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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eis o novo e velho Chico Buarque em Caravanas (2017)

Eis as caravanas de Chico Buarque
Mesmo sendo chamado de machista por metade daqueles que ouviram a faixa Tua Cantiga, disponibilizada dias atrás pelas redes sociais, Chico Buarque parece não ter dado muita trela e, mesmo com uma resposta singela sobre o caso, fez seu comboio passar a frente de uma dúzia de insatisfeitos e lançar seu novo trabalho à beira de muita crítica e muito blá blá blá. Depois de um hiato silencioso de seis anos, eis que Chico Buarque, o todo soberano cantor, poeta, político, compositor, amante das mulheres, dos bêbados, dos trabalhadores, solta o verbo em sete canções inéditas e em duas regravações. Não irei tratar aqui de um artista completo que Chico é, mas sim, medir esforços para não dizer o quanto insatisfeito ficarão os insatisfeitos e o quanto mais crítico fico com relação à sua música. Para todos os efeitos, gosto das músicas e de tudo aquilo que Chico faça ou venha a fazer, mas meu papel não é agradar aqueles que gosto ou defender um partido que na qual não estou disposto a fazê-lo. Caravanas (2017 / Biscoito Fino / 29,99) chega hoje às lojas físicas de todo o Brasil trazendo um disco bom (não ótimo), pegando rabeira em discos anteriores e se aproximando e muito de sua última criação, Chico, lançada em 2011, que já vinha com um martírio penoso de ter semelhanças com discos anteriores. Mas faz sentido o título que Chico deu ao seu novo trabalho: caravana é o mesmo que comitiva, comboio, frota e algo que remete a uma viagem; logo, Chico pega viagem em grandes distâncias para poder chegar a um lugar comum, que é o coração de alguém. Quem? Vamos por partes: quando lançou o espetacular As Cidades (1998), vindo de uma alegoria fantástica e criativa de Carioca (2006), o cantor não tinha nenhuma madame em mente. Alguns anos anteriores, Ivan Lins e Chico compuseram a emblemática Renata Maria, gravada magistralmente por Leila Pinheiro em seu disco Nos Horizontes do Mundo (2005), cujo até hoje soa como uma homenagem a alguma namorada. Depois disso, ele fez duas pérolas em formatos de trabalho (As Cidades e Carioca) e parou no tempo. Em 2011 lançou o morno Chico, em que nascera devido seu romantismo em torno da cantora e compositora Thaís Gullín. O namoro não deu certo e, cinco anos depois de separados, Chico conhece uma curitibana, com quem, segundo dizem, mantêm uma relação amorosa. Eis o ponto de partida para que o mestre do cancioneiro feminino tivesse prestes a voltar a compor. E isso de fato aconteceu com o nascimento de Caravanas. Será que Chico Buarque só vai conseguir compor quando estiver namorando? Seja como for, Caravanas não é um disco maravilhaso, mas como se trata de Chico Buarque, a espera é bem vinda e muito aguardada. Em alguns casos há um certo acerto, como o caso de Dueto, música que não é inédita, gravado com sua neta Clara Buarque, em que neta mostra ao avô o lado real e tecnológico das redes sociais. Outra sacada foi o também neto Chico Brown vir com sua esperteza em Massarandupió, onde o jogo de palavras rima perfeitamente com frases bem construídas, mas que nos remete a Subúrbio, onde há funk, palavrão e tudo aquilo que nunca esperamos de Chico, composta em 2006. Única faixa em espanhol, Casualmente é uma mistura simplória entre Havana e Brasil. E o samba-canção, marca registrada em discos iniciais, marca presença aqui com Desaforos, faixa que nos remete a Cotidiano. Enfim, a Caravana de Chico Buarque chegou, mas não trazendo tantas alegrias como era o esperado, porém, chegou um momento que transcende sua verve criativa dentro do imaginário dos netos, tão criativos quanto o avô, que, nesses últimos anos vem deixando a desejar, sem perder sua importância dentro da música popular brasileira.


Caravanas (2017) / Chico Buarque
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

sábado, 6 de agosto de 2016

Adeus, Vander Lee!


Vander Lee: morte precoce
Vander Lee não era um cantor muito conhecido do público em geral, mas tinha a o seu público especial, aquele público que acompanhava de perto a carreira do artista, que sabia de cor suas letras e não perdia seus shows. O cantor não tinha uma grande voz, não era popular, não era famoso, mas conseguiu fazer de sua música um instrumento de trabalho poderoso, cuidadoso, corajoso e audacioso. Mesmo não tendo uma voz característica de grandes artistas de seu tempo, ele sabia como hipnotizar seus ouvintes da melhor forma possível: através de sua composição certeira, arisca, rica. Foram poucas canções em uma carreira marcada pela amorosidade à música brasileira, mas destas, podemos dizer que foram suficientemente francas no ponto de vista solitário de um artista neutro, imparcial, não popularesco. Vander Lee teve pouco tempo de vida, morreu jovem, começou tarde na música, mas angariou letras sensacionais que em pouco tempo arrebatou nas vozes de Alcione, Leila Pinheiro, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Benneditto. Foram músicas fortes que falavam de Deus, romantismo, sinceridade e uma profusão de ideias e pensmentos e frases e amores que apenas Vander Lee conseguiu extrair de sua mente em ebulição. Saí de cena um musico exemplar, de uma categoria ímpar, de uma finesse perfeita para ficar em nossas lembranças um artista único, completo, sensível, amável. Mais conhecido por seus versos que falavam do amor cotidiano, Vander cantava sua singeleza como elemento de sua música autoral. Ele tinha 19 anos de carreira, nove discos gravados e sua madrinha era ninguém menos que Elza Soares!

 

Adeus, Vander Lee
Por Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Johnny Alf Entre Amigos (2011)

Alf, um mestre brasileiro
Um pouco antes de morrer, vi Johnny Alf passar por mim no cruzamento das ruas Vieira de Carvalho e Aurora, no Centro Velho de São Paulo e fiquei com um misto de espanto com admiração e cutuquei meu amigo e disse: é o cara! Ele entrou em um bar com o que parecia ser seu irmão mais velho e o vi sumir. Um breve tempo depois veio a notícia de que Johnny Alf estava morto. E para tornar a minha angustia ainda maior, o cantor e compositor veio falecer um dia depois do meu aniversário, 04 de março do ano de 2010. Sendo um dos compositores mais prestigiados de todos os tempos, Johnny deixou sua marca dentro da MPB como sendo um cantor de enorme carisma e de uma sintonia fina entre seu piano e seu dom de compor o amor. A música de Johnny é como um antidoto que nos desperta para uma melodia sem fim de musicalidade brasileira que precisa urgentemente ser ouvida e esmiuçada por aqueles que ainda não entenderam que o Brasil foi feito por músicos de verdade. Johnny Alf era (e é!) um dos músicos mais respeitáveis deste mundo e seu ponto crucial foi batizado em discos que hoje tornaram-se raros, com epítetos de colecionador e mais valorizado fora que dentro de seu país de origem. Ao longo de sua carreira artística fez diversos amigos, verdadeiros,  cúmplices, reais e que lhe transportaram para mundos tão díspares e atemporais que é quase impossível não dizer que ele fora de fato o pai e mentor da Bossa Nova. Há profundidades em sua música. Há riqueza de detalhes em suas composições. E é tão bela quanto suas notas. Apesar do enredamento harmônico de imensa categoria, tudo soa como algo que não podia ser de outro modo, por isso apesar de tão elaborada, soa natural, mais natural do que nunca. Há amor na música de Alf, assim como há paixão, há brasilidade, há bossanovismo e há verdades. E, para ser sincero, gosto da verdade musical de Alf, gosto da brasilidade atemporal das cores musicais de Alf, gosto da beleza que ronda a atmosfera de Alf e gosto daquilo que invadia a alma do compositor como uma forma única de expressar seu lado discreto de mostrar seu lado poeta. Prova de tudo isso foi o lançamento da caixa  Johnny Alf Entre Amigos (2011 / 28,99), que reúne um verdadeiro arsenal artístico que dividiram os vocais com o grande cantor em algum momento de sua vida. Essa caixa é dividida em três CDs, que fazem uma justa homenagem a Alf, como forma de homenagear esse mestre, quase desconhecido do grande público mas com uma obra bastante significativa. Entre eles estão Leila Pinheiro, Joyce Moreno, Cida Moreira, Wanderléa, Alaíde Costa, Toquinho e Filó Machado. Um CD que precisa estar no pedestal reverenciando um dos artistas mais complexos, mais amorosos e mais humildes da música popular brasileira. Johnny Alf.
 
Johnny Alf Entre Amigos (2011)
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nos Horizontes de Leila Pinheiro


Um dos melhores de Leila
Leila Pinheiro é muito conhecida como uma bossa-novista que não esteve naquele tempo áureo de Tom Jobim ou Vinicius de Moraes, mas teve o aval e apadrinhamento do primeiro para poder cantar toda a discografia precisa do maior compositor brasileiro de todos os tempos. Mesmo com discos muito além da bossa nova, Leila Pinheiro conseguiu imprimir em sua discografia, discos quase autorais, como Na Ponta da Língua e Nos Horizontes da Vida, hoje retratado aqui no Mais Cultura. E Leila teve muito o que celebrar em 2005, ano do lançamento do disco, pela Universal. Contratada pela Biscoito Fino no ano seguinte, a cantora lançou um de seus melhores discos, Nos Horizontes do Mundo - o primeiro gravado com autonomia desde 1998, ano em que apresentou o delicioso CD Na Ponta da Língua (já resenhado aqui no blog).

Sem obstinação, Leila arriscou na disparidade e estimulou a nova onda de parcerias como Joyce com Luiz Tatit na saborosa Deu no que Deu, Marcos Valle com Jorge Vercilo, na dançante Pela Ciclovia e, sobretudo, Chico Buarque com Ivan Lins - na inquietante, Renata Maria). Leila gravou ainda soberbas inéditas de Fátima Guedes (A Vida que a Gente Leva) e Francis Hime, com participação de John Donne e Geraldo Carneiro (Gozos da Alma), além de ter recriado de forma sublime a triste canção Onde Deus Possa me Ouvir, do mineiro Vander Lee, em registro que superou (e muito) a gravação feita por Gal Costa em 2002, em Gal Tropical.

Tiranizar, de Caetano Veloso e César Mendes, foi um dos achados de Leila para compor o novo disco, porque a música ficou muito deliciosa de ouvir e dá aquela sensação de quero mais. Assim como O Amor e Eu, um sambinha genioso de Eduardo Gudin, outro grande amigo de Leila. Nuestro Juramento é um bolerão dos bons do porto-riquenho Benito de Jesus e ...E Muito Mais é uma boa embolada que somente os irmãos João Donato e Lysias Ênio sabem fazer.

Mas não são todos que conseguem gravar Minha Alma, do grupo O Rappa com tamanha maestria. Vânia Abreu o fez em seu disco Eu Sou a Multidão e o resultado ficou bacana. Aqui, Leila Pinheiro utiliza a música Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), com voz de Nelson, como incidental tanto no início como no fim da canção. Ficou boa, mas poderia ser melhor e nem por isso tira o mérito de todo o álbum.

A faceta de compositora aparece em Delicadeza tocada apenas ao piano e a parceria com Renato Russo surge em Hoje, uma música calcada no sentimento puro e sincero sobre a vida. Simone Guimarães a presenteia com Vem, Amada, uma canção leve, que trata sobre o amor e suas singelezas perdidas. Encerrando (assim como Na Ponta da Língua) com Walter Franco, grande amiga da cantora, A 60 Minutos Por Hora revela que sessenta minutos por hora não precisa ter pressa para chegar a lugar nenhum.

Nos Horizontes do Mundo (letra de Paulinho da Viola) repousa Leila Pinheiro no primeiro time de cantoras nacionais, depois de muito caminhar com discos a sombra da bossa nova.

 
Nos Horizontes do Mundo / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 25 de março de 2013

Entrevista com Simone Guimarães - Primeira Parte


Sensacional artista
É sempre uma grande satisfação conversar ou trocar algumas palavras com a espetacular Simone Guimarães: além de grande cantora e compositora, com discos bem caprichados, duetos com ícones da MPB, como Maria Bethânia e Milton Nascimento, Simone é, também, uma intelectual que pensa e muito nos segmentos do Brasil e na luta a favor da nossa cultura. Nascida em Santa Rosa de Viterbo, interior de São Paulo, hoje a cantora faz parte da efervescência que Brasília produz, estando ao lado de cantoras como Márcia Tauil, Sandra Duailibe, Roberto Menescal, Miúcha e outros, levando muita música de qualidade para os quatro cantos do país. Nesta primeira parte da entrevista, Simone Guimarães nos brinda com sua inteligência e sapiência em ver as coisas mais simples se transformarem em algo valioso. O Mais Cultura! (ou o Espaço Azul, como ela mesma apadrinhou o blog), tem o enorme prazer estar sendo condecorado com suas ricas frases de efeito moral.

 

Marcelo Teixeira - Seus discos são considerados, em alguns departamentos e lojas de CDs, como sendo uma cantora regional. Você tem medo de ser rotulada como tal?

Simone Guimarães - Não tenho medo de nada na arte, Marcelo. A arte é dinâmica, mutável, migrante, (eu migrei) a arte é memória, momento, tempo, movimento... Não devemos ter posturas rígidas e frias com ela, ela se apresenta numa ruptura e é de onde vem sua seiva e sangues, do conflito, dos contrastes, dos sentimentos em ebulição, da compreensão inconsciente, do vácuo sendo animado pela anti-matéria na consciência do vazio.

A música é invisível aos olhos, mas não ao coração. Coloquem os nomes que quiser nos meus trabalhos. Os codinomes são sempre o que se compreende do outro. Numa estante de disco, é alguma espécie de organização. Não posso ter medo, apenas discordar.

Sou de uma região interiorana de São Paulo e, portanto trago o canto da minha aldeia.

Se alguém tiver que vender um Chocolate especial, terá que lhe dar um nome especial. Acredito ser sim esse chocolate regional, porém já me misturei um pouco com o sabor das grandes cidades. Não que isso seja imperativo pra mim, aliás, eu gostaria de ter tido uma vida pacata e mais simples, mas meu caminho na arte me fez migrar.

Acredito que mundo e as pessoas deveriam ser apresentadas numa abordagem rica: dialética, semiótica, linguística, literária, poética, filosófica, histórica, humanista, e não de forma a se prender em notas de perfume quando o mais importante é a essência.

Eu comecei minha carreira fonográfica na Televisão fazendo trilhas para documentários, juntamente com Paulo Jobim, filho do Tom e uma orquestra inteira tocava um de meus temas, sendo regida pelo maestro Benito Juarez, com arranjos de Paulinho. Era regional?, Não.

Meu primeiro CD, o Piracema é um disco temático, assim como o segundo Cirandeiro: tem uma ocupação com temas voltados para a natureza, cenários bucólicos, mas a música apresenta gêneros diversos, como sambas, Shots, temas instrumentais, modas, etc. Por último, para responder a sua pergunta diria que as pessoas que me rotulam dessa forma ainda não tiveram a oportunidade de conhecer meu trabalho por inteiro. Não tenho preconceito com gêneros brasileiros. Toco-os todos indistintamente.

MT - Você cantou com grandes nomes da MPB, como Milton Nascimento, Maria Bethânia, Renato Braz, Leila Pinheiro, Ivan Lins. Tem algum cantor ou cantora que desejaria dividir um dueto?

SG - Gostaria de cantar com Sting . Sou fã desde que ouvi Russians no inicio da minha profissão de ouvinte. Ele é o máximo!

 

MT - Seu último CD, Chão de Aquarela, foi lançado agora em 2012 tendo apenas canções de sua autoria com Cristina Saraiva. Foi proposital fazer um disco somente pelas duas?

SG - Apenas reunimos as músicas que Cristina compôs comigo por um desejo de marcar essa parceria . A Cris é dona do Selo Tie music ,que me lançou no mercado fonográfico em 1997 e uma parceira das melhores que tenho. Somos amigas há trinta anos e isso ,creio, foi o fator decisivo para juntarmos nossas modas e cantigas regionais, que tanto amamos. Adoramos o pé de uma fogueira e um violåo!

MT - Sua música, por mais rica e de uma brasilidade completa, não chega a uma classe social mais popular. Por que isso acontece?

SG - No Brasil a indústria fonográfica não trabalha a favor da arte, mas sim do lucro, com exceções como Biscoito Fino, Lua Music, CID , Dubas, Tie music, Dabliu, Rob digital e outros tantos selos legais que fazem a nossa musica sobreviver e crescer lá fora.

O povo é massificado pelas avalanches tecno-pops do descartável da época.

Vivemos num país muito novo e sem igualdade social. O capitalismo é selvagem e poderia não ser: Se mirar , por exemplo nos capitalismos da Austrália, da Suíssa, da Noruega, talvez, mas a mentalidade dos empresários, em sua maioria, é colonialista e assim acontece na musica. Exportamos commodities e matérias primas. Acredito que se tivéssemos mais peito nessa questão do enfrentamento com as multinacionais que vem brincar com suas porcarias aqui dentro a musica se resolveria.

A presidenta Dilma está resolvendo o problema da miséria extrema. Musica também deveria ser um alimento pra todos.

Quanto mais variado o prato, mais saudável a nação!

Dá–se um produto de má qualidade ao seu povo quando não se tem interesse que esse povo consuma o substancial, o necessário para o seu crescimento, o melhor para o seu raciocínio,o mais caro para o seu coração de homem, no sentido de ser mais elaborado, morar melhor dentro de si mesmo.

Trabalho sem me preocupar com isso, querido Marcelo, mas gostaria de ser consumida pelas populações mais pobres: acho que eles iriam gostar da minha musica e de mim. Eu sou pobre- pobre- pobre- de –marré –marre-de- si. Tenho a certeza de que saberia me comunicar com meu povo.

MT - Em que você se inspira para compor?

SG - No amor , na beleza, na natureza. Também me inspiro indo ao cinema e vendo um documentário como A caverna dos sonhos esquecidos de Herzog. Assistir ao respeito com que nossa ancestralidade é tratada nesse filme me fez mais forte, como ler Nietzsche, Freud, Márcio Paschoal, ouvir Milton cantar ou Maria Rita.

MT - O que você acha da música produzida no Brasil hoje em dia?

SG - Eu tenho acesso a todo tipo de musica e o Brasil continua sendo o Melhor produtor nessa área! Amo a nossa musica. Quero que o brasileiro conheça a fundo seus artistas e um dia chegaremos lá.

Tanta coisa já mudou e ainda podemos mudar pra melhor, muito. Esse é o meu sonho. Ver o Brasil colher o que planta com seu trabalho e expulsar a corja de políticos corruptos do poder e deixar para quem sabe administrar, para quem tem idéias humanistas, a favor do coletivo. Na França, por exemplo tem um deputado Brasileiro no parlamento. Foi escolhido por seu mérito e por sua formação na área administrativa. Acredito que a democracia deveria ser mais explanadora nessa área, alertando os eleitores a votar em pessoas qualificadas para os cargos, de outra maneira continuaremos a eleger homo fóbicos e racistas.

 
A entrevista com a cantora e compositora Simone Guimarães continua na próxima semana, com mais revelações sobre a sua música e seus projetos.
 
Entrevista com Simone Guimarães - Primeira Parte
Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Na Ponta da Língua, de Leila Pinheiro (1998): ótimo paladar


Ótimo disco de Leila Pinheiro
Em 1998, Leila Pinheiro nos presenteou com um disco a sua altura, com canções que marcaram um tempo e com novidades extraordinárias que perpetuam até hoje em meus ouvidos. O disco em questão é Na Ponta da Língua e trás uma capa tão singela e ulterior e sagaz e impiedosa e original e maliciosa, que este álbum talvez seja o melhor de toda a sua carreira. Com aberturas e fechaduras de vinhetas que somente Walter Franco consegue compor, o disco é todo marcado por facetas múltiplas de uma Leila Pinheiro que conseguiu se desvencilhar de ser rotulada, até então, de bossanovista e enveredar pelo campo da música popular. Regravando grandes sucessos de Roberto e Erasmo Carlos (Sentado à Beira do Caminho) e Legião Urbana (Vento no Litoral), o disco é pautado pela sensibilidade de uma grande artista, que é reverenciada por grandes nomes da MPB, como Ivan Lins e Chico Buarque e que foi a queridinha de Tom Jobim em seus últimos anos de vida.

Abril, composição mais que charmosa de Adriana Calcanhotto, é a melhor música do álbum e transmite uma emoção plena de escolhas sem arrependimentos e recomeços de um novo ciclo. Assim como o samba encorpado de Sérgio Santos e Alvin L., Pra Dizer a Verdade, que tem uma letra deliciosamente linda, Na Ponta da Língua tem de tudo um pouco: além de sambas, tem a esmagadora Mais Uma Boca, composta com requinte pela fabulosa Fátima Guedes, que consegue exprimir, através da interpretação forte de Leila, uma letra inquietante e bela ao mesmo tempo. Destaque ímpar para a excelente música Por Favor, de Ivan Lins e Aldir Blanc, em que a língua bebe a estranheza (frase que mais gosto de todo o disco) e que ao mesmo tempo nos leva ao gosto de maçã, flor da nova Eva, com seus antecipamentos e suas incertezas.

 

Sinto o abraço do tempo apertar

E redesenhar minhas escolhas

Logo eu, que queria mudar tudo

Me vejo cumprindo ciclos

Gostar mais de hoje e gostar disso

 

Trecho da música Abril, de Adriana Calcanhotto

 

 

Seguindo sua influência regional de seu estado natal, Pará, Leila canta brilhantemente o forró quase universitário Influência de Jackson, composta pelos mestres Guinga e Aldir Blanc e Leila canta numa desenvoltura que somente ela consegue fazer e emocionar. Vale lembrar que a música é difícil de interpretar, mas Leila dá um banho de sensualidade e musicalidade. Indo para o lado sentimental do disco, Sorriso de Luz trás a leveza e a pureza do amor, com seus primeiros olhares e suas primeiras imaginações, fazendo da canção de Gilson Peranzzetta e Nelson Wellington um dos achados para a transmutação de Leila.

Setembro, de Alvin L., é uma canção amargurada e doce sobre os desencontros e armadilhas do amor que um dia fora belo e romântico. Leila é capaz de se desfazer de desmantelos ruborizados pela crítica e recria com magnitude a impactante Amor, Perigoso Amor, de Frejat e Dulce Quental, já imortalizada na grande voz firme e forte de Ângela Ro Ro. É nesta canção que Leila se despe e se mostra valente e única para poder recriar ao seu gosto as canções que fizeram parte musicalmente de outra voz.

Na Ponta da Língua demonstra o quanto a musicalidade de Leila Pinheiro é importante para cenário musical brasileiro e ter a certeza de que sua voz é única e saber não ser rotulada, é a forma mais pura e inocente de dizer que ela é uma cantora genuinamente brasileira. Na Ponta da Língua é simplesmente ótimo. Recomendo.

 

Na Ponta da Língua / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

De Olho Neles: a beleza de Simone Guimarães


A bela cantora Simone Guimarães
A música regional brasileira tem um grande nome de peso, além de Renato Braz e quem assume este lugar é uma das cantoras mais promissoras a meu ver, que tem uma excelente carreira, uma bela voz e, de quebra, é uma das compositoras mais contemporâneas da atualidade. Seu nome é Simone Guimarães. Detentora de dois grandes discos na música popular brasileira, Simone é uma das cantoras mais autenticas da indústria fonográfica, tendo participações importantes em discos sensacionais e com uma carreira maravilhosa. Violonista, a cantora mantem um estilo único no cantar e consegue transmitir em poucos versos sobre o que há de mais belo em suas canções.

Simone já participou do disco Pietá (2002), de Milton Nascimento, que contou também com a participação da bela cantora Marina Machado, e com a filha ilustre de Elis Regina, Maria Rita. Seu disco a que tive acesso primeiramente foi o sensacional Virada Pra Lua (2001), que é de uma brasilidade tamanha, que fica impossível não dizer que Simone Guimarães é uma cantora genuinamente brasileira. Com participações especiais de Milton Nascimento e Guinga, o disco traz treze belas canções muito bem distribuídas entre as ricas composições de Simone assinando sozinha ou na companhia de letristas como Sérgio Natureza, Cristina Saraiva e Kiko Continentino. Logo depois veio Casa de Oceano (2003) e aqui temos a maior das riquezas que uma cantora até então desconhecida do grande público pôde nos oferecer: com participação de Maria Bethânia, Jaime Alem, Francis Hime, Guinga, Nair Cândia, o disco sai pela Biscoito Fino em grande estilo.

No disco de Leila Pinheiro, Nos Horizontes do Mundo (2005), a música Vem, Amada brilha com tamanha doçura, que consegue nos satisfazer, através de pequenos trechos, sobre o amor. Já no disco Receita – Sandra Duailibe Voz e Piano (com Leandro Braga), Simone tem a tiracolo o grande compositor Francis Hime e a letra caprichosa da compositora em Te Amo Sem Fim, denota a capacidade excepcional que ela tem.

Com um refinamento ímpar, Simone Guimarães entrou em minha vida musical de uma maneira tamanha que não consigo parar de ouvi-la. Sua voz é única, sentimental. E é por isso que o De Olhos Neles de hoje trás a doçura, a beleza e toda a sensibilidade de uma das maiores cantoras regionais e brasileiras que este Brasil ainda precisa conhecer. E prestigiar!

 

De Olho Neles / Simone Guimarães

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Márcia Tauil e o ótimo CD Sementes no Vento




Um dos mais belos discos da MPB
Márcia Tauil é uma dessas cantoras raras, com sensibilidade, refinamento, encantamento e uma voz cristalina. Não existem comparações entre Márcia e outra cantora qualquer, porque não existe uma cantora que seja igual a ela ou que seja parecido com seu estilo. Conheci seu trabalho meio que por querer: estava indo a procura do novo disco de Fabiana Cozza, em 2003, quando me deparei, por entre outros discos de MPB, com uma capa simples, singela, com sementes ao vento. A cantora em questão eu não conhecia, mas o compositor Eduardo Gudin, sim. Olhei as músicas: algumas conhecidas, outras nem tanto. Pensei: seria uma grande surpresa conhecer as músicas de Gudin que eu jamais tinha ouvido e, de tacada, conheceria a cantora Márcia Tauil. Foi um achado e tanto. Márcia me pegou pelo ouvido e pela excelente voz e seu disco era uma alegria para mim, para a MPB, para a cultura brasileira.

Dona de uma voz com potencial, Márcia Tauil é um nome que merece maior destaque entre as grandes cantoras da nova MPB. Sementes no Vento teve repercussão direta de quem ouviu e ainda hoje é o disco que mais ouço. Por quê? Porque é um disco lindo, maravilhoso, sensível, agradável, único. Márcia abrilhantou as canções de Gudin e Costa Netto com uma perfeição capaz de transformar músicas antigas como Verde e Paulista (cantadas por Leila Pinheiro e Vânia Bastos) em um dos achados mais harmoniosos do disco.



“Amor dedicado e cruel

Estranho papel que vivi

De tanto tentar ser fiel

Te trai”

Trecho da música Nossos Caminhos, da dupla Gudin / Costa Netto



Ouvir Márcia Tauil é uma das maiores maravilhas do mundo. A sensibilidade afetiva que encontramos em Sementes no Vento é tão visceral, tão presente e tão arquitetônica, que nos deixa a sensação de que a MPB está salva por artistas como ela. Criadora de um estilo que serve de inspiração a muitas cantoras novas, Márcia Tauil é o oposto das cantoras de sucesso rápido e sem poesia. Sua musicalidade é tão viva e tão rica, que sou obrigado a dizer, desde o lançamento do Mais Cultura!, em novembro de 2011, que ela é uma cantora que exala musicalidade, transpira energia positiva, canta maravilhosamente bem, emite sons característicos e é uma das grandes cantoras que este País já conheceu.

Sementes no Vento é uma obra-prima. A começar pelas canções escolhidas a dedo e pela bela voz de Márcia, o disco merece todos os destaques que um artista necessita. Músicas de excelente gabarito, sambas em grande estilo e homenagens a Chico Buarque na canção Poeta Maior, o disco é um achado e tanto e merece o respeito de todos os verdadeiros amantes da MPB e que precisa ser descoberto, devorado, engolido, mastigado, venerado e apresentado a amigos, familiares e cantarolado aos quatro ventos. Ser obra-prima não basta. Márcia Tauil é um troféu digno de estandarte e louvor.


O disco abre com a bela canção Antigos Sinais, já cantada pela cantora Beth Nazar e, de quebra, arremata ouvidos salientes de musicalidade, tamanha a perfeição na doçura de sua voz e nas belas frases de efeito que a dupla de compositores fizeram. Seguindo por Mensagem, já cantada por Vânia Bastos (esposa de Gudin), cujo tem versos brilhantes, capaz de nos apegar à música na primeira audição. Indo um pouco mais atrás no tempo, Ensaio do Dia foi composta em 1984 e cantada por Leila Pinheiro e aqui a mensagem é tão rica e deslumbrante que mais parece que a canção fora feito nos dias de hoje. Contando com a participação do cantor José Renato Fressa, a música rende um brilho confortante, regado às belas interpretações dos dois artistas.



“Vem olhar

O mau tempo se dispersou

O meu pranto eu já enxuguei

O meu sonho não desbotou”

Trecho de Sementes no Vento, da dupla Gudin / Costa Netto





Mas o que são as tais sementes no vento? As sementes que Márcia Tauil canta são aquelas deixadas pelo monstro sagrado compositor Eduardo Gudin em parceria com o também sensacional compositor Costa Netto, formando assim, em um disco aonde as sementes foram muito bem plantadas a começar pela bela e rica interpretação da cantora. Uma responsabilidade e tanta da dupla em convidar para beneficiar e agraciar suas canções com uma cantora desconhecida (até então) do grande público. Geralmente este feito é carregado por derrotas e tristezas, tendo em vista que sementes plantadas em terras novas não dão o fruto esperado. Mas Márcia Tauil prova e comprova que sua musicalidade estava acima de tudo e de qualquer suspeita. O disco é, sem sombra de vestígios, um dos mais belos de toda a MPB dos últimos anos.

Se as sementes que Eduardo Gudin e Costa Netto jogaram ao vento e espalharam-se no ar, Márcia Tauil foi autêntica em poder junta-las e canta-las em um disco sensacional, virtuoso de aplausos efusivos para todo o sempre. Esperemos que no baú de Gudin ainda existam mais sementes e que Márcia possa grava-los em um disco futuro ou, quem sabe, pincelar uma ou outra canção da dupla, para a nossa plena felicidade.

Tímido, resguardado por trás de retinas capazes de apreender – e compreender – o mundo dos afetos e suas sublimações, Eduardo Gudin compôs uma obra repleta de sambas, canções e peças instrumentais, prova de seu amplo desdobramento como compositor, letrista, cancionista, arranjador, produtor de discos e musicais e, antes de tudo, um criador efetivamente atrelado a uma estética própria, capaz de conciliar beleza, refinamento e sofisticação em suas melodias.



“O carnaval de cada dia

Alegoria de um amor

Onde passa sempre disfarça a nossa dor”

Trecho da música O Carnaval de Cada Dia, da dupla Gudin / Costa Netto



Com destaques para Conciliar, Mensagem, Samba de Verdade e O Carnaval de Cada Dia, o disco é, para mim, um dos melhores que tenho em casa e na minha coleção. Ouvir Márcia Tauil, ouvir Sementes no Vento, ouvir canções emaranhadas de entusiasmos e eufemismos e parábolas de Eduardo Gudin e Costa Netto em um momento em que a Cultura Brasileira exige cuidados para não tropeçar, é um grande remédio. Remédio para não pouparmos elogios a um grande time de compositores, a um grande disco e a uma grande cantora chamada Márcia Tauil.



Faixas



·       01 Antigos sinais (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       02 Mensagem (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       03 Ensaio do dia (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       04 Poeta maior (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       05 Samba de verdade (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       06 Conciliar (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       07 Nossos caminhos (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       08 Paulista (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       09 Verões virão (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       10 Verde (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       11 Coração aberto (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       12 O carnaval de cada dia (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       13 Sementes no vento (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)



Sementes No Vento / Marcia Tauil

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de julho de 2012

6º lugar: Fabiana Cozza - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos




A cantora Fabiana Cozza: a sexta melhor
Fabiana Cozza iniciou sua carreira em 1996, em um grupo vocal liderado por Jane Duboc. Em 1998, a convite do compositor Eduardo Gudin, integrou o grupo Notícias Dum Brasil, gravando o disco Pra Tirar o Chapéu, dividindo o palco com Ivan Lins, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Leila Pinheiro, Hermeto Paschoal, Chico César. Seu primeiro trabalho O samba é meu dom foi indicado ao Prêmio Tim 2005 nas categorias Melhor Cantora de Samba e Artista Revelação e à categoria Revelação, no Prêmio Rival Petrobras 2005. No mês de setembro, Fabiana representou o Brasil no Popkomm, em Berlim. Batizado com o nome de um samba de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro, o disco traz excelências do samba como Silas de Oliveira (Meu Drama) e Geraldo Filme (A Morte de Chico Preto) e canções inéditas de compositores como o paraense Leandro Medina (destaque no Festival da Cultura 2005) e Paulo César Pinheiro.

Lançado em 2004, o O samba é meu dom motivou a participação de Fabiana Cozza em shows pelo Brasil dentro do projeto Pixinguinha ao lado de Francis Hime, Celso Viáfora e Denise Pinaud, bem como a participação no programa Bem Brasil da TV Cultura ao lado do compositor Ivan Lins. Fabiana é uma das grandes revelações da MPB dos últimos tempos. É só bater o ouvido para crer. E o olho. A mulher, no palco, é fogo. Há tempo não surgia uma intérprete assim. Indo no coração da canção. Quer seja um samba, quer seja uma bossa.

O que mais impressiona quando ouvimos uma cantora jovem como Fabiana Cozza é justamente a maturidade de sua presença, a segurança com que domina o repertório e a aura de grande sambista que a ilumina quando se solta no palco. Não é à toa que ela coloca Elizeth Cardoso como uma de suas maiores influências. Fabiana, além da bela voz, conhece música brasileira e fala com desenvoltura sobre épocas, gêneros, cantoras e instrumentistas.

E é por todo esse samba no pé e esse gingado que só ela tem que Fabiana Cozza encabeça a sexta colocação no ranking das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos.



Sexto Lugar: Fabiana Cozza

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos



Marcelo Teixeira


terça-feira, 22 de maio de 2012

A elegância de Juliana Kehl


O primeiro disco de Juliana
Fã de Gal Costa, Chico Buarque e Tom Jobim, Juliana Kehl é uma das cantoras e compositoras mais singelas, mais românticas e mais sensacionais que surgiram nos últimos tempos, estando sempre ao lado de novos talentos, como Tiê, Tulipa Ruiz e Céu.  Na voz, imagine uma mistura de Leila Pinheiro com Elis Regina. A música carrega os tons do samba e do eletrônico, a mistura de tintas, como ela mesma diz. E as letras levam a marca autoral que anuncia Juliana Kehl no hall das novas cantoras brasileiras em que vale a pena ficar de olho.

Por pouco, no entanto, a música perde esse talento. Quando adolescente, Juliana integrou o coral da Escola Rudolf Steiner, que a permitiu se apresentar em Nova York aos 17 anos. Contudo, a garota optou por direcionar a carreira para as artes plásticas, em que se graduou pela FAAP. Não tardou, enfim, para que a paulistana assumisse a veia musical. Anos depois musicou poemas da irmã, a psicanalista Maria Rita Kehl. O resultado é o álbum de estreia independente Juliana Kehl (2009 / Independente / 19,99), com 12 canções -- dez delas de sua autoria - recheadas de poesia e belas histórias.

Enigmas do meio artístico. Antes, um nome com pretensões de estrela teria de estourar até os 25 anos, a indústria não via com bons olhos os retardatários. Hoje, uma cantora como Juliana Kehl pode lançar seu primeiro disco aos 32 e ainda conseguir enxergar uma longa carreira pela frente. Para satisfazer a exigente aquariana, o novo álbum contou com 32 músicos diferentes. Desta maneira, Juliana deu o verniz necessário para que cada faixa fosse pintada com climas e texturas diferenciadas. O processo durou um ano. Das 12 canções, dez delas foram compostas por ela.

O disco chegou da fábrica no começo de 2009, mas quase um ano foi necessário para que fosse lançado. Convites de gravadoras como o da Som Livre brecaram o processo, mas Juliana decidiu lançá-lo de maneira independente. Até na arte do CD ela deu seu pitaco. A foto que estampa a capa é, propositalmente, uma forma de levar o imaginário aos anos 60. Elogiada pela imprensa e alçada a revelação da música nacional, seu disco teve a primeira tiragem de mil cópias rapidamente esgotada.

Juliana já nasceu musicada, envolta pela música, sua base disciplinar já estava estabelecida deste os tempos de coral, aonde chegou a se apresentar no Camegie Hall em Nova Iorque. Completa, a bela jovem formada em artes plásticas empresta às suas composições um pouco do universo artístico que a inspira… Além da música, também são notáveis as nuances da literatura e até da dança no caso da concepção do clipe de “Rede de Varanda” em seu primeiro trabalho autoral.

Delicada e forte, sua música parece romper os estigmas da crítica acostumada com a pastinha das cantoras brasileiras. Um trabalho rico em detalhes rítmicos confundindo a metrópole com o interior e o sul com o norte. Se perder, talvez seja essa a direção da música dessa jovem.

Para nos perder, ou para nos encontrar entre ritmos, sons e poesia.



Faixas

·       01. Rede de Varanda

·       02. Ele Não Sabe Sambar (Pedrarias, Prata e Pó)

·       03. Oiê

·       04. Viação Cometa

·       05. A Música Mais Bonita

·       06. Sinhô do Tempo

·       07. Outras Mulheres

·       08. A Ciranda e a Moça

·       09. Tá Perdido, Nego

·       10. Diadorim, o Sertão é do Lado de Dentro

·       11. Vinheta Carnação

·       12. Carruagem





Nota 10



Juliana Kehl / Juliana Kehl



Marcelo Teixeira