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quarta-feira, 7 de maio de 2014

As colheitas de Mariene de Castro


A força no canto de Mariene de Castro é sagrada e a sua luz é tão forte que provavelmente demorará a se apagar. Mariene está de disco novo e talvez seja o melhor de sua carreira, mesmo depois de mostrar os santos de sua casa e a homenagem a Clara Nunes. Não que sejam trabalhos menores, mas até ali, a cantora vinha provando o que o público queria realmente saber de sua musicalidade e agora Colheita veio acolher o seu tempero e sua apuração. Mariene destoa música caprichadas, bem arranjadas e com fácil apelo popular. Mas não pensem que o tal apelo popular seja sinal de música comercial: a música de Mariene de Castro vai mais longe e alcança ares mais profundos. Quem assina a produção do disco é o competente Max Pierre, que já produzira discos importantes no cancioneiro nacional. Em temporadas de surgimento de cantoras deprovidas de talento e voz, entre o certo e o errado e entre música de qualidade com bordões exdrúxulos, a qualidade de Mariene surpreende pelo seu canto, pela força de sua voz, pelo eco de seu brilho e pela brasilidade que carrega. Colheita (23,99 / Universal / 2013) é um disco de samba de raiz, de predicado, de respeito e de ginga e tem a participação mais que especial de Maria Bethânia em A força que vem da raiz (Roque Ferreira) e na faixa título, Colheita (Zeca Pagodinho / Rildo Hora). Beth Carvalho é a outra convidade, não com o mesmo brilho de Bethânia, e canta Samba da benção (Baden Powell / Vinicius de Moraes) e o maestro Jaques Morelembaum juntamente com a bateria da Portela estão em Aquela da Amazônia (Toninho Geraes / Toninho Nascimento). Baiana de nascimento, Mariene entra para o rol das grandes divas da música popular brasileira com um disco a sua altura e competência, com faixas que demonstra toda a sua cultura de grande dama do samba. O samba está em seu sangue e sua voz está por todas as partes.

 

Colheita (2013) / Mariene de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O pagode de Leo Russo


Voz de preto, jeito moleque
A semelhança entre Leo Russo e Diogo Nogueira é enorme. Os dois tem olhos azuis, pele clara, são sambistas e, de quebra, quase a mesma voz. Mas isso não interfere em ambos os talentosos artistas, até mesmo porque ambos são excelentes cantores. Leo Russo está lançando um CD na praça em que convidou bambas cariocas para um divertimento e dessa festa nasceu parcerias musicais incríveis, como a participação de Dudu Nobre, o próprio Diogo Nogueira e a Velha Guarda da Portela, fazendo uníssono em algumas das belas canções. A única coisa chata na carreira de Leo é a sua semelhança com o filho ilustre de João Nogueira, porque o resto ele comanda a festa na melhor maneira possível. Leo Russo lança Leo Russo (2013 / Independente / 24,99) com pompa dos grandes sambistas do Rio e faz deste momento um único caminho para trilhar o sucesso. Tirando as aparências de lado, Leo canta e encanta nas catorze faixas que compõe o disco e nos presenteia com um pagode pé de serra feito pelos grandes bambas de outros carnavais, como Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Roberto Ribeiro. De uma coisa é fato: Leo Russo é um expoente desta geração a qual não viveu musicalmente, mas que cresceu ouvindo o melhor do pagode e do samba de sua cidade. O Rio de Janeiro produziu os melhores e maiores letristas, sambistas e puxadores de samba  de todos os tempos e Leo Russo veio para brilhar e dar continuidade a este segmento.

Voz de preto e jeito moleque, Leo Russo é um loiro que caiu no samba sendo influenciado por Zeca Pagodinho. Com um pandeiro nas mãos, o cantor reconhece que é preciso batalhar bastante para se ter um lugar ao sol. Dono de uma voz malemolente e contagiante, Leo faz de seu samba um tom maior para se firmar na música como sendo ele próprio mais um integrante das rodas cariocas. Suas letras são convidativas e sua alegria é presente nas faixas que encantam o ouvinte. Primeiro disco do cantor e compositor, Leo é um sambista romântico que consegue transformar as dores de amor por um bom partido alto.

Como vertente musical, Leo nasceria exatamente desta manifestação popular completamente ao seu estilo e registrando os acontecimentos musicais ao seu redor e sua música veio batizar esponteneamente o novo estilo de se fazer música, inovando o pagode derivado do samba carioca. A malandragem dos morros cariocas fez de Leo Russo ser um dos mais autênticos sambistas da atualidade e seu disco comprova esta autenticidade. Seu pagode, como manifestação cultural brasileira, aparece justamente no momento em que o estilo pede uma inovação no estilo.

Sua voz agrada, seu estilo agrada. Leo Russo é um cantor brasileiro, que canta samba ou pagode da melhor qualidade possível e isto reflete como sendo o melhor momento tanto para ele quanto para a nossa música popular brasileira.

Salve, salve, Leo Russo.

 
O pagode de Leo Russo / Leo Russo
Nota 8
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

10º Maior Cantora do Brasil: Miúcha


Miúcha na seleta lista
Com 75 anos de idade (o que não parece), a cantora Miúcha ainda continua na estrada, gravando discos, fazendo shows, sendo reconhecida a cada dia pelo seu trabalho e sendo uma das vertentes únicas dos tempos dos anos dourados de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Com uma voz sedutora e sensual, Miúcha é um ícone da música popular brasileira e que consagrou a bossa nova por um todo com sua maestria e genuinidade. Filha do historiador Sérgio Buarque de Hollanda e de Maria Amélia Buarque de Hollanda, Miúcha nasceu Heloísa Maria Buarque de Hollanda e é irmã do cantor e compositor Chico Buarque e das também cantoras Ana de Hollanda e Cristina Buarque. Foi criada em São Paulo em um ambiente de música. Sua casa era frequentada por Vinicius de Moraes e outros compositores. Ainda menina, formou um conjunto vocal com os seis irmãos. Nos anos 1960, ganhou do governo francês uma bolsa de estudo em História da Arte. Matriculou-se na Sorbonne e na École du Louvre. Nessa época, viajou pela Itália e Grécia com dois amigos e o violão, tocando pelas cidades por onde passava. A experiência resultou em uma apresentação no bar La Candelaria, em Saint Germain, onde atuava Violeta Parra, que convidou João Gilberto para ouvir a cantora brasileira que interpretava bossa nova. Pouco tempo depois, mudou-se para Nova York e casou-se com João Gilberto, com quem teve a filha Bebel Gilberto, que se tornaria também cantora.

Iniciou sua carreira artística em 1975, participando do disco The best of two worlds, de João Gilberto e Stan Getz, lançado em Nova York. Ainda nesse ano, atuou no Newport Jazz Festival, apresentou-se em shows com Stan Getz e gravou a faixa Boto no LP Urubu, de Tom Jobim. Em 1977, gravou, com Tom Jobim, o álbum Miúcha e Antonio Carlos Jobim, com destaque para as faixas Maninha, composta especialmente para ela pelo irmão Chico Buarque, Pela luz dos olhos teus (Vinicius de Moraes) e Vai levando (Chico Buarque e Caetano Veloso). Nesse mesmo ano, participou do show Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha, que ficou quase um ano em cartaz no Canecão (RJ), seguindo depois em turnê pela América do Sul e Europa. O espetáculo foi gravado ao vivo e lançado em disco.

Em 1979, gravou, com Tom Jobim, o LP Miúcha & Tom Jobim, contendo, entre outras, Triste alegria, de sua autoria, Falando de amor (Tom Jobim) e Dinheiro em penca, única parceria de Tom Jobim com o poeta Cacaso. O disco contou com a participação de Ron Carter e com arranjos de Claus Ogerman. Em 1980, lançou o LP Miúcha, que contou com arranjos de João Donato e com a participação de sua filha Bebel Gilberto (voz), na faixa Joujoux et Balangandans (Lamartine Babo), e também de João Gilberto (violão), nas faixas All of me (Gerald Marks e Seymour Simons) e O que é, o que é (Bororó e Evagrio Lopes). Constam, ainda, do repertório duas músicas de sua autoria: Todo amor e Segura a coisa, essa última hino do bloco de mesmo nome do Carnaval de Olinda, mais tarde regravada pela cantora com a Banda do Maestro Duda.

Em 1989, apresentou-se, com o compositor João de Barro (Braguinha) e o conjunto Coisas Nossas, no musical Yes, nós temos Braguinha, criado e dirigido por Ricardo Cravo Albin. O espetáculo foi montado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, para a entrega do Prêmio Shell de 1989 a Braguinha, e percorreu todo o Brasil. Nesse mesmo ano, gravou mais um LP intitulado Miúcha, que contou com a participação especial de Pablo Milanés e sua banda, em gravação realizada em Cuba. Registrou no disco quatro parcerias de Guinga e Paulo César Pinheiro, Chorando as mágoas, Por gratidão, Non sense e Porto de Araújo, além de Para viver, versão de sua autoria para a canção Para vivir (Pablo Milanés), entre outras músicas. Ainda em 1989, o jornal francês Le Monde incluiu dois de seus discos entre os sete melhores de música brasileira do ano.

Em 1999, lançou o CD Rosa amarela, com arranjos de Maurício Carrilho e J. Moraes, registrando as canções Cabrochinha (Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho), João e Maria (Chico Buarque e Sivuca), De você eu gosto (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), A mesma rosa amarela (Carlos Pena Filho e Capiba), Doce de coco (Hermínio Bello de Carvalho e Jacob do Bandolim), Pressentimento (Élton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho), Santo Amaro (Luiz Claudio Ramos, Franklin da Flauta e Aldir Blanc), Assentamento (Chico Buarque), Por causa desta cabocla (Ary Barroso e Luiz Peixoto), Choro bandido (Chico Buarque e Edu Lobo), Valsa de uma cidade (Ismael Netto e Antônio Maria), Só o tempo (Paulinho da Viola) e Querelas do Brasil (Aldir Blanc e Maurício Tapajós). O disco foi lançado inicialmente no Japão, após shows realizados pela cantora nesse país, e, em seguida, no Brasil, pela BMG Brasil. Realizou várias apresentações em Cuba e no Japão.

Em 2002, lançou o CD Miúcha.compositores, com produção musical de José Milton e arranjos de João Donato, Francis Hime, Cristóvão Bastos, Leandro Braga, Eduardo Souto Neto e Hélvius Vilela. Constam do repertório do disco as cações Pode ir (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes), o samba-canção inédito Quando a lembrança não vem (música de João Donato e letra de Tom Jobim), Canção inédita (Edu Lobo e Chico Buarque), que inclui uma citação a Tchaikovsky feita pelas cordas de Cristóvão Bastos, Fox e trote (Guinga e Nei Lopes), Tomara (Novelli, Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro), Cor de cinza (Noel Rosa), E daí (Miguel Gustavo), Solidão (Tom Jobim e Alcides Gonçalves), Lembre-se (Moacir Santos e Vinicius de Moraes), Refém da solidão (Baden Powell e Paulo César Pinheiro), Vento (Cristóvão Bastos e Abel Silva), A dor a mais (última parceria de Fancis Hime com Vinicius de Moraes), faixa que inclui uma citação a Medo de amar (Vinicius de Moraes), e Você, você (primeira parceria de Guinga e Chico Buarque), faixa que contou com a participação de Guinga, ao violão, além de Tempo de amar (parceria inédita da cantora com João Donato). Ainda em 2002, trabalhou na produção de um documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda.

Em 2003, sua gravação com Tom Jobim da música Pela luz dos olhos teus, lançada em 1977 no disco Miúcha e Antônio Carlos Jobim, foi tema de abertura da novela Mulheres apaixonadas (Rede Globo), tornando-se um sucesso ainda maior. Nesse mesmo ano, lançou o CD Miúcha canta Vinicius & Vinicius - Música e letra, contendo exclusivamente obras nas quais Vinicius de Moraes é autor da música e da letra: Tomara, Ai quem me dera, Saudades do Brasil em Portugal, Medo de amar, Serenata do adeus, Valsa de Eurídice, Teleco Teco, Tempo será, Pela luz dos olhos teus, Encontro à tarde, Canção de nós dois e Cem por cento, além das inéditas Georgiana e Quem for mulher que me siga. Eduardo Souto Neto, Cristóvão Bastos, Helvius Vilela e Leandro Braga assinaram os arranjos do disco, que contou com a participação de Chico Buarque, Bebel Gilberto, Zeca Pagodinho, Daniel Jobim, Toquinho e Yamandú Costa, entre outros artistas.

Lançou em 2007 o CD Outros sonhos, dedicado a Tom Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes. No repertório, Uma palavra e a canção-título, ambas de Chico Buarque, Você vai ver e Chansong e Fotografia, ambas de Tom Jobim, Eu te amo/Dis-moi comment e Anos dourados (Tom Jobim e Chico Buarque), Quando tu passas por mim (Vinicius de Moraes e Antonio Maria), Amei tanto/Pra que chorar (Baden Powell e Vinicius de Moraes), Desalento (Chico Buarque e Vinicius de Moraes), Gente humilde (Garoto, Chico Buarque e Vinicius de Moraes), Olha Maria (Tom Jobim, Chico Buarque e Vinicius de Moraes) e Todo o sentimento (Cristóvão Bastos e Chico Buarque). Também nesse ano, foi co-roteirista de um documentário sobre Antonio Carlos Jobim, dirigido por Nelson Pereira dos Santos.

Chegando ao décimo lugar, o Mais Cultura! destaca uma cantora que merece o respeito mútuo por todos pela sua qualidade musical e por seus amigos que fizeram o Brasil ser um pouco mais culto. Com vocês, Miúcha.

 

10º Lugar: Miúcha

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

17º Maior Cantora do Brasil: Paula Lima


Paula Lima no 17º lugar
Paula Lima é formada em piano clássico e em Direito pelo Mackenzie, marcou a sua entrada no mundo da música com o grupo Unidade Bop (ex-Unidade Móvel), que teve lançamento pelo selo Eldorado. Logo em seguida, em 94, fez backing vocal para Jorge Ben Jor no disco 23; cantou no sucesso da dupla de rap Thaíde e DJ Hum (Senhor Tempo Bom), integrou o grupo Zomba e por fim caiu no baile do Funk Como Le Gusta, com o qual se destacou com a releitura de Meu Guarda-Chuva (composição de Ben Jor quando ainda era só Ben). Em 2001 lançou seu primeiro cd solo pelo selo Regata Records, o É Isso Aí, recebendo elogios de crítica e público. Com o álbum foi indicada à categoria de revelação pelo Prêmio Multishow. Dois anos depois, foi a vez de gravar o álbum Paula Lima, com o instantâneo sucesso Gafieira S/A, lançado pela Universal Music. Nesses dois álbuns compôs canções com Seu Jorge, Bernardo Vilhena e Ed Motta.

Em 2003 teve esses dois primeiros álbuns lançados na Europa e Japão, recebendo o É isso aí o título de Diva Paulista. Gravou com a banda japonesa Mondo Grosso, a música Life, obtendo reconhecimento internacional. Em dezembro de 2005 foi convidada para representar o Brasil na África do Sul, no principal evento musical do continente – o Kora Awards - que reúne personalidades musicais e políticas. O cd Sinceramente, lançado em 2006, pela Indie Records, terceiro de sua carreira, teve a primeira tiragem esgotada em menos de um mês. Conceituado por ela, na produção, além da própria, contou com outros dois produtores de primeira, Luís Paulo Serafim e Walmir Borges, este também diretor musical de sua banda. O repertório pesquisado e conduzido por Paula foi feito sob medida e conta com composições inéditas de alguns admiradores confessos como Seu Jorge, Ana Carolina, Zélia Duncan, Mart’nália, Arlindo Cruz, Leci Brandão, entre outros consagrados nomes da MPB.

O álbum também foi lançado no Japão e diante do sucesso, Paula foi capa da revista Latina, com 05 páginas sobre seu trabalho. O cd segue rumo à América Latina, iniciando sua entrada pelo México, Estados Unidos e Europa, com turnê agendada para o final de 2008 e início de 2009. Com Sinceramente a cantora recebeu duas indicações ao Prêmio Tim de Música, de 2007 e também foi indicada ao Prêmio Toddy como melhor Álbum de MPB. Recebeu ainda o prestigiado Troféu Raça Negra na categoria de melhor cantora.

Ainda no mesmo ano, deixou sua marca no Carnaval de Salvador: fez tremer e levou ao delírio o público presente no Camarote Oceania com seus 05 shows de puro balanço. Como mestre de cerimônia, convidou para participações especiais, três inusitados parceiros: Marcelo D2, Nasi do IRA! e Toni Garrido, mostrando assim um de seus pontos fortes: o livre trajeto e o respeito entre seus parceiros.

No final de 2007, recebeu o convite para evento internacional em Angola, Belas Divas, em homenagem às personalidades femininas que tiveram grande atuação no país. Acompanhada de sua banda, com sua marcante presença envolveu a todos, chegando a fazer um dueto com o presidente, que entoou isso é problema dela. Foi a única brasileira e estrangeira presente e também homenageada.

No percorrer de sua trajetória musical cantou ainda ao lado de outros grandes nomes da música brasileira, entre eles: Jorge Benjor, D. Ivone Lara, Milton Nascimento, Nando Reis, Luiz Melodia, Arlindo Cruz, Zélia Duncan, Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Rita Lee entre outros. Para Jorge Benjor, ela é a sua Menina dos Olhos e para D. Ivone Lara, que se encantou também resumiu, O Samba Precisa Dela.

Com certeza outras histórias estão por vir da diva de voz, presença e originalidade ímpares, com muita brasilidade, balanço e swing únicos e é por toda a sua musicalidade que Paula Lima chega ao décimo sétimo lugar na seleta lista das grandes cantoras do Brasil.

 

17º Lugar: Paula Lima

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

26º Maior Cantora do Brasil: Elza Soares


A grande Elza Soares
Considerada a primeira e única voz do século pela rede BBC de Londres, Elza Soares nasceu em 23 de Junho de 1937 no Rio de Janeiro. Filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro. Cantava, desde criança, com a voz rouca e o ritmo sincopado dos sambistas de morro. Aos 12 anos, já era mãe e aos 18, viúva. Foi lavadeira e operária numa fabrica de sabão e, com 20 anos aproximadamente, fez seu primeiro teste como cantora, na academia do professor Joaquim Negli, sendo contratada para cantar na Orquestra de Bailes Garan e a seguir no Teatro João Caetano. Em 1958, foi a Argentina com Mercedes Batista, para uma temporada de oito meses, cantando na peça Jou-jou frou-frou. Quando voltou, fez um teste para a Rádio Mauá, passando a se apresentar de graça no programa de Hélio Ricardo. Por intermédio de Moreira da Silva, que a ouviu nesse programa, foi para a Rádio Tupi e depois começou a trabalhar como crooner da boate carioca Texas, no bairro de Copacabana, onde conheceu Silvia Teles e Aluísio de Oliveira, que a convidou para gravar.

No seu primeiro disco, gravado em 1960, pela Odeon, cantou Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), alcançando logo grande sucesso. Esse samba fez parte de seu primeiro LP, com o mesmo titulo da música. A seguir, foi para São Paulo SP, para trabalhar no show Primeiro festival nacional de bossa nova, no Teatro Record e na boate Oásis, gravando depois seu segundo LP, A bossa negra. Em 1962, como artista representante do Brasil na Copa do Mundo, que se realizava em Santiago, Chile, cantou ao lado do representante norte-americano, Louis Armstrong. Nessa época ficou conhecendo o futebolista Garrincha, com quem casaria mais tarde. No ano seguinte, gravou pela Odeon o LP Sambossa, tendo como destaque as músicas Rosa morena (Dorival Caymmi) e Só danço samba (Tom Jobim e Vinícius de Moraes); e, em 1964, lançou pela Odeon Na roda do samba (Orlandivo e Helton Meneses), faixa-título do LP.

Realizando inúmeras apresentações pelo Brasil e nas emissoras de televisão, os LPs se sucederam: em 1965, foi a vez de Um show de beleza, pela Odeon, com, entre outras, Sambou, sambou (João Melo e João Donato), e Mulata assanhada (Ataulfo Alves); em 1966, saiu pela mesma gravadora o LP Com a bola branca, onde cantou Estatuto de gafieira (Billy Blanco) e Deixa a nega gingar (Luís Cláudio). Apresentou-se, em 1967, no Teatro Santa Rosa, no show Elza de todos os sambas, e, novamente pela Odeon, gravou em 1969, o LP Elza, Carnaval & Samba, cantando sambas-enredo, como Bahia de todos os deuses (João Nicolau Carneiro Firmo, o Bala, e Manuel Rosa) e Heróis da liberdade (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira). Em 1970 foi para a Itália, apresentando-se no Teatro Sistina, em Roma, e gravando Que maravilha (Jorge Ben e Toquinho) e Mascara negra (Zé Kéti).

Nesse mesmo ano, gravou o LP Sambas e mais sambas, pela Odeon, interpretando músicas como Maior é Deus (Fernando Martins e Felisberto Martins) e Tributo a Martin Luther King (Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli). De volta ao Brasil, em 1972, lançou, pela mesma etiqueta, o LP Elza pede passagem, onde interpretou Saltei de banda (Zé Rodrix e Luís Carlos Sá) e Maria-vai-com-as-outras (Toquinho e Vinícius de Morais), e apresentou-se no teatro carioca Opinião, no show Elza em dia de graça. Ainda nesse ano, passou uma temporada realizando um show no navio italiano Eugênio C, fez um espetáculo de duas semanas na boate carioca Number One, cantou no Brasil Export Show, realizado na cervejaria Canecão, do Rio de Janeiro, e recebeu o diploma de Embaixatriz do Samba, do conselho de música popular do Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro.

Em 1973, gravou o LP Elza Soares, pela Odeon, cantando Aquarela brasileira (Silas de Oliveira) e Pranto de poeta (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito); e apresentou-se no show Viva Elza, que estreou no T.B.C., na capital paulista, e que depois foi levado em vários Estados. Nos dois anos seguintes, lançou pela Tapecar mais dois LPs, Elza Soares, com Bom-dia, Portela (Davi Correia e Bebeto de São João) e Chamego da crioula (Zé Di); e Nos braços do samba, com faixa-título de Neoci Dias e Dida. Gravou ainda Pilão+Raça=Elza (1977), Somos todos iguais (1986) e Voltei (1988). A partir de 1986, com a morte de Garrinchinha, seu filho com o jogador de futebol Garrincha (1933 – 1983), passou nove anos na Europa e nos EUA. De volta ao Brasil, gravou em 1997 o CD Trajetória, só de sambas, com músicas de Zeca Pagodinho, Guinga e Aldir Blanc, Chico Buarque, Noca da Portela, Nei Lopes e outros.

Chegando ao 26º lugar na lista das 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos, Elza Soares se mostrou uma cantora de fibra, coragem e muita ousadia, marcando para sempre a sua geração e todas as gerações seguintes.

 

26º Lugar: Elza Soares

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

29º Maior Cantora do Brasil: Simone


Simone e seu romantismo
Na história da MPB a tradição romântica de Simone foi intensificada nos anos 1980 e os temas de amor romântico e paixão, foram amplamente explorados por diversos cantores e compositores. Simone, que desde o início da carreira interpretou predominantemente canções românticas, figura dentre elas e é por isso que ela entra na categoria de cantora romântica. O repertório abrange mais de 380 interpretações, um dos mais vastos e diversificados dentre as vozes femininas, compondo um verdadeiro mosaico de estilos. O amor romântico ou idealizado, a paixão, (Começar de Novo, Jura Secreta, Corpo, Medo de Amar nº 2, Raios de luz, Lenha), o samba (O Amanhã, Disputa de Poder, Ex-amor) e a religiosidade (Cantos de Maculelê, Reis e rainhas do Maracatu, Então é Natal, Ave Maria, Jesus Cristo) são os mais recorrentes na obra. Ao longo da infância e juventude as principais referências deste repertório romântico foram Roberto Carlos, Milton Nascimento e Maysa Matarazzo, de quem é grande fã e que grande influência exerceu na carreira, Dolores Duran, Ângela Maria, Nora Ney e Elizeth Cardoso -- as maiores expoentes do gênero samba-canção ou fossa. O gênero, comparado ao bolero, pela exploração e exaltação do tema amor-romântico ou pelo sofrimento de um amor não realizado, foi chamado também de dor-de-cotovelo.

O samba canção (surgido na década de 1930) antecedeu o movimento da bossa nova (surgido ao final da década de 1950, em 1957), com o qual Maysa já foi identificada. Mas este último, herdeiro do jazz norte-americano, representou um refinamento e uma maior leveza nas melodias e interpretações em detrimento do drama e das melodias ressentidas, da dor-de-cotovelo e da melancolia. O legado de Maysa, ainda que aponte para dívidas com a bossa, é o de uma cantora mais dramática e a voz é mais arrastada do que as intérpretes da bossa e por isso aproxima-se antes do samba-canção e do bolero. O declarado gosto pessoal da cantora por boleros advém desta herança musical. Ao lançar o CD Fica Comigo Esta Noite, comentou que bolero é bolero, o que é fácil é fácil.

Já como intérprete, Ivan Lins, Vitor Martins, Milton Nascimento, Fernando Brant, Paulo César Pinheiro, Gonzaguinha, Chico Buarque, Martinho da Vila, Fátima Guedes, João Bosco, Aldir Blanc, Isolda, Roberto Carlos, Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho da Viola, Sueli Costa e Abel Silva são os compositores com maior número de interpretações na sua voz. O repertório atual inclui ainda Zélia Duncan, Cássia Eller, Adriana Calcanhotto, Aldir Blanc, Joyce, Martinho da Vila, Ivan Lins, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e Lenine.

Simone é uma das grandes cantoras deste país, sem sombra de dúvidas e precisamos manter viva esta categoria a qual ela pertence.

 

29º Lugar: Simone

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Salve, Jorge


O protetor dos escritores
São Jorge é um dos santos mais populares que o Brasil conhece e é por isso que é o mais cantado por todos os seus fieis seguidores, como cantada apenas como musicalidade instituída na canção. E a popularidade do soberanamente perfeito São Jorge vai aumentar, tendo em vista que a novela de Glória Perez vai abordar durante os próximos nove meses sobre o santo guerreiro. É o santo padroeiro em diversas partes do mundo: Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia, da cidade de Moscou e, extraoficialmente, da cidade do Rio de Janeiro (título oficialmente atribuído a São Sebastião), além de ser padroeiro dos escoteiros, e da Cavalaria do Exército Brasileiro. Há uma tradição que aponta o ano 303 como ano da sua morte. Apesar de sua história se basear em documentos lendários e apócrifos (decreto gelasiano do século VI), a devoção a São Jorge se espalhou por todo o mundo.

Mas São Jorge é cultura e muito venerado por muitos. Caetano Veloso talvez seja o cantor mais conhecido por ter feito a canção Lua de São Jorge, assim como Jorge de Capadócia é uma música de Jorge Ben, interpretada também por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e pelos Racionais MC's. O dia 23 de abril, para algumas das religiões afro-brasileiras, é o dia em que se fazem homenagens ao santo.

Existe um romance sobre São Jorge criado pelo escritor italiano Tito Casini chamado Perseguidores e Mártires (no Brasil, editado pelas Edições Paulinas, por volta de 1960). No livro, São Jorge é retratado como o verdadeiro paladino da Capadócia que, apesar de ser perseguido pelo tirano imperador Diocleciano, manteve-se fiel ao Império Romano, mas também a Cristo e se recusou a contrair alianças com o genro do imperador, Galério, que pretendia ter o apoio do conde da Capadócia para deliberar um golpe contra Diocleciano, o que terminantemente, o santo militar recusou. São Jorge é o Santo Padroeiro da Cavalaria do Exército Brasileiro.

Zeca Pagodinho gravou recentemente em seu álbum Uma Prova de Amor a música Ogum com uma letra com um forte apelo ao sincretismo, a oração de São Jorge é feita no trecho final da música pelo cantor e compositor Jorge Ben. Moacyr Luz e Aldir Blanc fizeram em homenagem ao santo a música Medalha de São Jorge, que foi gravada pela Cantora Maria Bethânia em 1992.

De Zeca Baleiro a Vinicius de Moraes, passando por Wilson Simonal, Seu Jorge e Leila Pinheiro, São Jorge é um dos santos mais cantados e aclamados por uma legião fiel de seguidores ávidos por suas lutas e conquistas. E é por este motivo que o Mais Cultura! de hoje revência este santo guerreiro.

Salve, Jorge!

Salve, Jorge!

Marcelo Teixeira

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A malandragem no samba de Mart'nália


Não tentem rotular a cantora Mart’nália. Isso é tarefa perdida e é tarefa de quem não entende de música. Madrugada mostra porque ela é uma das melhores cantoras do Brasil atualmente. Sem o resquício dos sambas baianos que marcaram Menino Do Rio, seu disco anterior no qual foi acompanhada por músicos da banda de Maria Bethânia (e ainda teve a produção do maestro da baiana, Jaime Alem), Madrugada apresenta Mart’nália em um ambiente do qual se mostra muito mais íntima. O disco pode ser considerado, com algumas exceções, um disco solar. Com muito mais peso do que seus trabalhos anteriores, Madrugada é um típico disco de samba carioca, sem aquela cara industrializada que permeia o trabalho de alguns grandes sambistas que tanto sucesso fazem atualmente. Logo na primeira faixa do disco, Alívio, mostra realmente o valor de um verdadeiro disco. A parceria do produtor e baixista Arthur Maia com Djavan funciona muito bem na voz de Mart’nália. O soul abolerado, verdade seja dita, é um início bem morno. Sorte que Tava Por Aí, um samba-pop bacaníssimo – um dos melhores do disco –, composto pela própria com o fiel parceiro Mombaça, coloca o álbum nos eixos. Com o peso do surdo e uma grande letra (Sou Zé Malandro, sou de rua / E bem que eu gosto / São Jorge é quem manda na lua / Me disse que eu tudo posso), a segunda faixa mostra realmente o que o ouvinte pode esperar de Madrugada.

As seis canções seguintes seguem o estilo malandro de ser da cantora. Deu Ruim, um samba mais lento, com destaque para os tamborins de André Siqueira, desce bem. Mas não tão bem quanto Ela é a Minha Cara, música de Celso Fonseca, produzida pelo próprio e que por vezes parece ser meio autobiográfico. Misturando uma guitarra jazzy (também de Fonseca) com surdos e tamborins e uma bela letra de Ronaldo Bastos (Causa reboliço aonde passa / Desce mais redondo que a cachaça / Ela é a fulana de tal), a música é outro bom momento do disco. Celso Fonseca também produziu duas regravações, digamos, um pouco perigosas: Batendo a Porta, clássico de 1974, do segundo disco de João Nogueira, e Sai Dessa, gravada por ninguém menos do que Elis Regina em seu último disco.

Difícil dizer em qual Mart’nália se sai melhor. Celso Fonseca transformou Sai Dessa em um elegante samba jazzificado, que ficou bem parecido, mas, ao mesmo tempo, bem diferente da quase insuperável gravação de Elis Regina. E em Batendo a Porta, a ótima guitarra (jazzística, mas uma vez) de Celso Fonseca, quase ofusca a excelente interpretação de Mart’nália. Não Encontro Quem Me Queira e Fé, ambas produzidas por Arthur Maia são mais populares (e isso não é uma crítica) do que as trabalhadas por Celso Fonseca. A primeira, composição de Thiago Mocotó, segue o estilo despojado dos Demônios da Garoa, enquanto que a segunda, com a letra esperançosa de Jorge Agrião e Evandro Lima (A gente tem que levar fé / Acreditar não sucumbir / Na vida sabe como é / Cuidado pra não se iludir), poderia muito bem fazer parte do repertório de Zeca Pagodinho.

As quatro faixas seguintes poderiam realmente representar a Madrugada do álbum. São canções mais introspectivas e com arranjos mais discretos. Em Angola, na qual, como o próprio título já sugere, Mart’nália se aproxima dos ritmos africanos (cheia de marimbas, congas e timbales), se afastando do samba, o que faz dela apenas uma canção mediana. A regravação de Alegre Menina, música que alçou Djavan ao estrelato, é o oposto de Sai Dessa. Se na canção gravada por Elis, a filha de Martinho se saiu muito bem, na composição de Dori Caymmi e Jorge Amado, o resultado não foi dos melhores. Apesar de Mart’nália cantar com um estilo bem próprio, a sua gravação não supera a (esta sim, pelo visto, insuperável) de Djavan. E a participação de Luiza Possi na faixa é dispensável, aliás, o que anda acontecendo com Luiza Possi? Recentemente, ela desperdiçou um talento e tanto no DVD e CD do pagodeiro Thiaguinho.

Mas quando regrava a obra de seu pai, Mart’nália se sai bem melhor. Tom Maior, clássico do primeiro disco de Martinho da Vila, ganha mais uma interpretação – Marina Lima já a havia registrado em seu Acústico MTV – primorosa. Emoção à flor da pele. Na faixa seguinte, Sem Dizer Adeus, a cantora ainda consegue se superar. Das canções que não fazem parte do universo do samba, esta, de Paulinho Moska, é, sem dúvidas, a melhor. A voz de Mart’nália juntamente com o violoncelo de Lui Coimbra e o clarinete de Ademir Jr., tudo envolto por uma belíssima letra (Se eu não sei o nome do que sinto / Não tem nome que domine o meu querer / Não vou voltar atrás / O chão sumiu a cada passo que eu dei) fazem desta canção outro grande destaque de Madrugada.

Por isso eu peço para não rotularem Mart’nália. Sinto informar, mas, querendo Mart’nália ou não, acabou superando. E muito!

 

Madrugada / Mart’nália

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de maio de 2012

Miúcha canta Vinicius & Vinicius de Moraes




O disco em tributo à Vinicius
Miúcha é a simpatia em pessoa e eu a conheci em 2004 numa rua dos Jardins; quem a conhece sabe disso. E quando a conheci, ela estava lançando um disco dedicado ao poeta Vinícius de Moraes, com o belo disco Miúcha Canta Vinícius & Vinícius (2003 / Biscoito Fino / 34,99). O repertório traz 14 faixas. Misturadas a sucessos como Valsa de Eurídice, Serenata do Adeus e Pela Luz dos Olhos Teus estão duas inéditas: Georgiana, que estava guardada com a própria Gerogiana, filha de Vinicius (ele compôs a música em inglês quando ela nasceu), e Quem for Mulher Que Me Siga, que estava com Cyva, do Quarteto em Cy, grupo lançado pelo Poetinha. Entre os ritmos, bossas, serenatas, valsas e sambas, entre outros.

Todas as faixas foram compostas por Vinicius de Moraes sem um companheiro ao lado, dando a dimensão da pesquisa realizada por Miúcha. Uma característica marcante do disco, além da beleza da interpretação de Miúcha e dos arranjos – divididos entre Leandro Braga, Eduardo Souto Neto, Cristóvão Bastos e Helvius Vilela – é o ecletismo dos convidados. Um músico refinado como Leandro Braga (que, além de fazer os arranjos, toca piano em diversas faixas) convive harmoniosamente com o pop de Milton Guedes (gaita em Georgiana). Com o mesmo espírito democrático, Miúcha acolhe o irmão, Chico Buarque, com quem divide os vocais em Medo de Amar, e Zeca Pagodinho, com quem canta Teleco-Teco. Os outros convidados foram a filha, Bebel Gilberto (Tomara), Yamandú Costa (Valsa de Eurídice), Daniel Jobim (Pela Luz dos Olhos Teus) e Toquinho (Canção de Nós Dois).

Emoção pura. Uma emoção que Miúcha transmite em todas as 14 faixas do CD, como se estivesse cantando para Vinícius, na frente dele. Belíssima homenagem ao seu grande amigo e padrinho musical.



Faixas



·       1 – Tomara

ü  Part. Especial de Bebel Gilberto

·       2 – Ai, Quem Me Dera

·       3 – Saudades do Brasil em Portugal

·       4 – Medo de Amar

ü  Part. Especial de Chico Buarque

·       5 – Serenata do Adeus

·       6 – Georgiana

·       7 – Teleco-Teco

ü  Part. Especial de Zeca Pagodinho

·       8 – Valsa de Eurídice

ü  Part. Especial de Yamandú Costa

·       9 – Tempo Será

·       10 – Pela Luz dos Olhos Teus

ü  Part. Especial de Daniel Jobim

·       11 – Encontro À Tarde

·       12 – Canção de Nós Dois

ü  Part. Especial de Toquinho

·       13 – Cem por Cento

·       14 – Quem for Mulher Que Me Siga



Produzido por José Milton

Nota 8

Miúcha Canta Vinicius & Vinicius / Miúcha



Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quando o Canto é Reza, a homenagem de Roberta Sá a Roque Ferreira




Homenagem à Roque Ferreira
Uma das vozes mais elogiadas da nova geração da MPB, Roberta Sá lançou o CD Quando o Canto é Reza no segundo semestre de 2010. O trabalho é uma parceria com o trio de percussão Madeira Brasil, formado por Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker e Ronaldo do Bandolim. São treze canções de autoria do compositor baiano Roque Ferreira, que já foi gravado por Clara Nunes, Maria Bethânia, Alcione e Zeca Pagodinho. O samba de Roberta Sá tem agora uma cadência e um acompanhamento diferentes. O compasso vem da Bahia e a levada é do afiadíssimo Trio Madeira Brasil. O resultado está neste belíssimo disco, que denota também uma guinada diferenciada no habitual som da cantora natalense radicada no Rio de Janeiro.

Quando o Canto é Reza (2010 / Universal / 25,90) é o mergulho de Roberta e os músicos do Trio Madeira na obra de Roque Ferreira, um compositor e cantador do Recôncavo Baiano, considerado um mestre atual do samba-de-roda. Uma musicalidade onde cabem elementos de coco, ijexá e ritmos afro-brasileiros. Um caldo de referências que resultou no seu trabalho mais vigoroso. Vigor que vem da força de sua poesia e do poder das imagens que ele retrata.

Roque Ferreira, o homenageado
Este disco de Roberta é totalmente diferente dos outros que ela já gravou, como o de estreia, Braseiro, tão rico e tão bonito que já demonstrava que a cantora logo estaria entre as melhores do novo século. Em seguida veio Que Belo Estranho Dia Pra Se Ter Alegria, que veio consolidar sua brilhante carreira, com músicas caprichadas, capa primorosa e voz cristalina. Porém, Quando o Canto é Reza, disco que norteia um novo horizonte na carreira de Roberta, passou praticamente despercebido pelo grande público, embora a crítica tenha aprovado e feito muita divulgação do disco.

Todas as músicas falam do cancioneiro baiano e o clima amistoso nos remete à Bahia de todos os santos, muito cantado por Dorival Caymmi, mas numa outra atmosfera. Aqui, Roberta canta Roque Ferreira em trejeitos e formas cadenciadas num jargão mais intimista e íntima dos santos, do candomblé, da umbanda e do misticismo que somente a Bahia tem e nos proporciona.

Roberta Sá
As músicas do CD parecem rezas, de fato. A começar por Mandingo, que mais parece uma cantiga para receber um santo. Cocada é uma delícia de música, dessas que o refrão gruda em nossa memoria e não sai por nada. A romântica Água da Minha Sede e Água Doce dão a dimensão da capacidade homérica de Roque em fazer canção com sua sapiência e cadência elevadas, desmitificando a alma das rezas. Com essas duas canções, o disco prima por experimentar o sentimentalismo aflorado do compositor e deixando evidente que Roque Ferreira consegue adentrar em nosso coração através de uma boa música.

Tô Fora é a única canção em que o homenageado faz participação vocal e, diga-se de passagem, é uma música maravilhosa e o duo entre Roberta e Roque caiu como uma luva. Dinamismo e respeito mútuo pelo trabalho alheio, Roberta Sá não só entrou definitivamente para o rol das estrelas da MPB, como teve seu carimbo assinado com um grande disco.



Faixas



·       1 – Mandingo (Roque Ferreira / Pedro Luís)

·       2 – Chita Fina (Roque Ferreira)

·       3 – Zambiapungo (Roque Ferreira / Zé Paulo Becker)

·       4 – Cocada (Roque Ferreira)

·       5 – Água da Minha Sede (Roque Ferreira / Dudu Nobre)

·       6 – Orixá de Frente (Roque Ferreira)

·       7 – Água Doce (Roque Ferreira)

·       8 – Menino (Roque Ferreira)

·       9 – Tô Fora (Roque Ferreira)

ü  Part. Especial: Roque Ferreira

ü  10 – Xirê (Roque Ferreira)

ü  11 – Marejada (Roque Ferreira)

ü  12 – A Mão do Amor (Roque Ferreira)

ü  13 – Festejo (Roque Ferreira)

ü  Citação: Samba Pras Moças (Grazielle e Roque Ferreira)



Produção de Pedro Luís



Nota 10


Quando o Canto é Reza / Roberta Sá


Marcelo Teixeira