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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O lado intimista de Daniela Mercury em O Axé, A Voz e O Violão (2016)

Daniela: do axé a Chico Buarque
Inventora do axé music e dona de uma voz que levanta a multidão, a cantora e compositora Daniela Mercury é um fenômeno que merece respeito por qualquer seara musical na qual explora. A prova cabal disso é que seu trabalho lançado no ano passado é uma mistura que engloba todos os ritmos nas quais a cantora transitou e que reúne desde Chico Buarque à Margareth Menezes, passando por Chico César e Lenine. Sendo a Rainha do Axé e com todo orgulho, a cantora fez o diferencial em sua carreira ao lançar o exuberante O Axé, A Voz e O Violão (26,99 / Biscoito Fino / 2016) que, na minha modesta opinião, é um disco que merece atenção, repeito e cumplicidade pelo trabalho integral de Daniela. Com 16 álbuns solos, além de canções inéditas nesse novo disco, Daniela nos brinda com ótimas releituras da MPB, o trabalho foi recebido mornamente pelo público e pela crítica. Aqui há emoção, sentimento, amor e a cantora nos remete a um passado em que as músicas eram tratadas com um zelo sem igual. Considero o disco como um todo um tanto minimalista em que a cantora vai esmiuçando o axé até se transformar em uma potente vocal e explosiva em pérolas da música popular brasileira e nos brindando com o melhor de seu cancioneiro, pois ela vai desde o início de sua carreira até chegar aos quilates da africanidade e se rendendo nos braços buarquianos. Aos 51 anos de idade, Daniela Mercury continua a se lançar a desafios que cada vez mais diversificados. Acostumada a sempre estar saracoteando nos palcos em movimentos amplos e largos, dançando praticamente sem parar, o som aqui fica praticamente a cargo da orquestra, movida pelo violão e pela suntuosa voz da cantora. Músicas carimbadas como O Canto da Cidade, Música de Rua, Você Não Entende Nada estão lá, em formato intimista e atemporal. Vindo desde os primórdios de sua carreira magistralmente bem conduzida, Daniela resolveu homenagear os mestres Chico Buarque e Gilberto Gil, assim como para mostrar que tudo é música brasileira, tudo é samba, tudo é brasilidade.  Vale a pena ouvir o som quase bossa novista da eterna rainha do axé em um momento único, especial e sublime.


O axé, a voz e o violão (2016) / Daniela Mercury
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O retrato concreto de Alberto Salgado em Cabaça D'Água (2017)


Cabaça: excelente CD
O bom artista é aquele que sintetiza a sua obra em cima de sua outra obra, buscando o seu melhor e interiorizando o mecanismo de conhecimento pleno de sua arte por meio de mensagens criptografadas em forma de música, dança, letras e artes cênicas. Muitas vezes ocorre o contrário: o artista, seja ele em qualquer esfera, se baseia em trabalhos anteriores para que seu reconhecimento seja marcado por sua marca registrada, não fugindo do lugar comum e com ambientações dentro de um mesmo segmento, de uma mesma moldagem, não se utilizando de outras roupagens, não usufruindo novas ferramentas ou novas inspirações. Não é o caso do cantor e compositor brasiliense Alberto Salgado, que vêm de uma inquietação transparente e inerente perante o seu trabalho musical. Se olharmos para trás, veremos que Além do Quintal (2014) é um disco brilhante, com ritmos que agradam a todos e com a perfeição em um trabalho que o destacou no cenário da música brasileira por ser um disco autêntico, verdadeiro e ser considerado por muitos como uma obra-prima. Quatro anos distancia o primeiro CD de seu novo lançamento, Cabaça D’Água (2017), que já se tornou clássico antes mesmo de vir a público. É sempre uma ansiedade esperar pelo novo trabalho de Alberto Salgado, que é um desses cantores que nos pegam pela forma como compõe e pela voz que enaltece seu talento. Diferentemente de Além do Quintal, esse novo CD traz toda a movimentação sombria que o Nordeste assola, a tragédia de Mariana (Minas Gerais), as belezas de um futuro, os amores possíveis e a seca que matam os peixes. É um disco importantíssimo para entender o Brasil, pois Cabaça D’Água traz uma antropologia filosófica nas entrelinhas e que fica fácil a sua associação com a politicagem herdada em alguns âmbitos nacionais.  A esfera de escopo musical para a música de Alberto ressurge em um momento importante dentro daquilo que podemos catalisar com o inesperado, com o surreal, com a fantasia imaginada e idealizada por nossas mentes para que tudo não passe de um simples sonho. A realidade está embutida em versos como a vaidade do homem consome sede de viver, tanto pinga que some água de beber (Cabaça D’Água) e em ói que a tua coragem não me põe medo, ói que a minha vontade é teu desejo, ói que ce dormiu tarde e eu acordei cedo (Ói). Com produção do próprio Alberto Salgado e com a arte gráfica de Carol Senna, o disco ganha ares de uma estrutura privilegiada referente à mensagem que se deseja passar: antropologicamente, a cabaça é utilizada para servir alimentação para alguns povos e para muitos é utilizada como recipiente de água. Também podemos associar a cabaça como utensílio de várias gerações desde Cristovão Colombo, no ano de 1492, para guardar ouros e outras relíquias importantes para que não fossem furtadas. Levada da África para a Ásia, Europa e Américas como formalização da migração humana, a cabaça foi um importante instrumento como fonte de alimentação por meio dos oceanos para esses povos.  Aqui encontramos uma contradição que no disco de Alberto Salgado ela é bem explorada em ambos os aspectos: na música que leva título do álbum, Cabaça D’Água, o cantor se preocupa com a falta de água no planeta e nos lança a questão sobre a sede por água de beber. Já na música Da jangada em pleno mar, Alberto canta sobre as injustiças sociais que assolam nossas vidas perante as utopias existenciais. Vale ressaltar que esse decantamento é importantíssimo para a competência de todo o trabalho de Alberto, pois ele soube ministrar muito bem os lados representativos pela cabaça d’água refletida sociologicamente entre nós.  As participações especiais são para lá de especiais: Chico César dá o ar poético de sua graça em Ave de Mim, Silvério Pessoa nos surpreende pela força vocal no xote Pele de baixo da unha, Rafael Miranda nos encanta na derradeira Quem foi? e a sensacional cantora Carol Senna (grande revelação) dá o tom de lirismo em Força da fé. Um CD que precisa ser ouvido com o mesmo encantamento provocado pelo sentimentalismo de Alberto Salgado, um cantor que se torna a cada dia um expoente da nova safra da música nacional, com suas competências e sua originalidade impecável e que nos favorece o melhor de sua música.

 

Dados do disco

Produção: Alberto Salgado

Gravação: Feedback Studio Brasília

Técnicos de gravação: Valerinho Xavier, James Castro e Kiko Klaus

Mixagem e Masterização: Kiko Klaus / Estúdio Camarada Mixmaster | BH – MG

Concepções de arranjos: Alberto Salgado, Célio Maciel e Sandro Jadão

Arte gráfica: Carol Senna

Fotos de Alberto Salgado: Célio Maciel

Participais especiais:

Chico César na música Ave de Mim

Carol Senna na música Força da Fé

Silvério Pessoa na música Pele de Baixo da Unha

Rafael Miranda na música Quem Foi?

Produzido por PONTO4 Digital

Contatos:


Facebook: contato.albertosalgado

 

Cabaça D’Água (2017) / Alberto Salgado
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O estado de poesia de Chico César


Chico César e sua poesia
Chico César é um dos melhores cantores e compositores de seu tempo e a prova disso é a quantidade de discos lançados sempre com a excepcional excelência de músicas consagradas e pelo aporte de cantoras que já o gravaram. Seu estilo vai muito mais além de Mama África, música que o consagrou e o revelou da Paraíba para o Brasil inteiro, fazendo de sua carreira um arsenal de metáforas consagradas. Chico César é um raro tipo de cantor que tem na veia a verdadeira música de raiz, brasileira, típica e nordestina. Estado de Poesia (2015 /Urban Jungle – Natura Musical / 24,00) é mais que um disco de músicas inéditas de Chico César: é um expoente de poesias catalisadas de um homem paraibano que consegue transpassar sua leitura através de sentimentos próprios e com significações alheias.  Estado de Poesia reflete o momento atual de Chico: mais poético, mais harmonioso, delicioso de ouvir e que une a delicadeza de ritmos brasileiros com a sonoridade universal, contendo, no mesmo disco, ritmos como samba, forró, toada e reggae, características unilaterais que sempre regeram a vida artística de Chico. Estado de Poesia se iguala a outros discos importantes na carreira do cantor, como Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2002) e De Uns Tempos Para Cá (2011) tamanha a sua força poética, lírica e unilateral.  Vale lembrar que a faixa-título do álbum foi gravada por ninguém menos que Maria Bethânia no DVD Carta de Amor, como celebração de sua amizade com o artista paraibano. E não é nenhum segredo o amor que a cantora baiana tem pelo Chico. Estado de Poesia é um disco que fala de amor, de amor próprio, de licença poética, de vida, de união. Expoente natural da cultura brasileira, Chico César nos brinda com mais um disco autoral, perfeito, sem retoques e com a sinfonia fina de sua rica intelectualidade.

 

Estado de Poesia (2015) / Chico César
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 7 de maio de 2016

Rita Ribeiro e o último disco tradicional de sua carreira


 

Rita Ribeiro: um bom disco
Rita Ribeiro lançou Comigo em 2001 e foi um disco muito bem recebido pela crítica popular, mas não pela crítica jornalística. O álbum é bom e de fato não chega a ser um divisor de águas na carreira de Rita, que agora assina como Beneditto, mas já deixava claro que a cantora precisava se afastar um pouco do cancioneiro de Zeca Baleiro e Chico César (tanto que ela gravou uma bela música de Vander Lee, Românticos, que virou referência em sua carreira e ofuscou músicas de compositores consagrados como Baleiro, César e Jorge Ben). Sendo o último disco antes da virada retórica e triunfal na vida da cantora para o misticismo e a religiosidade crescente em seu cárater pessoal, Comigo não deixou marcas profundas na carreira de Rita, mas alçou a musicalidade da cantora para um público que ainda não a conhecia, fazendo com que ela se tornasse uma referência ainda maior no Brasil. É bem verdade que Rita já vinha sendo conhecida pelas músicas compostas pelos amigos Zeca Baleiro e Chico César e isso estava fazendo com que a cada CD lançado fosse esperado ao menos três canções de cada, mas a grata surpresa foi ter a música Românticos como sendo o carro chefe deste trabalho. A música foi composta pelo mineiro Vander Lee, que estava iniciando na seara musical, mas que já vinha com uma música que muitas pessoas já tinham se identificado, Esperando Aviões. Comigo não é um disco em que temos que parar para ouvir com uma profundidade enorme, mas não podemos tirar todo o mérito deste álbum. Rita estava inspirada nos vocais, nas melodias, mas não estava inspirada por completa na arte visual, pois a capa e o encarte são horríveis. Tirando esse percalço, o disco tem um carisma profundo de brasilidade espontânea e a voz de Rita está impecável.

 

Comigo (2001) / Rita Ribeiro
Nota 7
Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Bruno e Marrone: o melhor do sertanejo atual


Bruno e Marrone: os melhores da atualidade
Não gosto de música sertaneja. Não gosto de duplas sertanejas. Não gosto de cantores sertanejos. Mas são poucos os cantores e as duplas sertanejas que conseguem ganhar meu respeito e minha credibilidade quando os ouço cantar. Aliás, respeito e muito quem gosta desse estilo musical, mas confesso que não é a minha praia. Eu como pessoa, garanto que não compraria nenhum CD de algum cantor sertanejo para ficar ouvindo em casa e mesmo se fosse adepto ao mundo musical via internet, garanto que não baixaria suas canções pagando ou as tendo gratuitamente. Eu como crítico de música, garanto que com o passar do tempo e depois de quatro anos de Mais Cultura Brasileira e com o auxílio da Pedagogia, pude parar para observar e compreender e distinguir o que é bom e ruim daquilo que é bom e ruim. Bruno e Marrone, cantores típicos sertanejos e populares que conquistaram o Brasil com seu cantar, são dos pouquíssimos cantores sertanejos na qual posso dizer que gosto. Mas não compraria um disco seu ou de qualquer outro cantor desse estilo. Aliás, alguns anos atrás, bradei ao lado de Chico César e Rita Lee quando lançaram o EP Odeio Rodeio (2005), disco este que criticava durante o estilo sertanejo. Mas vamos aos acertos de contas: vejo muitos blogs e sites e até mesmo algumas pessoas dizerem sertanistas quando se referem aos sertanejos. Isso é uma lógica que não se enquadra aqui e em qualquer lugar, porque sertanista é aquele explorador que se aventuram no interior do sertão. Já os sertanejos são aqueles que vivem no sertão nordestino, do agreste ou área rural. No entanto, os sertanejos aqui citados são sertanejos natos, pois em suas biografias, viveram no sertão. Lançando Isso cê não conta (2015), a dupla conseguiu um feito ainda maior do que os alcançados em discos anteriores: conseguiram fazer com que sua música fique impregnada em nossa memória e que a mencionemos em algum momento de ironia. Essa brincadeira acaba sendo gostosa e até admirável, mas não podemos dizer que é um bom disco ou uma canção que traga conceitos culturais. Raramente eu critico positivamente uma dupla sertaneja e hoje eu percebo que demorei um pouco para poder criticar uma dupla que me faz bem tanto fora como dentro da nossa cultura brasileira.

 
 
Bruno e Marrone
Por Marcelo Teixeira
 
 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A irônia sem humor de Johnny Hooker


Johnny Hooker: imperfeito
Ainda que restem alguns cantores bons na música popular brasileira, alguns medíocres cismam em serem chamados de cantores pela mídia ou críticos da arte de cantar. Se o antigo causa um cansaço visual, musical ou atemporal para alguns, o novo causa uma sensação de frescor, jovialidade e desejo pelo que vai vir, pelo inesperado, pela desenvoltura. Mas nem sempre o que está no passado nos deixa com o ar cansado e nem sempre o novo nos causa uma sensação de alívio: muitas vezes o novo não nos surpreende, não nos detém aquela sensação de magia, de puro ar renovado, nem espanta com sua magnitude. Sim, pode causa espantamento pelo conjunto da obra, pela música inacabada, pela vestimenta, pela estranheza. E é justamente isso o que alguns críticos de música vêm fazendo atualmente: abortando muitos cantores bons e dando vida a muitos cantores sem fundamentos. Que a música brasileira sempre pediu socorro, isso sem dúvida todo mundo sabe, mas fazer com que a inteligência humana seja medíocre perante a intelectualidade crítica é padecer no inferno mais profundo do universo. O cantor, ator, compositor, diretor, artista e palhaço Johnny Hooker é de Recife e está sendo considerado um dos melhores cantores de sua geração, sendo ovacionado em casas lotadas e recebendo prêmios em que Maria Bethânia, Chico César e João Bosco já ganharam. O que causa estranheza nisso tudo é que Johnny Hooker não canta, não interpreta bem suas músicas e ironiza a todo custo com o sentimento alheio e isso faz com que a plateia entre em delírio constante, pois música que é bom, não há! Lançando Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015 / 27,99), Hooker se mostra imperfeito e desqualificado em sua função maior, que é o de cantar. Considerado como a categoria Rock Nacional, o cantor se perde em letras que buscam o surrealismo das coisas mais simples e elenca para a atmosfera carnal a revolta que o próprio sente dos amores que não deram certo em sua vida. Prova maior disso é o título irônico e vil de sua primeira obra musicada. Se levarmos em conta sua performance no palco, podemos dizer que ele pincelou um pouco de Ney Matogrosso, Maria Alcina e Itamar Assumpção e tentou utilizar a voz de Filipe Catto, cujo é uma das mais belas do momento. Agora pense tudo isso em Johnny Hooker: uma perfeita assimetria entre o ruim e o péssimo, entre aquele que ele desejou ser e não o é. Ney, Alcina, Catto e Itamar (em memória) são referência musical de qualidade e os comparar a Hooker é um grande erro, pois desmonta qualquer tipo e forma de musicalidade. A voz anasalada, a carência de personalidade e a falta de estrutura assistida de Hooker me causa uma revolta profunda, pois enquanto muitos cantores bons estão na estrada fazendo música do mais alto quilate, me surge um cantor medíocre, sem escrúpulos e sem competência para poder ser chamado de cantor.


Johnny Hooker
Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015)
Nota 0
Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Cinco cantores brasileiros!


Cinco cantores
Há muitos cantores brasileiros de gabarito personificado dentro da música popular brasileira de todos os tempos e esse mérito foi consagrado aqui mesmo no Mais Cultura Brasileira quando abordei os 10 maiores cantores dos últimos 10 anos dentro deste cenário. Não foi uma tarefa fácil, assim como não foi uma tarefa das mais difíceis, tendo em consideração o que esses cantores representavam (e ainda representam) dentro de um segmento linguístico, de forma representada e não de personalidade dentro de um conceito enquadrado, digno de uma singularidade plena de um estilo qualquer. Há muitos cantores bons, muitos esquecidos e muitos que precisam ser descobertos ainda, mas tive a audácia de selecionar, estudar e catalisar todos os maiores e melhores cantores das últimas décadas para uma seleta lista de dez, caindo para oito e fechando com cinco que, de fato, representam e aprimoram e enriquecem a nossa música nacional em um respeitado estilo musical qualificado por sonoridade, melodias e suas letras autorais. De cara e de olhos fechados, selecionei os cinco cantores, músicos e compositores que maior representatividade me orgulham pelo conjunto da obra e pelos vários discos lançados, cada qual com sua participação efusiva, cada qual com sua maneira de expressar sua arte e tendo uma sonoridade ímpar e autoral que distingue suas músicas dos cantores ditos populares. Nesse amplo caminho, Chico César é o cantor que, sem sombra de dúvidas, revela seu lado mais poético, mais singular e mais atemporal dentro de um sentimentalismo que tem por si só uma mistura de fina flor com arbustos dourados e metálicos em forma de glorificação e a prova disso é seu excelente disco atual, Estado de Poesia (2015). Ah, se todos fossem iguais ao Chico, quanta beleza a terra iria findar numa guloseima de sopa de letras e numa profusão de paródias letrais. Chico César, paraibano, poeta nato, cantor de sentimentos puros, olhar antenado e composição afinada. Alberto Salgado representa a ambiguidade masculina, retratando seu lado mais refinado dentro de um pantaleão de cores e objetos cortantes, que nos revelam notas dissonantes e versos sensacionais de calibre espinhal e arquitetônicos. Ah, Alberto, brasiliense, inquieto, sonhador, compositor dos mais inteligentes da atualidade e com um dos melhores discos de todos os tempos (Além do Quintal, 2014 ) Alberto é aquilo que a música brasileira de fato precisa: com um misto e legitimidade autoral incrível retratando a beleza da paisagem concreta e o dossal entre o singelo pluralismo abstrato em forma de desenho musicado, o cantor mostra o quão importante é a sua música para a atualidade numa forma coloquial, categorial e sincera. E o que dizer de Lenine, pernambucano, brejeiro, pensador sofisticado de palavras suaves, mas enorme salubridade sobre a vida, genioso e arteiro?  Lenine é o artista mais completo dentro de uma consistência musical harmoniosa, geniosa e lírica: sua música transcende aquilo que não possamos alcançar, o inatingível, o abstrato, o irreal que assola nossos poros, nossas artérias e o nosso ar vertical. É quase impossível não termos a sensação de que sua música é aquilo que ele mais nos representa: o homem na sua forma mais plena da sabedoria divina, do escárnio intelectual e da tenebrosa tempestade de versos histriônicos que repelem a uma dissecação de alegoria em forma de poesia. Zeca Baleiro é o cantor que representa a síntese do cantor popular que fala às multidões num gosto acelerado de riqueza nordestina, sendo ele mesmo um nordestino que consegue ater a atenção de todos por um simplório desejo musical. Se Zeca, maranhense, poeta inspirador, é um típico representante da comunidade e tem o poder de juntar gregos e troianos, isso requer dizer experimentar que ele é o fruto proibido entre a música regional e a música de seletivos críticos. De qualquer forma, seus discos nos fazem pensar na característica personalidade que o faz recitar poemas em letras tão melódicas e antissociais. São elementos essenciais para que Zeca componha de uma maneira difícil mas com o pensamento na realidade de todos os tempos. Enquanto todos seguem uma linha tênue entre o lirismo formal e fugindo da atmosfera platônica que envolve o homem e sua magnitude, Luiz Marques nos traz uma musicalidade em que o romantismo convencional ou reservado supere aquilo que falta em muitos (bons, medianos e ótimos) cantores: a do cantor popular sem ser caricato, buscando em suas letras e melodia a satisfação realista de sua beleza autoral, fazendo com que o seu intelectualismo nos permita transitar entre o belo e o cauto, entre Paris e Minas Gerais e entre a solidão masculina e a realização feminina num piscar de olhos. Esses arvoredos de sensações estão representados na maioria de suas belas canções, dentro daquilo que sugiro ser a mais pura forma de demonstrar o quão sensacional é a sua música. Ah, Luiz, mineiro, sonhador, pesquisador da boa música e merecedor de aplausos pelo espetacular CD Noite Azul (2015). Estar nesse patamar da música popular brasileira não é para qualquer cantor: é preciso muito mais que cantar e demonstrar sua arte! É preciso ter disciplina, ética e agarrar o ouvinte pelos ouvidos, pelos poros e pela alma. É ter a certeza de que sua música é fiel, verdadeira e que catalisa as pessoas pelo lado mais puro e doce, pelo lado mais concreto e real, pelo lado mais sereno e merecedor. Estar nessa criteriosa lista é estar entre os melhores da música contemporânea, é estar entre os melhores dos melhores e estar entre aqueles que sempre gosto de colocar: no topo mais alto da música. Alberto Salgado, Chico César, Lenine, Luiz Marques e Zeca Baleiro são os melhores cantores dos últimos anos, sem qualquer ponto de interrogação!

 

Cinco cantores brasileiros!
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vanessa da Mata erra o som outra vez




Não segue o som, Vanessa!
Sinto uma enorme saudade da Vanessa da Mata que conheci em 2002, quando ainda era uma novata cantora que queria ser a salvadora da música popular brasileira, que encantava com seu canto, com suas letras, que abocanhava grandes nomes da música (como fizeram Maria Bethânia, Caetano Veloso e Chico César) e que era mais timida, recatada e solitária. Sim, Vanessa da Mata compunhava com vontade, voracidade e verdade, adjetivos raros em sua carreira ultimamente. Não que ela estivesse enfraquecida com os discos após o lançamento deste que levava o seu nome, mas nem todas as músicas seguintes agradariam aos seus fãs posteriores. Vanessa deixou de ser uma cantora de nome forte para ser uma cantora de MPB qualquer, compondo aqui ou ali umas músicas bacanas e fazendo de sua voz um arsenal de tiros de misericórdia. Lançando Segue o Som (2014 / Sony Music / 24,90), Vanessa da Mata deixa a desejar.  E muito. As músicas aqui cantadas não ecoam como no primeiro grande disco, não batem forte em nossos sentidos, não trazem mensagens positivas ou agradáveis, mas deixa um ar de insatisfação. Segue o Som é um disco de misturas eletrônica, pop, reggae, dance music e a voz de Vanessa soa cansativa, irritante e derivada de ajustes eletrônicos para se sair bem. Depois de Vanessa da Mata (2002), a cantora teria um grande momento em sua vida ao lançar Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias (2010), em que cantava com uma jovialidade e uma serenidade inacreditáveis, tendo a participação até mesmo de Gilberto Gil encerrando uma das faixas mais encantadoras do álbum. Teria Vanessa da Mata entrado para o time das cantoras desgastadas da MPB ou estaria passando (por que não passeando?) pelo mundo fantástico do ostracismo imaginário? As canções de Segue o Som são contagiantes do ponto de vista comercial, alegres e auto-astral, porém, parece que todas as músicas foram feitas no mesmo dia, na mesma calibragem e no mesmo sentido horário: as batidas e as melodias são uniformes, parecendo que não há interrupção de uma canção para outra. A música Toda Humanidade Veio de uma Mulher não tem ritmos, assim como Rebola Nêga, a melhorzinha do disco, que soa como se a cantora estivesse errando as notas ao cantar (característica de Vanessa, que já fez isso várias vezes em shows ao vivo). Homem Preto é uma canção legal, tem uma pegada mais romântica, mas que não leva nada ao nada com sua voz estridente e custosa. E as canções em inglês dão o recado de que talvez Vanessa queira adentrar no mundo internacional, assim como já tentara com o álbum Sim (2007), mas sem grandes alardes. Do mesmo modo como acontecera com o disco de 2007, Vanessa trouxe para o álbum atual as questões que martelam dentro de sua cabeça com relação as causas sociais existentes ao redor do mundo, como forma de politizar esses assuntos. Como uma salvadora das causas impossíveis no mundo musical, a cantora peca ao adentrar em pautas como o amor passeando por lugares distantes e imprevisíveis, como canta na música capenga Por Onde Ando Tenho Você. Por vezes, sentimos que Vanessa não consegue mais compor ou a impressão maior que passa é que o disco foi feito às pressas, para que pudesse estar na próxima novela qualquer. Assim como aconteceu com Essa Boneca Tem Manual (2005), Segue o Som também foi feito para ser um disco meramente comercial, sem se importar com as letras aqui produzidas. O apelo é forte e Vanessa não soube aproveitar o momento para fazer um grande disco. Já tinha dito que a superficialidade da cantora ao lançar um disco em projeto com uma grande marca de cosméticos para homenagear Tom Jobim, disco este lançado em 2013 pela mesma gravadora em parceria com a Jabuticaba, era crescente e gritante e aqui a superficialidade continua em alta, deixando em baixa toda a pluralidade que Vanessa conseguiu atrair no início de carreira. Chega a ser caricato ouvir frases do tipo fique aqui, tome alguma coisa, converse pra se distrair, vai ver que sou uma menina, só quero me divertir, cantada na música Toda Humanidade Veio de Uma Mulher, que abre o disco. Confesso que não entendi o teor do álbum e qual a sua mensagem maior, mas confesso que os últimos trabalhos de Vanessa da Mata, a garota pobre de Mato Grosso que conseguiu driblar o pai rigoroso do sertão para se tornar em uma das maiores cantoras do país, estão deixando e muito a desejar, abandonando assim um estilo único e próprio de mostrar sua musicalidade, que era plausível e admirada. Por esse motivo e por todo o seu comercialismo desprovido de intelectualidade musical, por favor, não seguem o som de Vanessa agora.

 

Segue o Som (2014) / Vanessa da Mata
Nota 6
Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

O ótimo disco de estreia de Rita Ribeiro (1997)


O primeiro disco de Rita Ribeiro
Rita Ribeiro agora é Rita Beneditto, mas sua música continua sendo boa, seja como Ribeiro, seja como Beneditto e esse detalhe não atropela os segmentos de sua musicalidade. Lançado em 1997, o primeiro disco da cantora veio como um golpe no estômago de muita gente que acreditava ser apenas mais um disco mal produzido que vinha dos confins de Maranhão. Estavam todos enganados. O disco de Rita Ribeiro foi um dos melhores daquele ano e comprovou sua garantia de vida dentro da MPB, que estava voltada mais para o lado bossa nova de Daniela Mercury, os sertanejos tentando uma volta ao mercado fonográfico, os pagodeiros enfrentando o ostracismo e o início de uma boa safra de cantores e compositores, como Lenine, Zeca Baleiro, Chico César e a prórpia Rita. Este disco tem uma importância tanto para Rita quanto para a música porque trouxe à tona toda a sensualidade plena de Baleiro e comprovou a autenticidade do mestre paraibano Chico César. Graças ao disco – e principalmente – a música Lenha (Zeca Baleiro), a cantora pôde se apresentar em diversos lugares do Brasil e até fora dele e sendo regravada depois por sertanejos sem a menor vocação ou sensibilidade para com a canção. Rita Ribeiro (1997 / 19,99 / Velas) é um disco completo, que nos remete ao sertão do Maranhão, tão distante e tão belo, que somente a voz de Rita nos embala para tão distante. Hoje o disco encontra-se raro, mas se aventurando a procurar, talvez até encontre. Um disco perfeito para uma cantora iniciante, Rita Ribeiro comprova seu talento junto aos cantores que a descobriu. Já neste primeiro disco, Rita dá sinais de que a umbanda e o candomblé seriam seu ponto alto, a sua música e sua doutrina em discos futuros. Louvando os deuses que a protege, Rita é uma verdadeira defensora dos misticismos e das crenças e isso reflete em sua música por um todo. Senhora de seu saber, sempre foi domesticada a cantar aquilo que gosta ou sente, não fazendo jus ao mercado fonográfico que impõe regras ou interrogações. O sotoque nordestino aparece em todas as faixas do disco e isso é arrebatador. Vale ressaltar que as músicas de Baleiro e César Missiva e Olhozinho, respectivamente, são os pontos fortes de todo o disco, mas não tem como não se encantar pela sensual Cocada ou Pé do Lajeiro. Sem sombras de dúvidas, Rita veio para ficar e tinha esta certeza quando lançou este sensacional disco. Seja como Rita Ribeiro como Rita Beneditto.

 
Rita Ribeiro (1997) / Rita Ribeiro
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O tempo de exílio musical de Chico César


Álbum de 2006: o melhor de Chico
Desde 1995 quando lançou Aos Vivos, seu primeiro disco, Chico César tem se revelado um compositor e intérprete de grande talento. Cuscuz Clã (1996), Beleza Mano (1998), Mama Mundi (2000), Respeitem meus cabelos, brancos (2002) e De uns tempos pra cá (2006) reiteraram suas qualidades. Sem tirar nem pôr. Embora críticos afoitos e imbecis e intolerantes e carcarás, impressionados antes de mais nada com a baixa vendagem de seus discos, estejam agourando de plantão por sua derrocada derrota. Bobagem. Basta ouvir com atenção os seis discos de Chico César para perceber neles uma continuidade admirável do processo criativo. E hoje o talento de Chico César cruza fronteiras e se estende da Europa ao Japão, da Argentina aos Estados Unidos. Enfim: de Catolé para o mundo. Este paraibano de Catolé do Rocha tem se revelado um compositor de primeira linha da MPB. Seu processo de criação segue as diretrizes antropofágicas de Oswald de Andrade que apregoa a deglutição de toda e qualquer cultura, sem espécie alguma de preconceito, visando à produção um objeto singular, genuíno e, por que não dizer, brasileiro. O Tropicalismo bebeu fartamente nas águas do saber oswaldiano. Juntou Carmen Miranda com Miles Davis; Chacrinha com Chaplin; samba de roda com atualismo, Eisenstein com Vera Cruz, Mondrian com Di Cavalcanti, Vicente Celestino com Stravinsky. O resultado todos conhecemos: um forte movimento artístico-musical que hoje, por exemplo, deita suas raízes sobre os nomes mais interessantes da MPB, das artes plásticas, do teatro, do cinema e até da moda.

Chico César é uma legítima cria do Tropicalismo. Ele incorpora conscientemente o projeto tropicalista, nas letras, nas melodias, nas roupas, nas performances, no palco, no uso da voz. Sua atuação no cenário artístico nacional e internacional apaga as fronteiras entre a cultura considerada erudita e a cultura considerada popular. Associa o forró ao jazz, a ciranda ao reggae, a poesia concreta ao cordel, o haikai a letras discursivas. Curte misturar Augusto de Campos com Cego Aderaldo; Woody Allen com Mallarmé; cavalo de pau com sandália havaiana; nirvana com seca nordestina; Jimmy Cliff com Mandela.

Antenado com as coisas do nosso tempo, suas canções sempre mexem conosco. Umas pelo ritmo; outras, pelas melodias; outras pelas letras; e outras, finalmente, por reunirem todos estes itens com qualidade. Percebe-se que em sua obra desponta uma consciência de linguagem, ou seja, um projeto intencional de construir a criação, de experimentar com as linguagens, de buscar algo novo e, ao mesmo tempo, harmônico. Afinal, antes de mais nada, uma canção popular tem de associar o belo ao agradável. Há exceções: ótimas canções, porém nada agradáveis. Não me refiro a elas. Busco um consenso mais amplo: canção é espaço poético de letra e música cantadas harmoniosamente. Cantadas com a naturalidade de quem fala. Chico César canta como quem fala. Às vezes ele fala mesmo, como em Béradêro, de 1995, ou Solidariedade, Papo cabeça, ambas de 1997, Aquidauana, 2000. Nos dois discos mais recentes Chico César tem feito canções propriamente ditas. Está dançante em Respeitem meus cabelos, brancos e melancólico em De uns tempos pra cá. Mas sempre muito musical.

Chico César faz sua antropofagia se servindo no prato da História da MPB, da Poesia, da Cultura Popular, da Política Internacional, etc. Come até se lambuzar. Um exemplo rápido: no forró Paraíba, meu amor (1998; o título já nos remete ao título e ao refrão de São São Paulo, do eterno tropicalista Tom Zé), o compositor paraibano associa o forró pé-de-serra e a voz de Flávio José a uma letra sofisticada que lá pelas tantas diz: não quero chorar / o choro da despedida / o acaso da minha vida / um dado não abolirá. A cadência envolvente do forró cai bem na citação dos célebres versos mallarmaicos: um lance de dados / jamais abolirá o acaso. Casar a poesia de Mallarmé com as festas de São João é instalar a parabólica no mangue, como apregoa o movimento musical Mangue Beat, também herdeiro do Tropicalismo.

Versos à frente, na mesma música, o compositor refere-se à fogueirinha de laser que ilumina os festejos do meu coração, cruzando as festas do interior com o novo coração do poeta que, longe da terrinha natal, e agora Pós-moderno, pulsa no ritmo envolvente do forró.

O tom melancólico de De uns tempos pra cá, seu trabalho conciso, explora com muita propriedade o uso de cordas do Quinteto da Paraíba sob arranjos de Nelson Ayres, Mário Manga, Adail Fernandes e Nailor Proveta. O resultado é um disco com nova sonoridade dentro da produção de Chico César. A percussão é suave e se destaca apenas na última faixa (a mais rítmica) nas mãos ultracriativas de Escurinho em Orangotanga. Todas as músicas são de Chico César, à exceção de A nível de, de João Bosco e Aldir Blanc e Cálice de Chico Buarque e Gilberto Gil e Outono aqui, uma versão feita pelo próprio Chico. E 1 valsa p/ 3 é a única feita em parceria com Chico Pinheiro.

Elba Ramalho tem participação especial na arrigobarnabeana Por causa de um ingresso do festival matou roqueira de 15 anos. Aparente paradoxo: Elba canta contida e ousadamente. Sua ousadia está no modo de canto-dizer a canção, indo do melódico ao atonal, sem rebuscamentos. Esta é a Elba que fica. Ou, ao menos, a que deve ficar. E Chico César sabe extrair o melhor da intérprete. Esta canção ainda traz uma bem-vinda novidade: a voz e a autoria de Pedro Osmar na falação de um texto, no mínimo, provocador. A faixa, de nome extenso, tirado de uma manchete d um jornal carioca , por ocasião do I Rock in Rio, é uma das mais bem realizadas, num disco de rigores.

Chico César: o tempo passa, e ele fica ainda mais zeloso com a coisa musical. Suas composições e regravações revelam um compositor e um intérprete insatisfeitos com os altos níveis atingidos em discos anteriores. É preciso ouvir De uns tempos pra cá. O disco mereceu pouca atenção da crítica e quase não toca no rádio. Será que teremos de amadurecer para assimilarmos o talento deste paraibano? Ou esperar a chegada de um novo David Byrne para um novo Tom Zé?

 

De uns tempos pra cá / Chico César

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 11 de junho de 2013

A beleza de Vanessa da Mata em seu disco de estreia

O melhor disco de Vanessa
A primeira imagem que vem é de Marisa Monte. Para quem não está habituado com a sonoridade do primeiro disco de Vanessa da Mata, estranhará a sua voz logo no primeiro som. Vanessa da Mata não esconde em seu CD de estreia os vários pontos de semelhança com a colega mais velha. Parte dos mesmos princípios de Marisa, da compositora razoável/boa cantora/artista decidida. Para dar o salto próprio, chega em parte contaminada, como também acontecera com Marisa no final dos anos 80. Parece já haver gente à beça a seu redor. Levada pela multidão, ela já chegou ultrapassando as origens próprias, que poderiam colocá-la entre a aguda timidez mato-grossense de Tetê Espíndola e a audácia pop cosmopolita de Marisa Monte. Cercada de novas influências, viaja também ao suingue de Jorge Ben (em Não Me Deixe Só e Viagem), ao samba estilizado em pop (Alegria, de Assis Valente), às orquestrações caetânicas de Jaques Morelenbaum.

Interiorana cosmopolita, abriga esse furacão de referências nos caracóis dos enormes cabelos revoltos. Mirando talvez alvos populares, vem embalada em uma capa deliciosa de disco, que faz pensar em Clara Nunes, cantora que a própria Vanessa adora e se inspira. Mas o que ela é? Quem é Vanessa da Mata para uma época em que não havia cantoras com tanta determinação e ousadia e, por que não, diferenciada? Ainda não era possível saber, não no primeiro disco lançado em 2002,  pois a neblina era intensa. Mas em Vanessa da Mata (hoje disco raro) já vem a primeiro plano um esforço pautado pela palavra que a moça mais repete ao longo das canções: delicadeza. Sua voz, sempre afinada, é frágil, chegando a permitir que seu primeiro grito de guerra (Não Me Deixe Só) seja uma doce confissão de insegurança e ousadia.
O ano de 2002 era da Vanessa da Mata. Tem gente que, além de esforço pessoal, tem uma baita estrela que a acompanha. Mesmo assim, tem trajetória maior e melhor que muita gente que tem mais de um trabalho registrado em disco. Maria Bethânia já gravou música sua A força que nunca seca, dela e Chico César e para ganhar ainda mais prestígio, virou nome de CD da cantora baiana. Vanessa também cantou ao lado de Bethânia e de Caetano Veloso e Milton Nascimento a conheceu num jantar em São Paulo. Ouviu suas músicas e, na primeira oportunidade, quando apresentava o show Crooner na capital paulista, convidou-a para uma participação ao seu lado. Tem mais: Vanessa já se apresentou com Baden Powell e Daniela Mercury, que também gravou música sua. Tem parcerias com Lokua Kanza e Ana Carolina, além de Chico César.
Confessar-se frágil torna-se elemento constituinte de sua crença na delicadeza. E daí nasceria (será?), a força que nunca seca que revela e conduzira Vanessa para um todo além do horizonte. Na voz quente, não há insegurança. Por trás do pandemônio, há personalidade. Vanessa conseguiu, já ao fim do disco, após ouvir com exatidão, voar de vez para longe das comparações com Marisa Monte e se tornou uma das maiores cantoras do Brasil, alcançando, inclusive, o 2º lugar na categoria das 30 Maiores Cantoras do Brasil de todos os tempos.

Vanessa da Mata – Vanessa da Mata
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 28 de maio de 2013

Os voos de Mônica Salmaso em Voadeira

  
Voadeira: o melhor de Mônica
Nascida em São Paulo, Mônica Salmaso começou sua carreira na peça O Concílio do Amor dirigida pelo premiado diretor Gabriel Villela em 1989. Em 1995, gravou o CD Afro-Sambas, um duo de voz e violão arranjado e produzido pelo violonista Paulo Bellinati, contendo todos os afro-sambas compostos por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Foi indicada para o Prêmio Sharp – 1997 como Revelação na categoria MPB. Foi vencedora do Segundo Prêmio Visa MPB – Edição Vocal, pelo juri e aclamação popular em 1999. Foi ganhadora do prestigioso Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de 1999, e o CD Voadeira recebeu os mais rasgados elogios, sendo considerado pela crítica como um dos dez melhores lançamentos do ano. Na edição do dia 4 de fevereiro de 2002 do The New York Times, o crítico Jon Pareles coloca Mônica Salmaso como um dos principais nomes surgidos recentemente na música popular brasileira.

Classifico o CD como uma lindeza pura de uma brasilidade única. Mônica fascina a cada sílada cantada, a cada verso cantado e a cada disco lançado. Sua beleza cantada é favorecida a uma grande interpretação e uma grande voz, diferenciada de outras cantoras. Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical.

Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical. Tudo aqui é encantador, mágico, belo, espontaneo e brasileiro. A cantora Mônica Salmaso é apontada por músicos e críticos como uma das grandes revelações dos últimos tempos e até mesmo por setentões como Chico Buarque e a queridinha dos japoneses, como a cantora Joyce Moreno. Sendo seu terceiro (e ótimo) disco de carreira, Voadeira sela sua maturidade e maior liberdade artística.

Em um mercado pródigo em vozes femininas estridentes e exaltadas, o Brasil ainda carece de grande cartazes que façam ecoar mundo afora e Mônica Salmaso se destaca pela sutileza. Há tons melancólicos em algumas faixas que flui de seu timbre de contralto e permeia todo o repertório, dando mais qualidade e resistência ao seu talento.

O CD é equilibrado por músicas inéditas de Mário Gil, Ná Ozzetti e Itamar Assumpção e Joyce Moreno se misturando com obras-primas de Chico Buarque, na excelente Valsinha, que foi uma parceria com Vinicius de Moraes. Chama a atenção a arrepiante O Vento, de Dorival Caymmi.

A coerência impede que a diversidade de ritmos – samba, modinha, valsa e xote – se converta em tiroteiro de balas extremamente perdidas. Voadeira tem instrumentação mínima, o que valoriza as qualidades da cantora e a textura das canções escolhidas com critério. Os arranjos são impressionantes em Beradêro, música de Chico César, que conta apenas com o contrabaixo de Rodolfo Stroeter. O samba Ilu Ayê (Terra da Vida) é reconstruído sobre a pontuação ritímica dos pandeiros e das cuícas de Marcos Suzano.

O título do disco sugere altos voos. Voadeira é um barco que sobe o Rio São Franciso, como cita a música de Chico Buarque e tem um sentido de assistir à vida e navegar contra a corrente. E tudo se parece com água, que nada sem parar e tem uma fluência emocional que é dificil explicar.


Voadeira – Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O swing de Luciana Mello em 6º Solo


Luciana Mello surpreende
Doses generosas de samba, baladas envolvidas em sonoridades delicadas, uma pitada de jazz e um repertório que parece ter sido escolhido à dedo. Assim é (resumidamente claro!) 6º Solo mais recente trabalho da cantora Luciana Mello lançado nos últimos meses de 2011. O álbum expõe uma brasilidade musical madura com arranjos feitos na dose certa para a voz firme da moça. Luciana buscou pérolas nos trabalhos de gente tarimbada da MPB para criar um ambiente cheio de nuances, sem medo de colocar no mesmo caldeirão os diferentes temperos da nossa música. Frescor e atemporalidade andam de mãos dadas por todo o álbum. O repertório traz o poder de fogo dos versos de Gonzaguinha na faixa Recado, a força das raízes africanas em Áfrico de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro e a levada cheia de swing do irmão Jairzinho Oliveira em Tchau. Isso sem falar na elegância de Couleur Café de Serge Gainsbourg que tem a participação do alemão-franco-canadense Cornelle e do samba de primeira Mentira, onde Luciana divide os vocais com o paizão cheio de categoria Jair Rodrigues. Tudo isso na produção bem conduzida de Otávio de Moraes, que com muita sensibilidade captou perfeitamente o que Luciana queria dizer.
6º Solo deixa Luciana Mello confortável para buscar na diversidade sonora todas suas influências e raízes e à partir daí ampliar seu território sonoro. Já fazia quatro anos que Luciana Mello não lançava um disco seu. Com 6º Solo, a cantora mostra que o tempo foi importante para que conseguisse colocar em prática antigos desejos. Um deles foi o de gravar com a banda tocando ao vivo, no estúdio. 
O apego ao natural vem no embalo da paixão pela música brasileira. Em 6º Solo, Luciana deixa o soul um pouco de lado para experimentar também ritmos que têm a ver com sua origem. Ela cresceu com a oportunidade de ouvir MPB dentro de casa, ao lado do pai e dos amigos deste. Esse disco mostra toda essa influência brasileira, que é do seu pai, do seu irmão, dos músicos que conheceu.
O pai, Jair Rodrigues, participa na música Mentira e ninguém melhor que ele para chamar do que o cara que lhe apresentou o samba. O músico canadense Cornelle divide a canção “Couleur Café” com Luciana. O disco abre com Chico César (Descolada) e Tchau (Jair Oliveira). O repertório traz também a bela Se For Pra Mentir, de Arnaldo Antunes.

6º Solo – Luciana Mello
Nota 10
Marcelo Teixeira