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sábado, 9 de dezembro de 2017

Vânia Bastos lança o clipe Lamentos (2017)

Vânia: elogiada entre as elogiadas
A cantora Vânia Bastos lança videoclipe do elogiadíssimo disco Concerto para Pixinguinha, pela VEVO Brasil e inaugura seu canal oficial no Youtube, que aconteceu no dia 7 último. Baseado na parte mais elogiada de sua turnê, Concerto para Pixinguinha foi tão aclamado que no canal recém-inaugurado da cantora o clipe já é o mais visto de todos. A canção do clipe é Lamentos, música composta por Pixinguinha que, anos depois, ganhou letra de Vinicius de Moraes e faz parte do álbum de Vânia, lançado em 2016. Destaque de público e mídia especializada, figurando nas listas de melhores discos do ano. Lamentos chega ao vídeo com a direção do premiado cineasta Pedro Jorge – autor de Diamante, O Bailarina, que percorreu uma série de festivais nacionais e internacionais, ganhando evidência na grande imprensa. O álbum foi o vencedor do Prêmio Profissionais da Música 2017, além de estar na estrada desde 2013, rodando diferentes pontos do Brasil. Foram mais de 60 apresentações de sucesso absoluto.

Link do clipe que entrou no ar na quinta-feira, 07 de dezembro, pela VEVO Brasil:


Vânia Bastos / Lamentos
Por Petterson Mello e Marcelo Teixeira



sábado, 11 de novembro de 2017

O delicado álbum de Wanda Sá

Wanda: expoente da Bossa Nova
Uma das mais expoentes expressões da Bossa Nova, a cantora Wanda Sá é referência de musicalidade reconhecida mais no exterior do que no próprio país de origem e, para ela, o grande êxito do gênero foi o fenômeno que o estilo bossa novista trouxe de renovação na década de 1960 e que teve, de fato, um valor sistemático e assentido mais outros países do que no Brasil. Apaixonada pela música e pelos amigos que fez ao longo de sua carreira, a cantora norteou um novo trabalho, que passou praticamente despercebido do grande público e por parte dos jornalistas e críticos de música. Cá entre nós (R$27,99 / 2016) é um disco que nos remete ao ano de 1972, pois ele reverencia todo os momentos pelas quais a cantora vivenciou e dos amigos que angariou, como Roberto Menescal, Marcos Valle, Tom Jobim. Por falar em Tom, Wanda pincelou uma preciosidade do cancioneiro do maestro com o poeta Vinicius de Moraes e achou a deliciosa Cala, meu amor, música desconhecida de ambos os músicos. A ideia era reunir canções inéditas de parceiros como o amigo Roberto Menescal, João Donato, Carlinhos Lyra e Nelson Motta, mas além de conseguir juntar essa galera, Wanda trouxe para o celeiro convidados que até então não faziam parte de seu rol musical, como o cantor e compositor Ivan Lins, Chico Batera, Nelson Faria e Ricardo Silveira. Trata-se de um disco refinado, culto, bossa novista e cheio de saudade de um tempo que ficou apenas na lembrança.


Cá entre nós (2016) / Wanda Sá
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

domingo, 18 de junho de 2017

Maria Bethânia - 71 anos


Parabéns, Maria Bethânia
Marcada pela dramaticidade e pela paixão, Maria Bethânia nunca se ateve a rótulos, ritmos ou movimentos musicais e, como poucos, conquistou a liberdade de cantar o que gosta e ao seu jeito. Com sua voz, representa um Brasil ao mesmo tempo agreste e sofisticado, onde convivem em harmonia a toada nordestina e a canção urbana e romântica. Como bem definiu Vinícius de Moraes na década de 1970, Bethânia cantando é como uma árvore queimando.  Comparada a Roberto Carlos na arte de dar vida a canções românticas, a cantora funde em sua voz a aspereza do Nordeste, sua origem, à sensualidade e doçura com que embala amores. Menina magricela – igual ao irmão, Caetano Veloso, de Santo Amaro da Purificação, no interior baiano, Maria Bethânia imitava cantoras famosas como Dalva de Oliveira e Ângela Maria. Sonhava em ser bailarina, trapezista e sonhava, principalmente, com o palco. E assim foi. Considerada uma das nossas melhores intérpretes, Bethânia é a nossa estrela maior e como toda estrela, ela completa mais um ano de vida. Não é qualquer cantora que chega aos 71 anos de idade com uma carreira turbinada e sendo adorava e requisitada por muitos. O Mais Cultura Brasileira e seus leitores orgulhosamente parabeniza a Abelha Rainha por mais um ano de vida! Viva Bethânia!

Maria Bethânia – 71 anos
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chico Buarque e um clássico que não virou clássico e hoje encontra-se perdido


Chico 1967: obra-prima
Talvez o próprio Chico Buarque saiba que seu segundo disco de carreira, o antológico Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 (1967 / RGE / 26,99) não chega a ser considerado um disco de primeira grandeza em sua carreira. Primeiro que o disco praticamente passa desapercebido do grande público hoje em dia e esse trabalho de relembrá-lo fica apenas restrito aos amantes e apaixonados pela obra do cantor e compositor carioca, que produziu o Volume 2 no rastro do enorme sucesso de seu disco de estreia, em especial por causa da faixa A Banda, pois a maioria de suas canções – tanto do primeiro quanto do segundo disco – não frequentaram as paradas de sucesso. O povo queria saber apenas de A Banda e da menininha timida que cantara ao seu lado nos festivais da TV Record – a musa da bossa nova, Nara Leão. Mas há de deixarmos claro e evidente aqui que mesmo que Volume 2 não tenha tido êxito na época de seu lançamento, algumas faixas viraram febre nacional e são hits que figuram na lista de preferidas de seu público, como Noite dos Mascarados, Morena dos Olhos d’Água, Quem Te Viu, Quem Te Vê. O novo álbum é cingido pelo mesmo lirismo nostálgico de seu antecessor e das 12 faixas, 8 tratam diretamente do amor. A música Com Açúcar, Com Afeto é um marco importantíssimo na carreira de Chico e foi essa a primeira composição em que ele se colocou na posição de uma mulher ao compor, sendo um recurso poético que, com o tempo, se tornaria uma de suas mais admiráveis marcas registradas. Chico atravessou boa parte de 1967 como que arrastado pelo sucesso contagiante de A Banda. A canção valera-lhe um programa na TV Record, o Pra Ver a Banda Passar, em que Chico apresentava em dupla com Nara Leão. Foi a partir deste ano que Chico diversificou sua criatividade. Travou um duplo contato inaugural com o cinema, atuando e compondo a trilha sonora do filme Garota de Ipanema, escreveu Roda-Viva, sua primeira peça teatral dita adulta e no ano seguinte, 1968, esse mesmo elenco de Roda-Viva seria agredido covardemente pelo Comando de Caça aos Comunistas. Mas o ano de 1967 era de fato um divisor de águas na vida de Chico: além de ter um programa na TV de maior sucesso com a musa da bossa nova, ver seu disco ser revenciado pelas pessoas (tanto o primeiro quanto o segundo) e ser um autor de peças teatrais consagrado, o seu plano pessoal o casamento com a iniciante atriz Marieta Severo lhe renderia um ano na ponte área Rio-São Paulo. Tudo isso era um turbilhão para o filho do historiador e antropólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pois seu quarto filho de um total de sete, tinha apenas 22 anos quando viu seu mundo deslanchar.

O disco herda de seu antecessor, Chico 1, o mesmo lirismo nostálgico: suas 12 faixas enveredam por temas como os amores fugazes de Carnaval, dor de cotovelo e saudades, todos emoldurados em sambas, marchas e modinhas de melofia cativante e letras de elevada voltagem poética. O novo álbum, no entanto, passa à margem de certas questões que atormentavam o compositor naquele momento, porque quatro de suas canções haviam sido compostas nos dois anos anteriores e duas delas, Morena dos Olhos d’Água e Será que Cristina Volta?, chegaram a ser gravadas para seu primeiro LP, mas acabaram ficando de fora. O fato é que Chico, em 1967, brigava com muitas frentes para ter seus direitos preservados: lutava contra o governo autoritário, contra a sociedade de consumo americanizada, contra as indústrias culturais e, em especial, contra a imagem de bom moço que construía em torno de sua figura. Era essa a sua roda-viva. Até mesmo com o movimento tropicalista Chico se estranhou: ao ler o livro de Caetano Veloso, Verdade Tropical ( 1997 ), pude perceber o quanto Chico era um verdadeiro empecilho (palavras de Caetano Veloso) na vida dos tropicalistas. O tropicalismo, vertente baiana e iconoclasta da MPB de então, estava em alta em 1967. Alegria, Alegria, de Caetano, fora a quarta classificada no III Festival de MPB da Record, enquanto Domingo no Parque, de Gilberto Gil, ficou em segundo. Entre ambas, Chico e sua Roda-Viva. A campeã de fato foi Poneio, de Edu Lobo e Capinamm interpretada por Marília Medalha. Caetano e Gil, veladamente, haviam incorporado guitarras elétricas aos seus arranjos e aventuravam-se em novas experimentações poétias e de linguagem, coisa que Chico não aceitava. Para Caetano e Gil, Chico era um passadista. Para tanto, a ala mais militante da MPB cobrava de Chico um maior engajamento na luta contra a ditadura. Chico, por sua vez, odiava o rótulo de cantor de protesto.

Além de ter tudo ao mesmo tempo em sua vida e se ver ao lado de Nara Leão mas contrário à Caetano e Gil, ele viu que a MPB, na verdade, era apenas a face mais visível de um racha que começava a se desenhar entre os opositores à ditadura no Brasil. Não compensava ficar de birra em início de carreira e, portanto, tentou uma aproximação mais contundente dos tropicalistas baianos – que nessa altura já estavam próximos de Rita Lee e seus mutantes. Pesquisando por conta própria para elaborar e escrever este artigo, tive uma grata surpresa ao me deparar com um depoimento assombroso: até hoje muita gente acha que os atores de Roda-Viva foram espancados pelos gorilas do CCC por encenarem uma peça considerada subversiva. Não era nada disso ou daquilo: o espetáculo tinha muito pouco a ver com a política. A tal roda-viva tinha muito mais a ver com as engrenagens implacáveis do show bussiness que na época assustavam Chico e muitos achavam que a peça identificava-se com a ditadura.

Esquivando-se completamente de Chico e Gil, Chico voltaria sua atenção para Tom Jobim, Vinicius de Moraes e, curiosamente, Ronnie Von. Ronnie era de outro estilo musical que assolava o Brasil, a Jovem Guarda, mas a parceria entre os dois foi motivado pelo filme Garota de Ipanema. O fato é que Ronnie era um de estilo mais timido – e que conquistava muitos fãs – dentro da Jovem Guarda, mas o próprio Ronnie parecia que não se sentia muito a vontade dentro de seu próprio estilo. Em 1968 a Jovem Guarda se desfez – e dizem que a culpa fora dos Tropicalistas. Dito pelo não dito o fato é que Chico estava envolvido cada vez mais com sua música e sabia que ele e Caetano, díspares musicais, eram competidores hábeis.

Mesmo o disco de 1967 não sendo um grande sucesso de início e tendo tantos dissabores ao longo de sua caminhada naquele ano, as composições foram feitas com a primazia que Chico soube aplicar nas canções. Apesar de sua graça suave, Um Chorinho é até hoje uma canção pouco conhecida de sua obra por inteiro, assim como outras canções desse mesmo álbum entrariam para o rol de lugar secundário na discografia de Chico, como Lua Cheia, um samba cheio de desencanto composto em 1965 em parceria com Toquinho. As composições Ano Novo, com seus versos longos e curtíssima duração – pouco mais de 1 minuto – Logo Eu?, samba sobre um marido desprezado por sua mulher (cujo Mônica Salmaso o regravou em seu disco em homenagem a Chico em 2006) e Televisão, uma crítica aos novos hábitos consumistas da época, também foram recebidas com indiferença pelo público e até hoje praticamente não se falam ou as cantam. A bem humorada Será que Cristina Volta?, Fica e a terna Realejo conquistaram fãs silenciosos, mas nenhuma delas chegou a fazer grande sucesso.

A doce Morena dos Olhos d’Água e a melancólica Quem Te Viu, Quem Te Vê deixaram suas marcas, assim como a encantadora Noite dos Mascarados, cantada aqui com os Três Moraes, ainda é obrigatória em qualquer baile de carnaval que se preze.  Mas a obra-prima do disco, no entanto, é mesmo a quase mediunicamente feminina Com Açúcar, Com Afeto. A música, encomendada pela cantora Nara Leão, teve na contracapa do disco assinada pelo próprio autor que, por razões óbvias, ele não poderia cantá-la. Ou seja, ele não era uma mulher e a música tem um apelo feminino inacreditável. A voz límpida de Jane Morais suavizou bastante a interpretação. A canção fora composta em 1966 e naquele tempo era inconcebível um homem interpretar uma mulher. Mesmo sendo um Chico Buarque.

É bem provável que Chico Buarque de Hollanda Volume 2 jamais venha a figurar entre os álbuns fundamentais do compositor. De todo modo, é um disco importante em sua trajetória. Tecnicamente irreparável, poeticamente serena e inspiradora. Tudo em sua confeccão parece ter corrido sem transtornos. A única exceção fica por conta da capa, em que Chico, de pé, segura um violão, tendo ao fundo a paisagem deslumbrante da lagoa carioca Rodrigo de Freitas. Para obter essa imagem, o fotógrafo David Zingg, americano radicado no Brasil, deitou-se no asfalto da avenida que circunda a lagoa e, por pouco, não foi atropelado por um caminhão.

 

Fontes:

VELOSO, Caetano; Verdade Tropical, 1º ed, São Paulo, Cia de Bolso, 2008, 513 pgs.

HOMEM, Wagner; Chico Buarque – História de Canções, 1 ed, São Paulo, Leya Brasil, 2009, 428 pgs.

 

Chico Buarque de Hollanda – Vol. 2 (1967) / Chico Buarque
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de julho de 2015

Vamos comer Caetano?


Caetano: seu talento é muito maior que a foto nú
Em seu livro Verdade Tropical (1997 / Companhia das Letras), Caetano Veloso disse em uma das passagens que já era famoso o suficiente para ser reconhecido nas ruas, apontado e comentado nas mesas de bar por conta de seu comportamento e de sua música. Isso fora nos idos anos de 1960. Passados mais de cinquenta anos, o mesmo Caetano Veloso continua sendo reconhecido, apontado, comentado e agora criticado por quase tudo o que faz ou pensa em fazer. Foi assim que muita gente se assustou quando lançou o (excelente) Zie e Zii (2009), em que disse escancaradamente na música Indiferente, que não acreditava em Deus e muita gente ficou indignada com tal revelação; quando o mesmo Caetano gravou um CD com Maria Gadú, em que ambos trocavam experiências no palco, cantando um o repertório do outro e que para muita gente a junção da dupla não soou muito bem; quando Caetano cantou A bossa nova é foda foi um arroubo de insatisfação entre as pessoas (mas essa mesma palavra, foda, fora a responsável por alavancar as vendas e a popularidade do cantor com o excelente e indispensável Abraçaço, lançado em 2013); ou quando Caetano resolve postar suas fotos nas redes sociais. Tudo o que o cantor e compositor baiano faz vira motivo de indignação por parte das pessoas iletradas deste país chamado Brasil. Primeiramente, quem o critica não o conhece. Segundo que quem não conhece a obra de Caetano não merece criticar a postura do cantor. Terceiro que Caetano pode tudo, até postar uma foto de cueca e meia preta ao lado de Carla Perez e de seu marido Xande. Nada contra a rainha do Tchan, até mesmo porque depois que Carla Perez deixou o grupo que a revelou e passou a usar mais a cabeça, passei a ter mais respeito por ela, mas Caetano Veloso está no momento em que ele pode tudo no alto de seus 72 anos. Além de ser um dos cantores do primeiro time da MPB, o cantor pode falar palavrão no meio de uma música (isso ele fizera muitas vezes), pode cantar com quem quiser e pode postar a foto que quiser. Gal Costa já cantara com os seios à mostra e teve uma capa de disco censurada, Maria Bethânia teve parte dos seios expostos em capa de disco, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Milton Nascimento já posaram a deriva de suas cuecas. Por que Caetano não pode posar com a sua cueca? Acho ridículo a postura de alguns apresentadores, jornalistas e críticos de música que foram para seus postos de trabalho denegrir a imagem do cantor apenas por causa de uma foto! A música de Caetano e sua inteligência estão muito acima de qualquer tipo de foto que venha a ser publicada. Não há nada de anormal com a foto, senão o ato de encontrar os amigos num momento de descontração. Caetano é preciso ser degustado, visto, admirado, ouvido, afinal, ele é um produto brasileiro. E como bem disse Adriana Calcanhotto no CD Marítimo (1998), vamos comer Caetano, vamos degusta-lo.

 


Vamos comer Caetano?
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Brasil por Clara Nunes em Nação (1982)


A Nação de Clara Nunes
Um ano antes de sua morte, a vida de Clara Nunes estava completa: ela se tornara, definitivamente, uma das maiores cantoras do Brasil, era popular, bonita, simpática e tinha todos os amigos possíveis e imagináveis ao seu redor. Tirando o fato de não conseguir ser mãe, a cantora estava trilhando um dos caminhos mais bem-sucedidos na história da arte de cantar feminino, que todos se rendiam a ela. Antes dela, apenas Carmen Miranda conseguira tal efeito, em que conseguia trilhar por diversos meios, sempre antenada com o novo e surpreendendo a todos. Elis Regina tinha falecido no fatídico Janeiro de 1982, assim como Vinicius de Moraes e Paulo Sérgio tinham nos deixado em 1980, empobrecendo a música naquela época. Nessa mesma década, os anos 1980 se tornariam o ano do rock nacional, tendo como heróis Cazuza, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outros. Mas no início dos anos 1980 quem reinava absoluta era Clara Nunes, que vinha com discos cada vez mais sensacionais, melhores e mais autênticos. Prova disso foi o estrondoso sucesso Nação (1982 / Odeon / 19,99) derradeiro disco da cantora, que marcava o começo da parceria de João Bosco com Clara. Única música do cantor e compositor mineiro gravada por Clara, Nação representa aquilo que O Canto das Três Raças, Jogo de Angola e Guerreira queriam dizer em outros tempos: a luta do brasileiro pela sua terra, pela sua nação. Clara foi a única cantora brasileira que cantou verdadeiramente o Brasil em todas as suas formalidades e suas variedades. Depois dela, nenhuma outra conseguiu ocupar seu lugar de prestígio e respeito dentro deste segmento, porque ninguém vai ser igual à Clara. Nação marca o fim da carreira promissora de Clara e aqui neste disco podemos sentir a voz embargada em algumas canções: mesmo cantando alegremente, podemos notar que a voz de Clara está mais pesada, mais fechada, mas sem perder o brilhantismo de sua emoção. Sem perder suas origens, a cantora seguiu fielmente até o fim com sua religiosidade e sua fé inabalável. Cantou e encantou as pessoas conforme foi passando os anos. Sentiu emoções de público e crítica. Tornou-se a mulher mais vendável do Brasil. E a mais criticada pela igreja também. Suas músicas em Nação denotam que sua fé era muito maior que qualquer crítica ácida que vinha debaixo, da evangelização caricatural ou da igreja com seus padres sem mentalidades. João Bosco fora um dos grandes responsáveis pelo sucesso do disco, compondo uma das músicas mais emblemáticas retratando o povo brasileiro e o próprio Brasil. Quanto à Clara: nos deixou com a responsabilidade de mantermos vivos sua herança musical tentando resguardar o Brasil do Brazil.

 

Nação (1982) / Clara Nunes

Nota 10

Marcelo Teixeira

sábado, 14 de março de 2015

Chitãozinho e Xororó estragam obra de Tom Jobim


Homenagem e tédio sobre Tom Jobim
Se Tom Jobim estivesse vivo, na certa estaria triste e chateado em qualquer canto do Rio de Janeiro ou tentando dizer onde foi que eu errei? Mas Tom está morto e na certa ele está se revirando lá no céu com Vinicius de Moraes, numa conversa demasiadamente risonha, tentando mandar uma carta telepática para seus fãs, ressaltando para ficarmos calmos, pois esta fajuta homenagem que a dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó fizeram será passageira. E assim espero. O pai e tio de Sandy e Júnior fizeram questão de estragar a incrível obra de Tom Jobim, colocando por terra abaixo todo o prestígio e sabor de cada nota, cada respiração, cada sensação e cada sílaba cantada em verso. Se não bastasse, a dupla resolveu colocar no título o estranho nome de Tom do Sertão, sabendo todos que Tom Jobim nunca pisou em searas sertanejas. Sim, Chitãozinho e Xororó erraram ao homenagear um dos maiores compositores deste Brasil, erraram ao abordar músicas como Águas de Março e Eu Sei que vou Te Amar e erraram em escolher capas horrendas com teor caipira. Tom Jobim era muito mais que isso: era a essência de uma qualidade musical muito superior a de seu tempo, tendo a capacidade incrível de ser um dos pais da Bossa Nova, tendo a originalidade de lançar cantoras magistrais e fazer com elas duetos sensacionais. A busca incessante de Chitão e Xororó por novas tendências musicais revela o quão a dupla está inepta a novas musicalidades de seu próprio cancioneiro. E resolveram mastigar e triturar a obra de Tom, artista que não combina com a musicalidade da dupla sertaneja. Deterioraram a obra de Tom, arranharam notas, pisaram em falso sobre músicas já imortalizadas por grandes vozes e fizeram deste álbum, Tom do Sertão (2015 / 27,99), ser o pior lançamento do ano. Quando um determinado cantor não conhece a obra do homenageado, resulta nisso: um disco fraco, sem qualidade, feito às pressas, sem condição de notas inspiradoras e sem a essência exigida por amantes da verdadeira música popular brasileira. Sim, Chitãozinho e Xororó pisaram em ovos, pensando eles que esses ovos eram inquebráveis.

 

Tom do Sertão / Chitãozinho e Xororó
Nota 3
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

As colheitas de Mariene de Castro


A força no canto de Mariene de Castro é sagrada e a sua luz é tão forte que provavelmente demorará a se apagar. Mariene está de disco novo e talvez seja o melhor de sua carreira, mesmo depois de mostrar os santos de sua casa e a homenagem a Clara Nunes. Não que sejam trabalhos menores, mas até ali, a cantora vinha provando o que o público queria realmente saber de sua musicalidade e agora Colheita veio acolher o seu tempero e sua apuração. Mariene destoa música caprichadas, bem arranjadas e com fácil apelo popular. Mas não pensem que o tal apelo popular seja sinal de música comercial: a música de Mariene de Castro vai mais longe e alcança ares mais profundos. Quem assina a produção do disco é o competente Max Pierre, que já produzira discos importantes no cancioneiro nacional. Em temporadas de surgimento de cantoras deprovidas de talento e voz, entre o certo e o errado e entre música de qualidade com bordões exdrúxulos, a qualidade de Mariene surpreende pelo seu canto, pela força de sua voz, pelo eco de seu brilho e pela brasilidade que carrega. Colheita (23,99 / Universal / 2013) é um disco de samba de raiz, de predicado, de respeito e de ginga e tem a participação mais que especial de Maria Bethânia em A força que vem da raiz (Roque Ferreira) e na faixa título, Colheita (Zeca Pagodinho / Rildo Hora). Beth Carvalho é a outra convidade, não com o mesmo brilho de Bethânia, e canta Samba da benção (Baden Powell / Vinicius de Moraes) e o maestro Jaques Morelembaum juntamente com a bateria da Portela estão em Aquela da Amazônia (Toninho Geraes / Toninho Nascimento). Baiana de nascimento, Mariene entra para o rol das grandes divas da música popular brasileira com um disco a sua altura e competência, com faixas que demonstra toda a sua cultura de grande dama do samba. O samba está em seu sangue e sua voz está por todas as partes.

 

Colheita (2013) / Mariene de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A música negra brasileira

Dia de festa ao povo negro
A cultura brasileira e, logicamente, a rica música que se faz e consome no país estruturam-se a partir de duas básicas matrizes africanas, provenientes das civilizações conguesa e iorubana. A primeira sustenta a espinha dorsal dessa música, que tem no samba sua face mais exposta. A segunda molda, principalmente, a música religiosa afro-brasileira e os estilos dela decorrentes. Entretanto, embora de africanidade tão expressiva, a música popular brasileira, hoje, ao contrário da afro-cubana, por exemplo, distancia-se cada vez mais dessas matrizes. E caminha para uma globalização tristemente enfraquecedora. A presença africana na música brasileira, pelo menos em referências expressas, vai se tornando cada vez mais rarefeita. Aparece, via Jamaica, no carnaval dos blocos afro baianos e nos sambas-enredo das escolas cariocas e paulistanas – especialmente nas homenagens a divindades. Mas nada de modo tão intenso como ocorre na música que se faz em Cuba e em outros países do Caribe. Mesmo com a explosão comercial da chamada salsa, a partir de Porto Rico e via Miami, na música afro-caribenha de hoje é raro um disco que não contenha pelo menos uma cantiga inspirada em temas da religiosidade africana e interpretada com fervor apaixonado. Tito Puente, Mongo Santamaría, Célia Cruz, Rubén Bladez e muitos outros são exemplos fortes, o mesmo não acontecendo no Brasil, pelo menos na música mais largamente consumida. No Brasil, o pagode, a partir da década de 1990, apesar da voga inicial de grupos cujos nomes, mas só os nomes, evocavam a ancestralidade africana (Raça Negra, Negritude Júnior, Suingue da Cor, Os Morenos etc.), entendemos que foi se transformando em um produto cada vez mais fútil e imediatista para se preocupar com etnicidade. E isto talvez por conta do conjunto de estratégias de desqualificação que ainda hoje sustentam as bases do racismo antinegro no Brasil. É esse racismo que, no nosso entender, vai cada vez mais separando coisas indissociáveis, como o samba e a macumba, a ginga e a mandinga, a música religiosa e a música profana, desafricanizando, enfim, a música popular brasileira. Ou africanizando-a só na aparência, ao sabor de modas globalizantes made in Jamaica ou Bronx.

 
Clementina de Jesus, cantora nascida em Valença, RJ, em 1901, e falecida no Rio, onde vivia desde menina, em 1987, foi uma grande presença de personalidade negra no Brasil. Descoberta para a vida artística já sexagenária, afirmou-se como uma espécie de elo perdido entre a ancestralidade musical africana e o samba urbano. Seu trabalho de maior expressão fez-se através da interpretação de jongos, lundus, sambas da tradição rural e cânticos rituais recriados, como o já Benguelê, de Pixinguinha. Logo depois do surgimento de Clementina, outra importante interseção entre a música popular brasileira e a religiosidade africana ocorre com os afro-sambas (Canto de Ossanha, Ponto do Caboclo Pedra Preta etc) lançados por Baden Powell e Vinícius de Moraes em 1966. E é o mesmo Vinícius que, agora em parceria com Toquinho, veio a lançar um Canto de Oxum, em 1971, e um Canto de Oxalufã, em 1972. Daí em diante, a vertente começa a se rarefazer, com raras incursões, como a do cantor e compositor Martinho da Vila, que, em um de seus discos do final dos anos 70, registrou uma seqüência de cantigas rituais da umbanda.

Clara Nunes nasceu em Minas Gerais no ano de 1942 e morreu no Rio de Janeiro no ano de 1983 e foi uma das maiores cantoras do Brasil, considerada uma das maiores influências do país na música negra. Pesquisadora damúsica popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à umbanda. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos. Clara e Clementina gravaram juntas um partido alto reverenciando a música negra, o lundu, os atabaques. E festejaram juntas este feito.

Desafricanização, como sabemos, é o processo por meio do qual se tira ou procura tirar de um tema ou de um indivíduo os conteúdos que o identificam como de origem africana. À época do escravismo, a principal estratégia dos dominadores nas Américas era fazer com que os cativos esquecessem o mais rapidamente sua condição de africanos e assumissem a de negros, marca de subalternidade. Isto para prevenir o banzo e o desejo de rebelião ou fuga, reações freqüentes, posto que antagônicas.O processo de desafricanização começava ainda no continente de origem, com conversões forçadas ao cristianismo, antes do embarque. Depois, vinha a adoção compulsória do nome cristão, seguido do sobrenome do dono o que representava, para o africano, verdadeira e trágica amputação. Então, vinham as distinções clássicas entre da costa e crioulo, entre boçal e ladino. Acreditamos que a música popular brasileira, de raízes tão acentuadamente africanas, seja vítima de um processo de desafricanização ainda em curso. Senão, vejamos. Quando a bossa-nova resolveu simplificar a complexa polirritmia do samba e restringir sua percussão ao estritamente necessário, não estaria embutido nesse gesto, tido apenas como estético, uma intenção desafricanizadora? E quando a indústria fonográfica procura modernizar os ritmos afro-nordestinos (de maracatu para mangue-beat, por exemplo), não estará querendo fazer deles menos boçais e mais ladinos, pela absorção de conteúdos do pop internacional? Pois esse pop milionário, sem pátria e sem identidade palpável (mesmo quando pretende ser étnico), é exatamente aquela parte da música dos negros americanos que a indústria do entretenimento desafricanizou. Por tudo isso e como sempre disse a grande dama negra da música popular brasileira, Elza Soares, a música preta pede passagem, que o dia da Consciência Negra é celebrado com maestria e com muita música por artistas negros de ontem e de hoje em eventos espalhados por todo o Brasil. De Negra Li a Elza Soares, passando por Jorge Ben e Fabiana Cozza, a música negra é rica em elementos sofisticados diferenciados do pagode do início da década de 1990 e menos conturbado, hoje, do que na época de início de carreira da dama Elza Soares. Viva a música negra brasileira, viva o povo negro, viva o povo brasileiro. Negro na sua maioria!

 

A Música Negra Brasileira
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As histórias de Paulo Cesar Pinheiro em livro


Histórias sem fim
Hoje o Mais Cultura Brasileira será diferente, experimental, divertido e universal. Diferente porque não falarei de música por completo, mas sim de leitura embalado por músicas. Livros tão bem escritos remetem à músicas muito bem compostas. E Paulo César Pinheiro tem uma vasta carreira musical que não compromete a ninguém e muito menos inveja à ninguém. Paulo César Pinheiro é música para os olhos. Não, não irei falar de nenhum show de Paulo César Pinheiro, nem de nenhum lançamento em disco. Vou contar um pouco da experiência que tive ao terminar de ler neste fim de semana o livro Histórias das minhas canções - Paulo Cesar Pinheiro. Cantado por mestres e divas da MPB, Paulo César Pinheiro foi marido de Clara Nunes, uma das maiores cantoras do Brasil, teve uma amizade verdadeira com Elis Regina, o mito brasileiro, foi cantado por Maria Bethânia, Joyce Moreno, Nana Caymmi e segue embalando novos cantores com suas preciosidades. Não é fácil ser Paulo César Pinheiro quando Paulo César Pinheiro é Paulo César Pinheiro: cantor, compositor, homem, carioca, letrista, poeta, solitário.

O formato de Histórias das minhas canções começou com Chico Buarque, numa espécie de biografia de suas canções, e revelando curiosidades e a verdadeira história das composições do artista. No entanto, este primeiro livro foi escrito com Wagner Homem, amigo próximo de Chico.  Já o de Paulo César Pinheiro tem um toque adicional de veracidade e intimidade, que é ser contado pelo próprio compositor e poeta. Poeta este que já tem mais de mil músicas e outras dezenas de parcerias, além de livros e álbuns. Poeta que hoje é reconhecido como um dos maiores compositores de samba e da música brasileira de todos os tempos.

Fã confesso de Guimarães Rosa, Paulo César Pinheiro era querido por Elis Regina por sua poesia na linguagem simples e quase popular, mas com uma profundidade estrondosa. Foi parceiro de Baden Powell, Mauro Duarte, João Nogueira, Lenine, Tom Jobim, Wilson das Neves, e hoje é parceiro dos filhos e outros jovens talentos, atravessando gerações.

O livro nos revela, através do coração do escritor, sua intimidade e sua forma de pensar as coisas com uma leveza e nos misticismos de suas crenças. Revela momentos seus, como a morte de sua mulher Clara Nunes, e porque resolveu compor uma música póstuma em sua homenagem.  Este que foi admirado por Carlos Drummond de Andrade, dividiu o parceiro Baden Powel com Vinícius de Moraes, tinha um poema seu num quadro na casa de Dorival Caymmi e outras divertidas hstórias, nos revela a cada folha algo novo, e nos mostra a magnitude de sua obra.

Paulo Cesar Pinhero é a voz das tradições do samba, do samba generoso que divide, agrega e que arrebata os corações de quem sabe sambar. Bom samba a todos!

Leitura indispensável!
 

Livro: História das minhas canções

Autor: Paulo Cesar Pinheiro

Edirora: Leya

Preço: em média 45,00

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O canto forte de Clara Nunes em O Canto das Três Raças


Clara: músicas fortes no disco de 1976

Clara Nunes se foi em 1983 e já se foram 30 anos de sua morte, mas seus discos ainda ecoam e transforma o mundo da música em algo surpreendente e inovador. O Canto das Três Raças (1976 / EMI / 29,99) é um disco que pulsou nos poros das pessoas, da elite, da sociedade, dos políticos, do mundo e mostrou o quanto a África está em nossas veias, assim como a figura de Clara demonstra o Brasil em suas variantes e formas. O disco agitou as carcaças dos mais brasileiros dos ritmos, cravando para sempre o nome de Clara Nunes na história de nossa música. Cantando forte, bonito e audacioso, o disco lançado em 1976 trouxe inovação e determinação de uma das cantoras que bradavam a brasilidade na época. Clara Nunes foi eleita a melhor cantora de seu tempo por vários anos e até hoje seu nome inspira e aspira novas cantoras a seguirem seu estilo, adotarem seus cabelos e seus adornos e a cantarem em uníssono praticamente todas as faixas deste disco.

Lançado até mesmo no Japão, que se renderam – e ainda se rendem – aos nossos grandes artistas, O Canto das Três Raças merece todos os destaques possíveis pela magia, pelo encantamento, pelo ritmo, pela voz, pela cantora, pelos compositores e pelo conjunto da obra. Clara era estrela e fez deste disco uma das melhores maravilhas de seu tempo. Ontem e hoje se confraternizam e já se completam 37 anos do lançamento desta obra-prima intelectual e perfeita do cancioneiro de Clara. A cantora, que não gostava de rótulos e nem de ser chamada de sambista, gostava de ser popular, mas mal sabia ela que o seu popular agradava a multidões que a seguiam e a idolatravam. O blog Clara Nunes Deusa dos Orixás (www.claranunesdeusadosorixas.blogspot.com) é uma prova disso: desde o seu lançamento, vem mostrando o quanto a cantora ainda é lembrada e a força descomunal de sua presidente, Aninha Vieira, é favorável para o crescimento dos novos fãs.

O Canto das Três Raças deveria ser um hino à todos e cantado em praça pública antes mesmo de iniciar a partida de futebol ou quando morresse algum político. Para a Copa do Mundo, que iniciará suas partidas já no ano que vem, a música que trata de um mundo pobre, triste, arcaico e laico, seria uma boa pedida para que nosso canto ecoasse cada vez mais alto, bradando assim uma legião de brasileiros ao confinamento mútuo de várias gerações.

De Vinicius de Moraes surge Ai Quem me Dera, um hino deprimido, melacólico e sutil sobre a esperança do amanhã, do belo e do novo acontecimento e é marcado por belas palavras que nos remete a lembranças tristes de quem partiu ou de quem podemos esperar ouvir chamar nosso nome um dia. A esperança era a melhor palavra de Clara, que já deu nome a um de seus discos e era repetida várias vezes por ela. Aqui em O Canto das Três Raças, praticamente todas as músicas retratam a fé e a esperança de que algo novo possa acontecer ou renascer.

Basta Um Dia, de Chico Buarque, ficou tão marcante e presente em sua voz, que até mesmo o compositor carioca ficou maravilhado com tamanha dramaticidade. A música tem um certo lirismo que conseguimos captar através da voz de Clara e que penetra em nossa alma com afinco e sutileza tenra. Meu Sofrer, de Marçal e Bide, traz toda a efervescência de uma luta contra o amor, o pecado e a lastima. Risos e Lágrimas, de Nelson do Cavaquinho, José Ribeiro e Rubem Brandão se entrelaça com Tenha Paciência, também de Cavaquinho com Guilherme de Brito e fazem uma justa causa para com a fé e o afeto.

O forró e a alegria pedem passagem em Alvoroço no Sertão e Fuzuê, fazendo da voz de Clara um grito contra a impunidade nordestina. Lama foi um sucesso seguido de perto pela faixa título e até hoje seu verso repercute em debates. Creio eu que, para noventa por cento da população brasileira, a canção título é o máximo de informação que se tem sobre O Canto das Três Raças, sendo música de batuque pra negro escravo fazer festa, mesmo sendo um eco triste.

O Canto das Três Raças começa com uma introdução em toque simples de atabaque, característico de terreiro de umbanda, não de candomblé, secundado pela entrada de um violão anunciando a harmonia musical, para a entrada da voz da Clara que canta, acompanhada somente por esses dois instrumentos, a primeira estrofe. Já na segunda, quando outra raça entra em cena, o negro, um Agogô entra junto e se une aos dois instrumentos, permanecendo assim até a quarta, a do refrão, cantado só pela Clara, quando surge o som de um surdão com batida sem resposta (tummmm……..tummm), exatamente como era o samba em suas raízes. Depois de um tempo é que veio a batida com resposta (tum-tu….tum-tu) imitando o coração, acelerando o andamento musical e se mantendo até hoje nas escolas de samba.

Esse trio de instrumentos se mantém com a Clara até o final da primeira execução da composição, que finda no segundo refrão, agora cantado por um coro de vozes masculinas, imitando os escravos. Na entrada da segunda execução, aquele atabaque único se transforma em tres (Run, Rumpí e Lé), comuns ao candomblé, o surdão ganha batida com resposta, o Agogô começa a improvisar e, junto com eles, entra todo o instrumental de uma escola de samba cantando um enredo na avenida. 

Acho que quando ouvimos a música, não só essa, mas todas de um mesmo nível, sentimos toda essa preocupação do compositor no ato da composição através da emoção que ela nos transmite; esse destrinçar da canção exige, além de informação cultural, um entuito de se observar, pois quando ouvimos a canção pela primeira vez, sentimos uma coisa, qualquer coisa, um arrepio ou um suor frio, por não saber definir o que foi aquele sentimento. Uma das grandes sacadas geniais feitas em disco está aqui, em O Canto das Três Raças, cantada pela brasileira Clara Nunes em um ano difícil como o de 1976, produzido Paulo César Pinheiro. Um disco que merece ser um Hino Nacional Brasileiro.


O Canto das Três Raças – Clara Nunes

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Shirle de Moraes tenta ser Elis Regina em disco de estreia


Shirle não vingou como cantora
Shirle de Moraes saiu desses programas de realitys que procuram novas candidatas a posto de estrela da MPB e não conseguiu projetar sua carreira até hoje. Diferentemente do que aconteceu com a cantora Roberta Sá, que estivera no mesmo programa e que está com discos sensacionais na praça, Shirle de Moraes tentou, tentou e ainda continua tentando um lugar ao sol. Mas o fato é que ela canta até que razoavelmente bem, mas não ao ponto de estar entre as melhores. Na cola e nos rastros de Elis (gaúcha como Shirle), a cantora surgiu com um disco recalcado e pautado principalmente nas regravações, o que já foi um erro mortal, pois mexeu com o repertório de Elis Regina. Poucas cantoras conseguem fazê-lo com maestria e mesmo Shirle sendo uma novata, o resultado é mais ou menos. Não dá para ouvir todo o disco e mesmo inspirado, não consegui ir até o final. E olha que o disco foi lançado lá pelos anos de 2005.
Shirle poderia ser melhor. Mas não é. Tenta ter uma carreira igual ao de Elis e para isso, faz trejeitos, grita histriônicamente e faz malabarismos pueris para tentar se parecer com a maior cantora do Brasil. Não por acaso, seu disco de estreia carrega o nome da música de Milton Nascimento, Nada Será Como Antes, que Elis adorava.  O repertório da cantora é ousado e, aos vinte e sete anos, Shirle foi contratada pela Sony para lançar seu primeiro disco.
Nada menos do que oito das doze faixas do discos é calcado no cancioneiro da Pimentinha gravados nos anos de 1970 e 1980. O que chama a minha atenção é que Shirle de Moraes (que por vezes pensamos se tratar de uma família do poeta Vinicius de Moraes) não só persegue, como também copia todos os passos que Elis dera em vida, como cortes de cabelos, roupas e maquilagens.
No dia em que Shirle de Moraes assumir uma identidade própria e não se ofuscar na imagem de uma grande artista, sua carreira poderá deslanchar sem medo de encarar um público ansioso por novas vozes. Shirle tem capacidade e potencial para ser ela mesma, uma cantora jovem e que pode ter um repertório a sua altura. Por enquanto, Shirle é apenas uma imitação imperfeita de uma das maiores cantoras do Brasil.

Nada Será Como Antes - Shirle de Moraes
Nota 3
Marcelo Teixeira

terça-feira, 28 de maio de 2013

Os voos de Mônica Salmaso em Voadeira

  
Voadeira: o melhor de Mônica
Nascida em São Paulo, Mônica Salmaso começou sua carreira na peça O Concílio do Amor dirigida pelo premiado diretor Gabriel Villela em 1989. Em 1995, gravou o CD Afro-Sambas, um duo de voz e violão arranjado e produzido pelo violonista Paulo Bellinati, contendo todos os afro-sambas compostos por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Foi indicada para o Prêmio Sharp – 1997 como Revelação na categoria MPB. Foi vencedora do Segundo Prêmio Visa MPB – Edição Vocal, pelo juri e aclamação popular em 1999. Foi ganhadora do prestigioso Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de 1999, e o CD Voadeira recebeu os mais rasgados elogios, sendo considerado pela crítica como um dos dez melhores lançamentos do ano. Na edição do dia 4 de fevereiro de 2002 do The New York Times, o crítico Jon Pareles coloca Mônica Salmaso como um dos principais nomes surgidos recentemente na música popular brasileira.

Classifico o CD como uma lindeza pura de uma brasilidade única. Mônica fascina a cada sílada cantada, a cada verso cantado e a cada disco lançado. Sua beleza cantada é favorecida a uma grande interpretação e uma grande voz, diferenciada de outras cantoras. Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical.

Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical. Tudo aqui é encantador, mágico, belo, espontaneo e brasileiro. A cantora Mônica Salmaso é apontada por músicos e críticos como uma das grandes revelações dos últimos tempos e até mesmo por setentões como Chico Buarque e a queridinha dos japoneses, como a cantora Joyce Moreno. Sendo seu terceiro (e ótimo) disco de carreira, Voadeira sela sua maturidade e maior liberdade artística.

Em um mercado pródigo em vozes femininas estridentes e exaltadas, o Brasil ainda carece de grande cartazes que façam ecoar mundo afora e Mônica Salmaso se destaca pela sutileza. Há tons melancólicos em algumas faixas que flui de seu timbre de contralto e permeia todo o repertório, dando mais qualidade e resistência ao seu talento.

O CD é equilibrado por músicas inéditas de Mário Gil, Ná Ozzetti e Itamar Assumpção e Joyce Moreno se misturando com obras-primas de Chico Buarque, na excelente Valsinha, que foi uma parceria com Vinicius de Moraes. Chama a atenção a arrepiante O Vento, de Dorival Caymmi.

A coerência impede que a diversidade de ritmos – samba, modinha, valsa e xote – se converta em tiroteiro de balas extremamente perdidas. Voadeira tem instrumentação mínima, o que valoriza as qualidades da cantora e a textura das canções escolhidas com critério. Os arranjos são impressionantes em Beradêro, música de Chico César, que conta apenas com o contrabaixo de Rodolfo Stroeter. O samba Ilu Ayê (Terra da Vida) é reconstruído sobre a pontuação ritímica dos pandeiros e das cuícas de Marcos Suzano.

O título do disco sugere altos voos. Voadeira é um barco que sobe o Rio São Franciso, como cita a música de Chico Buarque e tem um sentido de assistir à vida e navegar contra a corrente. E tudo se parece com água, que nada sem parar e tem uma fluência emocional que é dificil explicar.


Voadeira – Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

As releituras de Seu Jorge e Almaz vão muito além da música


Ótimo disco em releituras e vozes
A voz de Seu Jorge consente a ele cantar o que ambicionar. Do estrondo do trovão ao sussurro, passando por diversos matizes timbrísticos, tudo cabe na voz de Seu Jorge. Do mesmo modo, mimeografando o passado e imprimindo futuros, os músicos da Nação Zumbi aprofundam a pesquisa de uma brasilidade braseira. Aconteceu o projeto que estava há anos engavetado e que saiu no finalzinho de 2009. Seu Jorge e Almaz. Sem mais. Sem palavras. O melhor de Seu Jorge sem o poder das grandes canções comerciais e indo mais fundo, mais profundo, mais adentro de músicas mais elaboradas, mais sofisticadas, mais elitizadas, mas ainda assim sem perder o preceito de uma música comercial. Para o projeto Seu Jorge e Almaz (EMI / 2010 / 29,99), o cantor acoplou sua energia vocal à tonelada rítmica de dois componentes do grupo Nação Zumbi - Pupillo e Lucio Maia -, além do conhecimento em trilhas sonoras de Antonio Pinto. O resultado é um disco forte: com sonoridades mestiças, volteios agradáveis e surpresas. Boas.

Reciclando canções diversas - de Tim Maia a Rodney Temperton, passando por Jorge Ben e Dorival Caymmi -, o quarteto compôs um conjunto sonoro autoral: um som livre de fixações universais e misturados. A poética Juízo final, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, sem perder o cavaquinho, ganhou uma moldura melódica atômica, biônica e eletron-sansônica irradiando a mensagem do amor que será eterno novamente.

Aqui, longe da destruição apocalíptica, o juízo final traz a esperança do sol que brilhará. A produção do grupo Almaz investe em uma tempestade de sons eletronicamente modificados para adensar o canto do desejo do sujeito à espera de mudança.

A performance vocal preguiçosa de Seu Jorge parece contrastar com o desejo do sujeito exposto. Porém, tal dicção pode ser lida como a tematização dos angonismos presentes na letra. Aliás, em Seu Jorge e Almaz o cantor investiu a mais não poder na sua dicção malandra, desleixada e, por isso, única. Em ritmo crônico, o sujeito da canção caminha rumor a além do horizonte, onde tropa de todos os baques existentes comporão com sons psicodélicos a luz do dia seguinte.

Recriar Baden Powell e Vinicius de Moraes com sofisticação, reconstruir Martinho da Vila com solidez, descaracterizar Dorival Caymmi com elegância e refazer Jorge Ben com sagaz complacência só poderia ser feito com a tenra desenvoltura de um cantor à altura de Seu Jorge, com sua voz de trovão e seu canto endiabrado.

Salve, Seu Jorge!

 

Seu Jorge e Almaz

Nota 10

Marcelo Teixeira