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sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por que sou crítico? Uma reflexão sobre a minha arte de criticar


A minha arte de criticar música
A minha função como crítico de música é o de criticar, patrocinar a divulgação de um cantor e estar atento às novidades que os mesmos produzem, seja ele ruim ou excelente, canhestro ou bom, atemporal ou desanimador, estimulador ou inquieto, arrogante ou cristalino. Enquanto houver cantoras e sejam elas boas, medianas, ruins ou excelentes, meu papel aqui é o de criticar. Critico porque há a necessidade plural de uma sinceridade justa dentro de um contexto ideológico e que muitos precisam saber. Há a benevolência de uma magnitude singular que persiste estar antenado com o que há de novo e o que há de antigo, mesmo lembrando que o antigo muitas vezes é melhor aguçado que o novo e que o novo é sempre possível de mudanças ou reparações. Pensando por outro lado, temos que pensar no futuro da música, no futuro das cantoras e dos cantores, no futuro de um estilo que fale a nossa língua, a nossa ética, a nossa relevância, o nosso amanhã. Qual será o destino do CD físico? Ele vai sobreviver por muito tempo? Podemos dizer com toda a certeza que o estilo A não comporta com o estilo D, que, por sua vez, está interligado com o estilo de vida da classe B, mas que possui características físicas da classe dominante Z, que, por outro lado, tem formas e estilos formais da classe oriunda que perpetua o universo C? Óbvio que não! Mas podemos ter uma ideia ou percepção daquilo que está por vir, tendo em vista o cenário da música brasileira atual. Chico Buarque, grande compositor de excelentes clássicos nacionais, disse recentemente que o cenário da música atual reflete o Brasil atual. Ele está coberto de razão: os grandes barões da música financiam o grande capitalismo cultural, fazendo com que a massa não venha intervir em seus negócios. Quando será que nascerá de novo um Pixinguinha, um Paulinho da Viola, uma Elis, uma Clara, uma Gal ou até mesmo Caetanos, Miltons e Djavans? A música atual pede socorro e não mais passagem, porque ela adentra em nossa casa sem ao menos pedir licença. Apenas invade. Invade nosso espaço, invade nosso cérebro, invade nossa paz. E muitos críticos de música acabam caindo ou se rendendo ao sistema burocrático da verba ilícita para ajudar a patrocinar esses estilos difundidos pelos quatro cantos do país. Ser crítico é ser persistente na melhoria de algo e, no meu caso, insisto na melhoria da música brasileira por um todo. Precisa-se ter ética, postura. Precisamos descobrir mais cantoras, sem esquecer as do século passado e incluindo as atuais. Precisamos de mais cantores de qualidade exorbitante, pensando na junção destes atuais com os antigos e com os que virão. Ser crítico é saber respeitar o outro, saber distinguir que o que ele lançou hoje pode ser bom, mas que amanhã pode ser melhorado. Ser crítico é estarmos com o coração nas mãos a procura de uma nova voz para que possamos compartilhar. Ser crítico é ter olhar e sentimentos verdadeiros. E ser verdadeiro é ser crítico. Por que escrevo isso para vocês? Porque recebi uns e-mails recentemente de leitores e amigos que falam que escrevo com sinceridade e certeza. E para vocês eu respondo: não preciso agradar a ninguém para ser crítico. Portanto, o cantor precisa ter o termômetro de uma pessoa crítica, progressista e que lhe faça dizer: não estou aqui para passar-lhe a mão na cabeça, mas sim para ajudar na qualidade musical do Brasil. E é por isso que insisto em criticar a música.

 

Por que sou crítico?
Uma reflexão sobre a minha arte de criticar.
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Barbara Mendes não deixa nada pra depois em excelente disco


Barbara é barbara!
Barbara Mendes é mais conhecida em Nova Iork e na Grécia do que no seu próprio país de origem, mas graças a Deus, sua boa música foi alvo de elogios sensacionais do crivo de Djavan, Ivan Lins, Flávio Venturini e Tito Marcelo, que gravou com ela a bela canção Perdido na Lua, no CD dele, Frágil Verde, Força de Quebrar (2007), deixando sua marca registrada em um disco rico de sinônimos brasileiros. A voz de Barbara é um dos mais doces, singelos e caprichados e há pluralidade em sua bela forma de expressar sua música, transformando todo o ambiente em um ambiente sofisticado e requintado. É de se estranhar que uma cantora com o porte e gabarito de Brabara esteja camuflada em um país tão diversificado como o Brasil, mas talvez a resposta para as minhas muitas questões esteja na sua música: Barbara Mendes é um sopro de alívio para quem respira a boa música brasileira e o povo brasileiro, rico de cultura na sua minoria, não entenderia tamanha força desta cantora magistral. Lançando o excepcional Nada pra Depois (2008 / Trilhos artes / Trattore / 29,90), Barbara canta justamente músicas que elevam o nome e as cores brasileiras, que são festejadas pelos quatro ou mais partes do mundo, caso das músicas Brasil Invertido (uma alusão à sua própria vida musical) e Ouro e Marrom. O sotaque de Barbara me chama a atenção, porque ao mesmo tempo em que ela soa ser nordestina ou de alguma parte do Norte do país, deixando essa confusão mental em nossas cabeças, a cantora, na verdade é carioca da gema. Sendo um dos melhores que já ouvi em todos os tempos numa voz feminina, Barbara simplesmente me encantou já na primeira faixa do disco e é por esse motivo que, literalmente, Barbara é barbara.

 

Nada pra Depois (2008) / Barbara Mendes
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A música e a religião de Rita Beneditto em Encanto (2014)



Rita: música e religião
Depois de lançar o emblemático Tecnomacumba e se ver rodeada de problemas religiosos por causa de sua música, a cantora maranhense Rita Beneditto volta após oito anos deste lançamento para enfim colocar voz no delicioso Encanto, que é uma sequencia do primeiro. Lançado pela Manaxica Produções em parceira com a Biscoito Fino, o novo disco comemora os vinte e cinco anos de carreira de Rita. Encanto (2014 / 24,99 / Manaxica – Biscoito Fino) é o primeiro disco de Rita após a mudança de nome de Ribeiro para Beneditto. A regravação em tom roqueiro de sucesso de Roberto Carlos impulsiona o disco, onde Rita apresenta músicas inéditas entre ousadas releituras de canções de compositores como Djavan, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Em uma viagem às fronteiras do Brasil, Rita canta Babalu, um dos grandes sucessos da compositora cubana Margarita Lecuona, imortalizada na voz de Ângela Maria. Na matriz africana descende De Mina, música de Josias Sobrinho gravada com a guitarra de Roberto Frejat. E, como a fé a música nunca tiveram fronteiras, Encanto aporta ao fim do terreiro do samba com O que e dela é meu, samba bamba carioca de Arlindo Cruz feito especialmente para Rita. É o fecho simbólico de Encanto, disco que não deixa dúvidas de que, em qualquer terreiro ou lugar, a religião de Rita Beneditto é a música.

 

Encanto / Rita Beneditto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Caixa Azul de Djavan


A Caixa Azul do Djavan
Beirando os 40 anos de carreira com mais altos do que baixos, o cantor e compositor Djavan sempre gostou mais de pensar e olhar para o atual momento e se deliciar com o futuro ao invés de parar no tempo. Com tantos trabalhos admirados e obras incríveis nesses longos anos, não havia tempo para voltar no tempo e se dedicar inteiramente à obra do passado, muito menos mensurar o tempo com a distância percorrida. Foi pensando nesse tempo e nessa distância de anos anteriores que nasceu um projeto audacioso e que os fãs do cantor alagoano agora podem respirar mais aliviados: surgiu a caixinha azul do Djavan. Aqui estão reunidas praticamente todo o acervo do cantor, que sempre se manteve flexível entre o erudito e o jazz, mas sempre focado na boa e velha MPB. São 20 álbuns remasterizados, incluindo aqui o primeiro disco, A Voz, O Violão, A Música de Djavan, lançado originalmente em 1976 e até Ária, de 2010, um dos pontos altos de sua carreira, por unir os velhos aos novos fãs.  Por toda a sua incalculável obra, nasceu um projeto reuniu 18 álbuns de carreira e dois discos extras – raridades, com músicas que entraram em projetos especiais, e outro com canções que gravou em inglês e espanhol, lançadas exclusivamente no exterior e até então inéditas por aqui. Todos eles com os áudios originais remasterizados, vale lembrar. Rua dos Amores, lançado em 2012, ficou de fora por ser seu mais recente álbum – que originou CD e DVD ao vivo, lançado este ano. Foi um trabalho criterioso: o Box traz ainda encarte com fotos, capas, informações gerais dos discos, letras de músicas e uma pequena introdução escrita pelo próprio Djavan pincelando histórias da própria trajetória. Aos 65 anos, o cantor reativou lembranças e emoções adormecidas e a partir de uma ordem cronológica de músicas e sons, decidiu garantir o Natal de muita gente mais feliz. Vale a pena conhecer a Caixa Azul de Djavan e saborear cada faixa deste grandioso artista nordestino, culto e brasileiro.

 

Caixa Djavan / Djavan
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 21 de julho de 2014

As nuances musicais de Tito Marcelo em Frágil Verde (2007)

Frágil Verde: excelente em suas nuances
A música que dança nos sonhos de Tito Marcelo é a mesma música que ronda os homens que fazem a boa música: inspiradora, criativa, capacitada de emoção, sensível. De tão frágil, ela penetra em nossos poros e causa rebuliço por entre tímpanos, coração, garganta, pele e sangue. Sua música vicia e é um vício bom: não conseguimos parar de ouvir, de dançar, de cantarolar. Tito Marcelo é um dos poucos e raros cantores da nova safra de músicos que conseguem hipnotizar com sua música em um mercado próprio para mulheres. Lançado em 2007, Frágil Verde, Força de Quebrar (2007 / Independente / 19,99) é um disco pop, dançante, com ritmo, cadência, fina estampa e que preserva a natureza como ela deveria ser preservada. O título não foi aleatório: aqui há uma responsabilidade social do cantor em resguardar as matas que são deterioradas pelo homem selvagem e a música de Tito surge em um momento propício para esse resguardamento. Todas as dez faixas são de composição de Tito, que mostra versatilidade ao abordar temas florais como o amor, a relação entre homem e mulher, a natureza, a felicidade, o entorno dos meses subsequentes, o carinho, o afeto. Meio jazzístico, Frágil Verde, Força de Quebrar é um disco que nasceu para ser muito bem representado dentro da música popular brasileira, com suas nuances perfeitas, sons híbridos e cores neutras. O cantor recifense ganhou o Brasil com sua voz peculiar, sem ruídos, sem estribilhos e carimbou sua permanência na música atual como sendo um dos melhores cantores e compositores de sua seara. Basta ouvir Perdido na Lua, um baião produzido como nos moldes do passado, com começo, meio e fim sobre um amor perdido e abandonado. Nesta bela canção, o cantor divide a faixa com a cantora Barbara Mendes, cantora esta que já foi agraciada e apadrinhada por ninguém menos que Djavan e traz na bagagem discos sensacionais para o deleite da cultura brasileira. O acerto de Tito em cantar ao lado de Barbara foi notória: um casamento perfeito de vozes e o hino de uma música rica em detalhamentos específicos sobre a lembrança do Nordeste. E é essa a diferença entre Tito Marcelo e a nova música de hoje em dia: ele sente a canção, sente a atmosfera, o momento certo para cantar, as músicas encaracoladas com o sentimento de fazer com que sua música chegue até o próximo numa sintonia de respiração e olhares atentos. Tito Marcelo é muito além de um cantor, porque ele emociona, transmite o anseio que vem dele para nós, nos reaviva através de sua voz, nos conduz ao caminho certo quando estamos indo ao lado contrário da dor. Sua música é puro alívio para as dores de amor que sentimos; sua verve musical nos acaricia por dentro, reiterando com as mãos todo o sentimento que existe na canção. Cantor raro, destinado a cantar, único, Tito Marcelo faz de Frágil Verde, Força de Quebrar um dos mais belos discos de todos os tempos da MPB com toda a categoria, toda a astúcia, toda a malemolência e persipcaz de um grande artista brasileiro prestes a ser alçado ao seu posto maior: a essência de sua música.
 
 

 

Frágil Verde, Força de Quebrar / Tito Marcelo
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os sinais de Ney Matogrosso


 
Ney em boa fase
Ney Matogrosso consegue agradar à gregos e troianos, literalmente. É um cantor que não parou no tempo, não canta músicas para ficar na memória de um subconsciente qualquer, não canta músicas intelectualizadas, como faz hoje Chico Buarque ou João Bosco e entra na onda de Caetano Veloso, Djavan e Gilberto Gil, que fazem um som mais moderninho para a idade que tem. Ney Matogrosso virou pop, cult, cool. E essa onda de modismos a qual adentrou fez muito bem a sua carreira marcada por músicas fantásticas e egocêntricas e ao mesmo tempo se transformam num cartão postal para a modernidade e, quem sabe, para a posteridade. Ney Matogrosso lançou no final do ano passado o sensacional Atento aos Sinais (2013 / 28,99 / Som Livre) título que saiu da canção Oração, de Dani Black, um dos compositores mais procurados da atualidade e que traz uma nova roupagem ao mundo de Ney, como as parafernalhas e vestimentas que todos esperavam. Desde Inclassificáveis (2008), Ney não vinha se vestindo a carater e deixou a sua voz falar mais alto do que seus passos e danças. Com Atento aos Sinais volta ao ar o velho Ney Matogrosso, o pop, o cult, o cool. Ney Matogrosso é um dos artistas mais marcantes dentro da MPB e uma das figuras mais aclamadas pela crítica especializada. Assim, talvez, pode ser definido o cantor, dono de uma carreira marcada pela irreverência e pela ousadia em suas performances e que lançou no ano passado um disco que marca seus 40 anos de carreira. O CD tem interpretação singular de Ney para compositores novos e consagrados, como Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Criolo, Vitor Ramil entre outros. Mesclando canções em uma criteriosa seleção, o repertório inclui músicas como Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola, duas de Itamar e Oração, de Dani Black, música que inspirou o título do álbum. Atento aos Sinais é um disco intimista. Com músicas de alto astral e com pitadas de politicagem, o disco vem recheado de nuances, músicas conturbadas e com um acento mais politcamente correto. Ney volta a adotar o estilo descobridor de talentos, mas veio flertar com compositores de outras estirpes musicais, como Criolo, de quem gravou Freguês da Meia-Noite, passando por Rafael Rocha em Não Consigo e tendo o seu maior talento como prova maior de que os novos são talentosos, como o caso de Dani Black. Mas em quase todo disco de Ney já podemos esperar um pouco de Itamar Assumpção, Vitor Ramil, Alzíra Espíndola e Pedro Luís e aqui não foi diferente. Embora tenha sido um erro fatal regravar Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim (ambas de Itamar) e ter escolhido uma música menos calorosa de Pedro Luís, o disco ainda assim é um dos melhores que fecharam o ano de 2013. Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim foram gravadas anteriormente por Zélia Duncan em seu disco do ano passado, em que homenageia o grande Itamar Assumpção, morto em 2003 em decorrência de um câncer, na qual o próprio Ney faz uma bela participação na segunda música citada. Em seu próprio disco, Ney (re)transforma a música, dando o ar de sua graça, mas o que acontece é um festival de canção repetida. Porém, seria melhor ter regravado Fico Louco, que só fora regrada por Virginia Rosa em seu disco de estreia e trata-se de uma música atual. Já Incêndio relembra um tempo perdido de Pedro Luís no grupo A Parede e regravar está música talvez não tenha sido um achado e tanto para o cancioneiro de Ney, já que as músicas de Pedro são sempre sensacionais (vale lembrar Miséria no Japão ou Fraterno, ambas gravadas por Ney em discos anteriores e que foram as sensações do momento). Abrindo com Rua da Passagem, um protesto de Arnaldo Antunes e Lenine, a música se tornou um sucesso nas redes sociais e veio a calhar sobre a falta de educação das pessoas nas ruas e em ambientes sociais, o que veio a calhar bem na fase de protesto do disco. Ousadia é pouco perto da sensual Beijos de Ímã, da família musical Espíndola, que nos remete às músicas de gueixa com um sotaque que só o Ney consegue fazer. Há também a profusão de palavras em Tupi Fusão, que nos remete a música Inclassificáveis e a engraçada Samba do BlackBerry. Ney conseguiu fechar o ano passado com o pé direito, digno de poucos artistas com a sua magnitude. E ainda tem tempo para ser humano, homem e sensato em não se sentir estrela.
 

Atento aos Sinais (2013) / Ney Matogrosso
Nota 8
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os oásis de Maria Bethânia


 

Os oásis de Bethânia reunidos
O 50º álbum de Maria Bethânia, Oásis de Bethânia (2012 / Biscoito Fina / 35,00) vem com força total e com um tom de desabafo e fúria por parte da interprete de Cárcara, tamanha a voracidade com que as palavras são jogadas da boca da cantora. A prova maior disso é a regravação de Calúnia, do repertório de Dalva de Oliveira: a letra nervosa já avisa quisestes ofuscar minha fama, até jogar-me na lama só poruq eu vivo a brilhar; sim, mostras-te ser invejo, viraste até mentiroso, só para caluniar. Outro momento de desabafo é Carta de Amor, que, apesar do nome, é na verdade, um aviso dizendo Não mexe comigo, que eu não ando só. Em seguida, santos, entidades e até Jesus, entre muitos outros, são invocados em sua proteção, culminando no fim em um discurso em que afirma que esta pessoa que está tentando derrubá-la não passa de um nada. Maria Bethânia surge ainda mais forte neste disco, depois de lançar inúmeros discos igualmente fortes, com sua voz potente e cortante, mas neste mesmo disco há espaço para interpretações de cunho mais denso e emocional, que é especialidade de Bethânia, como a sensacional Casablanca, de Roque Ferreira e Vive, composta por Djavan. Com este novo trabalho, florido e forte Bethânia reafirma-se como intérprete maior deste Brasil. A sua presença e trabalho ainda é de grande relevância para a nossa música popular, queriam ou não. Oásis de Bethânia se aproxima da literatura, sem afastá-la da música e esse lirismo faz toda a diferença aqui.  O tal oásis de Maria Bethânia fica no sertão, com seu silêncio, seu céu limpo, gente digna e a proximidade de Deus. Com mais de 47 anos de carreira, a cantora lança um disco intimista, como uma capa e cores diversificadas em suas dez faixas e com um sabor de quero mais. O CD traz os seus preferidos Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, além de Jota Velloso (seu subrinho), Djavan (34 anos depois do estouro de Álibi) e dois clássicos: Calúnia, já citado acima e Lágrima, de Orlando Silva. O disco é um dos melhores lançamentos da cantora, que já não precisa mostrar a ninguém sobre sua carreira, trabalho ou algo. Basta fechar os olhos e ouvir os oásis de Bethânia.

 

Oásis de Bethânia / Maria Bethânia
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Álibi (1978), de Maria Bethânia


Grande disco de Bethânia
Toda grande cantora merece um grande disco e com Maria Bethânia não poderia ser diferente. Primeiro disco de uma cantora brasileira a ultrapassar a marca de 1 milhão de exemplares vendidos, antes Clara Nunes chegou a atingir o número com dois discos, Álibi (1978 / RCA / 23,99) leva o nome de uma música composta por Djavan e incluída no repertório que fez menos sucesso que as outras interpretações da cantora, como O meu amor, de Chico Buarque, Ronda, de Paulo Vanzolini, Explode Coração, de Gonzaguinha, Negue, de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos ou Sonho Meu, de dona Yvone Lara e Décio Carvalho, que tem parceria com a amiga Gal Costa. A selecção de músicas que garantiram o sucesso deste disco e a passagem definitiva de Bethânia como a maior estrela da música nacional veio com este álbum romântico, que tem a abertura de Diamante Verdadeiro, canção de Caetano Veloso, que mais tarde dara nome a outro disco da irmã e De todas as maneiras, do mestre Chico, e a canção que saúda o Rio de Janeiro, na bela A voz de uma pessoa vitoriosa (Caetano e Wally Salomão. O disco na verdade é uma pérola de achados musicais, contando ainda com a arrepiante Cálice, que tem veia política e crítica sobre a ditadura, composta por Gilberto Gil e Chico Buarque e Interior, da compositora Rosinha de Valença. Neste grande disco, o nome Maria Bethânia está impresso em branco, enquanto o vinil traz o encarte com o nome impresso em dourado vermelho. Vale a pena ter este disco em sua coletânea. Não por ser um disco que ultrapassou barreiras, nem por ser um disco repleto de compositores bons, mas por ser um disco histórico.

 

Álibi / Maria Bethânia
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Todo Domingos (2010) traz Flávia Bittencourt homenageando Dominguinhos


Flávia: bela voz nordestina
Flávia Bittencourt é uma de nossas melhores cantoras surgidas na nova geração de belas vozes e com excelente repertório e hoje o Mais Cultura! traz toda a magia e sedução do CD Todo Domingos (2010 / Independente / 23,99 ) em que faz uma justa homenagem à Dominguinhos, morto recentemente. O disco tem participações especiais de nomes importantes da nossa música, como Gilberto Gil e Djavan, além do próprio homenageado. No repertório, alguns dos maiores sucessos do músico, como Sete Meninas, Tenho Sede, Abri a Porta, Lamento Sertanejo e o clássico dos clássicos, Eu Só Quero um Xodó. Entre as faixas, uma composição inédita completa o setlist do disco, Seu Domingos, uma homenagem querida e simpática à Dominguinhos. Flávia merece destaque na cena musical por ser uma das novas e promissoras cantoras e compositoras das mais elogiadas pelos críticos e por artistas e escritores do porte de Luiz Melodia, Zeca Baleiro, Ferreira Gullar e Dominguinhos, que antes de falecer, disse que ela seria o futuro musical do Brasil. As raízes culturais da maranhense estão presentes na escolha de seu rico repertório, que sempre traz manifestações da cultura popular de seu estado natal, dialogando naturalmente com composições próprias e de outros compositores. Vale a pena ouvir os clássicos de um grande músico na voz saborosa de uma grande cantora.

 

Todo Domingos / Flávia Bittencourt

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O lado asco de Naldo: a sua música!


Naldo: totalmente oco
Nós tínhamos um excelente repertório no início de carreira”. A frase poderia ter saído da boca de um Caetano, um Chico, um Milton, um Gil ou um Djavan ou, até mesmo de uma Ná Ozzeti, Tiê, Tulipa Ruiz, Rita Lee, Maria Rita, mas não. Saiu da boca de um cantor fajuto que saiu da pobreza cantando marombas sem pé nem cabeça e embalando cabeças ocas e sem futuro. A frase é de Naldo agora Benny, porque talvez ele ache melhor ter um sobrenome americanizado. A frase dita por Naldo foi proferida no programa do apresentador Roberto Justus e quando dita, soltei uma risada iâmbica, assustadoramente igual ao da usurpadora Paola Bracho. Se Naldo tinha um excelente repertório no início de carreira, então o que ele canta hoje são louvores dignos de uma plateia repleto de ignorantes marginalizados que estão ali para ouvir e ver um cantor com mais músculos que inteligência musical. Naldo é um desses cantores que merecem ir para a latrina e ao darmos várias descargas, temos que ter a certeza de que ele não voltará a nos perturbar. Perturbação é com ele mesmo, por sinal. Ultimamente, o cantor tem participado de programas de auditorio e fazendo ar de garoto propaganda de vários patrocinadores com sua musiquinha horrenda e sem intelectualidade alguma.

Desejo vida curta ao Naldo pelo simples fato de que sua própria vida musical é digna de panfletagem mórbida. Naldo é a personificação da pior espécie de músico, o que consegue atrair para si um número gritante de loucas e alucinadas e ainda por cima consegue ser o centro das atenções até mesmo quando o assunto não é música, uma área que ele, definitivamente, não conhece. Lançando seu mais recente disquinho, Na Veia, Naldo emplacou apenas um sucesso, mas está mais conhecido como o garoto da dúvida entre wisk ou água de coco. Pra ele tanto faz.

A frase faz parte de uma pergunta de Justus sobre o início da carreira musical do cantor, que fazia dupla com o irmão, assassinado à tiros e que Naldo evitou tocar no assunto. Formavam um grupo de rap carioca e o tal disco fora lançado no inicio dos anos 2000. Nesse mesmo ano, quem estourava de norte ao sul do país era a diva baiana Daniela Mercury, que estava ao seu lado no programa e que mal conversaram. Deboche de si mesmo, Naldo é o pior cantor surgido nos últimos anos. Até mesmo um cantor sertanejo recém chegado ao mundo fonográfico seria melhor que ele. Venhamos e convenhamos, mas Naldo já deu o que tinha que dar.

 

O lado asco de Naldo: a sua música!

Marcelo Teixeira

terça-feira, 9 de abril de 2013

Agenda Mais Cultura: De Tom a Tim, show de Nathália Lima em Brasília


 

Bela voz, belo som
Nathália Lima é uma das cantoras brasilienses com grande qualificação artística, voz sedutora, categoria digna do status que merece receber e consegue nos hipnotizar do início ao fim de uma canção. Recentemente gravou Elas Cantam Menescal, ao lado de Márcia Tauil, Sandra Duailibe e Cely Curado, tendo a participação do anfitrião, Roberto Menescal em praticamente todas as faixas. Nathália canta brilhantemente e agora os brasilienses, que já a conhecem, podem reverenciar a cantora mais uma vez. O Agenda Mais Cultura tem a honra de divulgar o mais novo show da cantora, De Tom a Tim, que, assim como a cantora sugere, é uma viagem musical.

O Show De Tom a Tim será uma viagem pela MPB e Pop Nacional. São destaques do repertório canções de: Tom Jobim, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Djavan, Vanessa da Mata, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zé Ramalho, Tim Maia e muito mais.

Se você está indo à Brasília ou está de passagem pela cidade, nada melhor do que assistir a um bom show, acompanhado de uma boa voz, com um show intimamente brasileiro.

É nesta quinta!

 

Voz: Nathália Lima

Violão: Hugo Coêlho

Percussão: Jorge Macarrão

 

Local: 11.04 no Nosso Mar (115 Norte) Brasília

Horário: 21:30

segunda-feira, 11 de março de 2013

O sorriso de Bruna Caram


O belo sorriso de Bruna Caram
Quando lançou Feriado Pessoal, Bruna Caram se firmava como uma das mais importantes e celebres cantoras da chamada Nova MPB, composta especialmente por cantoras jovens, bonitas e com talentos memoráveis. Feriado Pessoal vinha embalado por sucessos inquestionáveis de Guilherme Arantes e JC Costa Netto e por composições próprias que davam todo o brilho e diferença de seu trabalho e que estava a frente do mega sucesso disco anterior, Essa Menina, seu álbum de estreia a qual alcançou absoluto sucesso de público e crítica. O novo trabalho tem bons momentos em composições alheias e já pode ser considerado um marco na brilhante carreira de Bruna. Um bom exemplo é a graciosa Especialmente Criativa, de Mallu Magahães. Das músicas que levam a sua assinatura, Pode Se Animar (parceria com Pedro Luís) é bastante agradável (aquela música que vale um repeat).

Abrindo com Bem-vindo, uma graciosidade imensa, a música é um convite pra ouvir Bruna Caram do começo ao fim, de coração aberto. Síntese do disco com todo seu frescor, coragem, alegria e independência, Bem-vindo tem uma responsabilidade imensa perante todo o disco, pois é ele quem traz a essência do álbum, misturado com a bela voz da cantora. Não Perca o Final é uma pérola do mestre Zé Rodrix felizmente encontrada e abocanhada por Bruna, praticamente esquecida no cancioneiro do cantor e compositor falecido há pouco. Sabedoria bem-humorada, se torna uma canção irresistível.

Esfera é um retrato do desejo genuíno de que o mundo possa realmente ser melhor. Com a consciência de que a mudança começa dentro de cada um de nós. Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar até parece uma provocação, mas é mais uma das delicias de Jorge Ben Jor que Bruna alçou deliciosamente. Uma das mais deliciosas frases já usadas pra iniciar uma canção, a música reflete um momento único na carreira da jovem cantora. Quentura do início ao fim!

 

Ter que voltar

Ter que lamentar

Mas deixar levar

Me entender um pouco mais

Me entregar

A cada sonho, cada esquina, cada olhar

Quem sabe um dia a gente possa olhar pra trás

E se orgulhar

Da marca que hoje eu trago

 

(Trecho de Bem-Vindo, de Paulo Novaes)

 

Flor do Medo é a canção sobre o momento específico entre a sedução que instiga o amor e o beijo que o inaugura. Obra prima de Djavan, a música tem tudo para ser a mais tocada nas rádios que adoram MPB. Apaixonante assim. Assim como já fizeram em discos de cantores carimbados e respeitados dentro da MPB, como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Roberta Sá, Pedro Luís agora engata uma bem elaborada trama de enredos com a sensacional Pode se Animar, que trata de perdas e danos, de ganhos e recebimentos do amor. E se o amor que você perdeu pudesse voltar pra você? Canção-feitiçaria de Bruna com Pedro Luís traz seu amor de volta em até 5 audições.

Amanhecendo é uma música cíclica sobre um amor que precisa, mas não consegue terminar. A mais dolorosa do disco, com direito a lágrimas e lencinhos e que tem como arrebatadora a voz singela de Bruna, que adentra em nossos poros com uma desenvoltura tremenda. Divertida, engraçadinha, romântica e espetacularmente divina, Especialmente Criativa é alegre, irônica, clown, crítica, divertida, sincera. Canção-presente da Mallu Magalhães que fala sobre ser artista na vida real.

Ponto alto do disco, Segredo é uma das canções mais executadas do cancioneiro de Dalva de Oliveira, cantada por medalhões da MPB e que teve a mais sublime interpretação na voz do filho de Dalva com Herivelto Martins, o saudoso Pery Ribeiro, que nos deixou há pouco tempo. Canção do repertório da Rainha da Voz, como era chamada, Bruna aprendeu esta canção ouvindo com seus avós. E aqui ela canta brilhantemente com a excepcional cantora Marina de La Riva em um dueto de arrepiar.

Purinho é um frevo safado livremente inspirado nas folias dos carnavais do Recife e que foi composto pela foliã Bruna Caram. Atrás do bloco o mundo gira sem parar. Encerrando o disco com Peito Aberto a maior declaração de amor do disco. Vale a pena ressaltar que o produtor se emocionou no segundo take e não a deixou gravar mais. Portanto, a voz não foi editada e a performance é real.

Um dos mais brilhantes discos da MPB com a categoria de uma estrela chamada Bruna Caram.

 

Será Bem Vindo Qualquer Sorriso / Bruna Caram

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A malandragem no samba de Mart'nália


Não tentem rotular a cantora Mart’nália. Isso é tarefa perdida e é tarefa de quem não entende de música. Madrugada mostra porque ela é uma das melhores cantoras do Brasil atualmente. Sem o resquício dos sambas baianos que marcaram Menino Do Rio, seu disco anterior no qual foi acompanhada por músicos da banda de Maria Bethânia (e ainda teve a produção do maestro da baiana, Jaime Alem), Madrugada apresenta Mart’nália em um ambiente do qual se mostra muito mais íntima. O disco pode ser considerado, com algumas exceções, um disco solar. Com muito mais peso do que seus trabalhos anteriores, Madrugada é um típico disco de samba carioca, sem aquela cara industrializada que permeia o trabalho de alguns grandes sambistas que tanto sucesso fazem atualmente. Logo na primeira faixa do disco, Alívio, mostra realmente o valor de um verdadeiro disco. A parceria do produtor e baixista Arthur Maia com Djavan funciona muito bem na voz de Mart’nália. O soul abolerado, verdade seja dita, é um início bem morno. Sorte que Tava Por Aí, um samba-pop bacaníssimo – um dos melhores do disco –, composto pela própria com o fiel parceiro Mombaça, coloca o álbum nos eixos. Com o peso do surdo e uma grande letra (Sou Zé Malandro, sou de rua / E bem que eu gosto / São Jorge é quem manda na lua / Me disse que eu tudo posso), a segunda faixa mostra realmente o que o ouvinte pode esperar de Madrugada.

As seis canções seguintes seguem o estilo malandro de ser da cantora. Deu Ruim, um samba mais lento, com destaque para os tamborins de André Siqueira, desce bem. Mas não tão bem quanto Ela é a Minha Cara, música de Celso Fonseca, produzida pelo próprio e que por vezes parece ser meio autobiográfico. Misturando uma guitarra jazzy (também de Fonseca) com surdos e tamborins e uma bela letra de Ronaldo Bastos (Causa reboliço aonde passa / Desce mais redondo que a cachaça / Ela é a fulana de tal), a música é outro bom momento do disco. Celso Fonseca também produziu duas regravações, digamos, um pouco perigosas: Batendo a Porta, clássico de 1974, do segundo disco de João Nogueira, e Sai Dessa, gravada por ninguém menos do que Elis Regina em seu último disco.

Difícil dizer em qual Mart’nália se sai melhor. Celso Fonseca transformou Sai Dessa em um elegante samba jazzificado, que ficou bem parecido, mas, ao mesmo tempo, bem diferente da quase insuperável gravação de Elis Regina. E em Batendo a Porta, a ótima guitarra (jazzística, mas uma vez) de Celso Fonseca, quase ofusca a excelente interpretação de Mart’nália. Não Encontro Quem Me Queira e Fé, ambas produzidas por Arthur Maia são mais populares (e isso não é uma crítica) do que as trabalhadas por Celso Fonseca. A primeira, composição de Thiago Mocotó, segue o estilo despojado dos Demônios da Garoa, enquanto que a segunda, com a letra esperançosa de Jorge Agrião e Evandro Lima (A gente tem que levar fé / Acreditar não sucumbir / Na vida sabe como é / Cuidado pra não se iludir), poderia muito bem fazer parte do repertório de Zeca Pagodinho.

As quatro faixas seguintes poderiam realmente representar a Madrugada do álbum. São canções mais introspectivas e com arranjos mais discretos. Em Angola, na qual, como o próprio título já sugere, Mart’nália se aproxima dos ritmos africanos (cheia de marimbas, congas e timbales), se afastando do samba, o que faz dela apenas uma canção mediana. A regravação de Alegre Menina, música que alçou Djavan ao estrelato, é o oposto de Sai Dessa. Se na canção gravada por Elis, a filha de Martinho se saiu muito bem, na composição de Dori Caymmi e Jorge Amado, o resultado não foi dos melhores. Apesar de Mart’nália cantar com um estilo bem próprio, a sua gravação não supera a (esta sim, pelo visto, insuperável) de Djavan. E a participação de Luiza Possi na faixa é dispensável, aliás, o que anda acontecendo com Luiza Possi? Recentemente, ela desperdiçou um talento e tanto no DVD e CD do pagodeiro Thiaguinho.

Mas quando regrava a obra de seu pai, Mart’nália se sai bem melhor. Tom Maior, clássico do primeiro disco de Martinho da Vila, ganha mais uma interpretação – Marina Lima já a havia registrado em seu Acústico MTV – primorosa. Emoção à flor da pele. Na faixa seguinte, Sem Dizer Adeus, a cantora ainda consegue se superar. Das canções que não fazem parte do universo do samba, esta, de Paulinho Moska, é, sem dúvidas, a melhor. A voz de Mart’nália juntamente com o violoncelo de Lui Coimbra e o clarinete de Ademir Jr., tudo envolto por uma belíssima letra (Se eu não sei o nome do que sinto / Não tem nome que domine o meu querer / Não vou voltar atrás / O chão sumiu a cada passo que eu dei) fazem desta canção outro grande destaque de Madrugada.

Por isso eu peço para não rotularem Mart’nália. Sinto informar, mas, querendo Mart’nália ou não, acabou superando. E muito!

 

Madrugada / Mart’nália

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 16 de julho de 2012

5º lugar: Márcia Tauil - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos


Márcia Tauil conseguiu o 5º lugar
Márcia Tauil* vem se firmando no cenário musical brasileiro. Iniciou sua carreira como Cantora de Bailes, ainda na adolescência, e hoje é uma das maiores vencedoras como intérprete dos mais importantes festivais de MPB do Brasil. Marcia tem dois Cds lançados pela Dabliú: "Águas da Cidade" e "Sementes no Vento", este último com a obra de Eduardo Gudin e J.C.Costa Netto. Nascida em uma família de músicos, Márcia Tauil iniciou sua carreira no meio artístico como locutora de rádio e apresentadora de TV. Mas qualquer pessoa que a ouvisse poderia prever que ali, disfarçada sob o manto de uma outra profissão, havia uma futura grande cantora que simplesmente esperava a oportunidade de mostrar seu talento. E, como a Arte sempre acaba por revelar seu poder, Márcia é hoje uma estrela em ascensão, amplamente reconhecida pelos músicos e apreciadores da MPB que com ela convivem. 

Natural de Guaxupé – MG, sem saber que chegava ao mundo no Dia Nacional do Samba, 02 de dezembro, Márcia começou a cantar na adolescência e iniciou carreira solo em 1998, conquistando, desde o princípio, muitos admiradores que prontamente reconheceram seu talento. 

Cantora de timbre aveludado e ao mesmo tempo firme e preciso, Márcia Tauil conquista o ouvinte pela suavidade e doçura de suas interpretações e pela forma carismática com que se comunica com o público. Sua extensão vocal permite-lhe passar do mais grave ao agudo, de forma natural, sem ferir os ouvidos, dando a impressão de que tudo é muito simples de se realizar.

Sua participação em Festivais no Estado de São Paulo e de Minas Gerais rendeu-lhe diversos prêmios, resultando na maioria das vezes, na primeira colocação, seja como compositora, seja como intérprete.

Em 1999 gravou seu primeiro CD, Águas da Cidade, pela Gravadora independente Dabliú. Um disco que agrada por ser alegre, solto e ao mesmo tempo romântico e atual, com repertório bastante diversificado, de compositores como Chico Buarque, Djavan, Roberto Menescal, dentre outros.

Em junho de 2003, é escolhida por Eduardo Gudin para divulgar suas composições em parceria com José Carlos Costa Netto. Nasce então seu segundo CD, Sementes no Vento, em que interpreta canções como Verde, Paulista, O carnaval de cada dia, dentre outras, o qual lhe rendeu muitos elogios pela crítica especializada.  O CD Sementes no Vento foi lançado também no Japão pela gravadora Ward Records, em 2003, tendo sido muito bem recebido pelo público japonês.

Em outubro desse mesmo ano, recebeu o diploma de reconhecimento do Ministério da Cultura, Funarte e Un-Habitat (Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos), por sua participação no CD Rios do Rio, interpretando a canção Fábula do riacho de Simone Guimarães e Cristina Saraiva, trabalho que foi visto com muita satisfação pelo então Ministro da Cultura, Gilberto Gil.

Posteriormente fez algumas turnês pelo Estado de São Paulo e Minas Gerais com Roberto Menescal, divulgando e interpretando, ao lado desse grande mestre, algumas canções gravadas em seu CD, além do repertório de bossa nova.

Reconhecida no meio musical por sua bela voz e como promissor expoente da música popular brasileira, aceitou convites de vários artistas, gravadoras e instituições para gravar participações especiais em CD’s, bem como em programas de rádio e televisão.

Entre 2008 e 2010 realizou diversos shows ao lado da cantora paulista Vânia Bastos no Estado de São Paulo e de Minas Gerais.

Em 2010, o reencontro de Márcia e Roberto Menescal aconteceu em Brasília, a convite de Márcia, por ocasião da gravação do programa Talentos da TV Câmara, que fez um apanhado sobre a carreira de Márcia. No mesmo ano, estiveram juntos em mais dois shows comemorativos aos cinquenta anos de carreira de Menescal, realizados em parceria com o Clube da Bossa Nova.

Elogiada por Marco Camargo, um dos críticos mais ferrenhos do programa Ídolos e produtor musical dos mais importantes do Brasil, Márcia Tauil segue seu caminho tranquila, com a paisagem de quem sabe por onde pisa e seu reconhecimento musical é a prova de que a música engrandece qualquer cantor. Por todos estes requisitos, Márcia Tauil merece, sem sombras de dúvida, o quinto lugar na lista das melhores cantoras do Brasil dos últimos 10 anos na MPB.

*A biografia da cantora Márcia Tauil está em seu site (www.marciatauil.com.br), de onde este artigo foi retirado, exceto pela última frase.



Quinto lugar: Márcia Tauil

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos

Marcelo Teixeira