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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Marina de La Riva é a rainha do mar de Dorival Caymmi


Marina e Dorival: justa homenagem
Com um sotaque levemente cubano, a cantora Marina de La Riva lança um disco no mínimo curioso e ao mesmo tempo autêntico: uma bela homenagem ao baiano Dorival Caymmi.  Gravado ao vivo em São Paulo, Rainha do Mar – Marina de La Riva canta Caymmi (2017 / Universal Music / 26,99) é um projeto inovador em sua carreira, que marca um retorno à obra do compositor, cujo transitou perfeitamente em 2014, ano de seu centenário. De um total de quatro shows iniciais, o resultado acabou virando um disco, tamanho o sucesso de público e crítica nas apresentações e que acabou por se transformar em uma turnê muito aclamada que chegou até Macau, na China. Sendo uma simples e bela homenagem ao cancioneiro do patrono da Bahia, o resultado não poderia vir acompanhado de uma excelente voz e de uma competente cantora, que acabou convidando artistas do mais alto nível, como Danilo Caymmi em O Bem do Mar e Oração a Mãe Menininha, Ney Matogrosso em Só Louco / Dos Gardênias e João Donato em Marina e Canto à Yemanjá / Rainha do Mar. Para escolher o vasto e glorioso repertório de Dorival, bastou as formas da natureza e os ricos personagens femininos que tanto cantou e encantou. Somado a tudo isso encontramos a voz latina com raízes cubanas e porto brasileiro de Marina, construindo aqui uma original categoria musical de forma habilidosa e fenomenal. Misturando pérolas como Canto de Nanã, Oração à Mãe Menininha, Babalu e Oggure, o Acalanto de Dorival Caymmi se junta com o acalanto cubano Canción de Cuna, que seu pai cantava. Marina de La Riva trouxe ao público um registro histórico e profundo, que precisa ser ouvido e lapidado a cada instante.

 

Rainha do Mar (2017) / Marina de La Riva
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nos Horizontes de Leila Pinheiro


Um dos melhores de Leila
Leila Pinheiro é muito conhecida como uma bossa-novista que não esteve naquele tempo áureo de Tom Jobim ou Vinicius de Moraes, mas teve o aval e apadrinhamento do primeiro para poder cantar toda a discografia precisa do maior compositor brasileiro de todos os tempos. Mesmo com discos muito além da bossa nova, Leila Pinheiro conseguiu imprimir em sua discografia, discos quase autorais, como Na Ponta da Língua e Nos Horizontes da Vida, hoje retratado aqui no Mais Cultura. E Leila teve muito o que celebrar em 2005, ano do lançamento do disco, pela Universal. Contratada pela Biscoito Fino no ano seguinte, a cantora lançou um de seus melhores discos, Nos Horizontes do Mundo - o primeiro gravado com autonomia desde 1998, ano em que apresentou o delicioso CD Na Ponta da Língua (já resenhado aqui no blog).

Sem obstinação, Leila arriscou na disparidade e estimulou a nova onda de parcerias como Joyce com Luiz Tatit na saborosa Deu no que Deu, Marcos Valle com Jorge Vercilo, na dançante Pela Ciclovia e, sobretudo, Chico Buarque com Ivan Lins - na inquietante, Renata Maria). Leila gravou ainda soberbas inéditas de Fátima Guedes (A Vida que a Gente Leva) e Francis Hime, com participação de John Donne e Geraldo Carneiro (Gozos da Alma), além de ter recriado de forma sublime a triste canção Onde Deus Possa me Ouvir, do mineiro Vander Lee, em registro que superou (e muito) a gravação feita por Gal Costa em 2002, em Gal Tropical.

Tiranizar, de Caetano Veloso e César Mendes, foi um dos achados de Leila para compor o novo disco, porque a música ficou muito deliciosa de ouvir e dá aquela sensação de quero mais. Assim como O Amor e Eu, um sambinha genioso de Eduardo Gudin, outro grande amigo de Leila. Nuestro Juramento é um bolerão dos bons do porto-riquenho Benito de Jesus e ...E Muito Mais é uma boa embolada que somente os irmãos João Donato e Lysias Ênio sabem fazer.

Mas não são todos que conseguem gravar Minha Alma, do grupo O Rappa com tamanha maestria. Vânia Abreu o fez em seu disco Eu Sou a Multidão e o resultado ficou bacana. Aqui, Leila Pinheiro utiliza a música Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), com voz de Nelson, como incidental tanto no início como no fim da canção. Ficou boa, mas poderia ser melhor e nem por isso tira o mérito de todo o álbum.

A faceta de compositora aparece em Delicadeza tocada apenas ao piano e a parceria com Renato Russo surge em Hoje, uma música calcada no sentimento puro e sincero sobre a vida. Simone Guimarães a presenteia com Vem, Amada, uma canção leve, que trata sobre o amor e suas singelezas perdidas. Encerrando (assim como Na Ponta da Língua) com Walter Franco, grande amiga da cantora, A 60 Minutos Por Hora revela que sessenta minutos por hora não precisa ter pressa para chegar a lugar nenhum.

Nos Horizontes do Mundo (letra de Paulinho da Viola) repousa Leila Pinheiro no primeiro time de cantoras nacionais, depois de muito caminhar com discos a sombra da bossa nova.

 
Nos Horizontes do Mundo / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

24º Maior Cantora do Brasil: Leny Andrade


Espetacular, sublime e única
Considerada uma das melhores cantoras de todos os tempos da MPB por admiradores do mundo todo (principalmente os americanos), Leny Andrade é considerada por muitos como uma cantora brasileira de jazz. Nascida no Rio de Janeiro, Leny começou a estudar piano aos seis anos de idade. Em seguida apresentou-se em programas de calouros em rádios e ganhou uma bolsa de estudos para o Conservatório Brasileiro de Música. Aos 15 anos estreou profissionalmente como crooner da orquestra de Permínio Gonçalves. Mais tarde cantou nas boates Bacará (com o trio de Sergio Mendes) e Bottle's Bar. Em 1965 alcançou grande sucesso no show Gemini V atuando com Pery Ribeiro e o Bossa Três na boate Porão 73, lançado em disco gravado ao vivo. Depois de uma temporada de sucesso na Argentina, foi para o México, onde viveu por cinco anos. Gravou discos mais chegados ao samba e à música de vanguarda, nos anos 70, como Alvoroço (73) e Leny Andrade (75).

Em 79, na Columbia, gravou o LP Registro, voltando ao samba-jazz, seara muito particular que Leny sempre dominou com maestria. Cantando ao lado de artistas como Dick Farney, Luiz Eça, Wagner Tiso, Eumir Deodato, Francis Hime, Gilson Peranzzetta e João Donato, Leny Andrade firmou-se como a maior cantora brasileira de jazz, conhecida por sua notável capacidade de improvisação. Nas décadas de 80 e 90 dividiu-se entre o Brasil e os Estados Unidos, onde gravou vários discos de samba-jazz, dentre os quais o clássico Luz Neon, pela Eldorado. Dedicou ainda discos a compositores de samba, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Lançou também CDs em parceria com instrumentistas de prestígio, como Cesar Camargo Mariano (Nós), Cristóvão Bastos (Letra & Música/Tom Jobim) e Romero Lubambo (Coisa Fina). Gravou ainda um CD apenas com standards norte americanos, em ritmo de bossa nova (Embraceable You).

Por toda a sua maestria e capacidade de encantar o mundo, Leny chega ao 24ª lugar na lista das 30 Maiores Cantoras de Todos os Tempos.

 

24º Lugar: Leny Andrade

As 30 Maiores Cantoras de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O início de Adriana Calcanhotto


 


Enguiço tem a bela voz de Adriana
Muito conhecida hoje por trabalhos autorais, já que nos últimos CDs a maioria das canções são de autoria própria, nesse primeiro disco ela optou por priorizar seu lado intérprete, ainda que também tenha músicas próprias, como Enguiço (que deu nome ao disco) e Mortaes. Embora eu goste muito de suas composições que certamente contribuíram para consolidar sua carreira nesses mais de vinte anos, esse primeiro disco acabou ficando marcado por algumas interpretações de canções de outros músicos, mas que com a voz e arranjos dela, adquiriram vida própria. Depois de iniciar com a citada Enguiço, ao som de uma banda de metais (saxofones, trumpetes, trombones, etc), vem Naquela Estação, bela canção de João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos que tocou muito nas rádios na época e serviu para apresentar Adriana Calcanhoto ao público.

Em seguida, ela transformou completamente a canção do Roberto e Erasmo, Caminhoneiro (cuja original eu particularmente não gostava). Com novo arranjo e uma voz límpida, o resultado ficou muito bom. Em seguida, fez a mesma coisa com Sonífera Ilha, desacelerando completamente a conhecida música dos Titãs, incluindo cordas e empregando à canção um novo sentido. Ao interpretar a canção de Luiz Peixoto e Vicente Paiva feita para Carmen Miranda, quando retornou ao Brasil após sua primeira viagem aos Estados Unidos, Adriana Calcanhoto consegue outro belo resultado para Disseram que voltei americanizada.

Na sequência, Calcanhoto desfila seu Orgulho de um Sambista, de Gilson de Souza numa suave canção de amor de carnaval. Fiel às suas origens (ainda que hoje seja, antes de tudo, uma cantora brasileira), ela ainda inclui no repertório Nunca, de Lupicínio Rodrigues, o mais clássico compositor gaúcho, novamente acompanhada por instrumentos de cordas que valorizam sua voz, embora a canção tenha caído como uma luva na voz de Zizi Possi.

Depois de Pão Doce de Carlos Sandroni, que conta com a participação do também gaúcho Renato Borghetti (Borghettinho) e de Mortaes, a segunda música autoria própria nesse seu primeiro disco, ela finaliza com a bem humorada Injuriado de Eduardo Dusek, acelerando o ritmo, dando boa demonstração de sua versatilidade.

Desde o lançamento desse disco, em 1990, Adriana Calcanhoto (que também desenvolve excelentes trabalhos paralelos como Adriana Partimpim) vem consolidando cada vez mais sua carreira e hoje é, certamente uma das cantoras e compositoras brasileiras mais versáteis. E embora discos posteriores dela possam ser considerados até melhores, Enguiço serviu como cartão de visita de uma intérprete que concilia suavidade com personalidade. Felizmente para nós, ela seguiu atrás de algo impressionante.

 

 

Enguiço / Adriana Calcanhotto

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A bossa de Sandra Duailibe e Cely Curado


 

Ótimo encontro de Sandra e Cely
Se o disco A Bossa no Tempo contasse apenas com a voz rouca e gostosa de Sandra Duailibe, já valeria a pena ouvir os clássicos do estilo que ainda hoje é vista como conceituada e requintada, mas para surpresa geral, a cantora convidou Cely Curado e o resultado é muito mais satisfatório, porque as vozes contrastam e o brilho nas canções realça ainda mais o repertório primoroso e genial dos grandes mestres da bossa. Voz aveludada e voz pujante caminham lado a lado nos dando a dimensão do que está por vir nas treze faixas do disco, nos deixando arrepiados, encantados e apaixonados por ambas as cantoras e pelo disco em si. Com participações do grande Roberto Menescal, o disco tem ainda a pincelada de Sérgio Galvão e a cortesia de Nonato Buzar, veterano na música.

Abrindo o disco com a saborosa A Banca do Distinto, Sandra e Cely interpretam com ousadia a canção de Billy Blanco, fazendo dela um delicioso dueto. Mas em Você Vai Ver é que a emoção carrega e somos obrigados a levantar e aplaudir as grandes divas do novo cenário musical que está se expandindo para além de outras áreas do Brasil. Com letra carregada de sentimentalismos vingativos de Tom Jobim, Sandra e Cely denotam a música como sendo um grande achado para a coleção musical de todos os amantes da MPB e, de quebra, conseguiram fazer da canção uma marca registrada com suas vozes latentes. Até então, pra mim, a música tinha um certo carisma na voz de Zélia Duncan cantada com Pedro Mariano (mais conhecido por ser o filho de Elis e o irmão de Maria Rita), mas agora posso garantir que Sandra Duailibe e Cely Curado conseguiram dar uma emoção maior à música, a deixando completa, rica e com a verdadeira mensagem imposta pelo poeta.

 

Rio, Copacabana

Poesia, muita paixão

Em Brasília, o azul celeste

É fonte de inspiração

Parece magia

Essa energia que tem lá e cá

Me faz mergulhar na onda do ar

Cantar e cantar

 

Trecho de Onda do Ar, de Marcia Forte e Sandra Duailibe

 

 

Samba em Prelúdio, do mestre Baden Powell com o poeta Vinicius de Moraes me arrepia. Arrepia porque as duas vozes se encontram e se desencontram, se harmonizam, se aquietam, se aniquilam e se atropelam numa forma voraz, sutil, doce, atroz, romântica e semeia um elo de sentimentos remanescentes que fica impossível não parar tudo o que estamos fazendo e ouvir com atenção a mistura de vozes, o concerto de rimas, a respiração de Sandra e Cely em nossos ouvidos. Balanço Zona Sul é ótima, as batidas originais e a leve sensação de malandragem na bossa nova estão aqui, alcançadas com maestria por duas vozes possantes. E o mesmo acontece com Lugar Comum, dos grandes gênios João Donato e Gilberto Gil. Esta canção, que já foi ovacionada pela cantora Joyce Moreno em um disco em tributo à Bossa Nova lançado apenas no Japão (anos depois veio ao Brasil para uma edição limitadíssima), demonstra aquilo que queremos ouvir de João: o lado oculto de sua musicalidade, da letra sem letra, do capricho da melodia e da sensatez de nos encaminhar para o rebuscamento da música. Donato é um gênio!

Roberto Menescal e Leila Pinheira, o pai e a filha da bossa, compuseram a música que fecha o disco, O Céu nos Protege, com uma letra intimista, abastada e forte. Mas não posso encerrar este artigo sem citar duas músicas que não fizeram parte da bossa, mas que está presente aqui numa forma carinhosa de homenagem ao estilo: Onda do Ar, composta por Marcia Forte e Sandra Duailibe, que é um justo tributo à tudo aquilo que se refere ao título do disco e Vem Amada, deliciosa música da competente Simone Guimarães, que também assina a direção musical e vocal do disco.

A Bossa no Tempo representa a bossa em nossas vidas e em nossos sentimentos, na nossa musicalidade e nos deixa aquela livre e aberta sensação de que ainda se pode fazer música, criar emoções, despertar humanos, abrir os poros e cantar o amor na sua mais sublime forma e este disco de Sandra Duailibe com participação honrosa de Cely Curado só veio comprovar que a bossa está em todos os tempos: seja ontem, seja hoje, seja amanhã. E o tempo de Sandra Duailibe e Cely Curado é para sempre.

 

Faixas

01. A banca do distinto (Billy Blanco)

02. Quando chegares (Carlos Lyra)

03. Você vai ver (Tom Jobim)

04. Samba em prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes)

05. Onda no ar

06. Balanço Zona Sul (Tito Madi)

07. Vem, amada (Simone Guimarães)

08. Preciso aprender a ser só (Marcos e Paulo Sérgio Valle)

09. Duas lágrimas

10. Jamais (Milena e Caio Tibúrcio)

11. Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil)

12. Estopim (Nonato Buzar e Ronaldo Bôscoli)

13. O céu nos protege (Roberto Menescal e Leila Pinheiro)

 

A Bossa no Tempo / Sandra Duailibe convida Cely Curado

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 25 de julho de 2012

João Bosco - 40 Anos Depois


João Bosco em sua plena forma
Se Elis Regina estivesse viva, na certa gravaria Papel Marchê, música composta por João Bosco e Aldir Blanc nos anos 90 e que foi a música mais executada e gravada por grandes nomes da MPB. Se João Bosco tivesse composto a canção nos anos 70, certamente Elis a gravaria e com estrondoso sucesso. Zizi Possi, que fora cogitada como a sucessora de Elis após sua morte precoce, gravou a canção lindamente, que não precisaria de retoques ou outra grande interprete para canta-la. Assim como Milton Nascimento, as músicas de João Bosco foram feitas para Elis, mesmo as compostas nos anos 90 e no início do século vinte e um. As músicas do disco Na Esquina remete ao disco Elis 1973, tamanha a bela conjuntura de jogos de palavras. Isso acontece com o disco Os Malabaristas do Sinal Vermelho (2003), em que algumas faixas nos dão a dimensão de que Elis está ali, captando o som, administrando as palavras, sentindo a letra da canção.

Se 40 minutos são uma eternidade, 40 horas são demoradas e podem-se produzir maravilhas, imagina o que se pode fazer em 40 anos! São tantos se, que João Bosco, completando 40 anos de sucesso e carreira, pode se dar ao luxo de dizer que fez muito pela música, pela MPB, pela cultura brasileira e por todos nós. Cantado por ilustres bambas da MPB, de Clementina de Jesus a Caetano Veloso, Ana Carolina, Céu, Maria Rita, Chico Buarque, Clara Nunes e Rebecca Matta, João Bosco é um ícone a ser respeitado no cenário musical de todos os tempos e seu legado é de extrema competência.

Aos 65 anos, o cantor e compositor de Ponte Nova, cidade da zona da mata mineira, retorna para onde tudo começou: a canção Agnus Sei, parceria dele com Aldir Blanc, lançada em 1972, num disco de bolso comercializado pelo jornal O Pasquim. Com forte influência da arte barroca mineira, o cantor dá nova roupagem à canção ao contar com a participação especial dos também mineiros Milton Nascimento e Toninho Horta. Faces sob o sol, os olhos na cruz / Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã / Vão levar ao reino dos minaretes / A paz na ponta dos arietes / A conversão para os infiéis.

Os tais mestres da tradição e de geração escolhidos por João Bosco são Tom Jobim, presente com Fotografia; o cubano Ernesto Grenet, com a charmosa Drume Negrita; Paulinho da Viola, com Tudo Se Transformou; Noel Rosa, na parceria com Vadico, Pra Que Mentir; e Milton Nascimento, com a parceria com Márcio Borges, Tarde (um dos símbolos do Clube da Esquina) e instrumental Julia (ironicamente o nome de sua filha, a também cantora Julia Bosco), que conta com a participação do amigo de longa data e pianista Cristóvão Bastos. Chico Buarque é o autor de Bom Tempo, a qual interpreta com João Bosco e que termina como se fosse um poderoso samba-enredo.

Chico Buarque faz outro dueto com João Bosco num dos maiores sucessos deste, O Mestre-Sala dos Mares, parceria com Aldir Blanc lançada no álbum Caça a Raposa, de 1975. Do mesmo trabalho, vem outras três parcerias com Blanc – a faixa-título, “Bodas de Prata, que conta com Toninho Horta e Cristóvão Bastos; e De Frente Pro Crime, com a cantora Roberta Sá e o instrumental Trio Madeira Brasil. Esse trio também está presente em Plataforma, outra composição de Blanc-Bosco, originalmente do álbum Tiro de Misericórdia, de 1977.

Da safra mais recente, aparecem Tanajura, do disco Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, de 2009; Jimbo no Jazz, parceria com Nei Lopes, do mesmo trabalho; e a maravilhosa Eu Não Sei Seu Nome Inteiro, do disco Os Malabaristas do Sinal Vermelho composta com o filho Francisco Bosco e o eterno amigo João Donato, que participa tocando piano.

João Bosco é acompanhado de músicos que já estiveram com ele nas estradas da vida. São eles: Ricardo Silveira (guitarra), Nelson Faria (guitarra), Jorge Helder (baixo acústico), João Baptista (baixo elétrico), Armando Marçal (percussão) e Kiko Freitas (bateria). E, desse modo, o artista estabelece, mesmo que sem se valer das músicas mais conhecidas do grande público, um intenso diálogo com seu passado e com o futuro.



João Bosco – 40 Anos Depois

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 18 de julho de 2012

3º lugar: Mariana Aydar - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos


Mariana Aydar: terceira colocação
Criada no ambiente artístico, Mariana sempre teve a música bastante presente como fonte de expressão e liberdade. Uma espécie de conexão com o que não tem palavras, uma expressão quase osmótica, sem regras. Estudou violoncelo e musicalização infantil dos 10 aos 15 anos no Conservatório Musical do Brooklin. Cursou o colegial na Escola Waldorf de São Paulo, conhecida pelo incentivo às atividades artísticas, onde teve contato com o teatro, coral e artes plásticas. Fez um ano da Faculdade Santa Marcelina, mas resolveu se dedicar a aulas mais práticas na escola de música Groove, em São Paulo. Foi aos 20 anos que descobriu que toda esta bagagem era uma desculpa para fazer o que mais gostava: cantar. Em 2000, aos 20 anos, começou a cantar profissionalmente como backing vocal do violeiro Miltinho Edilberto, cujo repertório era basicamente de forró. Logo depois, comandou sua primeira banda, Caruá, também de forró, durante três anos. Neste período, teve a oportunidade de dividir o palco com grandes nomes da música popular brasileira, como Dominguinhos e Elba Ramalho. Foi também backing vocal no trio elétrico de Daniela Mercury, no carnaval de 2004. Em paralelo, integrava a banda do compositor paulistano Dante Ozzetti.

Aos 24 anos, se viu num impasse: ou continuava o trabalho com a Caruá e gravava o primeiro disco da banda ou procuraria o que realmente espelhasse a variedade de sua musicalidade. Com um disco demo embaixo do braço, foi morar fora do Brasil, sozinha, para buscar novas referências.

Optou por Paris pela efervescência cultural e percebeu ter feito a escolha certa. Lá conheceu músicas e músicos do mundo inteiro: africanos, asiáticos, franceses; foi um ano de amadurecimento pessoal e, consequentemente, musical. Observar o Brasil com um olhar estrangeiro foi muito importante para sua formação. Se já era apaixonada pela música brasileira, se deu conta do valor do tesouro cultural que tinha em volta de si, desde criança. Ainda em Paris, fez a curadoria de programa de televisão brasileiro, onde recebia discos de todo o Brasil, percebendo concretamente, à distância, um movimento cultural contemporâneo que acontecia em seu país. Então sentiu-se pronta e inspirada para voltar e gravar o seu primeiro álbum juntando as influências colecionadas ao longo da sua vida e da vivência no exterior.

Assim nasceu o álbum Kavita 1, sob os cuidados dos produtores BiD e Duani Martins, com mixagens de Mario Caldato e Luis Paulo Serafim. O trabalho de estreia reúne compositores da antiga e da nova geração: João Nogueira, Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin (Minha Missão e Maior é Deus), João Donato e Lysias Ênio (Vento no Canavial), Leci Brandão (Zé do Caroço), Theo de Barros (Menino das Laranjas), Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulo Antônio (Candomblé), Chico César (Prainha), Rodrigo Amarante (Deixa o Verão), Giana Viscardi e Michael Ruzitshkal (Na Gangorra). No disco está também Festança, sua primeira composição, em parceria com Duani.

Kavita 1 teve uma ótima repercussão de público e crítica no Brasil e levou Mariana Aydar novamente ao exterior. Recebeu resenhas elogiosas ao redor do mundo. Sobre a receptividade no exterior, ela fica surpresa, mas reconhece que está cercada de um abre-alas muito peculiar e especial: a genuína música brasileira.  Seu som tem aspectos universais e sofisticados, mas sem perder as raízes da música brasileira.

Irreverente, Mariana alcança o Bronze
Depois de 2 anos excursionando com sua banda, cantando com artistas como Ivan Lins, Emilio Santiago e João Donato, Mariana decidiu que chegara a hora de voltar ao estúdio. Novamente ao lado do parceiro músico e produtor musical Duani convidou o produtor Kassin para o novo álbum, Peixes Pássaros Pessoas (2009), lançado pela Universal Music. Juntou-se a compositores de sua geração que admirava e quis falar do que sentia naquele momento através de 13 músicas inéditas. Deste período de inspiração, também surgiram mais composições próprias: Palavras não Falam, o samba cotidiano Aqui em casa (em parceria com Duani) e a introspectiva Tudo que eu Trago no Bolso (em parceria com Nuno Ramos).

Continuando sua trajetória, Mariana fez uma série de shows para testar novas músicas para seu terceiro CD no final de 2010. Esse contato com o público deu a ela uma ideia do que queria para o terceiro álbum. Mariana foi guiada pela intuição para criar o novo disco. O álbum Cavaleiro Selvagem Aqui Te Sigo que, costurado a partir de suas composições, traz ainda canções de outros compositores que se integram ao clima.

Produzido pelo multi-instrumentista e parceiro desde o primeiro trabalho, Duani Martins, em parceria com o maestro, compositor e arranjador Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz, o CD gravado ao vivo em estúdio revela ritmos afro-brasileiros, além da busca pelas origens sem perder o caráter contemporâneo. As contribuições não param aí. A musicalidade de cada um dos integrantes da banda que participaram do disco também se soma ao projeto, revelando a busca por algo autêntico e rico.

O resultado é um trabalho artesanal, misterioso e que está pronto para ser descoberto por seus ouvintes. E por todos estes méritos e conquistas e boa musicalidade, que Mariana Aydar, a grande revelação na MPB, consagra o terceiro lugar na lista das Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos, promovido pelo Mais Cultura!.



Troféu de Bronze

Terceiro lugar: Mariana Aydar

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos

Marcelo Teixeira