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sexta-feira, 11 de julho de 2014

O encontro de Márcia Tauil, Roberto Menescal e Jaques Morelenbaum no show Conexão Rio-Brasília


Márcia Tauil e Roberto Menescal: duas gerações
Nas palavras de Roberto Menescal, há dois tipos de música: a popular brasileira e a pra pular brasileira. E neste segmento, um dos pais da Bossa Nova em maior atividade no momento faz da nossa música popular brasileira um dos melhores caminhos para duas atividades únicas: divulgar um belo trabalho encabeçado por ele, a cantora mineira Márcia Tauil e o violoncelista Jaques Morelenbaum e automaticamente arrecadar verba para a operação do garoto Pedrinho (www.amigosdopedrinho.com.br). Intitulado Conexão Rio-Brasília, o show mistura o melhor da Bossa Nova na voz suave e cristalina da cantora Márcia Tauil e faz das duas cidades um elo de amizade, musicalidade e muita emoção. Considerada a quinta melhor cantora dos últimos anos da MPB pelo Mais Cultura Brasileira!, a cantora de Guaxupé vem se consolidando como uma das vertentes mais significativas dentro do universo da música brasileira, com discos de altíssima qualidade e com uma afinação vocal espetacular. Sendo assim, a cantora, que tem no curriculo o excelente Sementes no Vento (1998), em que canta as músicas de Eduardo Gudin e J.C. Costa Netto, teve participação efetiva no CD Elas Cantam Menescal (2012) em homenagem ao patrono bossa novista, ao lado de outras três grandes vozes femininas, como Sandra Duailibe, Cely Curado e Nathália Lima. A cantora estará ao lado de Menescal e de Morelenbaum intepretando sucessos como Você (Menescal e Bôscoli), Ah, se eu pudesse (Menescal e Bôscoli) e O Barquinho (Menescal e Bôscoli), como também a atualíssima Clube da Bossa (uma parceria de Menescal com Márcia Tauil), em homenagem ao próprio Clube da Bossa de Brasília, e que está presente no Cd Elas cantam Menescal. A inspiração para o show veio a partir da ideia da localidade de cada músico: Menescal e Jaques residem no Rio de Janeiro e estão se unindo aos artistas brasilienses com atuação do Clube da Bossa de Brasília, que mantêm viva a história e a cultura da Bossa Nova, gênero musical de maior aceitação e mundialmente conhecida. O show contará com a participação dos musicos Salomão di Pádua (voz), Leander Motta (bateria), Jaime Ernest Dias (violão) e Cleudson Assis (piano). A temática do show é trazer ao público jovem e aos que não abandonaram o banquinho e o violão, a música de Roberto Menescal interpretada por artistas de diferentes gerações e do próprio anfitrião. E o convite aos músicos Leander Motta, Cleudson Assis e ao cantor Salomão di Pádua reforça a ideia do encontro de gerações, solidifcando o nome do show. Você não pode perder este grande espetáculo!

 

 

Show: Conexão Rio-Brasília

Local: Clube da Bossa

Data: 19/07/2014

Horário: 11:30

Preço: 20,00 (inteira) / 10,00 (meia)

Como comprar os ingressos: venda na bilheteria do teatro a partir das 10:30 do dia 19/07/2014.

 

Show Conexão Rio-Brasília com Márcia Tauil, Roberto Menescal e Jaques Morelenbaum
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O vexame do Som Brasil Bossa Nova



Os especiais de 1980 eram melhores
O que era bom acabou mudando de estilo. O Som Brasil apresentado nos anos 1980 pelo competente Rolando Boldrin troucou de formato, trocou de apresentadores – saí o homem, entra a mulher – trocou de horário, dia e não tem um mês específico para ir ao ar. Indo às madrugadas de uma sexta feira por mês (quando consegue entrar na grade), o Som Brasil resolveu inovar e dessa inovação houve um grande embaraço musical, convidados nem sempre alinhados ao estilo e muitas vezes incompetentes. O público de hoje, com as novas tendências musicais, acabam não reconhecendo as canções ali apresentadas por novas caras e novas vozes e o programa passa desapercebido. Já para os que gostam do programa e das músicas ali cantadas, acabam se irritando com as mudanças de harmonias e o que era para ser inovação, acaba sendo uma irritação profunda e nostálgica. O Som Brasil mudou de cara e de comportamento, mas não exprime qualidade nem sofisticação alinhada aos novos tempos. A apresentação musical ficou careta e estranha e o que mais irrita na atração são cantores e cantoras inexperientes que dublam as músicas sem o minímo cuidado de tropeçar e com músicos que tocam seus instrumentos ao vento, sem tocá-los.

O Som Brasil apresentado recentemente pela Rede Globo de Televisão dedicou a recordar as melhores canções da bossa nova. Sai Rolando Boldrin, entra Patrícia Pillar que recebeu um dos anfitriões ainda na ativa, Roberto Menescal, um dos precursores do gênero que inovou ao misturar influências do jazz à cultura nacional. Canções que viraram referências da música brasileira – como Garota de Ipanema, O Barquinho e Ela É Carioca – compõem o repertório do programa em homenagem ao estilo. Menescal dividiu o palco com Andrea Amorim, Daíra Saboia, BeBossa e Cris Delanno.

Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Jhonny Alf e Baden Powell se foram, mas ainda permanecem na ativa três grandes monstros sagrados da Bossa Nova: João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal. João Gilberto se isolou nos Estados Unidos e não há santo cristo que o faça dar uma entrevista ou uma aparição pública qualquer.  Carlos Lyra mal compõe músicas hoje em e dia e seu último lançado no ano passado, intitulado Só Danço Samba (Ao Vivo), mas também virou um adepto do esconderijo, pois quase não é possível ver Carlos Lyra.

Roberto Menescal é o contrário de tudo isso e de todos. Ainda na ativa e morando em Brasília, o cantor, compositor, violonista e artista completo lança a cada ano ótimos discos lapidando as melhores vozes femininas de todos os tempos. Seu disco de maior destaque é o Elas Cantam Menescal, lançado no ano passado ao lado de belas vozes, como Márcia Tauil, Sandra Duailibe, Cely Curado e Nathália Lima. Recentemente, Menescal está em companhia da cantora mediana Adriana Amorim – que não é nem maravilhosa, nem boa, nem nada. Apenas fraca cantora.

Há mais de uma década na estrada, Andrea se divide entre a paixão pelo rock e pela bossa nova desde que gravou um CD com Menescal. O compositor também foi fundamental na carreira de Daíra, que começou a trabalhar nos palcos de espetáculos musicais ainda criança e está produzindo seu primeiro disco com o ídolo. O sexteto BeBossa, cujos arranjos são predominantemente vocais, lança um álbum com regravações das letras de Menescal. O cantor protagoniza ainda mais um dueto ao lado de Cris Delanno, que traz experiência como solista em corais. Também são convidados Celso Fonseca, cantor e produtor que participou de diversos festivais internacionais; Alaíde Costa, vocalista que começou em programas de calouro de rádios e hoje tem mais de 50 anos de estrada; Georgeana Bonow, compositora e professora infantil de iniciação musical; e Tibless, representante da afrobeat.

Exceto um dos pais da bossa nova, Roberto Menescal e de Celso Fonseca, Cris Delanno e da excelente Alaíde Costa (que fora aplaudidíssima), os outros músicos não representaram nada ao estilo bossa nova. Às vezes encontramos um Roberto Menescal perdido nas próprias melodias ou perdido de frente das câmeras, mas mesmo assim, o músico se saiu muito bem, pois representou ali como sendo o representante do movimento e criador de várias músicas cantadas.

Adriana Amorim decepcionou! Fanha, a cantora tentou ser maior que tudo ali: maior que o programa, maior que Menescal, maior que as outras cantoras. Abrindo o programa, Adriana sambou mais que cantou e isso prejudicou sua participação. Mesmo sendo um playback, a cantora se esforçou demais para cantar, estorvando seu show e caindo na caretice de ser apenas mais uma entre tantas. Aquele beijinho no Menescal (forçado demais) ao final da música foi o erro fatal e cheio de piegas.

Daíra Sabóia tentou ser uma nova Elis: dançou, requebrou, sorriu, ergueu os braços igual uma Elis Regina. Sua voz até que é agradável, mas de olhos fechados. Péssima escolha do programa em tê-la ali cantando  O Pato, com aquela voizinha irritante por vezes e macia por poucos minutos.  Mesmo com um suingue descontraído, Georgeanna Bonow não convenceu. Sua maquiagem estava muito carregada e sua vestimenta não correspondia ao estilo mais intelectual do movimento. Mais parecia uma cantora de rock punk do que propriamente de bossa!

Decepção geral foi o grupo mineiro Tibless, representante do afrobeat. O cantor até tem uma voz suave, macia, mas ele estava visivelmente fora do tom bossa novista e não convenceu em nada, mesmo sendo um grupo realmente bem afinado. E por falar em afinação, foi a partir da apresentação deste grupo que percebi que tudo ali era cantado em playbak e isso, definitivamente, acabou de enterrar o programa Som Brasil.

Lamentável!

O vexame do Som Brasil Bossa Nova

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A grande dama dos palcos: Sandra Duailibe



A dama Sandra Duailibe

O cenário musical da MPB está cheio de ótimas cantoras com influências das mais diversas possíveis, que vão do chorinho a bossa nova, passando pelo rock e até o folk. De nomes como Emília Monteiro e Olívia Gênesi surgem vozes que tem ganhado cada vez mais espaço e importância na música nacional. Outras, como Karina Buhr e Bárbara Eugênia, se destacam já no álbum de estreia sendo grandes promessas. Mas, como as novidades nesse meio não param, surgem surpresas muito boas e que merecem toda a nossa atenção, como é o caso da cantora Sandra Duailibe, que já está na estrada há um tempo e que me surpreende toda a vez em que a ouço cantar. Sandra é uma dessas cantoras que nos agarram logo no primeiro minuto e mesmo sem ter que cantar, sua fisionomia é impactante, nos hipnotiza e nos acalma de uma tamanha forma, que fica impossível não se apaixonar por ela. E Brasília, a capital do país, tem me deixado muito realizado e feliz com as cantoras lá residentes, como já venho retratando aqui no Mais Cultura Brasileira! com nomes como Cely Curado, Nathália Lima e Márcia Tauil.
A música de Sandra Duailibe foi feita para cantar o amor e todos os seus adjetivos — que de certo não existia ainda quando os primeiros homens cantaram. A envolvente voz dessa cantora nos remete a lembrarmos do quanto a vida é única e bela e do quanto a música popular brasileira é viva, real e sublime. Sandra canta com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses e a natureza, e de conservarmos na memória, pela sedução de seu cantar, as leis da felicidade. A poesia estende-se sempre por um fio condutor, e tenderá constantemente a aproximarmos, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que estão nos interessando e nos conduzindo ao ouvir sua voz.  Acessando o site da cantora (www.sandraduailibe.com.br), você terá todas as informações sobre shows, lançamentos de discos e outras coisas boas.
A dimensão de Sandra Duailibe não se traduz apenas pela doçura da sua voz, mas também pela intensidade com que vive cada uma das músicas que interpreta e que representam não só a sua forma de ser e de estar, mas que mostram a realidade do povo brasileiro, amantes da boa música popular brasileira. Mulher de grandes viagens, Sandra já cantou de Chico Buarque a Lenine com a maestria digna das grandes damas dos palcos e deixando as melodias ainda mais deliciosas.
A receita do sucesso não tem mistério nenhum: uma produção bem caprichada, no estilo banquinho, voz e violão fazem parte de quase todos os seus discos. Sandra apresenta algumas canções da forma como elas foram criadas, mas na maioria das vezes, a desconstrução das melodias fazem toda a diferença, como o caso de Tatuagem, de Chico Buarque e Ruy Guerra, gravada no disco Voz e Piano (2011), cantada com sutileza de detalhes acompanhada do piano de Leandro Braga ou no caso de Morro de Saudade, de Gonzaguinha, canção quase esquecida do filho do Gonzagão, gravada no disco Do Princípio ao Sem-Fim (2006).
É com essa liberdade que Sandra Duailibe transita por diversos estilos musicais. Nascida em São Luís, no Maranhão, a cantora hoje reside em Brasília e é uma das cantoras que conseguem administrar bem sua carreira, traçando sua própria musicalidade com um trato íntimo com a harmonia. Sandra canta bem e é sempre um convite para ouvi-la mais e mais. Quatro discos lançados, sendo o último em homenagem à Roberto Menescal, chamado Elas Cantam Menescal (2012), um dos patronos da Bossa Nova, Sandra tem um repertório variado que vale a pena escolher, permitir, sem faltar espaço para esquecê-la, tampouco desanimar. O importante é deixar a música penetrar em seus poros e ouvidos e descobrir cada nova sensação a cada música ouvida. Seja qual for o jeito escolhido, ouvir Sandra Duailibe se conjuga com todas as formas variantes de se ouvir uma boa música.
Pautada na leveza de sua melodia, a cantora já flutua alto e faz shows em Paris, Brasília e aonde sua música a levar. Sandra Duailibe fala com um mundo inteiro como quem traça mesmo um plano para ser ouvida. Mas não faz de sua carreira como esses matemáticos e calculados, com pressa ou com medos. Sem restrição nenhuma, a cantora optou pelo amor para contar, em cada uma das músicas, as histórias que gosta de pensar.

A grande dama dos palcos: Sandra Duailibe
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A beleza no canto de Márcia Tauil




Márcia Tauil, entre as melhores cantoras
Há cantoras e há cantoras neste Brasil carregado de vozes e sambas e que veneramos e confiamos. Mas para ter confiança e lealdade para com a artista é o que se pode esperar da pessoa cuja a carreira é marcada por uma boa voz e uma trilha repleta de discos maravilhosos e cultivados por belezas conjuntas. Márcia Tauil canta com a alma verdadeira, com sentimentos, com vontade e com verdade e expõe suas graças divinas em discos merecidamente brasileiros com muita categoria e exatidão. Muito produtiva e eficiente, Márcia faz de sua bandeira a prudência e a disciplina para com o canto. Pontual e responsável com seus compromissos, demonstra sempre uma grande estabilidade, fator que a faz respeitável por aqueles que a conhecem. Não deixa nada por acabar e respeita todos os regulamentos, por isso muitas vezes é considerada uma mulher de fibra. Márcia Tauil canta o que gosta e isso faz todo o diferencial em sua carreira.

A música brasileira, talvez, nunca tenha vivido um momento com tantas boas cantoras surgindo como o atual. Uma das cantoras que chama a minha atenção é a mineira Márcia Tauil, ou simplesmente Márcia. Com sonoridade moderna, voz afável, letras interessantes e músicas de alta qualidade para qualquer horario do dia, Márcia cercou-se de muita gente boa e se apresenta como uma das maiores cantoras de todos os tempos. Com uma voz sensível e agradável, sem precisar apelar para truques vocais desnecessários, Márcia Tauil acerta o tom como cantora e ainda mostra ser uma compositora de mão cheia. O jeito de cantar e o estilo econômico na dimensão necessária de compor, coloca desde já Márcia como uma das melhores novidades artistícas.

De Minas para Brasília, a mudança só veio a beneficiar ainda mais sua bem sucedida carreira de cantora e compositora. Lá pôde conviver melhor com cantoras como a amiga Simone Guimarães e Miúcha, irmã de Chico Buarque e com Roberto Menescal, que a adora e a convidou a participar do disco em sua homenagem, o excelente Elas Cantam Menescal, lançado no ano passado, ao lado de Sandra Duailibe, Cely Curado e Nathália Lima (todas de Brasília).

Márcia Tauil é música para os olhos.  Bom senso e discrição são marcas de alguém que leva à sério seu canto.  Moradora de Brasília, Márcia nasceu em Guaxupé, cidade mineira a qual tem muito carinho. Dona de uma voz encantadora, Márcia é responsável por lançar discos memoráveis, como o Sementes no Vento, lançado em 2003, em que canta as músicas feitas pela dupla Eduardo Gudin e Costa Netto, com músicas caprichosas e honrosas.

Cantora, compositora, musicista, mãe, Márcia Tauil faz do seu cantar seu alicerce para a música popular brasileira ser ainda melhor. Eleita pelo Mais Cultura! como a 5º Melhor Cantora do Brasil dos Últimos 10 Anos dentro da MPB, Márcia é uma mulher palavras universais e tem dentro de seu universo o mundo da poesia musicada. Tem tudo para todos os gostos e seu traço, em minha opinião, é regido e batizado unicamente pela sua perspicaz sensibilidade. Impulsiona e alimenta nossa vontade e a nossa capacidade de concretização neste mundo. Além de ser uma das maiores compositoras contemporâneas da música brasileira, Márcia tem músicas compostas ao lado de Simone Guimarães e Roberto Menescal e atualmente prepara um novo CD. Sua obra é incrível. É de ouvir, mas também é de cheirar, de pulsar, de sossegar, de chorar. É tão intenso que quando me falta o ar nesse mundo, eu mergulho dentro de suas canções.

Como toda a vida que contém este ar que entra e sai de mim, incontáveis vezes a cada minuto, a música de Márcia Tauil me infesta de felicidade e acalma meu ser. Eu gosto, eu valorizo e eu me transformo enquanto as ouço. Márcia consegue nos transportar a mundos na qual não somos capazes de alcançar, pois sua voz é maravilhosa e é um mergulho certeiro na corrente das águas do coração.

Tudo isso aliado a texturas, pianos, violões, guitarras, coros e detalhes, mostrando uma música moderna, que remete ao que melhor e mais cuidadoso anda sendo feito na música popular atualmente. Nesse caminho, a cantora oferece um conjunto de canções que contam de forma lírica e lúdica um pouco de sua realidade e a visão feminina do mundo ao redor. Bom humor e poesia leve servem a doces melodias que apontam um trabalho afetuoso desde sua composição que deságua em arranjos caprichados, delicados e precisos e sem exageros.

A beleza no canto de Márcia Tauil
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Nathália Lima: de Brasília para o mundo



A melhor voz do Brasil
Brasília, a capital do Brasil, produz um seleiro de cantoras dignas de respeitabilidade mútua perante o mundo. É difícil não depararmos ao menos com uma cantora que não tenha estado em Brasília, passado um tempo em Brasília ou, melhor, ter nascido em Brasília. A efervescência da música aconteceu (e ainda acontece) em Brasília. No final dos anos 1970, predominavam os ritmos regionais como o forró e a música sertaneja e já nesta época, despontava no grupo Secos e Molhados o cantor Ney Matogrosso, que fora profissional da área de saúde na capital federal. No começo dos anos 1980, surgiram várias bandas de rock vindas de Brasília que despontaram no cenário nacional, como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, todas com influência punk. Na mesma época, um carioca criado em Minas Gerais, Oswaldo Montenegro, se tornava conhecido na cidade, montando espetáculos de cujo elenco fazia parte Cássia Eller, que seria, anos mais tarde, uma das maiores cantoras do Brasil.

Nesta mesma época surgiu, paralelamente ao cenário do rock, o reggae de Renato Matos e outros movimentos culturais que criaram o Projeto Cabeças, de onde surgiram vários artistas de Brasília. Na década seguinte, despontaram o hard core dos Raimundos e o reggae do Natiruts. Alguns músicos e cantores que moraram em Brasília durante esse período foram Ney Matogrosso, Zélia Duncan e membros da Legião Urbana e dos Paralamas do Sucesso.

Brasília produz muita música de qualidade, muitas cantoras respeitadas e admiradas. Mais recentemente, o choro vem ganhando adeptos em Brasília, resultando na criação de clubes de choro, como o Clube de Choro de Brasília. A capital do Brasil também é adepta da bossa nova e por lá vive o grande Roberto Menescal que, juntamente com cantoras do naipe de Márcia Tauil, Sandra Duailibe, Emília Monteiro, Cely Curado e Nathália Lima, fazem de Brasília uma das efervescências mais abundantes e sedutoras que já vi.

Conheci o trabalho e a voz doce de Nathália Lima ao ouvir o disco Ela Cantam Menescal, o que eu apelidei de As Quatro Vozes, por se tratarem de quatro grandes vozes para homenagear um grande compositor. E confesso que me apaixonei por essa cantora, doce, meiga e encantadoramente divina. Nathália Lima tem o dom de exprimir suas qualidades artísticas como quem sabe o que quer, mas também como quem não sabe o tamanho de sua grandeza.

Prestes a lançar um novo disco, Nathália Lima vêm ultimamente se apresentado em shows por Brasília cantando Gonzaguinha e para quem não está na capital brasiliense vale a pena conferir os ensaios que existem pelas redes sociais. Nathália Lima canta interiormente e tentamos descobrir como pensa, sente e age em suas interpretações. Singela, a cantora norteia um repertório com sensibilidade e astúcia e nocauteia-nos com uma voz cristalina. Revela-nos o íntimo da alma, o seu eu interior, suas esperanças, sonhos, ideais, suas motivações: a música. Às vezes é possível que percebamos essa manifestação em sua voz, esse brilho em seu cantar, esse magnetismo sensível que nos passa a emoção maior de sua música e assim não estamos reprimindo os nossos sentimentos e impulsos, pois a música que Nathália Lima canta passa a ser única.

Nathália Lima canta com a feminilidade brasileira que talvez a música exija e consegue com a compreensão e a descoberta de um novo som nos passar algo valioso, atuando como força positiva todo o ambiente em que está. É o prazer em cantar que está presente todas as suas manifestações, em todos os seus poros e em todos os seus trejeitos singulares e mansos. A serenidade de Nathália Lima faz a efervescência cultural de Brasília ser mais rica e dinâmica.


A voz doce de Nathália Lima

Marcelo Teixeira

terça-feira, 9 de abril de 2013

Agenda Mais Cultura: De Tom a Tim, show de Nathália Lima em Brasília


 

Bela voz, belo som
Nathália Lima é uma das cantoras brasilienses com grande qualificação artística, voz sedutora, categoria digna do status que merece receber e consegue nos hipnotizar do início ao fim de uma canção. Recentemente gravou Elas Cantam Menescal, ao lado de Márcia Tauil, Sandra Duailibe e Cely Curado, tendo a participação do anfitrião, Roberto Menescal em praticamente todas as faixas. Nathália canta brilhantemente e agora os brasilienses, que já a conhecem, podem reverenciar a cantora mais uma vez. O Agenda Mais Cultura tem a honra de divulgar o mais novo show da cantora, De Tom a Tim, que, assim como a cantora sugere, é uma viagem musical.

O Show De Tom a Tim será uma viagem pela MPB e Pop Nacional. São destaques do repertório canções de: Tom Jobim, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Djavan, Vanessa da Mata, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zé Ramalho, Tim Maia e muito mais.

Se você está indo à Brasília ou está de passagem pela cidade, nada melhor do que assistir a um bom show, acompanhado de uma boa voz, com um show intimamente brasileiro.

É nesta quinta!

 

Voz: Nathália Lima

Violão: Hugo Coêlho

Percussão: Jorge Macarrão

 

Local: 11.04 no Nosso Mar (115 Norte) Brasília

Horário: 21:30

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

De Olhos Neles: a ótima receita de Sandra Duailibe


A Receita, de Sandra: perfeito
Sempre me perguntei qual a receita para se fazer um bom disco e nunca encontrava respostas, embora eu tenha em meu cadastro discos maravilhosos, mas que uma ou outra canção conseguia derrubar o disco por inteiro. Não preciso mais correr atrás de uma resposta para encontrar a minha pergunta, pois quando recebi o disco Receita, de Sandra Duailibe, com participação de Leandro Braga ao piano, tive a nítida certeza de que eu estava recebendo um grande disco. E a minha confirmação foi concreta, exata, certeira. Sandra é uma dessas cantoras raras que temos que prestar bastante atenção, pois ela canta com amor, com garra, com determinação e este disco só veio a confirmar que ela é uma grande cantora. A receita de Sandra parece ser simples, mas não é: pinçou alguns grandes sucessos de longa estrada, juntou aos novos nomes da MPB, repintou as melodias, recriou as letras com uma sabedoria refinada e nos presenteou com um disco a altura da música popular brasileira.

Sandra Duailibe é um presente divino, raro e genuíno. Precisamos urgentemente conhecer e desbravar esta grande cantora que nasceu em São Luís do Maranhão, crescida no Pará e que hoje se divide entre Brasília e o mundo. Dona de uma voz de veludo, Receita é um dos mais belos discos de sua carreira e pode ser considerado também um dos mais importantes dentro da MPB, pois a leveza e a responsabilidade com a qual carrega a musicalidade dentro de si, a faz ser também uma cantora com potencial.

Cantando diversos sucessos consagrados, como Feitio de Oração (Noel Rosa), Cão Sem Dono (Sueli Costa e Paulo Cesar Pinheiro), A Medida da Paixão (Lenine e Dudu Falcão), Gota de Sangue (Ângela Ro Ro), Certas Canções (Tunai e Milton Nascimento), Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra), Clara Paixão (Nonato Buzar, Rosinha de Valença e Sarah Benchimol), Dama da Noite (João Nogueira e Mauricio Tapajós), Te Amo Sem Fim (Francis Hime e Simone Guimarães) e O Cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta), Receita, que ganhou faixa título composta por Socorro Lira é um disco delicioso, caprichado e harmonioso.

O De Olhos Neles de hoje, trás a cantora Sandra Duailibe, que tem em sua discografia os belos discos Do Princípio ao Sem Fim, A Bossa no Tempo (com Cely Curado), e o mais recente Elas Cantam Menescal, uma justa e bela homenagem a Roberto Menescal, com as cantoras Márcia Tauil, Nathália Lima e Cely Curado. Um disco que precisa ser escutado, lapidado, comentado pelos quatros cantos do país por dois agravantes: o disco é ótimo e a cantora é sensacional.

 

De Olhos Neles / Sandra Dualibe

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um ano de Mais Cultura!


 







Um ano de cultura!
Este é o mês de aniversário do Mais Cultura!. Em um ano de divulgação de cantores, cantoras, artistas, poetas, memória e alfinetadas, pude constatar o quanto um blog ainda é visto e lido por muitas pessoas dentro e fora do Brasil (Holanda, Estados Unidos e Portugal são os países mais visitados). Recomendar um disco novo, divulgar uma cantora nova, resenhar um artigo malcriado a alguns cantores, esse foi o lema do blog, que conseguiu, aos poucos, ganhar a confiança de algumas pessoas e pude, enfim, ter um objetivo em minha vida alcançado. Agora eu sou um crítico de música, como eu sempre quisera ser. Não sou jornalista, como muitos pensam, mas tenho consciência de que escrevo e escrevo para o bem ou para o mal de alguns seres cantantes. Portanto, neste primeiro ano de escrita, posso enfim dar os meus parabéns à pessoas que vieram até a mim, seja por e-mail, seja por carta, seja por rede social, para demonstrar o seu afeto, a sua gratidão, o seu desmantelo, a sua raiva e o seu orgulho perante o meu trabalho.

Conheci, através do blog, pessoas importantes que me fizeram crescer profissionalmente. Alguns amigos como Diogo Santos e Ricardo Silva (o início de tudo), Edson Guedes, Sandro Cândido, a minha querida amiga Jamile Vaz (e seus medos sobre quem escrevo), ao meu amigo/irmão Adriano Resende do Nascimento, Augusto Alves (talvez o terceiro pai do blog), David Rodrigues Merlim, Tom Costa (quantas saudades da sacada de seu apartamento de onde saíram tantas conversas e que saudades da sua João Pessoa), minha irmã Marta Teixeira, que sempre foi a primeira a ler meus artigos e a ser a primeira pessoa a me criticar, Aninha Vieira Bomi, que mantêm um dos blogs mais criativos e originais sobre uma das maiores cantoras do Brasil, Clara Nunes, Tatiana Brasil, que sempre me chama de louco pelos artigos que escrevo, devo a vocês todo o incentivo, o carinho e a confiança que depositaram em mim.

Agradeço (e não sei como começar) profundamente pelo apoio das maravilhosas cantoras Márcia Tauil (a partir de você eu pude ser levado a Minas Gerais, tendo meu nome veiculado como um dos críticos mais lidos dentro da MPB), Sandra Duailibe, que lá de Brasília, capital do Brasil, conheceu meu trabalho e, numa carta linda com o cheiro de sua terra natal, Pará, pediu humildemente que eu continuasse este meu trabalho em prol da nossa música. Agradeço a Roberto Menescal, que disse que meu trabalho é consistente, agradeço também a cantora Simone Guimarães, que me elogiou pelo artigo Quatro Vozes para Menescal, agradeço a cantora Cely Curado que curtiu meus escritos, agradeço a Graziela Ruiz, que entrou em contato comigo pelo artigo que escrevi sobre Tulipa e agradeço a própria Tulipa Ruiz, que, em um show, disse que tinha conhecimento do meu blog.

Agradeço a cantora Tiê, pela bela foto que tiramos juntos, agradeço a Marina Wisnik, que praticamente escrevemos um artigo juntos, agradeço ao meu grande amigo carioca, Jaime Santana, que foi o primeiro a me reconhecer como um crítico de artes (desde 2006, quando brigávamos e discutíamos quase todas as noites via rede social sobre Elis Regina e Clara Nunes e agora sobre Maria Rita), agradeço ao meu queridíssimo Bruno Gil Soares, que em minha visita a João Pessoa me apresentou a cantora Jaina Elne e agradeço aos meus leitores que sempre me deram altos índices de acessos.

Acredito que para melhor resenhar este artigo, nada melhor do que a música Vida, de Chico Buarque, composta em 1980 para o disco que ganha o mesmo título, para descrever o que eu mesmo representei aqui e um dos belos trechos da canção diz vida, ah minha vida, olha o que é que eu fiz / toquei na ferida, nos nervos, nos fios, nos olhos dos homens de vida sombria / mas vida, ali, eu sei que fui feliz. E digo isto com uma certeza gigantesca de que toquei na ferida alheia com os artigos sobre os piores cantores do país com minha linguagem ácida e por vezes maléfica.

Acho que o blog ganhou uma notoriedade ainda maior, quando criei As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos na MPB, aonde citei de Aline Calixto a Bebel Gilberto, chegando a Vanessa da Mata, Mariana Aydar e Roberta Sá, deixando de fora cantoras que me foram sugeridas ao longo de quase duas semanas, como Maria Rita, Maria Gadú, Paula Fernandes e Luíza Possi. Através deste quadro, alcancei o que mais queria, graças a Márcia Tauil.

Mas escrever artigos não é uma tarefa fácil como muitos pensam. Por vezes, imagino com muita antecedência sobre qual artista resenhar e se será positiva ou negativamente e este plano acontece do nada, sem princípios. Imagino um cantor e o estudo. Foi assim que cheguei a conclusões de que Paula Fernandes não transpassa emoções, Wanessa não canta nada e ultimamente virou refém da máfia americana e passei a escutar com mais afinco estilos que até então não me caíam bem gastricamente, como os pagodeiros (sim, eu gosto do estilo de Thiaguinho), do sertanejo (idolatro o estilo de Vitor e Léo e Michel Teló) e passei a adorar a música nordestina ao estilo de Karina Buhr, Lula Queiroga, entre outros.

No mês de aniversário do Mais Cultura!, quem ganha é você. Com novos quadros, novas divulgações, novos artigos e ainda mais polêmicos, terei o prazer de escrever especialmente para leitores exigentes por qualidade musical assim como eu.

Muito obrigado!

 

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A bossa de Sandra Duailibe e Cely Curado


 

Ótimo encontro de Sandra e Cely
Se o disco A Bossa no Tempo contasse apenas com a voz rouca e gostosa de Sandra Duailibe, já valeria a pena ouvir os clássicos do estilo que ainda hoje é vista como conceituada e requintada, mas para surpresa geral, a cantora convidou Cely Curado e o resultado é muito mais satisfatório, porque as vozes contrastam e o brilho nas canções realça ainda mais o repertório primoroso e genial dos grandes mestres da bossa. Voz aveludada e voz pujante caminham lado a lado nos dando a dimensão do que está por vir nas treze faixas do disco, nos deixando arrepiados, encantados e apaixonados por ambas as cantoras e pelo disco em si. Com participações do grande Roberto Menescal, o disco tem ainda a pincelada de Sérgio Galvão e a cortesia de Nonato Buzar, veterano na música.

Abrindo o disco com a saborosa A Banca do Distinto, Sandra e Cely interpretam com ousadia a canção de Billy Blanco, fazendo dela um delicioso dueto. Mas em Você Vai Ver é que a emoção carrega e somos obrigados a levantar e aplaudir as grandes divas do novo cenário musical que está se expandindo para além de outras áreas do Brasil. Com letra carregada de sentimentalismos vingativos de Tom Jobim, Sandra e Cely denotam a música como sendo um grande achado para a coleção musical de todos os amantes da MPB e, de quebra, conseguiram fazer da canção uma marca registrada com suas vozes latentes. Até então, pra mim, a música tinha um certo carisma na voz de Zélia Duncan cantada com Pedro Mariano (mais conhecido por ser o filho de Elis e o irmão de Maria Rita), mas agora posso garantir que Sandra Duailibe e Cely Curado conseguiram dar uma emoção maior à música, a deixando completa, rica e com a verdadeira mensagem imposta pelo poeta.

 

Rio, Copacabana

Poesia, muita paixão

Em Brasília, o azul celeste

É fonte de inspiração

Parece magia

Essa energia que tem lá e cá

Me faz mergulhar na onda do ar

Cantar e cantar

 

Trecho de Onda do Ar, de Marcia Forte e Sandra Duailibe

 

 

Samba em Prelúdio, do mestre Baden Powell com o poeta Vinicius de Moraes me arrepia. Arrepia porque as duas vozes se encontram e se desencontram, se harmonizam, se aquietam, se aniquilam e se atropelam numa forma voraz, sutil, doce, atroz, romântica e semeia um elo de sentimentos remanescentes que fica impossível não parar tudo o que estamos fazendo e ouvir com atenção a mistura de vozes, o concerto de rimas, a respiração de Sandra e Cely em nossos ouvidos. Balanço Zona Sul é ótima, as batidas originais e a leve sensação de malandragem na bossa nova estão aqui, alcançadas com maestria por duas vozes possantes. E o mesmo acontece com Lugar Comum, dos grandes gênios João Donato e Gilberto Gil. Esta canção, que já foi ovacionada pela cantora Joyce Moreno em um disco em tributo à Bossa Nova lançado apenas no Japão (anos depois veio ao Brasil para uma edição limitadíssima), demonstra aquilo que queremos ouvir de João: o lado oculto de sua musicalidade, da letra sem letra, do capricho da melodia e da sensatez de nos encaminhar para o rebuscamento da música. Donato é um gênio!

Roberto Menescal e Leila Pinheira, o pai e a filha da bossa, compuseram a música que fecha o disco, O Céu nos Protege, com uma letra intimista, abastada e forte. Mas não posso encerrar este artigo sem citar duas músicas que não fizeram parte da bossa, mas que está presente aqui numa forma carinhosa de homenagem ao estilo: Onda do Ar, composta por Marcia Forte e Sandra Duailibe, que é um justo tributo à tudo aquilo que se refere ao título do disco e Vem Amada, deliciosa música da competente Simone Guimarães, que também assina a direção musical e vocal do disco.

A Bossa no Tempo representa a bossa em nossas vidas e em nossos sentimentos, na nossa musicalidade e nos deixa aquela livre e aberta sensação de que ainda se pode fazer música, criar emoções, despertar humanos, abrir os poros e cantar o amor na sua mais sublime forma e este disco de Sandra Duailibe com participação honrosa de Cely Curado só veio comprovar que a bossa está em todos os tempos: seja ontem, seja hoje, seja amanhã. E o tempo de Sandra Duailibe e Cely Curado é para sempre.

 

Faixas

01. A banca do distinto (Billy Blanco)

02. Quando chegares (Carlos Lyra)

03. Você vai ver (Tom Jobim)

04. Samba em prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

05. Onda no ar

06. Balanço Zona Sul (Tito Madi)

07. Vem, amada (Simone Guimarães)

08. Preciso aprender a ser só (Marcos e Paulo Sérgio Valle)

09. Duas lágrimas

10. Jamais (Milena e Caio Tibúrcio)

11. Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil)

12. Estopim (Nonato Buzar e Ronaldo Bôscoli)

13. O céu nos protege (Roberto Menescal e Leila Pinheiro)

 

A Bossa no Tempo / Sandra Duailibe convida Cely Curado

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Quatro vozes para Roberto Menescal


 

As quatro belas vozes da MPB
Quando se pensava que o Brasil estava escasso de boas cantoras no cenário musical, eis que surgem quatro maravilhosas vozes que conseguem, em seus cantos solos ou em uníssono, fazer um dos mais belos discos em homenagem à Bossa Nova e, consequentemente, salvando parte da MPB que está voltada cada dia mais para o pop romântico ou para semânticos do duplo sentido, perdendo, muitas vezes, sua essência. Quando se pensava que a Bossa Nova estivesse esquecida ou fosse, hoje, produto exportado e adorado apenas por estrangeiros – americanos em sua maioria – eis que surge o belo e maravilhoso disco Elas Cantam Menescal (2012 / Albatroz) cheio de bossa, balanço, carisma e Roberto Menescal. Quatro vozes, quatro cantoras da melhor estirpe dividem os vocais para celebrar o melhor deste que foi um dos pais do estilo, ao lado de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Quatro vozes para homenagear Menescal, que continua na ativa e que consegue descobrir novos e excelentes talentos como Cely Curado, Márcia Tauil, Nathália Lima e Sandra Duailibe. Mas vamos com calma, porque aqui neste disco, as quatro vozes vão do melhor de Menescal ao inédito do mesmo e isso causa uma sensação de esperança na música, pois as cantoras de hoje ainda respiram o estilo com maestria e determinação.Já resenhei sobre Sandra Duailibe aqui no Mais Cultura! com seu delicioso disco Do Princípio ao Sem-Fim e Márcia Tauil esteve na lista das 20 melhores cantoras surgidas nos últimos 10 anos na MPB, alcançando o merecido quinto lugar, mas pra mim foi uma grata surpresa poder conhecer também os trabalhos (e as vozes encantadoras) de Cely e Nathália. Estilo único capaz de nos deixar encantados, o som que as quatro cantoras expõe é de uma delicadeza profunda, de um sentimentalismo aflorado e apurado e de uma magnitude centralizada na beleza de uma batida cadenciada que marcou gerações. Falar de Brasília, a capital do Brasil e não citar o movimento que marcou o início da nova geração do Rock, como Legião Urbana e Capital Inicial e que deu um salto significativo para a indústria fonográfica, eis que a capital volta a ser o centro das atenções, pois muita gente boa e de respeito mútuo está apontando por ali, caso das quatro cantoras e de algumas mais, como a sensacional Simone Guimarães.  Para ouvir o disco (e as lindas vozes) é preciso fechar os olhos e imaginar que estamos no Rio de Janeiro de 1960, nas noites cariocas, quando tudo era possível ou imaginado, quando a música brasileira estava trocando a noite pelo dia, literalmente, porque até então, a música era cantada e musicada durante a noite, os eventos musicais e as reuniões dos músicos eram centradas a noite e durante o dia nada acontecia, senão dormir e descansar. Um dos responsáveis por esse feitio era um jovem e promissor rapaz que, não por acaso, gostava de tocar violão, chamado Roberto. Roberto Menescal.

 

Tanto sol a iluminar

Por aqui e até no Japão

E a alma ri e se põe a dançar

Clube da Bossa

Quem não gosta deste lugar?

Das batidas do coração?

Nessa festa de luz eu vou

Nessa festa de sol eu vou

Nessa festa eu vou

Ah, vem também, meu amor

Trecho de Clube da Bossa, de Menescal e Márcia Tauil

 

Abrindo o disco com a provocante e bem humorada O Brasil Precisa Balançar, as quatro intérpretes dividem frases que mais parece uma provocação às pessoas que carecem de uma verdadeira musicalidade ou que vivem de músicas gratuitas e descartáveis. Você, aqui cantada extraordinariamente por Márcia Tauil ao lado do grande mestre, denota toda a sensibilidade afetiva de uma grande cantora com uma música que mexe com o nosso imaginário. Embora a voz de Cely Curado muitas vezes se parece com o da cantora Wanda Sá (grande amiga de Menescal), aqui as canções Me Diz e Amanhecendo nos deixa a sensação de que suas vozes são idênticas. Isso não faz perder a credibilidade da estonteante cantora Cely Curado, muito pelo contrário, porque a cantora carrega no timbre um ar de bossanovismo que faz a alma de Elas Cantam Menescal ficar com aquele ar saudade. Cely Curado nasceu em Brasília e faz um certo barulho em sua cidade natal, onde é muito popular e segue em shows cantando ao lado de Sandra Duailibe ou em shows solo, aonde canta clássicos da MPB. Aqui neste disco ela encanta pela voz potente, pelo belo timbre e pela sua música.
Nathália Lima esbanja emoção nas faixas Nós e o Mar (já cantada por Maysa) e Energia Feliz, talvez uma das melhores do disco também. A cantora, que também nasceu em Brasília, é muito popular em sua terra natal, aonde segue cantando clássicos da MPB e que aqui no disco interpreta com sutileza as pérolas de Menescal. Sandra Duailibe interpreta com sua voz rouca as belas faixas 3X4 e Copacabana de Sempre. Com batidas leves, lembrando suavemente as canções de bossa nova, Sandra reinventa uma maneira de cantar, não caindo na mesmice e deixando sua marca registrada no disco. Vale ressaltar que Sandra é uma dessas cantoras que devem ser sempre ouvidas e descoberta o mais depressa possível pelos amantes da MPB. Márcia Tauil nasceu em Guaxupé, Minas Gerais e já foi resenhada aqui no Mais Cultura! em dois artigos, sendo um deles sobre seu sensacional disco sobre as obras de Eduardo Gudin e Costa Netto e além de ser uma grande cantora, aqui ela se mostra uma compositora vertente e de calibre sutil. Compôs com Menescal a dançante Clube da Bossa e a sensação que a música nos passa é de que ali está centrada o novo clube que está reverenciando a bossa nova no século vinte e um. Clube da Bossa é uma junção de punhado de vários estágios do estilo bossanovista que já ouvimos por ai: às vezes soa como resposta a faixa O Brasil Precisa Balançar, às vezes remete à música Meditação, mas o que a canção transmite é a sensibilidade que a Bossa Nova passou às pessoas e ainda continua passando, com dias lindos, sol, flor, amor. E bossa é exatamente isso: o amor. Ninguém menos do que Menescal para reverenciar um dos grandes marcos na história da música popular brasileira, ainda na ativa, sendo respeitado e admirado por pessoas que cresceram ouvindo aqui ou ali suas melhores composições. Em Elas Cantam Menescal, as faixas escolhidas foram o ponto alto, pois não trazem canções conhecidas e aqui temos a oportunidade de ver o cantor e compositor sendo agraciado com as melhores vozes que o Brasil precisava ouvir e descobrir.

 


Elas Cantam Menescal / Cely Curado, Márcia Tauil, Nathália Lima e Sandra Duailibe
 
Nota 10
 
Marcelo Teixeira