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segunda-feira, 27 de maio de 2013

O swing de Luciana Mello em 6º Solo


Luciana Mello surpreende
Doses generosas de samba, baladas envolvidas em sonoridades delicadas, uma pitada de jazz e um repertório que parece ter sido escolhido à dedo. Assim é (resumidamente claro!) 6º Solo mais recente trabalho da cantora Luciana Mello lançado nos últimos meses de 2011. O álbum expõe uma brasilidade musical madura com arranjos feitos na dose certa para a voz firme da moça. Luciana buscou pérolas nos trabalhos de gente tarimbada da MPB para criar um ambiente cheio de nuances, sem medo de colocar no mesmo caldeirão os diferentes temperos da nossa música. Frescor e atemporalidade andam de mãos dadas por todo o álbum. O repertório traz o poder de fogo dos versos de Gonzaguinha na faixa Recado, a força das raízes africanas em Áfrico de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro e a levada cheia de swing do irmão Jairzinho Oliveira em Tchau. Isso sem falar na elegância de Couleur Café de Serge Gainsbourg que tem a participação do alemão-franco-canadense Cornelle e do samba de primeira Mentira, onde Luciana divide os vocais com o paizão cheio de categoria Jair Rodrigues. Tudo isso na produção bem conduzida de Otávio de Moraes, que com muita sensibilidade captou perfeitamente o que Luciana queria dizer.
6º Solo deixa Luciana Mello confortável para buscar na diversidade sonora todas suas influências e raízes e à partir daí ampliar seu território sonoro. Já fazia quatro anos que Luciana Mello não lançava um disco seu. Com 6º Solo, a cantora mostra que o tempo foi importante para que conseguisse colocar em prática antigos desejos. Um deles foi o de gravar com a banda tocando ao vivo, no estúdio. 
O apego ao natural vem no embalo da paixão pela música brasileira. Em 6º Solo, Luciana deixa o soul um pouco de lado para experimentar também ritmos que têm a ver com sua origem. Ela cresceu com a oportunidade de ouvir MPB dentro de casa, ao lado do pai e dos amigos deste. Esse disco mostra toda essa influência brasileira, que é do seu pai, do seu irmão, dos músicos que conheceu.
O pai, Jair Rodrigues, participa na música Mentira e ninguém melhor que ele para chamar do que o cara que lhe apresentou o samba. O músico canadense Cornelle divide a canção “Couleur Café” com Luciana. O disco abre com Chico César (Descolada) e Tchau (Jair Oliveira). O repertório traz também a bela Se For Pra Mentir, de Arnaldo Antunes.

6º Solo – Luciana Mello
Nota 10
Marcelo Teixeira


                                                              


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia


O disco: poucos destaques
Para início de conversa, Maria Rita é apenas a filha de Elis Regina e nunca será uma nova Elis como andam dizendo por aí. Às vezes, ao fecharmos os olhos temos a sensação de que a voz de Maria Rita se assemelha ao som de Elis, mas esses momentos são raros, tão raros, que não merecem destaques. Pudera: Maria Rita nasceu do ventre de Elis Regina. São 30 anos de morte da maior cantora do Brasil e 26 anos separam mãe e filha, artista e aspirante a artista. Elis Regina é a maior cantora do Brasil. Maria Rita é apenas mais uma cantora do Brasil. Maria Rita bem que tentou, relutou, mas não conseguiu não regravar os sucessos que sua mãe deixou. Maria Rita sempre disse que não regravaria uma música de Elis em disco e isso não aconteceu em seus quatro discos anteriores, mas acabou gravando ora aqui ora ali músicas da mãe para alguns eventos e aparições em TV. Até aqui normal. Maria Rita não gravou sucessos da mãe nos quatro discos que gravou, mas regravou os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Os fãs de Elis sentiram-se órfãos com sua morte e não encontraram em nenhuma outra cantora sua imagem e semelhança e nem mesmo cantoras da estirpe de Gal Costa conseguiram suprir as necessidades artísticas de uma grande cantora. Milton Nascimento está à procura até hoje de uma nova Elis e, mesmo tendo gravado com diversas cantoras de excelente gabarito, sente-se frustrado por não conseguir o êxito maior em suas canções nas vozes femininas. E é justamente neste ínterim entre a morte de Elis e o surgimento de Maria Rita que os fãs de ambas não entendem: muitos veem em Maria Rita o renascimento de Elis, a feição, os traços, os trejeitos, mas Maria Rita só será Maria Rita quando encontrar o seu próprio caminho.

A voz de Maria Rita não é parecida com a voz da mãe. A feição é inevitável, o estrabismo também. O CD Redescobrir só veio a confirmar aquilo que eu sempre digo e bato na mesma tecla: Maria Rita é a cópia clara e obscura da mãe. Maria Rita imita Elis em tudo e isso também é inevitável, afinal, é mais do que normal os filhos serem cópias idênticas dos pais, o que não acontece com Jairzinho Oliveira, Max de Castro, mas acontece com Daniel Gonzaga, Leo Maia, Simoninha...

Mas Maria Rita ainda não encontrou o seu caminho e, para complicar sua situação, imita a mãe em inúmeros shows, fazendo caras, bocas, sustenidos, gracinhas e frases feitas como um gás lacrimogêneo no estomago. Sempre foi assim e sempre será, pois Maria Rita nasceu pronta para brilhar como cantora às margens da mãe, não tendo luz própria, não tendo características próprias como o irmão, Pedro Mariano, embora o mesmo tenha regravado ao menos um sucesso da mãe em todos os seus discos.

Redescobrir (2012/ Universal / 37,00) é um disco duplo com cores bem arranjadas, formato bonito, estrutura vital, bom acabamento, mas que não acrescenta em nada tanto na carreira artística de Maria Rita como para aficionados pela música popular brasileira. Para os jovens de hoje em dia, Redescobrir vale a pena como um produto novo, com músicas novas, como se fosse um marco zero e isso é muito benéfico para a carreira da cantora como para esses novos fãs. Mas para as pessoas que presenciaram Elis ou para quem acompanha a vida de Elis há mais de dez anos após sua morte e sabe praticamente tudo sobre sua vida e suas músicas, Redescobrir não significa absolutamente nada, a não ser mais um produto comercial.

O disco vêm como comemoração aos 30 anos de morte de uma cantora marcada por sucessos e por recaídas amorosas. Tudo iniciou como um show, mas já era possível prever que isso se transformaria em disco, claro. Tudo bem que o disco é uma sensação de emoções, mas há os contras e os poréns que este disco representa. Maria Rita regravou sucessos, músicas esquecidas e reverenciou, mais uma vez, os amigos da mãe, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Rita Lee, Gonzaguinha...

Lembrando as fases do fino da bossa, da época dos festivais até chegar ao estrelato como uma verdadeira dama dos palcos, Redescobrir trás também o lado esquecido dos grandes clássicos de Elis, como faixas de discos estelares que o público de hoje desconhece, como Vida de Bailarina (música cantada por Ângela Maria, cujo Elis adorava tanto a cantora como a canção), Agora Tá, Onze Fitas, Querelas do Brasil, Doce Pimenta, Menino, Zazueira, Redescobrir. O público de hoje praticamente desconhecem estes sucessos de Elis e Maria Rita as canta de uma forma que lembra a mãe, com técnicas vocais muito parecidas. Destaque maior para a bela Bolero de Satã, numa interpretação magistral de Maria Rita, o ponto alto do disco.

Maria Rita pode dobrar e desdobrar as canções que a mãe cantou, pois ela é a filha da cantora que as cantou primeiro. Outra cantora qualquer sempre é mal vista quando regravam as canções que Elis imortalizou e lembro que Zizi Possi, que à época da morte de Elis era tida como uma nova Elis, fora muito crucificada com esta comparação. Maria Rita é apadrinhada pela mídia, pelos fãs e por saudosistas e estes praticamente não vêm riscos, defeitos e nem quebras no repertorio intocável de Elis. Maria Rita se salva por ser a filha.

O disco em si é mediano. Deve ser escutado apenas algumas vezes. Cansa ter que ouvir Maria Rita em 28 músicas ininterruptas. Definitivamente, Redescobrir não redescobriu Maria Rita, embora a palavra redescobrir pode significar muitas coisas: para a cantora, redescobrir o acervo musical da mãe e redescobrir o quanto o povo brasileiro ainda a idolatra e sente a presença da enorme grandiosidade de Elis, requer um redescobrimento muito mais atemporal do que qualquer outra coisa.

Trinta anos depois da morte de Elis, a filha trouxe a tona grandes sucessos, poucos conhecidos nos dias de hoje, compilando discos maravilhosos que a saudosa Elis nos deixou, mas houve erros drásticos quanto ao repertorio: a música Menino, por exemplo, não fora um grande sucesso na voz de Elis e sim, na voz de Milton, que o gravou no disco Geraes, de 1976. Do disco Falso Brilhante, gravado no mesmo ano com enorme sucesso de crítica e público lotado no teatro, veio apenas Como Nossos Pais e Tatuagem, sendo que as músicas de João Bosco do mesmo álbum foram muito mais marcantes pela dramaticidade. Assim aconteceu com Doce Pimenta, que não viria a ser um sucesso gravado por Elis e, sim, uma duplicidade com a amiga Rita Lee.

O que faltou em Maria Rita foi ousar. Chamar ao menos o irmão para dividir os vocais em algumas faixas, talvez, a qual sugeriria Águas de Março. Convidar os verdadeiros amigos de Elis, como Ivan Lins, Milton, Rita, João Bosco para um dueto. Essa ousadia não veio, não perdurou e o disco saiu cansativo. Claro, os sons são muito bons e as novas harmonias são sensacionais, mas faltou criatividade no formato geral. A impressão que nos passa, é que Maria Rita quis exclusividade ao fazer a passagem dos trinta anos de morte da mãe, da artista, da mulher, da guerreira, da Elis.

O que Maria Rita precisa redescobrir é a sua carreira, marcada com discos paupérrimos e com letras medianas. Redescobrir foi tudo aquilo que a mãe fizera em vida, seus trejeitos, suas notas, seus alcances vocais, seu público renovado. Maria Rita conseguiu o feitio de ser Elis por um dia, ser aclamada até por quem não curte seu trabalho e seu som e por quem ainda há de reconhecer que sua voz é um grito contra a efemeridade que existe por ai.

Redescobrir redescobriu Maria Rita por algumas horas. Elis é Elis. Maria Rita ainda precisa se descobrir.

 

Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia

Nota 7

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sandy e o ostracismo



Sandy já encantou o Brasil, já fez o público pular, dançar, rebolar, chorar, rir e se emocionar com suas músicas. Por inúmeras vezes não abriu a porta de dona Mariquinha que seu irmão, Junior Lima, insistia nas apresentações em programas de auditório e shows. Sandy cantou e cantou muito, fazendo muitas crianças se sentirem como elas mesmas: crianças. Mas fez muitos adultos se encarem com seu jeito angelical, quase um anjo que estava ali no momento certo, entoando canções para seus filhos e para seus netos dançarem. Sandy era a criança mais famosa de seu tempo, depois da Simony e do Jairzinho, que cresceram ao som do grupo Balão Mágico, ou de Patrícia Marx, que sempre estava nos programas da Xuxa.


Sandy foi um verdadeiro sucesso. Juntamente com seu irmão, eles entoaram músicas que estão até hoje na memória fresca daqueles que cresceram ouvindo suas canções e que ainda insistem em dizer que a cantora é exemplo de civilização e postura feminina. Milhares de discos vendidos, a cantora cresceu em um mar de rosas, mergulhada no mais profundo gosto do sucesso e ressentida por não poder fazer parte do seleto grupo de cantoras da MPB que estavam com seu público cativo. Sandy queria crescer. Mas isso acontecia, de fato, a cada disco lançado e a cada entrevista concebida. Cantando MPB, jazz, canções americanas e adultas, Sandy aos poucos deixava de ser criança, deixava de ser adolescente e a mídia aprovava e as pessoas se sentiam impressionadas com tamanho talento e essas mudanças foram acontecendo e se transformando com cada disco surgido no mercado fonográfico.
Aos poucos a ideia de largar o irmão foi se sucedendo. Logo imaginou na carreira solo. Muitos apostaram que ela seria uma das maiores cantoras do Brasil, superando marcas de discos vendidos e constituindo na líder da MPB contemporânea. Sandy se desligou profissionalmente do irmão e iniciou uma carreira solo. Lançou o disco Manuscrito e, para surpresa geral, foi um verdadeiro vexame, vendendo 100 mil cópias, enquanto era estimado quase 300 mil.
Sandy fez errado ao iniciar carreira solo? Pra mim, sim. Sua voz é doce, agradável, não é enjoativa, mas o repertorio de moça comportada passou a ser questionado como mulher madura, mas sem sal. Uma adolescente rebelde. Uma criança indefesa que perde a chupeta para uma mulher superior. Uma careta chamada Sandy. E o seu disco, Manuscrito, é um conjunto de frases sem nexo, sem eixo, sem direcionamento. Músicas chatas, músicas estranhas com teor de “o que estou fazendo aqui?”. Sandy errou o caminho de casa, entrou na primeira porta que viu aberta e não pediu conselhos sobre se deve seguir reto ou virar a direita.
Manuscrito é horrendo. E mostra uma Sandy perdida em sua estreia livre e desimpedida dos conselhos infames do irmão e da caretice do pai e da intromissão do tio. Apenas a mãe pode dar conselhos (talvez seja por isso que a carreira de Sandy tenha sobrevivido até hoje). Mas acompanhar a carreira da ninfeta que virou estrela das crianças para o mundo adulto, um mundo que ela desconhece e que não lhe foi apresentado, é tecer no pior estado de lastimas.
Cantando desde Michel Jackson a Madona, Sandy está redondamente perdida em seu mundo. Poderia até mesmo chamar de um certo ostracismo, o que acontece com inúmeros cantores ao menos uma vez na vida. Hoje Sandy não acrescenta lhufas na vida de ninguém. Dentro de poucos anos desaparecerá e ninguém sentirá sua falta.

Marcelo Teixeira.