sua carreira, como a já conhecida Dindinha (Zeca Baleiro), Banzo (Itamar Assumpção) e Pecadinhos (Tatá Fernandes e Zeca Baleiro), as três de seu primeiro disco, de 1999. Do CD Meu nome (2009), o primeiro gravado fora do Brasil, Ceumar registrou as autorais Jabuticaba madura e Gira de meninos, além de Dança, composta com Yanel Matos. O trabalho é fruto de um encontro em 2006, quando Ceumar foi convidada pela Plataforma Brasil x Holanda para participar junto ao trio holandês, liderado pelo pianista Mike del Ferro, de um show em São Paulo, no Sesc Ipiranga. Desse evento, surgiu o desejo de prosseguir numa pequena turnê pela Holanda. Foram sete shows em diversas cidades, como Amsterdã, Roterdã, Groninga e também em Antuérpia, na Bélgica, em outubro de 2006. As canções do show foram escolhidas pelo grupo dentro do repertório de Ceumar.

Por ser um produto importado,
Live in Amsterdam custa em torno de 45,00.

 

Faixas


01 - Oração do Anjo - Ceumar e Mathilda Kóvak
02 - Banzo - Itamar Assumpção
03 - Dindinha - Zeca Baleiro
04 - Iá Iá - Zeca Baleiro
05 - Jabuticaba Madura - Ceumar
06 - Pecadinhos - Zeca Baleiro e Tata Fernandes
07 - Dança - Yaniel Matos e Ceumar
08 - Gírias do Norte - Onildo Jacinto Silva
09 - Gira de Meninos - Ceumar e Sérgio Pererê

 

 

Live in Amsterdam – Ceumar

 

Nota 10

 

Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 28 de março de 2013

A musicalidade de Gero Camilo


Retrato de Gero
Sou fã confesso do trabalho do ator, diretor, escritor e cantor Gero Camilo. Quem ouve Vai Desabar tem vontade de sair pulando e cantando junto o refrão que tem tino para obedecer a regra de que toda música boa lava a alma: (...) desabar água/Pra lavar o que tem que limpar/pra lavar o que tem/vai desabar água/e é pro nosso bem. A última canção do primeiro álbum que Gero Camilo lançou, fisga de primeira e dá a impressão de que já virou hit. O debut no meio musical do reconhecido ator dilapida inspiração em mensagens que falam sobre o amor, a modernidade, a arte e a cidade. E ainda agrega ótimas parcerias, como Ceumar, Celso Sim, Tata Fernandes, Simone Sou e Lirinha, entre muitos outros.

O álbum Canções de Invento é obra de uma fábula que começou a ser construída há pelo menos nove anos, quando Gero lançou o livro de contos e peças curtas Macaúba da Terra em 2002, escrito durante o curso da Escola de Arte Dramática, da Universidade de São Paulo, que frequentou entre 1994 e 1998. Do livro surgiu a ideia de montar um espetáculo dois anos depois, que batizou de Canto de Cozinha e contou com a participação dos músicos e amigos Ceumar, Kléber Albuquerque, Rubi e Tata Fernandes. Ali já experimentavam muitas das canções hoje contempladas nesse primeiro registro musical do ator, que vai do rock ao samba e tem também letras de companheiros de EAD, como Marat Descartes e Gustavo Machado. A confluência de gêneros é um grande alimento para o artista contemporâneo, que em vez de tentar se enquadrar, pode ampliar o seu espaço de atuação e afinar o seu discurso poético.

Vale a pena conferir esta faceta cantor de Gero Camilo.

 

Canções de Invento – Gero Camilo

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Entrevista com Márcia Tauil


Márcia Tauil: humana e guerreira
Alcançando o quinto lugar na lista das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos dentro da MPB, Márcia Tauil é uma dessas cantoras que nos transmite uma energia positiva e duradoura, capaz de nos hipnotizar por longas horas com seu canto, com sua voz e com sua musicalidade. Dona de uma voz arrebatadora, cristalina e sutil, Márcia tem três belos discos no mercado fonográfico, Águas da Cidade (1999), Sementes no Vento (2003) e o mais recente, Elas Cantam Menescal (2012).  Cantou Chico Buarque, Simone Guimarães, Roberto Menescal, Eduardo Gudin, JC Costa Netto e faz de sua voz um arsenal a favor da música genuinamente brasileira. E é com grande emoção que o Mais Cultura! tem a honra de fazer uma entrevista com esta grande cantora, natural de Guaxupé, Minas Gerais, para o mundo, tendo em vista que seu CD Sementes no Vento foi lançado no Japão.

Com vocês, Márcia Tauil.

 

Entrevista com Márcia Tauil

 

Marcelo Teixeira - Qual foi a sua sensação ao gravar um disco como Sementes no Vento, toda dedicada ao cancioneiro de Eduardo Gudin e JC Costa Netto?

Márcia Tauil - Fiquei gratíssima aos dois por escolherem a mim como porta-voz de um trabalho tão significativo na Música Brasileira. A sensação foi de extremo reconhecimento e de carregar uma espécie de Bandeira da Qualidade da nossa Música.

Marcelo Teixeira - Você praticamente era uma cantora que não tinha acesso direto do público quando o disco foi lançado, em 2003, fazendo shows mais locais ou fora do grande circuito cultural. Sentiu essa tarefa de representar as músicas de Gudin e Costa Netto como uma responsabilidade?

Márcia Tauil - Demais. Responsabilidade, porém, muito agradável. É claro que cheguei a me assustar diante do presente tão grande que os dois me deram. O Cd foi extremamente bem recebido pela Crítica. Algumas delas me fizeram chorar de alegria. Esse trabalho me levou a um público maior, inclusive internacional, já que o mesmo foi também lançado no Japão.

Marcelo Teixeira - Seu primeiro disco, Águas da Cidade, foi lançado em 1999 e hoje encontra-se esgotado nas lojas. Tem pretensão de relançar o início de sua carreira musical?

Márcia Tauil - Claro!! Adoro o Águas, tem muita história de vida ali. Os vales cds, antes do Cd ficar pronto, as pessoas comprando, praticamente toda a primeira edição antes mesmo dele ser lançado, as canções que pude regravar (que eu armazenava em fitas cassete, quando era locutora em Rádio: Mambembe - Chico Buarque, Veneno - Pollacci e Nelson Motta, as apresentadas a mim por Costa Netto (parceria dele com Menescal: Magia e Estrada Delhi-Rio), que me aproximaram desse meu grande mestre Roberto Menescal. E também as inéditas como a que dá nome ao disco, e Feitiço (ambas de Kico Zamarian, sendo a segunda com letra de Veca Avellar) Feitiço, por exemplo tem bastante views no Youtube. (Em segundo lugar, porque em primeiro está o vídeo no qual canto "Você" com Menescal (dele e de Bôscoli).

Marcelo Teixeira - Seu mais recente trabalho, Elas Cantam Menescal, reúne quatro grandes vozes para homenagear um dos pais da bossa nova e para isso, você e o próprio Menescal compuseram a faixa Clube da Bossa. Como foi pra você cantar e compor ao lado deste ícone da música popular?

Márcia Tauil - Eu sempre digo que aprendi praticamente tudo com ele. Seu exemplo de dedicação, de vivacidade, de frescor, de humildade e carinho pela profissão e pelas pessoas é impressionante. Menescal já vinha me agraciando com sua companhia em shows e abriu mais este caminho em composição. Imagina!! Ser parceira dele! Agora, saber que estamos eternizados numa gravação, cantando juntos e ter, além disso, uma parceria com ele no Cd, torna legítimo o grande apoio dele para comigo (e para tantos outras artistas), e ainda é como se fosse uma assinatura dele, uma carta de apresentação,: "Olha aí, gente, a Márcia Tauil".

Marcelo Teixeira - Quais são suas inspirações musicais?

Márcia Tauil - O amor, a melancolia, o ritmo do mar, o caminhar do rio. Um sorriso, uma lágrima e tudo que se relaciona ao ensinamento musical que recebi em casa ouvindo Chorinho, Bossa nova, MPB, Sambas, Boleros, Anos 70.

Marcelo Teixeira - Uma cantora e um cantor.

Márcia Tauil (Aí é covardia, hem? Pode ser mais? risos) Elza Soares, Silvana Stiévano, Simone Guimarães, Gal Costa, Elis Regina, Tony Bennet, Zé Luiz Mazziotti, Frank Sinatra, Emílio Santiago, Caetano Velloso (olha: eu o assisti há pouco e ele deu aula, viu? Arrasou ao vivo), Renato Braz.

Marcelo Teixeira - Você conseguiu chegar ao quinto lugar na lista das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos aqui no Mais Cultura!, ultrapassando até mesmo Tulipa Ruiz, Bebel Gilberto, Bruna Caran e Tiê. O que você sentiu ao saber desta colocação?

Márcia Tauil - Enlouqueci!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (risos). Foi muito gostoso. E essas manifestações nos levam em frente, sabe? Reitera que a Música vale a pena, que o caminho não é tão tortuoso, e que sempre haverá ouvidos para ouvir.

Marcelo Teixeira - Qual o seu próximo projeto musical?

Márcia Tauil - Estou gravando disco solo novo. Em shows, fui convidada por um grande violonista de Brasília para um projeto em 2013.

Marcelo Teixeira - Tem alguma cantora que gostaria de lançar um disco futuramente?

Márcia Tauil - Simone Guimarães, e achei sua ideia, num artigo que fez sobre Ceumar, em relação à junção de nossas vozes. Curti muito. Quem sabe?

Marcelo Teixeira – Espero mesmo que este disco com a Ceumar saia, vocês duas tem muito talento e este pensamento de juntar suas vozes saiu depois que vi sua foto num show dela e esses dias você resenhou uma letra pra ela, que é lindo de viver. Mas em seus projetos e planos, temos a chance de ver um show seu aqui em São Paulo?

Márcia Tauil - Sim!!!!!!!!!! Te conto ano que vem.

Marcelo Teixeira – Vou esperar com o coração nas mãos, Márcia. Muito obrigado por abrir um espaço na sua agenda para me conceder esta maravilhosa entrevista e confabular mais um pouco sobre seus planos e sua carreira. Um super beijo.

Márcia Tauil - Super grata, Marcelo. Beijos.

 

Aproveitando a deixa, ontem, dia 2 de dezembro, foi aniversário da cantora. O Mais Cultura!, os leitores, os fãs e eu, Marcelo Teixeira, lhe desejamos Feliz Aniversário, Márcia Tauil e que tudo de bom e do melhor venha acontecer em sua vida, que é sublime.

 

Entrevista com Márcia Tauil concedida ao Mais Cultura! por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Samba Passarinho (2005), de Péri: um disco essencial


Péri e suas belas canções
O samba não é carioca/ O samba não é baiano /O samba não é do terreiro / O samba não é africano. As palavras dos pernambucanos do Mundo Livre S/A, na canção O Mistério do Samba, traduzem: o samba é de todos e, portanto, de ninguém. O compositor baiano Péri retoma o ritmo, raiz dos sons do Brasil, e o traduz a sua maneira em seu novo disco Samba Passarinho (2005 / Trattore / 22,99). Depois de ter suas composições gravadas por estrelas como Margareth Menezes, Vânia Abreu, Ceumar e, mais recentemente, Gal Costa, que escolheu a bela canção Voyeur para fazer parte do seu novo trabalho, Péri lança agora seu quarto CD, intitulado Samba Passarinho. O cantor e compositor baiano radicado em São Paulo, apresenta, neste trabalho, 12 canções como samba reggae, samba duro, samba-de-roda, bossa nova, samba balada, samba-canção - dez delas autorais, uma do amigo e parceiro Péricles Cavalcanti (Dos Prazeres das Canções), e a regravação de Meu Mundo é Hoje, de Wilson Batista, sucesso na voz de Paulinho da Viola. A faixa de número treze é o remix da faixa-título, feito pelo DJ Chamberlain. Tudo isso e mais um pouco torna o disco imperdível!

 

Samba Passarinho / Péri

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A poesia de Ceumar em Achou!, de 2006


Obra-prima de Ceumar
O terceiro CD de Ceumar é assinado em dupla com o compositor, violonista e arranjador Dante Ozzetti, irmão da maravilhosa cantora Ná Ozzetti. A cantora apresenta o repertório recente de Dante em parcerias com Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Luiz Tatit, Alzira Espíndola, Chico César e Kleber Albuquerque. Achou!, lançado pela MCD, traz doze delícias, em sua maioria inédita. Tem mais país muito além da TV, diz um trecho do verso de Pra lá e é uma chave pra se perceber o sucesso de uma cantora mineira radicada em São Paulo há mais de quatro anos. Com sua voz particular e arranjos acústicos de primeira, Ceumar conquistou uma grande legião de fãs quase que apenas no boca a boca. Seus discos são sempre bem comentados na imprensa escrita, mas o repertório da cantora não costuma frequentar rádios e nem programas de TV. Nos palcos da vida, com parcerias interessantes, ela foi aos poucos formando seu público, fiel e apaixonado.

Dante Ozzetti tem uma longa estrada, chegando a ganhar o Prêmio Visa - Edição Compositores em 2000, o que lhe rendeu um único CD solo no ano seguinte. Seu nome é normalmente associado a da irmã Ná Ozzetti, para quem costuma fazer arranjos e produzir seus discos em uma parceria de ótimos resultados. O encontro com Ceumar aconteceu em 2005, quando Dante convidou a cantora para uma participação em seu show. Daí seguiram juntos para o Festival da Cultura defendendo a elogiada Achou!, faixa título desse CD. A química da dupla empurrou os dois para esse trabalho, gravado em apenas duas semanas de estúdio para manter o clima de ao vivo e não perder a emoção.

Oito das doze músicas foram compostas entre janeiro e fevereiro de 2006, mostrando a produção mais recente de Dante. Apenas Achou!, A tardinha, Visões e Parte B já estavam prontas antes. As composições de Dante têm uma sofisticação simples, que casa perfeitamente com o trabalho de Ceumar. Construído com mãos de escultor, os arranjos acústicos valorizam belas melodias e letras inteligentes. A grande maioria das músicas foi escrita com Luiz Tatit. Mas Dante também traz parcerias com Zeca Baleiro (Partidão), Zélia Duncan (Parei querer), Alzira Espíndola (Parte B), Chico César (Saia azul) e Kleber Albuquerque (Lenha na quentura). Destaques para as belas Alguém Total, Alto Mar, A Tardinha e a quase biográfica Saia Azul, cujo Ceumar recria com perfeição sua saída de Minas sem destino final. Música forte, mas de uma lindeza profundamente bela.

 

Quando eu vim de Minas

Comprei uma saia azul

Azul-Diamantina tipo furta-cor

Dessas a outra e outra igual

Dessas que combinam com blusa de flor

 

Beijei meu pai

Dei benção a mãe

Olhei pra trás, vi

Minas dando adeus

 

Trecho de Saia Azul, de Dante Ozzetti e Chico César

 

 

Paralelo ao lançamento de Achou! a gravadora MCD repõe nas lojas os dois primeiros trabalhos de Ceumar, os essenciais Dindinha (2000) e Sempreviva! (2002). Eu particularmente sou apaixonado por Ceumar e ela sempre terá seu espaço aqui no Mais Cultura!. Recentemente, a maravilhosa cantora Márcia Tauil, que está na estrada com o sensacional Elas Cantam Menescal, foi levar seu abraço à amiga e me veio uma sugestão: por que as duas ótimas cantoras não abraçam a causa e fazem um disco juntas? Assim como Márcia, que é mineira de Guaxupé, Ceumar é mineira de Itanhandu. Já disse isso à Márcia e a proposta está lançada, pois seria uma ótima parceria de vozes, violões, musicalidade e perfeita harmonia, ressaltando a elegância de ambas as cantoras.

Há muita teatralidade na música de Ceumar e isso é tão gostoso de ouvir, que as faixas entram em nossos poros e tentam se esconder em nossa mente. Ao ouvir o CD de Ceumar e Dante Ozzetti é impossível não achar que se deparou com o melhor disco dos últimos tempos da nossa contemporânea MPB que vive cheia de grandes nomes e pouca criatividade. Num disco simples e de um colorido ímpar que podemos apreciar logo pela capa intitulado simplesmente Achou! é de um lirismo e de uma pureza que evoca os cantinhos mais esquecidos de nosso belo país cheio de uma sonoridade que um dia Mário de Andrade quis tornar pública.

Achou! respira novidade e exala o talento dos artistas. A prova de que a arte não está nas grandes mídias é claramente sentida nas doze faixas do álbum. Inteligência e talento em um grande disco que, se não figura na lista dos mais vendidos, com certeza vai conquistando novos admiradores para a dupla. Quem tem ouvidos abertos para o novo, achou um oásis.

 

Faixas

1 – Prá Lá

2 – Partidão

3 – Achou!

4 – Alguém Total

5 – Alto Mar

6 – Parei Querer

7 – Parte B

8 – Saia Azul

9 – Visões

10 – A Tardinha

11 – Praga

12 – Lenha na Quentura

 

Achou! / Ceumar e Dante Ozzetti

Nota 10

Marcelo Teixeira