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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pedro Mariano: sucesso e decadência


Pedro: sem rumo certo
Sempre me perguntei o porque Pedro Mariano nunca tinha gravado uma música com a irmã, Maria Rita. Isso não aconteceu nem no CD em homenagem à mãe, uma tal Elis, que Maria Rita gravou ao vivo e em disco duplo no ano passado. Critiquei a atitude de Maria Rita no artigo Redescobrir revela Maria Rita como Elis Regina por um dia, em não convidar o irmão meia boca para cantar os sucessos da mãe. Em vão. Pedro Mariano veio com um disco de estreia digno dos melhores para um iniciante e tentou se desvencilhar da imagem da mãe, que conseguiu com tamanha maestria. O disco foi muito bem aceito pela crítica, pelo público e por pessoas ávidos por uma boa música. Estou me referindo ao disco Voz no Ouvido, já retratado aqui no Mais Cultura Brasileira! e não o seu canhestro disco, lançado em 1997, chamado Pedro Camargo Mariano, lançado pela Sony Music, hoje quase uma relíquia ao ser encontrado nas lojas e departamentos e que infelizmente eu tenho para meu desgosto.

Pedro Mariano já passou por tantos infernos astrais, que apenas o sobrenome e a mãe que teve não podem fazer nada por ele. Depois de Voz no Ouvido, sua carreira acabou definitivamente. Tentando se valer de mocinho direito que faz a lição de casa corretamente, lançou em 2002 Intuição, que contou com composições de Jorge Vercilo, Tom Jobim, Lulu Santos e voz de Zélia Duncan e um grupinho da Trama. O disco não fez tanta repercussão como o anterior e em 2003 lançou com o pai, César Camargo Mariano, o delicioso disco Piano e Voz, com músicas de Noel Rosa, Gilberto Gil e Rita Lee. O disco passou despercebido pelo público, mas ainda assim, retoma a carreira de cantor de MPB que muitos esperavam de Pedro Mariano.

O que falta na carreira de Pedro Mariano deslanchar é sair da barra da saia da mãe e assumir uma posição maioral de cantor e que pode mandar em seu próprio nariz, assim como faz a irmã, Maria Rita. A briga que teve com o meio irmão, João Marcelo Bôscoli, em 2004, fez com que a carreira dele despencasse para o nicho. Pedro engordou e muito, ficou feio, sua voz já não estava mais agradando e seus discos estão caindo na cafonice. Esperemos que a volta por cima do cantor seja rápida, pois o grupo da Trama veio para se firmar como os filhos ilustres dos pais que fizeram muito pela nossa música.

 

Pedro Mariano: sucesso e decadência

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nos Horizontes de Leila Pinheiro


Um dos melhores de Leila
Leila Pinheiro é muito conhecida como uma bossa-novista que não esteve naquele tempo áureo de Tom Jobim ou Vinicius de Moraes, mas teve o aval e apadrinhamento do primeiro para poder cantar toda a discografia precisa do maior compositor brasileiro de todos os tempos. Mesmo com discos muito além da bossa nova, Leila Pinheiro conseguiu imprimir em sua discografia, discos quase autorais, como Na Ponta da Língua e Nos Horizontes da Vida, hoje retratado aqui no Mais Cultura. E Leila teve muito o que celebrar em 2005, ano do lançamento do disco, pela Universal. Contratada pela Biscoito Fino no ano seguinte, a cantora lançou um de seus melhores discos, Nos Horizontes do Mundo - o primeiro gravado com autonomia desde 1998, ano em que apresentou o delicioso CD Na Ponta da Língua (já resenhado aqui no blog).

Sem obstinação, Leila arriscou na disparidade e estimulou a nova onda de parcerias como Joyce com Luiz Tatit na saborosa Deu no que Deu, Marcos Valle com Jorge Vercilo, na dançante Pela Ciclovia e, sobretudo, Chico Buarque com Ivan Lins - na inquietante, Renata Maria). Leila gravou ainda soberbas inéditas de Fátima Guedes (A Vida que a Gente Leva) e Francis Hime, com participação de John Donne e Geraldo Carneiro (Gozos da Alma), além de ter recriado de forma sublime a triste canção Onde Deus Possa me Ouvir, do mineiro Vander Lee, em registro que superou (e muito) a gravação feita por Gal Costa em 2002, em Gal Tropical.

Tiranizar, de Caetano Veloso e César Mendes, foi um dos achados de Leila para compor o novo disco, porque a música ficou muito deliciosa de ouvir e dá aquela sensação de quero mais. Assim como O Amor e Eu, um sambinha genioso de Eduardo Gudin, outro grande amigo de Leila. Nuestro Juramento é um bolerão dos bons do porto-riquenho Benito de Jesus e ...E Muito Mais é uma boa embolada que somente os irmãos João Donato e Lysias Ênio sabem fazer.

Mas não são todos que conseguem gravar Minha Alma, do grupo O Rappa com tamanha maestria. Vânia Abreu o fez em seu disco Eu Sou a Multidão e o resultado ficou bacana. Aqui, Leila Pinheiro utiliza a música Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), com voz de Nelson, como incidental tanto no início como no fim da canção. Ficou boa, mas poderia ser melhor e nem por isso tira o mérito de todo o álbum.

A faceta de compositora aparece em Delicadeza tocada apenas ao piano e a parceria com Renato Russo surge em Hoje, uma música calcada no sentimento puro e sincero sobre a vida. Simone Guimarães a presenteia com Vem, Amada, uma canção leve, que trata sobre o amor e suas singelezas perdidas. Encerrando (assim como Na Ponta da Língua) com Walter Franco, grande amiga da cantora, A 60 Minutos Por Hora revela que sessenta minutos por hora não precisa ter pressa para chegar a lugar nenhum.

Nos Horizontes do Mundo (letra de Paulinho da Viola) repousa Leila Pinheiro no primeiro time de cantoras nacionais, depois de muito caminhar com discos a sombra da bossa nova.

 
Nos Horizontes do Mundo / Leila Pinheiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Rita Lee que a Ná Ozzetti recriou com perfeição


Ótimas releituras de Rita por Ná
Adesarqueou a Rita! Geralmente, as músicas compostas por Rita Lee ficam mais legais quando cantadas por outros cantores e isso não acontece somente com ela: com o Jorge Vercilo, com o Cazuza e com a Ana Carolina isso acontece com tamanha frequência, que fica impossível ouvir a canção original na voz de quem a criou.  A cantora Ná Ozzetti realçou o som da Rita com cores díspares, mais leves, com as cores de sua tradição vinda do extinto grupo Rumo e também de sua formação lírica. Demorei pra me convencer que o LOVELEERITA era legal, que podia sim, transformar o rock da Rita Lee em outra coisa e no fim, sair algo bonito. E também acho que toda tentativa de interpretação tem muito de coragem, ousadia e amor. E que deve ser massa cantar Rita Lee. Irresistível. Enfim, uma super homenagem com um repertório escolhido a dedo, com muito carinho, muita determinação e que ficou um disco gostoso, caprichado e precioso.

Atlântida (Saúde 1981) fica onde? Não sei se ela desapareceu do mapa ou sumiu mesmo foi do meu imaginário. E como a música diz Que o mundo é dos que sonham/ Que toda lenda é pura verdade. Ná Ozzetti canta bonito, lento, cada palavra fica nova com sua voz. O violão dá um som de roda, circular, que embala o ouvinte. O CD abre sonhando. Com a boca no mundo (Entradas e Bandeiras 1976) tem um suingue gostoso e logo já vai dando aquela vontade de dançar. E aos poucos vou sendo levada por esse novo tom que Ná Ozzetti imprime às canções. Essa música é a cara da Rita Lee! Ela ainda meio menina, encontrando seu passo entre seu corpo, sua voz e sua vontade de botar a boca no trombone. Com a boca no mundo é uma verdadeira descoberta. É interessante como a Rita Lee (sozinha ou com outros compositores que não o Roberto de Carvalho - pelo menos no LOVELEERITA) compunha músicas completamente viajantes, grandes. Aqui eu falo de amplitude mesmo. Ela viaja em milhares de temas, descobre cavernas, anda por outras estradas. Com o Roberto, as composições já são mais sexuais, apaixonadas, muitas quase corporais. Que também é o máximo.

Mania de você (Rita Lee 1979) na versão da Ná chega mais rápida, dançante. Acho que mais pop mesmo, menos carregada de estória. Mania de você foi composta pelo casal quando ainda estavam na cama. Na delícia da hora. Foi interessante essa mudança de estilo, já que com a Ná a estória é outra. No lugar da cama, entram os mil sopros que são de matar.

Bem, Mutante (Saúde 1981): a Ná simplesmente arrebenta na canção e dispensa comentários. Ela chega de mansinho, entrando e tomando conta de mim sem pedir licença. E eu deixo. Mutante é linda sempre e ainda mais nessa versão, que de quebra tem um trombone. É um escândalo simplesmente. É delicada, é exagerada, é a combinação perfeita das palavras. Tudo isso junto explode nessa música de amor temperada de todos os cheiros: dor, ressentimento, paixão, tesão e abandono.

 Fruto Proibido (Rita Lee & Tutti Frutti 1975): malandrada! Essa versão está cheia de percussão e guitarra. Ótima! A canção é aquela vontade de desanuviar, de trocar de fantasia e sair vivendo. Em Luz Del Fuego, que também está no disco Fruto Proibido, Ná Ozzetti não aguenta e se transforma em uma roqueira total!  Hoje eu represento o segredo/ Enrolado no papel. É incrível como Luz Del Fuego mexeu com o imaginário feminino. Muita cantora já cantou essa música e sempre muito bem. É que Luz Del Fuego não tinha medo. O título Raio X (Bombom 1983) é perfeito para a velocidade da música. O som se arrasta e se espalha por cada vão e aí a gente se dá conta de Quem nunca teve um sonho/ Quem é que não é sozinho. Essa música me faz pensar nessas cidades grandes, onde a janela da sala dá vista para enormes viadutos de concreto. O que a modernidade pode trazer de mais solitário.

A modinha mais poética que eu já vi é essa Modinha (Babilônia 1978) aqui. Linda. Todo remédio que me cura tem uma contraindicação. Perfeito. Ná Ozzetti se descabela em Mãe Natureza (Atrás do Porto tem uma Cidade 1974). Não segura a onda dessa música e pira. Pira ela, pira a guitarra. E bem que fazem! Mãe Natureza na minha opinião é a nossa erva de cada dia, aquela que embaça a mente na pitada certa e a gente já não sabe se estamos pirando ou as coisas é que estão melhorando!

Lembro-me da primeira vez que ouvi Doce Vampiro (Rita Lee 1979). Eu ainda era menino e tinha uma amiga mais velha que respirava Rita Lee. Um dia ela me chamou pra me mostrar essa música, e eu mesmo ainda menino, achei o máximo. Doce Vampiro com Rita é imbatível. Com a Ná é irresistível.

E o LOVELEERITA acabou. E eu que comecei esse texto ressabiado, enciumado da Ná roubando a uma Rita roqueira, dona do mundo, cruel com todos os que iam contra aos seus pensamentos, termino esse artigo numa sensação de curtição total. Que delícia isso!

Ponto para Ná Ozzetti e um milhão de pontos para Rita Lee.

 

LOVELEERITA / Ná Ozzetti

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O ótimo disco Pirata, de Maria Bethânia


A cantora Maria Bethânia
Entre os quatro baianos tropicalistas mais próximos (isto é, estou excluindo o Tom Zé), Maria Bethânia é sem dúvida a artista mais diferente. Talvez por isso até hoje ela seja menos popular que os outros três, e seja tão difícil encontrar um fã ardoroso seu. Tanto Caetano, quanto Gil e Gal já gravaram discos cafonas ou músicas bregas, mas o campeão ainda é o irmão da Bethânia, mas mesmo assim, nenhum dos três são pejorativos na sua arte. Com direção musical do violonista Jaime Alem, que se encarrega das cordas no disco, Pirata é um disco dedicado às águas, mais precisamente do mar e dos rios. Como de costume, Bethânia intercala poemas e/ou trechos de poemas com canções que evocam estes temas. História pra Sinhozinho de Dorival Caymmi é a primeira canção do disco, seguida por O Tempo e o Rio de Edu Lobo e Capinam. Nas duas a ênfase é na voz e interpretação de Bethânia, com o arranjo mínimo, acompanhada só ao violão. Todo cais é uma saudade de pedra, declama a cantora antes de cantar os Argonautas do irmão Caetano. Apesar de regravação, a canção é obrigatória devido à temática do disco: Navegar é preciso / Viver não é preciso. Se preciso aqui vem do verbo precisar indicando necessidade ou do substantivo precisão que denotada certeza, talvez já tenha sido até esclarecido pelo autor, mas a dúvida torna a canção ainda mais bela. O arranjo com violão, baixo acústico e bandolim dá um belíssimo ar de fado, música típica de Portugal.

Bethânia declama Perto de muita água tudo é feliz antes de Santo Amaro, samba em homenagem à terra natal. Aqui fica claro o cuidado na produção do disco, essas quatro músicas em sequência dão um crescente de ritmo, de pique no disco. Depois vem a minha favorita, De Papo pro Ar. Clássico da música caipira (caipira mesmo!) acompanhada na viola por Jaime Alem, conta a vida boa do caipira que vive do rio da caridade alheia e não se incomoda com nada. Ou melhor, quase nada: Quando no terreiro faz noite de luar / E vem a saudade me atormentar / Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar.

Fui quase injusto acima, pois Sereia de Água Doce é outra das músicas lindíssimas deste disco. Samba de autoria de Vanessa da Mata, mostra a sintonia de Bethânia com a novíssima geração de compositores, fazendo uma sutil e muito bem dosada mescla com canções da velha guarda. Eu que Não Sei Quase Nada do Mar tem uma levada meio espanhola e também é da nova safra. Passando (bem) longe da minha lista de compositores favoritos, Ana Carolina e Jorge Vercilo assinam esta belíssima canção que parece sob medida para a sensual voz de Bethânia, como exige a letra carregada de erotismo. O arranjo traz um dos raros momentos orquestrais do disco. Segue A Saudade Mata a Gente, outro clássico de João de Barro e Antônio Almeida, desacelerando um pouco o bpm depois das duas anteriores, mais uma vez com arranjo bem suave centrado em violão em voz. De Antônio Almeida, Serenô segue na toada da canção anterior, mas um pouco mais bonita.

Segue o samba com batida de candomblé Memória das Águas e depois com Águas de Cachoeira de Jovelina Pérola Negra, samba de terreiro com cavaquinho e acompanhamento de palmas. Jaime Alem agrega várias Cantigas Populares, na faixa que leva o mesmo nome. Ainda que misture melodias distintas nos versos tirados de diferentes cantigas, a música apresenta uma unidade surpreendente. Bethânia declama Antônio Vieira e termina com A Coroa: voz solo, acompanhada no finalzinho por tambores e coral, tudo agregado com se fosse uma só canção. Onde Eu Nasci Passa Um Rio é outra da safra antiga de Caetano e essa aqui é a interpretação definitiva de uma canção pouco conhecida da obra do baiano. O arranjo, mais uma vez se destaca, só violão, voz e cello, conferindo a esta bela canção o tratamento que ela merece. O verso o rio da minha terra deságua em meu coração é de arrepiar. Francisco, Francisco é uma bela canção em homenagem ao velho Chico, e o disco termina de maneira bastante pessoal com Meu Divino São José.



Pirata / Maria Bethânia

Nota 10                  

Marcelo Teixeira