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sábado, 28 de julho de 2018

Os truques de Anitta

Os truques salientes de Anitta
Não podemos tirar o mérito da cantora Anitta de que ela é um sucesso estrondoso aqui no Brasil e angaria a passos tímidos sua incursão em países da América Latina, Europa e todo o Continente. Em alguns países, como México, por exemplo, ela praticamente domina as paradas de sucessos e já é muito requisitada para programas de TV e rádios locais. Mas em países como Colômbia (em que precisará brigar muito com a dona do pedaço, Shakira), Anitta ainda não reinou, mas conseguiu entrar bem timidamente. Portugal, Argentina, Paris, Londres e em alguns outros países ela ainda engatinha, mas o efeito maior mesmo está no país do Chaves, Chesperito e Chapolin Colorado, talvez como uma troca de favores.

Diferentemente do que muitos pensam, Anitta é muito mais esperta que todos no quesito fazer truques: ela tira onda em suas músicas, planeja muito bem como fazer de seus singles um verdadeiro fenômeno e tira de tudo isso um proveito absurdo, sem ao menos... abrir tanto a boca. Explico: em músicas como Bang, de 2015 (mesmo que ainda cante e bem), Paradinha (2017) Vai Malandra (2017), Machika (2018) e o agora sucesso Medicina (2018), Anitta mal abre a boca, mais dança do que canta e nos engana muito bem com seu portunhol esquisito. Não estou aqui querendo dizer que Anitta não é uma boa cantora ou que seu sucesso não é merecido. Estou dizendo justamente o contrário, até porque, no início de sua carreira eu mesmo fui totalmente contrário ao seu estilo de fazer música brasileira e a chamei de medíocre quando queria usar e abusar da comunidade carente para se autopromover.

Mas se você reparar bem nas músicas da cantora, verá que a mesma praticamente não canta muito, que mais dança e rebola do que pratica o ato de soltar a voz. Outra coisa que me deixa muito intrigado é o fato da cantora sempre ter um parceiro para dividir os vocais e isso está em praticamente noventa por cento de suas músicas. Em Vai Malandra ela canta tão pouco, que cheguei a acreditar que ela não estava no clipe. Agora em Medicina o efeito se repete: além de colocar várias crianças e jovens de outros países fazendo o refrão (La La La La La La), ela canta pouco, explora mais o cenário e os países pelos quais perpassa e pronto: clipe feito, música cantada, sucesso estrondoso e ‘bora’ fazer outro sucesso.

Formada em Administração, Anitta é o fenômeno que é devido ao seu caráter, seu estilo despojado e seu lado humano: o povo precisava de uma cantora que os representassem. Isso aconteceu com Carmen Miranda nos anos de 1930, Clara Nunes e Elis Regina nos anos de 1970, Rita Lee e Marina Lima nos anos 1980, Daniela Mercury nos anos 1990, Ivete Sangalo nos anos 2000, Anita nos anos 2010. Ainda risco em dizer que Anitta é a cópia de Ivete, mas em graus diferenciados, porque Ivete explorou muito seu lado baiano, enquanto que Anitta não tem uma identidade cultural, não ficando restrita apenas ao Rio de Janeiro, mas representando todo o Brasil, indo de encontro com a identidade ideológica da História.

Todas essas cantoras citadas tiveram e têm uma representatividade muito grande dentro da MPB e souberam utilizar seus espaços com uma organização temporal incríveis. Hoje Anitta é a maior cantora do Brasil, segundo especialistas de música mais antenados do que esse crítico que vos escreve aqui e agora e que você está lendo-o. Sua grandiosidade artística impera entre aqueles que se sentem representados por ela e que estão órfãos com tantos acontecimentos em prol da maior detentora do pódio musical brasileiro: Ivete teve duas filhas, se afastou da mídia por um tempo, se dedicou à família e o público não consegue ficar muito tempo sem uma representante oficial, mesmo que essa representante não tenha sutilezas ao fazer músicas que perdurem vinte ou trinta anos, como uma Carmen, uma Clara, uma Elis, uma Rita ou uma Daniela. Anitta é a Carmen Miranda do século XXI, mas seu espelho maior é a sombra da Ivete, só que em tamanho menor.


Os truques de Anitta
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Síssi da Marina Lima


Síssi na Sua: último disco bom
Lançado originalmente no ano 2000, Síssi na Sua (2000 / Universal Music / 29,00) foi relançado por um site de músicas no ano de 2016 com formato de download e o feito foi tão grande que alçou a carreira meteórica da cantora Marina Lima ao topo das mais clicadas virtualmente. Pudera: Síssi na Sua é um disco deliciosamente primoroso, com começo, meio e fim e que tem um brilho sinestésico capaz de nos hipnotizar profundamente. Quando lançado, a voz de Marina já não estava tão boa, passando por uma depressão repentina que afetou suas cordas vocais a ponto da cantora pensar em desistir da carreira. Sem lançar discos há um tempo, Síssi na Sua é um disco que tem a missão de retomar a carreira da cantora, passando a limpo todos os pontos nevrálgicos de sua estadia dentro da música e de mostrar sua importância e seu talento assimetricamente. Aqui estão reunidos seus maiores sucessos, como Fullgás, À Francesa, Nem Luxo Nem Lixo, Deixa Estar e Acontecimentos. A depressão, tão recorrente em sua vida, assim como a maioria das canções compostas anteriormente à Síssi falam de desencontros, solidão e de uma infinita busca pela respiração em meio aos ruídos da metrópoles. A cantora piauiense com naturalidade carioca faz ótimas releituras em grande estilo e com a primazia de uma grande intérprete da nossa música, sendo alguns deles com arranjos novos e outras sem retoques. Mesmo com a voz não soando brilhantemente como nos tempos áureos, a cantora faz questão de mais recitar suas pérolas do que cantá-las, mas isso não importa tanto, pois o que vale aqui são as músicas, coisa que nós mesmos, como ouvintes, podemos fazer. Estando mais leve e sem a preocupação de querer agradar, Marina se mostra mais autêntica e solta do que em discos anteriores, em que o crivo central era a massificação pela canção perfeito e o respaldo em ser o disco do ano. Roqueira nata, a cantora deixa claro que o que importa é a sua música como mote maior e o que ela mais pede em Síssi na Sua é que cantemos com ela. Então, cantemos com Marina Lima suas depressões, suas solidões e seus tormentos.

 

Síssi na Sua (2000) / Marina Lima
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de junho de 2016

A suma importância de Marina Lima


Marina: popular, elitista e agressiva no Rock
Há uma atmosfera que ronda a música popular de alma roqueira e agressiva de Marina Lima e que está gravada em praticamente toda a sua discografia, não deixando margens para que o seu universo se perca por entre ruínas dissoluveis e papiros transgressores. Para os anos de 1980, Marina Lima representou não apenas a alma roqueira da cantora brasileira como bem salientou que não era preciso ter voz para alcançar altas notas ou que fosse um mero produto do mercado naquele momento. Marina represento mais do que sua própria música exigia: representou o lirismo e a ingenuidade do rock na sua mais plena satisfação. A suma importância de seu nome na música brasileira representa a maior divindade corporativa de um segmento que ainda persiste até hoje, com outras nuances e outros objetivos. Sim, o rock mudou. A música brasileira mudou. Se de um lado havia uma Rita Lee tresloucada e uma Ângela Ro Ro que bebericava dessa mesma fonte mas numa outra vertente mais romântica, de outro lado e com mais conformismos, tínhamos Marina Lima, cantora composta dentro de sua neutralidade, que cantava auilo que sua voz permitia e aquilo que sabia que o povo queria ouvir. Por traduzir tão fantasticamente o cenário carioca, a cantora nascida no Piauí revela em seus discos o estilo único da mulher que consegue compor em sua forma magistral. Marina foi a nordestina que mais bem traduziu o Rio de Janeiro em sua forma geográfica, geométrica, plural, popular, elitista e hermética. Suas músicas são o reflexo poderoso de um tempo que o próprio tempo tenta apagar, com algumas ressalvas conservadoras e com alguns aspectos privativos. Atrevida, sensual, erótica, provocadora, instigante, Marina Lima foi tudo e mais um pouco em sua meteórica carreira blindada entre a solidão na arte de compor e a alegria na arte de se lançar. Marina conheceu a tristeza e as amarguras de uma década marcada pelo bom som e pela decadência da boa música, mas nem por isso sua majestade gloriosa derrapou: ela soube o momento de parar para dar lugar às novas vozes. Vozes essas que não chegaram ao seu estrelismo, ao seu magnetismo e nem ao seu talento. Marina Lima foi única, lunar, absolutamente ela. Longe dos holofotes devido a um grave problema de saúde nas cordas vocais e depois de uma depressão severa, a cantora ainda  lança discos (menos convidativos, mas originais) ainda é referência quando se fala de rock, de musicalidade nacional e de competência artistíca. Para quem não a conhece, seu nome é Marina Lima.
 
A suma importância de Marina Lima
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A importância do álbum de Bebel Gilberto (1986)


Bebel: disco rejeitado por ela?
A primeira cantora a gravar Eu preciso dizer que te amo foi justamente uma das compositoras deste clássico, Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto. A canção, composta a seis mãos, foi gravada originalmente em 1986 para o disco inicial e experimental da cantora, intitulado apenas de Bebel Gilberto, contendo apenas 5 músicas. Não foi um grande lançamento na época e hoje em dia a própria cantora recusa saber a origem deste disco, mas o fato é que o álbum tem uma importância significativa dentro da história da MPB, na magnitude meteórica de Cazuza e, mais do que nunca, na vida da própria Bebel. Pra início de conversa, esse disco foi produzido pensando na amizade que Bebel tinha com Cazuza (seu grande amigo) e Dé Palmeira, seu então namorado. A época de seu lançamento, o disco não surtira efeito esperado e Cazuza não era tão famoso assim a ponto de ser reconhecido por suas letras e por esse motivo, passara desapercebido pelo grande público e crítica. Inclusive nos dias de hoje, o disco, raro no mercado, desperta a curiosidade apenas de fãs da cantora e por parte dos amantes da música nacional. Mas o que era para ser um motivo de orgulho, passa a ser um motivo de depreciação da cantora, que não gosta muito de seu início de carreira. Convenhamos que a voz de Bebel não era lá grande coisa e nem estava em evidência quando surgiu como interprete, tendo como concorrentes as principais vozes do escalão de Marina Lima, Zizi Possi, Angela Ro Ro, mas sua importância para os anos seguintes seria de grande valia. Seja como for, Bebel Gilberto (1986 / WEA / 35,00) é um disco que merece destaque e atenção pelo conjunto da obra. Produzido por Chico Neves, o disco fora de fato gravado em 1986 e teve como destaque duas grandes canções já imortalizadas nas vozes de Bebel, Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Zizi Possi, Ney Matogrosso, entre outros: Mais Feliz e Eu preciso dizer que te amo. Dois clássicos de extrema importância para ambos os cantores que fizeram destas canções verdadeiros hinos. Mas o que chama mais a atenção é a negação deste disco pela própria cantora nos dias de hoje. Bebel quase não canta essas músicas (Eu preciso dizer que te amo ela ainda cantarola), mas os outros nem sinal de que lhe pertencem. Algumas mídias colocaram em pauta que Tanto Tempo (2000) seria o primeiro trabalho de Bebel, o que não é verdade e mesmo assim, a cantora não chegou a desmentir esses veículos. Houve um boato até de que a cantora teria pedido para a gravadora Warner Arquivos retirar do mercado, sob escolta judicial, do CD do mercado recentemente, o que não ficou totalmente esclarecido, mas o fato é que o disco não se encontra tão facilmente. Embora Bebel tenha sido a grande detentora da música e ser a responsável pela gravação original, quem ganhou os holofotes pela primazia da canção foi Marina Lima, que a regravou, em 1987, para seu disco Virgem, tornando-se um dos grandes hits daquele ano e sendo campeã de vendas. A voz de Bebel era a de uma garota fanha, mais preocupada com os agitos dos amigos do que com a responsabilidade profissional em ser uma cantora. Anos depois houve um giro gigantesco em sua vida e Bebel pôde, enfim, mostrar sua versatilidade com discos antológicos e merecedores de aplausos tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Bebel Gilberto (1986) / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Belas e Feras, de Vânia Bastos, destoa o melhor da MPB


Ótima voz, ótimo disco
Uma das mais belas vozes da MPB, Vânia Bastos ainda não é uma cantora reconhecida pelo grande público e isso se deve a falta de informação que muitos carregam dentro de si e pela alta dosagem de música sem fundamento que assola o cenário musical, esmagando, quase que por completo, artistas de excelente gabarito. Mas quem está antenado com o melhor da música brasileira, sabe que Vânia Bastos é uma cantora completa, digna de uma refinada voz e com discos que exprimem o quanto a MPB é valorizada. E é com esta valorização que hoje resenho o disco Belas e Feras, lançado em 1999. O álbum, somente com músicas de compositoras de altíssimo nível, demonstra o quanto o país hoje é tomado pelo sexo feminino num todo. Ganhando o título de Belas e Feras, Vânia dá o recado numa forma generosa de homenagear suas colegas, sem deixar cair a peteca e fazendo de sua voz um grande e maravilhoso álbum.

O oitavo disco de Vânia vêm com pitadas saborosas de Marina Lima, Ângela Ro Ro, Joyce, Lucina, Dona Ivone Lara, Adriana Calcanhotto e até Daniela Mercury como letrista formidável que acabou se consolidando. O álbum, acima de tudo, é romântico, aonde o amor é incondicional e as mulheres são fortes e o cantar de Vânia deixa o disco tão belo, tão harmonioso e simples, que chega a ser lindo de ouvir. Sublinhamente aconchegante, Belas e Feras adentra meu universo e carrego na emoção ao ouvir tamanho clamor de uma excelente cantora e que todos deveriam conhecer e carregar no coração a beleza pura de uma voz única.

Do começo ao fim, o disco se mostra capaz de nos agarrar pelo sentimento aflorado de canções marcantes com tonificação exclusiva de Vânia. Impossível ficarmos sem repetir uma faixa sequer, pois quando o disco se encerra, queremos ouvir mais e mais. E é assim que Vânia Bastos entrou em minha vida: com um disco a altura de uma grande cantora, com músicas significativas e com uma voz de arrepiar.

 

Belas e Feras / Vânia Bastos

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O fim de Zezé di Camargo?


Seria o fim do sertanejo?
Para um cantor, seja lá seu estilo ou sua qualidade musical, perder a voz ou chegar ao ostracismo de tentar cantar e não conseguir é um martírio que poucos querem passar um dia na vida. Chegar a berrar ao microfone, segurar com voz embargada e não conseguir atingir notas que um dia alcançou, é fraquejar diante sua própria profissão. O ofício de cantar de verdade é para poucos e não para amadores, como vem acontecendo recentemente no Brasil e isso está virando uma febre incontrolável, que está sendo uma benção divina alguns cantores perderem suas vozes ou estar dando adeus à profissão. E temos três casos de cantores que estão lutando para manterem vivas suas vozes horrendas e distorcidas e manterem acesas o tal brilho apagado por anos a fio musicando sabe-se lá o que: Marina Lima, que já nem consegue falar, grande compositora, péssima cantora. Leonardo, mais conhecido como o irmão de Leandro, fazendo deles os irmãos de sucesso na música caipira brasileira e Zezé de Camargo, mais conhecido como o pai da Wanessa Camargo e basta. Três vozes que não farão diferença caso se calem.

Zezé di Camargo me chama a atenção neste artigo de hoje, porque o vi cantar no programa Altas Horas, de Serginho Groissman e sua voz estava fadada ao silêncio e a caricatura de um homem pequeno fazendo tamanho esforço para exprimir sua voz. Como eu disse, cantar é um ofício para poucos e o tempo vai dando sinais de que nossa voz é um desses ofícios naturais de graves e agudos que podemos perder gradativamente ou simplesmente mantê-la intacta com exercícios de fonoaudiologia. Perdemos a elasticidade da pele, morrem-se células, aparecem rugas, cabelos brancos tornam-se mais visíveis, mas tudo isso não é o que acontece com um dos maiores ícones da música sertaneja. Zezé está ficando mudo.

E o que isso significa? Que teremos paz em nossos ouvidos, que a música popular agradecerá muito por este feito e seremos agraciados por uma perda reparável. Zezé de Camargo e o irmão metido a chique brega, Luciano, não gravam um verdadeiro disco de sucessos há anos e este processo não se torna natural para eles, que venceram barreiras e obstáculos cantando É o Amor e No Dia em Que Saí de Casa. Pelas estatísticas que eles mantiveram até hoje, a dupla mereceria maior destaque musical, tendo ao seu lado os melhores profissionais da mídia e tendo um sucesso atrás do outro. Mas com novos irmãos na parada, caso do sensacional Vitor e Léo, e de duplas diversas que explodiram no cenário musical, o espaço para Zezé de Camargo e Luciano diminuiu drasticamente. Não é de se estranhar que Leonardo recentemente disse que vai parar de cantar e no dia em que isso acontecer, o Mais Cultura! irá fazer agradecer durante uma semana.

A conversa de que Zezé estaria perdendo a voz se estende desde 2008 e até alguns amigos, como o cantor Bruno, da dupla com Marrone, já confirmou isso. Lembro que houve muita comoção na época, mas vendo hoje a gravidade do problema, posso não afirmar, mas em poucos anos, Zezé suspende a chuteira e a música, para alguns, estará melhor, para outros, estará órfã.

 

Marcelo Teixeira

O fim de Zezé di Camargo

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A malandragem no samba de Mart'nália


Não tentem rotular a cantora Mart’nália. Isso é tarefa perdida e é tarefa de quem não entende de música. Madrugada mostra porque ela é uma das melhores cantoras do Brasil atualmente. Sem o resquício dos sambas baianos que marcaram Menino Do Rio, seu disco anterior no qual foi acompanhada por músicos da banda de Maria Bethânia (e ainda teve a produção do maestro da baiana, Jaime Alem), Madrugada apresenta Mart’nália em um ambiente do qual se mostra muito mais íntima. O disco pode ser considerado, com algumas exceções, um disco solar. Com muito mais peso do que seus trabalhos anteriores, Madrugada é um típico disco de samba carioca, sem aquela cara industrializada que permeia o trabalho de alguns grandes sambistas que tanto sucesso fazem atualmente. Logo na primeira faixa do disco, Alívio, mostra realmente o valor de um verdadeiro disco. A parceria do produtor e baixista Arthur Maia com Djavan funciona muito bem na voz de Mart’nália. O soul abolerado, verdade seja dita, é um início bem morno. Sorte que Tava Por Aí, um samba-pop bacaníssimo – um dos melhores do disco –, composto pela própria com o fiel parceiro Mombaça, coloca o álbum nos eixos. Com o peso do surdo e uma grande letra (Sou Zé Malandro, sou de rua / E bem que eu gosto / São Jorge é quem manda na lua / Me disse que eu tudo posso), a segunda faixa mostra realmente o que o ouvinte pode esperar de Madrugada.

As seis canções seguintes seguem o estilo malandro de ser da cantora. Deu Ruim, um samba mais lento, com destaque para os tamborins de André Siqueira, desce bem. Mas não tão bem quanto Ela é a Minha Cara, música de Celso Fonseca, produzida pelo próprio e que por vezes parece ser meio autobiográfico. Misturando uma guitarra jazzy (também de Fonseca) com surdos e tamborins e uma bela letra de Ronaldo Bastos (Causa reboliço aonde passa / Desce mais redondo que a cachaça / Ela é a fulana de tal), a música é outro bom momento do disco. Celso Fonseca também produziu duas regravações, digamos, um pouco perigosas: Batendo a Porta, clássico de 1974, do segundo disco de João Nogueira, e Sai Dessa, gravada por ninguém menos do que Elis Regina em seu último disco.

Difícil dizer em qual Mart’nália se sai melhor. Celso Fonseca transformou Sai Dessa em um elegante samba jazzificado, que ficou bem parecido, mas, ao mesmo tempo, bem diferente da quase insuperável gravação de Elis Regina. E em Batendo a Porta, a ótima guitarra (jazzística, mas uma vez) de Celso Fonseca, quase ofusca a excelente interpretação de Mart’nália. Já Não Encontro Quem Me Queira e Fé, ambas produzidas por Arthur Maia são mais populares (e isso não é uma crítica) do que as trabalhadas por Celso Fonseca. A primeira, composição de Thiago Mocotó, segue o estilo despojado dos Demônios da Garoa, enquanto que a segunda, com a letra esperançosa de Jorge Agrião e Evandro Lima (A gente tem que levar fé / Acreditar não sucumbir / Na vida sabe como é / Cuidado pra não se iludir), poderia muito bem fazer parte do repertório de Zeca Pagodinho.

As quatro faixas seguintes poderiam realmente representar a Madrugada do álbum. São canções mais introspectivas e com arranjos mais discretos. Em Angola, na qual, como o próprio título já sugere, Mart’nália se aproxima dos ritmos africanos (cheia de marimbas, congas e timbales), se afastando do samba, o que faz dela apenas uma canção mediana. A regravação de Alegre Menina, música que alçou Djavan ao estrelato, é o oposto de Sai Dessa. Se na canção gravada por Elis, a filha de Martinho se saiu muito bem, na composição de Dori Caymmi e Jorge Amado, o resultado não foi dos melhores. Apesar de Mart’nália cantar com um estilo bem próprio, a sua gravação não supera a (esta sim, pelo visto, insuperável) de Djavan. E a participação de Luiza Possi na faixa é dispensável, aliás, o que anda acontecendo com Luiza Possi? Recentemente, ela desperdiçou um talento e tanto no DVD e CD do pagodeiro Thiaguinho.

Mas quando regrava a obra de seu pai, Mart’nália se sai bem melhor. Tom Maior, clássico do primeiro disco de Martinho da Vila, ganha mais uma interpretação – Marina Lima já a havia registrado em seu Acústico MTV – primorosa. Emoção à flor da pele. Na faixa seguinte, Sem Dizer Adeus, a cantora ainda consegue se superar. Das canções que não fazem parte do universo do samba, esta, de Paulinho Moska, é, sem dúvidas, a melhor. A voz de Mart’nália juntamente com o violoncelo de Lui Coimbra e o clarinete de Ademir Jr., tudo envolto por uma belíssima letra (Se eu não sei o nome do que sinto / Não tem nome que domine o meu querer / Não vou voltar atrás / O chão sumiu a cada passo que eu dei) fazem desta canção outro grande destaque de Madrugada.

Por isso eu peço para não rotularem Mart’nália. Sinto informar, mas, querendo Mart’nália ou não, acabou superando. E muito!

 

Madrugada / Mart’nália

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A melhor fase de Rita Lee


 


A perfeição de Rita está aqui

Estou começando a achar que a Rita Lee de antigamente era mais legal, mais simpática e mais degustadora do que a Rita Lee de hoje, embora a essência de sua musicalidade seja a mesma que a de ontem e um pouco rebuscada que a de hoje. Gosto das músicas antigas da Rita, porém, algumas (raras) canções atuais, conseguem nos prender em um disco inteiro de sua autoria.  Hoje trago para o Mais Cultura! o disco de 1980 intitulado apenas Rita Lee, e que segue na mesma linha do disco homônimo de 1979. É muito difícil dizer qual é o melhor dos dois (eu pendo um pouco mais para este por razões estritamente pessoais). Rita e Roberto estão no auge da forma com muito rock'n'roll, balada, pop e música de festa. Eles inauguram o pop brasileiro da década de 80, sem perder as raízes roqueiras da rainha.

Lança Perfume está no inconsciente de qualquer um que tivesse mais de 10 anos em 1980. Bem-me-quer é rock'n'roll no melhor estilo, e a letra é sensacional. Destaque para a guitarra fuzz de Roberto. Baila Comigo foi a principal balada de 1980.

Shangri-lá é outra balada. Bem lenta, a instrumentação aqui é bem econômica, uma levada de ovation acompanhada por teclado (e voz). No final entram, suaves, percussão e baixo. Caso Sério é um bolerão que tem a ginga emprestada a dupla por Roberto e a sensualidade que se tornou a marca de Rita Lee.

Nem Luxo Nem Lixo, como Chega Mais (de 79), começa com um super riff de metais. Marina Lima regravou uma versão legal na virada do milênio, mas esta aqui ainda é campeã, com direito a acordeom e tudo mais. João Ninguém é um reggae no melhor estilo A Cor-do-Som. A letra conta a história de João Ninguém, sem talento pra ser feliz, milionário por vocação, lembrando seus tempos de cronista com os mutantes. E o disco termina botando pra quebrar com Ôrra Meu!, puta rock stoniano pra lembrar a galera que ali estava a guerrilheira-forasteira Rita Lee.

Este disco talvez entre para o meu imaginário e eu goste tanto, porque eu nem era nascido ainda! E, pra mim, tudo o que o Brasil produzira de melhor estava antes ou durante a década de 1980.

 

Rita Lee / Rita Lee

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Especial Chico & Caetano, de 1986


Chico e Caetano: grande encontro
Eu era uma criança e não entendia absolutamente nada de música em 25 de abril de 1986, quando a TV Globo promoveu um encontro de seus telespectadores com a Música Popular Brasileira. Chico Buarque e Caetano Veloso foram convidados para apresentar um programa musical onde cantavam suas músicas e promoviam encontros musicais entre artistas do Brasil e do mundo. Uma vez por mês, a noite de sexta-feira era dedicada a Chico & Caetano, uma honraria e tanto para apreciadores dos dois gênios da arte e para quem viria a ser um crítico e amante da música anos depois. A proposta do diretor Daniel Filho, aliada ao roteiro de Nelson Motta, tornou o programa de uma descontração imensa, na qual o contraponto entre a irreverência de Caetano Veloso e a timidez de Chico Buarque dava margem a muitas situações inusitadas. Os ares da Ditadura Militar não mais imperavam no Brasil, e o programa, de certa forma, celebrava as pazes entre Chico e a Rede Globo. O artista foi boicotado pela emissora durante boa parte do período militar, em especial por suas canções serem mal vistas pelos ditadores.



Você traz a Coca-Cola

Eu tomo

Você bota a mesa

Eu como

Eu como eu como eu como eu como

Você



Trecho de Você Não Entende Nada, de Caetano

                                                                 



Na estreia, Chico e Caetano repetiram um número presente no show Caetano e Chico - Juntos e ao vivo (que foi lançado em disco na década de 1970): um medley com Chico Buarque cantando Você não entende nada, de Caetano, e Caetano Veloso cantando Cotidiano, de Chico. O programa teve a participação de Luiz Caldas, Rita Lee e Maria Bethânia. As duas cantoras fizeram um marcante dueto no qual cantaram Shangrilá e Baila comigo. Nos duetos, eles fizeram interpretações memoráveis de canções como O quereres, Partido alto e Sem compromisso, Festa imodesta e um medley com Esse cara e Com açúcar, com afeto. Os cantores também tinham seus números solos, nos quais cantavam músicas lançadas na época - Caetano Veloso interpretou Milagres do povo, música que fez para a minissérie da TV Globo Tenda dos milagres, e Chico Buarque cantou Sentimental e O último blues, canções do filme Ópera do malandro.

Todo dia ela faz tudo sempre igual:

 Me sacode às seis horas da manhã,

 Me sorri um sorriso pontual

 E me beija com a boca de hortelã.

Trecho de Cotidiano, de Chico



A participação dos convidados podia alternar. Em alguns momentos, o encontro era só com um dos cantores (caso do dueto de Caetano Veloso com Marina Lima em Fullgás e de Chico Buarque cantar com Os Paralamas do Sucesso), em outros o encontro eram com ambos os cantores, caso de Águas de março, no qual eles dividiram os vocais com Tom Jobim.

Obviamente que hoje os especiais da TV Globo viraram figurinha básica na lista de qualquer colecionador e admirador de ambos os artistas, que recentemente se encontraram para uma entrevista muito interessante na revista Bravo!. Ambos os cantores estão bem no alto de seus 70 anos e celebrar essa data relembrando um dos especiais mais marcantes (talvez até mesmo do que os especiais de Roberto Carlos na própria emissora) é celebrar o que há de melhor na Música Popular Brasileira.



Especial Chico & Caetano

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Tempo de Julia Bosco


Tempo, de Julia Bosco
A cantora Julia Bosco lança o primeiro CD, Tempo, demonstrando que veio com fome e vontade de ocupar um espaço nobre e elegante na música popular brasileira. Filha de João Bosco e frequentadora das rodas de samba da Lapa carioca, ela opta por canções que fogem ao que se poderia esperar dessas referências e caminham em direção ao intimismo, à delicadeza e ao romantismo nada piegas, mas que se manifesta nos mínimos detalhes cotidianos. É o que se percebe logo na primeira faixa, Desavisados, parceria com o marido Fabio Santanna, que também toca teclados e guitarra, além de aparecer na autoria de todas as faixas do disco.

O álbum conta com duas participações para lá de especiais. A primeira é a de Marcos Valle, nos vocais, rhodes e moog de Curtição, nova parceria do casal Julia e Fabio, marcada por um clima bem suingado e ensolarado, graças à bateria e percussão de Ronaldo Silva e dos metais de Marlon Sette, Altair Martins e José Carlos Bigorna. Agora as metas da cantora parecem ficar clara nos versos: A curtição / É um desejo / De perseguir / A minha estrada / Minha voz / Se faz presente / Num canto solto / Que vagueia por aí.

A segunda participação especial é de João Bosco, tocando violão na delicada Na Oração, que recita alguns versos como um poema: Na oração eu fecho os olhos / Ajoelho e agradeço / Pela fé e proteção / Que renova meus defeitos / Ilumine meu caminho / Noite e dia, cada instante / E a luz que se faz única / Se revela agora e sempre / Na oração. Também vale a pena prestar atenção na força dos vocais de Cecília Spyer.

A sensualidade, com uma pegada "caetaniana", aparece na gostosa Confusão, composta apenas por Fabio Santanna: Rapte-me, adapte-me, abrace-me / Jazz me com você / Com você, amor. Já em Mesmo Princípio, é possível sentir a influência de várias outras cantoras do pop nacional, como Marina Lima e Fernanda Abreu. Ela é marcada pelo ótimo baixo de Lancaster Lopes, combinado com a bateria de Ronaldo Silva. Os versos, novamente compostos pelo casal, trazem um romantismo à flor da pele: Ainda conservo / Tudo no mesmo lugar / Fica um vazio / Quando você não está / Sua presença / Ainda sinto no ar.

O que falar então do dueto de Julia Bosco e Fabio Santanna na "new bossa" Play a Fool, composta por ele, que assume ter sido um tolo e assume que o período em que a amada esteve fora da vida dele foi o tempo em que esteve em seus pensamentos. As desculpas parecem vir na delicada balada Tudo Sempre: Nem tudo o que você disser / Eu vou lembrar / Mas tudo que você lembrar / É onde eu vou estar / Nem tudo que já consegui / Você sabe eu não agi bem / Mas vamos esquecer as dores / Se eu te faço bem.

Em Dia Santo, Julia Bosco estabelece mais um diálogo com Marina Lima. Apesar das referências claramente africanas, reforçadas pela percussão e bateria de Ronaldo Silva, Julia canta Eu vi o rei chegar / Eu vi o céu se abrir / Vi você se aproximar / Vi a luz cegar. Em 1993, Marina Lima gravou uma canção chamada justamente Eu Vi o Rei Chegar: Eu vi o rei chegar / Um rei assim / Que não escuta bem / Que adora luz / Mas não vê ninguém.

O clima cool segue na divertida Carta para uma amiga, que opta por um recurso caro à música popular brasileira - da carta ou do diálogo em que se escuta apenas uma das partes. Basta lembrar das sempre clássicas e inesquecíveis Sinal Fechado, de Paulinho da Viola; e Bye Bye Brasil, de Chico Buarque e Roberto Menescal. Em seguida, vem o ótimo samba reggae cadenciado Mutantes. Nessa canção, os vocais de Fabio Santanna remete também ao racional Tim Maia.

Tudo Bem começa com uma pitada salseira, marcada pelos metais de Marlon Sette e Altair Martins, e pelos rhodes de Ge Fonseca. Já a referência da gostosa Angel parece ser o músico, cantor e compositor francês Serge Gainsbourg. Para encerrar, a doce Tempo, de Fabio Santanna, é marcada pela bonita voz de Julia Bosco, em total harmonia com o piano e o órgão de Ge Fonseca: Deixe marcas no meu rosto / Venha triste e então prossiga / E me ensine a aprender com a dor / Mas não me deixe esquecer / Sempre há algum tempo....

Tempo não é, definitivamente, um álbum com grandes inovações e com pretensões de renovar a música brasileira. Talvez justamente por vir como algo despretensioso, é extremamente prazeroso de se ouvir e marca uma estreia de gente grande, de quem mostra vontade de vir para ficar. E depois de ouvi-lo bem que dá vontade de aproveitar as tardes ensolaradas desse verão e sair para namorar. Ah, e na produção aparece também Plínio Profeta, cujo nome você deve estar se acostumando a sempre encontrar nessas resenhas de CDs como sinônimo de qualidade.
 
Acompanhe o tempo de Júlia Bosco. Soboreie Júlia Bosco. Ela veio para ficar.



Nota 10

Tempo / Julia Bosco



Marcelo Teixeira