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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Emília Monteiro em São Paulo

Emília: do Norte pra São Paulo
No dia 30 de abril de 2013 escrevi um artigo em que pedia para que o som da cantora amapaense Emília Monteiro saísse do reduto nortista para invadir os quatro cantos do país, pois sua voz merecia ser ouvida. No dia 26 de maio do mesmo ano, saiu no Jornal do Amapá, na coluna da Tica (jornalista de grande repercussão no Amapá) partes desse meu artigo. Portanto, minhas preces foram ouvidas. Emília Monteiro desembarca em São Paulo para duas únicas apresentações: uma no Sesc Sorocaba, no dia 15/11, e o mais aguardado será realizado na Vila Madalena, reduto dos mais morderninhos em questão de sonoridade, com seus barzinhos charmosos e pessoas descoladas. Emília cantará no Espaço Cultural Puxadinho da Praça (Rua Belmiro Braga, 216, Vila Madalena / São Paulo) na segunda feira dia 17 agora, às 20 horas, ao lado das cantoras Nátalia Matos e Luciana Oliveira, que farão uma participação especial. Valor: apenas R$ 15 reais!!! Única apresentação, vale a pena conferir o talento desta grande cantora, um verdadeiro talento brasileiro e que está conseguindo, aos poucos, mostrar sua brasilidade aos quatro cantos deste país. Entrevistada pelo Mais Cultura Brasileira!, a cantora considera Clara Nunes e Elis Regina como as maiores vozes do Brasil e já foi até mesmo elogiada pelo ex-titã Charles Gavin, hoje referência musical no país. Emília é uma dessas raras cantoras que nos encantam apenas com seu olhar: encantador e suave.  Dona de uma voz magistral e de um carisma incrível, a cantora apresentará seu CD Cheia de Graça (divulgado no Mais Cultura! em Abril de 2013), considerado um dos melhores dos últimos tempos e que contém composições de Ellen Oléria, Márcia Tauil, Simone Guimarães, Zeca Baleiro, Célso Viáfora, Val Milhomem e a diva Dona Onete, criadora dos sucessos Veneno de Cobra e Este Quero Este Moreno Pra Mim. Emília merece ser ouvida, assistida, admirada e aplaudida de pé por todos os brasileiros, pois seu canto é de uma beleza profunda e única. Uma das cantoras que merecem a sua atenção graças ao seu canto, sua graça, sua beleza e sua espontaneidade. Emília Monteiro é uma dessas cantoras que faltavam no mercado fonográfico para falar do povo do Norte, cantar suas referências e seus estilos e nos mostrar seus mantras. Cheia de Graça, Emília desembarca em São Paulo trazendo na bagagem um grande disco e uma grande voz!  

 

Emília Monteiro em São Paulo
Marcelo Teixeira

domingo, 14 de setembro de 2014

As releituras de Mônica Salmaso em Corpo de Baile (2014)


Ótimas releituras
O penúltimo disco de Mônica Salmaso, Alma Lírica Brasileira, lançado em 2011, foi passado desapercebido pelo grande público e pela crítica especializada e acabou sendo um disco qualquer na sublime carreira da cantora, mesmo sendo esse disco um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Teve Adoniran Barbosa, José Miguel Wisnik, Paulo Vanzolini e o sambinha de Herivelto Martins, Meu rádio e meu mulato, mas o disco não emplacou. Agora a cantora acaba de lançar um dos discos mais nobres de sua carreira. Corpo de Baile (2014 / Biscoito Fino / 31,99) é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica. Destaques para a lindíssima Porto Araújo, já cantada brilhantemente pela cantora Simone Guimarães em seu disco Virada pra Lua (2001) e Bolero de Satã, imortalizada na voz de Elis Regina, que no disco Elis, Essa Mulher (1979) cantou ao lado de Cauby Peixoto. Recentemente, a cantora e filha de Elis, Maria Rita, deu um banho de interpretação nesta mesma música, pouco gravada do cancioneiro de uma das maiores vozes do Brasil. Quase todos os discos de Mônica são um convite para que possamos crer que a música popular brasileira está a salvo e Corpo de Baile prova mais que isso: que a música de dois gênios da música está para ser ouvida por todos e em todos os cantos. Mônica Salmaso apenas deu um verniz e explicou a importância de Guinga e Paulo César Pinheiro dentro da MPB. Corpo de Baile é um disco que merece ser ouvido. E respeitado!


Corpo de Baile / Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Veneno de Cobra - O belo clipe de Emília Monteiro


Grande revelação no Mais Cultura Brasileira de 2013, a cantora amapaense Emília Monteiro acaba de lançar um clipe da música Veneno de Cobra, composta por Dona Onete, figura tarimbada no Norte brasileiro, que remete alegria a quem a ouve e faz de suas músicas um aliado para combater o mau humor. Entrevistada pelo blog, Emília lançou o CD Cheia de Graça em 2013, trazendo composições de Ellen Oléria, Zeca Baleiro, Márcia Tauil e Simone Guimarães na bagagem recheada de marabaixo, lundu e danças típicas de Macapá. A música Veneno de Cobra está neste belo disco, assim como outras composições de Dona Onete. O clipe é maravilhoso, cheio de cores, com uma vivacidade incrível e radiante, mostrando toda a beleza que há pelo lado nortista e a capacidade de impressionar de uma cantora altamente brasileira, com categoria e elegância mútuas. Emília Monteiro consegue, mais uma vez, provar de seu próprio veneno e sobressair pelo lado mais fortuito: o eco de sua voz, o brilho de seu olhar, o sentimento mais puro de sua emoção. Dona de uma das melhores vozes brasileiras, a cantora é refêrencia hoje no Norte brasileiro e consegue fazer de seu carisma um dos motivos mais festivos para a realização de sua obra: nela estão concentradas todas as riquezas que há em Amapá! Vale a pena conferir este grande lançamento e podendo conhecer um pouco mais do trabalho artístico desta grande cantora, que consegue nos hipnotizar com seu olhar, nos encantar com sua voz e nos enfeitiçar com seu veneno.
 

Veneno de Cobra (Clipe) / Emília Monteiro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de março de 2014

De onde vem a crítica?


Faço crítica com arte!
Todos nós erramos na vida: ao nascermos já estamos errados se não choramos ou se estamos chorando demais. Na vida há muitas cobranças, pertinentes ou não, que norteiam nosso caminho a torto e a direito. Quando resolvi escrever sobre música brasileira, sabia que estava pisando em ovos. Ovos estes, quebráveis. Mas não intocáveis. Quando iniciei o Mais Cultura Brasileira!, em novembro de 2011, não sabia exatamente o que eu queria: se era criticar a música pobre, de esquina, dos marginalizados, dos arrogantes, dos iletrados ou se eu estava querendo destilar meu suave veneno em apostas vigorosas, discos esquecidos, cantoras e cantores que foram sucesso no passado, lançamentos indispensáveis. Não sabia ao certo. Pois bem: criei o blog sem ter um artigo pronto, apenas acordei de um sobressalto e estava lá o Mais Cultura Brasileira! Logo na primeira semana não obtive o resultado que queria: ninguém lia o que eu escrevia. Hoje, tudo o que escrevo vira repercussão de um jeito ou de outro e tudo começou quando criei o quadro As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos da MPB. A visibilidade foi enorme, o blog subiu ao topo de liderança que eu jamais pensei que fosse chegar e o meu nome foi capa de um jornal de Cultura de Mococa e, alguns meses depois, estava eu lá novamente em um tablóide do Amapá.  Alguns outros meses, meu nome e meu blog estavam na mesma coluna de resenhas com críticos do quilates de Charles Gavin (ex-Titãs) e Zé Vaz, do blog Som do Norte, sobre o lançamento do disco de Emília Monteiro. Isso pra mim foi o ápice maior de minha escrita: nunca pensei em imaginar que eu pudesse escrever em primeiro plano sobre uma cantora do Norte e, de quebra, ter o privilégio de alça-la a voôs longos. Está registrado: o primeiro a escrever sobre Emília foi o Mais Cultura, em seguida Charles Gavin e, por último, Som do Norte. Mas de onde vem a crítica? Esses dias fui criticado por um peso pesado da dita linha jornalística musical e isso tocou muito forte dentro de mim, pois o que escrevo, hoje, é natural de minha pessoa, de meus anseios sobre o disco, de minha persona sobre o que ouço, de minha característica de crítico e de presença sobre algo novo e que está a minha mão. Quando escrevo, despejo todos os adjetivos possíveis para que eu possa me satisfazer. Através desses artigos, consigo conversar com as palavras num tom peculiar, sentimental e rudimentar que apenas eu entendo e tento transpassar para as pessoas num tom mais elaborado. Mas todos nós erramos: erramos ao nascer, erramos ao crescer, erramos ao escrever um artigo. Antes eu pegava um disco qualquer e escutava apenas uma vez e dava a minha impressão sobre aquilo: não pegava os detalhes minímos. Com o tempo aprendi que para ser crítico, não preciso usar terno e gravata: posso ser normal como o vendedor de jornal. Ou seja: hoje quando escrevo, penso! Mas escrever é difícil e cansativo e por este motivo, só escrevo quando estou realmente desperto. Perguntaram-me uma vez como escrevia meus textos: simples. Eu preciso estar agitado. E para eu estar agitado, preciso de música, de poesia, de matéria, de café. Uso adjetivos, uso frases coloquiais, uso menos o barroco. E tento (ainda tento) escrever um artigo como se estivesse escrevendo um capítulo de um livro não acabado: escrevo conforme eu quero. Não preciso ser formado em jornalismo para escrever bem, pois a crítica dentro da crítica já está valendo. E mesmo escrevendo frases que soam como poesia, aqui para mim soam como suavidades extremas. Não preciso que me entendam, me interpretem. Não sou mais importante que o disco resenhado. O disco é mais importante que as minhas palavras. Se eu pudesse e eu ainda tenho tempo para fazer, excluíria todos os artigos que escrevi no início de carreira. Afinal, já entro no terceiro ano de Mais Cultura Brasileira! Hoje ninguém mais leria os artigos antigos, mesmo sendo um canal de aproveitamento ímpar futuramente. Mas aqui não faz importância alguma os artigos que me mandaram via email para que eu pudesse publicar em meu nome ou simplesmente os artigos na qual me debrucei quando deram mais credibilidade para mim. Tive parcerias maravilhosas em alguns artigos, fui pago em outros, tive a autorização em uns 4 ou 5 artigos para que esses mesmos artigos estivessem dentro do meu blog, com as mesmas palavras e significados e não me envergonho disso. Hoje, passados mais de 2 anos de blog e vida cultural voltada para a cultura brasileira exclusivamente, tenho a plena certeza de que fiz coisas certas e erradas, publiquei artigos errados em algumas vezes, acertei em vários artigos, critiquei e logo em seguida elogiei. Hoje tenho uma seleta lista de entrevistadas, como Márcia Tauil, Simone Guimarães, Emília Monteiro e Ná Ozzetti e para este ano de 2014 já tenho mais dois nomes de peso: um cantor de Minas Gerais que estimo pacas e o escritor Daniel Manzoni, amigo de longas datas, que lançará um livro sobre educação, ciência e cultura e é adorador de música brasileira. Nas palavras da cantora Emília Monteiro: sou um crítico. Mas críticos também erram. E meu defeito é tentar acertar. A minha crítica vem de dentro: em mim batem as sonoras batidas da música, certas ou erradas e é através disso que escrevo, critico e publico. E fazer crítica, para mim, é uma arte.

 

De onde vem a crítica?
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Entrevista com Emília Monteiro


Emília: cantora do Amapá foi revelação de 2013
Entre um contratempo e outro, uma viagem à Macapá e shows ao lado de Dona Onete, Emília Monteiro reservou um tempinho para dar uma entrevista para fechar o Mais Cultura! com chave de ouro. A cantora amapaense, que foi considerada pelo blog como sendo a maior (e melhor) revelação do ano de 2013, é digna de uma elegância sofisticada, de uma cultura sem igual, de um carisma arrebatador, de uma meiguice profunda e de uma delicadeza incomum, que faz deste critico musical ficar ainda mais apaixonado por sua música. Dona de uma voz poderosa e detentora dos cantos amazônicos, Emília Monteiro nos revela sua musicalidade, desvendando segredos, revelações, novidades e mais suingues para o próximo ano e revela que ‘Cheia de Graça vale como benção de Nossa Senhora quanto à analogia com o bom humor e a irreverência’ e diz que ‘as maiores vozes do Brasil são Elis Regina e Clara Nunes’.


Marcelo Teixeira: Por que seu disco recebeu o saboroso título Cheia de Graça?

Emília Monteiro: Marcelo, esta é uma pergunta interessante, porque foi simplesmente o acaso... Ângela Brandão, uma excelente compositora mineira, radicada em Brasília, me mostrou a letra que levava o nome Cheia de Graça e eu além de amar a poesia e todo o significado daquela letra, identifiquei que Cheia de Graça tanto vale como bênção de Nossa Senhora, quanto também à analogia com o bom humor e a irreverência e nos dois casos achei pertinente colocar o nome no CD, assim ele já estaria abençoado e bem humorado ao mesmo tempo...

M.T: Hoje você é uma cantora reconhecida em todo o território nortista e aos poucos está desbravando o Brasil inteiro. Se sente realizada com este sucesso já no disco de estreia?
E.M: Me sinto feliz, percebendo que, por ter feito um disco que não se enquadra numa MPB dita tradicional, consegui ter os bons olhos de blogs especializados em música, assim como de críticos de música e principalmente do público... É claro que era algo que eu gostaria mesmo que acontecesse, mas me surpreendi por estar sendo dessa maneira... Ainda não me considero realizada porque o trabalho acabou de começar, mas estou muito satisfeita, principalmente por ser o primeiro Cd.
 
M.T: Dona Onete é uma figura tarimbada no Norte do País, uma cantora e compositora valorizada no Amapá  e de onde você extraiu algumas de suas canções para gravar Cheia de Graça, inclusive com participação dela. Conte-nos um pouco sobre a amizade de vocês.
E.M: Dona Onete é uma pessoa iluminada, uma força da natureza, uma entidade... A conheci pelo youtube e logo me apaixonei e entrei em contato com ela para gravar uma música, dizendo que estava apaixonada pelo Moreno Morenado dela e que queria gravar eu disse: ‘Dona Onete, eu quero este moreno pra mim!’ Ela riu e falou que esse moreno já tinha dona, que era ela, mas que faria um pra mim... E fez !!! Eu Quero Este Moreno Pra Mim foi uma música feita pra mim por ela... Ela nem me conhecia pessoalmente quando a fez, então a nossa empatia foi instantânea, desde o primeiro momento, quando nos conhecemos pessoalmente, na oportunidade da gravação da participação dela, era como se já a conhecesse de longa data, ela hoje é parte da família, todos nós a amamos. Quando fiz o lançamento do Cd no Clube do Choro dia 30 de julho ela estava lá comigo, me abençoando... É difícil descrever, eu sou super fã dela como artista e como ser humano, um verdadeiro presente da vida !

M.T: Quais foram suas influências musicais?
E.M: Foram várias, minha casa sempre foi uma casa musical, meu pai era cantor em Macapá e deixou de lado o sonho para fazer carreira no Banco do Brasil, ele sempre ouviu de tudo e fez questão de nos passar todas as suas influências musicais, então eu já nasci escutando música, jazz, MPB, Bossa, Jovem Guarda, Tropicalismo, Chorinho, mas principalmente as vozes femininas de cantoras que tocaram a minha alma como Elis Regina, Clara Nunes, Alcione, Zizi Possi, Elza Soares, Ângela Maria, Rita Lee, Fafá de Belém... todas fazem parte da minha formação musical. Nossos fins de semana sempre foram regados de boa comida e muita música, minha mãe sempre disse que casa sem música é uma casa triste, eu concordo com ela ! rsrsrs

M.T: Gostaria de dividir uma música com qual cantor ou cantora em um disco futuro?
E.M: Nossa, que difícil essa pergunta, mas adoraria cantar com todas essas que mencionei acima, algumas infelizmente já se foram, ter cantado com a Dona Onete já é uma realização de sonho, mas minha primeira ‘ídola’ foi a Rita Lee, porque aos 8 anos eu não escutava Balão Mágico, escutava Rita Lee, cantava sentindo Shangrilá como se fosse uma pessoa muito vivida...rsrsrs Quem sabe, né ? rsrsrs

M.T: Seu disco de estreia teve muitos sons do Norte, como carimbó, marabaixo e lundu. Aqui em São Paulo praticamente não se ouve esses sons, que é de uma riqueza profunda. Pensa em algum dia vir a fazer um show pelo Sudeste?
E.M: Claro!! Estamos com planos e projetos de em breve, provavelmente no próximo ano, levar esse som pra Rio, Sampa e Belo Horizonte, são os meus próximos planos, já que o lançamento do Cheia de Graça também já aconteceu em Macapá e já está agendada para o primeiro trimestre em Belém.

M.T: Você sonhava em ser cantora ou tinha outra profissão em mente?
E.M: Eu amava cantar, sozinha, pra amigos ou pra uma platéia grande... Mas não tinha maiores pretensões com a música, não havia pensado seriamente na música como fonte de sobrevivência, era um hobby que me realizava, mas eu acho que a arte não é opção na vida da gente, é missão mesmo. A minha consciência a respeito disso agora é diferente, o Cheia de Graça foi um divisor de águas na minha vida, não me vejo mais sem cantar, então, virou um sonho real.

M.T: Como foi o processo de criação do disco?
E.M: Foi uma delícia!! A idéia começou em 1998 quando gravei a canção Mal de Amor, que é um marabaixo lá em Macapá. A partir daí passei a incluí-la no meu repertório aqui em Brasília, com uma grande curiosidade e aceitação do público... Aí eu já sabia que se algum dia gravasse um CD, ele teria como missão trazer à tona ritmos amazônicos justamente porque as pessoas desconheciam e ainda desconhecem essa riqueza brasileira, fruto da nossa linda miscigenação de 3 raças, a branca, indígena e negra que nesse caso se traduz musicalmente, mas que vai muito além da cultura, passa pela religião, gastronomia, comportamento e sabedoria. Como filha amapaense, não posso deixar de me orgulhar disso tudo e de fazer a minha parte divulgando os compositores e esses ritmos maravilhosos.

M.T: De Ellen Oléria a Zeca Baleiro, passando por Dona Onete, Márcia Tauil, Simone Guimarães e Suely Mesquita, sem falar do experiente Celso Viáfora, completam um time de competentes compositores. Você deixou algum compositor  de fora deste disco?

E.M: Mas é claro!!! Vários!!! Compositores do Amapá, Pará, Brasília, Rondônia, Acre, Sampa e Rio estão na minha mira para o próximo trabalho. Me sinto muito privilegiada de ter podido contar com estes maravilhosos compositores no meu disco de estréia.

M.T: Emília, você foi eleita pelo Mais Cultura! como  cantora revelação este ano. Como se sente sabendo deste título?
E.M: Uau!!! Me sinto feliz e muito grata por estar recebendo esse título, mais feliz ainda porque esse título traz à reboque a certeza de que estou no caminho certo intuitivamente...

M.T: O ex-Titã Charles Gavin e  Zé Vaz, do blog Som do Norte, elogiaram assiduamente seu disco. Logo em seguida veio o blog Eu Ouvo com uma crítica apaixonante. O Mais Cultura! saiu na frente e, em abril deste ano (2012), fez um longo artigo sobre seu lançamento (o mais aguardado de todo o Norte / Nordeste), antes mesmo de estar no mercado fonográfico. Essas críticas em relação ao seu disco aumenta a responsabilidade para o próximo trabalho?
E.M: Com certeza! Tive também a alegria de ter o meu Cd resenhado poeticamente por Aquiles Reis (do MPB4), por Mauro Ferreira (do Blog Notas Musicais), o próprio Zeca Baleiro fez um comentário lindo sobre ele. Sei que a expectativa para um próximo trabalho é natural. O que eu posso dizer é que nesse primeiro trabalho, eu só gravei músicas que traduzem a minha verdade, tenho certeza de que é por isso que as pessoas que gostam é porque conseguiram identificar isso. Não será diferente num próximo trabalho, assim como diz Milton Nascimento em Certas Canções : Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: Como não fui eu que fiz?! Certa emoção me alcança Corta-me a alma sem dor Certas canções me chegam, Como se fosse o amor.

M.T: Sei que ainda é cedo, mas já está pensando em um novo disco?
E.M: Já estou sim, essa pesquisa de repertório nunca pára pra uma intérprete...

M.T: Na sua opinião, qual o critério para se fazer música no Brasil?
E.M: Eu não sei se eu diria critério, mas a característica principal de quem faz música no Brasil com certeza é a perseverança e a fé, porque ainda vivemos num país que não prioriza a cultura, infelizmente. O artista independente, que não conta com a mídia a seu favor é um herói por definição.

M.T: Qual a maior voz do Brasil na sua opinião?
E.M: Eu não conseguiria dizer uma única voz, mas Elis Regina e Clara Nunes são algumas das vozes que me fizeram querer cantar pra libertar a alma desde pequena.

M.T: Emília, se você se auto definir com uma música de seu disco, qual seria esta música e por que?
E.M: Esse é um disco essencialmente feminino, das 12 canções, 7 foram compostas por mulheres, então todas as músicas me traduzem com certeza, se é pra escolher uma, então eu escolho Cheia de Graça, porque foi por um momento pessoal de superação e mudança de paradigmas que eu decidi fazer o CD, e a canção fala do recomeço: ‘Limpei o pó das cortinas, pus alecrim na janela, vento que passar por ela vai mudar o horizonte... Varri o chão e a soleira, lavei com água de cheiro, passo que eu der aqui dentro vai ser de novo o primeiro... Se me fez chorar não tem de quê, é água que eu uso pra me benzer que eu sou Maria Cheia de Graça’!

Emília, gostaria de agradecer profundamente à você pela simpatia e pelo espaço dado ao Mais Cultura!, concebendo esta entrevista, fechando  com chave de ouro o ciclo de artigos para este ano de 2013.


Até 2014!!!


Entrevista com Emília Monteiro
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Clarice Lispector por Simone Guimarães


Clarice: ótimo
Milton Nascimento a definiu como selvagem e é através desta selvageria que Simone Guimarães abraça seu último disco, intitulado Clarice, numa justa homenagem à escritora ucraniana naturalizada brasileira, trazendo para a fonografia brasileira um registro audacioso e grandioso. Clarice é um dos mais belos discos brasileiros produzidos nos últimos anos e toda essa beleza e dramaticidade pode ser conferida através do som de uma das mais espetaculares cantoras surgidas nos últimos tempos. Seu nome é Simone Guimarães, a qual o Mais Cultura! teve o prazer de entrevistar este ano. Sempre tive vontade de escrever sobre livros e música e o universo particular de Clarice Lispector (1920 / 1977) invade a alma da musicista e toca fundo no coração de quem ouve Clarice (2013 / Café & Pupunha / 24,99), um dos mais belos discos de Simone Guimarães e praticamente selecionado ao posto de melhor CD do ano. Invadir a alma literária de um escritor renomado e transformar sua melancolia, sua vivência, seu carisma, seu mau humor, sua discrepância, sua circuncisão, sua solitude e sua maestria em música é algo realmente dificil, transgressor e um pouco rebelde. A selvagem Simone Guimarães entra em conluio a obra intimista e solitária de Clarice Lispector e nos brinda com canções altamente sofisticadas, com um lirismo profundo e sentimental, com convidados luxuosos que nos faz crer que a música e a literatura ainda possam andar juntas, lado a lado, num enrolar de mãos. Simone traz todo o louvor de categoria refinada e lustrosa e coloca em xeque-mate todo o seu sentimento pela escritora, através de músicas sublinhadas pelo equatorial senso comum que seus livros representam. Ao ouvir canções como Clarice e Como a Vida, o ouvinte mais atento já estará familiarizado com todo o resto do disco. E para o leitor mais assíduo de Clarice, este encontrará diversas nuances na musicalidade de Simone para com o tratamento da obra da escritora.

Com convidados mais que especiais, Clarice conta com um ninho de poesias e pilhas de versos diversos cantarolados em um misto de carinho e sentimentos. Toda a melaconlia bucólica e sofrida por Clarice ao longo de sua vida estão espalhadas em músicas como Sem Mais Tristeza ou Como a Vida. A claridade com que as músicas são disparadas a ouvidos solenes fazem com que o ouvinte mais atento agarre o disco por completo, tamanha a sua identificação com a obra da escritora. Prevalece também os duetos, sensacionais, a qual Simone nos presenteia. Está aqui as irmãs de Chico Buarque, Miúcha, mãe de Bebel Gilberto e Ana de Hollanda, assim como os filhos de Dorival Caymmi, Danilo e Tom Jobim, Paulo.

 

Basta olhar nos teus olhos, Clarice

Olhar que ninguém vê

Como são claros, os teus olhos Clarice!

Claros de convencer

Tão evidentes, manifestos, inequívocos

Claros, Clarice... mas distinto o seu caminho!

Saudades de você

Só pra encontrar o seu mundo Clarice

Procurei escrever

(Trecho de Clarice, letra e música de Simone Guimarães)

 

Dando um show de interpretação à parte, a cantora Ilessi canta com a alma a canção Rastros no Asfalto, composição que, álias, é de seu pai, o compositor Gonzaga da Silva. A música é sublime e o dueto de Ilessi com Simone é de arrepiar. Uma mistura de evidência e saudade é transpirada em Estrela do Mar, com a capacidade vocal de Danilo sagrando-se sobre a voz de Simone, entrelaçando e destoando toda a emoção sentimental e floral aquecida e coloquial sobre Yemanjá, estrelas e caminhos desertos.

O otimismo e a afetuosidade foram os pontos fundamentais para a elaboração deste trabalho tão genial e primoroso a qual Simone Guimarães adentrou de cabeça para projetar o universo de uma das mulheres mais influentes do País. Mostrar seus sentimentos, seus medos, anseios, círculos de amizades e repulsa pelo novo através de uma folha em branco e repassar tudo isso para a música não é uma das tarefas mais fáceis. Mas Simone conseguiu fazer um trabalho vigoroso, digno de merecimento de aplausos efusivos e contagiantes. Muito criativa, Simone possui um charme especial para com a música que entra em seus poros e sua sinceridade permite que mesmo diante das mais difícieis situações, encontra um lado positivo e entusiasma a todos a sua volta.

Simone soube aproveitar cada música com requintes intelectuais para fazer um excelente trabalho. Clarice nos mostra interiormente, mesmo que em planos distantes, o quanto nossas vidas não nos pertence e essa dimensão é transportada em melodias ricas de detalhes e vozes em uníssono carregadas de emoção. O desejo íntimo da alma, como reaginos, pensamos e somos, nossas esperanças, nossos sonhos, nossos ideais, nossas motivações, nossas forças resgatadas. Por vezes, a voz de Miúcha nos remete a pensar que Clarice Lispector está presente, em nossa frente, em nossa visão rente e humana. E isso é válido, pleno e sereno, pois Clarice nos faz crer que a alma é pertencente a este mundo, ao mundo em que vivemos.

Músicos de altíssima categoria, como Novelli e Leonel Laterza fazem um diferencial e tanto para o disco, em canções carregadas no alto valor afetuoso. Em Janaina, Meu Canto de Guerra, temos a certeza de que o além existe e as vozes de Novelli e Simone tornam a se misturar, entregando-se aos prazeres do místico. André Mehamari é um dos músicos mais competentes da atualidade e faz uma justa participação com seu piano em faixas como Clarice e Vi. Tem também Guilherme Arantes (Muito Diferente) e Leandro Braga no arranjo e piano em Como a Vida, Passarinhada, Rastros no Asfalto e Beija-flor Colibri.

Com um ar de Clube da Esquina, Simone recria com classe a música Vera Cruz, de Milton Nascimento e Márcio Borges e as vozes secundárias fazem toda a diferença, dando a dimensão da voz da cantora: selvagem, distinta, intrépida.

A realidade de Clarice Lispector transpassa para Simone Guimarães na mais pura e inquieta transição. Talvez seja um recado da cantora para a posteridade ou, quem sabe, para a modernidade conhecer a obra dessa grande escritora. Mas precisamos ouvir Clarice para termos a plena certeza de que a música popular brasileira como um todo, está a salva de intrépidos cavaleiros urbanos contrariados com a própria imagem surrealista. Precisamos abraçar Clarice para que tenhamos a nítida certeza de que a música popular brasileira está capacitada de vozes como a de Simone Guimarães, que é uma cantora excepcional, assim como seu mais recente disco.

 

Clarice Lispector por Simone Guimarães

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ellen Oléria e eu

Ellen e eu: encontros e risadas
Para um blogueiro ou crítico musical, nada melhor do que encontrar, do nada, um cantor ou uma cantora que o agrade tanto. No meu caso, encontrei Ellen Oléria, cantora que torci, vibrei, fiquei sem cordas vocais e me arrepiava todo quando a via cantar. Ellen é uma dessas pessoas fantásticas que conhecemos e que não queremos mais desgrudar. Nosso encontro ocorreu no mês passado, abril, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, para onde eu ia à João Pessoa e ela para Brasília. Como o avião fazia escalas na capital do país, fomos no mesmo voo. Conversamos um pouco e ela falou segredos musicais aqui não revelados por motivo maior. Mas Ellen ao menos conheceu o Mais Cultura! e exigiu um artigo sobre ela. Conversas. Pausas para os passantes do estreito avião. Conversas. Pausas para fotos. Conversas. Pausas para beijos. Conversas. Pausas para abraços e declarações de fãs dentro do avião. Conversei com Ellen Oléria como se fossêmos íntimos, dessas intimidades entre um crítico e uma cantora e confesso que gostei de ter trocado essas palavras com uma cantora do porte de Ellen Oléria.
Falamos de Brasília, de música, de Milton Nascimento, de cantoras amigas que conhecemos em comum, como Márcia Taiul e Emília Monteiro (que gravou a música Córrego Rico em seu CD Cheia de Graça) entre outras e de como São Paulo era o antro musical do país. Ellen estava acompanhada de sua empresária, cujo fora ela quem tirara a nossa foto. E uma alegria imensa me invadia por dentro por ter em primeira mão detalhes de seu futuro musical.
Com agenda lotada, marcações de entrevistas e viagens pelo Brasil inteiro, Ellen Oléria é uma das novas cantoras de sua geração que tem um cardápio variável e respeitado. Ganhar o The Voice Brasil (edição número 1, como ela mesma frisou) foi uma de suas maiores conquistas. De menina probre, infância destruída, pai alcoolico e mãe batalhadora, Ellen Oléria se transforma em uma das maiores cantoras e uma das mais cobiçadas atualmente e seu disco de estreia (que vem agora em maio) está sendo cogitado como um dos mais esperados.
Ter acesso direto à essas informações é algo realmente importante a um crítico musical. Mas o que importou para mim naquele momento foi o sorisso de Ellen: encantador e verdadeiro. Diva das grandes divas, a cantora não se importou em falar comigo e depois que eu disse que era blogueiro, ela mesma falou que esta profissão estava em alta. Mas quando disse que era amigo de suas amigas, ela não acreditou e botou ainda mais fé no que eu dizia.
Antes mesmo de ser  a nova queridinha da música, Ellen Oléria fizera canções caprichosas, como a cantada pela cantora amapaense Emília Monteiro, Córrego Rico (disponível na internet). Emília e Ellen se conhecem há muito tempo e ambas moram em Brasília, reduto das boas e ótimas cantoras de hoje em dia.
Que Ellen é uma graça, disso eu não posso negar. Virei ainda mais seu fã e tenho a absoluta certeza de que ela lerá estas linhas. O contato virtual passou para o contato físico, tendo tato, abraços e beijos esfuziantes. O imaginário virou realidade. E Ellen Oléria é real.

Ellen Oléria e eu
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A beleza no canto de Márcia Tauil




Márcia Tauil, entre as melhores cantoras
Há cantoras e há cantoras neste Brasil carregado de vozes e sambas e que veneramos e confiamos. Mas para ter confiança e lealdade para com a artista é o que se pode esperar da pessoa cuja a carreira é marcada por uma boa voz e uma trilha repleta de discos maravilhosos e cultivados por belezas conjuntas. Márcia Tauil canta com a alma verdadeira, com sentimentos, com vontade e com verdade e expõe suas graças divinas em discos merecidamente brasileiros com muita categoria e exatidão. Muito produtiva e eficiente, Márcia faz de sua bandeira a prudência e a disciplina para com o canto. Pontual e responsável com seus compromissos, demonstra sempre uma grande estabilidade, fator que a faz respeitável por aqueles que a conhecem. Não deixa nada por acabar e respeita todos os regulamentos, por isso muitas vezes é considerada uma mulher de fibra. Márcia Tauil canta o que gosta e isso faz todo o diferencial em sua carreira.

A música brasileira, talvez, nunca tenha vivido um momento com tantas boas cantoras surgindo como o atual. Uma das cantoras que chama a minha atenção é a mineira Márcia Tauil, ou simplesmente Márcia. Com sonoridade moderna, voz afável, letras interessantes e músicas de alta qualidade para qualquer horario do dia, Márcia cercou-se de muita gente boa e se apresenta como uma das maiores cantoras de todos os tempos. Com uma voz sensível e agradável, sem precisar apelar para truques vocais desnecessários, Márcia Tauil acerta o tom como cantora e ainda mostra ser uma compositora de mão cheia. O jeito de cantar e o estilo econômico na dimensão necessária de compor, coloca desde já Márcia como uma das melhores novidades artistícas.

De Minas para Brasília, a mudança só veio a beneficiar ainda mais sua bem sucedida carreira de cantora e compositora. Lá pôde conviver melhor com cantoras como a amiga Simone Guimarães e Miúcha, irmã de Chico Buarque e com Roberto Menescal, que a adora e a convidou a participar do disco em sua homenagem, o excelente Elas Cantam Menescal, lançado no ano passado, ao lado de Sandra Duailibe, Cely Curado e Nathália Lima (todas de Brasília).

Márcia Tauil é música para os olhos.  Bom senso e discrição são marcas de alguém que leva à sério seu canto.  Moradora de Brasília, Márcia nasceu em Guaxupé, cidade mineira a qual tem muito carinho. Dona de uma voz encantadora, Márcia é responsável por lançar discos memoráveis, como o Sementes no Vento, lançado em 2003, em que canta as músicas feitas pela dupla Eduardo Gudin e Costa Netto, com músicas caprichosas e honrosas.

Cantora, compositora, musicista, mãe, Márcia Tauil faz do seu cantar seu alicerce para a música popular brasileira ser ainda melhor. Eleita pelo Mais Cultura! como a 5º Melhor Cantora do Brasil dos Últimos 10 Anos dentro da MPB, Márcia é uma mulher palavras universais e tem dentro de seu universo o mundo da poesia musicada. Tem tudo para todos os gostos e seu traço, em minha opinião, é regido e batizado unicamente pela sua perspicaz sensibilidade. Impulsiona e alimenta nossa vontade e a nossa capacidade de concretização neste mundo. Além de ser uma das maiores compositoras contemporâneas da música brasileira, Márcia tem músicas compostas ao lado de Simone Guimarães e Roberto Menescal e atualmente prepara um novo CD. Sua obra é incrível. É de ouvir, mas também é de cheirar, de pulsar, de sossegar, de chorar. É tão intenso que quando me falta o ar nesse mundo, eu mergulho dentro de suas canções.

Como toda a vida que contém este ar que entra e sai de mim, incontáveis vezes a cada minuto, a música de Márcia Tauil me infesta de felicidade e acalma meu ser. Eu gosto, eu valorizo e eu me transformo enquanto as ouço. Márcia consegue nos transportar a mundos na qual não somos capazes de alcançar, pois sua voz é maravilhosa e é um mergulho certeiro na corrente das águas do coração.

Tudo isso aliado a texturas, pianos, violões, guitarras, coros e detalhes, mostrando uma música moderna, que remete ao que melhor e mais cuidadoso anda sendo feito na música popular atualmente. Nesse caminho, a cantora oferece um conjunto de canções que contam de forma lírica e lúdica um pouco de sua realidade e a visão feminina do mundo ao redor. Bom humor e poesia leve servem a doces melodias que apontam um trabalho afetuoso desde sua composição que deságua em arranjos caprichados, delicados e precisos e sem exageros.

A beleza no canto de Márcia Tauil
Marcelo Teixeira

terça-feira, 30 de abril de 2013

Emília Monteiro revela os sons do Norte em Cheia de Graça


Emília: revelação do Norte
Ela é amapaense, cresceu em Minas Gerais, mas vive atualmente em Brasília e é da capital do Brasil que surge uma das cantoras que merecem ser ouvidas e admiradas por seu canto, graça, beleza e espontaneidade. Emília Monteiro tem todos os atributos para ser considerada uma das maiores cantoras do Brasil, pois sua música é rica em elementos rítmicos do norte do país, respeitando a sonoridade opulenta de cada estado. Lançando Cheia de Graça (2012 / Independente - Trattore / 27,99) este ano, Emília Monteiro é uma dessas cantoras que faltavam no mercado fonográfico para falar do povo do norte, suas referencias e seus estilos, e que o CD chega em um momento certo dentro da MPB: com pompa de um grande disco, Cheia de Graça merece todos os destaques e ser considerado um dos melhores discos do novo século. É um CD com referência amazônica, mais especificamente do Pará e Amapá. Ritmos como o carimbó, marabaixo, carimbó chamegado, batuque e lundu relidos em arranjos contemporâneos e universais, além de outras músicas também percussivas, mais o valor da MPB contemporânea. No CD há músicas inéditas de compositores já conhecidos e que compõe com vontade e satisfação sempre pensando no melhor da música como Zeca Baleiro, Celso Viáfora, Simone Guimarães, Ellen Oléria e Dona Onete e outros igualmente talentosos, porém ainda não conhecidos da grande mídia (de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro).

Os batuques são manifestações que se ramificou do candomblé e foi implantada na Amazônia na era colonial, da mesma forma como nas demais províncias e regiões brasileiras. O batuque é a denominação genérica dada pelos portugueses para toda e qualquer dança de negros ou qualquer dança de tambor de caráter religioso ou não. No Pará, Amapá e Amazonas, é a denominação comum para os cultos afro-brasileiros. No Amapá de Emília Monteiro e em sua música, o batuque assume rituais miscigenados, praticados nas comunidades festeiras e em outras de origem negra. A mais extraordinária manifestação de criatividade artística do povo paraense foi criada pelos índios Tupinambá que, segundo os historiadores, eram dotados de um senso artístico invulgar, chegando a ser considerados, nas tribos, como verdadeiros semi-deuses.

Inicialmente, segundo tudo indica, a Dança do Carimbó era apresentada num andamento monótono, como acontece com a grande maioria das danças indígenas. Quando os escravos africanos tomaram contato com essa manifestação artística dos Tupinambá começaram a aperfeiçoar a dança, iniciando pelo andamento que, de monótono, passou a vibrar como uma espécie de variante do batuque africano. Por isso contagiava até mesmo os colonizadores portugueses que, pelo interesse de conseguir mão-de-obra para os mais diversos trabalhos, não somente estimulavam essas manifestações, como também, excepcionalmente, faziam questão de participar, acrescentando traços da expressão corporal característica das danças portuguesas. Não é à toa que a Dança do Carimbó apresenta, em certas passagens, alguns movimentos das danças folclóricas lusitanas, como os dedos castanholando na marcação certa do ritmo agitado e absorvente. Na língua indígena carimbó - Curi (Pau) e Mbó ( Oco ou furado), significa pau que produz som. Em alguns lugares do interior do Pará continua o título original de Dança do Curimbó. Mais recentemente, entretanto, a dança ficou nacionalmente conhecida como Dança do Carimbó, sem qualquer possibilidade de transformação. E são essas danças que estão representadas no belo CD Cheia de Graça, revelando os ritmos do Norte.

No disco, Emília Monteiro reúne variadas influências da MPB e de seu Amapá natal, com elementos europeus, africanos e ameríndios. Participação de Dona Onete em Eu Quero Esse Moreno pra Mim. A compositora paraense também é autora de Veneno de Cobra; as duas músicas são inéditas. Destaque ainda para Mal de Amor, de Joãozinho Gomes e Val Milhomem, sucesso que marcou a carreira de Emília na noite macapaense. A cantora disponibilizou o CD no site www.soundcloud.com/emiliamonteiro. Lá você poderá ter uma noção mais abrangente da musicalidade do CD como um todo. Eu destaco As deliciosas Mandacaru e Descalço (Nanon) compositor inédito de São Paulo, Coisinha (Zeca Baleiro/Suely Mesquita), Meus Ventos (Márcia Tauil / Simone Guimarães).

Emília Monteiro me encanta, me fascina e me influência. Seu canto é embalado por sons amazônicos e africanos e esse é todo o emaranhado de caracteres que a cantora exprime ao se deleitar em sua música. Logo nos encantamos com a regionalidade musical desta amapaense simpática, sorriso largo e inspirador. Sempre antenada com os movimentos artísticos, Emília busca na sonoridade de seu som, atributos para que sua música seja cada dia mais levada por multidões e que não fique apenas no reduto nortista. Emília Monteiro é uma guerreira e seu som precisa ser desbravado pelos quatro cantos deste país, revelando uma das melhores cantoras de todos os tempos e a vontade de que dá é de ir até o Norte do Brasil para conhecer de perto esta rica cultura, a qual precisamos descobrir mais e mais.

Vale ressaltar que hoje é o aniversário desta grande guerreira e o Mais Cultura Brasileira! e o moderador deste blog, Marcelo Teixeira, assim como milhares de leitores, desejam à você Emília, um Feliz Aniversário com muito sucesso e que este novo ciclo seja repleto de sucessos.

 



Cheia de Graça / Emília Monteiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nos Horizontes de Leila Pinheiro


Um dos melhores de Leila
Leila Pinheiro é muito conhecida como uma bossa-novista que não esteve naquele tempo áureo de Tom Jobim ou Vinicius de Moraes, mas teve o aval e apadrinhamento do primeiro para poder cantar toda a discografia precisa do maior compositor brasileiro de todos os tempos. Mesmo com discos muito além da bossa nova, Leila Pinheiro conseguiu imprimir em sua discografia, discos quase autorais, como Na Ponta da Língua e Nos Horizontes da Vida, hoje retratado aqui no Mais Cultura. E Leila teve muito o que celebrar em 2005, ano do lançamento do disco, pela Universal. Contratada pela Biscoito Fino no ano seguinte, a cantora lançou um de seus melhores discos, Nos Horizontes do Mundo - o primeiro gravado com autonomia desde 1998, ano em que apresentou o delicioso CD Na Ponta da Língua (já resenhado aqui no blog).

Sem obstinação, Leila arriscou na disparidade e estimulou a nova onda de parcerias como Joyce com Luiz Tatit na saborosa Deu no que Deu, Marcos Valle com Jorge Vercilo, na dançante Pela Ciclovia e, sobretudo, Chico Buarque com Ivan Lins - na inquietante, Renata Maria). Leila gravou ainda soberbas inéditas de Fátima Guedes (A Vida que a Gente Leva) e Francis Hime, com participação de John Donne e Geraldo Carneiro (Gozos da Alma), além de ter recriado de forma sublime a triste canção Onde Deus Possa me Ouvir, do mineiro Vander Lee, em registro que superou (e muito) a gravação feita por Gal Costa em 2002, em Gal Tropical.

Tiranizar, de Caetano Veloso e César Mendes, foi um dos achados de Leila para compor o novo disco, porque a música ficou muito deliciosa de ouvir e dá aquela sensação de quero mais. Assim como O Amor e Eu, um sambinha genioso de Eduardo Gudin, outro grande amigo de Leila. Nuestro Juramento é um bolerão dos bons do porto-riquenho Benito de Jesus e ...E Muito Mais é uma boa embolada que somente os irmãos João Donato e Lysias Ênio sabem fazer.

Mas não são todos que conseguem gravar Minha Alma, do grupo O Rappa com tamanha maestria. Vânia Abreu o fez em seu disco Eu Sou a Multidão e o resultado ficou bacana. Aqui, Leila Pinheiro utiliza a música Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), com voz de Nelson, como incidental tanto no início como no fim da canção. Ficou boa, mas poderia ser melhor e nem por isso tira o mérito de todo o álbum.

A faceta de compositora aparece em Delicadeza tocada apenas ao piano e a parceria com Renato Russo surge em Hoje, uma música calcada no sentimento puro e sincero sobre a vida. Simone Guimarães a presenteia com Vem, Amada, uma canção leve, que trata sobre o amor e suas singelezas perdidas. Encerrando (assim como Na Ponta da Língua) com Walter Franco, grande amiga da cantora, A 60 Minutos Por Hora revela que sessenta minutos por hora não precisa ter pressa para chegar a lugar nenhum.

Nos Horizontes do Mundo (letra de Paulinho da Viola) repousa Leila Pinheiro no primeiro time de cantoras nacionais, depois de muito caminhar com discos a sombra da bossa nova.

 
Nos Horizontes do Mundo / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira