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domingo, 30 de setembro de 2018

A morte da maior cantora do Brasil: Ângela Maria

Luto pela dama 
Hoje estamos órfãos! Órfãos de uma grande voz, de uma grande cantora que estava no auge de seus 89 anos e na ativa, nos palcos, ao lado do seu público, da sua gente, da mocidade, das pessoas, de todos. Órfãos! Quando uma grande cantora morre, a responsabilidade daqueles que ficaram é preservar sua imagem, sua voz, reverenciar dia após dias o seu legado e não deixar que sua obra também morra. Morreu Ângela Maria, a cantora que influenciou Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Simone e uma infinidade de cantoras. Morreu Ângela Maria, a última cantora do rádio, a amiga de Carmen Miranda, de Cauby Peixoto, de Agnaldo Timóteo. Perdemos uma cantora de qualidade, de respeito, de carisma, que tinha um respeito imenso pela música e pelo seu instrumento principal: a voz! Morreu querendo estar nos palcos, morreu querendo cantar, morreu se preocupando com seus fãs.

Ângela era a maior cantora viva desse país chamado Brasil, com uma trajetória invejável. Aos 89, com mais de 115 discos gravados, mais de 60 milhões vendidos, caminhava entre as melodias e letras que por si compõem a história de ao menos 70 anos de MPB. De Hervilton Martins e Roberto Carlos a Cazuza, cantou as dores, os amores, as alegrias e as tristezas para muitas gerações e sempre com uma entonação de emoção.

A artista Ângela Maria era um motor humano que não parava um segundo. Mesmo com as dificuldades de visão e outras que acumulam com o passar dos anos, não parava com seus shows e os planos para o ano em que completaria 90 anos. Gostava de cantar, gostava de estar rodeada de amigos e gostava de ouvir atentamente cada faixa antes de gravar. Gente Humilde, de Chico Buarque, foi uma dessas conquistas selecionadas a dedo (ou ao ouvido). Chega a ser um mantra aos nossos sentimentos mais humanos ouvir essa obra-prima e não pensar na delicadeza e na doçura de Ângela Maria em sua plena vocação.

Depois de 34 dias agonizando em um hospital particular em São Paulo, a ilustre cantora descansou. Mas sua voz marcante, doce, pura, cristalina e sutil e sua simpatia e cordialidade estarão sempre presentes em nossas vidas!
Descanse, DAMA ÂNGELA MARIA!

A morte de Ângela Maria
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de outubro de 2016

A obra, o legado, a decadência e o mito Raul Seixas


Raul: mito do Rock
Raul Seixas morreu em agosto de 1989, derrubado pelos excessos. Deixou músicas que se tornaram hinos à rebeldia e à inconformidade com as coisas caretas do mundo e milhares de fãs desolados. Gente de todos os tipos choraram sua partida, desde ricos, pobres, caminhoneiros, roqueiros, urbanóides, sertanejos e estudantes. Raul não tinha rótulos, embora o rock estivesse em sua veia, mas o cantor passeio pelo baião, pelo samba e pelas baladas, compondo pérolas como Rock das Aranhas, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone, entre tantas outras maravilhas. Mas o que esperar de um garoto problemático que cresce ouvindo Elvis Presley, Luiz Gonzaga, Chuck Berry e Jackson do Pandeiro? Raul transitava por todas as searas musicais, dizendo que não tinha um título que o rotulasse. Gostava de Genival Lacerda, mas também admirava Cauby Peixoto. Nascido na Bahia em 1945, Raul Seixas gostava mesmo era de intimidar as pessoas com suas tiradas e sacadas geniais. Várias de suas músicas foram censuradas pela Ditadura Militar, algumas foram engavetadas para uma gravação futura, outras tiveram que ter letras trocadas para não serem grampeadas pelo governo. Seu primeiro disco foi lançado em 1986, com o título de Rauzito e os Panteras, pela EMI-Odeon, não sendo um grande sucesso de público e muito menos de crítica. Com tanta desilusão musical, o cantor desfez a banda e voltou aos estudos, no curso de Filosofia. Não tardou muito e o cantor voltou à música, em 1972, inscrevendo-se para o VII Festival Internacional da Canção, classificando aqui duas músicas que se tornariam hinos consagrados: Let me Sing, Let me Sing e Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo. Através dessa classificação sensacional, o cantor e agora compositor reconhecido é contratado pela grande gravadora, a Phillips. Com sua ida à Phillips, Raul deparou-se com um escritor fracassado, metido a bruxo e com um lado místico efervescente: Paulo Coelho, que acreditava em discos voadores e extraterrestres. Através desse encontro, a vida de ambos, cantor e escritor, passa por uma transformação avassaladora: eis a parceria mais importante da música popular brasileira. Em 1973 lança sua mais pura perfeita tradução musical com Ouro de Tolo e a irônica e zombeteira Mosca na Sopa. Perseguido pelos militares em 1974, Raul exila-se nos Estados Unidos e mais uma vez é surpreendido pelo acontecimento histórico e inacreditável: o encontro com o ícone da música americana John Lennon. Volta ao Brasil no mesmo ano e compõe Sociedade Alternativa, O Trem das Sete e Gita, que se transformou em um disco antológico. Mas nem tudo eram flores na vida musical de Raul e, por esse motivo, em 1975 lança Novo Aeon, um disco fraco e que vendeu muito pouco, deixando a todos os empresários cabisbaixos, mas a qualidade desse disco é igual ou melhor que o de 1974. É nesse disco que se encontra um dos maiores selos românticos da obra do cantor: A Maçã. Já em 1977 lança O Dia em que a Terra Parou, compondo ao lado de Cláudio Roberto o hino hippie Maluco Beleza e que, por consequência disso, passa a ser o apelido de Raul. Esse disco passa a ser uma obra-prima também para o próprio Raul, pois Gilberto Gil dá uma canja no violão na música Que Luz é essa? Em 1978 lança Mata Virgem e retoma a parceria com o escritor Paulo Coelho, que estava meio estremecida desde 1975. Deprimido com público e crítica que rejeitaram seu disco Por quem os Sinos Dobram (1979), Raul exagera no consumo de bebidas e drogas, onde passa por várias internações e perde metade do pâncreas em uma cirurgia. Apesar dos problemas pessoais, o cantor volta com carga total e lança um mediano álbum, Abre-te Sésamo (1980), com relíquias como Anos 80 e Rock das Aranhas. Tendo uma boa repercussão por causa desse disco, Raul inicia uma pequena turnê pelo interior de São Paulo, preferindo apresentar-se em cidades pequenas, levando sua arte àqueles que não podiam ir aos seus shows de grandes proporções. Essa iniciativa não deu tão certo assim, embora a crítica o aplaudisse de pé: o cantor era visto bêbado nas padarias, sempre ao lado de um copo. Raras vezes o encontravam com um bloquinho e uma caneta rabiscando alguma música. Desse bloquinho ainda surtiram efeito de luz no fim do túnel e Raul põe no mercado, agora pelo selo Eldorado, o disco Raul Seixas, que conseguiu emplacar Carimbador Maluco e a música infantil Plunct-Plact-Zumm. Já em 1984, o cantor lança Metrô Linha 743, pela Som Livre, que teve uma música censurada: Mamãe Eu Não Queria (Servir o Exército).  Depois desse disco e sendo cada vez mais chamado de Maluco Beleza, Raul passaria por outras gravadoras e isso virou piada entre o meio musical, pois mostrava a já decadência do artista. Porém, em 1987, no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Bém-Bum!, pela Copacabana, nasceu um de seus últimos hinos: a bela Cowboy Fora da Lei. O ano de 1988 não começou bom para o cantor, que vinha se tratando de vários problemas relacionados a álcool e lança um disco mais fraco que o de início de carreira, em 1968 e o de 1979. A Pedra do Gênesis (1988) foi muito mal recebida por todos e Raul decide-se se isolar por completo. Mas graças ao amigo e cantor Marcelo Nova (nesse tempo, Paulo Coelho já estava afastado de Raul), o convence a gravar novamente. O último disco da carreira de Raul chama-se A Panela do Diabo (1989), sendo um convite a sua saída derradeira aos 44 anos de idade e sendo um ícone da música nacional brasileira. O grande legado que Raul Seixas deixa para a música contemporânea é o seu mundo representado por músicas místicas envolvidas por ritmos até então nunca imaginadas juntas.  Raul não fora apenas um cantor que ministrou o baião, o samba e o rock no mesmo palco, mas sim, um grande cantor que estava desenhando o seu mundo imaginário através daquilo que achava justo e correto cantar.

 

O legado de Raul Seixas
Por Marcelo Teixeira

 

domingo, 22 de maio de 2016

Adeus, Cauby!


Cauby: eterno
A maior voz do Brasil se calou! Fecham-se as cortinas, cessam-se as palmas, entristecem as mulheres, choram os homens. As gargantas eclodem naquela vontade desesperada de chorar. Feliz daquele que pôde conhecer a obra fenomenal de Cauby Peixoto. Feliz daquele que pôde ouvi-lo cantar suas maiores canções. Feliz daquele que soube que foi feliz por vê-lo apenas falar. Cauby era mais que um cantor, era maior que sua própria vida, maior que sua própria personalidade. Era culto, refinado, ímpar. Era Cauby. O Cauby da Conceição, o Cauby da Ângela, o Cauby da Maria. Mas era também o Cauby do José, do Pedro e do Severino. Era o nosso Cauby. O Cauby que para algumas pessoas desse século puderam respeitar,admirar e ouvir. A juventude digital deu ao cantor toda a sua glória, todo o seu glamour, todo o seu prestígio. Cauby era admirado por todos e mesmo não sendo um cantor que vendesse milhares de discos nas últimas décadas, era reconhecido como o cantor das melhores vozes deste país. Morreu Cauby. O último cantor do Brasil que era romântico, fiel às suas origens, disciplinado com seus músicos, respeitado pelas crianças, adorado pelas avós, inquieto com suas fãs e com a juventude por querer mostrar-lhes e ensinar-lhes aquilo que viveram décadas atrás. Cauby Peixoto era o último grande cantor dos teatros de revista, dos palcos com gliter, dos ternos coloridos, das perucas diversas. Morreu Cauby, mas não sua essência. Seu brilho continuará e sua voz não se calará porque Cauby é eterno. E ele há de estar nos olhando lá de cima dizendo cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim...

 

Simplesmente Cauby!
Por Marcelo Teixeira

domingo, 14 de setembro de 2014

As releituras de Mônica Salmaso em Corpo de Baile (2014)


Ótimas releituras
O penúltimo disco de Mônica Salmaso, Alma Lírica Brasileira, lançado em 2011, foi passado desapercebido pelo grande público e pela crítica especializada e acabou sendo um disco qualquer na sublime carreira da cantora, mesmo sendo esse disco um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Teve Adoniran Barbosa, José Miguel Wisnik, Paulo Vanzolini e o sambinha de Herivelto Martins, Meu rádio e meu mulato, mas o disco não emplacou. Agora a cantora acaba de lançar um dos discos mais nobres de sua carreira. Corpo de Baile (2014 / Biscoito Fino / 31,99) é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica. Destaques para a lindíssima Porto Araújo, já cantada brilhantemente pela cantora Simone Guimarães em seu disco Virada pra Lua (2001) e Bolero de Satã, imortalizada na voz de Elis Regina, que no disco Elis, Essa Mulher (1979) cantou ao lado de Cauby Peixoto. Recentemente, a cantora e filha de Elis, Maria Rita, deu um banho de interpretação nesta mesma música, pouco gravada do cancioneiro de uma das maiores vozes do Brasil. Quase todos os discos de Mônica são um convite para que possamos crer que a música popular brasileira está a salvo e Corpo de Baile prova mais que isso: que a música de dois gênios da música está para ser ouvida por todos e em todos os cantos. Mônica Salmaso apenas deu um verniz e explicou a importância de Guinga e Paulo César Pinheiro dentro da MPB. Corpo de Baile é um disco que merece ser ouvido. E respeitado!


Corpo de Baile / Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Viva Cauby!


 

Cauby Peixoto: o Rei
Com 81 anos de idade, Cauby Peixoto ainda está na ativa – para a nossa eterna felicidade! Voz caracterizada pelo timbre grave e aveludado, mas principalmente pelo estilo dândi, que inclui figurinos e penteados excêntricos, Cauby está em atividade desde a década de 1940, aonde é conhecido no meio artístico como Professor. A família tinha a música no sangue; o pai tocava violão e a mãe bandolim; os irmãos eram instrumentistas, e o tio grande pianista. Foi considerado pelas revistas Time and Life como: O Elvis Presley brasileiro. Convidado para uma excursão aos EUA, onde gravou, com nome artístico de Ron Coby, um LP com a orquestra de Paul Weston, cantando em inglês. De volta ao Brasil, comprou, em sociedade com os irmãos, a boate carioca Drink, passando a se dedicar mais a administração da casa e interrompendo, assim, suas apresentações.

Em 1980, em comemoração aos 25 anos de carreira, lançou pela Som Livre o disco Cauby, Cauby, cujo é o melhor de sua carreira, com composições escritas especialmente para ele por Caetano Veloso (Cauby, Cauby), Chico Buarque (Bastidores), Tom Jobim (Oficina), Roberto Carlos e Erasmo Carlos (Brigas de amor) e outros. Bastidores, particularmente, se converteria em um dos maiores sucessos do repertório do cantor. No mesmo ano, apresentou-se nos espetáculos Bastidores (Funarte, Rio de Janeiro) e Cauby, Cauby, os bons tempos voltaram, na boate Flag (SP).

Em 1982 uma temporada no 150 Night Club (SP), com os irmãos Moacir (piano) e Araquem (piston) e lançou o LP Ângela e Cauby, o primeiro encontro dos dois cantores em disco, com sucessos como Começaria tudo outra vez (Gonzaguinha), Contigo aprendi (Armando Manzanero), Recuerdos de Ipacaray (Z. de Mirkin e Demetrio Ortiz) e a valsa Boa-noite, amor (José Maria de Abreu e Francisco Matoso).

Em 1989, os 35 anos de carreira foram comemorados no bar e restaurante A Baiuca (São Paulo), ao lado dos irmãos Moacir, Araquem, Iracema e Andiara (vozes). No mesmo ano, a RGE relançou o LP Quando os Peixotos se encontram, de 1957. Em 1993 foi o grande homenageado, ao lado de Ângela Maria, no Prêmio Sharp. Foi lançada pela Columbia caixa com 2 CDs abrangendo as gravações de 1953 a 1959, com sucessos como Conceição entre outros.

Atualmente, apresenta-se nas noites de segunda-feira no Bar Brahma, tradicional templo da boemia paulistana, localizado na mais famosa esquina brasileira (av. Ipiranga com São João, em São Paulo, Brasil), em temporada que já dura há mais de oito anos, com ingressos concorridos.

Não é a toa que Cauby é Cauby. Teatros lotados, bares repletos de pessoas ansiados por vê-lo e a mesma desenvoltura de um garoto de quinze anos, mas com a sabedoria de um senhor que nos ensinou tudo dos bastidores da vida através de um único gesto: respeito!

 

Viva Cauby!

Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

11º Maior Cantora do Brasil: Ângela Maria


Ângela Maria, a Diva
Abelim Maria da Cunha, verdadeiro nome de Ângela Maria, nasceu em Macaé, RJ, em 13 de maio de 1928. Filha de pastor protestante, passou a infância nas cidades fluminenses de Niterói, São Gonçalo e São João de Meriti, e desde menina cantava em coro de igrejas. Foi operária tecelã, mas sonhava com o radio, embora a família – por princípios religiosos – fosse contra a carreira artística. Por volta de 1947, começou a frequentar programas de calouros. Apresentou-se no Pescando Estrelas, de Arnaldo Amaral, na Radio Clube do Brasil (hoje Mundial), na Hora do Pato, de Jorge Curi, na Radio Nacional, e no programa de calouros de Ari Barroso, na Rádio Tupi. Usando o nome de Ângela Maria, para não ser descoberta pela família, participou também do Trem da Alegria, dirigido pelo Trio de Osso (os magérrimos Lamartine Babo, Iara Sales e Heber de Bôscoli), na Radio Nacional. Logo sua voz foi se tornando conhecida dos ouvintes, o que dificultou sua participação nesses programas, pois ela estava deixando de ser caloura. Nessa época, era inspetora de lâmpadas numa fabrica da General Eletric e, decidindo tentar realmente a carreira de cantora, abandonou a família e foi morar com uma irmã no subúrbio de Bonsucesso. Em 1948 conseguiu lançar-se como crooner no Dancing Avenida. Em sua noite de estreia, cantou Olhos verdes (Herivelto Martins e Benedito Lacerda). No dancing, foi ouvida pelos compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira Filho, que a apresentaram a Gilberto Martins, diretor da Radio Mayrink Veiga. Feito o teste, começou carreira na emissora, interpretando musicas de Othon Russo e Ciro Monteiro, compositores que a ajudaram a criar um repertório pessoal, abandonando a influência de Dalva de Oliveira.

Firmando-se a partir de 1950 como intérprete, em 1951 estreou em disco com Sou feliz (Augusto Mesquita e Ari Monteiro) e Quando alguém vai embora (Ciro Monteiro e Dias Cruz), na Victor. No ano seguinte, sua gravação do samba Não tenho você (Paulo Marques e Ari Monteiro) bateu recordes de venda, marcando o primeiro grande sucesso de sua carreira. Durante a década de 1950, atuou intensamente no rádio, apresentando-se na Radio Nacional, nos programas de César de Alencar e Manuel Barcelos, e na Rádio Mayrink Veiga, como a estrela de A Princesa Canta, nome derivado de seu titulo de Princesa do Radio, um dos muitos que recebeu em sua carreira. Em 1954, em concurso popular, tornou-se a Rainha do Radio, e no mesmo ano estreou no cinema, participando do filme Rua sem sol, de Alex Viany. Apelidada Sapoti pelo presidente Getúlio Vargas, tornou-se a cantora mais popular do Brasil durante a década de 1950, alcançando os maiores êxitos com os sambas-canções Fósforo queimado (Paulo Marques, Milton Legey e Roberto Lamego), Vida de bailarina (Américo Seixas e Chocolate), Orgulho (Valdir Rocha e Nelson Wederkind), Ave Maria no morro (Herivelto Martins) e Lábios de mel (João Vilaça Júnior e Nage), além da canção afro-cubana Babalu (Margarita Lecuona). Voltando a gravar na RCA Victor em fins da década de 1950, em 1963 viajou para Portugal e África, cantando para soldados portugueses que então lutavam nas colônias. Um de seus grandes êxitos na segunda metade da década de 1960 foi a canção Gente humilde (Garoto, Chico Buarque e Vinícius de Moraes). Em 1975, com 25 anos de uma carreira de muitos sucessos, preferia apresentar-se em clubes do interior ou em churrascarias das grandes cidades, ambientes onde, ao contrario da televisão e das boates sofisticadas, sentia mais de perto a reação do povo. Em 1979, com João da Baiana, participou do documentário Maxixe, a dança perdida, de Alex Viany. Em 1982 foi lançado o LP Odeon com Ângela Maria e Cauby Peixoto, primeiro encontro em disco dos dois intérpretes. Em 1992 apresentou-se com Cauby no show Canta Brasil, com grande sucesso de publico, sendo lançado em disco Ângela e Cauby ao vivo (RCA/BMG, 1992).

Considerada, ao lado de Elis Regina, uma das mais puras vozes da musica popular brasileira, continua a apresentar-se em espetáculos e em televisão. E é por este motivo, que Ângela Maria, a nossa eterna Sapoti, chega ao 11º lugar na lista das 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos.

 

11º Lugar: Ângela Maria

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

 

 

 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

16º Maior Cantora do Brasil: Fafá de Belém


Fafá: cantora sem rótulos
Maria de Fátima Palha de Figueiredo, mais conhecida como Fafá de Belém, sempre gostou de cantar. Dona de uma das mais expressivas vendagens de discos no mercado nacional, presença constante nas paradas de sucesso e à frente de atribulada agenda de shows, nos últimos anos Fafá de Belém conquistou duramente o posto de estrela da nossa canção popular. Das feiras de agropecuária no interior do país e shows em praça pública até temporadas no eixo Rio - São Paulo, incluindo o Cassino Estoril, em Portugal, ela é sempre vitoriosa. Em 1976, Fafá lançou o primeiro LP, Tamba Tajá. Seu canto seduziu até o demolidor crítico de música brasileira do Jornal do Brasil, o temido José Ramos Tinhorão, que se derramou em elogios à jovem artista, apontando-a como “uma cantora destinada a figurar no primeiro time da atual geração de grandes intérpretes brasileiras.” O álbum seguinte, “Água” (1977) confirmava todas as previsões: atingiu cerca de 95 mil cópias vendidas.

Embora jamais tenha pensado em ser cantora profissional, desde os 9 anos de idade, Fafá de Belém, era uma atração nas festas promovidas pela família ou nas casas de amigos. Apesar de menina, interpretava como gente grande “Ouça”, sucesso de Maysa, ou “Eu e a Brisa”, de Johnny Alf. Era uma garota que, como os da sua geração, amava os Beatles, era fã de Roberto Carlos e da turma da Jovem Guarda, mas também fascinada por jazz, música clássica, e que se emocionava ouvindo os grandes cantores de rádio, como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Núbia Lafayette e Orlando Silva, “Gente de punhal no peito”, que ela gosta de tomar como modelos para interpretar.

O amplo leque de sua formação musical está refletido na seleção de seu repertório. Ela gravou de tudo, sem preconceito. Música regional, pérolas do cancioneiro popular, como “Que Queres Tu De Mim”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, ou “Você Vai Gostar” (Casinha Branca) de Elpídio dos Santos. Rock, boleros, ritmos caribenhos, guarânias, afoxé, lambadas, sambas-canções, composições dos grandes nomes da MPB, Marcha-rancho, sertanejo, e muitos outros ritmos. Sem falar da polêmica apresentação que a musa das diretas deu ao Hino Nacional, contestada pela justiça e ovacionada pela plateia, cada vez mais numerosa de seus shows.

Foi a partir da decisão de virar a mesa e deixar o coração falar mais alto que Fafá tocou fundo a alma brasileira. Com a determinação que a caracteriza, os anos de estrada, uma forte intuição e o sucesso absoluto de canções escolhidas a dedo pela própria cantora em determinados momentos de sua vida, como “Bilhete”, de Ivan Lins e Victor Martins, que a fez romper o silêncio de um ano em 1982. Ou “Memórias”, de Leonardo, popular compositor pernambucano, responsável pela venda de meio milhão de cópias (Disco de Platina) do álbum “Atrevida”, Fafá atingia, então, o auge de sua carreira, sobretudo como cantora romântica.

Uma trajetória assombrosa, mas nada que surpreenda quem bem a conhece e às suas aparentes contradições. Não foi à toa que interpretava com tamanha emoção e propriedade os versos de um dos maiores sucessos de sua carreira, “Dentro De Mim Mora Um Anjo”, de Suely Costa e Cacaso: “Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim...”. Está aí uma das maiores verdades sobre Fafá de Belém, que sabe exatamente o que quer e do que é capaz.
 
Fafá virou marca nacional. Marca nacional de alegria, com aquela gargalhada sinceramente estrondosa que é capaz de levantar os ânimos de qualquer um. Marca nacional de saúde, a bela mulher brasileira que batizou até as lanternas do antigo Fusquinha, outra paixão popular. Marca nacional de liberdade, símbolo de um movimento político que fez milhões de brasileiros se emocionarem com sua interpretação do hino pátrio.

Esta é Fafá de Belém. Ou melhor: Fafá do Mundo.

Fafá de Belém é considerada uma das grandes cantoras da música popular brasileira. Já cantou fados, música sertaneja, sucessos nortistas meteóricos, cantou inclusive para o Papa (quando ele visitou o Brasil em 98), mas a base de sua trajetória musical é a música romântica. É uma cantora que tem como maior trunfo a sua capacidade de interpretação, é uma cantora emocional, intensa, voluptuosa, que sabe se fazer ouvir. E é por isso que Fafá chega ao décimo sexto lugar do Mais Cultura!, em uma seleta lista das maiores cantoras do Brasil.

 

16º Lugar: Fafá de Belém

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vida (1980), de Chico Buarque, revela a rebeldia política do cantor após o fim da censura


 

Autorretrato do artista
Com a abertura política do regime militar, deflagrada gradualmente a partir de 1978, Chico Buarque deixou de ser o autor proibido pelo regime, o compositor perseguido e de obra amputada pela censura. A obra discográfica, a teatral e a feita para o cinema, passaram a ter maior liberdade de expressão, deixando as metáforas implícitas, para a poesia da palavra mais visceral. Após a abertura, Calabar, peça proibida na primeira metade da década de 1970, foi liberada e encenada, em 1980. No contexto da amenização da censura, A Ópera do Malandro chegou aos palcos e aos discos na íntegra, sem pressões ou cortes. Chico Buarque vivia no fim daquela década, uma fase criativa inspirada por personagens retratadas nos palcos e nas telas de cinema. Criou trilhas sonoras inesquecíveis e definitivas, percorrendo através da poesia e da melodia, o universo feminino, existencialista e sexual, atingido a alma humana como poucos autores de MPB conseguiram.

Vida, álbum de 1980, traz as personagens de Chico Buarque direto dos palcos de teatro, das telas de cinema, para o universo da Música Popular Brasileira. A proposta iniciada com o disco Meus Caros Amigos, em 1976, adquire maior teor existencialista neste álbum, onde a imagem e a melodia travam uma instigante cumplicidade, revelando a maturidade de um compositor em busca da sua perfeição interior e do perfeccionismo estético. Cada faixa descortina um mundo contemporâneo, em que a tragédia das crônicas jornalísticas e o delírio do amor vivido ao extremo da paixão, caminham paralelamente em Mar e Lua e Eu Te Amo; a paisagem pitoresca de uma Angola incipiente e de um Brasil desnudado muito além dos centros urbanos, alinhavam uma estética poética humana em Morena de Angola e Bye Bye Brasil.

Personagens humanas, dramáticas, femininas e masculinas, intimistas e de extremos, são diluídas em melodias perfeitas e canções definitivas, que faz de Vida um dos álbuns mais belos e existencialistas de Chico Buarque. Com ele era enterrada para sempre a fase do autor proibido e censurado, agora livre para exalar as emoções poéticas, em uma nova forma de protesto, o do eu e do existir.

Produzido por Sérgio de Carvalho, Vida foi lançado no fim de 1980. O disco revela um momento de transição entre a abertura política e o fim gradual da censura política e moral. Como se ainda tateasse nos novos tempos, a mensagem das canções faz a ruptura com as limitações moralistas, passando levemente pelo protesto político, expondo o íntimo dos sentimentos, levados à exaustão das paixões, das incertezas dos atos de amor. A capa branca, trazia no centro o retrato de Chico Buarque, desenhado por Elifas Andreato, dando-lhe um ar penetrante, quase a saltar. Feito nos moldes do vinil, trazia doze faixas distribuídas em dois lados. Trazia arranjos luxuosos de Francis Hime em dez faixas; de Tom Jobim e Roberto Menescal em duas faixas.

Vida (Chico Buarque), canção que dava título ao álbum, abre o repertório. A música Geni e o Zepelim, tema do travesti Genivaldo, de A Ópera do Malandro, inesperadamente tornou-se um grande sucesso nas rádios da época, gerando polêmicas e a certeza de que a censura moralista havia chegado ao fim. A canção acabou por inspirar o espetáculo Geni, em 1980, de Marilena Ansaldi e José Possi Neto. Vida foi feita para a peça, como se fosse a apoteose final de Geni e o Zepelim. É o encontro do homem com o epílogo da sua consciência, uma retrospectiva instigante, profunda, sofrida, ao âmago da existência e das escolhas de uma vida, que, quando parece asfixiar, retorna de forma positiva. O encontro entre o limiar dos palcos da vida e o além das cortinas do desconhecido. O questionamento de todos ante os limites da alma e da sua essência. A canção começa com a voz intimista de Chico Buarque, explodindo em um final veloz, quase que de apoteose. Vida foi gravada por diversos intérpretes da MPB, como Simone e Maria Bethânia, mas a interpretação de Chico Buarque continua a ser a mais contundente, verdadeira e definitiva.

 

Vida, minha vida

Olha o que é que eu fiz

Toquei na ferida

Nos nervos, nos fios

Nos olhos dos homens

De olhos sombrios

Mas, vida, ali

Eu sei que fui feliz

 

Trecho de Vida, de Chico Buarque

 

A segunda faixa, Mar e Lua (Chico Buarque), também veio dos palcos, do espetáculo Geni. Inspirada numa crônica de jornal, que contava o suicídio de duas mulheres que se amavam e, discriminadas pela moral do lugar onde viviam, atiraram-se às águas de um rio. De uma forma poética, quase doce, Chico Buarque descreve o momento final desse amor clandestino, amenizando a morte com metáforas. É o amor que dilata a moral, perdendo-se no desespero das barreiras. A sexualidade é acentuada entre desejos impulsionados pela paixão proibida, pela sensação da natureza, sob o deslumbramento da luz da lua e a imensidão do mar dos preconceitos. A canção tornou-se um hino do amor lésbico, sendo gravada por vários intérpretes.

O samba modesto de Chico Buarque alegra o disco com a faixa Deixe a Menina (Chico Buarque). Os jogos de sedução e ciúme das rodas de samba; a beleza da morena e a ginga do seu samba a ofuscar o ciúme do marido, amuado pelos cantos, enquanto ela deslumbra os sambistas e os seus desejos. Irônico, divertido, o autor lembra que por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz, máxima que serve para todos aqueles que arriscam o amor de uma mulher deslumbrante.

E se o amor quando perde o esplendor dói, a sua perda corrói o sorriso, a superação do seu fim é o próprio renascimento dos sentimentos. Já Passou (Chico Buarque), descreve esse momento de alívio, em que a dor é substituída por uma alegria com cicatrizes, que nos faz respirar e ter a certeza de que sobrevivemos ao fim de uma paixão. Intimista, mas de palavras fortes, a canção é o universo de Chico Buarque na sua mais pura essência.

Bastidores (Chico Buarque), é quase um hino ao desespero diante do amor perdido. A canção foi feita para Cristina Buarque, irmã do autor, sendo também gravada por Cauby Peixoto. Foi na voz de um passional e eloquente Cauby que a música alcançou a sua verdadeira face, sendo um sucesso que se colou à pele do cantor. A interpretação de Chico Buarque é intimista, mas de um brilho ímpar, que só o seu autor pode dar. É um universo feminino, que se adapta ao universo dos amores conturbados das paixões entre iguais. A estrela, imponente no palco, desejada por todos, não passa de um eco do seu canto nos bastidores, com os sentimentos em carne viva, sofrendo pelo abandono. É no palco que ela dilui a dor da perda, encantando e seduzindo a plateia. É no seu desespero pulsante que a arte encontra a veia do carisma, a luz do canto e do palco.

Qualquer Canção de Amor (Chico Buarque), é uma daquelas canções menores dentro de um disco de grande esplendor. Intimista, é um jogo de versos e palavras que, sutilmente selam o valor da paixão dentro das melodias, os sentimentos cantados, jamais calados, não importando o autor, mas a mensagem.

E para amenizar todas as questões existencialistas levantadas nas faixas anteriores, Fantasia (Chico Buarque), chega como um carrossel que nos conduz a cantar pelo céu da poesia do autor. Palavras antes proibidas pela censura, como gozo no sentido de orgasmo, já não sofriam represálias. Um convite à distração da dor que nos aflige através do ato de cantar, de ouvir a melodia e percorrer sem medo a fantasia proposta, abraçar sem restrições, um álbum de rara beleza.

A música mais complexa do álbum é Eu Te Amo (Chico Buarque – Tom Jobim). Sob a regência e o piano de Tom Jobim, Chico Buarque fazia um dueto com Telma Costa. A canção foi feita para o filme homônimo de Arnaldo Jabor, protagonizado por Sonia Braga. Mais uma vez a paixão é mesclada por uma estética sonora e visual, evidenciada por um erotismo latente em cada verso, cada gesto que se pode visualizar e quase que sentir o odor dos corpos. Dentro de um quarto, os amantes perdem a individualidade, dilacerando os caminhos nos desenhos dos corpos, rompendo as saídas nas malhas da paixão. Se o amor é vivido de forma tensa, o fantasma da perda dispara suas garras diante do medo da separação dos corpos, da vida além do leito. É a paixão sem saída, vivida na plenitude do seu erotismo, no encaixe da sensualidade, na linguagem dos corpos e das metáforas, envoltas pelos objetos; sapatos, vestidos, paletós, revelam a paisagem dos amantes. Eu Te Amo é uma das mais belas canções do amor erótico feitas na MPB.

De Todas as Maneiras (Chico Buarque) é o retrato cruel do desgaste da paixão, do vazio dos sentimentos, vividos em uma intensidade que gerou a sua ruptura. No avesso dos sentimentos, palavras e agressões servem para o afago do que se rompeu, do momento de paz em que o amor é uma guerra. Gravada por Maria Bethânia, em 1978, no álbum Álibi, a canção não encontra a dramaticidade cênica da cantora baiana, mas não perde a intensidade diante do intimismo de Chico Buarque. Consegue um dos melhores momentos do disco, quase que inesperadamente.

Morena de Angola (Chico Buarque), gravada quase que em simultâneo com Clara Nunes, alcançou grande sucesso na voz da cantora. Era o primeiro contato cultural registrado em música entre Brasil e Angola, países de língua portuguesa, colonizados por Portugal. Recém independente, Angola era uma jovem nação que seria devastada pela guerra civil. Com um som a lembrar os ecos africanos, a canção trazia uma alegre paisagem da alma da mulher angolana. A canção foi composta após uma viagem do autor e de vários cantores a Angola, em 1980. O último verso faz uma homenagem ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), considerado subversivo pelo regime militar, por ser de esquerda e apoiado logisticamente por Cuba. Assim como Tanto Mar, a canção é uma homenagem às nações irmãs.

Bye Bye, Brasil (Chico Buarque – Roberto Menescal), foi feita sob encomenda, para o filme homônimo de Carlos Diegues. Conta-se nos bastidores, que Chico Buarque demorou a pôr letra na canção de Roberto Menescal; só entregando a composição já quando se encontrava em estúdio, pronta para ser gravada. Conta-se ainda, que trazia uma letra enorme, e que Carlos Diegues cortou a metade. Bye Bye Brasil mostra uma aquarela realista de um país plural. Através da visão de uma personagem ao telefone, o Brasil interior ou litoral, é descrito em suas várias faces. De beleza quase que épica dentro da MPB, traz uma melodia de diferenças sutis, difícil de ser interpretada, pois não tem um final, a letra é um convite à improvisação, quase que a terminar como começou, ou seja, com um belíssimo meio, e um final sem ponto. É o momento em que a ideologia transita no disco, com sutis referências a um Brasil poucas vezes retratado, ou mesmo cantado. Bye Bye, Brasil, já refletia como um moinho, os ventos da abertura pela qual passava o país.

O álbum encerra com a visceral Não Sonho Mais (Chico Buarque). É a terceira música do disco com uma vertente de inspiração homossexual. Feita para o filme A República dos Assassinos, em 1979, de Miguel Faria Jr, a canção relata o sonho de um travesti, no cinema vivido pelo ator Anselmo Vasconcelos, com o seu amado, um policial corrupto, pertencente ao esquadrão da morte. Odiado por todos, o amante é perseguido no sonho do amado, num dos mais violentos momentos da canção brasileira. Assim como em Geni e Zepelim, o autor utiliza metáforas escatológicas, muito em moda na época. Apesar do ritmo alegre e frenético da canção, a ironia da letra é servida crua, em carne viva, em uma violência explícita. No verso Comemos os ovo, propositalmente escrito fugindo da combinação do plural, mostra a castração feita sem piedade, sendo os testículos devorados, submetendo o amado a mais perversa das humilhações contra a virilidade. No fim, há o momento de conciliação, em que após um sonho tão cruel e libertador, o travesti volta à submissão do amado, e pede que não o castigue, pois não terá outro sonho tão devastador. Não Sonho Mais foi sucesso na voz de Elba Ramalho. Encerra convulsivamente o álbum Vida, sendo chancelada pela abertura política, longe da censura de outrora.

Vida é o álbum do existencialismo humano, das questões psicológicas que se nos intercalam. Das consequências das escolhas, da liberdade da sexualidade de uma geração que estava preste a sair de uma longa ditadura que duraria duas décadas. Era a MPB a ser porta voz daqueles novos tempos, e Chico Buarque o poeta maior do encontro sublime da palavra com a melodia.

 

Vida / Chico Buarque

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Essa Mulher - o grande disco de Elis, de 1979



Essa Mulher: o melhor de Elis está aqui

Em 1979, Elis Regina entraria para a história da música popular brasileira com mais um disco arrebatador: Essa Mulher. Com direito a uma pintura a óleo da cantora na contracapa e com flores espalhadas pelo encarte do disco, Elis apresentou uma seleção de dez músicas ditas das melhores de sua carreira, com muita técnica vocal, postura, brilho e sofisticação. Claro que o álbum viria a se tornar um marco na carreira da brilhante cantora e hoje esse mesmo álbum está fadado a ser classificado como Best Sellers em muitas estantes por onde passo. Recentemente, tenho ouvido muito este disco, graças às dicas e palpitações e citações de meu amigo carioca, Jaime Santana, que é apaixonado pela diva e, como ele frisa, a melhor cantora do Mundo.

De João Nogueira a João Bosco, passando por Cartola e Sérgio Natureza, Elis soube pincelar as melhores músicas dos melhores compositores da época. Mas o disco é inteiramente feminino, a começar pelo título, Essa Mulher, pontada, principalmente, por aquele brilho de sofrimento que as mulheres carregavam nos anos 1970 e hoje em dia algumas ainda carregam. Um misto de feminilidade com politicagem, Essa Mulher nos envolve pela desenvoltura da escolha de um repertorio fantástico e esmagatório com relação à obra da artista e até mesmo sobre seu disco anterior, Transversal do Tempo, em que a política e a carga pesada de Elis, as revoltas, o governo, o ódio e o rancor afloravam a cada canção. E talvez seja esta a fascinante magia que Elis nos deixa de lição: a de não ser a mesma sempre. Transversal do Tempo é um disco ao vivo, político, pesado, grandioso. Essa Mulher é um disco feminino e com uma pincelada política (O Bêbado e a Equilibrista).

Com participação especialíssima de Cauby Peixoto na belíssima música Bolero de Satã, temos dois grandes ícones da música em um disco repleto de emoção. A curiosidade talvez ficasse por conta de um disco ser feminino, contar apenas com a participação de duas compositoras, Ana Terra, que deu o título ao disco e Sueli Costa, que nos apresenta Altos e Baixos em uma interpretação perfeita e nítida.

Do engraçado Cai dentro, a política O Bêbado e a Equilibrista, da feminina Essa Mulher, da dor de cotovelo de Cartola (e seu grande clássico) Basta de Clamares Inocência, da sensualíssima Beguine Dodói, da malandragem de Eu Hein Rosa, do sentimental Altos e Baixos, da explosiva Bolero de Satã, da volta por cima da mulher abatida e humilhada em Pé Sem Cabeça e fechando com a emocionante As Aparências Enganam, Elis nos transporta para o melhor de seu repertório, com a certeza total e absoluta de saber que é a maior cantora do Brasil.

 

Faixas

01. Cai dentro (Baden Powell - Paulo César Pinheiro) (2:41)

02. O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc - João Bosco) (3:49)

03. Essa mulher (Ana Terra - Joyce) (3:50)

04. Basta de clamares inocência (Cartola) (3:42)

05. Beguine dodói (Cláudio Tolomei - Aldir Blanc - João Bosco) (2:15)

06. Eu hein Rosa! (Paulo César Pinheiro - João Nogueira) (3:36)

07. Altos e baixos (Aldir Blanc - Sueli Costa) (3:28)

08. Bolero de Satã (Guinga - Paulo César Pinheiro) (3:31)

09. Pé sem cabeça (Ana Terra - Danilo Caymmi) (2:57)

10. As aparências enganam (Sergio Natureza - Tunai) (4:08)

 

Essa Mulher / Elis Regina

Nota 10

Marcelo Teixeira