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sábado, 24 de junho de 2017

A importância de Markinhos Moura


Markinhos: a voz de 1980
Assim como Ney Matogrosso na década de 1970, Markinhos Moura foi o grande responsável por diversas baladas que embalaram pessoas de diversos gêneros na década de 1980, sendo a continuidade existencial de um rito que começou com Ney sobre a diversidade sexual que existe com mais veemência nos dias de hoje. A importância de Markinhos Moura na música, explorando esse lado sensual, mesmo que contido, mas com uma dramaticidade não efêmera e de grande porte, foi o mote central para que tenhamos hoje cantores com a sexualidade aflorada e suas diversidades acentuadas a tal ponto de que as pessoas não questionem sobre tal atitude. O mundo mudou seus conceitos sobre tudo e até a música teve o impacto generalizado por tal feitio e a postura desenvolta de Ney e a magnífica transposição contida de Markinhos foram o mote substancial diversificado mostrando a luta por um espaço que até então era massacrado e discriminado por muitos. Havia o preconceito escancarado e muitas vezes velado sobre os dois artistas, o que fazia com que ambos fossem massificados dentro de um sistema unilateral que os unissem dualmente. Enquanto Ney vinha com uma luva estampada na cara e com danças sensuais a cerca da exploração de seu corpo, Markinhos era o oposto e se mostrava de cara límpida e com passos contidos e simples acerca de sua dimensão artística. Aqui encontra-se o oposto entre dois artistas que buscavam um lugar de respeito mútuo dentro de seu espaço, o espaço que era caracterizado e concebido por meio da música e de sua importância para elencar o nível de suas representações. Markinhos Moura fora o grande sucessor de Ney na década seguinte a dele e, com a morte de Elis Regina em 1982, sua voz ficou ainda mais atrelada dentro do cancioneiro feminino, mas com um respeito digno das grandes estrelas. Se hoje temos Filipe Catto e Liniker, assim como o Não Renegados, devemos muito a competência exemplar de artistas como Ney e Markinhos, que exploraram de forma categorial a diversidade de gêneros com uma categoria impressionante e mediática que merecem respeito. Com enorme sucesso graças ao clássico Mel Mel, Markinhos se afastou da grande mídia, mas não deixou de ser o excelente cantor que é: o intérprete de Anjo Azul é destaque constante no Bar do Nelson, no bairro de Santa Cecília, onde recepciona e tem o sorriso cativante de ponta a ponta das orelhas. Ouvir Markinhos Moura é viajar no tempo, um tempo saudoso, cheio de alegria atemporal e que nos anestesiava por completo. Seu grande salto se deu em 1985, quando lançou o disco Diretrizes, mas foi em 1987 que sua música e voz de fato estouraram no Brasil inteiro, quando Meu Mel foi enfim imortalizada. Assim como altos e baixos, a vida do artista deu uma pequena derrapada e ele saiu de cena ainda na década de 1990, mas sem perder o brilho de sua carreira. Markinhos continua a cantar e muito: em 2010 lançou o antológico Mulheres e Canções, em que canta ao lado de cantoras como Verônica Ferriani, Zezé Motta, Fabiana Cozza e Maria Alcina. É digno que a juventude de hoje em dia conheça e saiba da importância desse grande cantor que fora enorme sucesso de público e crítica em uma época repleta de mistérios e ao mesmo tempo de um lirismo profundo e encantador.

A importância de Markinhos Moura
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O mediano álbum Partir (2015), de Fabiana Cozza


Fabiana e seu disco novo: fraco
Fabiana Cozza é uma das cantoras mais respeitadas de todos os tempos dentro da música popular brasileira e nas rodas de samba de prestigio e categoria e seu nome hoje está associado às grandes damas da música nacional, estando ao lado de bambas como Clara Nunes, Alcione e Dona Ivone Lara. A cada disco lançado, Cozza tem uma inspiração nova, um motivo que a leve a cantar mais e melhor e com seu novo lançamento não fora diferente. A inspiração desta vez é a Bahia de todos os santos, solo por onde aportaram os primeiros navios negreiros no Brasil. Partir (2015 / Trattore / 29,00) não é o melhor disco de carreira de Fabiana, mas é o CD que mais se aproxima de sua religião, de sua encantadora fé e de sua respeitada vida. São ao todo 14 faixas embaladas por canções de todos os tipos de reza e oferenda e a voz de Cozza impera quase que triunfal por toda a atmosfera que o álbum exige. O álbum faz com que Fabiana transporte o ouvinte da África à Bahia num piscar de olhos, com suas danças, rodas e cantigas que ressalta a levada do Recôncavo Baiano até a nota mais importante de todo o lirismo saudosista que perpetua o disco. Mesmo com o aval de Maria Bethânia saudando o álbum como sendo um disco da maior competência de todos os tempos, tendo uma cantora com a voz lisa e clara, reconheço que há falhas redundantes neste, que poderia ser o melhor disco, de fato, da carreira de Fabiana Cozza (o melhor ainda é Quando o Céu Clarear, lançado em 2009). Buscando na evocação da ancestralidade africana o seu porto seguro (Clara Nunes sempre fizera isso em discos memoráveis), Cozza tentou rebuscar nas canções a sofisticação em um repertório simples para uma causa nobre: errou ao tentar fazer um disco surpreendente e fazendo deste momento um rechaçado canto superior de seu talento. Sem falar na capa, com um misto de tristeza fúnebre com um olhar perdido, olhando o nada, o vazio, o irreconhecível. Partir tem sons sutis, suaves, joviais e talvez esse seja o diferencial na carreira de Fabiana, que já vinha em outros discos explorando mais seu lado teatral com dosagem de uma grande voz. Mesmo não havendo lugares-comuns em algumas canções, Partir merece um pouco de atenção nas faixas Chicala (João Cavalcanti) e Entre o Mangue e o Mar (Alzira E. / Arruda), mas ressalvo: Partir não é o melhor disco de Fabiana Cozza, muito menos entrará na categoria de melhores discos do ano de 2015.


Partir (2015), o novo disco de Fabiana Cozza
Nota 7
Marcelo Teixeira

sábado, 8 de novembro de 2014

Três anos de Mais Cultura Brasileira

Três anos de Mais Cultura
E o Mais Cultura Brasileira! chegou ao seu terceiro ano. Para chegar até aqui não foi uma tarefa fácil, mas sim uma tarefa de muito trabalho, muita dedicação, pesquisas, conversa com cantores, horas e mais horas ouvindo músicas, recebendo convites para shows, enfim, um ano marcado pela amplitude de um trabalho que gosto muito: o de ser crítico de música. Este ano de 2014 foi melhor que o ano passado, porque o blog teve mais reconhecimentos por cantoras e cantores carimbados da nossa música e teve mais respeito por entre os leitores. Falar de música de qualidade em um país em que se preza a música descartada não é tarefa fácil, mas com um pouco de esforço e dedicação podemos chegar um pouco mais longe. Este ano o Mais Cultura Brasileira! alcançou vôos mais longos e chegou com mais força ao Nordeste e ao Norte do Brasil e aterrizou com mais afinco na capital federal, Brasília. As entrevistas foram determinantes para que a credibilidade e a assiduidade com a cultura permanecessem com a qualidade superior de quando iniciei os trabalhos. E confesso: nunca pensei que um dia pudesse entrevistar a cantora Ná Ozzetti, minha paixão musical. Entrevistas com cantores da categoria de Alberto Salgado e a descoberta de Tito Marcelo foram cruciais para que o Mais Cultura! voltasse as suas origens de revelações musicais para o grande público. Tive o prazer de conhecer e conversar com Fabiana Cozza (e surpresas virão para 2015) e com a cantora Ceumar, que mesmo da Holanda, podemos trocar algumas firulas e tive prazer igual em poder conhecer a cantora Ná Ozzetti e seu irmão Dante Ozzetti e este me presentear com a novidade de Macapá, Patrícia Bastos. Agradeço as inúmeras conversas que tive nos bastidores com a cantora Márcia Tauil, sempre grato por suas aulas e inspirações e sempre serei grato pelos inúmeros emails que recebo para poder divulgar no blog com sugestões de cantoras espelhadas por este mundaréu chamado Brasil. Posso garantir que 2015 será ainda mais dedicado ao mundo da música e que batalharei por entrevistas e artigos especiais. O Mais Cultura Brasileira! completa três anos, mas quem ganha é você, leitor!
 

Três anos de Mais Cultura Brasileira
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O alvorecer de Clara Nunes

Clara: notoriedade em 1974
Clara Nunes foi, sem sombras de dúvidas, a maior entre as maiores cantoras do Brasil. Basta ver seus clipes, suas músicas e sua defesa para com uma religião (e um povo – o negro), para saber que a cantora era uma verdadeira Guerreira, apelido que lhe coube muito bem naqueles dias em que ela enfrentava a todos ao se apresentar e a cantar da forma como queria. Clara é insubstituível e suas músicas provam que ninguém as cantará da melhor forma possível, porque sempre haverá uma nota ou uma palavra distorcida. Se há uma cantora que chegou bem próximo deste feito após mais de trinta anos de sua morte, essa cantora foi Fabiana Cozza, que consegue driblar as danças, os giros, os atabaques e fez de O Canto Sagrado (2013 / Agô Produções / 39,99) em uma verdadeira aula de musicalidade e religiosidade em homenagem à grande dama do samba. Mas vale lembrar que Fabiana Cozza chegou bem próximo desta realidade: há um misto de arrepios com uma sensação de que Clara surgisse no palco há qualquer momento durante os espetáculos e era justamente esta a sensação que causa ao falarmos que Clara é insubistituível. Graças à religião, ao candomblé, à umbanda (religiões estas que crescem demasiadamente no país), que a cantora ganhou notoriedade ao ser uma das protagonistas mais sutis de rodas de samba e de controvérsias para os seus desafetos. No disco Alvorecer (1974 / Odeon / 19,99), Clara gravou Conto de Areia, canção que até hoje é cantada e lembrada e que fala dos mistérios e segredos preservados nas densas bebedeiras da Bahia. A letra é uma reza: restaura inquietas efígies de lendas e santos, contos e lendas, misticismo e religião ao tecer o que há de mais belo neste canto. Desvendando os mistérios dos santos, o disco ponteia o melhor do candomblé na voz doce e meiga de uma das cantoras que se tornaria dama em questão de anos. Em Alvorecer tudo era inédito: desde a capa do disco, que mostra uma Clara com vestes de baiana e com penduricalhos que mais soavam como miçangas de deuses até sua devoção ao candomblé, religião que não foi muito aceita por muitos na época. Mas para mostrar que Clara era Guerreira, bateu o pé e fincou seu nome entre as cantoras mais populares do Brasil, demonstrando que a força de seu canto e o brilho de sua face eram mais significativos que qualquer outra coisa. Clara sempre dizia que seu canto era a sua verdadeira vida, a sua história, a sua luz e que cantava porque gostava e a cada disco lançado, a cantora trazia um pouco da história dos negros, da África perdida no tempo, dos homens que matavam por gânancia, do amor repudiado por desenganos. Obviamente que Alvorecer surgiu para ser um dos discos mais célebres da carreira da cantora, sendo o ponta pé inicial para a sua incursão na religião africana. Talvez o que o povo brasileiro não saiba é que todos nós viemos da África, mesmo torcendo os narizes brancos e o que Clara Nunes fez foi apenas reforçar e estimular as mentes dessas pessoas preconceituosas a pensarem sobre tal assunto.
 
 

Alvorecer (1974) / Clara Nunes
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 5 de março de 2014

A fineza de Cris Pereira


Cris: a imperatriz do samba
Brasília, a capital federal do Brasil, esconde muitos talentos brasileiros, assim como os revela num piscar de olhos. Já faz um tempo que venho retratando algumas cantoras – boas e ótimas – de Brasília, como Márcia Tauil, Nathália Lima, Emília Monteiro, Ellen Oléria, Sandra Duailibe e sempre estive certo de que a música que vem dessa parte do país é rica em detalhes, sopros e respirações. Algumas nem ali nasceram, mas ajudam a prestigiar o talento do estado.  Quem pensa que Brasília é o fardo político e intelecto está muito enganado de si, porque ali concentra-se a maior parte musical de todos os tempos e o pólo cultural de uma esfinge preciosa, sentimental e rudimentar. O nome que ajuda a embelezar Brasília e a completar um time de bravas guerreiras da música nacional é Cris Pereira, que tem elegância e pluralidade na voz e no repertório. Cris tem samba na ponta dos pés e um requebrado que só ela tem direito a ter, além de uma voz doce e macia, que conquista a qualquer um já na primeira música. E quem disse que Brasília não tem samba? Cris Pereira prova que o samba ainda é um refugio bem garantido na música brasileira, desde que feito com qualidade, respeito e determinação, como é o caso dela. Música de pimeira grandeza e de uma fineza espetacular, Cris consegue atribuir a si uma qualidade superior, rara nos dias de hoje, para a chamada damas do samba, que já agraciou Clara Nunes, Alcione, Dona Ivone Lara. Recentemente, o cenário sambístico está por conta de Fabiana Cozza, que traz na bagagem ótimos discos sobre o gênero. Mas Cris Pereira é Cris Pereira: forte, bonita, autêntica, simples, guerreira num país em que precisa ser guerreira para alcançar metas e ultrapassar limites. E o limite de Cris foi ultrapassado. Talentosíssima, Cris Pereira só veio a confirmar que seu tempo é hoje, seu samba é eterno e sua voz e brilho nunca se apagarão. Viva Cris Pereira!!!

 
A fineza de Cris Pereira
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Canto Sagrado de Fabiana Cozza


 

Justa homenagem a Clara Nunes
Se viva estivesse, Clara Nunes já estaria com 70 anos, cabelos menos volumosos, talvez mais escuros, pele mais enrugada e nos brindando com seu sorriso encantador. Clara Nunes partiu cedo e deixou um rastro de saudade que não foi preenchido até hoje, mais de trinta anos de sua morte. A lacuna que a cantora deixou jamais será completada e suas músicas jamais terão o mesmo brilho de sua primeira interprete. Clara Nunes não morreu: partiu desta para uma melhor e está viva, eternamente viva, nos nossos corações, mentes e poros. Muitas cantoras se espelharam na beleza no canto da grande Guerreira, assim como muitos cantores também o fizeram, mas negam este destino. Já se foi o tempo em que Roberto Ribeiro, Gonzaguinha, Martinho da Vila ou João Nogueira falavam abertamente que eram apaixonados pela amiga Clara Nunes e que fizeram um samba especialmente à ela. Hoje os cantores mais moderninhos que cantam samba, insistem em dizer ou citar nomes como Dona Yvone Lara, Beth Carvalho, Alcione, mas esquecem da grande dama do samba, a rainha do império, a mestiça cabocla que evoluiu o segmento e que culminou definitivamente o nosso samba aos países aonde jamais imaginiriam que um dia chegaria. Exceto o cantor e compositor Diogo Nogueira, que acaba de lançar um disco inteiramente dedicado às mulheres e que na contracapa fez uma homenagem as mulheres que lhe tornaram um homem completo. Lá tem o nome da Clara, vindo acompanhado das citadas acima e de Clementina de Jesus. Algumas boas cantoras – e outras nem tanto assim – também fizeram neste ano de 2013 homenagens póstumas a cantora, umas com maestria, outras por pura pretensão. Casos como o da cantora Mariene de Castro, que lançou um disco maravilhosamente competente e contemporâneo e que fez desta homenagem uma forma de agradecer ao seu próprio público por esta abertura, tendo em vista que Mariene é uma discípula de Clara. Carla Visi, a cantora baiana que vem do axé fresco e atemporal, resolveu entrar na onda da maré cheia de Clara Nunes para lançar um disco horrendo e feito às pressas, bem característico desta cantora. Com uma capa horripilante e insensível, Carla Visi acabou por completo com as músicas que Clara eternizou, convidando cantores (?) que nada tinham a ver com a obra da homenageada, fazendo disso um dos piores lançamentos do ano. Mas ainda a competência e sensiblidade de uma grande cantora como Fabiana Cozza, vem nos enriquecer com sua potente voz lantente, que adentra em nossos tímpanos sensíveis e oriundos e nos brinda com uma capa deslumbrante, com um festival de músicas maravilhosas e com categoria digna de uma grande estrela da música brasileira. Fabiana Cozza consegue, já na primeira faixa, nos emocionar, nos dirigindo ao cancioneira da cantora mineira, a ponto de nos apaixonar, de nos arrepiar, de nos enaltecer. Fabiana Cozza surge como quem nada quer, nos trazendo um disco magnifico, sentimental e alegre, festivo, bem ao estilo Clara Nunes de ser. Este momento é mágico, porque Fabiana Cozza também é uma adepta do estilo de viver que Clara adotou, fazendo de sua voz e de seu estar, um motivo maior para brindar os fãs e sua própria carreira. Canto Sagrado (2013 / 29,99) é um disco que vem acompado de um DVD e as melhores músicas de Clara estão aqui. Peço atenção para a versão de Fabiana para Portela na Avenida, que ficou sublime, encantadora, arrebatadora. Um fiel trabalho de uma grande artista representando uma diva da música popular brasileira para fechar o ano com chave de ouro. Fabiana soube, milimetricamente, utilizar seus artificios para nos brindar com um disco a altura de seu talento. Voz primorosa, harmonia ginasial, músicas de embelezamento mútuo faz deste disco um presente de luz, um presente divino, um presente saboroso. Que este belo trabalho não seja menosprezado e que muitos possam ouvir, apreciar, comentar, admirar, respirar o ambiente deixado por Clara, sendo agora transpassado por Fabiana Cozza. Um digno e fiel respaldo de Canto Sagrado faz deste trabalho a maior dentre as honrarias feitas para Clara, sem diminuir aqui o trabalho (fiel, sedutor, carimbado, festivo) de Mariene de Castro. Clara Nunes, no meio deste mundaréu de céu e brancas nuvens, está sentindo o povo aqui embaixo celebrando seus 70 anos de vida e ela nos agradece sorrindo, respirando o nosso ar. Viva ela está. No nosso coração e no coração de quem a homenageia diariamente. Viva Fabiana Cozza! Viva o Canto Sagrado de Clara Nunes!

 
Canto Sagrado / Fabiana Cozza
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A música negra brasileira

Dia de festa ao povo negro
A cultura brasileira e, logicamente, a rica música que se faz e consome no país estruturam-se a partir de duas básicas matrizes africanas, provenientes das civilizações conguesa e iorubana. A primeira sustenta a espinha dorsal dessa música, que tem no samba sua face mais exposta. A segunda molda, principalmente, a música religiosa afro-brasileira e os estilos dela decorrentes. Entretanto, embora de africanidade tão expressiva, a música popular brasileira, hoje, ao contrário da afro-cubana, por exemplo, distancia-se cada vez mais dessas matrizes. E caminha para uma globalização tristemente enfraquecedora. A presença africana na música brasileira, pelo menos em referências expressas, vai se tornando cada vez mais rarefeita. Aparece, via Jamaica, no carnaval dos blocos afro baianos e nos sambas-enredo das escolas cariocas e paulistanas – especialmente nas homenagens a divindades. Mas nada de modo tão intenso como ocorre na música que se faz em Cuba e em outros países do Caribe. Mesmo com a explosão comercial da chamada salsa, a partir de Porto Rico e via Miami, na música afro-caribenha de hoje é raro um disco que não contenha pelo menos uma cantiga inspirada em temas da religiosidade africana e interpretada com fervor apaixonado. Tito Puente, Mongo Santamaría, Célia Cruz, Rubén Bladez e muitos outros são exemplos fortes, o mesmo não acontecendo no Brasil, pelo menos na música mais largamente consumida. No Brasil, o pagode, a partir da década de 1990, apesar da voga inicial de grupos cujos nomes, mas só os nomes, evocavam a ancestralidade africana (Raça Negra, Negritude Júnior, Suingue da Cor, Os Morenos etc.), entendemos que foi se transformando em um produto cada vez mais fútil e imediatista para se preocupar com etnicidade. E isto talvez por conta do conjunto de estratégias de desqualificação que ainda hoje sustentam as bases do racismo antinegro no Brasil. É esse racismo que, no nosso entender, vai cada vez mais separando coisas indissociáveis, como o samba e a macumba, a ginga e a mandinga, a música religiosa e a música profana, desafricanizando, enfim, a música popular brasileira. Ou africanizando-a só na aparência, ao sabor de modas globalizantes made in Jamaica ou Bronx.

 
Clementina de Jesus, cantora nascida em Valença, RJ, em 1901, e falecida no Rio, onde vivia desde menina, em 1987, foi uma grande presença de personalidade negra no Brasil. Descoberta para a vida artística já sexagenária, afirmou-se como uma espécie de elo perdido entre a ancestralidade musical africana e o samba urbano. Seu trabalho de maior expressão fez-se através da interpretação de jongos, lundus, sambas da tradição rural e cânticos rituais recriados, como o já Benguelê, de Pixinguinha. Logo depois do surgimento de Clementina, outra importante interseção entre a música popular brasileira e a religiosidade africana ocorre com os afro-sambas (Canto de Ossanha, Ponto do Caboclo Pedra Preta etc) lançados por Baden Powell e Vinícius de Moraes em 1966. E é o mesmo Vinícius que, agora em parceria com Toquinho, veio a lançar um Canto de Oxum, em 1971, e um Canto de Oxalufã, em 1972. Daí em diante, a vertente começa a se rarefazer, com raras incursões, como a do cantor e compositor Martinho da Vila, que, em um de seus discos do final dos anos 70, registrou uma seqüência de cantigas rituais da umbanda.

Clara Nunes nasceu em Minas Gerais no ano de 1942 e morreu no Rio de Janeiro no ano de 1983 e foi uma das maiores cantoras do Brasil, considerada uma das maiores influências do país na música negra. Pesquisadora damúsica popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à umbanda. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos. Clara e Clementina gravaram juntas um partido alto reverenciando a música negra, o lundu, os atabaques. E festejaram juntas este feito.

Desafricanização, como sabemos, é o processo por meio do qual se tira ou procura tirar de um tema ou de um indivíduo os conteúdos que o identificam como de origem africana. À época do escravismo, a principal estratégia dos dominadores nas Américas era fazer com que os cativos esquecessem o mais rapidamente sua condição de africanos e assumissem a de negros, marca de subalternidade. Isto para prevenir o banzo e o desejo de rebelião ou fuga, reações freqüentes, posto que antagônicas.O processo de desafricanização começava ainda no continente de origem, com conversões forçadas ao cristianismo, antes do embarque. Depois, vinha a adoção compulsória do nome cristão, seguido do sobrenome do dono o que representava, para o africano, verdadeira e trágica amputação. Então, vinham as distinções clássicas entre da costa e crioulo, entre boçal e ladino. Acreditamos que a música popular brasileira, de raízes tão acentuadamente africanas, seja vítima de um processo de desafricanização ainda em curso. Senão, vejamos. Quando a bossa-nova resolveu simplificar a complexa polirritmia do samba e restringir sua percussão ao estritamente necessário, não estaria embutido nesse gesto, tido apenas como estético, uma intenção desafricanizadora? E quando a indústria fonográfica procura modernizar os ritmos afro-nordestinos (de maracatu para mangue-beat, por exemplo), não estará querendo fazer deles menos boçais e mais ladinos, pela absorção de conteúdos do pop internacional? Pois esse pop milionário, sem pátria e sem identidade palpável (mesmo quando pretende ser étnico), é exatamente aquela parte da música dos negros americanos que a indústria do entretenimento desafricanizou. Por tudo isso e como sempre disse a grande dama negra da música popular brasileira, Elza Soares, a música preta pede passagem, que o dia da Consciência Negra é celebrado com maestria e com muita música por artistas negros de ontem e de hoje em eventos espalhados por todo o Brasil. De Negra Li a Elza Soares, passando por Jorge Ben e Fabiana Cozza, a música negra é rica em elementos sofisticados diferenciados do pagode do início da década de 1990 e menos conturbado, hoje, do que na época de início de carreira da dama Elza Soares. Viva a música negra brasileira, viva o povo negro, viva o povo brasileiro. Negro na sua maioria!

 

A Música Negra Brasileira
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Carla Visi estraga os clássicos de Clara Nunes em tributo


Carla: convidados sem graça
Vou direto ao ponto: Carla Visi estragou a obra deixada por Clara Nunes. Guerreira de Minas Gerais, Clara (1942 / 1983) deixou um legado e tanto para a posteridade, com grandes músicas e sambas cadenciados pelos melhores compositores de seu tempo e que se transformou em algo quase intocável e motivo de inspiração para muitas cantoras boas que surgiriam ao longo desses anos. Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Virgínia Rosa são as cantoras que mais se inspiram na beleza no canto de Clara Nunes, assim como Mariana Aydar, Vanessa da Mata e Marisa Monte, que já deixaram claro e evidente em entrevistas que foram inspiradas pela Guerreira. Neste ano realiza os 30 anos de morte dessa grande cantora e homenagens foram pontuadas de canto a canto do país, deixando ainda mais um rastro de saudades e encantamento por Clara. Mas enquanto algumas homenagens são ditas boas, outras são capengas e mediocres a ponto de entrar para a história musical como o pior volume discogrÁfico dos últimos tempos.

Carla Visi é uma boa cantora, tem carisma, voz, mas seu canto não passa do insulto musical que embalou o Brasil com suas músicas baianas de baixo calão e duplo sentido oriundo.  Feito às pressas e com um acabamento horrendo, Carla homenageou Clara na pior das homenagens e fez do tributo algo comercial demais, horrível demais e sofrível demais. Talvez o que diferencie este trabalho de outros lançamentos, sejam as músicas praticamente esquecidas que Clara gravou no início de carreira e que hoje em dia quase ninguém reconhece. O fã mais ardoroso com certeza se sentirá privilegiado ao ouvir canções como Dia de Esperança, lançado em 1966 e que aqui é cantado em dueto com a neo-sertanejinha Paula Fernandes. Ou então sentir orgulho em ouvir Tributo aos Orixás, música competente e com lirismo puro, cujo quase não é tocado por outro músico e que foi gravado em 1972. De 1969 veio Foi Ele, composta por Carlos Imperial e que praticamente Visi a retirou do baú. Mas é só.

Sinto vergonha em poder ouvir Carla cantando sucessos de Clara ao lado de Paula Fernandes, Péricles ou Thiaguinho, músicos que talvez nem conheçam ou tenham intimidade com a obra maravilhosa de Clara. Ser diferente de outras grandes interpretes para fazer um disco em tributo é tudo o que uma cantora quer na vida, mas fazer estardalhaço com a obra da homenageada é outro patamar. Clara merecia tratamento melhor, assim como fizeram Virgínia Rosa no show que vem realizando desde o ano passado, o belissímo e emocionante Virgínia Rosa canta Clara ou da premiadissíma Fabiana Cozza, que vem emocionando corações com seu canto forte em Canto Sagrado, cujo foi realizado recentemente um DVD sobre o espetáculo.

Homenagem é homenagem, mas precisa ser muito bem feito, caprichado e ainda mais por se tratar de uma das maiores cantoras do Brasil. Cantores como Daniela Mercury, Péricles, Paula Fernandes e Thiaguinho dividem o microfone com a baiana em algumas das longas 17 faixas do álbum. Com Daniela, por exemplo, ela canta Morena de Angola e já em O Canto das Três Raças, a ex-vocalista da banda Cheiro de Amor faz dueto com Péricles.  Aí eu pergunto: qual a ligação dessas vozes com a obra de Clara? Paula Fernandes, rainha do sertanejo empobrecido cantando os sambas de Clara? Tem algo errado neste samba.

Carla Visi Pura Claridade (2013 / Sony Music / 29,99) é um dos piores momentos da música popular brasileira. Sem beleza, sem samba no pé, sem malemolência, Carla deixa a peteca cair a cada faixa embalada por seu canto, que não entusiasma em momento algum. O que poderia ser um verdadeiro caminho para o sucesso (como o caso de Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Virgínia Rosa com seus shows abarrotados de pessoas ávidas por ouvirem as músicas de Clara), Carla deixou de mão o carinho, o afeto e a respeitabilidade oferecida para cair em um nicho cheio de pólvora incapaz de ser lembrado.

Carla Visi continua linda demais, cantando bem demais, mas errou e muito ao se apressar para fazer este disco como forma de tributo. Errou na capa, errou na escolha dos convidados e continuará errando quando não estudar o que se quer apresentar. Ser leiga no assunto requer estudos, requer profissionalismo, requer qualidade e Carla não soube aproveitar este momento tão importante que seria para a sua vida musical, tendo em vista que a cantora amargura vez por outra ostracismos longos.

 

Carla Visi estraga os clássicos de Clara Nunes em tributo

Nota 1

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Márcia Tauil e o ótimo CD Sementes no Vento




Um dos mais belos discos da MPB
Márcia Tauil é uma dessas cantoras raras, com sensibilidade, refinamento, encantamento e uma voz cristalina. Não existem comparações entre Márcia e outra cantora qualquer, porque não existe uma cantora que seja igual a ela ou que seja parecido com seu estilo. Conheci seu trabalho meio que por querer: estava indo a procura do novo disco de Fabiana Cozza, em 2003, quando me deparei, por entre outros discos de MPB, com uma capa simples, singela, com sementes ao vento. A cantora em questão eu não conhecia, mas o compositor Eduardo Gudin, sim. Olhei as músicas: algumas conhecidas, outras nem tanto. Pensei: seria uma grande surpresa conhecer as músicas de Gudin que eu jamais tinha ouvido e, de tacada, conheceria a cantora Márcia Tauil. Foi um achado e tanto. Márcia me pegou pelo ouvido e pela excelente voz e seu disco era uma alegria para mim, para a MPB, para a cultura brasileira.

Dona de uma voz com potencial, Márcia Tauil é um nome que merece maior destaque entre as grandes cantoras da nova MPB. Sementes no Vento teve repercussão direta de quem ouviu e ainda hoje é o disco que mais ouço. Por quê? Porque é um disco lindo, maravilhoso, sensível, agradável, único. Márcia abrilhantou as canções de Gudin e Costa Netto com uma perfeição capaz de transformar músicas antigas como Verde e Paulista (cantadas por Leila Pinheiro e Vânia Bastos) em um dos achados mais harmoniosos do disco.



“Amor dedicado e cruel

Estranho papel que vivi

De tanto tentar ser fiel

Te trai”

Trecho da música Nossos Caminhos, da dupla Gudin / Costa Netto



Ouvir Márcia Tauil é uma das maiores maravilhas do mundo. A sensibilidade afetiva que encontramos em Sementes no Vento é tão visceral, tão presente e tão arquitetônica, que nos deixa a sensação de que a MPB está salva por artistas como ela. Criadora de um estilo que serve de inspiração a muitas cantoras novas, Márcia Tauil é o oposto das cantoras de sucesso rápido e sem poesia. Sua musicalidade é tão viva e tão rica, que sou obrigado a dizer, desde o lançamento do Mais Cultura!, em novembro de 2011, que ela é uma cantora que exala musicalidade, transpira energia positiva, canta maravilhosamente bem, emite sons característicos e é uma das grandes cantoras que este País já conheceu.

Sementes no Vento é uma obra-prima. A começar pelas canções escolhidas a dedo e pela bela voz de Márcia, o disco merece todos os destaques que um artista necessita. Músicas de excelente gabarito, sambas em grande estilo e homenagens a Chico Buarque na canção Poeta Maior, o disco é um achado e tanto e merece o respeito de todos os verdadeiros amantes da MPB e que precisa ser descoberto, devorado, engolido, mastigado, venerado e apresentado a amigos, familiares e cantarolado aos quatro ventos. Ser obra-prima não basta. Márcia Tauil é um troféu digno de estandarte e louvor.


O disco abre com a bela canção Antigos Sinais, já cantada pela cantora Beth Nazar e, de quebra, arremata ouvidos salientes de musicalidade, tamanha a perfeição na doçura de sua voz e nas belas frases de efeito que a dupla de compositores fizeram. Seguindo por Mensagem, já cantada por Vânia Bastos (esposa de Gudin), cujo tem versos brilhantes, capaz de nos apegar à música na primeira audição. Indo um pouco mais atrás no tempo, Ensaio do Dia foi composta em 1984 e cantada por Leila Pinheiro e aqui a mensagem é tão rica e deslumbrante que mais parece que a canção fora feito nos dias de hoje. Contando com a participação do cantor José Renato Fressa, a música rende um brilho confortante, regado às belas interpretações dos dois artistas.



“Vem olhar

O mau tempo se dispersou

O meu pranto eu já enxuguei

O meu sonho não desbotou”

Trecho de Sementes no Vento, da dupla Gudin / Costa Netto





Mas o que são as tais sementes no vento? As sementes que Márcia Tauil canta são aquelas deixadas pelo monstro sagrado compositor Eduardo Gudin em parceria com o também sensacional compositor Costa Netto, formando assim, em um disco aonde as sementes foram muito bem plantadas a começar pela bela e rica interpretação da cantora. Uma responsabilidade e tanta da dupla em convidar para beneficiar e agraciar suas canções com uma cantora desconhecida (até então) do grande público. Geralmente este feito é carregado por derrotas e tristezas, tendo em vista que sementes plantadas em terras novas não dão o fruto esperado. Mas Márcia Tauil prova e comprova que sua musicalidade estava acima de tudo e de qualquer suspeita. O disco é, sem sombra de vestígios, um dos mais belos de toda a MPB dos últimos anos.

Se as sementes que Eduardo Gudin e Costa Netto jogaram ao vento e espalharam-se no ar, Márcia Tauil foi autêntica em poder junta-las e canta-las em um disco sensacional, virtuoso de aplausos efusivos para todo o sempre. Esperemos que no baú de Gudin ainda existam mais sementes e que Márcia possa grava-los em um disco futuro ou, quem sabe, pincelar uma ou outra canção da dupla, para a nossa plena felicidade.

Tímido, resguardado por trás de retinas capazes de apreender – e compreender – o mundo dos afetos e suas sublimações, Eduardo Gudin compôs uma obra repleta de sambas, canções e peças instrumentais, prova de seu amplo desdobramento como compositor, letrista, cancionista, arranjador, produtor de discos e musicais e, antes de tudo, um criador efetivamente atrelado a uma estética própria, capaz de conciliar beleza, refinamento e sofisticação em suas melodias.



“O carnaval de cada dia

Alegoria de um amor

Onde passa sempre disfarça a nossa dor”

Trecho da música O Carnaval de Cada Dia, da dupla Gudin / Costa Netto



Com destaques para Conciliar, Mensagem, Samba de Verdade e O Carnaval de Cada Dia, o disco é, para mim, um dos melhores que tenho em casa e na minha coleção. Ouvir Márcia Tauil, ouvir Sementes no Vento, ouvir canções emaranhadas de entusiasmos e eufemismos e parábolas de Eduardo Gudin e Costa Netto em um momento em que a Cultura Brasileira exige cuidados para não tropeçar, é um grande remédio. Remédio para não pouparmos elogios a um grande time de compositores, a um grande disco e a uma grande cantora chamada Márcia Tauil.



Faixas



·       01 Antigos sinais (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       02 Mensagem (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       03 Ensaio do dia (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       04 Poeta maior (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       05 Samba de verdade (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       06 Conciliar (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       07 Nossos caminhos (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       08 Paulista (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       09 Verões virão (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       10 Verde (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       11 Coração aberto (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       12 O carnaval de cada dia (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

·       13 Sementes no vento (Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)



Sementes No Vento / Marcia Tauil

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Melhor Cantora dos Últimos 10 Anos



A Melhor Cantora está nas entrelinhas deste artigo
Escrever sobre a melhor cantora dos últimos 10 anos não foi uma tarefa fácil. A bem da verdade, essa ideia surgiu quando estava em viagem por João Pessoa, quando entrei em uma loja de discos em um shopping e dei de cara com cantoras pouco conhecidas e divulgadas por aqui, como foi o caso de Márcia Castro, Luisa Maita e Barbara Eugenia. Cantoras essas que tem um prestígio enorme e um talento incomum, elas não poderiam deixar de figurar a minha lista pessoal e integrarem a seleta corporação das melhores cantoras dos últimos 10 anos. Como fã absoluto da MPB num contexto geral, corri para formar uma lista que tinha apenas 10 cantoras. No avião, deparei-me com um dilema: seria injusto fazer apenas uma lista com 10 cantoras, levando em conta que em minha casa, tenho um acervo gigantesco de novas cantoras e saio desbravando as mesmas para que eu mesmo possa apresentar às pessoas. Isso aconteceu com Vanessa da Mata que, em 2002 avisei a alguns amigos que ela seria uma das líderes da MPB. Dito e acertado, Vanessa é hoje uma das queridinhas da música popular e, de quebra, salvou parte da MPB.

Tendo em vista que minha tarefa de eleger as melhores cantoras estava só no início, tive, por ventura, de acrescentar mais 10 cantoras na lista. Nomes como Márcia Tauil, Tiê, Tulipa Ruiz, Thaís Gulin, Monique Kessous e Fabiana Cozza já estavam anotados, porém, faltava mais gente importante tanto para o meu enriquecimento musical quanto para divulgação em massa. E foi pensando neste quesito que acrescentei Marina de La Riva, Isabela Taviani, Bruna Caram, entre tantas outras maravilhosas.
Mas para fazer a lista tive que pensar inúmeras vezes do porque estava fazendo aquilo. E quais seriam os critérios? E quais seriam os contras? E quais seriam os reais motivos para apresentar ao público e aos leitores do Mais Cultura!, a melhor cantora dos últimos 10 anos. Para ser a melhor cantora, obtive um estudo rápido e claro sobre a cantora: estilo, musicalidade, capacidade, performance, histórico. Não adiantava simplesmente eu chegar e colocar tal cantora e pronto. Desde o início já sabia quem seria a minha melhor cantora do Brasil e, para que ninguém pudesse desvendar antes, tive que obter o silêncio total. Até mesmo quem me conhece a fundo está dividido sobre quem é a tal cantora misteriosa que estará recebendo o Troféu de Ouro.
Para tanto, para ser a minha melhor cantora tem que ter, além de tudo o que já citei, bons discos. Discos estes que me fazem pensar, me fazem cantarolar e me despertar, fazer comentar com assiduidade, comprar seus discos, seguir seus passos mesmo que a distância. Estar atento à tudo o que ela faz, desde sua vida pessoal até sua vida musical, com certos limites, claro. De quebra, quando estava em João Pessoa já sabia quem figuraria o topo da lista. Quando estava dentro do avião, já tinha metade de seu artigo pronto em minha cabeça. Quando cheguei em São Paulo, comecei a esmiuçar pequenos textos fragmentados aqui e ali sobre ela. E muitos de vocês a conhecem.
Ser a maior cantora ou uma das maiores do Brasil nos dias de hoje é uma responsabilidade tremenda. Mas para a cantora que está prestes a ser revelada aos meus leitores é um dos argumentos pequenos para que ela possa fazer um disco melhor que o outro. Amparada por grandes personalidades, questionada por muitos jornalistas, muito bem relacionada com a imprensa e com seus fãs, tendo uma carreira marcada por visionamentos e pensamentos distantes, ela marcou uma geração, marcou um contexto geral dos acontecimentos e hoje canta, encanta e encantará ainda mais a todos nós.
Com vocês, o primeiríssimo lugar no Mais Cultura!.

Ela é...

Segunda feira vocês saberão!

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão, de João Bosco




O disco: ótimo como João Bosco
Ao lançar o CD Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão (2009 / Universal / 29,99) no segundo semestre do ano passado, João Bosco ganhou elogios da crítica e conquistou alguns prêmios. Por esse trabalho, o cantor e compositor mineiro concorreu ao Prêmio da Música Brasileira — em 11 de agosto de 2011, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro — em três categorias. O álbum, o 24º da carreira, marca a retomada de João com o velho parceiro Aldir Blanc, de quem ficou separado por quase 20 anos. Juntos, eles fizeram para esse disco Navalha e Samba do Caramujo, que são consideradas as melhores, assim como Perfeição, Tanajura e Tanto Faz, que João compôs com o filho Francisco Bosco; e Pintura, tabelinha com o paulista Carlos Rennó. Não Vou Pro Céu vem tendo uma trajetória bonita. Não chegou com arroubo ao mercado, mas é um disco para quem gosta de se deixar levar pela música, para quem acompanha o trabalho do autor.

O novo trabalho de João Bosco é suave e introspectivo. Aliás, suavidade pode ser a palavra-chave desse novo álbum. O disco é econômico, delicado, com ênfase em um instrumental simples, no qual se sobressai o violão. As letras de Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão - primeiro disco de músicas inéditas do artista em sete anos - também estão a altura do instrumental de João Bosco, que canta ainda melhor (e de forma mais simples) nesse trabalho. Produzido por Francisco Bosco e pelo guitarrista Ricardo Silveira, o álbum já pode ser considerado um dos melhores da (sólida) discografia de João Bosco. Neste disco, João Bosco repete a dose de parceria com o seu filho, o ótimo letrista Francisco Bosco e, ao mesmo tempo, marca o retorno da célebre parceria João Bosco / Aldir Blanc - a dupla mais gravada por Elis Regina - em quatro faixas.

A balançante Sonho de Caramujo é uma dessas faixas. Nela é possível matar saudades de grandes canções como Nação (cantada com maestria por Clara Nunes em seu derradeiro disco e por Fabiana Cozza em seu segundo disco de carreira) ou O Mestre Sala dos Mares (cantada com disciplina e orgulho por Elis Regina). A singela Navalha, por sua vez, possui uma das melhores letras do disco: Aí, eu fui crucificado / Nos cravos do teu amor / Não me lembro de outra coisa / Que me causasse tanta dor. Mentiras de Verdade é aquele tipo de canção com a clássica assinatura de João Bosco, e que já nasce clássico, diferentemente da menos inspirada Plural Singular. Ao lado do filho Francisco Bosco, João compôs cinco faixas, com destaque para a afro Tanajura, com participação dos percussionistas Robertinho Silva e Armando Marçal. A bossa nova Perfeição e a intrincada Desnortes são outros dois destaques da parceria pai e filho.

Além de Francisco Bosco e Aldir Blanc, João Bosco divide o lápis e o papel com Carlos Rennó e Nei Lopes. Com o primeiro, foram duas canções: Pronto Pra Próxima e Pintura. Já a parceria com Nei Lopes é estreada com uma das melhores faixas de Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão. Jimbo No Jazz, apenas com o violão e a voz de João Bosco, já pode ser considerado, fácil, fácil, um dos melhores momentos de sua carreira. A única canção que não foi composta por João Bosco é Ingenuidade, composta por Serafim Adriano e imortalizada por Clementina de Jesus, e que, curiosa (coincidente) mente está presente também em Zii e Zie, último trabalho de Caetano Veloso. Foram sete anos para João Bosco lançar um álbum de inéditas. Mas parece que a espera valeu. Sei não, mas acho que João Bosco tem lugar no céu sim...



Nota 10

Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão / João Bosco



Marcelo Teixeira