Mostrando postagens com marcador João Bosco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Bosco. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de dezembro de 2017

A "zuera" de João Bosco é coisa séria

O bom e velho João Bosco 
Acabo de ouvir pela terceira vez o novo e arrebatador disco de inéditas de João Bosco, depois de um hiato de oito anos sem lançar nada novo. Mano que zuera (2017 / Som Livre / 26,99) é um disco composto por 11 ótimas canções (e que acaba sendo melhor e mais preparado que o tão aguardado disco de Chico BuarqueCaravanas / 2017) e entre elas estão algumas parcerias inéditas com o filho Francisco Bosco, que também assina a produção musical de todo o álbum. Dessas parcerias o single Onde Estiver, que nasceu de conversas entre pai e filho, merece destaque pela força poética e arranjo primoroso, que já toca nas principais rádios do Brasil. Além das inúmeras parcerias com o filho, o projeto conta com clássico como Sinhá, parceria com Chico Buarque e gravada no penúltimo álbum deste, Chico (2011) retomando o dueto entre ambos depois de um estrondoso espaço de tempo, quando gravaram juntos uma música em destaque para o lançamento de um disco buarquiano de 1984. Duro na queda e João do pulo (parcerias com o inesgotável Aldir Blanc) soam memoráveis, ainda mais porque esta última música conta com uma fusão sonora com a canção Clube da Esquina Numero 2. O encontro inédito com a composição de Arnaldo Antunes em Ultraleve, onde a filha Júlia Bosco (que não merece tanto destaque assim pelo conjunto da obra) faz uma participação especial com sua voz com sabor de liquidificador, como diria Cazuza. Sim, Mano que zuera é um clássico da MPB, nasceu com direito a explosão meteórico e veio para confirmar a marca tradicional de Bosco como um dos compositores e cantores mais versáteis da linha refinada da Música Popular Brasileira.


João Bosco / Mano Que Zuera (2017)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Elis, trilha sonora do filme: mais uma obra de baú


Elis: CD de baú
Salvo pela ótima e excepcional interpretação de Andréia Horta, o filme Elis (2016) não tem nada de especial. Venhamos e convenhamos que o filme é mais um musical do que um filme propriamente dito, em que contasse as verdades de Elis, os julgamentos pessoais, o verdadeiro nascimento de uma estrela, seus verdadeiros amigos, suas inimizades musicais e pessoais, o caloroso amor por Milton Nascimento, a relação com os filhos, o desafeto com Tom Jobim e Chico Buarque, o rancor por Nara Leão e Maria Bethânia, o amor incondicional por Rita Lee e Gal Costa e o amor platônico por Clara Nunes. Cadê Tim Maia? Cadê Samuel Wainer, seu último namorado e que a vira estirada no chão do apartamento da rua Doutor Mello Alves, nos Jardins? Cadê a verdadeira história? Não houve nada disso e o público fora subestimado a assistir um musical reproduzido dos palcos brasileiros para as telonas. A qualidade do filme é excelente, as cenas são primorosas, a luz está perfeita, a direção foi impecável, mas o essencial faltou: não retrataram a vida de Elis conforme o enunciado. Trataram seu lado musical. Esqueceram de colocar suas famosas entrevistas, suas diversas frases de efeito moral, seus pensamentos acerca da música, seu carinho por João Bosco. E cadê a passagem com as drogas? Cadê o envolvimento rápido e conturbado com Fábio Junior e Guilherme Arantes? Não houve nada disso. Para além do filme houve o acontecimento rápido de se lançar um disco: tudo foi proposital. Primeiro lançam o filme mediano e em seguida um CD com os melhores sucessos da cantora. É sempre assim. Mas não trata-se de um grande filme (reitero que a interpretação de Andréia Horta e a direção estão impecáveis, mas faltaram argumentos para ser o filme do ano) e não trata-se de um grande disco. As prateleiras terão apenas mais um disco de coletâneas de Elis Regina com uma capa diferente. Porém, o que não foi retratado civilizadamente no filme foi colocado propositadamente no disco, como a faixa em que Nara Leão canta Borandá (1964) e Cartola interpretando O sol nascerá, registro também de 1964. Se a intenção era fazer um filme para homenagear uma das maiores cantoras do Brasil, o tiro saiu pela culatra, porque falta informação decente e coerente para com a artista que revolucionou a música brasileira e se tornou uma das maiores vozes do mundo através de sua garra e determinação. Faltou entusiasmo, carisma e o principal: a vida da artista. Para quem acompanha a carreira da cantora certamente ficou descontente com o resultado final, mas a ideia  central aqui é resgatar Elis para o público novo, para que sua imagem seja lembrada à nova geração. Portanto, tudo errado na diagramação de Elis. Por que não fizeram tal qual o filme Piaf – Um Hino ao Amor, em que retrataram fielmente sua ascensão e sua decadência, seus amores impossíveis e nostálgicos? Tanto tentaram camuflar a vida de Elis e seus turbulentos momentos de crise que o filme logo cairá no esquecimento e o CD com a trilha sonora logo será artigo de arquivo no baú.


Elis – o filme (trilha musical)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de outubro de 2016

Cala a boca, João!


Voz e Violão: excelente
Há quem o odeie e há os que o ama! Há também aqueles que ficam neutros quando o assunto é João Gilberto, um ícone da Bossa Nova e um dos pais do movimento que inspirou as pessoas a cantarem em ritmo mais lento e tendo como companheiros um banquinho e um violão. Não é fácil ser João, um gênio da música popular brasileira que hoje vive mais recluso do que nunca em seu apartamento, nos Estados Unidos. Obviamente que Cala a Boca, João (título deste artigo) foi uma referência à música de Dorival Caymmi, Cala a Boca, Menino (1973), pois João é um típico cantor que odeia berros, sobressaltos, devaneios e qualquer coisa que o deixa atormentado.  Com o surgimento de Chega de Saudade a reviravolta na música brasileira se fez presente e a revolução musical foi uma constante. A influência notória de João Gilberto foi fundamental para todo esse universo novo e para a posteridade, pois fora através dele que surgiram Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco e os mais atuais, como Fernanda Takai, Ná Ozzetti e outros. Para todos os efeitos, Voz e Violão (2000 / 27,90) é um disco que merece atenção por ser um disco não apenas de coletâneas, mas por ser um álbum em que contempla a importância de um grande catalisador da música ainda vivo. O que não dá para entender é como as gerações após 1960 não conseguem compreender ou encaixar João Gilberto dentro de um contexto musical ou intelectual e nem ao menos dão o seu devido valor, mesmo os grandes críticos de música saberem disso. Esse descontentamento para com ele entristece aqueles que gostam de sua música e fazem com que a geração que nasceu com Voz e Violão o desconhece. Vale a pena ouvir suas músicas, ler livros que falem sobre o cantor e estarem por dentro de sua musicalidade irretocavelmente perfeita!

 

Voz e Violão (2000) / João Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A irônia sem humor de Johnny Hooker


Johnny Hooker: imperfeito
Ainda que restem alguns cantores bons na música popular brasileira, alguns medíocres cismam em serem chamados de cantores pela mídia ou críticos da arte de cantar. Se o antigo causa um cansaço visual, musical ou atemporal para alguns, o novo causa uma sensação de frescor, jovialidade e desejo pelo que vai vir, pelo inesperado, pela desenvoltura. Mas nem sempre o que está no passado nos deixa com o ar cansado e nem sempre o novo nos causa uma sensação de alívio: muitas vezes o novo não nos surpreende, não nos detém aquela sensação de magia, de puro ar renovado, nem espanta com sua magnitude. Sim, pode causa espantamento pelo conjunto da obra, pela música inacabada, pela vestimenta, pela estranheza. E é justamente isso o que alguns críticos de música vêm fazendo atualmente: abortando muitos cantores bons e dando vida a muitos cantores sem fundamentos. Que a música brasileira sempre pediu socorro, isso sem dúvida todo mundo sabe, mas fazer com que a inteligência humana seja medíocre perante a intelectualidade crítica é padecer no inferno mais profundo do universo. O cantor, ator, compositor, diretor, artista e palhaço Johnny Hooker é de Recife e está sendo considerado um dos melhores cantores de sua geração, sendo ovacionado em casas lotadas e recebendo prêmios em que Maria Bethânia, Chico César e João Bosco já ganharam. O que causa estranheza nisso tudo é que Johnny Hooker não canta, não interpreta bem suas músicas e ironiza a todo custo com o sentimento alheio e isso faz com que a plateia entre em delírio constante, pois música que é bom, não há! Lançando Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015 / 27,99), Hooker se mostra imperfeito e desqualificado em sua função maior, que é o de cantar. Considerado como a categoria Rock Nacional, o cantor se perde em letras que buscam o surrealismo das coisas mais simples e elenca para a atmosfera carnal a revolta que o próprio sente dos amores que não deram certo em sua vida. Prova maior disso é o título irônico e vil de sua primeira obra musicada. Se levarmos em conta sua performance no palco, podemos dizer que ele pincelou um pouco de Ney Matogrosso, Maria Alcina e Itamar Assumpção e tentou utilizar a voz de Filipe Catto, cujo é uma das mais belas do momento. Agora pense tudo isso em Johnny Hooker: uma perfeita assimetria entre o ruim e o péssimo, entre aquele que ele desejou ser e não o é. Ney, Alcina, Catto e Itamar (em memória) são referência musical de qualidade e os comparar a Hooker é um grande erro, pois desmonta qualquer tipo e forma de musicalidade. A voz anasalada, a carência de personalidade e a falta de estrutura assistida de Hooker me causa uma revolta profunda, pois enquanto muitos cantores bons estão na estrada fazendo música do mais alto quilate, me surge um cantor medíocre, sem escrúpulos e sem competência para poder ser chamado de cantor.


Johnny Hooker
Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015)
Nota 0
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O brilhantismo de Elis 1973


Elis 73: simples e luxo ao mesmo tempo
Entre o grande sucesso de O Bem Amado, primeira novela à cores no Brasil, escrita por Dias Gomes, o lançamento de três álbuns importantes dentro da música popular brasileira acontecia à revelia de um grande espetáculo de público e crítica: Nervos de Aço, do sambista Paulinho da Viola, em que o cantor aparece chorando na capa e Secos & Molhados, cujos os integrantes estão apenas com as cabeças em forma de guilhotina, com Ney Matogrosso como líder maior do grupo. O Brasil estava sob a ditadura austera de Médice e tudo o que era falado e/ou cantado passava por uma rigorosa tortura física e mental. Por outro lado, a Jovem Guarda já não fazia sucesso e o estilo de roupa e os cabelos tanto de homens quanto o de mulheres, faziam enorme sucesso entre as classes sociais mais abrangentes e que recaía sobre o proletariado da vez (os grandes consumidores de toda uma geração). A efervescência musical vinha por conta de grandes acontecimentos no país e mesmo sob forte domínio político, o mundo da música ganhava peso e força à medida em que os meses se passavam. Raul Seixas, Tom Jobim e Milton Nascimento lançaram músicas (e não discos) sensacionais e conseguiram ganhar a credibilidade de líderes do partido e até mesmo de políticos que se renderam às suas músicas. Mas o grande lançamento ficou por conta de uma cantora baixinha, ranzinza, cabelos masculinizados para uma época em que a feminilidade tomava conta: Elis Regina e seu verdadeiro disco de categoria. Elis 1973 (19,99 / Philips / 1973) vai do simples ao luxo com uma assombrosa tempestade lírica de uma das maiores cantoras do país. Partindo de uma naturalidade mórbida, Elis soube ousar em todas as faixas, recriando sua própria voz, se redescobrindo a cada canção, não poupando mágicas em suas cordas vocais e se superando em um país até então dominado por cantores. Simples ao seu jeito e luxuoso por completo, Elis 1973 é um dos melhores (senão o melhor!) disco de carreira da cantora. Com composições de Gilberto Gil, João Bosco e Pedro Caetano, a cantora pôde interpretar com maestria cada faixa, degustando o seu próprio domínio de estúdio e se mostrando versátil para a música num todo, não escondendo a enorme satisfação em fazer aquele trabalho. Elis não saberia naquele momento e talvez nunca soube em vida, mas seu disco era totalmente diferente daquilo que vinha fazendo até então: sem ter uma música sequer de Milton Nascimento, Tom Jobim, Chico Buarque ou Ivan Lins, a cantora optou por reunir um seleto time de compositores para dar corpo e alma ao seu disco daquele emblemático ano. Justamente os cantores e compositores que a ditadura tanto odiava e que eram perseguidos. Resultado: Elis 1973 se tornou referência e Elis conseguiu sair da aba do impulso musical que a dominava até então. Vale lembrar que um ano antes, 1972, Elis também veio com um disco sensacional, mas dominado de clichês e falta de senso comum: o disco, mesmo sendo bom, também conseguiu ganhar notoriedade por ser exemplar e moderninho para a época. Mas é em 1973 que o grande ano de Elis acontecia: sem ser demagoga, lançou um disco em que não era política nem assombrava as pessoas (exceto pela música Agnus Sei (João Bosco / Aldir Blanc), em que criticava a Igreja; pelo contrário, fazia com que o público se aproximasse dela com mais simpatia e menos arrogância e talvez isso explique o enorme sucesso de seu disco e show Falso Brilhante, em 1976, com composição do também João Bosco. Além de ser um dos discos indispensáveis em sua discografia (tanto para Elis quanto para o público), o disco trouxe particularidades que fizeram com que o mundo da música em seus bastidores entrasse em devaneio. A começar pela música Ladeira da Preguiça, que Elis pedira a Gilberto Gil por telefone e, enquanto conversavam, o compositor baiano escrevia a letra sem ser incomodado por uma Elis estridente do outro lado da linha. Recentemente, em seu disco Gilbertos Sambas (2014), Gil disse que era impossível não se lembrar de Elis e de sua história quando canta essa música. Em segundo lugar, teve a pequena rusga entre Elis e Beth Carvalho: a sambista recusou a música Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, pois seu disco já estava completo (fechado para ser reproduzido). Então, Nelson ligou para Elis e a cantou via telefone e a cantora gaúcha se derreteu e aceitou gravá-la. O enorme sucesso da canção fez com que Beth se sentisse traída, pois o grande trabalho de Elis 1973 seria É Com Esse que eu Vou, um samba-canção de Pedro Caetano, que ganhou dimensão rapidamente. Alguns anos depois, Elis dissera em entrevistas sobre esse episódio e Beth Carvalho (que tivera crises existenciais pelo sucesso de Clara Nunes) praticamente não fala no assunto. Seja como for, Elis 1973 é um dos melhores discos de Elis e não pode ficar de fora de qualquer lista que aborde os melhores discos nacionais de todos os tempos. Elis se mostrou como uma das melhores cantoras daquele ano (em 1974 veio com o excelente Tom & Elis, referência até hoje) e sua música, sua voz, seu carisma e sua popularidade eram gritantes mesmo em um período obscuro da nossa própria história.

 

Elis 1973 (1973) / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Brasil por Clara Nunes em Nação (1982)


A Nação de Clara Nunes
Um ano antes de sua morte, a vida de Clara Nunes estava completa: ela se tornara, definitivamente, uma das maiores cantoras do Brasil, era popular, bonita, simpática e tinha todos os amigos possíveis e imagináveis ao seu redor. Tirando o fato de não conseguir ser mãe, a cantora estava trilhando um dos caminhos mais bem-sucedidos na história da arte de cantar feminino, que todos se rendiam a ela. Antes dela, apenas Carmen Miranda conseguira tal efeito, em que conseguia trilhar por diversos meios, sempre antenada com o novo e surpreendendo a todos. Elis Regina tinha falecido no fatídico Janeiro de 1982, assim como Vinicius de Moraes e Paulo Sérgio tinham nos deixado em 1980, empobrecendo a música naquela época. Nessa mesma década, os anos 1980 se tornariam o ano do rock nacional, tendo como heróis Cazuza, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outros. Mas no início dos anos 1980 quem reinava absoluta era Clara Nunes, que vinha com discos cada vez mais sensacionais, melhores e mais autênticos. Prova disso foi o estrondoso sucesso Nação (1982 / Odeon / 19,99) derradeiro disco da cantora, que marcava o começo da parceria de João Bosco com Clara. Única música do cantor e compositor mineiro gravada por Clara, Nação representa aquilo que O Canto das Três Raças, Jogo de Angola e Guerreira queriam dizer em outros tempos: a luta do brasileiro pela sua terra, pela sua nação. Clara foi a única cantora brasileira que cantou verdadeiramente o Brasil em todas as suas formalidades e suas variedades. Depois dela, nenhuma outra conseguiu ocupar seu lugar de prestígio e respeito dentro deste segmento, porque ninguém vai ser igual à Clara. Nação marca o fim da carreira promissora de Clara e aqui neste disco podemos sentir a voz embargada em algumas canções: mesmo cantando alegremente, podemos notar que a voz de Clara está mais pesada, mais fechada, mas sem perder o brilhantismo de sua emoção. Sem perder suas origens, a cantora seguiu fielmente até o fim com sua religiosidade e sua fé inabalável. Cantou e encantou as pessoas conforme foi passando os anos. Sentiu emoções de público e crítica. Tornou-se a mulher mais vendável do Brasil. E a mais criticada pela igreja também. Suas músicas em Nação denotam que sua fé era muito maior que qualquer crítica ácida que vinha debaixo, da evangelização caricatural ou da igreja com seus padres sem mentalidades. João Bosco fora um dos grandes responsáveis pelo sucesso do disco, compondo uma das músicas mais emblemáticas retratando o povo brasileiro e o próprio Brasil. Quanto à Clara: nos deixou com a responsabilidade de mantermos vivos sua herança musical tentando resguardar o Brasil do Brazil.

 

Nação (1982) / Clara Nunes

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os malabaristas de João Bosco (2002)


Ótimo disco de João Bosco
Se Elis Regina estivesse viva, na certa gravaria Malabaristas do Sinal Vermelho ou qualquer música deste CD feito por João Bosco em parceria com o filho Francisco. O clima relativamente calmo e suave, encadeado por baladinhas e bossas com cores de jazz não se parece com tons monocórdicos. Malabaristas do Sinal Vermelho (2002 / Sony Music / 22,00) é um clássico já no título do álbum. A capa vermelha nos dá a impressão certeira de que estamos diante um disco inquieto, intrigante e irresistível. E o é! João Bosco é um importante cantor da atmosfera brasileira e suas músicas foram cantadas por vários cantores de diversas gerações da MPB. Elis, considerada por muitos como a maior cantora de todos os tempos da música brasileira, foi a recordista em gravar canções do cantor e compositor e se viva estivesse, na certa cantaria com gosto e maestria qualquer música de Malabaristas. O disco nos fixa diretamente nos olhos e nos enquadra com um sorriso no canto da boca, como se João estivesse ao nosso lado, observando nossa cara de espanto e alegria conjuntas. Aqui temos um João sem disfarces nem adornos e seu estilo visceral para contar histórias está cada vez mais ácida. O conteúdo de Malabaristas do Sinal Vermelho é um livro aberto para quem quiser ler e suas músicas representam o que há de melhor na esfinge musical universal. Posto em evidência, João busca em sua música o homem delicado e sensível, moderno e jovial, adjetivos raros em tempos de velhice artistíca. João Bosco não tem pressa e o ritmo é calmo, ultrabalanceado com salsas e merengues, mineirices e carioquices e o resultado é simplesmente brilhante, divino, sensacional. O mestre João deu o recado e a carapuça serviu para quem quisesse. Há malabaristas espalhados por todos os cantos, como atesta o disco, não apenas nos semáfaros e esquinas, mas sim dentro de nossas casas, na casa do vizinho, no trabalho, na música. O eco de sua música nos deriva de qualquer suspeita momentânea: João capta os melhores ruídos e nos brinda com o melhor de sua música. Cada melodia tem um estilo monárquico de dizer algo, seja no campo amoroso, seja no campo político. Os malabaristas de João, assim como os escafandristas de Chico Buarque estão espalhados por todos os lados, por todos os campos, por todos os subníveis. Inclusive do seu.
 
 
 
Os Malabaristas do Sinal Vermelho / João Bosco
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Zii e Zie (2009) e o transambas de Caetano Veloso


Zii e Zie: sambas e reflexões de Caê
Que Caetano Veloso é embalado por orixás e deuses da Bahia de todos os santos, disso todo mundo sabe, mas na música que fecha Zii e Zie,  Diferentemente, ele deixa claro que não crê em Deus, diferentemente de Osama e Condoleeza. A música fecha o disco com chave de ouro, tendo em vista que Zii e Zie (2009 / 28,99 / Universal Music) não trata de religião e sim, de sambas e mistérios que somente um certo Caetano consegue fazer. São sambas e bambas gingados com categoria de um grande disco, embora por vezes o inquieto e belo Rio de Janeiro deixe a impressão de que tudo é samba, paz e amor. Transambas é um subtítulo adquirido e muito bem aplicado no disco, mas Caetano ousou um pouco mais ao trazer músicas como Incompatibilidade de Gênios, de autoria de João Bosco e Aldir Blanc, destoando toda a sutileza irreal da atmosfera de todo o disco. Zii e Zie é um disco de samba sincopado, desses de se ouvir sentado, alimentando e digerindo cada palavra, cada som, cada melodia. Ao todo são treze faixas em que Caetano desfila sua eterna e alegre musicalidade, sendo na sua maioria a autoria e passeando por um Rio de Janeiro colorido das praias, das favelas, da Lapa e do Leblon, além de apontar para Guantánamo e outros distantes lugares do mundo. A denúncia em A Base de Guantánamo, sobre a base militar americana em solo cubano é retratada com afinco e sabedoria, assim como Lobão tem razão que, antes de ser gravada aqui, Caetano já havia apresentado em shows anteriores, tentando arrancar emoções do público por onde passava. Menina da Ria é um oposto e uma homenagem a Menino do Rio, eternizada na voz de Baby do Brasil e aqui ganha cores de uma negra, que tanto o compositor gosta. Contemplando o disco, ainda há pérolas como Perdeu, Cais, Por quem?, Falso Leblon, a engraçada Tarado ni você, Ingenuidade, Lapa e a atemporal Diferentemente. Caetano sabe que não é mais aquele jovenzinho que queria mudar o mundo e sabia que estava ficando velho ao lançar Zii e Zie, por isso talvez tenha se cercado de pessoas mais jovens para a realização deste trabalho. A ascensão brasileira, a política, o mar, as notas híbricas e a tristeza íntima mastigada por Caetano estão todos aqui retratadas de forma sublime em um disco de alto nível. É certo que o tempo passa para todos nós, porém Caetano sempre procura se manter atual, dentro do universo que o consagrou na juventude.

 

Zii e Zie (2009) / Caetano Veloso
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os sinais de Ney Matogrosso


 
Ney em boa fase
Ney Matogrosso consegue agradar à gregos e troianos, literalmente. É um cantor que não parou no tempo, não canta músicas para ficar na memória de um subconsciente qualquer, não canta músicas intelectualizadas, como faz hoje Chico Buarque ou João Bosco e entra na onda de Caetano Veloso, Djavan e Gilberto Gil, que fazem um som mais moderninho para a idade que tem. Ney Matogrosso virou pop, cult, cool. E essa onda de modismos a qual adentrou fez muito bem a sua carreira marcada por músicas fantásticas e egocêntricas e ao mesmo tempo se transformam num cartão postal para a modernidade e, quem sabe, para a posteridade. Ney Matogrosso lançou no final do ano passado o sensacional Atento aos Sinais (2013 / 28,99 / Som Livre) título que saiu da canção Oração, de Dani Black, um dos compositores mais procurados da atualidade e que traz uma nova roupagem ao mundo de Ney, como as parafernalhas e vestimentas que todos esperavam. Desde Inclassificáveis (2008), Ney não vinha se vestindo a carater e deixou a sua voz falar mais alto do que seus passos e danças. Com Atento aos Sinais volta ao ar o velho Ney Matogrosso, o pop, o cult, o cool. Ney Matogrosso é um dos artistas mais marcantes dentro da MPB e uma das figuras mais aclamadas pela crítica especializada. Assim, talvez, pode ser definido o cantor, dono de uma carreira marcada pela irreverência e pela ousadia em suas performances e que lançou no ano passado um disco que marca seus 40 anos de carreira. O CD tem interpretação singular de Ney para compositores novos e consagrados, como Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Criolo, Vitor Ramil entre outros. Mesclando canções em uma criteriosa seleção, o repertório inclui músicas como Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola, duas de Itamar e Oração, de Dani Black, música que inspirou o título do álbum. Atento aos Sinais é um disco intimista. Com músicas de alto astral e com pitadas de politicagem, o disco vem recheado de nuances, músicas conturbadas e com um acento mais politcamente correto. Ney volta a adotar o estilo descobridor de talentos, mas veio flertar com compositores de outras estirpes musicais, como Criolo, de quem gravou Freguês da Meia-Noite, passando por Rafael Rocha em Não Consigo e tendo o seu maior talento como prova maior de que os novos são talentosos, como o caso de Dani Black. Mas em quase todo disco de Ney já podemos esperar um pouco de Itamar Assumpção, Vitor Ramil, Alzíra Espíndola e Pedro Luís e aqui não foi diferente. Embora tenha sido um erro fatal regravar Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim (ambas de Itamar) e ter escolhido uma música menos calorosa de Pedro Luís, o disco ainda assim é um dos melhores que fecharam o ano de 2013. Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim foram gravadas anteriormente por Zélia Duncan em seu disco do ano passado, em que homenageia o grande Itamar Assumpção, morto em 2003 em decorrência de um câncer, na qual o próprio Ney faz uma bela participação na segunda música citada. Em seu próprio disco, Ney (re)transforma a música, dando o ar de sua graça, mas o que acontece é um festival de canção repetida. Porém, seria melhor ter regravado Fico Louco, que só fora regrada por Virginia Rosa em seu disco de estreia e trata-se de uma música atual. Já Incêndio relembra um tempo perdido de Pedro Luís no grupo A Parede e regravar está música talvez não tenha sido um achado e tanto para o cancioneiro de Ney, já que as músicas de Pedro são sempre sensacionais (vale lembrar Miséria no Japão ou Fraterno, ambas gravadas por Ney em discos anteriores e que foram as sensações do momento). Abrindo com Rua da Passagem, um protesto de Arnaldo Antunes e Lenine, a música se tornou um sucesso nas redes sociais e veio a calhar sobre a falta de educação das pessoas nas ruas e em ambientes sociais, o que veio a calhar bem na fase de protesto do disco. Ousadia é pouco perto da sensual Beijos de Ímã, da família musical Espíndola, que nos remete às músicas de gueixa com um sotaque que só o Ney consegue fazer. Há também a profusão de palavras em Tupi Fusão, que nos remete a música Inclassificáveis e a engraçada Samba do BlackBerry. Ney conseguiu fechar o ano passado com o pé direito, digno de poucos artistas com a sua magnitude. E ainda tem tempo para ser humano, homem e sensato em não se sentir estrela.
 

Atento aos Sinais (2013) / Ney Matogrosso
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Falso Brilhante (1976): disco impecável de Elis Regina


 

Elis em momento sublime
Falso Brilhante é um dos discos mais emblemáticos da carreira de Elis Regina e foi um álbum que marcou uma época através de seus trejeitos, nuances, formas e equilibrio, que até hoje é muito comentado e lembrado por fãs que tem cada passo da cantora na mente. Praticamente nenhum outro cantor ousou em cantar as músicas imortalizadas por Elis, exceto Como Nossos Pais, que vez por outra uma cantora aqui ou outra ali se esquiva na interpretação e tentam se igualar à Pimentinha, num erro tosco e grosseiro. Elis se transforma em um dos melhores e maiores discos de sua lavra e Falso Brilhante fez a efervescência musical e teatral nos anos de 1976. Como não vivi a época deste espetáculo (eu viria a nascer alguns anos mais tarde), Falso Brilhante é um relato deixado por quem viveu intensamente naquele ano e é um registro de uma parte do repertório da bem-sucedida turnê de mesmo nome, na qual Elis se apresentou durante meses no Teatro Brigadeiro, em São Paulo, lotando a casa com cerca de 1000 lugares todos os dias.  Os relatos sobre o show a qual tive contato são impressionantes e, para escrever este artigo, me fartei de inúmeros materiais audiovisuais e conversas com pessoas que pararam suas vidas para ficarem horas na fila do ingresso ou simplesmente perderem seus respectivos trabalhos.

Vale ressaltar que a turnê de Falso Brilhante só chegou a um fim antes do previsto, porque Elis ficou impossibilitada fisicamente para continuar com o espetáculo, só para se ter uma ideia da intensidade do show. E pela primeira vez nesses anos todos de Mais Cultura!, eu me prezo sobre os dízeres de terceiros para me aventurar numa áerea em que pouco atuo: o de entrevistar pessoas anônimas sobre determinado espetáculo. Confesso que curti muito conversar com essas pessoas e saber mais sobre os anos de chumbo e cujo a censura ainda ministrava algo no país. Estar com essas pessoas aumentava ainda mais a minha voracidade em poder escrever sobre um dos discos mais importantes da música popular brasileira.

Falso Brilhante tem 10 faixas, todas gravadas em estúdio e que abarcam inúmeros estilos. Uma novidade e tanta à MPB e até mesmo a musicalidade de Elis, é que o disco vinha com uma forte influência do rock, com presença marcante da percurssão e das guitarras e além disso, o disco serviu para Elis mostrar aos críticos que era mais que uma cantora, era uma intérprete de verdade. Acreditando ou não em sua música, Elis foi acusada de ser manipuladora, fria e sem emoção a partir do álbum Elis, de 1973 (no qual está a linda É Com Esse Que eu Vou) e isso se deve ao fato de que, naquele período, a cantora ser obcecada em melhorar seu registro vocal e atingir a perfeição de sua voz. Isso fez com que ela fosse duramente criticada em todos os sentidos, mas, depois que ela amadureceu artisticamente, fez com que fôssemos presenteados com sua grande voz em um grande disco, como este de 1976.

Abrindo o disco com o maior sucesso até hoje cantado, Como Nossos Pais, que mistura rock e MPB num lirismo profano e em plena ditadura militar, a música falava da falta de esperança na juventude acomodada  que queria mudar o mundo, mas ficava no mesmo conforto de seus lares observando os aflitos de longe. A música passa a ser um soco no estômago de muita gente que queria ficar parada no tempo, a espera de um milagre qualquer. A música foi um adendo para que Belchior, o compositor, virasse estrela de primeira grandeza e, sem querer, Elis gravaria Velha Roupa Colorida, uma extensão da primeira, mas sem a carga depressiva e autoritária que ela carregava.

Fascinação é o clássico do disco, ainda que não destoe de arranjos modernos demais. Esta música também é muito conhecida, tanto pelo seu puro mito cristalino quanto pela interpretação emocionada que ganhou. Jardins de Infância, da dupla João Bosco e Aldir Blanc, é uma ótima letra, com excelente ritmo e que aqui também é magistralmente interpretada. Quero, de Thomas Roth, representa a porção folk de todo o disco, logo quebrada com a praticamente flamenca Gracias a la Vida, que é entoada em seguida.

E surge O Cavaleiro e os Moinhos, da dupla Bosco/Aldir, uma canção introspectiva, que marca ainda mais a dramaticidade de Elis. Para encerrar com chave de ouro, não havia coisa melhor do que ter Chico Buarque e sua Tatuagem (em companhia de Ruy Guerra), com uma letra romântica, suave, tenra, doce, generosa. Todo grande disco tem que ter, por obrigação, uma canção de Chico e aqui não foi diferente.

Falso Brilhante foi o maior sucesso da cantora em vida (e até hoje comentado). Assim como o show é considerado revolucionário, transgressor e antológico, sempre constando nas listas dos melhores, Elis não tinha a certeza de que estava entrando, definitivamente, para o rol das grandes divas brasileiras (mesmo cantando, às vezes, músicas que não a representaram em algumas fases de sua vida). Imparcialidade de lado (eu mesmo já critiquei severamente Elis em artigos nada pomposos), Falso Brilhante é o melhor disco brasileiro de todos os tempos, igualando com O Canto das Três Raças, de Clara Nunes, lançado também em 1976, ou Álibi, lançado por Maria Bethânia em 1978.

Se na época foi um tapa de luva na cara de quem se recusava a acreditar na espontaneidade de sua intérprete, hoje é a mais marcante lembrança dela e daquela geração que, através de sua arte, driblou a censura, a ditadura, os moralismos e os coronéis para expressar seus sentimentos com uma forma verdadeira. Elis nos faz crer na música, na sua música e no Brasil mais justo, onde a habilidade de mostrar-se nua e crua é a mesma habilidade de cantar com vestes de palhaço como se fossêmos palhaços. Músicas com respostas bem diversas e subjetivas, mas que cabem perfeitamente aqui, já que Falso Brilhante é um trabalho que foi símbolo de uma geração, de uma carreira, de uma vida, de uma diva, de Elis Regina.

 


Falso Brilhante / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O tempo de exílio musical de Chico César


Álbum de 2006: o melhor de Chico
Desde 1995 quando lançou Aos Vivos, seu primeiro disco, Chico César tem se revelado um compositor e intérprete de grande talento. Cuscuz Clã (1996), Beleza Mano (1998), Mama Mundi (2000), Respeitem meus cabelos, brancos (2002) e De uns tempos pra cá (2006) reiteraram suas qualidades. Sem tirar nem pôr. Embora críticos afoitos e imbecis e intolerantes e carcarás, impressionados antes de mais nada com a baixa vendagem de seus discos, estejam agourando de plantão por sua derrocada derrota. Bobagem. Basta ouvir com atenção os seis discos de Chico César para perceber neles uma continuidade admirável do processo criativo. E hoje o talento de Chico César cruza fronteiras e se estende da Europa ao Japão, da Argentina aos Estados Unidos. Enfim: de Catolé para o mundo. Este paraibano de Catolé do Rocha tem se revelado um compositor de primeira linha da MPB. Seu processo de criação segue as diretrizes antropofágicas de Oswald de Andrade que apregoa a deglutição de toda e qualquer cultura, sem espécie alguma de preconceito, visando à produção um objeto singular, genuíno e, por que não dizer, brasileiro. O Tropicalismo bebeu fartamente nas águas do saber oswaldiano. Juntou Carmen Miranda com Miles Davis; Chacrinha com Chaplin; samba de roda com atualismo, Eisenstein com Vera Cruz, Mondrian com Di Cavalcanti, Vicente Celestino com Stravinsky. O resultado todos conhecemos: um forte movimento artístico-musical que hoje, por exemplo, deita suas raízes sobre os nomes mais interessantes da MPB, das artes plásticas, do teatro, do cinema e até da moda.

Chico César é uma legítima cria do Tropicalismo. Ele incorpora conscientemente o projeto tropicalista, nas letras, nas melodias, nas roupas, nas performances, no palco, no uso da voz. Sua atuação no cenário artístico nacional e internacional apaga as fronteiras entre a cultura considerada erudita e a cultura considerada popular. Associa o forró ao jazz, a ciranda ao reggae, a poesia concreta ao cordel, o haikai a letras discursivas. Curte misturar Augusto de Campos com Cego Aderaldo; Woody Allen com Mallarmé; cavalo de pau com sandália havaiana; nirvana com seca nordestina; Jimmy Cliff com Mandela.

Antenado com as coisas do nosso tempo, suas canções sempre mexem conosco. Umas pelo ritmo; outras, pelas melodias; outras pelas letras; e outras, finalmente, por reunirem todos estes itens com qualidade. Percebe-se que em sua obra desponta uma consciência de linguagem, ou seja, um projeto intencional de construir a criação, de experimentar com as linguagens, de buscar algo novo e, ao mesmo tempo, harmônico. Afinal, antes de mais nada, uma canção popular tem de associar o belo ao agradável. Há exceções: ótimas canções, porém nada agradáveis. Não me refiro a elas. Busco um consenso mais amplo: canção é espaço poético de letra e música cantadas harmoniosamente. Cantadas com a naturalidade de quem fala. Chico César canta como quem fala. Às vezes ele fala mesmo, como em Béradêro, de 1995, ou Solidariedade, Papo cabeça, ambas de 1997, Aquidauana, 2000. Nos dois discos mais recentes Chico César tem feito canções propriamente ditas. Está dançante em Respeitem meus cabelos, brancos e melancólico em De uns tempos pra cá. Mas sempre muito musical.

Chico César faz sua antropofagia se servindo no prato da História da MPB, da Poesia, da Cultura Popular, da Política Internacional, etc. Come até se lambuzar. Um exemplo rápido: no forró Paraíba, meu amor (1998; o título já nos remete ao título e ao refrão de São São Paulo, do eterno tropicalista Tom Zé), o compositor paraibano associa o forró pé-de-serra e a voz de Flávio José a uma letra sofisticada que lá pelas tantas diz: não quero chorar / o choro da despedida / o acaso da minha vida / um dado não abolirá. A cadência envolvente do forró cai bem na citação dos célebres versos mallarmaicos: um lance de dados / jamais abolirá o acaso. Casar a poesia de Mallarmé com as festas de São João é instalar a parabólica no mangue, como apregoa o movimento musical Mangue Beat, também herdeiro do Tropicalismo.

Versos à frente, na mesma música, o compositor refere-se à fogueirinha de laser que ilumina os festejos do meu coração, cruzando as festas do interior com o novo coração do poeta que, longe da terrinha natal, e agora Pós-moderno, pulsa no ritmo envolvente do forró.

O tom melancólico de De uns tempos pra cá, seu trabalho conciso, explora com muita propriedade o uso de cordas do Quinteto da Paraíba sob arranjos de Nelson Ayres, Mário Manga, Adail Fernandes e Nailor Proveta. O resultado é um disco com nova sonoridade dentro da produção de Chico César. A percussão é suave e se destaca apenas na última faixa (a mais rítmica) nas mãos ultracriativas de Escurinho em Orangotanga. Todas as músicas são de Chico César, à exceção de A nível de, de João Bosco e Aldir Blanc e Cálice de Chico Buarque e Gilberto Gil e Outono aqui, uma versão feita pelo próprio Chico. E 1 valsa p/ 3 é a única feita em parceria com Chico Pinheiro.

Elba Ramalho tem participação especial na arrigobarnabeana Por causa de um ingresso do festival matou roqueira de 15 anos. Aparente paradoxo: Elba canta contida e ousadamente. Sua ousadia está no modo de canto-dizer a canção, indo do melódico ao atonal, sem rebuscamentos. Esta é a Elba que fica. Ou, ao menos, a que deve ficar. E Chico César sabe extrair o melhor da intérprete. Esta canção ainda traz uma bem-vinda novidade: a voz e a autoria de Pedro Osmar na falação de um texto, no mínimo, provocador. A faixa, de nome extenso, tirado de uma manchete d um jornal carioca , por ocasião do I Rock in Rio, é uma das mais bem realizadas, num disco de rigores.

Chico César: o tempo passa, e ele fica ainda mais zeloso com a coisa musical. Suas composições e regravações revelam um compositor e um intérprete insatisfeitos com os altos níveis atingidos em discos anteriores. É preciso ouvir De uns tempos pra cá. O disco mereceu pouca atenção da crítica e quase não toca no rádio. Será que teremos de amadurecer para assimilarmos o talento deste paraibano? Ou esperar a chegada de um novo David Byrne para um novo Tom Zé?

 

De uns tempos pra cá / Chico César

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Fascinação é o melhor álbum de coletâneas de Elis - e só!


O melhor de Elis está aqui
Elis Regina ainda é considerada por alguns critícos medonhos como a maior cantora do Brasil, mas seus discos, na maior parte deles, não são tudo isso. Elis era histriônica e ficou mais conhecida não por sua música, mas sim por suas frases de efeito moral e constrangedor e pelo fato de ter lançado compositores ávidos por música boa e de qualidade e que estavam em um momento propício para isso. Seu álbum mais completo com relação as coletâneas lançadas após a sua morte é duplo Fascinação, lançado originalmente em 1988. Depois deste álbum, muitos outros vieram, com capas horrendas e músicas ditas inéditas, o que não é verdade. Em Fascinação (1988 / EMI / 25,99) temos praticamente tudo aquilo que Elis cantou em discos pouco caprichados ou sem acabamento algum e que reforçam, aqui, o melhor da cantora.

 Há vários momentos e fases na vida da Pimentinha, mas que nem sempre seus discos ajudavam, mas Elis fez discos que valeram muito a pena, como Elis (1973), Elis, Essa Mulher (1979), Falso Brilhante (1976) ou o antológico Elis & Tom, gravado em 1974, que foi um marco na carreira de Tom Jobim juntamente com a marrenta Elis Regina e um disco que não pode faltar na sua prateleira.

Fascinação é a melhor coletânea de Elis e isso fica evidente pelos trabalhos respectivos que vieram à tona: fracos, feios e oprimidos. Aqui, Elis recebe carinho e tratamento especial, com uma capa geniosa demonstrando sua face de cantora de protesto numa bela pintura e com estrelas norteando sua presença. As músicas retratam várias passagens da cantora, como O Fino da Bossa, época de grande prestígio tanto para Elis como para Jair Rodrigues, o grande amigo da cantora.

De João Bosco a Renato Teixeira, passando por Milton Nascimento e Ivan Lins, Fascinação tem de tudo um pouco e nos por vezes me faz acreditar que ela é a maior cantora do Brasil. Não desmerecendo a tragetória de Elis, que nos brindou com algumas das melhores músicas da MPB, aqui destacadas nesta coleção. Para gostar de Elis é preciso um disco assim, com os melhores sucessos de sua carreira e não um disco qualquer de um ano qualquer. Assim o ouvinte de primeira viagem poderá perder a vontade de conhecer toda a sua obra ou ao menos vasculhá-la.

Elis não tem as melhores músicas, mas gravou um punhado de canção legal, que futuramente, com algumas cantoras, como Zizi Possi ou Daniela Mercury soaram até melhor e menos agressivas. Elis era Elis e ainda continua sendo Elis, mas não foi a cantora suficientemente boa e pensante para fazer discos futuros para que pudessêmos ficar horas e horas ouvindo. Por vezes, cansa. Por dias a esquecemos. Mas vira e mexe estamos lá ouvindo ao menos uma canção sua. E Fascinação é uma boa pedida nesses momentos.

 

Fascinação – Elis Regina

Nota 10

Marcelo Teixeira