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quarta-feira, 7 de maio de 2014

As colheitas de Mariene de Castro


A força no canto de Mariene de Castro é sagrada e a sua luz é tão forte que provavelmente demorará a se apagar. Mariene está de disco novo e talvez seja o melhor de sua carreira, mesmo depois de mostrar os santos de sua casa e a homenagem a Clara Nunes. Não que sejam trabalhos menores, mas até ali, a cantora vinha provando o que o público queria realmente saber de sua musicalidade e agora Colheita veio acolher o seu tempero e sua apuração. Mariene destoa música caprichadas, bem arranjadas e com fácil apelo popular. Mas não pensem que o tal apelo popular seja sinal de música comercial: a música de Mariene de Castro vai mais longe e alcança ares mais profundos. Quem assina a produção do disco é o competente Max Pierre, que já produzira discos importantes no cancioneiro nacional. Em temporadas de surgimento de cantoras deprovidas de talento e voz, entre o certo e o errado e entre música de qualidade com bordões exdrúxulos, a qualidade de Mariene surpreende pelo seu canto, pela força de sua voz, pelo eco de seu brilho e pela brasilidade que carrega. Colheita (23,99 / Universal / 2013) é um disco de samba de raiz, de predicado, de respeito e de ginga e tem a participação mais que especial de Maria Bethânia em A força que vem da raiz (Roque Ferreira) e na faixa título, Colheita (Zeca Pagodinho / Rildo Hora). Beth Carvalho é a outra convidade, não com o mesmo brilho de Bethânia, e canta Samba da benção (Baden Powell / Vinicius de Moraes) e o maestro Jaques Morelembaum juntamente com a bateria da Portela estão em Aquela da Amazônia (Toninho Geraes / Toninho Nascimento). Baiana de nascimento, Mariene entra para o rol das grandes divas da música popular brasileira com um disco a sua altura e competência, com faixas que demonstra toda a sua cultura de grande dama do samba. O samba está em seu sangue e sua voz está por todas as partes.

 

Colheita (2013) / Mariene de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Canto Sagrado de Fabiana Cozza


 

Justa homenagem a Clara Nunes
Se viva estivesse, Clara Nunes já estaria com 70 anos, cabelos menos volumosos, talvez mais escuros, pele mais enrugada e nos brindando com seu sorriso encantador. Clara Nunes partiu cedo e deixou um rastro de saudade que não foi preenchido até hoje, mais de trinta anos de sua morte. A lacuna que a cantora deixou jamais será completada e suas músicas jamais terão o mesmo brilho de sua primeira interprete. Clara Nunes não morreu: partiu desta para uma melhor e está viva, eternamente viva, nos nossos corações, mentes e poros. Muitas cantoras se espelharam na beleza no canto da grande Guerreira, assim como muitos cantores também o fizeram, mas negam este destino. Já se foi o tempo em que Roberto Ribeiro, Gonzaguinha, Martinho da Vila ou João Nogueira falavam abertamente que eram apaixonados pela amiga Clara Nunes e que fizeram um samba especialmente à ela. Hoje os cantores mais moderninhos que cantam samba, insistem em dizer ou citar nomes como Dona Yvone Lara, Beth Carvalho, Alcione, mas esquecem da grande dama do samba, a rainha do império, a mestiça cabocla que evoluiu o segmento e que culminou definitivamente o nosso samba aos países aonde jamais imaginiriam que um dia chegaria. Exceto o cantor e compositor Diogo Nogueira, que acaba de lançar um disco inteiramente dedicado às mulheres e que na contracapa fez uma homenagem as mulheres que lhe tornaram um homem completo. Lá tem o nome da Clara, vindo acompanhado das citadas acima e de Clementina de Jesus. Algumas boas cantoras – e outras nem tanto assim – também fizeram neste ano de 2013 homenagens póstumas a cantora, umas com maestria, outras por pura pretensão. Casos como o da cantora Mariene de Castro, que lançou um disco maravilhosamente competente e contemporâneo e que fez desta homenagem uma forma de agradecer ao seu próprio público por esta abertura, tendo em vista que Mariene é uma discípula de Clara. Carla Visi, a cantora baiana que vem do axé fresco e atemporal, resolveu entrar na onda da maré cheia de Clara Nunes para lançar um disco horrendo e feito às pressas, bem característico desta cantora. Com uma capa horripilante e insensível, Carla Visi acabou por completo com as músicas que Clara eternizou, convidando cantores (?) que nada tinham a ver com a obra da homenageada, fazendo disso um dos piores lançamentos do ano. Mas ainda a competência e sensiblidade de uma grande cantora como Fabiana Cozza, vem nos enriquecer com sua potente voz lantente, que adentra em nossos tímpanos sensíveis e oriundos e nos brinda com uma capa deslumbrante, com um festival de músicas maravilhosas e com categoria digna de uma grande estrela da música brasileira. Fabiana Cozza consegue, já na primeira faixa, nos emocionar, nos dirigindo ao cancioneira da cantora mineira, a ponto de nos apaixonar, de nos arrepiar, de nos enaltecer. Fabiana Cozza surge como quem nada quer, nos trazendo um disco magnifico, sentimental e alegre, festivo, bem ao estilo Clara Nunes de ser. Este momento é mágico, porque Fabiana Cozza também é uma adepta do estilo de viver que Clara adotou, fazendo de sua voz e de seu estar, um motivo maior para brindar os fãs e sua própria carreira. Canto Sagrado (2013 / 29,99) é um disco que vem acompado de um DVD e as melhores músicas de Clara estão aqui. Peço atenção para a versão de Fabiana para Portela na Avenida, que ficou sublime, encantadora, arrebatadora. Um fiel trabalho de uma grande artista representando uma diva da música popular brasileira para fechar o ano com chave de ouro. Fabiana soube, milimetricamente, utilizar seus artificios para nos brindar com um disco a altura de seu talento. Voz primorosa, harmonia ginasial, músicas de embelezamento mútuo faz deste disco um presente de luz, um presente divino, um presente saboroso. Que este belo trabalho não seja menosprezado e que muitos possam ouvir, apreciar, comentar, admirar, respirar o ambiente deixado por Clara, sendo agora transpassado por Fabiana Cozza. Um digno e fiel respaldo de Canto Sagrado faz deste trabalho a maior dentre as honrarias feitas para Clara, sem diminuir aqui o trabalho (fiel, sedutor, carimbado, festivo) de Mariene de Castro. Clara Nunes, no meio deste mundaréu de céu e brancas nuvens, está sentindo o povo aqui embaixo celebrando seus 70 anos de vida e ela nos agradece sorrindo, respirando o nosso ar. Viva ela está. No nosso coração e no coração de quem a homenageia diariamente. Viva Fabiana Cozza! Viva o Canto Sagrado de Clara Nunes!

 
Canto Sagrado / Fabiana Cozza
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mariene de Castro se transforma em Clara Nunes


 

Homenagem à Guerreira
Homenagear Clara Nunes não é uma das tarefas mais fáceis para uma cantora que é pouco conhecida no cenário musical, ainda mais para a cantora guerreira Mariene de Castro. Considerada por muitos como a nova Clara (título que já foi utilizado por Vanessa da Mata em início de carreira), Mariene segue com total maestria no lançamento de seu DVD em homenagem à grande guerreira maior, a cantora que deu voz e vida ao samba e que abriu caminhos para Alcione, Dona Ivone Lara e Leci Brandão brilharem. Cantar foi uma das maneiras que Clara conseguiu mostras as pessoas toda a sua qualidade e profissionalismo e, de quebra, conseguiu angariar uma legião de fãs espalhados pelos quatro cantos do Brasil, transformando-se num ser de luz, com uma radiação pura e profunda, que talvez nenhuma outra cantora tenha. Sendo uma sabiá (apelido dado com carinho por Vinicius de Moraes), Clara foi uma das maiores cantoras do país e aqui no Mais Cultura, ela alcançou o segundo lugar na seleta lista das trinta maiores cantoras do Brasil.

A consternação vem do subversão entre a vontade e as dificuldades de vida e Clara teve algumas dificuldades na vida. A missão de Clara talvez tenha sido cumprida e ouvir Minha missão, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, trata de uma criação e resignificação da vida pela canção, pelo canto, no cantar. O sujeito canta a própria dor que carrega o mundo e há falta de felicidade: Quando eu canto / É para aliviar meu pranto / E o pranto de quem já / Tanto sofreu, sibila Mariene de Castro (Ser de luz - uma homenagem a Clara Nunes, 2013). O cantar é oferecido, então, como uma garrafada de ervas consumidas –  pois cantar cura.

Canto para anunciar o dia / Canto para amenizar a noite / Canto pra denunciar o açoite / Canto também contra a tirania / Canto porque numa melodia / Acendo no coração do povo / A esperança de um mundo novo / E a luta para se viver em paz, canta Mariene de Castro com a deprimida vitalidade de quem vivencia as ansiedades do súdito da canção. Dor que rima com entrega lúcida à vida. Dor consciente dos prazeres e dos infortúnios de viver. Tudo isso gira na voz quente e épica de Mariene de Castro.

Determinações, nada deterministas, ao contrário, tomadas mesmo como signos do viver, engendram o fazer cancional, por movimentar, organizar e reapresentar sabedorias coletivas e comuns inerentes ao humano. Quando eu canto, a morte me percorre / E eu solto um canto da garganta / Que a cigarra quando canta morre / E a madeira quando morre, canta, diz Clara Nunes. Cantar é, portanto, interferir da dicotomia vida e morte.

Penso que acreditar que apenas a tradição, como se esta não dependesse da traição a si mesma – da inovação – para se reinventar e permanecer como tal (tradição), contém o núcleo luminoso da identidade nacional, é deixar de entender para que se canta: para anunciar o dia / para amenizar a noite / pra denunciar o açoite / também contra a tirania. E as mídias de reprodução têm servido de aliadas da preservação e da afirmação de identidades e culturas, ao revelar e disseminar continuamente o tupi e o alaúde, mitos e essências de brasilidades. Quando eu canto / Estou sentindo a luz de um santo / Estou ajoelhando / Aos pés de Deus, canta Mariene.

O cancionista – a neo-sereia, porque midiatizada – é o médium, a mediação orgânica, das sereias, musas, dos santos, orixás, mitos em complexo signo de rotação, no Brasil. Mariene de Castro apresenta uma voz de timbração forte, de mulher guerreira, sensual e nossa, brasileira, entre a sala e o terreiro, quente. A dicção está cheia de vigor e na própria entoação verificamos uma afirmativa certeza da beleza repleta de fulgor e encanto. A vida pulsa aqui, na voz de quem sabe para que canta: para remelexer a estrutura do nosso instinto caraíba.

Clara Nunes nos deixou em pessoa física. Mariene de Castro a interpretou, apenas. A semelhança entre as duas é existente e cabível de comparações verdadeiras e similares. A luz ainda não se encerrou no fim do túnel e nem a presença de Clara se escondeu no mais profundo breu. Mariene veio para comprovar que ainda temos muito o que saldar a nossa guerreira filha de Ogum com Yansã.

 

Um Ser de Luz (Homenagem a Clara Nunes) / Mariene de Castro

Nota 10

Marcelo Teixeira