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domingo, 7 de janeiro de 2018

Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala (2017)

Vilela e um disco morto
Considerada por dez entre dez pessoas como sendo a cantora do ano de 2017 e por três entre dez pelos críticos de música como uma cantora nonsense no cenário popular brasileiro, a cantora e compositora Ana Vilela surgiu do mundo da mídia esporádica (aquela que te levanta a moral, mas logo te trás para o planeta Terra) e foi alçada ao mundo do showbizz da mesma forma como uma Elis Regina ou Gal Costa surgiram na década de 1960 com seus estilos competentes e dotes artísticos. Mas há uma diferença gritante e relevante nessa minha comparação pífia: Elis e Gal batalharam para serem reconhecidas como cantoras profissionais e utilizaram a voz para mostrar algum talento (coisa que até hoje, no século 21, ambas conseguem ter), enquanto que Ana precisou das mídias para se autopromover. Há algo de errado nisso? Obviamente que não, mas se levarmos em conta que Elis e Gal não eram compositoras e que ralaram muito para provar algum talento, disso ninguém pode duvidar. O mundo de hoje é formado por bestas digitais (Umberto Eco poderia nos explicar isso melhor) e com tantas coisas correndo contra o relógio, eis que as gravadoras não estão mais se importando com aquilo que é vindo da internet. Algumas poucas cantoras surgiram dali e dali estão voltando para o esquecimento, enquanto outras, verdadeiramente genuínos no seu perfil de cantoras e cantores, batalharam por uma gravadora que lhes dessem suporte artísticos para poder mostrar um pouco de suas músicas e qualidades. Ainda que algumas cantoras surgissem de gravadoras, como os casos de Ana Carolina, Maria Gadú ou Maria Rita, as mesmas se encontram sumidas da grande mídia, sem discos lançados ou, quando lançados, quase ninguém presta atenção. Ana Vilela está nesse nicho chamado famosidades instantâneas, que logo voltará de onde saiu: a internet. Se sua música Trem-Bala foi uma apoteose no ano passado, com participação até de Luan Santana, seu disco passou desapercebido pelo grande público, mesmo com a famosa música O Leãozinho, composta por Caetano Veloso para o disco Bicho (1977). Muitos sequer sabiam que ela tinha lançado um álbum com treze faixas. Outros nem sabiam que Ana Vilela era a detentora da canção Trem-Bala. O disco nasceu morto, ficou morto e morreu sem enterrar, porque assim é a mídia do caos, como diz na canção do cantor mineiro Luiz Marques (2009) e que acaba sendo um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado internet, mídia digital e afins. A música de Luiz Marques se iguala com a música Senhas, de Adriana Calcanhotto (1992) em que diz eu não gosto do bom gosto. Ana fez muitas pessoas chorarem pelos cantos do país, mas e o resto do disco, por que ninguém comenta suas outras canções? Por que a mesma mídia que a elencou não mostra as outras faixas? A resposta é simples: não há o que escutar. Trem-Bala (2017 / 22,99) já é o suficiente para que Ana Vilela nos sufoque com suas músicas de uma única estação. Mas há uma boa notícia nisso tudo: Ana Vilela fala de amor e de igualdade em suas músicas e mesmo que Trem-Bala seja uma falácia contra o moralismo radicalizado nas pessoas, a canção passa um ar de mentira, de ilusão, de sonhos inexistentes ao mundo atual e, com isso, retornemos à Mídia do Caos de Luiz Marques e as Senhas, de Adriana Calcanhotto, que são mais verdadeiras que a música blasé de Ana Vilela.


Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Kell Smith: a cantora que nasceu errada

Kell: sucessão de erros 
Kell Smith surgiu como um desses meteoros que vem sendo preparado aos poucos e sem grandes pretensões e que quando caem no solo, eclodem com um barulho ensurdecedor.  A cantora e compositora não saiu de um desses programinhas que ficam à procura de novos (e chatos) talentos, nem foi reconhecida por um grande empresário, mas apareceu na arma mais poderosa dos últimos anos: a internet. Graças às redes sociais que sua música chegou ao topo mais elevado para uma posição considerável na mídia: o ouvinte. Mesmo sendo uma dessas cantoras surgidas aqui e ali, Kell precisa aprender uma coisa: ela não é a única e pode ser que esteja de passagem. Sua música está entre as mais tocadas nos últimos tempos e já foi gravada até por Chitãozinho e Xororó e hoje está entre as queridinhas da maior rede televisiva do Brasil. Mas se ela continuar com o pensamento de que essa sua única canção vai lhe dar todos os atributos benéficos que as redes sociais lhe deram, essas mesmas redes sociais podem lhe tirar o troféu que já fora de Maria Gadú e Ana Vilela. Maria Gadú foi descoberta por um grande diretor dessa mesma emissora, lançou os dois primeiros discos memoráveis e só. Já Ana Vilela apareceu na mesma onda de Kell: compôs uma canção manjadamente popular e apelativa e se lançou na internet. As redes sociais, grande amiga dos artistas anônimos, favoreceu com que Ana fosse uma celebridade momentânea e com apenas uma única canção, diferentemente de Gadú, que lançou outros discos, mas sem grande visibilidade da imprensa. Kell Smith está indo pelo mesmo caminho de Gadú e Vilela, mas com um tempero salgado a mais: ela tem a mesma entonação de voz de Gadú e compõe com o mesmo apelo sensacionalista e popularesco que Vilela. Isso se torna uma grande chatice e não há nada de novidade, sendo assim, a não ser que apareceu mais uma cantora nonsense e blasé para mostrar seu trabalho. Se Ana Vilela ficou meses e meses a fio com uma música que fala de sentimentos e barreiras amorosas e ganhou todas as notoriedades possíveis e imagináveis e Gadú enveredou-se inicialmente pelo mesmo caminho, mas resolveu ir para o lado esquerdo do tempo e, com isso, ganhou menos espaço, Kell Smith é a junção entre as duas outras cantoras, mas não menos talentosa. Eis aqui uma grande preocupação, pois Kell Smith quer mostrar suas canções como se essas fossem relatos de um sentimento mal resolvido. E isso causa um grande alvoroço (Ana Vilela talvez explique!). Gosto da Maria Gadú – embora eu tenha ciclos sentimentais para tal – mas não ouso gostar de Ana Vilela (e não sei explicar bem isso, talvez eu precise ouvir umas novas canções) e tenho quase que noventa cento de certeza de que não gosto e não vou gostar de Kell Smith. A começar, a cantora poderia vir com um nome e um sobrenome mais abrasileirado e, segundo, não vejo verdades em suas letras e muito menos em suas interpretações coreografadas entre mãos, boca, semblante e olhos fechados. Mesmo com uma música com apelo popular emblemática, Kell pode vir a se tornar uma Maria Gadú com semelhanças visíveis à Ana Vilela. O tropeço pode ser grande caso a cantora resolva ficar com essas semelhanças entre a divisão de atenções vocais e sentimentais entre uma cantora e outra. Mas o que se sabe de verdade é que Kell Smith está no meio entre uma cantora de verdade e uma aspirante à tal.



Kell Smith: a cantora que nasceu errada
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Guelã de Maria Gadú


Guelã: Audacioso e atemporal
Maria Gadú e aquele tipo de cantora que você ouve agora, mas descarta já em seguida. Ela não é única nesse segmento expressivo de música de momento, mas para não fugir do foco, ficarei apenas em Maria Gadú. Tudo soa como estranho em Guelã (2015 / 25,99 / Slap), mais recente trabalho da cantora, que aposta no sincronismo da música de qualidade e intelectualizada (isso aconteceu com Lenine em seu recente disco Carbono) e ao mesmo tempo aposta na sonoridade diferenciada daquilo que tanto Maria Gadú já fizera como com o som que rola ultimamente por ai. Diferentemente de seus trabalhos anteriores, Maria Gadú tenta se expressar através da música como sendo uma detentora daquilo que acredita ser seu mantra: a música que adentra em nossos poros e fixa-se em nossas mentes. Se em Maria Gadú (2009) havia um lado muito biográfico da cantora e Mais uma Palavra (2011) estivesse mais próximo da virada musical da cantora e apostando já na qualidade de seu som, Guelã é adverso a tudo aquilo que Gadú já fizera, desde composições e harmonias. Não é, definitivamente, o melhor CD da cantora e esse está longe de ser uma obra-prima, mas é um grande avanço de Gadú dentro da MPB, com uma sonoridade exclusiva de uma cantora que experimenta sons hibridamente conscientes e nada simplórios. Mas nem todas as faixas são boas: Guelã precisa ser ouvido várias vezes para se chegar a um determinado comum de aprovação ou satisfação completa e ainda assim sentimos que falta algo para ser de fato um grande disco. Maria Gadú não tem uma grande voz, não tem uma presença de palco marcante e até arrisco a dizer que ela não encanta quando canta, pois está mais interessada em interpretar o não entendido do que se banhar das canções, mas não posso negar que sua participação dentro da música popular brasileira ainda é uma qualificação imprescindível. Guelã não será um disco que muitos vão parar para ouvir, comentar ou dar de presente. Será um disco passageiro, remoto, quieto, calmo, denso e atemporal na carreira de Maria Gadú. Nem todas as faixas são importantes para a complementação deste álbum: Trovoa é uma música arrastada, inquieta e que cansa demais, mas se você a ouvir outras vezes com calma, talvez tente entender a mensagem da cantora (o que para mim transpassa um lado biográfico que o compositor Mauricio Pereira talvez a tenha imaginado para ela). Destaques mesmo são as músicas Obloco e Tecnopapiro, magnífica e ambas de sua autoria, que transmitem uma atmosfera de puro êxtase vindo de sua alma lírica. Com uma facilidade incrível em inventar palavras (talvez tenha aprendido com Caetano Veloso, seu ídolo maior), Gadú colocou tudo o que queria nesse disco, fazendo com que o público se distancie de seu trabalho para se aventurar em outras searas. A começar pelo dificílimo título do álbum, Guelã, que já faz com que o trabalho seja diferente, ousado, mas ao mesmo tempo incompreensível, difuso, estranho. E em todas as faixas pode-se encontrar sons ou visões ou retratos imaginados dentro daquilo que soa como estranheza para nossos ouvidos. Retifico: o ouvinte mais atento pode se deliciar com Guelã, mas aquele que não tem paciência ou não tem parcimônia ou até mesmo não se identificar com as novidades aqui encontradas, pode simplesmente evocar seu santo e desaparecer para o sempre. Maria Gadú bebe do próprio veneno ao lançar no mercado um disco tão complexo e audacioso, tão voraz e acalentador, tão atroz e contemporâneo. A música nos dias de hoje requer um distanciamento entre o tudo e o nada, ou seja, entre o presente e o futuro e o que se busca aqui é a perfeição da imperfeição. Se você ouvir detalhadamente Guelã como quem estivesse conversando com o seu eu interior, poderá saber que Guelã é um disco delicioso, difícil, sentimental, puro e com uma energia positiva de Gadú para tentar explicar algo que existe dentro dela mesma.

Guelã (2015) / Maria Gadu
Nota 9
Marcelo Teixeira

sábado, 18 de julho de 2015

Vamos comer Caetano?


Caetano: seu talento é muito maior que a foto nú
Em seu livro Verdade Tropical (1997 / Companhia das Letras), Caetano Veloso disse em uma das passagens que já era famoso o suficiente para ser reconhecido nas ruas, apontado e comentado nas mesas de bar por conta de seu comportamento e de sua música. Isso fora nos idos anos de 1960. Passados mais de cinquenta anos, o mesmo Caetano Veloso continua sendo reconhecido, apontado, comentado e agora criticado por quase tudo o que faz ou pensa em fazer. Foi assim que muita gente se assustou quando lançou o (excelente) Zie e Zii (2009), em que disse escancaradamente na música Indiferente, que não acreditava em Deus e muita gente ficou indignada com tal revelação; quando o mesmo Caetano gravou um CD com Maria Gadú, em que ambos trocavam experiências no palco, cantando um o repertório do outro e que para muita gente a junção da dupla não soou muito bem; quando Caetano cantou A bossa nova é foda foi um arroubo de insatisfação entre as pessoas (mas essa mesma palavra, foda, fora a responsável por alavancar as vendas e a popularidade do cantor com o excelente e indispensável Abraçaço, lançado em 2013); ou quando Caetano resolve postar suas fotos nas redes sociais. Tudo o que o cantor e compositor baiano faz vira motivo de indignação por parte das pessoas iletradas deste país chamado Brasil. Primeiramente, quem o critica não o conhece. Segundo que quem não conhece a obra de Caetano não merece criticar a postura do cantor. Terceiro que Caetano pode tudo, até postar uma foto de cueca e meia preta ao lado de Carla Perez e de seu marido Xande. Nada contra a rainha do Tchan, até mesmo porque depois que Carla Perez deixou o grupo que a revelou e passou a usar mais a cabeça, passei a ter mais respeito por ela, mas Caetano Veloso está no momento em que ele pode tudo no alto de seus 72 anos. Além de ser um dos cantores do primeiro time da MPB, o cantor pode falar palavrão no meio de uma música (isso ele fizera muitas vezes), pode cantar com quem quiser e pode postar a foto que quiser. Gal Costa já cantara com os seios à mostra e teve uma capa de disco censurada, Maria Bethânia teve parte dos seios expostos em capa de disco, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Milton Nascimento já posaram a deriva de suas cuecas. Por que Caetano não pode posar com a sua cueca? Acho ridículo a postura de alguns apresentadores, jornalistas e críticos de música que foram para seus postos de trabalho denegrir a imagem do cantor apenas por causa de uma foto! A música de Caetano e sua inteligência estão muito acima de qualquer tipo de foto que venha a ser publicada. Não há nada de anormal com a foto, senão o ato de encontrar os amigos num momento de descontração. Caetano é preciso ser degustado, visto, admirado, ouvido, afinal, ele é um produto brasileiro. E como bem disse Adriana Calcanhotto no CD Marítimo (1998), vamos comer Caetano, vamos degusta-lo.

 


Vamos comer Caetano?
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A decepção de Maria Gadú em Nós


O disco: sem novidades
Mais uma vez, Maria Gadú nos engana com seu disquinho mesquinho e sem grandes pretensões. Lançando Nós (2013 / Slap / 24,99), o CD é uma compilação de músicas gravadas em duetos com outros cantores em discos de terceiros e com qualidades superficiais (como anda ocorrendo vez por outra na carreira da jovem cantora). Maria Gadú foi lançada ao mercado fonográfico em 2009, trazendo um ótimo (mas cansativo) disco de estreia, cujo trazia releituras de Chico Buarque (mais tarde ela se renderia ao baiano Caetano Veloso) e uma canção capenga de Kelly Key. O disco de estreia era sensacional e hoje é apenas mais um disquinho qualquer guardado no fundo do baú e que só nos lembramos quando vamos limpar o ambiente. Mesmo assim, ouvir Maria Gadú está sendo uma das tarefas mais ordinárias no momento. Primeiro porque ela lança discos sensacionais, mas que cansam devido a sua voz ser estardalhada demais, cansativa demais, oriunda demais.  Segundo porque Maria Gadú se infiltrou no caminho de Ana Carolina, cantora mineira que arregaça qualquer tímpano sincero de boa musicalidade e terceiro porque Maria Gadú se sentiu estrela antes de ser estrela e com isso a sua estrela se apagou.

Não posso ser tão ignorante ao ponto de dizer que Maria Gadú é uma cantora em ascenção quando lança qualquer disco. O de estreia, como eu disse, é uma maravilhada quando ouvida duas ou três vezes no máximo. Em seguida vem o Multishow Ao Vivo, cujo reúne sucessos originários que não é preciso ser dito, para logo depois surgir o encontro de Maria Gadú com Caetano Veloso, a qual eu chamo de o encontro entre o velho e o novo, na qual o velho ainda predomina o que é novo. Mais Uma Palavra é um disco que, segundo a minha opinião, é melhor que o primeiro. Sai Chico Buarque, entra mais uma vez Caetano Veloso e aparece um Lenine meio escondido ao lado de músicas espanholas e americanas. Gadú ainda está perdida no próprio caminho.

E Gadú é sempre assim: lança um disco de inéditos, depois emenda com um disco de sucessos. Para tanto, lança agora (previsto para o lançamento oficial a partir do dia 15 de agosto) o CD Nós, em que canta músicas gravadas em discos de outros cantores em formato de duetos. O disco não trás muitas novidades e passará despercebido, mesmo sendo anunciado pela grande mídia como o lançamento do ano.

Maria Gadú precisa aprender a ser Maria Gadú e ainda precisa crescer, pois sua fase de garota infanto juvenil que sabe tocar violão,  sabe cantar em francês e que não é igual à Manu Gavassi está longe de ser apagada. Ainda é rodeada por verdadeiros profissionais que não sabem aproveitar o talento da cantora, que insiste em se mostrar culta perante os fãs cantando Caetano e Chico numa forma horrenda. Para que isso aconteça de verdade, Maria Gadú precisa fazer um disco de verdade, a altura de sua estatura!

 

Nós / Maria Gadú

Nota 3

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O mediano (e cansativo) disco de estreia de Maria Gadú


O CD: cansativo às vezes
A estreia da paulista radicada no Rio de Janeiro Maria Gadú não poderia ser mais luxuosa. Era preciso conhecermos uma grande cantora, que estivesse antenada com o seu tempo, mas também relembrando sucessos antigos. Maria Gadú foi uma promessa que deu certo no primeiro disco, pois sua cultura musical era imensa e repleta de suspense, pois até então, ninguém sabia seus gostos prediletos. Com o tempo, descobriu-se que Caetano Veloso era seu cantor preferido, Ana Carolina se tornou a melhor amiga e Maria Gadú continuou trilhando seu universo musical brilhantemente. Seu primeiro CD, autointitulado e lançado pela Som Livre em 2009, tem apresentação belíssima, com direito a capa dura, encarte colorido com letras, informações e inúmeras fotos.

A embalagem é diferenciada, em formato digipack que sai do padrão, digno das grandes estrelas. Além disso, amúsica, Shimbalaiê, estava em trilha de novela global e, curiosamente, praticamente todas as faixas tocavam nas rádios de todo o Brasil, inclusive o grande sucesso francês Ne Me Quitte Pas, imortalizada na voz de Edith Piaf, já cantada por Cássia Eller e Maysa.

Gadú, cujo nome de batismo é Mayra, tem um bonito timbre vocal, sem sombra de dúvidas. Existe uma semelhança com o som de Marisa Monte, sim, e isso se ressalta devido à sonoridade que a moça segue, que tem muito a ver com o estilo MPB pop da autora da estrela carioca. O clima fica ainda mais próximo devido ao uso de músicos de estúdio de ótimo gabarito, mas que acabaram por ajudar o disco a soar meio pasteurizado, semelhante demais ao que se tem feito no que se rotulou de nova MPB, e que frequentemente cai em um clima redundante e soporífero demais.

Oito das treze faixas incluídas em Maria Gadú, o CD, são de autoria da própria, e ela se mostra ainda em busca de uma assinatura própria, com repetição de frases melódicas e letras que investem mais em forma do que em conteúdo. Nas releituras, mostra-se mais à vontade, mas pouco acrescenta a clássicos como Ne Me Quitte Pas (de Jacques Brel) e A História de Lilly Braun (de Chico Buarque e Edu Lobo) em relação a gravações de outros artistas. O pior momento é a faixa que encerra o disco. Gadú tenta dar a Baba, aquela mesma de Kelly Key, um clima acústico descolado, e só consegue evidenciar o quanto essa música é fraca.

Muita gente deve ter ouvido Shimbalaiê (e depois se cansar com ela) e achado se tratar de uma nova de Marisa Monte, devido a sonoridade. Teve pessoas que juravam que a letra era de Marisa, assim como achavam que Altar Particular, um samba cadenciado, era uma parceria de Paulinho da Viola com Tereza Cristina. Creio que Maria Gadú tem futuro, apesar de tudo, apenas dos pormenores. Maria Gadú canta mais ou menos, mas o disco de estreia é legalzinho, não chega a ser ótimo, mas pode ser que ela sofra da mesma síndrome de outra cantora talentosa, Ana Cañas: faz bons shows, mas não consegue trazer esse clima para seus discos de estúdio. Vejamos o que o futuro irá proporcionar a elas. Tomara que algo melhore.

Escudos é a melhor faixa, assim como a delicada Linda Rosa. Tudo Diferente se torna cansativa e arrastada demais, chega a ser tão irritante, que prefiro nem ouvi-la, mas isso deve-se ao tempo que a canção leva com repetidas frases e a mesmice de sua mensagem. Laranja, cantada em parceria com Leandro Léo, é uma canção engraçada e Lounge parece ser feita por Ana Carolina, tamanha a semelhança. Seja como for, Maria Gadú canta bem, com sua voz meio rouca, meio masculinizada e isso por vezes soa satisfatório.

Maria Gadú tenta, através do CD de estreia, demonstrar tudo: boa música, boa voz, boas letras, arranjos sensacionais, mas esqueceu-se de que a música carece de muito mais do que tudo isso: o público fiel. Angariou diversas pessoas ao seu leque, cantou de Chico Buarque a Caetano em seus shows, mas a sua maior plateia é o público GLS, que lotam seus espetáculos. Maria Gadú é um disco gostoso de ouvir, mas apenas algumas vezes. Logo o mais, você o guarda na estante e só o descobre quando passa por ali despercebido. Pensa se ouve, pensa mais um pouco, e escuta uma faixa, pula a outra. Maria Gadú é assim: ainda encontrando sua identidade. Mas para um disco de estreia, patrocinada por uma grande empresa televisiva, tendo amigos diretores de telenovela como ajudantes centrais, fica muito mais fácil fazer um disco com pitadas de qualquer coisa. Só acho que Maria Gadú poderia ser melhor. Como? Cantando as suas verdades. Apenas as verdades.

 

Maria Gadú - Maria Gadú

Nota 7

Marcelo Teixeira

terça-feira, 24 de julho de 2012

As excluídas da lista das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos


Maria Rita canta bem, mas perdeu-se muito
Ser a maior ou a melhor cantora dos últimos 10 anos no cenário musical brasileiro é de uma responsabilidade enorme, gigantesca e que exige uma disciplina espetacular. Muitas poderiam figurar o topo da lista, muitas inclusive das que estão na seleta lista, mas alguns critérios me fizeram crer que algumas cantoras boas ou medianas não poderiam jamais entrar para o rol das 20 melhores cantoras dos últimos 10 anos. Ou por falta de critérios ou por falta de simbolismos ou simplesmente por faltar alguma característica importante em suas carreiras, limitei-as de pôr em contraste com grandes nomes que me foram surgindo à mente e pondo numericamente na lista. Como eu havia dito no artigo que antecedia a primeira colocada, alguns critérios foram pensados e os prós e contras foram arremessados contra o ventilador na esperança de que futuramente este artigo pudesse ser escrito.

Recebi uma quantidade suficiente de e-mails e mensagens de leitores ávidos e antenados com o Mais Cultura! e que sugeriram cantoras maravilhosas, como foi o caso de Mariene de Castro, Fernanda Takai, Mônica Salmaso e até mesmo de Paula Lima. No caso da Mariene de Castro, que tem uma carreira brilhante, uma voz e um gingado que só ela tem, não poderia figurar na lista puramente porque ainda não é o seu momento, não é a sua hora, embora seus discos tragam a tona a Bahia de todos os santos, a naturalidade nordestina e a beleza negra, mas ainda faltam argumentos para que ela entre definitivamente para a minha lista pessoal, embora seus dois discos já tenham sido elaborados em artigos que destacaram a sua presença de palco e a sua originalidade.


Paula Fernandes: a pior
Fernanda Takai e Mônica Salmaso são cantoras já carimbadas e estão na estrada há anos, o que infelizmente não condiz com o teor que a proposta do blog sugeria. Paula Lima, que tem carisma, bons discos, boa voz, bom gingado, não poderia figurar na lista puramente porque a cantora se perdeu nas regravações que vem fazendo e na miscelânea de estilos que vem abordando. Definitivamente, as cantoras citadas não poderiam figurar na lista. Mas dentre os e-mails que recebi, muitos leitores e amigos sugeriram nomes de quatro cantoras que praticamente fiquei surpreso ao ler e ainda mais surpreso porque duas poderiam entrar (tanto que fiquei semanas penosamente pensando na possibilidade delas estarem entre as 7 melhores) e as outras duas nem passaram pela minha cabeça. Trata-se de Maria Rita, Maria Gadú, Luiza Possi e Paula Fernandes.

Vou começar pelas mais fáceis.

Luiza Possi: meio infantil, meio adolescente
Luiza Possi é um doce de cantora (sua participação no disco de Martin’lia) é fantástica, mas a sua carreira ainda não deslanchou, ou seja, suas músicas ainda não estão na medida certa, sua postura musical ainda não está ajustada, sua presença de palco ainda não é o suficiente para agradar e sua voz às vezes soa cansativa. Iniciou a carreira abraçada à mãe e teve todo o amparo do pai, mas seus discos beiram a infantilidade e a transformação da mulher, porém, uma ou outra música de seus discos vale a pena ouvir. O resto é resto. E ponto. Paula Fernandes é, pra mim, a pior cantora do cenário musical brasileiro de todos os tempos, tanto que aqui no Mais Cultura!, ela foi eleita a pior cantora do Brasil. Sua voz é fanhosa, ela canta mal, se veste mal, não tem emoção, não tem presença de palco e ainda por cima não abre a boca ao cantar. Definitivamente, Paula Fernandes não figuraria a lista nunca.

As duas cantoras que poderiam adentrar na lista são Maria Rita, que pensei seriamente em deixa-la na terceira colocação e Maria Gadú, que estaria na quarta. Maria Rita é uma excelente cantora, dessas que brota a emoção ao cantar, mas temos a Maria Rita antes o disco de estreia e a Maria Rita pós a música A Festa e Encontros e Despedidas. Antes, Maria Rita tinha mais potencial, mais estilo de cantora determinada, mais firmeza na voz e na postura. Hoje, Maria Rita se mostra frágil, cansada às vezes e literalmente a retirei da lista das 20 melhores cantoras depois de sua incursão pelo mundo musical da mãe, a grande Elis Regina.

Maria Rita ainda não se encontrou e vive de regravações que não lhe servem de nada. Todos os seus discos tem músicas de terceiros ou manjadíssimas e isso é tão irrelevante em se tratando de Maria Rita, que fica difícil, agora, imaginar um novo disco sem uma regravação qualquer. Ainda não aconteceu o grande disco da cantora e espero que um dia isso aconteça, embora seja remoto desse acontecimento vir à prova final. Maria Rita tem capacidade, tem potencial e tem o triunfo nas mãos de ser filha de uma das grandes cantoras deste País. Mas perde-se no quesito musical, engolfada por grandes estardalhaços fora de órbita.

Maria Gadú: ela precisa amadurecer
Maria Gadú nasceu como um meteoro, mas perdeu-se no fio condutor ao juntar-se a Ana Carolina, cantora que já perdeu a credibilidade há anos. A cantora tinha até um certo potencial, seu disco de estreia foi elogiadíssimo por muitos, inclusive eu mesmo fui um dos que estavam no coro, mas Maria Gadú ainda precisa amadurecer, podar raízes, sentir mais a emoção da verdadeira musicalidade que existe dentro dela, mas que ainda não percebeu e mesmo seus discos sendo de uma variante maravilhosa, seu estilo ainda é considerado pop. Um pop dançante, um pop adolescente, um pop caricato às vezes. Maria Gadú tenta, por vezes, passar a imagem de mulher madura, uma garota que nasceu pra cantar (e ela tem essa potencialidade), mas sua singularidade é atemporal para os dias de hoje. Porém, Gadú ainda é uma cantora genuinamente brasileira e espero que seus próximos discos tenham mais o sabor da verdadeira síntese que a música popular brasileira exige.

Por todos esses argumentos, espero ter sanado as expectativas de todos os leitores que exigiram Maria Rita, Maria Gadú, Luiza Possi e Paula Fernandes como as campeãs na lista das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos.



Marcelo Teixeira.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Luísa Maita: a grande revelação na MPB


Lero-Lero: voz e disco primorosos
Luísa Maita é a compositora favorita de Maria Gadú (que em seu último disco gravou Axé Acappella, em companhia de Dani Black) e das cantoras Virginia Rosa e Mariana Aydar. Pudera. Suas músicas são de uma originalidade única e falam de amores complicados, integrantes de comunidades que querem se amar e de amores que aparecem do nada, dando a dimensão de sua musicalidade. A inspiração de Luísa Maita alimenta-se da tradição musical brasileira na mesma intensidade com que frequenta a prateleria do pop americano. Para Luísa, não há diferença sensível entre João Gilberto e Michael Jackson, Nana Caymmi e Beyoncé, funk carioca e R&B como mostra Lero-Lero (2010 / Oi Música - Phonobase / 27,99), primeiro álbum da cantora e compositora paulistana. Como compositora Luísa Maita é uma cronista que não só observa, mas participa da cidade, caminha pelas avenidas e vielas do centro e da periferia à procura de estalos poéticos e melódicos.

Essa facilidade com o trato da canção foi identificada pela cantora Virgínia Rosa quando decidiu gravar dois sambas de Luísa – Madrugada e Amado Samba – e por Mariana Aydar que gravou Beleza (uma parceria com Rodrigo Campos), eleita uma das melhores músicas de 2009 pela revista Rolling Stone Brasil e recentemente gravou Solitude, com parceria de Kavita e Jwala.

A intérprete Luísa usa a sensualidade de forma sutil como forma de transmitir sensações, como instrumento de comunicação. Parece mesmo ter encontrado a medida certa para, em suas próprias palavras, atingir o máximo de expressão com o mínimo de afetação. Essa característica pode ser verificada (ainda que de maneira mais tímida) em algumas faixas do álbum de seu primeiro grupo, a Urbanda. A personalidade musical de Luísa ganha mais força nas participações que fez no disco São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe de Rodrigo Campos e Alborada do Brasil de Carlos Nuñez e também em sua interpretação para os vídeos da candidatura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016 dirigidos por Fernando Meirelles.

Mas em nenhum desses trabalhos Luísa Maita se revela como em Lero-Lero que sintetiza compositora e intérprete, une referências musicais e pessoais com preciosismo e despojamento. Síntese cujas medidas foram assimiladas por Paulo Lepetit, o alfaiate produtor do álbum, que lhe conferiu uma vibração contemporânea através dos beats e programações eletrônicas e por Rodrigo Campos (co-produtor ao lado de Luísa) e seu violão afro que dialoga no mesmo volume com a base rítmica das canções.

Luisa e Mariana Aydar: amigas
O álbum é pontuado por influências da música pop e eletrônica indissociáveis da base acústica profundamente enraizada no samba, na bossa nova e na música popular brasileira. As faixas apresentam uma galeria de ritmos tradicionais do Brasil: do samba ao maculelê, da bossa nova ao baião. No entanto, aparecem desconstruídos, muitas vezes reduzidos às células rítmicas básicas que se transformam com os timbres eletrônicos dos beats e com a instrumentação acústica.

Além de Paulo Lepetit e Rodrigo Campos, o disco conta com a participação dos músicos Kuki Storlarski e Sérgio Reze (bateria), Théo da Cuíca e Jorge Neguinho (cuíca), Siba (rabeca), Fabio Tagliaferri (viola) e Swami Jr (violão).

Com o filtro da sensibilidade, Luísa recorta pedaços da história musical brasileira, do cotidiano da cidade de São Paulo e de seu povo. Juntando as faixas, salta aos ouvidos uma unidade, uma massa sonora de delicadezas, sensualidade e autenticidade. Um exemplo da constante evolução e reinterpretação da música brasileira, a estreia de Luísa Maita exibe uma artista exposta à tradição e modernidade, enraizada à vida contemporânea, pronta para devolver tudo àquilo que absorveu de sua família, da cidade e das pessoas: a música.

Luísa é uma das representantes mais consistentes da tão saturada cena brasileira de novas cantoras/compositoras e sua presença em cena é inesquecível. Canta com personalidade impressionante e encontrou um caminho próprio na estrada superpovoada de cantoras.





Faixas



·       01. Lero-Lero (Luísa Maita)

·       2. Alento (Luísa Maita)

·       3. Aí vem ele… (Luísa Maita)

·       4. Desencabulada (Luis Felipe Gama e Rodrigo Campos)

·       5. Fulaninha (Luísa Maita)

·       7. Maria e Moleque (Rodrigo Campos)

·       8. Anunciou (Luísa Maita)

·       9. Um vento bom (Luísa Maita)

·       10. Alívio (Luísa Maita)

·       11. Amor e Paz (Luísa Maita)



Produzido por Paulo Lepetit (exceto faixa 11 produzida por Swami Jr.)

Co-produzido por Rodrigo Campos e Luísa Maita



Nota 10

Lero-Lero / Luísa Maita



Marcelo Teixeira

www.oimusica.com.br/luisamaita