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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado


1968 foi um ano emblemático para a história da música popular brasileira: de um lado tinha a turma de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda, do outro os festivais de música da TV Record, de um outro lado horizontal tinha a Bossa Nova e suas nuances perfeitas para enaltecer o que era belo e mais sagrado e por um curto espaço de tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil se juntara a Nara Leão, Os Mutantes, Rogério Duprat e Gal Costa para criarem um movimento audacioso e inteligente, que ganharia o nome de Tropicália. Quase cinquenta anos nos separam do fatídico ano de 1968, época da ditadura militar no Brasil, para os dias atuais, em que a música carece de muita criatividade e audácia, para ficarmos nas lembranças temidas pelo disco e por depoimentos de quem vivenciou aquele precioso tempo. No meu caso, apenas carrego na bagagem cultural o que se falam ou escrevem sobre o movimento, tendo em vista que eu nem era nascido para poder contar história. Mas até hoje, muitos intelectuais, musicólogos, filósofos e críticos de música tentam explicar a necessidade poética e harmônica de Tropicália ou Panis et Circencis (1968 / Philips / 30,00), disco em que há uma miscelânea de vozes e uma caricatura autoral persistente dos artistas mais badalados de então. Caetano Veloso e Gal Costa eram amigos e já tinham gravado Domingo, música que abriu várias fronteiras para ambos, enquanto Gilberto Gil ainda engatinhava no cenário musical apenas nos bastidores, mas sua presença fora marcante e precisa para dar o pontapé inicial em um dos movimentos mais importantes não apenas para os criadores, como para toda uma geração. Em seu livro biográfico Verdade Tropical (1997), Caetano disse que Gil falava demais e com certa eloquência verbal que passara a ser hermético e cansativo demais, enquanto os demais tentavam falar a língua nativa, natural, habitual. Mas o que muitos talvez não entendessem na época, é que essa maneira de Gil falar fora totalmente importante para o surgimento de canções assimétricas, como Misere Nobis, que abre o álbum. Perguntas até hoje não respondidas persistem em nossos imaginários: por que Maria Bethânia, a irmã de Caetano e até então a única a brilhar efusivamente em teatros lotados, não participara do disco? Por que Gilberto Gil segura a foto emoldurada em quadro de Chico Buarque? Por que Nara Leão pertenceu ao grupo tropicalista? Apenas, talvez, a última pergunta tenha resposta e ainda assim contraditória. Nara Leão gostava de perambular por todas as esferas musicais, tais como a própria bossa nova, a MPB, o samba de morro e para ela não seria novidade pisar em ovos tropicalistas. Deu certo essa iniciativa. Mas uma quarta questão surge: por que Tom Zé, baiano de Irará, que era tropicalista como os outros, não participara do momento de fato, mesmo aparecendo na capa do álbum? A participação de Tom Zé fora pequena e passou desapercebida pelo grande público da época e até hoje associam a imagem do cantor à outras fases tropicalistas, menos nesse disco. Sua única canção, Parque Industrial, fora cantada por todos, menos por Nara, que cantou apenas Lindoneia, a quarta faixa do disco. Podemos afirmar então que Nara Leão era tropicalista? Nas palavras de Caetano, sim, ela pertencera ao grupo, mas isso não deixa de ser evidente, assim como a meia participação de Tom Zé. Seja como for, Tropicália é um disco que fora iniciado sem a pretensão de ser concluído: havia ali a intenção clara e objetiva de seus líderes, Caetano e Gil, em influenciar mudanças grotescas no mundo moderno. O ano de 1968 eclodia de um militarismo sem igual e fazer ou falar qualquer coisa resultaria em morte, mas a turma da Tropicália queriam mais: queriam ser alvo de visão e audição. Ganharam o mundo depois que Caetano Veloso tivera contato imediato com a obra de Glauber Rocha, o lendário cineasta morto precocemente e de Hélio Oiticica, o pai do tropicalismo, que influenciou e muito a obra e a vida dos músicos envolvidos. A propagação da causa tropicalista pelo disco Tropicália ou Panis Circences persevera por quase cinquenta anos com o mesmo brilho e com a mesma simbologia desde 1968 já com a intenção de nunca terminar. Havia uma necessidade incessante de Caetano e Gil preverem que o álbum seria histórico? Talvez sim. A capacidade intelectual de todas as cabeças pensantes fizera do disco uma obra-prima sem igual, elogiado até hoje por amantes e críticos da música universal. O ideário tropicalista foi formado não apenas pelas discussões ardilosas de seus condutores e/ou pelos ajuntamentos de intelectuais, como a dos poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari. Apesar de impactante para o momento e diante da importância dessa coleção de ideias e fatos revolucionários que formigaram a estrutura cultural nacional, é preciso lembrar que tudo girava em torno de discos sensacionais lançados naquele tempo e contra a censura enclausurada de outros movimentos que persistiam em lograr para um ponto certo no lugar certo. E Tropicália ou Panis et Circences permanece até hoje como reduto de um álbum magnífico, precioso e atual a tal ponto de nunca ser concluído.

 

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O inquieto Tom Zé

O inquieto Tom
Tropicalista nato, Tom Zé veio ao mundo musical para provocar e incitar algo incomum que o desagrada. Faz tudo com ironia fina e requintada, que somente ele consegue fazer. Ilude corações amargurados ou felizes e diz em músicas que os americanos são tolos e eles aplaudem. Tom Zé é um marqueteiro da própria vida, tanto musical quanto a própria e é dessa profissão que o cantor e compositor baiano consegue irritar boa parte da população. Tudo o que Tom faz, canta ou compõe é fruto de alguma indgnação, de alguma euforia, de alguma felicidade e em Tribunal do Feicebuque (2013 / 19,99 / Independente) não foi diferente. Após uma polêmica com um grupo de bebidas gaseificadas, Tom Zé respondeu ao pessoas que o criticou pela rede social com a música título de seu EP lançado em 2013, num tom ácido, cortante e provacante.  No disco, o compositor divide autoria e interpretação de canções como a que batiza o EP com Marcelo Segreto e Gustavo Galo e traz versos como Tom Zé mané / baixou o tom / baba babe / bebe e baba / velho babão, além do provocador e irônico Que é que custava morrer de fome só para fazer música?. Além do tema que abre e abocanha todo o disco, o álbum tem ainda Zé a Zero, Papa Francisco Perdoa Tom Zé, Irará Iralá e Taí, feita por ele nos anos 1970 para um comercial de refrigerante.  Seja como for, o fato é que Tom irritou metade das pessoas com este EP fantástico e sensacional, que muitos jornalistas e críticos especializados praticamente negaram a comentar sobre ele em suas revistas eletrônicas. Mas Tom segue sua vida musical da melhor forma possível: irritando o próximo e sorrindo de tal gozação. Tom vive do seu jeito e do seu tom.

 

Tribunal do Feicebuque (2013) / Tom Zé
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de março de 2014

O espetacular Encarnado, de Juçara Marçal


Disco de estreia de Juçara: vale ouro
Ouçam com a devida atenção o disco de estreia da cantora Juçara Marçal: um conjunto de boa voz, bom repertório, boa capa, boas letras. A morte norteia todo o disco, dando aquela atmosfera sobrenatural para um assunto em que todos não gostam de opinar, mas que é uma parte de nós. Juçara Marçal veio com toda a sua força para dar a Encarnado (2014/ 26,99) um clima intimista, sofisticado e, acima de tudo, misterioso. Na estrada há mais de 20 anos, a cantora surge como um meteoro na música popular brasileira, em um momento crítico em que a música sofre com inclinações variantes e sons abalados. Juçara comprova que a arte não tem idade, não tem limites, não tem escalas e que se pode fazê-lo a qualquer tempo, época ou vontade. Mas de onde veio tanta inspiração para compor um disco tão intrigante? Juçara juntou-se aos músicos Kiko Dinucci e Rodrigo Campos e na seleta lista de canções inclui Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba e o que chama a atenção é a vinheta de Odoya, que antecipa Ciranda do Aborto. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. Presente de Casamento é uma música bruta, áspera, mas que mesmo assim soa como um soco no estomago de quem a ouve, pela sua dramaticidade e o som fica desconfortavelmente belo. Canção de Ninar Oxum foi feita para ser cantada ao ouvido e esse tom é o mais impressionante: parece que Juçara está colada ao nosso corpo, balbuciando palavras afetivas. Sempre antenada com o mundo da música, Juçara nos trouxe um disco com sonoridade máxima, expressão intrigante, capa divertida e um tema assustador e assombroso: a morte. Mas não é qualquer morte que se comenta nas faixas deste disco. É a nossa morte, a morte do próximo e a morte de todos nós.

 

Juçara Marçal
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Iaiá - de Mônica Salmaso


Ótimo disco, ótima cantora
O nome do disco e a homenagem a Clementina de Jesus logo na faixa de abertura dão as primeiras pistas da brasilidade de iaiá, CD da cantora paulista Mônica Salmaso. Nele, o timbre docemente grave e cheio de personalidade da intérprete assinala musicalmente uma identidade brasileira sem deixar de ser universal. Essa busca se confirma no interesse de Mônica pelas pessoas de seu país, cantando a religiosidade e o humor, a poesia e a sobrevivência e isso acontece desde o CD Trampolim, que a persegue no seu jeito de falar do Brasil. Mônica Salmaso volta a ter como grande companhia de seu trabalho a liberdade musica em iaiá. E a canção em si já dimensiona o aspecto universal do CD, que marca a sua estréia na gravadora Biscoito Fino em grande estilo. As reflexões tornam ainda mais compreensíveis o encontro entre o simples e o complexo no conteúdo de iaiá, que dialoga com variadas vertentes da MPB, do samba de gafieira Cidade lagoa (Sebastião Fonseca/Cícero Nunes) às experimentações de Tom Zé em Menina amanhã de manhã (parceria com Perna). O resultado desta última, no olhar do crítico entusiasmado que vos escreve da intérprete, ficou cheio de alegrias, de saudades e de Brasis.

 

Do embalo puxado para o maxixe de Doce na feira (Jair do Cavaquinho/Altair Costa) ao samba choro Cabrochinha (Paulo César Pinheiro/Maurício Carrilho), iaiá (2004 / Biscoito Fino / 26,99) tem consistência, sofisticação e espontaneidade. Boa parte da sonoridade do CD é fruto dos quatro anos em que Mônica Salmaso ficou sem gravar, caindo na estrada e fazendo shows com músicos de linguagens e universos bem diferentes. As faixas têm estrutura melódica e harmônica simples - como Estrela de Oxum (Rodolfo Stroeter e Joyce) e Moro na Roça (Xangô da Mangueira e Zagaia, tema folclórico popularizado por Clementina de Jesus) - e, ao mesmo tempo, experimenta canções mais complexas em sua estrutura. Dentre elas, a delicada Assum Branco (José Miguel Wisnik) e uma pérola de Chico Buarque chamada Sinhazinha (da trilha sonora do filme Para Viver um Grande Amor).

A riqueza do versátil time de compositores também chama atenção em iaiá, conciliando obras de diversos estilos e épocas, sem que o resultado se perca numa colcha de retalhos. Esse, aliás, foi o maior desafio para Mônica Salmaso e Rodolfo Stroeter, produtor e co-diretor musical do disco. Um clima de final de tarde, de depois da chuva, ambienta sua interpretação para a faixa Onde Ir, composta por Vanessa da Mata. E após ter selado a paixão pela obra de Dorival Caymmi nos discos Trampolim (1998) e Voadeira (1999), Mônica canta, desta vez, É Doce Morrer no Mar, clássico do compositor baiano. Reafirma também a sua admiração por Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Por Toda a Minha Vida). A saudação a Sílvio Caldas fecha o disco com chave de ouro no ótimo partido alto Na Aldeia (gravado por Sílvio na década de 30), com participação especial de Teresa Cristina.

Vale a pena conferir.

 

Iaiá / Mônica Salmaso

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O tempo de exílio musical de Chico César


Álbum de 2006: o melhor de Chico
Desde 1995 quando lançou Aos Vivos, seu primeiro disco, Chico César tem se revelado um compositor e intérprete de grande talento. Cuscuz Clã (1996), Beleza Mano (1998), Mama Mundi (2000), Respeitem meus cabelos, brancos (2002) e De uns tempos pra cá (2006) reiteraram suas qualidades. Sem tirar nem pôr. Embora críticos afoitos e imbecis e intolerantes e carcarás, impressionados antes de mais nada com a baixa vendagem de seus discos, estejam agourando de plantão por sua derrocada derrota. Bobagem. Basta ouvir com atenção os seis discos de Chico César para perceber neles uma continuidade admirável do processo criativo. E hoje o talento de Chico César cruza fronteiras e se estende da Europa ao Japão, da Argentina aos Estados Unidos. Enfim: de Catolé para o mundo. Este paraibano de Catolé do Rocha tem se revelado um compositor de primeira linha da MPB. Seu processo de criação segue as diretrizes antropofágicas de Oswald de Andrade que apregoa a deglutição de toda e qualquer cultura, sem espécie alguma de preconceito, visando à produção um objeto singular, genuíno e, por que não dizer, brasileiro. O Tropicalismo bebeu fartamente nas águas do saber oswaldiano. Juntou Carmen Miranda com Miles Davis; Chacrinha com Chaplin; samba de roda com atualismo, Eisenstein com Vera Cruz, Mondrian com Di Cavalcanti, Vicente Celestino com Stravinsky. O resultado todos conhecemos: um forte movimento artístico-musical que hoje, por exemplo, deita suas raízes sobre os nomes mais interessantes da MPB, das artes plásticas, do teatro, do cinema e até da moda.

Chico César é uma legítima cria do Tropicalismo. Ele incorpora conscientemente o projeto tropicalista, nas letras, nas melodias, nas roupas, nas performances, no palco, no uso da voz. Sua atuação no cenário artístico nacional e internacional apaga as fronteiras entre a cultura considerada erudita e a cultura considerada popular. Associa o forró ao jazz, a ciranda ao reggae, a poesia concreta ao cordel, o haikai a letras discursivas. Curte misturar Augusto de Campos com Cego Aderaldo; Woody Allen com Mallarmé; cavalo de pau com sandália havaiana; nirvana com seca nordestina; Jimmy Cliff com Mandela.

Antenado com as coisas do nosso tempo, suas canções sempre mexem conosco. Umas pelo ritmo; outras, pelas melodias; outras pelas letras; e outras, finalmente, por reunirem todos estes itens com qualidade. Percebe-se que em sua obra desponta uma consciência de linguagem, ou seja, um projeto intencional de construir a criação, de experimentar com as linguagens, de buscar algo novo e, ao mesmo tempo, harmônico. Afinal, antes de mais nada, uma canção popular tem de associar o belo ao agradável. Há exceções: ótimas canções, porém nada agradáveis. Não me refiro a elas. Busco um consenso mais amplo: canção é espaço poético de letra e música cantadas harmoniosamente. Cantadas com a naturalidade de quem fala. Chico César canta como quem fala. Às vezes ele fala mesmo, como em Béradêro, de 1995, ou Solidariedade, Papo cabeça, ambas de 1997, Aquidauana, 2000. Nos dois discos mais recentes Chico César tem feito canções propriamente ditas. Está dançante em Respeitem meus cabelos, brancos e melancólico em De uns tempos pra cá. Mas sempre muito musical.

Chico César faz sua antropofagia se servindo no prato da História da MPB, da Poesia, da Cultura Popular, da Política Internacional, etc. Come até se lambuzar. Um exemplo rápido: no forró Paraíba, meu amor (1998; o título já nos remete ao título e ao refrão de São São Paulo, do eterno tropicalista Tom Zé), o compositor paraibano associa o forró pé-de-serra e a voz de Flávio José a uma letra sofisticada que lá pelas tantas diz: não quero chorar / o choro da despedida / o acaso da minha vida / um dado não abolirá. A cadência envolvente do forró cai bem na citação dos célebres versos mallarmaicos: um lance de dados / jamais abolirá o acaso. Casar a poesia de Mallarmé com as festas de São João é instalar a parabólica no mangue, como apregoa o movimento musical Mangue Beat, também herdeiro do Tropicalismo.

Versos à frente, na mesma música, o compositor refere-se à fogueirinha de laser que ilumina os festejos do meu coração, cruzando as festas do interior com o novo coração do poeta que, longe da terrinha natal, e agora Pós-moderno, pulsa no ritmo envolvente do forró.

O tom melancólico de De uns tempos pra cá, seu trabalho conciso, explora com muita propriedade o uso de cordas do Quinteto da Paraíba sob arranjos de Nelson Ayres, Mário Manga, Adail Fernandes e Nailor Proveta. O resultado é um disco com nova sonoridade dentro da produção de Chico César. A percussão é suave e se destaca apenas na última faixa (a mais rítmica) nas mãos ultracriativas de Escurinho em Orangotanga. Todas as músicas são de Chico César, à exceção de A nível de, de João Bosco e Aldir Blanc e Cálice de Chico Buarque e Gilberto Gil e Outono aqui, uma versão feita pelo próprio Chico. E 1 valsa p/ 3 é a única feita em parceria com Chico Pinheiro.

Elba Ramalho tem participação especial na arrigobarnabeana Por causa de um ingresso do festival matou roqueira de 15 anos. Aparente paradoxo: Elba canta contida e ousadamente. Sua ousadia está no modo de canto-dizer a canção, indo do melódico ao atonal, sem rebuscamentos. Esta é a Elba que fica. Ou, ao menos, a que deve ficar. E Chico César sabe extrair o melhor da intérprete. Esta canção ainda traz uma bem-vinda novidade: a voz e a autoria de Pedro Osmar na falação de um texto, no mínimo, provocador. A faixa, de nome extenso, tirado de uma manchete d um jornal carioca , por ocasião do I Rock in Rio, é uma das mais bem realizadas, num disco de rigores.

Chico César: o tempo passa, e ele fica ainda mais zeloso com a coisa musical. Suas composições e regravações revelam um compositor e um intérprete insatisfeitos com os altos níveis atingidos em discos anteriores. É preciso ouvir De uns tempos pra cá. O disco mereceu pouca atenção da crítica e quase não toca no rádio. Será que teremos de amadurecer para assimilarmos o talento deste paraibano? Ou esperar a chegada de um novo David Byrne para um novo Tom Zé?

 

De uns tempos pra cá / Chico César

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O lado Z de Zeca Baleiro


Lados misteriosos
Zeca Baleiro é um dos cantores e compositores da nova geração que consegue lançar qualquer disco, seja autoral ou não e que vale a pena conferir, pois suas tiradas são geniais e as musicas são sublimes. Lado Z Volume 2 (MZA Music / 2012 / 19,99), que destaca a face intérprete de Zeca Baleiro e reúne algumas valiosas colaborações com outros artistas, gravações para trilhas e especiais. Assim como o Volume 1, lançado em 2007, o LADO Z Volume 2 atende também aos pedidos de fãs, que gostam de ter suas gravações dispersas reunidas em um disco com começo, meio e fim. O LADO Z é um projeto especial, que comprova mais uma vez que a música de Baleiro não tem tribo (ele já cantou isso em Pet shop mundo cão) e coloca em evidência sua vocação para a pluralidade. O LADO Z é uma pequena amostra disso, uma vez que Baleiro já fez mais de uma centena de participações em discos de amigos e parceiros.

No Volume 2 estão Você só pensa em grana (com Paulinho Moska), Proibida pra mim (com Charlie Brown Jr.), Léo e Bia (com Oswaldo Montenegro), Uma canção no rádio (com Fagner) e Xanéu nº 5 (com Teatro Mágico), além de gravações especiais como Maresia e Homem com H, imortalizada na voz e na dança de Ney Matogrosso, mas que Zeca Baleiro a canta maravilhosamente. O LADO Z Volume 2 ainda traz um Bonus Track, Disritmia, de Martinho da Vila, que já foi cantada por Simone, mas que aqui, Baleiro a canta intimamente. Destaque maior , de autoria de Tom Zé, gravada no CD Poeira Leve, de Adriana Maciel.

E o mistério do porque o disco se chama Lado Z, talvez seja explicado no encarte, que faz todo o sentido, mas que eu não revelarei aqui para não estragar o suspense do álbum.

Disco de altíssimo nível, que só Zeca Baleiro consegue demonstrar do Maranhão para o mundo.

 

Lado Z Volume 2 / Zeca Baleiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

3º Maior Cantora do Brasil: Gal Costa


Tempos áureos de Gal
Quando Gal Costa conheceu Caetano Veloso e sua irmã Maria Bethânia em 1963, e com eles, Gilberto Gil e Tom Zé, ela não sabia o que esperaria destas amizades. Não sabia, talvez, da responsabilidade que teriam para com o Brasil e com o movimento que inventariam na década de 1960. E montaram o espetáculo musical Nós, por Exemplo, em 1964. No ano seguinte o grupo foi para São Paulo, onde, sempre ligados, cada um seguiu sua carreira solo.  Gal gravou o primeiro compacto em 1965, com Eu Vim da Bahia (Gilberto Gil) e Sim, Foi Você (Caetano Veloso). Participou do I Festival Internacional da Canção em 1966, ano em que seu empresário Guilherme Araújo a convenceu a adotar o nome artístico Gal, e não mais Maria da Graça. Gravou o LP Domingo com Caetano em 1967, participou do movimento tropicalista e explodiu nacionalmente como cantora em 1968, quando sua interpretação de Divino Maravilhoso (Caetano/ Gil) ganhou o terceiro lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira da Record.

Além disso, Baby, composta por Caetano especialmente para Gal, tornou-se muito popular. Em 1969, com a ida de Caetano e Gil para o exílio na Inglaterra, ligou-se também a outros compositores como Jards Macalé, e lançou o LP Gal. Ainda muito associada à música e ao público de Caetano e Gil durante os anos 70, em 1979 o disco Gal Tropical inaugura uma nova fase em sua carreira, mais popular e comercial, para um público mais amadurecido. Passou pela década de 80 como absoluta no rol das estrelas de primeira grandeza da música popular brasileira, chegando a ser considerada por alguns como a maior cantora do Brasil. Com repertório eclético, gravou Jorge Ben Jor, Cole Porter e compositores então iniciantes, como Carlinhos Brown.

Outra virada em sua carreira foi em 1994, com o CD O Sorriso do Gato de Alice, menos pelo disco e mais pelo show de lançamento, que, dirigido por Gerald Thomas, mudou radicalmente o estilo das apresentações de Gal, e foi bastante criticado. No ano seguinte Gal desistiu de experimentalismo e lançou Mina D'Água do Meu Canto (dedicado ao repertório de Chico Buarque e Caetano Veloso) com um show convencional. Na década de 90 continuou se consagrando como uma das cantoras mais vendidas do Brasil. Em seus mais de 35 anos de carreira, Gal Costa foi intérprete de grandes sucessos como Vapor Barato (Jards Macalé/ Waly Salomão), Meu Nome É Gal (Roberto/ Erasmo Carlos), London London (Caetano), Deixa Sangrar (Caetano), Folhetim (Chico Buarque), Balancê (J. de Barro/ A. Ribeiro), Índia (J. Flores/ M. Guerrero/ J. Fortuna), Festa do Interior (Moraes Moreira/ Abel Silva) e Vaca Profana (Caetano).

Desde a década de 1960, quando surgiram os especiais do Festival de Música Popular Brasileira (TV Record) até o final da década de 1980, a televisão brasileira foi marcada pelo sucesso dos espetáculos transmitidos; apresentando os novos talentos registravam índices recordes de audiência. Gal Costa participou do especial Mulher 80 (Rede Globo), um desses momentos marcantes da televisão. O programa exibiu uma série de entrevistas e musicais cujo tema era a mulher e a discussão do papel feminino na sociedade de então abordando esta temática no contexto da música nacional e da inegável preponderância das vozes femininas, com Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Fafá de Belém, Zezé Motta, Marina Lima, Simone, Rita Lee, Joanna e as participações especiais das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta, que protagonizaram o seriado Malu Mulher.

Em 1980 Gal gravou o disco Aquarela do Brasil, focado na obra do compositor Ary Barroso, e que trouxe hits como É luxo só (Ary Barroso - Luiz Peixoto), Aquarela do Brasil, Na Baixa do Sapateiro, Camisa amarela e No tabuleiro da baiana (todas de Ary Barroso). Em 1981 Gal estreou o show Fantasia, um grande fracasso de crítica, mas que gerou um dos mais bem sucedidos discos de sua carreira, tanto de público quanto de crítica, o premiado Fantasia, que trouxe vários sucessos, como Meu bem meu mal, Massa real (ambas de Caetano Veloso), Açaí, Faltando um pedaço (ambas de Djavan), O amor (Caetano Veloso - Ney Costa Santos - Vladmir Maiakovski), Canta Brasil (David Nasser - Alcir Pires Vermelho) e Festa do interior (Moraes Moreira - Abel Silva). Com o grande sucesso do disco, Gal convidou Waly Salomão para dirigir o show Festa do Interior que a redimiu do grande fracasso do show Fantasia.

Em 1982 Gal gravou outro disco de sucesso, Minha Voz, em que se destacaram as gravações de Azul (Djavan), Dom de iludir, Luz do sol (ambas de Caetano Veloso), Bloco do prazer (Moraes Moreira - Fausto Nilo), Verbos do amor (João Donato e Abel Silva) e Pegando fogo (Francisco Mattoso - José Maria de Abreu). Em 1983 Gal grava outro disco bem sucedido comercialmente, Baby Gal, que também se tornou um show, e que trouxe os sucessos Eternamente (Tunai - Sérgio Natureza - Liliane), Mil perdões (Chico Buarque), Rumba louca (Moacyr Albuquerque - Tavinho Paes), além da regravação de Baby.

Em dezembro de 2011 lança o álbum Recanto, produzido por Caetano Veloso e Moreno Veloso. Álbum eletrônico idealizado por Caetano Veloso, Moreno Veloso e Kassin. Elogiadíssimo pela crítica foi eleito o melhor álbum de 2011. Depois de sete anos longe de disco e show inéditos, Gal Costa estreou a turnê do elogiado álbum Recanto no Rio de Janeiro no final do mês de março. Com direção de Caetano Veloso, autor de todas as músicas do CD, o show inaugurou a sofisticada casa Miranda. No repertório, além de canções inéditas como Neguinho, Segunda, Tudo dói e o funk Miami Maculelê, sucessos da carreira da cantora, entre eles, Dia de domingo e Vapor barato, e canções que há muito ela na cantava, como Da maior importância e Mãe. No palco, Gal está acompanhada pelo trio Domenico Lancellotti (bateria e MPC), Pedro Baby (guitarra e violão) e Bruno Di Lullo (baixo e violão). O show segue em turnê pelo país e segundo a cantora deve em breve passar por Portugal, Itália, França e Israel.

Gal é uma das maiores cantoras do Brasil e entra para o terceiro lugar na seleta lista das maiores cantoras do Brasil.

 

3º Lugar: Gal Costa

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

3º Maior Cantora do Brasil: Maria Bethânia


Simplesmente Bethânia
Segunda cantora feminina em vendagem de discos do Brasil e a de maior vendagem da MPB com mais de 26 milhões de cópias, segundo dados em seu site, Maria Bethânia é um fenômeno de público e de crítica. O apelido de Abelha-rainha tornou-se popular e deve-se ao primeiro verso da canção-título do LP Mel (1979). Participou na juventude de espetáculos semiamadores em parceria com Tom Zé, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil; em 1960 mudou-se para Salvador com a intenção de terminar os estudos; frequentou o meio artístico, ao lado do irmão Caetano. Em 1963, estreou como cantora na peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues. No ano seguinte, apresentou espetáculos como Nós por Exemplo, Mora na Filosofia e Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova, ao lado do irmão Caetano Veloso e o colega Gilberto Gil, então iniciantes, a quem lançou como compositores e cantores nacionais e a cantora Gal Costa, dentre outros.

A data oficial da estreia profissional é 13 de fevereiro de 1965, quando substituiu a cantora e violonista Nara Leão no espetáculo Opinião pois a mesma precisou se afastar por problemas de saúde. Nesse mesmo ano, foi contratada pela gravadora RCA, que posteriormente transformou-se em BMG (atualmente Sony BMG), onde gravou o primeiro disco, lançado em junho daquele mesmo ano. O primeiro sucesso foi a canção de protesto Carcará, que fez muito sucesso na sua voz na época, no repertório deste, que também incluía, dentre outras, as músicas Mora na filosofia, Andaluzia, Feitio de oração e Sol negro, esta última em dueto com Gal Costa (que à época ainda usava o nome artístico de Maria da Graça). Depois lançou um compacto triplo, Maria Bethânia canta Noel Rosa, que trouxe as músicas Três apitos, Pra que mentir, Pierrot apaixonado, Meu barracão, Último desejo e Silêncio de um minuto, acompanhada apenas por um violão, de Carlos Castilho. Ainda em 1966, depois de voltar à Bahia por um breve período, participou dos espetáculos Arena canta Bahia e Tempo de guerra, ambos dirigidos por Augusto Boal, também competindo em festivais. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, apresentou-se em teatros e casas noturnas de espetáculos, tornando-se assim nacionalmente conhecida.

Bethânia foi a idealizadora do grupo Doces Bárbaros, onde era um dos vocais da banda, que lançou um disco ao vivo homônimo juntamente com os colegas Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. O disco é considerado uma obra-prima; apesar disto, curiosamente na época do lançamento (1976) foi duramente criticado. Doces Bárbaros era uma típica banda hippie dos anos 1970, e ao longo dos anos, este lema foi tema de filme com direção de Jom Tob Azulay, DVD, enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira em 1994 com a canção Atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu, já comandaram trio elétrico no carnaval de Salvador, espetáculos na praia de Copacabana e uma apresentação para a Rainha da Inglaterra.

Inicialmente o disco seria registrado em estúdio, mas por sugestão de Gal e Bethânia, foi o espetáculo que ficou registrado em disco, sendo quatro daquelas canções gravadas pouco tempo antes no compacto duplo em estúdio, com as canções Esotérico, Chuckberry fields forever, São João Xangô Menino e O seu amor, todas gravações raras.

O sucesso de vendagem foi preciso em 1993, depois de completar mais de 25 anos de carreira, quando do lançamento do CD As canções que você fez pra mim, que gerou mais de um milhão de cópias e foi convertido para uma versão hispânica (no caso, Las canciones que hiciste para mi) com parte do repertório (sete das onze músicas foram convertidas - a faixa-título, Fiera herida (Fera ferida, um dos hits do disco, tema de abertura da novela homônima global), Palabras (Palavras), Tú no sabes (Você não sabe), Necesito de tu amor (Eu preciso de você), Tú (Você, esta incluída na trilha sonora da novela global Pátria Minha de Gilberto Braga cujo título remete ao famoso poema homônimo de Vinícius de Morais - justamente a sucessora de Fera Ferida) e Emociones (Emoções, um dos grandes sucessos de Roberto) - das que ficaram de fora Olha, Costumes, Detalhes e Seu corpo), que consistiu em um tributo à dupla de cantores e compositores Roberto e Erasmo Carlos, evocando onze parcerias entre ambos.

Em 2006 foi a grande vencedora do Prêmio Tim de música onde arrebatou três títulos: melhor cantora, melhor disco (Que falta você me faz, um tributo a Vinícius de Morais) e melhor DVD (Tempo tempo tempo tempo, comemorativo dos quarenta anos de carreira). Bethânia, que sempre teve fama de antissocial, surpreendeu e compareceu à cerimônia de premiação. No mesmo ano, os CDs antigos - LPs originais que haviam sido relançados anteriormente em CD - voltaram às prateleiras, com encarte completo (na edição anterior ele havia sido suprimido/reduzido), letras de todas as músicas e textos - mesmo que a versão original não as tivesse - e texto interno com a história do álbum redigido pelo jornalista e crítico musical Rodrigo Faour, pois há muito tempo estavam fora de catálogo.

Ainda em 2006, lançou dois álbuns simultaneamente: Pirata, onde canta os rios do interior do Brasil e foi considerado pela crítica uma espécie de retomada de Brasileirinho, lançado três anos antes, e Mar de Sophia, onde canta o mar a partir de versos da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner. A turnê de promoção dos dois discos foi batizada de Dentro do mar tem rio, com direção de Bia Lessa e roteiro do fiel colaborador Fauzi Arap, originando o álbum duplo homônimo, lançado em 2007.

Com tantos atributos e tanta musicalidade boa e de qualidade, Maria Bethânia é detentora também de uma teatralidade única que consegue juntar música, rima e poesia de poetas e poetisas e escritores e dramaturgos famosos com seus versos pouco publicados. Todos os discos que lança são bem vendidos e isso a torna única e batalhadora e é por este motivo que a cantora chega ao terceiro lugar da lista das maiores cantoras do Brasil.

 

3º Lugar: Maria Bethânia

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Gal Costa de 1968


 

Os clássicos de Gal estão aqui
Gravado em 1968 para ser lançado em 1969 durante um dos períodos mais pesados da ditadura militar, o primeiro disco solo da Gal Costa pode estar longe de ser um dos mais marcantes da sua carreira, mas para mim trata-se, sim, de um registro histórico que merece constar em todas as coleções simultâneas e por colecionadores, fãs, adoradores de música e para o que está para vir. Contrastando com o período tenso politicamente, que resultou no exílio dos colegas tropicalistas Caetano e Gil, Gal acaba optando por um disco que ainda cultivava suas raízes tropicalistas, a começar pela direção do maestro Rogério Duprat e temáticas ao mesmo tempo leves e provocativas. Talvez seja por que isso que a cantora abre o disco com Não Identificado, belíssima canção de Caetano Veloso que também gravou no disco próprio quase que paralelamente, Gal já anuncia sua opção por fazer uma canção de amor... para gravar num disco voador. Confesso minha inveja pessoal, pois quisera eu ter a capacidade de compor uma canção de amor para alguém especial.

Em seguida, Gal passeia pelo xaxado em Sebastiana, para interpretar em seguida outra canção de Caetano, também gravada por ele no disco contemporâneo: Lost in Paradise. Depois usa as metáforas típicas do tropicalista Tom Zé ao interpretar a aparentemente singela Namorinho no Portão, sem abrir mão da crítica velada ao momento político que o país atravessava no momento. Em Saudosismo, interpreta novamente Caetano Veloso em uma bela homenagem à Bossa Nova. As próximas marcam definitivamente sua opção pelo tom ao mesmo tempo romântico e provocativo, com a escolha de duas canções da dupla Roberto e Erasmo (que talvez admirados pela interpretação dela, no mesmo ano comporiam Meu nome é Gal, canção que marcou a sua carreira em seguida).

 

Você precisa saber da piscina

Da margarina

Da Carolina

Da gasolina

Você precisa saber de mim

Trecho de Baby, de Caetano

 

Primeiro com Se você pensa, uma espécie de recado à pessoa amada que se mantém indecisa. Recado dado, manteve a linha em Vou recomeçar.

Em Divino e Maravilho, de Caetano e Gil, a mensagem está claramente contextualizada. Essa canção inicia a sequência de três que se tornaram clássicas dela. Que Pena, a bela canção de Jorge Ben, Gal faz parceria belíssima com Caetano para estabelecer um belo diálogo. O importante, novamente, é a volta por cima em alto estilo ao sair de uma relação.

Mantendo a dupla com Caetano, segue com Baby, clássico incluído nesse disco após o sucesso no disco Tropicália ou Panis et Circenses, mas com um arranjo levemente diferente, em que sobressai um som orquestral. Majestoso!

Em Coisa mais linda que existe, de Gil e Torquato Neto, Gal mantém o astral leve e carinhoso na dose certa. O disco termina com Deus é Amor com a batida típica de Jorge Bem. Com a sua voz afinadíssima e belos arranjos, esse disco marcou de modo definitivo, para mim, o ingresso da Gal entre as maiores cantoras desse país.

 

Gal Costa / Gal Costa

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O ótimo disco Pirata, de Maria Bethânia


A cantora Maria Bethânia
Entre os quatro baianos tropicalistas mais próximos (isto é, estou excluindo o Tom Zé), Maria Bethânia é sem dúvida a artista mais diferente. Talvez por isso até hoje ela seja menos popular que os outros três, e seja tão difícil encontrar um fã ardoroso seu. Tanto Caetano, quanto Gil e Gal já gravaram discos cafonas ou músicas bregas, mas o campeão ainda é o irmão da Bethânia, mas mesmo assim, nenhum dos três são pejorativos na sua arte. Com direção musical do violonista Jaime Alem, que se encarrega das cordas no disco, Pirata é um disco dedicado às águas, mais precisamente do mar e dos rios. Como de costume, Bethânia intercala poemas e/ou trechos de poemas com canções que evocam estes temas. História pra Sinhozinho de Dorival Caymmi é a primeira canção do disco, seguida por O Tempo e o Rio de Edu Lobo e Capinam. Nas duas a ênfase é na voz e interpretação de Bethânia, com o arranjo mínimo, acompanhada só ao violão. Todo cais é uma saudade de pedra, declama a cantora antes de cantar os Argonautas do irmão Caetano. Apesar de regravação, a canção é obrigatória devido à temática do disco: Navegar é preciso / Viver não é preciso. Se preciso aqui vem do verbo precisar indicando necessidade ou do substantivo precisão que denotada certeza, talvez já tenha sido até esclarecido pelo autor, mas a dúvida torna a canção ainda mais bela. O arranjo com violão, baixo acústico e bandolim dá um belíssimo ar de fado, música típica de Portugal.

Bethânia declama Perto de muita água tudo é feliz antes de Santo Amaro, samba em homenagem à terra natal. Aqui fica claro o cuidado na produção do disco, essas quatro músicas em sequência dão um crescente de ritmo, de pique no disco. Depois vem a minha favorita, De Papo pro Ar. Clássico da música caipira (caipira mesmo!) acompanhada na viola por Jaime Alem, conta a vida boa do caipira que vive do rio da caridade alheia e não se incomoda com nada. Ou melhor, quase nada: Quando no terreiro faz noite de luar / E vem a saudade me atormentar / Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar.

Fui quase injusto acima, pois Sereia de Água Doce é outra das músicas lindíssimas deste disco. Samba de autoria de Vanessa da Mata, mostra a sintonia de Bethânia com a novíssima geração de compositores, fazendo uma sutil e muito bem dosada mescla com canções da velha guarda. Eu que Não Sei Quase Nada do Mar tem uma levada meio espanhola e também é da nova safra. Passando (bem) longe da minha lista de compositores favoritos, Ana Carolina e Jorge Vercilo assinam esta belíssima canção que parece sob medida para a sensual voz de Bethânia, como exige a letra carregada de erotismo. O arranjo traz um dos raros momentos orquestrais do disco. Segue A Saudade Mata a Gente, outro clássico de João de Barro e Antônio Almeida, desacelerando um pouco o bpm depois das duas anteriores, mais uma vez com arranjo bem suave centrado em violão em voz. De Antônio Almeida, Serenô segue na toada da canção anterior, mas um pouco mais bonita.

Segue o samba com batida de candomblé Memória das Águas e depois com Águas de Cachoeira de Jovelina Pérola Negra, samba de terreiro com cavaquinho e acompanhamento de palmas. Jaime Alem agrega várias Cantigas Populares, na faixa que leva o mesmo nome. Ainda que misture melodias distintas nos versos tirados de diferentes cantigas, a música apresenta uma unidade surpreendente. Bethânia declama Antônio Vieira e termina com A Coroa: voz solo, acompanhada no finalzinho por tambores e coral, tudo agregado com se fosse uma só canção. Onde Eu Nasci Passa Um Rio é outra da safra antiga de Caetano e essa aqui é a interpretação definitiva de uma canção pouco conhecida da obra do baiano. O arranjo, mais uma vez se destaca, só violão, voz e cello, conferindo a esta bela canção o tratamento que ela merece. O verso o rio da minha terra deságua em meu coração é de arrepiar. Francisco, Francisco é uma bela canção em homenagem ao velho Chico, e o disco termina de maneira bastante pessoal com Meu Divino São José.



Pirata / Maria Bethânia

Nota 10                  

Marcelo Teixeira