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sexta-feira, 7 de abril de 2017

O fantástico mundo de Luisa Maita


O fantástico mundo de Luisa
Não é todo dia que podemos ter a honra de ouvir uma cantora como Luisa Maita nas plataformas digitais, mas posso garantir que quem compra seus CDs ou assiste aos seus shows, reconhece sua importância dentro da música popular brasileira. Simplesmente, Luiza é uma cantora diferenciada, culta, refinada, intelectualmente cult e popularmente do povão. Se a massa encefálica ainda não descobriu Luisa Maita, então tem alguma coisa estranha nesse nicho: ela está aqui, bem no meio do povo, cercada por equipamentos refinados, mas com letras que simbolizam a tenra estrutura que pertencem à população. Se você não a ouviu, se você não a viu, se você não a conheceu ainda, peço para que corra e ouça Lero-Lero (2010) e seu mais novo lançamento, Fio da Memória (2016), que são obras-primas dignas dos melhores prêmios. Ela está ali bem diante de seus olhos, bem perto de seus ouvidos e ao alcance de suas mãos e se você perde essa oportunidade, infelizmente não há o que fazer. Seis exatos anos distanciam Lero-Lero de Fio da Memória e esse tempo foi primordial para que um fosse a extensão de complemento do outro, sem que ambos tivessem ligações diretas. Quando lançou o primeiro disco, a cantora era um dos nomes mais fortes do cenário musical, onde um pouco antes a cantora Céu despontava com sendo uma das melhores. Não há semelhança alguma entre ambas as cantoras e enquanto Céu seguiu uma linha mais vanguardista, Luisa optou por seguir uma linha mais atemporal, mas sofisticada, mais popular com requintes de intelectualidade. Não que Céu não tenha esses requisitos, mas enquanto uma seguiu uma linha mais popularesca dentro de um padrão não blindado, a outra seguiu por uma linha tênue entre a sofisticação e a beleza de uma pluralidade, que para entrar é preciso de senha. Se lá no início desse artigo eu disse que você precisava conhecer Luisa Maita e aqui digo que você precisa pegar uma senha, é porque não é qualquer um que vai escutar a rigor as músicas de Luisa com o mesmo afinco que escutam a música de Céu. Aqui entra a senha. Céu não é mais blindada, assim como não é mais Roberta Sá nem Mariana Aydar, enquanto que Luisa continua com uma blindagem que requer senha para entrar. Isso é bom porque a blindagem a cerca dos cunhões das paranerfálias musicais existentes. Mas é ruim porque Luisa pode viver em uma blindagem existencial por muito tempo. Lero-Lero é brasileiro, orgânico e com cheiro da zona sul de São Paulo: um cheiro cinzento, com mistura de barro e árvores secas. Fio da Memória é um disco que, a princípio, causa um estranhamento mórbido, secular, personificada e homeopática. É preciso ouvir de novo e de novo e de novo e quando você menos perceber, estará cansado de tanto que não ouviu ainda. Contraditório? Nenhum pouco. Faço referências à Lero-Lero porque para entrar no mundo maitense, você precisa ouvi-lo antes de entrar de cabeça em Fio da Memória. É como ler Platão sem entender Sócrates. Precisamos manter um pouco a blindagem de Luisa para que tenhamos certeza de que seu próximo disco será ainda mais categorial que Lero e Fio. Por enquanto, pegue uma senha enquanto não há filas exorbitantes de uma população insana e embarque no fantástico mundo de Luisa Maita.

 

Fio da Memória (2016) / Luisa Maita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A asa de Mariana Aydar



Pedaços de Aydar
Há tempos venho dizendo que Mariana Aydar é uma das melhores cantoras surgidas nesses últimos anos (juntamente com Roberta Sá) e o lançamento de seu quarto CD é a mais prova de que seu talento transcende a imaginação de todos nós perante a sua vocação maior. Pedaço duma asa (2015 / Brisa/ 29,99) é um dos mais autênticos discos lançados no ano passado e não dei vazão para esse detalhe não por descuido, mas para que eu pudesse abrir o Mais Cultura Brasileira de 2016 com esse artigo. Mariana Aydar reinventa o samba de Nuno Ramos na sua melhor forma, na sua melhor metátese e no seu melhor ângulo, dando a impressão de que tudo aqui cantado já estava preparado para que ela as cantasse de sua maneira mais jovial, serena e ao mesmo tempo único.  Há muita música de boa qualidade, poesia de tamanha delicadeza e artes visuais igualmente vistas em Peixes, Pássaros, Pessoas (2009), que para mim, é o melhor disco de carreira da cantora e que já vinha um pouco do arrebatador Nuno Ramos. Pedaço duma asa é um disco inclassificável, digno de uma responsabilidade mutua entre voz e poesia, arte e samba, Mariana e Nuno. O primeiro encontro de Mariana e Nuno foi em 2007. Logo, ela passou a gravá-lo em seus discos e emprestou sua voz à sonorização de Bandeira Branca, instalação de Nuno exposta na 29ª Bienal de São Paulo de 2010. Em 2013, foi convidada para participar do projeto Palavras Cruzadas, de Marcio Debellian, cuja proposta era reunir, num espetáculo, artistas da palavra, da música e da imagem. Mariana não hesitou em escolher Nuno. A partir do espetáculo nasceu Pedaço duma asa, quarto disco de estúdio da cantora, que mergulhou no universo poético do compositor como se as canções tivessem sido feitas pra ela. No release do disco, Debellian apresenta Pedaço duma asa como um trabalho que amplia o que se entende por parceria e composição, indo além do tradicional caso de uma cantora que grava um disco homenageando um compositor. Trata-se de um trabalho de dois artistas que pactuaram alcançar toda a potência poética do repertório que criaram. Sim, criaram, no plural. Pois a intérprete se mostrou ativa durante toda a elaboração do repertório, desde a seleção das músicas até a identidade que cada uma delas viria a assumir. E nesse pedaço qualquer de asa, Nuno brilha, Mariana brilha e o ouvinte brilha triunfal.

 

Pedaço duma asa (2015) / Mariana Aydar
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Carla Visi estraga os clássicos de Clara Nunes em tributo


Carla: convidados sem graça
Vou direto ao ponto: Carla Visi estragou a obra deixada por Clara Nunes. Guerreira de Minas Gerais, Clara (1942 / 1983) deixou um legado e tanto para a posteridade, com grandes músicas e sambas cadenciados pelos melhores compositores de seu tempo e que se transformou em algo quase intocável e motivo de inspiração para muitas cantoras boas que surgiriam ao longo desses anos. Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Virgínia Rosa são as cantoras que mais se inspiram na beleza no canto de Clara Nunes, assim como Mariana Aydar, Vanessa da Mata e Marisa Monte, que já deixaram claro e evidente em entrevistas que foram inspiradas pela Guerreira. Neste ano realiza os 30 anos de morte dessa grande cantora e homenagens foram pontuadas de canto a canto do país, deixando ainda mais um rastro de saudades e encantamento por Clara. Mas enquanto algumas homenagens são ditas boas, outras são capengas e mediocres a ponto de entrar para a história musical como o pior volume discogrÁfico dos últimos tempos.

Carla Visi é uma boa cantora, tem carisma, voz, mas seu canto não passa do insulto musical que embalou o Brasil com suas músicas baianas de baixo calão e duplo sentido oriundo.  Feito às pressas e com um acabamento horrendo, Carla homenageou Clara na pior das homenagens e fez do tributo algo comercial demais, horrível demais e sofrível demais. Talvez o que diferencie este trabalho de outros lançamentos, sejam as músicas praticamente esquecidas que Clara gravou no início de carreira e que hoje em dia quase ninguém reconhece. O fã mais ardoroso com certeza se sentirá privilegiado ao ouvir canções como Dia de Esperança, lançado em 1966 e que aqui é cantado em dueto com a neo-sertanejinha Paula Fernandes. Ou então sentir orgulho em ouvir Tributo aos Orixás, música competente e com lirismo puro, cujo quase não é tocado por outro músico e que foi gravado em 1972. De 1969 veio Foi Ele, composta por Carlos Imperial e que praticamente Visi a retirou do baú. Mas é só.

Sinto vergonha em poder ouvir Carla cantando sucessos de Clara ao lado de Paula Fernandes, Péricles ou Thiaguinho, músicos que talvez nem conheçam ou tenham intimidade com a obra maravilhosa de Clara. Ser diferente de outras grandes interpretes para fazer um disco em tributo é tudo o que uma cantora quer na vida, mas fazer estardalhaço com a obra da homenageada é outro patamar. Clara merecia tratamento melhor, assim como fizeram Virgínia Rosa no show que vem realizando desde o ano passado, o belissímo e emocionante Virgínia Rosa canta Clara ou da premiadissíma Fabiana Cozza, que vem emocionando corações com seu canto forte em Canto Sagrado, cujo foi realizado recentemente um DVD sobre o espetáculo.

Homenagem é homenagem, mas precisa ser muito bem feito, caprichado e ainda mais por se tratar de uma das maiores cantoras do Brasil. Cantores como Daniela Mercury, Péricles, Paula Fernandes e Thiaguinho dividem o microfone com a baiana em algumas das longas 17 faixas do álbum. Com Daniela, por exemplo, ela canta Morena de Angola e já em O Canto das Três Raças, a ex-vocalista da banda Cheiro de Amor faz dueto com Péricles.  Aí eu pergunto: qual a ligação dessas vozes com a obra de Clara? Paula Fernandes, rainha do sertanejo empobrecido cantando os sambas de Clara? Tem algo errado neste samba.

Carla Visi Pura Claridade (2013 / Sony Music / 29,99) é um dos piores momentos da música popular brasileira. Sem beleza, sem samba no pé, sem malemolência, Carla deixa a peteca cair a cada faixa embalada por seu canto, que não entusiasma em momento algum. O que poderia ser um verdadeiro caminho para o sucesso (como o caso de Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Virgínia Rosa com seus shows abarrotados de pessoas ávidas por ouvirem as músicas de Clara), Carla deixou de mão o carinho, o afeto e a respeitabilidade oferecida para cair em um nicho cheio de pólvora incapaz de ser lembrado.

Carla Visi continua linda demais, cantando bem demais, mas errou e muito ao se apressar para fazer este disco como forma de tributo. Errou na capa, errou na escolha dos convidados e continuará errando quando não estudar o que se quer apresentar. Ser leiga no assunto requer estudos, requer profissionalismo, requer qualidade e Carla não soube aproveitar este momento tão importante que seria para a sua vida musical, tendo em vista que a cantora amargura vez por outra ostracismos longos.

 

Carla Visi estraga os clássicos de Clara Nunes em tributo

Nota 1

Marcelo Teixeira

terça-feira, 26 de junho de 2012

19º lugar: Luisa Maita - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos


A cantora Luisa Maita no Top 20
A inspiração de Luísa Maita alimenta-se da tradição musical brasileira na mesma intensidade com que frequenta a prateleria do pop americano. Para Luísa, não há diferença sensível entre João Gilberto e Michael Jackson, Nana Caymmi e Beyoncé, funk carioca e R&B como mostra seu primeiro álbum, Lero-Lero, lançado no Brasil pelo selo Oi Música e no resto do mundo pela Cumbancha/Putumayo. Como compositora, Luísa é uma cronista que não só observa, mas participa da cidade, caminha pelas avenidas e vielas do centro e da periferia à procura de estalos poéticos e melódicos. Essa facilidade com o trato da canção foi identificada pela cantora Virgínia Rosa quando decidiu gravar dois sambas de Luísa – Madrugada e Amado Samba – e por Mariana Aydar que incluiu em seu segundo álbum a canção Beleza (uma parceria com Rodrigo Campos), eleita uma das melhores músicas de 2009 pela revista Rolling Stone Brasil.

Como cantora, Luísa usa sua sensualidade de forma sutil. Parece mesmo ter encontrado a medida certa para, em suas próprias palavras, atingir o máximo de expressão com o mínimo de afetação. Essa característica pode ser verificada (ainda que de maneira incipiente) em algumas faixas do álbum de seu primeiro grupo, a Urbanda. A personalidade musical de Luísa ganha mais força nas participações que fez no disco São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe de Rodrigo Campos e Alborada do Brasil de Carlos Nuñez e também em sua interpretação para os vídeos da candidatura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016 dirigidos por Fernando Meirelles.

Mas em nenhum desses trabalhos Luísa se revela tanto como em Lero-Lero que sintetiza compositora e intérprete, une referências musicais e pessoais com preciosismo e despojamento. O álbum é pontuado por influências da música pop e eletrônica indissociáveis da base acústica profundamente enraizada no samba, na bossa nova e na música popular brasileira. As faixas apresentam uma galeria de ritmos tradicionais do Brasil: do samba ao maculelê, da bossa nova ao baião. No entanto, aparecem desconstruídos, muitas vezes reduzidos às células rítmicas básicas que se transformam com os timbres eletrônicos dos beats e com a instrumentação acústica.

Em menos de uma semana após o lançamento, o álbum figurou em primeiro lugar no iTunes na categoria álbuns latinos e também na lista dos CDs mais vendidos de Latin Music na Amazon. Em grande parte, essa atenção do público foi reflexo da aparição de Luísa no programa All Things Considered da NPR (National Public Radio) nos EUA, cuja programação é retransmitida para mais de 700 rádios americanas. O programa declarou que Luísa é a Nova Voz do Brasil e salientou que se continuar fazendo discos como este, pode muito bem estar no caminho para o estrelato internacional. Essa repercussão levou a cantora para sua primeira turnê nos EUA e Canada, com shows que renderam ótimas críticas do The New York Times, The Washington Post e Boston Globe.

No Brasil, o álbum figurou nas principais listas de melhores discos de 2010 – entre elas a da revista Veja e Rolling Stone. Em julho de 2011, Luísa recebeu o prêmio de Artista Revelação do Ano na 22a edição do conceituado Prêmio da Música Brasileira, além de se apresentar na festa de entrega ao lado de Lenine. No mesmo período, Luísa estreou na Europa passando por importantes festivais de verão como o Nuits du Sud na França e o Musicas do Mundo, em Portugal. Em agosto de 2011, a cantora retornou à América do Norte realizando 30 shows em 26 cidades durante 45 dias e, uma vez mais, lotando os festivais e casas de shows por onde passou e recebendo elogios da imprensa com destaque especial no jornal LA Times.

Com todo este gabarito, Luísa Maita chega ao décimo nono lugar na lista das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos eleito pelo Mais Cultura!.



Décimo Nono Lugar: Luísa Maita

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos

Marcelo Teixeira


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Luísa Maita: a grande revelação na MPB


Lero-Lero: voz e disco primorosos
Luísa Maita é a compositora favorita de Maria Gadú (que em seu último disco gravou Axé Acappella, em companhia de Dani Black) e das cantoras Virginia Rosa e Mariana Aydar. Pudera. Suas músicas são de uma originalidade única e falam de amores complicados, integrantes de comunidades que querem se amar e de amores que aparecem do nada, dando a dimensão de sua musicalidade. A inspiração de Luísa Maita alimenta-se da tradição musical brasileira na mesma intensidade com que frequenta a prateleria do pop americano. Para Luísa, não há diferença sensível entre João Gilberto e Michael Jackson, Nana Caymmi e Beyoncé, funk carioca e R&B como mostra Lero-Lero (2010 / Oi Música - Phonobase / 27,99), primeiro álbum da cantora e compositora paulistana. Como compositora Luísa Maita é uma cronista que não só observa, mas participa da cidade, caminha pelas avenidas e vielas do centro e da periferia à procura de estalos poéticos e melódicos.

Essa facilidade com o trato da canção foi identificada pela cantora Virgínia Rosa quando decidiu gravar dois sambas de Luísa – Madrugada e Amado Samba – e por Mariana Aydar que gravou Beleza (uma parceria com Rodrigo Campos), eleita uma das melhores músicas de 2009 pela revista Rolling Stone Brasil e recentemente gravou Solitude, com parceria de Kavita e Jwala.

A intérprete Luísa usa a sensualidade de forma sutil como forma de transmitir sensações, como instrumento de comunicação. Parece mesmo ter encontrado a medida certa para, em suas próprias palavras, atingir o máximo de expressão com o mínimo de afetação. Essa característica pode ser verificada (ainda que de maneira mais tímida) em algumas faixas do álbum de seu primeiro grupo, a Urbanda. A personalidade musical de Luísa ganha mais força nas participações que fez no disco São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe de Rodrigo Campos e Alborada do Brasil de Carlos Nuñez e também em sua interpretação para os vídeos da candidatura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016 dirigidos por Fernando Meirelles.

Mas em nenhum desses trabalhos Luísa Maita se revela como em Lero-Lero que sintetiza compositora e intérprete, une referências musicais e pessoais com preciosismo e despojamento. Síntese cujas medidas foram assimiladas por Paulo Lepetit, o alfaiate produtor do álbum, que lhe conferiu uma vibração contemporânea através dos beats e programações eletrônicas e por Rodrigo Campos (co-produtor ao lado de Luísa) e seu violão afro que dialoga no mesmo volume com a base rítmica das canções.

Luisa e Mariana Aydar: amigas
O álbum é pontuado por influências da música pop e eletrônica indissociáveis da base acústica profundamente enraizada no samba, na bossa nova e na música popular brasileira. As faixas apresentam uma galeria de ritmos tradicionais do Brasil: do samba ao maculelê, da bossa nova ao baião. No entanto, aparecem desconstruídos, muitas vezes reduzidos às células rítmicas básicas que se transformam com os timbres eletrônicos dos beats e com a instrumentação acústica.

Além de Paulo Lepetit e Rodrigo Campos, o disco conta com a participação dos músicos Kuki Storlarski e Sérgio Reze (bateria), Théo da Cuíca e Jorge Neguinho (cuíca), Siba (rabeca), Fabio Tagliaferri (viola) e Swami Jr (violão).

Com o filtro da sensibilidade, Luísa recorta pedaços da história musical brasileira, do cotidiano da cidade de São Paulo e de seu povo. Juntando as faixas, salta aos ouvidos uma unidade, uma massa sonora de delicadezas, sensualidade e autenticidade. Um exemplo da constante evolução e reinterpretação da música brasileira, a estreia de Luísa Maita exibe uma artista exposta à tradição e modernidade, enraizada à vida contemporânea, pronta para devolver tudo àquilo que absorveu de sua família, da cidade e das pessoas: a música.

Luísa é uma das representantes mais consistentes da tão saturada cena brasileira de novas cantoras/compositoras e sua presença em cena é inesquecível. Canta com personalidade impressionante e encontrou um caminho próprio na estrada superpovoada de cantoras.





Faixas



·       01. Lero-Lero (Luísa Maita)

·       2. Alento (Luísa Maita)

·       3. Aí vem ele… (Luísa Maita)

·       4. Desencabulada (Luis Felipe Gama e Rodrigo Campos)

·       5. Fulaninha (Luísa Maita)

·       7. Maria e Moleque (Rodrigo Campos)

·       8. Anunciou (Luísa Maita)

·       9. Um vento bom (Luísa Maita)

·       10. Alívio (Luísa Maita)

·       11. Amor e Paz (Luísa Maita)



Produzido por Paulo Lepetit (exceto faixa 11 produzida por Swami Jr.)

Co-produzido por Rodrigo Campos e Luísa Maita



Nota 10

Lero-Lero / Luísa Maita



Marcelo Teixeira

www.oimusica.com.br/luisamaita

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A persistência de Maurício Mattar na música


O neo-cantor Maurício Mattar: persistência
Quando uma carreira de um ator que fica famoso pelo seu talento meramente reconhecido pelo público, pela crítica e pelos colegas de profissão, tudo se resume em uma única e bela palavra: talento. A arte de representar um papel, a arte de dominar os palcos ou a cena de uma novela é para ser vivida pelos grandes nomes que a TV e o teatro já proporcionaram à muitos. Representar não é uma tarefa fácil e fazer isso requer muito estudo, muito aprendizado e muita dedicação. Mas quando um ator enfrenta os obstáculos que a vida lhe impõe e ele passa a usar destes dotes artísticos para se auto promover a outros dons, como cantar ou escrever uma telenovela, as coisas mudam de figura e requer um novo estudo sobre a personalidade, o dom e principalmente o talento.

Existe uma variedade de ator e atriz que viram cantores e vice versa. Para enumerar, temos Miguel Falabella, que é um excelente ator, dançarino, mas perde credibilidade ao escrever uma telenovela, aonde se perde totalmente do meio da trama para o final. Assim acontece com Daniel Boaventura, que tem um dom excepcional para a teledramaturgia, mas se perde totalmente no disco que lançou recentemente. O último desta seita satânica foi o humorista Rafael Côrtes, que é um excelente repórter, mas se perde na sua musicalidade e seu disco, também lançado recentemente, é um show de horror de bestialidades infames.

Disco de 2007: horripilante, mas ele insiste
Outras personalidades importantes da TV brasileira já se arriscaram a trocar de papel e arriscar sua voz (ou seria riscar a voz?) e garimpar pelo mercado fonográfico sem o maior êxito. Marília Gabriela e Hebe Camargo já lançaram discos tão cabisbaixos (embora Marília cante muito bem e atua estupendamente), tão insonsos, que fica a pergunta no ar: vale a pena arriscar uma carreira bem sucedida? Roberto Justus que o diga: grande empresário e apresentador, ele diz que gravou o disco por hobby, o que não deixa de ser uma verdade, tendo em vista que muitas lojas do segmento não vendem seus discos. Susana Vieira, a maravilhosa atriz, se envolveu recentemente numa batalha feroz com todos, desde mídia até público, para se defender de seu disco de estreia que, de tão ruim, virou artigo de piada pública.

Por enquanto, Roberto Justus, Susana Vieira, Marília Gabriela e Hebe Camargo lançaram discos para deleite próprios, talvez não pensando em lançar discos futuros, voltando toda as suas atenções para seus respectivos trabalhos, mas isso talvez não podemos esperar de Daniel Boaventura e Rafael Côrtes, tendo em vista que eles até cantam bem, mas lamentavelmente, seu estilos e vozes não agradam a ninguém.

Parafraseando e contrariando a todos estes artistas citados acima, talvez a única atriz que consiga desmistificar esse processo seja Thalma de Freitas: além de excelente atriz, ela também é cantora e o Mais Cultura! já se deleitou com seu belíssimo disco de estreia e, mesmo contendo apenas seis faixas, o disco é uma obra-prima consagrada, porém Thalma hoje em dia tenha dado preferências para vocalização em discos primordiais das cantoras Tiê, Mariana Aydar, Céu e Andrea Dias.

Persistir no erro talvez seja uma emenda que muitos não conseguem entender e por este motivo, Mauricio Mattar, grande ator do passado, mas esquecido pela própria emissora, é o campeão de futilidades. Gravou discos que não ganham prêmios algum, não tem relevância no mercado fonográfico e ninguém fica sabendo o que ele grava, mesmo um ou outro programa dar vazão ao seu novo trabalho.

Ouvi, através de sites, as músicas de Mauricio Mattar e pude constatar: além de ser um festival de horror, aquilo que ele canta são musiquinhas aquém de um grande ator. Ele poderia investir em qualquer outra carreira, menos a de cantor, que é um oficio para grandes interpretes da música popular. Mauricio Mattar não acrescenta em mais nada na cultura brasileira e suas músicas são horríveis, chatas, deprimentes e sua voz não agrada, não estimula e nem embevece nossa autoestima.

Ouvir Mauricio Mattar, literalmente, é de matar.



Marcelo Teixeira

terça-feira, 24 de abril de 2012

Efêmera, de Tulipa Ruiz: espetacular




A cantora Tulipa Ruiz
Tulipa é um gênero de plantas angiospermas (plantas com flores) da família das liláceas. Com cerca de cem espécies, as tulipas têm folhas que podem ser oblongas, ovais ou lanceoladas (em forma de lança). Do centro da folhagem surge uma haste ereta, com flor solitária formada por seis pétalas. Cores e formas são bem variadas. Existem muitas variedades cultivadas e milhares de híbridos em diversas cores, tons matizados, pontas picotadas, etc.

Efêmeras são aquelas transitórias, passageiras ou que duram pouco tempo. O antônimo de efêmera é duradouro, prolongado e distante e essa palavra, efêmera, também está relacionado com tempo delicado, feminino, afeminar.

Tulipa Ruiz é uma cantora e, diga-se de passagem, excelente compositora, uma das melhores que o Brasil já conheceu. Filha de Graziella Ruiz, escritora, Tulipa apareceu tardiamente no cenário musical, mas veio muito bem acompanhada por familiares e amigos muito próximos, cujo já estão na estrada há um tempo e com sucessos garantidos, caso de Tiê, Céu, Thalma de Freitas, Mariana Aydar e Anélis Assumpção, filha do maravilhoso compositor e cantor Itamar Assumpção, morto em 2003. Vale ressaltar que o pai de Anélis, Itamar, é responsável pelos maiores sucessos de Ná Ozzetti, Zélia Duncan e Virgínia Rosa. Seu pai, Luiz Chagas, é o responsável pela faixa mais longa do disco, porém, a mais bonita e dançante  e que nos leva a um som meio roqueiro, meio abusivo e muito estiloso, que recebeu o título de Às Vezes. Ao ouvirmos esta música, uma sensação de que a Jovem Guarda está presente é notório. Chagas também ganha vivacidade, além das composições, da sua potente guitarra, que dá uma sonoridade extra em algumas boas faixas.

Efêmera: singelo e maravilhoso
Efêmera (2010 / YB / 22,90) veio para comprovar a essência de Tulipa Ruiz, que anda fazendo um certo barulho com sua musicalidade simples e rica ao mesmo tempo, com um sabor de quero mais, um sentido maior de encantamento profundo e mistérios por parte desta cantora simplesmente maravilhosa. O disco é recheado por músicas belas, redondamente bem compostas, tendo um começo, meio e fim e por uma suavidade, um refinamento e uma pronúncia muito bem elaboradas por Tulipa. O disco não poderia receber outro nome senão Efêmera, que de passageiro não tem absolutamente nada.

Efêmera, que abre o disco, é a prova disso: deliciosamente harmoniosa, o timbre de Tulipa penetra em nossos poros, dando a dimensão de sua mensagem e deixando evidente que nada realmente é temporário. Pontual, que segue na segunda faixa, prontamente é uma crítica moralmente reconhecível, mas de uma forma contextuada, uma comédia romântica que trata da falta de pontualidade das pessoas até para ir ao cinema e perder a sessão das dez! Pedrinho é a mais divertida e sensual, desses tipos de Pedros que encontramos ao nosso lado sempre, que é amigo, companheiro, cúmplice e que pode ser nosso amante também.

Já na faixa Aqui tem uma particularidade: ao final da canção, tem uma citação a uma música de Caetano Veloso cantada no CD Livro (1997), chamada How Beautiful Could A Being Be, cujo não consta nos créditos. Só sei Dançar Com Você foi gravada primeiramente pela delicada Tiê no seu segundo disco de carreira, A Coruja e o Coração (2011), e a canção tem a participação vocal de Zé Pi. Exceto pela música Às Vezes, composta por Luiz Chagas, todas as outras faixas foram compostas por Tulipa Ruiz sozinha ou na companhia de Gustavo Ruiz, seu irmão. Tendo a tiracolo participações especiais, como Duani, marido de Mariana Aydar, Kassin, Tatá Aeroplano e Iara Rennó, o disco só poderia sair do forno com uma qualidade refinada, com um gosto de quero mais e com a nítida certeza de que Tulipa veio para ficar.

O disco de Tulipa é uma graciosidade: além de várias tulipas desenhadas por várias cantoras e amigas, como Ná Ozzetti, Tiê e pela própria Tulipa, ela foi considerada uma das 50 melhores cantoras da década e seu CD é classificado como Pop Florestal, um gênero criado como brincadeira pela cantora. Músicas de altíssima qualidade, com determinação e garra, com sentimentalismo aflorado à flor da pele e com muito chão pela frente de poder mostrar todo o seu carisma e seu talento, esperemos que Efêmera não seja temporário e que venha outros discos igualmente a este ou melhores que este.



 
Faixas

·       1 - Efêmera (Gustavo Ruiz / Tulipa Ruiz)

·       2 – Pontual (Tulipa Ruiz)

·       3 – Do Amor (Gustavo Ruiz / Tulipa Ruiz)

·       4 – Pedrinho (Tulipa Ruiz)

·       5 – A Ordem Das Árvores (Tulipa Ruiz)

·       6 – Sushi (Luiz Chagas / Tulipa Ruiz)

·       7 – Brocal Dourado (Gustavo Ruiz / Tulipa Ruiz)

·       8 – Aqui (Tulipa Ruiz)

·       9 – Às Vezes (Luiz Chagas)

·       10 – Da Menina (Tulipa Ruiz)

·       11 – Só Sei Dançar Com Você (Tulipa Ruiz)

ü  Part. Especial de Zé Pi



Nota 10

Efêmera / Tulipa Ruiz



Marcelo Teixeira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ana Cañas - uma grata surpresa na MPB

Quando Ana Cañas surgiu com o maravilhoso disco Amor e Caos (2008, Sony / BMG, 24,99) eu pensei: a música popular brasileira está realmente salva das agruras de pagodeiros e sertanistas. Ana encantou logo de cara, foi muito elogiada por seu crivo musical, muito pautada como jazzista e muito bem vinda na nova música popular. Timbre perfeito, repertorio invejável e um disco a sua altura, Ana provou que para se fazer um belo disco, não era necessário servir ao sistema como um cristão serve o seu dízimo.
Disco simples, músicas calibradas e bem arranjadas, Amor e Caos não demorou muito para entrar na minha lista de discos considerados excelentes. A começar pela música que abre o CD, Mandinga Não e pela sofisticação de seu retrato autobiográfico em A Ana, uma música cheia de auto definições e paradigmas de uma Ana temperamental, mas alegre. Homenagem à Clarice Lispector e Marisa Monte na canção Para Todas as Coisas, que mais se parece com a música Diariamente, que Marisa Monte gravou no disco Mais (1997) e uma bela homenagem a Caetano Veloso na faixa Coração Vagabundo, uma linda interpretação para uma música antiga e batida do cancioneiro do cantor. O tom jazzístico vem nas faixas Devolve, Moço e Super Mulher, que de tão harmoniosas, o disco já valeria a pena se estivesse só estas duas canções.
Amor e Caos, o primeiro disco
Logo em seguida veio Hein?, (2009, Sony Music, 19,99) um disco mais pop, mais moderninho e mais voltado à música eletrônica, que perde sua naturalidade com relação ao primeiro disco e a pergunta que ficou no ar foi: o que deu em Ana Cañas para fazer esse disco? O álbum não é ruim, pelo contrário, mas é o inverso do primeiro, que tinha um apelo menos popular, mais MPB, embora jazzístico e mais moderno que o primeiro. Para tanto, invés de Naná Vasconcelos do primeiro disco, veio Arnaldo Antunes no segundo e o resultado foi puro pop moderninho. Arnaldo Antunes não é de todo ruim, não é um artista maldito e muito menos um compositor qualquer. Ao sair dos Titãs, vestiu a própria roupa e se mostrou fiel àquilo que sempre quis demonstrar ao público, deixando claro que seu estilo era atemporal a banda. Ele coloca brilho e luminosidade por onde passa e algumas canções ficaram boas na voz suave de Ana. Porém, o pop popular de uma forma generalizada, não é o perfil de Ana. O jazz sim.
Músicas como Na Multidão, Sempre Com Você e Gira são tão popularescas e estranhas que me pergunto qual cantora poderia regravá-las. Em contrapartida, canções como Na Medida do Impossível, Problema Tudo Bem e A Menina e o Cachorro dão uma sonoridade perfeita e nítida a ouvidos solenes de boa música.
Ambos os discos são bons. Ana apostou na voz, nos timbres, na sua competência e nos brindou com um disco tão arrebatador, tão conquistador, tão maravilhoso, que fica impossível voltarmos ao primeiro como pensamento de inicio de tudo. Hein? é um delicioso disco e Ana Cañas se firma definitivamente como uma cantora de verdade.
Hein?, segundo disco
Mas ouvir Ana Cañas não é simplório. Ela não é tida como uma pessoa simpática, mas isso é o de menos para sua musicalidade. Recentemente fez um show em homenagem ao aniversário de São Paulo e cantou ao lado de Tiê e Mariana Aydar, para deleite do grande público. Ana Cañas é, acima de tudo, uma musicista capaz de nos envolver em seus mistérios. Ela canta com emoção, determinação e ouvir Ana Cañas é uma das oitavas maravilhas do mundo, porque seu timbre de voz é tão marcante, tão vibrante, que fica difícil nos desfazermos dele.
O equilíbrio de sua naturalidade é tão cativante que nos faz perceber o quão necessária se faz sua presença. Ana Cañas é música. Ana Cañas é qualidade.

Amor e Caos
*******Sete Estrelas
Hein?
********Oito Estrelas
Marcelo Teixeira.