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domingo, 30 de setembro de 2018

A morte da maior cantora do Brasil: Ângela Maria

Luto pela dama 
Hoje estamos órfãos! Órfãos de uma grande voz, de uma grande cantora que estava no auge de seus 89 anos e na ativa, nos palcos, ao lado do seu público, da sua gente, da mocidade, das pessoas, de todos. Órfãos! Quando uma grande cantora morre, a responsabilidade daqueles que ficaram é preservar sua imagem, sua voz, reverenciar dia após dias o seu legado e não deixar que sua obra também morra. Morreu Ângela Maria, a cantora que influenciou Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Simone e uma infinidade de cantoras. Morreu Ângela Maria, a última cantora do rádio, a amiga de Carmen Miranda, de Cauby Peixoto, de Agnaldo Timóteo. Perdemos uma cantora de qualidade, de respeito, de carisma, que tinha um respeito imenso pela música e pelo seu instrumento principal: a voz! Morreu querendo estar nos palcos, morreu querendo cantar, morreu se preocupando com seus fãs.

Ângela era a maior cantora viva desse país chamado Brasil, com uma trajetória invejável. Aos 89, com mais de 115 discos gravados, mais de 60 milhões vendidos, caminhava entre as melodias e letras que por si compõem a história de ao menos 70 anos de MPB. De Hervilton Martins e Roberto Carlos a Cazuza, cantou as dores, os amores, as alegrias e as tristezas para muitas gerações e sempre com uma entonação de emoção.

A artista Ângela Maria era um motor humano que não parava um segundo. Mesmo com as dificuldades de visão e outras que acumulam com o passar dos anos, não parava com seus shows e os planos para o ano em que completaria 90 anos. Gostava de cantar, gostava de estar rodeada de amigos e gostava de ouvir atentamente cada faixa antes de gravar. Gente Humilde, de Chico Buarque, foi uma dessas conquistas selecionadas a dedo (ou ao ouvido). Chega a ser um mantra aos nossos sentimentos mais humanos ouvir essa obra-prima e não pensar na delicadeza e na doçura de Ângela Maria em sua plena vocação.

Depois de 34 dias agonizando em um hospital particular em São Paulo, a ilustre cantora descansou. Mas sua voz marcante, doce, pura, cristalina e sutil e sua simpatia e cordialidade estarão sempre presentes em nossas vidas!
Descanse, DAMA ÂNGELA MARIA!

A morte de Ângela Maria
Por Marcelo Teixeira

sábado, 28 de julho de 2018

Os truques de Anitta

Os truques salientes de Anitta
Não podemos tirar o mérito da cantora Anitta de que ela é um sucesso estrondoso aqui no Brasil e angaria a passos tímidos sua incursão em países da América Latina, Europa e todo o Continente. Em alguns países, como México, por exemplo, ela praticamente domina as paradas de sucessos e já é muito requisitada para programas de TV e rádios locais. Mas em países como Colômbia (em que precisará brigar muito com a dona do pedaço, Shakira), Anitta ainda não reinou, mas conseguiu entrar bem timidamente. Portugal, Argentina, Paris, Londres e em alguns outros países ela ainda engatinha, mas o efeito maior mesmo está no país do Chaves, Chesperito e Chapolin Colorado, talvez como uma troca de favores.

Diferentemente do que muitos pensam, Anitta é muito mais esperta que todos no quesito fazer truques: ela tira onda em suas músicas, planeja muito bem como fazer de seus singles um verdadeiro fenômeno e tira de tudo isso um proveito absurdo, sem ao menos... abrir tanto a boca. Explico: em músicas como Bang, de 2015 (mesmo que ainda cante e bem), Paradinha (2017) Vai Malandra (2017), Machika (2018) e o agora sucesso Medicina (2018), Anitta mal abre a boca, mais dança do que canta e nos engana muito bem com seu portunhol esquisito. Não estou aqui querendo dizer que Anitta não é uma boa cantora ou que seu sucesso não é merecido. Estou dizendo justamente o contrário, até porque, no início de sua carreira eu mesmo fui totalmente contrário ao seu estilo de fazer música brasileira e a chamei de medíocre quando queria usar e abusar da comunidade carente para se autopromover.

Mas se você reparar bem nas músicas da cantora, verá que a mesma praticamente não canta muito, que mais dança e rebola do que pratica o ato de soltar a voz. Outra coisa que me deixa muito intrigado é o fato da cantora sempre ter um parceiro para dividir os vocais e isso está em praticamente noventa por cento de suas músicas. Em Vai Malandra ela canta tão pouco, que cheguei a acreditar que ela não estava no clipe. Agora em Medicina o efeito se repete: além de colocar várias crianças e jovens de outros países fazendo o refrão (La La La La La La), ela canta pouco, explora mais o cenário e os países pelos quais perpassa e pronto: clipe feito, música cantada, sucesso estrondoso e ‘bora’ fazer outro sucesso.

Formada em Administração, Anitta é o fenômeno que é devido ao seu caráter, seu estilo despojado e seu lado humano: o povo precisava de uma cantora que os representassem. Isso aconteceu com Carmen Miranda nos anos de 1930, Clara Nunes e Elis Regina nos anos de 1970, Rita Lee e Marina Lima nos anos 1980, Daniela Mercury nos anos 1990, Ivete Sangalo nos anos 2000, Anita nos anos 2010. Ainda risco em dizer que Anitta é a cópia de Ivete, mas em graus diferenciados, porque Ivete explorou muito seu lado baiano, enquanto que Anitta não tem uma identidade cultural, não ficando restrita apenas ao Rio de Janeiro, mas representando todo o Brasil, indo de encontro com a identidade ideológica da História.

Todas essas cantoras citadas tiveram e têm uma representatividade muito grande dentro da MPB e souberam utilizar seus espaços com uma organização temporal incríveis. Hoje Anitta é a maior cantora do Brasil, segundo especialistas de música mais antenados do que esse crítico que vos escreve aqui e agora e que você está lendo-o. Sua grandiosidade artística impera entre aqueles que se sentem representados por ela e que estão órfãos com tantos acontecimentos em prol da maior detentora do pódio musical brasileiro: Ivete teve duas filhas, se afastou da mídia por um tempo, se dedicou à família e o público não consegue ficar muito tempo sem uma representante oficial, mesmo que essa representante não tenha sutilezas ao fazer músicas que perdurem vinte ou trinta anos, como uma Carmen, uma Clara, uma Elis, uma Rita ou uma Daniela. Anitta é a Carmen Miranda do século XXI, mas seu espelho maior é a sombra da Ivete, só que em tamanho menor.


Os truques de Anitta
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O universo do samba de Maria Rita

Sambas de Maria
Definitivamente dentro do universo do samba, como Joyce Moreno a descreveu em música, Maria Rita se consagra em um estilo único e próprio dela mesma, sem as amarras e caricaturas semelhantes às da mãe, Elis Regina, e sem o fantasma do estigma de que era uma cantora mediana graças ao talento de herdeiros. Sempre fui muito crítico com a carreira de Maria Rita, justamente porque ela não conseguia se desvencilhar da mãe e porque seus primeiros repertórios estavam fadados a ser um festival de continuidade na qual a mãe não conseguira cantar. Depois de muito tempo a cantora Maria Rita mostrou a que veio: uma verdadeira detentora do samba no século XXI. Não que seus primeiros discos sejam ruins, pois eles não o são, mas o fato de Maria estar cantando samba soa mais verdadeiro e genuíno de sua parte do que cantar músicas com roupagens fúnebres. Com lançamento oficial no dia de hoje,  Amor e Música (2018 / Universal Music / 35,00) é um dos melhores discos de samba da cantora e, de quebra, o melhor de toda a sua carreira e o fato disso acontecer é muito simples: Maria Rita, além de se consolidar no estilo do samba, conseguiu compreender que sua voz se enquadra melhor aqui do que nas canções ditas populares e intelectuais. Longe de ser uma intelectualizada na MPB, Maria já dava sinais de cansaço ao lançar discos sem graça e com apelo romantizado, coisa que não combinava em nada com seu estilo e que também não se assemelhava com o de sua mãe. Mesmo assim, La Rita vinha com trejeitos e nuances idênticos com as de Elis e isso dava a impressão de que não seria legal, que logo ela seria atacada de um monte de coisas e teria que mudar o revés do caso. Dei muitos pitacos em Maria Rita e depois que ela adentrou no universo do samba, muitas coisas aconteceram: a começar pela voz da cantora, que combina nítida e perfeitamente com o samba e dela trazer para esse ambiente cantores e compositores de outrora, misturando com os da atualidade. Com tudo isso, Maria Rita comprovou que é a detentora do samba, com bastante humildade e muita categoria. Mas tem uma coisa que me chamou a atenção nesse disco: a capa. E quem lê meus artigos desde o começo do meu ofício sabe que sou muito antenado com as capas (mesmo que muitas vezes o conteúdo seja mais significante). Primeiro que a cantora trouxe um ar da década de 1970 e 1980 com as letras no estilo medalhão de ouro e isso soa como uma nostalgia gostosa de ser lembrada e segundo porque a capa é de uma simplicidade sem igual, demonstrando que o pescoço da cantora, destoando a ideia de que sua voz é a maior potência de seu trabalho. Amor e Música mostra as diferentes gerações de compositores em diversos gêneros e a mistura agradável que isso proporcionou, como a parceria entre Arlindo Cruz e Davi Moraes, em Cara e Coragem. Não mais, a canção virou samba após Maria Rita perceber o potencial popular dela e Arlindo cair de cabeça na parceria, pois inicialmente a canção seria um blues.  Cadenciando no samba, La Rita transita entre as canções de amor às dores de saudade e o novo disco tem um fio nítido para a cantora: a faixa título, composta por Moraes Moreira no disco Cidadão em 1991, agora foi gravado em samba. A força de Maria Rita prova que a cantora se distanciou da imagem e semelhança da mãe, como sempre critiquei, e agora ela abocanha seu lugar no topo das verdadeiras cantoras da Música Popular Brasileira. O samba, hoje, pertence à Maria Rita!

 Amor e Música (2018) / Maria Rita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

domingo, 7 de janeiro de 2018

Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala (2017)

Vilela e um disco morto
Considerada por dez entre dez pessoas como sendo a cantora do ano de 2017 e por três entre dez pelos críticos de música como uma cantora nonsense no cenário popular brasileiro, a cantora e compositora Ana Vilela surgiu do mundo da mídia esporádica (aquela que te levanta a moral, mas logo te trás para o planeta Terra) e foi alçada ao mundo do showbizz da mesma forma como uma Elis Regina ou Gal Costa surgiram na década de 1960 com seus estilos competentes e dotes artísticos. Mas há uma diferença gritante e relevante nessa minha comparação pífia: Elis e Gal batalharam para serem reconhecidas como cantoras profissionais e utilizaram a voz para mostrar algum talento (coisa que até hoje, no século 21, ambas conseguem ter), enquanto que Ana precisou das mídias para se autopromover. Há algo de errado nisso? Obviamente que não, mas se levarmos em conta que Elis e Gal não eram compositoras e que ralaram muito para provar algum talento, disso ninguém pode duvidar. O mundo de hoje é formado por bestas digitais (Umberto Eco poderia nos explicar isso melhor) e com tantas coisas correndo contra o relógio, eis que as gravadoras não estão mais se importando com aquilo que é vindo da internet. Algumas poucas cantoras surgiram dali e dali estão voltando para o esquecimento, enquanto outras, verdadeiramente genuínos no seu perfil de cantoras e cantores, batalharam por uma gravadora que lhes dessem suporte artísticos para poder mostrar um pouco de suas músicas e qualidades. Ainda que algumas cantoras surgissem de gravadoras, como os casos de Ana Carolina, Maria Gadú ou Maria Rita, as mesmas se encontram sumidas da grande mídia, sem discos lançados ou, quando lançados, quase ninguém presta atenção. Ana Vilela está nesse nicho chamado famosidades instantâneas, que logo voltará de onde saiu: a internet. Se sua música Trem-Bala foi uma apoteose no ano passado, com participação até de Luan Santana, seu disco passou desapercebido pelo grande público, mesmo com a famosa música O Leãozinho, composta por Caetano Veloso para o disco Bicho (1977). Muitos sequer sabiam que ela tinha lançado um álbum com treze faixas. Outros nem sabiam que Ana Vilela era a detentora da canção Trem-Bala. O disco nasceu morto, ficou morto e morreu sem enterrar, porque assim é a mídia do caos, como diz na canção do cantor mineiro Luiz Marques (2009) e que acaba sendo um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado internet, mídia digital e afins. A música de Luiz Marques se iguala com a música Senhas, de Adriana Calcanhotto (1992) em que diz eu não gosto do bom gosto. Ana fez muitas pessoas chorarem pelos cantos do país, mas e o resto do disco, por que ninguém comenta suas outras canções? Por que a mesma mídia que a elencou não mostra as outras faixas? A resposta é simples: não há o que escutar. Trem-Bala (2017 / 22,99) já é o suficiente para que Ana Vilela nos sufoque com suas músicas de uma única estação. Mas há uma boa notícia nisso tudo: Ana Vilela fala de amor e de igualdade em suas músicas e mesmo que Trem-Bala seja uma falácia contra o moralismo radicalizado nas pessoas, a canção passa um ar de mentira, de ilusão, de sonhos inexistentes ao mundo atual e, com isso, retornemos à Mídia do Caos de Luiz Marques e as Senhas, de Adriana Calcanhotto, que são mais verdadeiras que a música blasé de Ana Vilela.


Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Elis Regina 70 anos - box com quatro discos indispensáveis

Elis: atemporal ao tempo
Lançado originalmente em 2014, a caixa Elis Regina 70 Anos ($149,90/2014) contendo quatro discos da carreira meteórica de Elis Regina (1945 – 1982) se faz presente em um momento conturbado da música popular brasileira e é por esse mesmo motivo que abro 2018, quatro anos depois desse lançamento, para poder elencar a imagem e semelhança da cantora. Se no ano passado tivemos tantos desperdícios musicais e tantas vozes desestruturadas com linguagens estranhas e desafinadas, ouvir uma música sequer do cancioneiro de Elis já é o bastante para lubrificar a mente a alma daqueles amantes da incultura nacional. A caixa nos proporciona momentos sensacionais de sua obra inquietante, como, por exemplo, o CD Saudades do Brasil (1980) e o emblemático e sutil Essa Mulher (1979). Em sua breve passagem pela Warner no final dos anos 1970, pouco antes de sua morte, Elis deixou registrados dois álbuns fundamentais em sua discografia: Essa Mulher tem um lado de empoderamento feminino, coisa que Elis já instaurara nos anos de 1979 e Saudades do Brasil, um disco político e emblemático que exaltava a dramaticidade da cantora e que agora retornam ao catalogo com áudios remasterizados e capas, contracapas, encartes e rótulos originais. Completando o primeiro póstumo da cantora – o disco Ao Vivo em Montreux, lançado originalmente pela Warner em 1982. Revisitar a obra de Elis Regina aqui e ali é sempre um prazer, mesmo que em tempos atuais e complexos como os de hoje.



Elis Regina 70 Anos / Elis Regina

Por Marcelo Teixeira





terça-feira, 8 de agosto de 2017

Leny Andrade - uma cantora brasileira


Leny : grande dama da MPB e sem rótulos
Embora muitos ou poucos a considerem como uma cantora de jazz, a própria Leny Andrade não se considera rotulada como tal. Leny gosta de ser chamada de cantora. Simplesmente cantora. Em alto e bom som e na sua mais plenitude definição. E por que e para quê limitá-la a um gênero quando se sabe que ela domina tantos outros? Se precisar for classificá-la de alguma maneira, a única palavra possível seria: brasileira. Então assim a chamemos: Leny Andrade, uma cantora brasileira. Assim como é uma cantora brasileira que fez mais sucesso (com merecimento) do que em solo americano, a própria Leny diz que é uma aspirante cantora americana. Nada nada e nada longe da verdade. Leny canta desde 1983, quase todo o ano, em Nova York. E tanto que, em 1993, dez anos depois, já com o Green card na bolsa, resolveu montar por lá um agradável espaço em formato de moradia onde pudesse pousar o corpo durante suas longas e lotadas temporadas no Ballroom, no Blue Note, no Town Hall e nas demais casas que disputavam o seu canto. Era também uma base confortável para onde retornar depois de se apresentar em Washington, em Los Angeles ou em cidades americanas. E até hoje é assim, com a diferença de que seu principal placo em Nova York passou a ser a casa de jazz mais respeitada do mundo: o Birdland, assim chamada para homeagear o saxofonista Charlie Bird Prker. Nenhuma cantora pode ser comparada à Leny, exceto Ella Fitzgerald. Excelente cantora que é, Leny é uma cantora que improvisa em vocais, lógica e assimétricas em explosivo dinamismo. Nascida no Rio de Janeiro em 1943, a cantora foi criada em conjuntos habitacionais e desde pequena sonhava em ser cantora. Ingressou na Bossa Nova tendo dois pontos centrais e cruciais: de um lado João Gilberto, que mantinha uma postura cool, equilibrada, simplista, justa e exata e de outro lado tinha a linha feminina que contrariava com a de Nara Leão, Dulce Nunes, Astrud Gilbert, Odette Lara, Wanda Sá, Joyce, Miúcha, Elza Soares, Elis Regina. Mas ao mesmo tempo que Leny tinha o exemplo e companheirismo de João Gilberto, ela se dividia entre outras inspirações e vertentes masculinas, como Wilson Simonal, Jorge Ben e Emílio Santiago. Mas ao adentrar na Bossa Nova, Leny provou que era Sambop, estilo totalmente diferente do estilo banquinho e violão. Um dos maiores desmentidos à história de que a bossa nova era cantar baixinho foi a entrada de Leny no movimento: cantar baixinho não era com ela. E mesmo assim, Leny foi a mais consagrada dentro desse time de cantoras extraordinárias. Miéle e Ronaldo Bôscoli foram os responsáveis pelo impacto da presença de Leny em solo brasileiro, quando produziram o histórico show Gemini V, que também contava com Pery Ribeiro e o Bossa Três. Depois disso, Leny percebeu que aqui não seria seu verdadeiro palco, embora saiba da sua responsabilidade em ser brasileira: o Brasil não a respeitaria como cantora, mulher e dona de uma das vozes mais autorais de seu tempo. Fez e faz sucesso nos Estados Unidos pelo conjunto da obra e lá o povo americano a reverencia como sendo a maior cantora de jazz do mundo.

Leny Andrade – uma cantora brasileira
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

sábado, 24 de junho de 2017

A importância de Markinhos Moura


Markinhos: a voz de 1980
Assim como Ney Matogrosso na década de 1970, Markinhos Moura foi o grande responsável por diversas baladas que embalaram pessoas de diversos gêneros na década de 1980, sendo a continuidade existencial de um rito que começou com Ney sobre a diversidade sexual que existe com mais veemência nos dias de hoje. A importância de Markinhos Moura na música, explorando esse lado sensual, mesmo que contido, mas com uma dramaticidade não efêmera e de grande porte, foi o mote central para que tenhamos hoje cantores com a sexualidade aflorada e suas diversidades acentuadas a tal ponto de que as pessoas não questionem sobre tal atitude. O mundo mudou seus conceitos sobre tudo e até a música teve o impacto generalizado por tal feitio e a postura desenvolta de Ney e a magnífica transposição contida de Markinhos foram o mote substancial diversificado mostrando a luta por um espaço que até então era massacrado e discriminado por muitos. Havia o preconceito escancarado e muitas vezes velado sobre os dois artistas, o que fazia com que ambos fossem massificados dentro de um sistema unilateral que os unissem dualmente. Enquanto Ney vinha com uma luva estampada na cara e com danças sensuais a cerca da exploração de seu corpo, Markinhos era o oposto e se mostrava de cara límpida e com passos contidos e simples acerca de sua dimensão artística. Aqui encontra-se o oposto entre dois artistas que buscavam um lugar de respeito mútuo dentro de seu espaço, o espaço que era caracterizado e concebido por meio da música e de sua importância para elencar o nível de suas representações. Markinhos Moura fora o grande sucessor de Ney na década seguinte a dele e, com a morte de Elis Regina em 1982, sua voz ficou ainda mais atrelada dentro do cancioneiro feminino, mas com um respeito digno das grandes estrelas. Se hoje temos Filipe Catto e Liniker, assim como o Não Renegados, devemos muito a competência exemplar de artistas como Ney e Markinhos, que exploraram de forma categorial a diversidade de gêneros com uma categoria impressionante e mediática que merecem respeito. Com enorme sucesso graças ao clássico Mel Mel, Markinhos se afastou da grande mídia, mas não deixou de ser o excelente cantor que é: o intérprete de Anjo Azul é destaque constante no Bar do Nelson, no bairro de Santa Cecília, onde recepciona e tem o sorriso cativante de ponta a ponta das orelhas. Ouvir Markinhos Moura é viajar no tempo, um tempo saudoso, cheio de alegria atemporal e que nos anestesiava por completo. Seu grande salto se deu em 1985, quando lançou o disco Diretrizes, mas foi em 1987 que sua música e voz de fato estouraram no Brasil inteiro, quando Meu Mel foi enfim imortalizada. Assim como altos e baixos, a vida do artista deu uma pequena derrapada e ele saiu de cena ainda na década de 1990, mas sem perder o brilho de sua carreira. Markinhos continua a cantar e muito: em 2010 lançou o antológico Mulheres e Canções, em que canta ao lado de cantoras como Verônica Ferriani, Zezé Motta, Fabiana Cozza e Maria Alcina. É digno que a juventude de hoje em dia conheça e saiba da importância desse grande cantor que fora enorme sucesso de público e crítica em uma época repleta de mistérios e ao mesmo tempo de um lirismo profundo e encantador.

A importância de Markinhos Moura
Por Marcelo Teixeira

domingo, 28 de maio de 2017

O samba de Criolo


Criolo e seus espirais de vida
Sempre digo que Criolo é o expoente do Brasil perdido, o elo entre aquilo que a comunidade mais necessitada quer dizer daquilo que a elite não quer ouvir. Criolo é o tipo raro de cantor de rap que deu certo em todas as esferas e camadas musicais justamente por fazer de sua música uma forte batida contra os preconceitos e desfavorecimentos daqueles que nada têm.  Lançando o excelente Espiral de Ilusões (2017 / Oloko Records / 29,90), o cantor dita as modas em seu um álbum de inéditas que flerta com o samba em uma batida sincopada de alegorias sincronizadas e batidinhas de palmas eletrizantes. Nesse novo trabalho, o artista deu voz a dez faixas e segue o caminho inverso com relação ao seu último e bem recebido disco, o maravilhoso e pomposo Convoque Seu Buda (2014). Vale lembrar que hoje, no Brasil, são poucos os artistas nas quais esperamos discos de inéditas e Criolo enquadra-se nesse seleto grupo de competentes cantores nacionais. Espiral de Ilusões é um disco inteiramente voltado ao samba, reduto de sua infância no subúrbio Grajaú, aqui na zona sul de São Paulo e cujo Criolo já manifestara desejo em fazê-lo. No disco há de tudo um pouco: de racismo a política passando por discussões entre casais até na acalorada e prolífica redenção dos dias de hoje em que estamos vivendo, Criolo soube dar valor e vida aos personagens ocultos em músicas como Menino Mimado, Filha do Maneco ou Cria de Favela. Depois de ter suas capas em discos de cantores consagrados como Clara Nunes, Paulinho da Viola, Elis Regina e Chico Buarque, Elifas Andreato capricha nos detalhes da capa de Espiral, dando vida ao menino que se tornou homem chamado Kleber Cavalcante Gomes. Detalhando cada passo andado em seu habitat natural do passado, o cantor conseguiu exprimir todos os lados de sua formação social e humana para chegar com maestria a um disco sensacional, emocionado e que tem o samba como seta principal para dilacerar e formar um espiral em seu coração.

Espiral de Ilusões (2017) / Criolo
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Elis, trilha sonora do filme: mais uma obra de baú


Elis: CD de baú
Salvo pela ótima e excepcional interpretação de Andréia Horta, o filme Elis (2016) não tem nada de especial. Venhamos e convenhamos que o filme é mais um musical do que um filme propriamente dito, em que contasse as verdades de Elis, os julgamentos pessoais, o verdadeiro nascimento de uma estrela, seus verdadeiros amigos, suas inimizades musicais e pessoais, o caloroso amor por Milton Nascimento, a relação com os filhos, o desafeto com Tom Jobim e Chico Buarque, o rancor por Nara Leão e Maria Bethânia, o amor incondicional por Rita Lee e Gal Costa e o amor platônico por Clara Nunes. Cadê Tim Maia? Cadê Samuel Wainer, seu último namorado e que a vira estirada no chão do apartamento da rua Doutor Mello Alves, nos Jardins? Cadê a verdadeira história? Não houve nada disso e o público fora subestimado a assistir um musical reproduzido dos palcos brasileiros para as telonas. A qualidade do filme é excelente, as cenas são primorosas, a luz está perfeita, a direção foi impecável, mas o essencial faltou: não retrataram a vida de Elis conforme o enunciado. Trataram seu lado musical. Esqueceram de colocar suas famosas entrevistas, suas diversas frases de efeito moral, seus pensamentos acerca da música, seu carinho por João Bosco. E cadê a passagem com as drogas? Cadê o envolvimento rápido e conturbado com Fábio Junior e Guilherme Arantes? Não houve nada disso. Para além do filme houve o acontecimento rápido de se lançar um disco: tudo foi proposital. Primeiro lançam o filme mediano e em seguida um CD com os melhores sucessos da cantora. É sempre assim. Mas não trata-se de um grande filme (reitero que a interpretação de Andréia Horta e a direção estão impecáveis, mas faltaram argumentos para ser o filme do ano) e não trata-se de um grande disco. As prateleiras terão apenas mais um disco de coletâneas de Elis Regina com uma capa diferente. Porém, o que não foi retratado civilizadamente no filme foi colocado propositadamente no disco, como a faixa em que Nara Leão canta Borandá (1964) e Cartola interpretando O sol nascerá, registro também de 1964. Se a intenção era fazer um filme para homenagear uma das maiores cantoras do Brasil, o tiro saiu pela culatra, porque falta informação decente e coerente para com a artista que revolucionou a música brasileira e se tornou uma das maiores vozes do mundo através de sua garra e determinação. Faltou entusiasmo, carisma e o principal: a vida da artista. Para quem acompanha a carreira da cantora certamente ficou descontente com o resultado final, mas a ideia  central aqui é resgatar Elis para o público novo, para que sua imagem seja lembrada à nova geração. Portanto, tudo errado na diagramação de Elis. Por que não fizeram tal qual o filme Piaf – Um Hino ao Amor, em que retrataram fielmente sua ascensão e sua decadência, seus amores impossíveis e nostálgicos? Tanto tentaram camuflar a vida de Elis e seus turbulentos momentos de crise que o filme logo cairá no esquecimento e o CD com a trilha sonora logo será artigo de arquivo no baú.


Elis – o filme (trilha musical)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Chico Buarque de Hollanda Volume 1 - 50 anos depois


Chico e o primeiro LP: 1966 - 2016
Bastaram as canções que já havia composto durante a primeira metade dos anos de 1960 para que Chico Buarque recheasse Chico Buarque de Hollanda (1966 / RGE / 26,99), seu primeiro disco, lançado em dezembro de 1966. Fora isso, ainda sobraram duas músicas para o álbum seguinte. Essas composições iniciais vêm carregadas de um lirismo nostálgico e de uma riqueza poética que, logo de cara, caíram nas graças do público e de boa parte da crítica. A faixa A Banda, que pouco antes vencera o II Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, tornou-se um hit instântaneo, uma mania nacional cantada em cada canto do Brasil por gente de todas as idades. O disco de fato é fundamental em qualquer antologia da moderna MPB e suas músicas, dotadas de recursos poéticos inovadores para a época e de extrema originalidade melódica, colocam o samba urbano num novo e elevadíssimo patamar de qualidade. Chico Buarque tinha apenas 20 anos e uma timidez ainda não muito bem equacionada, um rosto juvenil, iluminado por olhos de um verde transparente. Ainda não tivera a chance de conhecer a mulher de sua vida (este artigo será postado em 2017), mas ele sabia de sua importância dentro dos festivais que assolavam o país de canto a canto. A Banda, interpretada por ele e Nara Leão, conquistou o primeiro lugar em Outubro de 1966, dividindo o lugar com Disparada, de autoria de Theo de Barros e Geraldo Vandré, magnificamente defendida e interpretada por Jair Rodrigues, que logo mais seria parceiro e amigo de Elis Regina no programa O Fino da Bossa. A Banda rendeu a Chico Buarque o status de cantor do ano, o intelectual do momento e vários artistas voltaram suas atenções para aquele rapazinho timido. Carlos Drummond de Andrade, o poeta mais respeitado de todos os tempos, soltou a pérola frase que venha outra banda. Nada mal para um novato nos palcos. A Banda rendeu ainda a Chico seu primeiro programa na TV brasileira, chamado Pra Ver a Banda Passar, em dupla com Nara Leão. A timidez de ambos era tanta que Manoel Carlos lhes sapecou o título de os maiores desanimadores de auditório da televisão brasileira.  O disco lançado em 1966 vendeu pouco mais de 100 mil cópias, um feito e tanto para a época e a causa desse sucesso estrondoso de fato fora a intepretação de dois cantores que tinham a sintonia em primeiro plano. A Banda é um divisor de águas na vida e na carreira de Chico Buarque e dali em diante nenhum dos dois, Chico e Nara, jamais seriam os mesmos. O mesmo se aplica para a MPB e, de certa forma, para o próprio Brasil.

Chico Buarque de Hollanda 1, como ficaria conhecido o disco, foi produzido apenas com o estoque de boas canções que Chico já havia composto. Praticamente todas as suas faixas têm em comum um lirismo nostálgico e comovente. Muito mais que isso, o disco eleva a tradição do samba urbano a um novo patamar poético. As letras, além de originais, têm uma arquitetura musical primorosa. O compositor, de certo modo, resgata a tradição dos melhores letristas cariocas, como Noel Rosa e Wilson Btista e tempera-a com ingredientes da Bossa Nova. Chico venerava esse movimento e seus expoentes – em especial João Gilberto, com que sua irmã, Miúcha, se casou um ano antes. Mas logo se esquivou da bossa nova e desenvolveu o seu próprio estilo. O samba, aqui neste disco, não só é um ritmo: é um tema recorrente que pode ser avordado por uma ótica melancólica, como em Sonho de Um Carnaval, que o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré interpretou para Chico no I Festival da Record. O efusivo Meu Refrão e o socialmente engajado Tem Mais Samba são obras-primas relicárias e Chico considera esta última, composta em 1964, o marco-zero de sua carreira. A tocante Olé Olá, outra joia do disco, é um samba-canção carregado de saudosismo e desconforto, dotado de uma harmonia sofisticadíssima. Fora nesse tempo que Caetano Veloso conhecera Chico Buarque em 1965, enquanto o carioca cantava trechos de Olé Olá (cantado mais tarde por Maria Bethânia) no teatro e disse à época que tinha conhecido um cara que era a coisa mais linda.

Em Chico Buarque de Hollanda 1 a leveza e a alegria ficam por conta de três composições, curiosamente todas batizadas com nomes próprios: Juca, A Rita e Madalena Foi pro Mar. A primeira, quase um samba de breque, foi composta após a polícia ter sido chamada ao bar em que Chico e seus amigos se entregavam à cantoria sem muita atenção aos decibéis. Essas noitadas musicais em São Paulo foram sistematicamente batizadas de sambafos. A Rita é um bem humurado samba-canção que exalta a capacidade das mulheres de devastar corações masculinos. Madalena Foi pro Mar é outro lamento quase debochado de um homem deixado na mão por sua amada. De todas essas, A Rita ganhou diversas regravações, sendo a mais importante defendida por Gal Costa.

Nenhuma dessas canções, no entanto, sequer se aproxima do alvoroço e sucesso desencandeados por A Banda: com sua irresistível doçra, ela cativou o público, conquistou a crítica e transformou em fãs de Chico mesmo os espíritos mais avessos a sua figura.  Um desses espíritos era o genioso escritor, dramaturgo e cronista esportivo carioca Nelson Rodrigues, cujos comentários e tiradas mordazes eram temidos tanto por craques dos gramados quanto dos palcos. Mas Nelson gostou tanto de Chico e, em especial da música, que disse em artigo que A Banda era uma marchinha genial.

E lá se completa 50 anos do lançamento do antológico disco Chico Buarque de Hollanda 1, disco que praticamente nasceu pronto, sem redomas e com certa timidez, carregado na sobriedade de um Chico Buarque novinho em folha e acompanhado de uma grande cantora que o inspirara a vencer o primeiro grande desafio: Nara Leão.

 

Chico Buarque de Hollanda Volume 1 – 50 anos depois
Por Marcelo Teixeira

sábado, 30 de julho de 2016

Liniker - cantor e cantora ao mesmo tempo!


Liniker: ousadia e novidade em 2016
Sempre venho batendo na mesma tecla de que a música popular brasileira precisa de renovação e essa renovação não está apenas no sentido figurado de cantar, de compor ou de estar presente na representação conjunta de todo o conteúdo formal de musicalidade. É preciso uma reinventação única, capaz de nos hipnotizar, nos impactar, nos catalisar numa singela força de expressão, que nos faça arregar os olhos, abrirmos as bocas, arrepiar nossas peles e nos fazer sairmos do espetáculo com a mente inquieta, insana, cheia de música boa e com imagens jamais repartidas, quebradas ou esquecidas. Liniker nasceu homem, se comporta como homem, tem voz de homem e se apresenta como homem transvestido de mulher. Não chega a ser uma aberração para ninguém, mas Liniker soube provocar a ira de muitas pessoas ao se apresentar numa forma espontânea, capaz de nos prender o fôlego e prender a respiração tamanha a sua participação no palco, na música que canta e naquilo que produz. Liniker nasceu com o nome Liniker e é esse mesmo nome que o consagrou para que a música o revelasse ao Brasil com toda a sua formosura e sua docilidade em poder cantar suas canções numa totalidade máxima entre o prazer e o sabor de cada palavra soltada ao vento. A plateia delira, os músicos se rebelam ao bel-prazer geral e todos entram no clima. Sendo um misto de tudo aquilo que o Brasil já produziu de bom e da melhor qualidade artística, Liniker é o cantor de protesto que mais bem representa, nos dias de hoje, a sua verve artística, não se comparando com o fenomenal Filipe Catto e muito menos com o cafona Johnny Hooker. Ele é mais do que isso e seu testamento é maior que sua veia musical. Liniker pode ser uma miscelânea de tudo aquilo que já vimos anteriormente: um pouco de Luiz Melodia, uma pitada generosa de Itamar Assumpção, um sal de Maria Bethânia, um doce de Gonzaguinha, um gosto de Tulipa Ruiz, um  tempero de Rita Lee, uma gosto de Sandra Sá, um bocado de Tim Maia, um pedaço de Clara Nunes, um sorisso de Elis Regina, um canto Dolores Duran. Liniker é uma surpresa notória dentro da MPB e seu canto ecoará por muitos anos e ultrapassará fronteiras. É um cantor de verdade, com vontade própria, luz própria, sentimentos próprios e com carisma de artista generoso. O seu jeito feminino de cantar não assusta, pois sua música é muito maior que qualquer vestimenta ou adereço peculiar. Liniker é um cantor que já nasceu pronto, que tem astúsia pronta e que precisa ser ouvido o mais depressa possível.

Liniker – cantor e cantora ao mesmo tempo
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Bang de Anitta



 



Sucessos descartados

Não existe comparação de Anitta com nenhuma outra cantora brasileira em atividade hoje em dia. E nem poderia existir porque Anitta é única e exclusiva: apenas ela consegue ser ela. E ela consegue ser melhor cantando do que falando, cantando do que dando entrevistas, cantando do que fazendo qualquer coisa. Mesmo que sua especialidade não seja a voz e nem a mente, Anitta se sobressai apenas com seus glúteos avantajados (Freud poderia explicar isso!). E só. Mas não posso deixar de dizer que Bang (2016 / Warner Music / 28,99), sua nova produção, é legalzinha dentro dos padrões do pop nacional. Mas as únicas músicas que se superam nesse disco é a faixa título e a número dois, Deixa ele sofrer, porque as outras faixas são de uma tristeza que só: músicas que não nos leva a lugar nenhum em questão de intelectualidade e/ou musicalidade. Óbvio que Anitta não é uma cantora que foi produzida para ser a musa da MPB e nem pensaram na possibilidade de fazer dela uma nova Elis Regina ou Gal Costa e, por esse mesmo motivo, a cantora consegue ser autoral naquilo que faz, consegue ser ingênua em suas entrevistas e muito sincera em suas opinões e, talvez por isso e nesse quesito, seja melhor ouvir suas músicas. Anitta é o tipo de cantora que precisa se conhecer mais e estar mais antenada com o mundo que gira ao seu redor e mesmo sabendo que isso poderá demorar muito para acontecer, ela parece que prefere ficar nesse mundinho pop fashion que não enriquece a ninguém culturalmente. Porém, preciso ressaltar aqui que a cantora consegue dar a volta por cima e lançar discos cada vez mais audaciosos, dispostos a estarem em primeiro lugar nas paradas de sucesso e a angariar status de diva da música popular brasileira. Anitta é a favorita de dez entre dez jovens e passou a ser a nova queridinha do momento glamour. Mesmo não cantando nada, a cantora mais esboça seu corpo do que canta suas músicas e isso não é um defeito maior, até porque Anitta passou a ter corpo para poder exibir nacionalmente. Mas o que peca aqui é a qualidade musical de seu novo álbum: apenas Bang consegue ser atraente, nada mais do disco é atrativo e isso se prova nas estações de rádio e programas de TV. Com várias participações especiais, Bang passa a ser o melhor da carreira da cantora por ser o mais bem produzido, o melhor adaptado, o mais hermético e o que traz uma sonoridade mais explícita de Anitta. Mas quem ouve Bang por inteiro logo pára para poder pincelar músicas antigas de sua carreira. De fato e tediosamente, a cantora consegue ser uma diva daquilo que produz, mas o que Anitta precisa entender é que as divas tropeçam, caem, se machucam, erram e umas nem levantam com o tempo.

 

Bang / Anitta
Nota 7
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por que sou crítico? Uma reflexão sobre a minha arte de criticar


A minha arte de criticar música
A minha função como crítico de música é o de criticar, patrocinar a divulgação de um cantor e estar atento às novidades que os mesmos produzem, seja ele ruim ou excelente, canhestro ou bom, atemporal ou desanimador, estimulador ou inquieto, arrogante ou cristalino. Enquanto houver cantoras e sejam elas boas, medianas, ruins ou excelentes, meu papel aqui é o de criticar. Critico porque há a necessidade plural de uma sinceridade justa dentro de um contexto ideológico e que muitos precisam saber. Há a benevolência de uma magnitude singular que persiste estar antenado com o que há de novo e o que há de antigo, mesmo lembrando que o antigo muitas vezes é melhor aguçado que o novo e que o novo é sempre possível de mudanças ou reparações. Pensando por outro lado, temos que pensar no futuro da música, no futuro das cantoras e dos cantores, no futuro de um estilo que fale a nossa língua, a nossa ética, a nossa relevância, o nosso amanhã. Qual será o destino do CD físico? Ele vai sobreviver por muito tempo? Podemos dizer com toda a certeza que o estilo A não comporta com o estilo D, que, por sua vez, está interligado com o estilo de vida da classe B, mas que possui características físicas da classe dominante Z, que, por outro lado, tem formas e estilos formais da classe oriunda que perpetua o universo C? Óbvio que não! Mas podemos ter uma ideia ou percepção daquilo que está por vir, tendo em vista o cenário da música brasileira atual. Chico Buarque, grande compositor de excelentes clássicos nacionais, disse recentemente que o cenário da música atual reflete o Brasil atual. Ele está coberto de razão: os grandes barões da música financiam o grande capitalismo cultural, fazendo com que a massa não venha intervir em seus negócios. Quando será que nascerá de novo um Pixinguinha, um Paulinho da Viola, uma Elis, uma Clara, uma Gal ou até mesmo Caetanos, Miltons e Djavans? A música atual pede socorro e não mais passagem, porque ela adentra em nossa casa sem ao menos pedir licença. Apenas invade. Invade nosso espaço, invade nosso cérebro, invade nossa paz. E muitos críticos de música acabam caindo ou se rendendo ao sistema burocrático da verba ilícita para ajudar a patrocinar esses estilos difundidos pelos quatro cantos do país. Ser crítico é ser persistente na melhoria de algo e, no meu caso, insisto na melhoria da música brasileira por um todo. Precisa-se ter ética, postura. Precisamos descobrir mais cantoras, sem esquecer as do século passado e incluindo as atuais. Precisamos de mais cantores de qualidade exorbitante, pensando na junção destes atuais com os antigos e com os que virão. Ser crítico é saber respeitar o outro, saber distinguir que o que ele lançou hoje pode ser bom, mas que amanhã pode ser melhorado. Ser crítico é estarmos com o coração nas mãos a procura de uma nova voz para que possamos compartilhar. Ser crítico é ter olhar e sentimentos verdadeiros. E ser verdadeiro é ser crítico. Por que escrevo isso para vocês? Porque recebi uns e-mails recentemente de leitores e amigos que falam que escrevo com sinceridade e certeza. E para vocês eu respondo: não preciso agradar a ninguém para ser crítico. Portanto, o cantor precisa ter o termômetro de uma pessoa crítica, progressista e que lhe faça dizer: não estou aqui para passar-lhe a mão na cabeça, mas sim para ajudar na qualidade musical do Brasil. E é por isso que insisto em criticar a música.

 

Por que sou crítico?
Uma reflexão sobre a minha arte de criticar.
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar: uma bela homenagem


Bela homenagem
Nonato Buzar morreu em fevereiro do ano passado e deixou uma legião de canções imortalizadas nas vozes de Elis Regina, Maysa, Jair Rodrigues, Nana Caymmi, João Nogueira, Alcione e tantas outras personalidades importantes da nossa música nacional. Pouco se fala no cantor e compositor maranhense hoje em dia e muito de sua obra acabou sendo esquecida. Nenhum cantor ou cantora se debruçou para dedicar um disco inteiramente ao cancioneiro de Nonato e a cantora Sandra Duailibe, conterrânea de Nonato, teve a brilhante ideia em fazer jus às músicas desse grande artista brasileiro. Sandra Duailibe canta Nonato Buzar (2015 / 24,99) é um disco sensacional, com uma qualidade incrível na seleção de músicas e com a voz cristalina da cantora, que canta mais e melhor neste belo disco. Quinto disco da carreira de Sandra, esse tem um diferencial: além de ser um disco em forma de homenagem, a cantora transpassa uma energia positiva tão animadora, que fica difícil não dizer que Nonato está tendo essa felicidade também no plano de cima. As músicas selecionadas aqui rechaçam a ideia da capacidade poética e magnifica de Nonato, que conseguia transmitir beleza e garra, sensualidade e sofisticação, harmonia e fina flor. Sandra é uma das damas da música popular brasileira e sua voz cristalina é uma rica e poderosa arma a favor de sua musicalidade. Precisamos ouvir Sandra Duailibe, precisamos conhecer seu talento, seu trabalho, sua forma de expressar a qualidade de sua música. Seu mais novo CD é a articulação viva e real de que a música popular tem qualidade, tem um propósito, uma significação e uma reza.

 

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar / Sandra Duailibe
Nota 10
Marcelo Teixeira