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sábado, 6 de agosto de 2016

Adeus, Vander Lee!


Vander Lee: morte precoce
Vander Lee não era um cantor muito conhecido do público em geral, mas tinha a o seu público especial, aquele público que acompanhava de perto a carreira do artista, que sabia de cor suas letras e não perdia seus shows. O cantor não tinha uma grande voz, não era popular, não era famoso, mas conseguiu fazer de sua música um instrumento de trabalho poderoso, cuidadoso, corajoso e audacioso. Mesmo não tendo uma voz característica de grandes artistas de seu tempo, ele sabia como hipnotizar seus ouvintes da melhor forma possível: através de sua composição certeira, arisca, rica. Foram poucas canções em uma carreira marcada pela amorosidade à música brasileira, mas destas, podemos dizer que foram suficientemente francas no ponto de vista solitário de um artista neutro, imparcial, não popularesco. Vander Lee teve pouco tempo de vida, morreu jovem, começou tarde na música, mas angariou letras sensacionais que em pouco tempo arrebatou nas vozes de Alcione, Leila Pinheiro, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Benneditto. Foram músicas fortes que falavam de Deus, romantismo, sinceridade e uma profusão de ideias e pensmentos e frases e amores que apenas Vander Lee conseguiu extrair de sua mente em ebulição. Saí de cena um musico exemplar, de uma categoria ímpar, de uma finesse perfeita para ficar em nossas lembranças um artista único, completo, sensível, amável. Mais conhecido por seus versos que falavam do amor cotidiano, Vander cantava sua singeleza como elemento de sua música autoral. Ele tinha 19 anos de carreira, nove discos gravados e sua madrinha era ninguém menos que Elza Soares!

 

Adeus, Vander Lee
Por Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar: uma bela homenagem


Bela homenagem
Nonato Buzar morreu em fevereiro do ano passado e deixou uma legião de canções imortalizadas nas vozes de Elis Regina, Maysa, Jair Rodrigues, Nana Caymmi, João Nogueira, Alcione e tantas outras personalidades importantes da nossa música nacional. Pouco se fala no cantor e compositor maranhense hoje em dia e muito de sua obra acabou sendo esquecida. Nenhum cantor ou cantora se debruçou para dedicar um disco inteiramente ao cancioneiro de Nonato e a cantora Sandra Duailibe, conterrânea de Nonato, teve a brilhante ideia em fazer jus às músicas desse grande artista brasileiro. Sandra Duailibe canta Nonato Buzar (2015 / 24,99) é um disco sensacional, com uma qualidade incrível na seleção de músicas e com a voz cristalina da cantora, que canta mais e melhor neste belo disco. Quinto disco da carreira de Sandra, esse tem um diferencial: além de ser um disco em forma de homenagem, a cantora transpassa uma energia positiva tão animadora, que fica difícil não dizer que Nonato está tendo essa felicidade também no plano de cima. As músicas selecionadas aqui rechaçam a ideia da capacidade poética e magnifica de Nonato, que conseguia transmitir beleza e garra, sensualidade e sofisticação, harmonia e fina flor. Sandra é uma das damas da música popular brasileira e sua voz cristalina é uma rica e poderosa arma a favor de sua musicalidade. Precisamos ouvir Sandra Duailibe, precisamos conhecer seu talento, seu trabalho, sua forma de expressar a qualidade de sua música. Seu mais novo CD é a articulação viva e real de que a música popular tem qualidade, tem um propósito, uma significação e uma reza.

 

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar / Sandra Duailibe
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de março de 2014

A fineza de Cris Pereira


Cris: a imperatriz do samba
Brasília, a capital federal do Brasil, esconde muitos talentos brasileiros, assim como os revela num piscar de olhos. Já faz um tempo que venho retratando algumas cantoras – boas e ótimas – de Brasília, como Márcia Tauil, Nathália Lima, Emília Monteiro, Ellen Oléria, Sandra Duailibe e sempre estive certo de que a música que vem dessa parte do país é rica em detalhes, sopros e respirações. Algumas nem ali nasceram, mas ajudam a prestigiar o talento do estado.  Quem pensa que Brasília é o fardo político e intelecto está muito enganado de si, porque ali concentra-se a maior parte musical de todos os tempos e o pólo cultural de uma esfinge preciosa, sentimental e rudimentar. O nome que ajuda a embelezar Brasília e a completar um time de bravas guerreiras da música nacional é Cris Pereira, que tem elegância e pluralidade na voz e no repertório. Cris tem samba na ponta dos pés e um requebrado que só ela tem direito a ter, além de uma voz doce e macia, que conquista a qualquer um já na primeira música. E quem disse que Brasília não tem samba? Cris Pereira prova que o samba ainda é um refugio bem garantido na música brasileira, desde que feito com qualidade, respeito e determinação, como é o caso dela. Música de pimeira grandeza e de uma fineza espetacular, Cris consegue atribuir a si uma qualidade superior, rara nos dias de hoje, para a chamada damas do samba, que já agraciou Clara Nunes, Alcione, Dona Ivone Lara. Recentemente, o cenário sambístico está por conta de Fabiana Cozza, que traz na bagagem ótimos discos sobre o gênero. Mas Cris Pereira é Cris Pereira: forte, bonita, autêntica, simples, guerreira num país em que precisa ser guerreira para alcançar metas e ultrapassar limites. E o limite de Cris foi ultrapassado. Talentosíssima, Cris Pereira só veio a confirmar que seu tempo é hoje, seu samba é eterno e sua voz e brilho nunca se apagarão. Viva Cris Pereira!!!

 
A fineza de Cris Pereira
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Canto Sagrado de Fabiana Cozza


 

Justa homenagem a Clara Nunes
Se viva estivesse, Clara Nunes já estaria com 70 anos, cabelos menos volumosos, talvez mais escuros, pele mais enrugada e nos brindando com seu sorriso encantador. Clara Nunes partiu cedo e deixou um rastro de saudade que não foi preenchido até hoje, mais de trinta anos de sua morte. A lacuna que a cantora deixou jamais será completada e suas músicas jamais terão o mesmo brilho de sua primeira interprete. Clara Nunes não morreu: partiu desta para uma melhor e está viva, eternamente viva, nos nossos corações, mentes e poros. Muitas cantoras se espelharam na beleza no canto da grande Guerreira, assim como muitos cantores também o fizeram, mas negam este destino. Já se foi o tempo em que Roberto Ribeiro, Gonzaguinha, Martinho da Vila ou João Nogueira falavam abertamente que eram apaixonados pela amiga Clara Nunes e que fizeram um samba especialmente à ela. Hoje os cantores mais moderninhos que cantam samba, insistem em dizer ou citar nomes como Dona Yvone Lara, Beth Carvalho, Alcione, mas esquecem da grande dama do samba, a rainha do império, a mestiça cabocla que evoluiu o segmento e que culminou definitivamente o nosso samba aos países aonde jamais imaginiriam que um dia chegaria. Exceto o cantor e compositor Diogo Nogueira, que acaba de lançar um disco inteiramente dedicado às mulheres e que na contracapa fez uma homenagem as mulheres que lhe tornaram um homem completo. Lá tem o nome da Clara, vindo acompanhado das citadas acima e de Clementina de Jesus. Algumas boas cantoras – e outras nem tanto assim – também fizeram neste ano de 2013 homenagens póstumas a cantora, umas com maestria, outras por pura pretensão. Casos como o da cantora Mariene de Castro, que lançou um disco maravilhosamente competente e contemporâneo e que fez desta homenagem uma forma de agradecer ao seu próprio público por esta abertura, tendo em vista que Mariene é uma discípula de Clara. Carla Visi, a cantora baiana que vem do axé fresco e atemporal, resolveu entrar na onda da maré cheia de Clara Nunes para lançar um disco horrendo e feito às pressas, bem característico desta cantora. Com uma capa horripilante e insensível, Carla Visi acabou por completo com as músicas que Clara eternizou, convidando cantores (?) que nada tinham a ver com a obra da homenageada, fazendo disso um dos piores lançamentos do ano. Mas ainda a competência e sensiblidade de uma grande cantora como Fabiana Cozza, vem nos enriquecer com sua potente voz lantente, que adentra em nossos tímpanos sensíveis e oriundos e nos brinda com uma capa deslumbrante, com um festival de músicas maravilhosas e com categoria digna de uma grande estrela da música brasileira. Fabiana Cozza consegue, já na primeira faixa, nos emocionar, nos dirigindo ao cancioneira da cantora mineira, a ponto de nos apaixonar, de nos arrepiar, de nos enaltecer. Fabiana Cozza surge como quem nada quer, nos trazendo um disco magnifico, sentimental e alegre, festivo, bem ao estilo Clara Nunes de ser. Este momento é mágico, porque Fabiana Cozza também é uma adepta do estilo de viver que Clara adotou, fazendo de sua voz e de seu estar, um motivo maior para brindar os fãs e sua própria carreira. Canto Sagrado (2013 / 29,99) é um disco que vem acompado de um DVD e as melhores músicas de Clara estão aqui. Peço atenção para a versão de Fabiana para Portela na Avenida, que ficou sublime, encantadora, arrebatadora. Um fiel trabalho de uma grande artista representando uma diva da música popular brasileira para fechar o ano com chave de ouro. Fabiana soube, milimetricamente, utilizar seus artificios para nos brindar com um disco a altura de seu talento. Voz primorosa, harmonia ginasial, músicas de embelezamento mútuo faz deste disco um presente de luz, um presente divino, um presente saboroso. Que este belo trabalho não seja menosprezado e que muitos possam ouvir, apreciar, comentar, admirar, respirar o ambiente deixado por Clara, sendo agora transpassado por Fabiana Cozza. Um digno e fiel respaldo de Canto Sagrado faz deste trabalho a maior dentre as honrarias feitas para Clara, sem diminuir aqui o trabalho (fiel, sedutor, carimbado, festivo) de Mariene de Castro. Clara Nunes, no meio deste mundaréu de céu e brancas nuvens, está sentindo o povo aqui embaixo celebrando seus 70 anos de vida e ela nos agradece sorrindo, respirando o nosso ar. Viva ela está. No nosso coração e no coração de quem a homenageia diariamente. Viva Fabiana Cozza! Viva o Canto Sagrado de Clara Nunes!

 
Canto Sagrado / Fabiana Cozza
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mariene de Castro se transforma em Clara Nunes


 

Homenagem à Guerreira
Homenagear Clara Nunes não é uma das tarefas mais fáceis para uma cantora que é pouco conhecida no cenário musical, ainda mais para a cantora guerreira Mariene de Castro. Considerada por muitos como a nova Clara (título que já foi utilizado por Vanessa da Mata em início de carreira), Mariene segue com total maestria no lançamento de seu DVD em homenagem à grande guerreira maior, a cantora que deu voz e vida ao samba e que abriu caminhos para Alcione, Dona Ivone Lara e Leci Brandão brilharem. Cantar foi uma das maneiras que Clara conseguiu mostras as pessoas toda a sua qualidade e profissionalismo e, de quebra, conseguiu angariar uma legião de fãs espalhados pelos quatro cantos do Brasil, transformando-se num ser de luz, com uma radiação pura e profunda, que talvez nenhuma outra cantora tenha. Sendo uma sabiá (apelido dado com carinho por Vinicius de Moraes), Clara foi uma das maiores cantoras do país e aqui no Mais Cultura, ela alcançou o segundo lugar na seleta lista das trinta maiores cantoras do Brasil.

A consternação vem do subversão entre a vontade e as dificuldades de vida e Clara teve algumas dificuldades na vida. A missão de Clara talvez tenha sido cumprida e ouvir Minha missão, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, trata de uma criação e resignificação da vida pela canção, pelo canto, no cantar. O sujeito canta a própria dor que carrega o mundo e há falta de felicidade: Quando eu canto / É para aliviar meu pranto / E o pranto de quem já / Tanto sofreu, sibila Mariene de Castro (Ser de luz - uma homenagem a Clara Nunes, 2013). O cantar é oferecido, então, como uma garrafada de ervas consumidas –  pois cantar cura.

Canto para anunciar o dia / Canto para amenizar a noite / Canto pra denunciar o açoite / Canto também contra a tirania / Canto porque numa melodia / Acendo no coração do povo / A esperança de um mundo novo / E a luta para se viver em paz, canta Mariene de Castro com a deprimida vitalidade de quem vivencia as ansiedades do súdito da canção. Dor que rima com entrega lúcida à vida. Dor consciente dos prazeres e dos infortúnios de viver. Tudo isso gira na voz quente e épica de Mariene de Castro.

Determinações, nada deterministas, ao contrário, tomadas mesmo como signos do viver, engendram o fazer cancional, por movimentar, organizar e reapresentar sabedorias coletivas e comuns inerentes ao humano. Quando eu canto, a morte me percorre / E eu solto um canto da garganta / Que a cigarra quando canta morre / E a madeira quando morre, canta, diz Clara Nunes. Cantar é, portanto, interferir da dicotomia vida e morte.

Penso que acreditar que apenas a tradição, como se esta não dependesse da traição a si mesma – da inovação – para se reinventar e permanecer como tal (tradição), contém o núcleo luminoso da identidade nacional, é deixar de entender para que se canta: para anunciar o dia / para amenizar a noite / pra denunciar o açoite / também contra a tirania. E as mídias de reprodução têm servido de aliadas da preservação e da afirmação de identidades e culturas, ao revelar e disseminar continuamente o tupi e o alaúde, mitos e essências de brasilidades. Quando eu canto / Estou sentindo a luz de um santo / Estou ajoelhando / Aos pés de Deus, canta Mariene.

O cancionista – a neo-sereia, porque midiatizada – é o médium, a mediação orgânica, das sereias, musas, dos santos, orixás, mitos em complexo signo de rotação, no Brasil. Mariene de Castro apresenta uma voz de timbração forte, de mulher guerreira, sensual e nossa, brasileira, entre a sala e o terreiro, quente. A dicção está cheia de vigor e na própria entoação verificamos uma afirmativa certeza da beleza repleta de fulgor e encanto. A vida pulsa aqui, na voz de quem sabe para que canta: para remelexer a estrutura do nosso instinto caraíba.

Clara Nunes nos deixou em pessoa física. Mariene de Castro a interpretou, apenas. A semelhança entre as duas é existente e cabível de comparações verdadeiras e similares. A luz ainda não se encerrou no fim do túnel e nem a presença de Clara se escondeu no mais profundo breu. Mariene veio para comprovar que ainda temos muito o que saldar a nossa guerreira filha de Ogum com Yansã.

 

Um Ser de Luz (Homenagem a Clara Nunes) / Mariene de Castro

Nota 10

Marcelo Teixeira

domingo, 12 de agosto de 2012

Clara Nunes - 70 Anos




Clara ainda mais viva: 70 anos
Clara Nunes deixou um dos maiores legados para a Música Popular Brasileira: além de músicas e registros históricos, deixou imagens pouco vista por pessoas que não a conheceram e sua dimensão ainda é pouco difundida, embora alguns fãs ainda tentam manter a imagem da Guerreira meramente viva. A missão de Clara Nunes foi defender a música num contexto geral e, acima de tudo, mostrar o quanto a africanidade está associada ao Brasil, o que muitos até hoje negam esta hipótese. Deixar um legado importante e em tão pouco tempo de existência foi um dos maiores ensinamentos e riquezas da grande cantora. Clara Nunes foi uma das maiores vozes femininas e o Mais Cultura! homenageia hoje, em seus 70 anos de vida, uma pequena homenagem.
Após sua morte, Clara teve seu sucesso ainda mais reconhecido e sua música é hoje uma das melhores ofertas de alcançar o sucesso por cantoras novas, caso de Vanessa da Mata (que insiste em ser igual à cantora, sem fazer feio), Mariana Aydar (que é fã absoluta e já regravou com sucesso suas canções), Marisa Monte (que sempre busca inspiração nos vinis que têm), Céu (que recentemente em seu disco Caravana Sereia Bloon regravou o grande sucesso Palhaço) e Mariene de Castro (que alguns críticos insistem em dizer que é a nova Clara Nunes). Fabiana Cozza, Rita Beneditto (ex Ribeiro), Mônica Salmaso, Virginia Rosa entre tantas outras cantoras boas e de boa qualidade, já gravaram ao menos duas músicas ou mais do cancioneiro de Clara e pelo visto elas não param por ai. Clara foi a cantora mais homenageada em músicas, shows e hoje está servindo de inspiração à muitas cantoras.
Este ano, Clara completaria 70 anos de vida. Interrompida em 1983, Clara nos deixa uma saudade imensa de sua musicalidade, sua alegria festiva, seu sorriso, sua emoção. 70 anos de pura magia, pura densidade artística e nesses 70 anos muita coisa boa anda acontecendo em sua homenagem. Clara foi a Guerreira. Foi a campeã de vendas de discos num país em que mulher não vendia discos, foi autentica, foi mulher, foi sambista, foi música popular genuinamente brasileira.
Comprometida com os aspectos políticos e sociais do país, viajou o Brasil todo, cantando nos palanques dos candidatos que faziam oposição ao regime militar, na fase ainda de transição. Foi presença marcante ao lado de cantores como Chico Buarque, Alceu Valença, Simone e Milton Nascimento. Detalhe: ao contrario de hoje, os artistas participavam das campanhas por ideologia e não por cache.
Em Paris, onde estava com Vinicius e Toquinho levando o show A Moça, o Poeta e o Violão numa noite muito fria recolheu,junto com o Poetinha , alguns mendigos que estavam na rua e os levaram para o Hotel onde estavam hospedados para a passar noite. E em viagens, ela foi uma das desbravadoras da Música Brasileira no exterior. Sucesso absoluto na Suécia, França, incluindo Festival de Midem, Alemanha (Festival de Berlim, onde foi ovacionada e obrigada a retornar ao palco 3 vezes), Japão, Angola, Portugal, Costa do Marfim, e tantos outros. Um crítico de um jornal alemão escreveu, após sua apresentação em Berlim, que Clara Nunes tinha toas as qualidades de uma cantora internacional.  E essa repercussão veio numa época em que o mundo não estava tão aberto a World Music ou a música brasileira como hoje, o que só realça seus méritos. E de sucesso em sucesso se fez a trajetória da Guerreira. Sucesso em shows premiados pela crítica, recordes na venda de discos e em execução nas rádios.
Pois hoje, Clara Nunes estaria completando 70 anos. Setenta anos de vida! Clara Nunes permanece viva, mais viva do que nunca e a cada vez que a ouvimos, ela está cantando melhor. Vejo suas rugas, parte de seus cabelos esbranquiçados, fala macia, miçangas. Vejo uma Clara Nunes repleta de felicidade, de energia e de magia no alto de seus 70 anos e a vejo porque Clara está viva.
Hoje é dia de cantarmos suas músicas, orarmos, acender as velas, mas numa forma profunda de homenagem ostensiva à grande diva do samba, da música e da arte brasileira. Clara Nunes, cantora, compositora, mulher, guerreira, forte, decidida. Simplesmente Clara. Mais linda do que nunca, cantando melhor que ontem, sorrindo mais que ontem, sendo mais reconhecida do que ontem. Seus discos são a prova maior de que sua brasilidade atravessou fronteiras. Gravou diversos compositores novos, foi amiga de grandes nomes da música popular brasileira, tinha um carinho enorme por Chico Buarque, considerava demais Elis Regina, era a melhor amiga de João Nogueira e Alcione, era completa. Clara Nunes simplesmente era mulher, cantora, mestiça e guerreira.



Clara Nunes – 70 Anos

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quando o Canto é Reza, a homenagem de Roberta Sá a Roque Ferreira




Homenagem à Roque Ferreira
Uma das vozes mais elogiadas da nova geração da MPB, Roberta Sá lançou o CD Quando o Canto é Reza no segundo semestre de 2010. O trabalho é uma parceria com o trio de percussão Madeira Brasil, formado por Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker e Ronaldo do Bandolim. São treze canções de autoria do compositor baiano Roque Ferreira, que já foi gravado por Clara Nunes, Maria Bethânia, Alcione e Zeca Pagodinho. O samba de Roberta Sá tem agora uma cadência e um acompanhamento diferentes. O compasso vem da Bahia e a levada é do afiadíssimo Trio Madeira Brasil. O resultado está neste belíssimo disco, que denota também uma guinada diferenciada no habitual som da cantora natalense radicada no Rio de Janeiro.

Quando o Canto é Reza (2010 / Universal / 25,90) é o mergulho de Roberta e os músicos do Trio Madeira na obra de Roque Ferreira, um compositor e cantador do Recôncavo Baiano, considerado um mestre atual do samba-de-roda. Uma musicalidade onde cabem elementos de coco, ijexá e ritmos afro-brasileiros. Um caldo de referências que resultou no seu trabalho mais vigoroso. Vigor que vem da força de sua poesia e do poder das imagens que ele retrata.

Roque Ferreira, o homenageado
Este disco de Roberta é totalmente diferente dos outros que ela já gravou, como o de estreia, Braseiro, tão rico e tão bonito que já demonstrava que a cantora logo estaria entre as melhores do novo século. Em seguida veio Que Belo Estranho Dia Pra Se Ter Alegria, que veio consolidar sua brilhante carreira, com músicas caprichadas, capa primorosa e voz cristalina. Porém, Quando o Canto é Reza, disco que norteia um novo horizonte na carreira de Roberta, passou praticamente despercebido pelo grande público, embora a crítica tenha aprovado e feito muita divulgação do disco.

Todas as músicas falam do cancioneiro baiano e o clima amistoso nos remete à Bahia de todos os santos, muito cantado por Dorival Caymmi, mas numa outra atmosfera. Aqui, Roberta canta Roque Ferreira em trejeitos e formas cadenciadas num jargão mais intimista e íntima dos santos, do candomblé, da umbanda e do misticismo que somente a Bahia tem e nos proporciona.

Roberta Sá
As músicas do CD parecem rezas, de fato. A começar por Mandingo, que mais parece uma cantiga para receber um santo. Cocada é uma delícia de música, dessas que o refrão gruda em nossa memoria e não sai por nada. A romântica Água da Minha Sede e Água Doce dão a dimensão da capacidade homérica de Roque em fazer canção com sua sapiência e cadência elevadas, desmitificando a alma das rezas. Com essas duas canções, o disco prima por experimentar o sentimentalismo aflorado do compositor e deixando evidente que Roque Ferreira consegue adentrar em nosso coração através de uma boa música.

Tô Fora é a única canção em que o homenageado faz participação vocal e, diga-se de passagem, é uma música maravilhosa e o duo entre Roberta e Roque caiu como uma luva. Dinamismo e respeito mútuo pelo trabalho alheio, Roberta Sá não só entrou definitivamente para o rol das estrelas da MPB, como teve seu carimbo assinado com um grande disco.



Faixas



·       1 – Mandingo (Roque Ferreira / Pedro Luís)

·       2 – Chita Fina (Roque Ferreira)

·       3 – Zambiapungo (Roque Ferreira / Zé Paulo Becker)

·       4 – Cocada (Roque Ferreira)

·       5 – Água da Minha Sede (Roque Ferreira / Dudu Nobre)

·       6 – Orixá de Frente (Roque Ferreira)

·       7 – Água Doce (Roque Ferreira)

·       8 – Menino (Roque Ferreira)

·       9 – Tô Fora (Roque Ferreira)

ü  Part. Especial: Roque Ferreira

ü  10 – Xirê (Roque Ferreira)

ü  11 – Marejada (Roque Ferreira)

ü  12 – A Mão do Amor (Roque Ferreira)

ü  13 – Festejo (Roque Ferreira)

ü  Citação: Samba Pras Moças (Grazielle e Roque Ferreira)



Produção de Pedro Luís



Nota 10


Quando o Canto é Reza / Roberta Sá


Marcelo Teixeira


sexta-feira, 23 de março de 2012

O novo disco de Fabiana Cozza: merecedor de aplausos



Novo disco de Fabiana Cozza: merecedor
O samba é seu dom e ela sabe dar o recado perfeitamente quando o tema é música de verdade, de responsabilidade, de qualidade. Fabiana Cozza é o que há de melhor na nossa música popular brasileira e sua representatividade significa que o samba feito por mulheres consagradas por Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Alcione não está perdido. O samba tem nome, sobrenome e será muito difícil esquecermos uma interprete chamada Fabiana Cozza. Seu timbre de voz encanta e provoca sensações enérgicas tão equidistantes e sensíveis que é, de fato, uma presença marcante nos palcos e por onde passa. Fabiana veio para ficar em um reduto sambístico com pompas de honra, sendo vangloriada por muitos acadêmicos do segmento e louvada por fãs acalorados por seu gingado.

Com dois outros discos merecedores de aplausos efusivos, O Samba é Meu Dom (2004) e Quando o Céu Clarear (2007), Fabiana Cozza nos apresenta agora seu terceiro disco com a maestria da originalidade e mais um trabalho espetacular. Fica ainda mais difícil dizer que Fabiana é uma cantora passageira. Pudera: seus discos são obras-primas e de uma significância tão maravilhosa que nos deixa a sensação de que faltava algo para salvar o samba. Ou tentar.

Fabiana Cozza (2011 / Agô Produções / 25,90) é um disco delicioso por onde a cantora passeia entre o samba, o pagode, o partido alto, as crenças, os santos e a qualificação de um estilo único. Músicas caprichadas, compositores de primeira grandeza, harmonia e melodia e encantamento caminham de mãos dadas, como se mostrassem a Fabiana que o caminho a seguir era justamente aquele. E Fabiana está cantando melhor neste disco, deixando nítido que sua personalidade está equilibrada. Um disco tão perfeito que fica impossível ficarmos parados. O samba aparece na ponta do pé e a voz de Fabiana embala. E mais um disco destila todos os efeitos de que Fabiana Cozza é uma das melhores interpretes que este Brasil já conheceu.

A participação, assim como aconteceu em seu primeiro disco, de seu pai, Oswaldo dos Santos, emociona pela sensibilidade que a música exige. Pai e filha em um duelo marcante, voz magistral com voz potente num giro de palavras e sentimentos que nos deixam embasbacados e a certeza de que ainda teremos outros encontros como este. Mas o disco é muito mais. Fabiana regravou grandes bambas do samba, todos com a mesma intensidade e qualidade e respeito.

Ouçam com muita atenção as belas músicas deste disco, com destaque para Santa Bamba, a melhor faixa do disco. Mas ouçam, ouçam e cansam de ouvir Fabiana Cozza na sua melhor magnitude.

Fabiana Cozza é totalmente diferente do segundo álbum, Quando o Céu Clarear, mas muito próximo de O Samba é Meu Dom. Indiferente disso, as músicas que Fabiana canta neste seu terceiro disco são de uma competência única, espetacular e original.



Álbum Fabiana Cozza (2011)

·       Sandália Amarela (Wilson Moreira e Nei Lopes)

·       2. Lá fora (Elton Medeiros e Délcio Carvalho)

·       3. São Jorge (Kiko Dinucci)

·       4. Sabe Deus (Sombrinha, Marquinho PQD e Carlinhos Vergueiro)

·       5. Eternamente sempre (Sombrinha e Marquinho PQD)

·       6. Candeeiro de Deus (Roque Ferreira)

·       7. Festa do Zé (Sombrinha e Carlinhos Vergueiro)

·       8. Lupiciniana (Wilson das Neves e Nei Lopes)

·       9. Escudo (Wanderley Monteiro e Ivor Lancellotti)

·       10. Santa Bamba (Kiko Dinucci e Fabiano Ramos Torres)

·       11. Serenata de São Lázaro (Gilson Peranzzetta e Paulo César Pinheiro)

·       12. Solo Sagrado (Julio Marcos e Xuxu)

·       Narainã (Alvorada dos Pássaros) – (Ideval Anselmo, Jordão e Zecão)



Direção e Produção Musical: Paulão 7 cordas

 Produção Artística: Fabiana Cozza e Marcelino Freire



Nota 10

Fabiana Cozza / Fabiana Cozza


Marcelo Teixeira

terça-feira, 20 de março de 2012

Samba Meu de Maria Rita: perfeito

Samba Meu, de 2007: o melhor de Maria Rita
O salto que Maria Rita deu em sua bem sucedida carreira ao fazer um disco inteiramente de samba está comprovado no belíssimo disco Samba Meu e que mostra uma Maria Rita totalmente adversa da menininha tímida que veio com um disco voltado para a MPB e que ficou a mercê de tristes notícias com o álbum Segundo. Sendo este o terceiro disco de sua carreira, Samba Meu representa a melhor fase da cantora e que destoa elementos caprichosos de uma particularidade deixada por cantoras como Clara Nunes e Alcione e que hoje é representado por excelentes compositores de uma excelência comprovada por Edu Krieger, Arlindo Cruz e Rodrigo Bittencourt.

Samba Meu (2007 / Warner Music / 24,99) é um álbum gostoso de ouvir e a voz de Maria Rita está saborosa e deliciosamente endiabrada. Músicas perfeitas, timbre nítido e uma sensualidade fora do comum, o disco destoa qualidades imprescindíveis em canções harmoniosas e letras caprichadas. A reinvenção do samba mostrada por Maria Rita é tão equilibrada que fica a sensação de que a cantora, dona de um estilo único de sabedoria encantadora e que nos emociona com músicas sentimentais, deixa claro que o samba é um reduto para quem entende do assunto com verdadeira maestria.

Com regravações de uma música esquecida do cancioneiro de Gonzaguinha (O Homem Falou) e praticamente herdando heranças e pérolas de Arlindo Cruz, o disco se torna um dos itens indispensáveis para amantes da boa música e do samba, sem fazer feio, mesmo com a constante presença nas rádios com a música Tá Perdoado, a tornando cansativa e chata por algumas vezes. Misturando ritmos do pagode e do samba de roda, Maria Rita nos presenteia com canções deliciosas com um pouquinho de saudade de um tempo que está logo ali, forçando um pouco a memória. Ouvir músicas do novo cardápio de compositores bons e já consagrados como Edu Krieger e Rodrigo Bittencourt é uma das maravilhas encontradas neste álbum.

Talvez seja o melhor álbum de Maria Rita, que já lançou Maria Rita (2003), Segundo (2005) e Elo (2011). O reduto do samba, para algumas cantoras, fica sendo um reduto limitado, mas nunca de vergonha alheia e com Maria Rita não poderia ser diferente. Ela canta samba muito bem e estava em sua melhor fase, mas como a própria cantora não gosta de rótulos, seu disco seguinte veio para formar um elo com o primeiro álbum. Ainda assim, não tirou a beleza e maestria do disco de samba, disco este com a capacidade de nos envolver tão enérgica e profundamente, que torna Maria Rita como uma das melhores cantoras do Brasil.



Nota 9

Samba Meu / Maria Rita

Marcelo Teixeira