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domingo, 10 de dezembro de 2017

A "zuera" de João Bosco é coisa séria

O bom e velho João Bosco 
Acabo de ouvir pela terceira vez o novo e arrebatador disco de inéditas de João Bosco, depois de um hiato de oito anos sem lançar nada novo. Mano que zuera (2017 / Som Livre / 26,99) é um disco composto por 11 ótimas canções (e que acaba sendo melhor e mais preparado que o tão aguardado disco de Chico BuarqueCaravanas / 2017) e entre elas estão algumas parcerias inéditas com o filho Francisco Bosco, que também assina a produção musical de todo o álbum. Dessas parcerias o single Onde Estiver, que nasceu de conversas entre pai e filho, merece destaque pela força poética e arranjo primoroso, que já toca nas principais rádios do Brasil. Além das inúmeras parcerias com o filho, o projeto conta com clássico como Sinhá, parceria com Chico Buarque e gravada no penúltimo álbum deste, Chico (2011) retomando o dueto entre ambos depois de um estrondoso espaço de tempo, quando gravaram juntos uma música em destaque para o lançamento de um disco buarquiano de 1984. Duro na queda e João do pulo (parcerias com o inesgotável Aldir Blanc) soam memoráveis, ainda mais porque esta última música conta com uma fusão sonora com a canção Clube da Esquina Numero 2. O encontro inédito com a composição de Arnaldo Antunes em Ultraleve, onde a filha Júlia Bosco (que não merece tanto destaque assim pelo conjunto da obra) faz uma participação especial com sua voz com sabor de liquidificador, como diria Cazuza. Sim, Mano que zuera é um clássico da MPB, nasceu com direito a explosão meteórico e veio para confirmar a marca tradicional de Bosco como um dos compositores e cantores mais versáteis da linha refinada da Música Popular Brasileira.


João Bosco / Mano Que Zuera (2017)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Zii e Zie (2009) e o transambas de Caetano Veloso


Zii e Zie: sambas e reflexões de Caê
Que Caetano Veloso é embalado por orixás e deuses da Bahia de todos os santos, disso todo mundo sabe, mas na música que fecha Zii e Zie,  Diferentemente, ele deixa claro que não crê em Deus, diferentemente de Osama e Condoleeza. A música fecha o disco com chave de ouro, tendo em vista que Zii e Zie (2009 / 28,99 / Universal Music) não trata de religião e sim, de sambas e mistérios que somente um certo Caetano consegue fazer. São sambas e bambas gingados com categoria de um grande disco, embora por vezes o inquieto e belo Rio de Janeiro deixe a impressão de que tudo é samba, paz e amor. Transambas é um subtítulo adquirido e muito bem aplicado no disco, mas Caetano ousou um pouco mais ao trazer músicas como Incompatibilidade de Gênios, de autoria de João Bosco e Aldir Blanc, destoando toda a sutileza irreal da atmosfera de todo o disco. Zii e Zie é um disco de samba sincopado, desses de se ouvir sentado, alimentando e digerindo cada palavra, cada som, cada melodia. Ao todo são treze faixas em que Caetano desfila sua eterna e alegre musicalidade, sendo na sua maioria a autoria e passeando por um Rio de Janeiro colorido das praias, das favelas, da Lapa e do Leblon, além de apontar para Guantánamo e outros distantes lugares do mundo. A denúncia em A Base de Guantánamo, sobre a base militar americana em solo cubano é retratada com afinco e sabedoria, assim como Lobão tem razão que, antes de ser gravada aqui, Caetano já havia apresentado em shows anteriores, tentando arrancar emoções do público por onde passava. Menina da Ria é um oposto e uma homenagem a Menino do Rio, eternizada na voz de Baby do Brasil e aqui ganha cores de uma negra, que tanto o compositor gosta. Contemplando o disco, ainda há pérolas como Perdeu, Cais, Por quem?, Falso Leblon, a engraçada Tarado ni você, Ingenuidade, Lapa e a atemporal Diferentemente. Caetano sabe que não é mais aquele jovenzinho que queria mudar o mundo e sabia que estava ficando velho ao lançar Zii e Zie, por isso talvez tenha se cercado de pessoas mais jovens para a realização deste trabalho. A ascensão brasileira, a política, o mar, as notas híbricas e a tristeza íntima mastigada por Caetano estão todos aqui retratadas de forma sublime em um disco de alto nível. É certo que o tempo passa para todos nós, porém Caetano sempre procura se manter atual, dentro do universo que o consagrou na juventude.

 

Zii e Zie (2009) / Caetano Veloso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Falso Brilhante (1976): disco impecável de Elis Regina


 

Elis em momento sublime
Falso Brilhante é um dos discos mais emblemáticos da carreira de Elis Regina e foi um álbum que marcou uma época através de seus trejeitos, nuances, formas e equilibrio, que até hoje é muito comentado e lembrado por fãs que tem cada passo da cantora na mente. Praticamente nenhum outro cantor ousou em cantar as músicas imortalizadas por Elis, exceto Como Nossos Pais, que vez por outra uma cantora aqui ou outra ali se esquiva na interpretação e tentam se igualar à Pimentinha, num erro tosco e grosseiro. Elis se transforma em um dos melhores e maiores discos de sua lavra e Falso Brilhante fez a efervescência musical e teatral nos anos de 1976. Como não vivi a época deste espetáculo (eu viria a nascer alguns anos mais tarde), Falso Brilhante é um relato deixado por quem viveu intensamente naquele ano e é um registro de uma parte do repertório da bem-sucedida turnê de mesmo nome, na qual Elis se apresentou durante meses no Teatro Brigadeiro, em São Paulo, lotando a casa com cerca de 1000 lugares todos os dias.  Os relatos sobre o show a qual tive contato são impressionantes e, para escrever este artigo, me fartei de inúmeros materiais audiovisuais e conversas com pessoas que pararam suas vidas para ficarem horas na fila do ingresso ou simplesmente perderem seus respectivos trabalhos.

Vale ressaltar que a turnê de Falso Brilhante só chegou a um fim antes do previsto, porque Elis ficou impossibilitada fisicamente para continuar com o espetáculo, só para se ter uma ideia da intensidade do show. E pela primeira vez nesses anos todos de Mais Cultura!, eu me prezo sobre os dízeres de terceiros para me aventurar numa áerea em que pouco atuo: o de entrevistar pessoas anônimas sobre determinado espetáculo. Confesso que curti muito conversar com essas pessoas e saber mais sobre os anos de chumbo e cujo a censura ainda ministrava algo no país. Estar com essas pessoas aumentava ainda mais a minha voracidade em poder escrever sobre um dos discos mais importantes da música popular brasileira.

Falso Brilhante tem 10 faixas, todas gravadas em estúdio e que abarcam inúmeros estilos. Uma novidade e tanta à MPB e até mesmo a musicalidade de Elis, é que o disco vinha com uma forte influência do rock, com presença marcante da percurssão e das guitarras e além disso, o disco serviu para Elis mostrar aos críticos que era mais que uma cantora, era uma intérprete de verdade. Acreditando ou não em sua música, Elis foi acusada de ser manipuladora, fria e sem emoção a partir do álbum Elis, de 1973 (no qual está a linda É Com Esse Que eu Vou) e isso se deve ao fato de que, naquele período, a cantora ser obcecada em melhorar seu registro vocal e atingir a perfeição de sua voz. Isso fez com que ela fosse duramente criticada em todos os sentidos, mas, depois que ela amadureceu artisticamente, fez com que fôssemos presenteados com sua grande voz em um grande disco, como este de 1976.

Abrindo o disco com o maior sucesso até hoje cantado, Como Nossos Pais, que mistura rock e MPB num lirismo profano e em plena ditadura militar, a música falava da falta de esperança na juventude acomodada  que queria mudar o mundo, mas ficava no mesmo conforto de seus lares observando os aflitos de longe. A música passa a ser um soco no estômago de muita gente que queria ficar parada no tempo, a espera de um milagre qualquer. A música foi um adendo para que Belchior, o compositor, virasse estrela de primeira grandeza e, sem querer, Elis gravaria Velha Roupa Colorida, uma extensão da primeira, mas sem a carga depressiva e autoritária que ela carregava.

Fascinação é o clássico do disco, ainda que não destoe de arranjos modernos demais. Esta música também é muito conhecida, tanto pelo seu puro mito cristalino quanto pela interpretação emocionada que ganhou. Jardins de Infância, da dupla João Bosco e Aldir Blanc, é uma ótima letra, com excelente ritmo e que aqui também é magistralmente interpretada. Quero, de Thomas Roth, representa a porção folk de todo o disco, logo quebrada com a praticamente flamenca Gracias a la Vida, que é entoada em seguida.

E surge O Cavaleiro e os Moinhos, da dupla Bosco/Aldir, uma canção introspectiva, que marca ainda mais a dramaticidade de Elis. Para encerrar com chave de ouro, não havia coisa melhor do que ter Chico Buarque e sua Tatuagem (em companhia de Ruy Guerra), com uma letra romântica, suave, tenra, doce, generosa. Todo grande disco tem que ter, por obrigação, uma canção de Chico e aqui não foi diferente.

Falso Brilhante foi o maior sucesso da cantora em vida (e até hoje comentado). Assim como o show é considerado revolucionário, transgressor e antológico, sempre constando nas listas dos melhores, Elis não tinha a certeza de que estava entrando, definitivamente, para o rol das grandes divas brasileiras (mesmo cantando, às vezes, músicas que não a representaram em algumas fases de sua vida). Imparcialidade de lado (eu mesmo já critiquei severamente Elis em artigos nada pomposos), Falso Brilhante é o melhor disco brasileiro de todos os tempos, igualando com O Canto das Três Raças, de Clara Nunes, lançado também em 1976, ou Álibi, lançado por Maria Bethânia em 1978.

Se na época foi um tapa de luva na cara de quem se recusava a acreditar na espontaneidade de sua intérprete, hoje é a mais marcante lembrança dela e daquela geração que, através de sua arte, driblou a censura, a ditadura, os moralismos e os coronéis para expressar seus sentimentos com uma forma verdadeira. Elis nos faz crer na música, na sua música e no Brasil mais justo, onde a habilidade de mostrar-se nua e crua é a mesma habilidade de cantar com vestes de palhaço como se fossêmos palhaços. Músicas com respostas bem diversas e subjetivas, mas que cabem perfeitamente aqui, já que Falso Brilhante é um trabalho que foi símbolo de uma geração, de uma carreira, de uma vida, de uma diva, de Elis Regina.

 


Falso Brilhante / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O tempo de exílio musical de Chico César


Álbum de 2006: o melhor de Chico
Desde 1995 quando lançou Aos Vivos, seu primeiro disco, Chico César tem se revelado um compositor e intérprete de grande talento. Cuscuz Clã (1996), Beleza Mano (1998), Mama Mundi (2000), Respeitem meus cabelos, brancos (2002) e De uns tempos pra cá (2006) reiteraram suas qualidades. Sem tirar nem pôr. Embora críticos afoitos e imbecis e intolerantes e carcarás, impressionados antes de mais nada com a baixa vendagem de seus discos, estejam agourando de plantão por sua derrocada derrota. Bobagem. Basta ouvir com atenção os seis discos de Chico César para perceber neles uma continuidade admirável do processo criativo. E hoje o talento de Chico César cruza fronteiras e se estende da Europa ao Japão, da Argentina aos Estados Unidos. Enfim: de Catolé para o mundo. Este paraibano de Catolé do Rocha tem se revelado um compositor de primeira linha da MPB. Seu processo de criação segue as diretrizes antropofágicas de Oswald de Andrade que apregoa a deglutição de toda e qualquer cultura, sem espécie alguma de preconceito, visando à produção um objeto singular, genuíno e, por que não dizer, brasileiro. O Tropicalismo bebeu fartamente nas águas do saber oswaldiano. Juntou Carmen Miranda com Miles Davis; Chacrinha com Chaplin; samba de roda com atualismo, Eisenstein com Vera Cruz, Mondrian com Di Cavalcanti, Vicente Celestino com Stravinsky. O resultado todos conhecemos: um forte movimento artístico-musical que hoje, por exemplo, deita suas raízes sobre os nomes mais interessantes da MPB, das artes plásticas, do teatro, do cinema e até da moda.

Chico César é uma legítima cria do Tropicalismo. Ele incorpora conscientemente o projeto tropicalista, nas letras, nas melodias, nas roupas, nas performances, no palco, no uso da voz. Sua atuação no cenário artístico nacional e internacional apaga as fronteiras entre a cultura considerada erudita e a cultura considerada popular. Associa o forró ao jazz, a ciranda ao reggae, a poesia concreta ao cordel, o haikai a letras discursivas. Curte misturar Augusto de Campos com Cego Aderaldo; Woody Allen com Mallarmé; cavalo de pau com sandália havaiana; nirvana com seca nordestina; Jimmy Cliff com Mandela.

Antenado com as coisas do nosso tempo, suas canções sempre mexem conosco. Umas pelo ritmo; outras, pelas melodias; outras pelas letras; e outras, finalmente, por reunirem todos estes itens com qualidade. Percebe-se que em sua obra desponta uma consciência de linguagem, ou seja, um projeto intencional de construir a criação, de experimentar com as linguagens, de buscar algo novo e, ao mesmo tempo, harmônico. Afinal, antes de mais nada, uma canção popular tem de associar o belo ao agradável. Há exceções: ótimas canções, porém nada agradáveis. Não me refiro a elas. Busco um consenso mais amplo: canção é espaço poético de letra e música cantadas harmoniosamente. Cantadas com a naturalidade de quem fala. Chico César canta como quem fala. Às vezes ele fala mesmo, como em Béradêro, de 1995, ou Solidariedade, Papo cabeça, ambas de 1997, Aquidauana, 2000. Nos dois discos mais recentes Chico César tem feito canções propriamente ditas. Está dançante em Respeitem meus cabelos, brancos e melancólico em De uns tempos pra cá. Mas sempre muito musical.

Chico César faz sua antropofagia se servindo no prato da História da MPB, da Poesia, da Cultura Popular, da Política Internacional, etc. Come até se lambuzar. Um exemplo rápido: no forró Paraíba, meu amor (1998; o título já nos remete ao título e ao refrão de São São Paulo, do eterno tropicalista Tom Zé), o compositor paraibano associa o forró pé-de-serra e a voz de Flávio José a uma letra sofisticada que lá pelas tantas diz: não quero chorar / o choro da despedida / o acaso da minha vida / um dado não abolirá. A cadência envolvente do forró cai bem na citação dos célebres versos mallarmaicos: um lance de dados / jamais abolirá o acaso. Casar a poesia de Mallarmé com as festas de São João é instalar a parabólica no mangue, como apregoa o movimento musical Mangue Beat, também herdeiro do Tropicalismo.

Versos à frente, na mesma música, o compositor refere-se à fogueirinha de laser que ilumina os festejos do meu coração, cruzando as festas do interior com o novo coração do poeta que, longe da terrinha natal, e agora Pós-moderno, pulsa no ritmo envolvente do forró.

O tom melancólico de De uns tempos pra cá, seu trabalho conciso, explora com muita propriedade o uso de cordas do Quinteto da Paraíba sob arranjos de Nelson Ayres, Mário Manga, Adail Fernandes e Nailor Proveta. O resultado é um disco com nova sonoridade dentro da produção de Chico César. A percussão é suave e se destaca apenas na última faixa (a mais rítmica) nas mãos ultracriativas de Escurinho em Orangotanga. Todas as músicas são de Chico César, à exceção de A nível de, de João Bosco e Aldir Blanc e Cálice de Chico Buarque e Gilberto Gil e Outono aqui, uma versão feita pelo próprio Chico. E 1 valsa p/ 3 é a única feita em parceria com Chico Pinheiro.

Elba Ramalho tem participação especial na arrigobarnabeana Por causa de um ingresso do festival matou roqueira de 15 anos. Aparente paradoxo: Elba canta contida e ousadamente. Sua ousadia está no modo de canto-dizer a canção, indo do melódico ao atonal, sem rebuscamentos. Esta é a Elba que fica. Ou, ao menos, a que deve ficar. E Chico César sabe extrair o melhor da intérprete. Esta canção ainda traz uma bem-vinda novidade: a voz e a autoria de Pedro Osmar na falação de um texto, no mínimo, provocador. A faixa, de nome extenso, tirado de uma manchete d um jornal carioca , por ocasião do I Rock in Rio, é uma das mais bem realizadas, num disco de rigores.

Chico César: o tempo passa, e ele fica ainda mais zeloso com a coisa musical. Suas composições e regravações revelam um compositor e um intérprete insatisfeitos com os altos níveis atingidos em discos anteriores. É preciso ouvir De uns tempos pra cá. O disco mereceu pouca atenção da crítica e quase não toca no rádio. Será que teremos de amadurecer para assimilarmos o talento deste paraibano? Ou esperar a chegada de um novo David Byrne para um novo Tom Zé?

 

De uns tempos pra cá / Chico César

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

4º Maior Cantora do Brasil: Elis Regina


A inquietante Elis
Elis Regina pode até ter mudado a era dos festivais, ter dado cara nova aos espetáculos ou até mesmo dado vida a musicalidade e a teatralidade que pouco se vê hoje em dia, mas Elis não foi capaz de suprir expectativas marcantes e nem fora considerada por muitos como a maior cantora de todos os tempos. Sua música não é totalmente conhecida por pessoas que só conhecem as triviais e muitos de seus discos são paupérrimos, ou seja, Elis Regina ficou mais conhecida por seu jeito histriônico e suas frases de duras impactaçoes do que pela sua música rica ou alguns shows históricos. Para tanto, somente após sua morte que suas músicas foram alçadas por patamares distantes e canções até mesmo esquecidas passaram a ser referencia para milhares de pessoas.

Mesmo sendo a maior cantora do Brasil (o que muitos acham ser a do mundo), Elis chega a 4º posição da lista das maiores cantoras do Brasil pelo fato ser uma cantora que inovou o teatro, que inovou o jeito de cantar, que inovou nas articulações, mas que não elaborou sua musicalidade por completo.

Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945 e morreu em São Paulo no dia 19 de janeiro de 1982 e foi uma das maiores intérpretes brasileira. Conhecida por sua presença de palco esplendorosa, sua voz e sua personalidade, Elis Regina é considerada por muitos críticos, comentadores e outros músicos a melhor cantora brasileira de todos os tempos. A melhor e não a maior. Com os sucessos de Falso Brilhante e Transversal do Tempo, ela inovou os espetáculos musicais no país e era capaz de demonstrar emoções tão contrárias, como a melancolia e a felicidade, numa mesma apresentação ou numa mesma música. Como muitos outros artistas do Brasil, Elis surgiu dos festivais de música na década de 1960 e mostrava interesse em desenvolver seu talento através de apresentações dramáticas. Seu estilo era altamente influenciado pelos cantores do rádio, especialmente Ângela Maria, e a fez ser a grande revelação do festival da TV Excelsior em 1965, quando cantou Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo.

Tal feito lhe conferiu o título de primeira estrela da canção popular brasileira na era da TV. Enquanto outras cantoras contemporâneas como Maria Bethânia haviam se especializado e surgido em teatros, ela deu preferência aos rádios e televisões. Seus primeiros discos, iniciando com Viva a Brotolândia (1961), refletem o momento em que transferiu-se do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, e que teve exigências de mercado e mídia. Transferindo-se para São Paulo em 1964, onde ficaria até sua morte, logrou sucesso com os espetáculos do Fino da Bossa e encontrou uma cidade efervescente onde conseguiria realizar seus planos artísticos. Em 1967, casou-se com Ronaldo Bôscoli, diretor do Fino da Bossa, e ambos tiveram João Marcelo Bôscoli.

Elis Regina aventurou-se por muitos gêneros; da MPB, passando pela bossa nova, o samba, o rock ao jazz. Interpretando canções como Madalena, Como Nossos Pais, O Bêbado e a Equilibrista, Querelas do Brasil, que ainda continuam famosas e memoráveis, registrou momentos de felicidade, amor, tristeza, patriotismo e ditadura militar no país. Ao longo de toda sua carreira, cantou canções de músicos até então pouco conhecidos, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Renato Teixeira, Aldir Blanc, João Bosco, ajudando a lançá-los e a divulgar suas obras, impulsionando-os no cenário musical brasileiro.

Entre outras parcerias, é célebre os duetos que teve com Jair Rodrigues, Tom Jobim, Simonal, Rita Lee, Chico Buarque—que quase foi lançado por ela não fosse Nara Leão ter o gravado antes—e, por fim, seu segundo marido, o pianista César Camargo Mariano, com quem teve os filhos Pedro Mariano e Maria Rita. Mariano também ajudou-a a arranjar muitas músicas antigas e dar novas roupagens a elas, como com É Com Esse Que Eu Vou.

Sua presença artística mais memorável talvez esteja registrada nos álbuns Em Pleno Verão (1970), Elis & Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Transversal do Tempo (1978), Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980). Ela foi a primeira pessoa a inscrever a própria voz como se fosse um instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil e isso a faz ser especial. Elis Regina morreu precocemente em 1982, com apenas 36 anos, deixando uma vasta obra na música popular brasileira. Embora haja controvérsias e contestações, os exames comprovaram que havia morrido por conta de altas doses de cocaína e bebidas alcoólicas, e o fato chocou profundamente o país na época.

Elis fora um dos talentos mais marcantes de seu tempo, mas ainda assim, Elis foi mais uma das boas e sensacionais cantoras que o Brasil produziu com tamanha excelência.

 

4º Lugar: Elis Regina

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Salve, Jorge


O protetor dos escritores
São Jorge é um dos santos mais populares que o Brasil conhece e é por isso que é o mais cantado por todos os seus fieis seguidores, como cantada apenas como musicalidade instituída na canção. E a popularidade do soberanamente perfeito São Jorge vai aumentar, tendo em vista que a novela de Glória Perez vai abordar durante os próximos nove meses sobre o santo guerreiro. É o santo padroeiro em diversas partes do mundo: Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia, da cidade de Moscou e, extraoficialmente, da cidade do Rio de Janeiro (título oficialmente atribuído a São Sebastião), além de ser padroeiro dos escoteiros, e da Cavalaria do Exército Brasileiro. Há uma tradição que aponta o ano 303 como ano da sua morte. Apesar de sua história se basear em documentos lendários e apócrifos (decreto gelasiano do século VI), a devoção a São Jorge se espalhou por todo o mundo.

Mas São Jorge é cultura e muito venerado por muitos. Caetano Veloso talvez seja o cantor mais conhecido por ter feito a canção Lua de São Jorge, assim como Jorge de Capadócia é uma música de Jorge Ben, interpretada também por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e pelos Racionais MC's. O dia 23 de abril, para algumas das religiões afro-brasileiras, é o dia em que se fazem homenagens ao santo.

Existe um romance sobre São Jorge criado pelo escritor italiano Tito Casini chamado Perseguidores e Mártires (no Brasil, editado pelas Edições Paulinas, por volta de 1960). No livro, São Jorge é retratado como o verdadeiro paladino da Capadócia que, apesar de ser perseguido pelo tirano imperador Diocleciano, manteve-se fiel ao Império Romano, mas também a Cristo e se recusou a contrair alianças com o genro do imperador, Galério, que pretendia ter o apoio do conde da Capadócia para deliberar um golpe contra Diocleciano, o que terminantemente, o santo militar recusou. São Jorge é o Santo Padroeiro da Cavalaria do Exército Brasileiro.

Zeca Pagodinho gravou recentemente em seu álbum Uma Prova de Amor a música Ogum com uma letra com um forte apelo ao sincretismo, a oração de São Jorge é feita no trecho final da música pelo cantor e compositor Jorge Ben. Moacyr Luz e Aldir Blanc fizeram em homenagem ao santo a música Medalha de São Jorge, que foi gravada pela Cantora Maria Bethânia em 1992.

De Zeca Baleiro a Vinicius de Moraes, passando por Wilson Simonal, Seu Jorge e Leila Pinheiro, São Jorge é um dos santos mais cantados e aclamados por uma legião fiel de seguidores ávidos por suas lutas e conquistas. E é por este motivo que o Mais Cultura! de hoje revência este santo guerreiro.

Salve, Jorge!

Salve, Jorge!

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A beleza de Céu


O primeiro disco de Céu: ótimo
Que a música brasileira é cheia de grandes cantoras, belas vozes, elegantes, sensuais, e de muito bom gosto não é novidade. Mas quando uma nova cantora aparece com repertório novo, banda nova, cara nova, tudo novo, e de muito boa qualidade é sempre uma delícia. É o caso da cantora Céu, que apareceu com este disco homônimo de 2004, onde a mistura da tradição, violão, cavaquinho, pandeiro e percussão típica do samba, com a modernidade de scratches e loops eletrônicos convive com tamanha suavidade que mal se percebe a inusitada mistura. Em Lenda, Céu canta suavemente uma ameaça a príncipe encantado: num instante você vira sapo. É ela quem manda, e já avisa de saída. O choro Malemolência é executado com scratches acompanhando cavaquinho, e em Roda ela adverte de cara que caiu na roda ou acorda ou vai rodar... Lúcio Maia (da Nação Zumbi) é convidado para tocar guitarra nesta faixa. Rainha é minha música predileta, coincidentemente é a única que ela assina sozinha a composição. A música é levada por um baixo hipnótico que comanda o ritmo da seção percussiva e o naipe de metais. O refrão em forma de pergunta-resposta é um primor e na música toda, Céu contrapõe força e suavidade magistralmente.

10 Contados é um lamento acústico (na harmonia, porque o ritmo é recheado de loops eletrônicos) de saudade, bem-humorado e Céu faz voz e contracanto, ficou lindo! Segue Mais um Lamento, de saudade como o anterior, só que mais sóbrio. Neste mais um lamento entre tantos já feitos, Céu é mais mulher que a criança-adolescente do anterior. Concrete Jungle é um dos dois covers do disco, e ficou sensacional. Céu mais uma vez suaviza a Selva de Concreto e a ginga lenta do reggae fica mais suingada, mais abrasileirada aqui. Lúcio Maia, de novo, ajuda nas guitarras ao lado parceiro e produtor Beto Villares.

Véu da Noite é quase um jam session da banda já que o verso da música é mínimo. Uma concessão justa, já que a música ficou excelente, muito bem temperada na seção rítmica e com o balanço certo de guitarra, teclado e sopros. O chorinho Valsa pra Biu Roque vem em seguida, apresentando um formato mais tradicional só de voz, violão e bandolim. Ave Cruz é uma queixa, meu deus faça o favor de retornar o recado... o meu cabelo insiste em acordar despenteado. Até pra se queixar ela mantém o bom-humor. Essa aparentemente foi a música de rádio do disco, que apesar da roupagem eletrônica é um samba.

De João Bosco e Aldir Blanc vem O Ronco da Cuíca, que ficou excelente nesta roupagem moderna, mostrando que o caminho que seu som indica encaixa muito bem na tradição da MPB. O disco termina com o sambinha Bobagem e o delicioso Samba na Sola, um elogio ao povo brasileiro, antes de uma versão remix de Malemolência. A foto da capa ilustra o primeiro verso de Bobagem: minha beleza não é efêmera como o que eu vejo em bancas por aí... Só essa foto já vale o disco.

 

Céu / Céu

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão, de João Bosco




O disco: ótimo como João Bosco
Ao lançar o CD Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão (2009 / Universal / 29,99) no segundo semestre do ano passado, João Bosco ganhou elogios da crítica e conquistou alguns prêmios. Por esse trabalho, o cantor e compositor mineiro concorreu ao Prêmio da Música Brasileira — em 11 de agosto de 2011, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro — em três categorias. O álbum, o 24º da carreira, marca a retomada de João com o velho parceiro Aldir Blanc, de quem ficou separado por quase 20 anos. Juntos, eles fizeram para esse disco Navalha e Samba do Caramujo, que são consideradas as melhores, assim como Perfeição, Tanajura e Tanto Faz, que João compôs com o filho Francisco Bosco; e Pintura, tabelinha com o paulista Carlos Rennó. Não Vou Pro Céu vem tendo uma trajetória bonita. Não chegou com arroubo ao mercado, mas é um disco para quem gosta de se deixar levar pela música, para quem acompanha o trabalho do autor.

O novo trabalho de João Bosco é suave e introspectivo. Aliás, suavidade pode ser a palavra-chave desse novo álbum. O disco é econômico, delicado, com ênfase em um instrumental simples, no qual se sobressai o violão. As letras de Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão - primeiro disco de músicas inéditas do artista em sete anos - também estão a altura do instrumental de João Bosco, que canta ainda melhor (e de forma mais simples) nesse trabalho. Produzido por Francisco Bosco e pelo guitarrista Ricardo Silveira, o álbum já pode ser considerado um dos melhores da (sólida) discografia de João Bosco. Neste disco, João Bosco repete a dose de parceria com o seu filho, o ótimo letrista Francisco Bosco e, ao mesmo tempo, marca o retorno da célebre parceria João Bosco / Aldir Blanc - a dupla mais gravada por Elis Regina - em quatro faixas.

A balançante Sonho de Caramujo é uma dessas faixas. Nela é possível matar saudades de grandes canções como Nação (cantada com maestria por Clara Nunes em seu derradeiro disco e por Fabiana Cozza em seu segundo disco de carreira) ou O Mestre Sala dos Mares (cantada com disciplina e orgulho por Elis Regina). A singela Navalha, por sua vez, possui uma das melhores letras do disco: Aí, eu fui crucificado / Nos cravos do teu amor / Não me lembro de outra coisa / Que me causasse tanta dor. Mentiras de Verdade é aquele tipo de canção com a clássica assinatura de João Bosco, e que já nasce clássico, diferentemente da menos inspirada Plural Singular. Ao lado do filho Francisco Bosco, João compôs cinco faixas, com destaque para a afro Tanajura, com participação dos percussionistas Robertinho Silva e Armando Marçal. A bossa nova Perfeição e a intrincada Desnortes são outros dois destaques da parceria pai e filho.

Além de Francisco Bosco e Aldir Blanc, João Bosco divide o lápis e o papel com Carlos Rennó e Nei Lopes. Com o primeiro, foram duas canções: Pronto Pra Próxima e Pintura. Já a parceria com Nei Lopes é estreada com uma das melhores faixas de Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão. Jimbo No Jazz, apenas com o violão e a voz de João Bosco, já pode ser considerado, fácil, fácil, um dos melhores momentos de sua carreira. A única canção que não foi composta por João Bosco é Ingenuidade, composta por Serafim Adriano e imortalizada por Clementina de Jesus, e que, curiosa (coincidente) mente está presente também em Zii e Zie, último trabalho de Caetano Veloso. Foram sete anos para João Bosco lançar um álbum de inéditas. Mas parece que a espera valeu. Sei não, mas acho que João Bosco tem lugar no céu sim...



Nota 10

Não Vou Pro Céu, Mas Já Não Vivo No Chão / João Bosco



Marcelo Teixeira


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Caixa Elis 70 Anos


Caixa Elis 70 anos
A caixa Elis Anos 70 - postou nas lojas pela Universal Music neste ano no mês de fevereiro, simultaneamente com a caixa Elis Anos 60, em projeto fonográfico coordenado por Alice Soares - apresentando o suprassumo da discografia de Elis Regina Carvalho Costa (1945 - 1982). Nessa década escurecida pela censura e pelos horrores da ditadura que imperava no Brasil, o canto de Elis foi o farol que iluminou a obra de compositores então iniciantes - como Ivan Lins (em 1970), Belchior (em 1972) e a dupla João Bosco & Aldir Blanc (em 1972) - e parte substancial da melhor música brasileira produzida na década. Embora tenha gravado poucas músicas de Caetano Veloso e Chico Buarque, compositores mais associados às vozes de Gal Costa e de Maria Bethânia (as duas únicas cantoras da MPB que fizeram frente à Elis na época, porque Clara Nunes, considerada por muitos críticos como a melhor cantora daquela época, era amiga de Elis), quase tudo de relevante produzido na MPB dos anos 70 foi filtrado pelo canto referencial de Elis.

Nessa década, Elis acompanhou as transformações da música e do Brasil. Já nos seus dois primeiros álbuns de estúdio da década, ...Em Pleno Verão (1970) e Ela (1971), ambos com conceitos idealizados por Nelson Motta, a cantora se aproximou do soul que dava o tom negro da música do mundo. Na sequência, já guiada na música e na vida por César Camargo Mariano, a cantora se tornou uma das melhores traduções da MPB a partir do álbum Elis (1972), uma das obras-primas embaladas na caixa. Padrão roçado pelo Elis de 1973 - álbum denso de clima excessivamente cool e interiorizado - e bisado pelo Elis de 1974, álbum enfim reeditado em CD com sua arte gráfica original (com direito ao recorte da capa branca - tal como no LP original). De 1974, um dos anos mais produtivos de Elis, vem também Elis & Tom, outra obra-prima, dividida com ninguém menos do que Antônio Carlos Jobim, já naquela altura e para sempre o maestro soberano da música brasileira, com reconhecimento internacional.

Na sequência, Falso Brilhante (1976) representou outro pico de criatividade e perfeição na carreira de Elis - com destaque para as referenciais gravações de Como Nossos Pais (Belchior) e Fascinação (Maurice de Feraudy e Dante Pilade Fermo Marchetti) - enquanto Elis (1977) manteve a cantora nas paradas com Romaria (Renato Teixeira), gravação definitiva que projetou o álbum de repertório nem sempre à altura de sua intérprete. Na sequência, o parcial registro ao vivo do controverso show Transversal do Tempo (1978) encerrou a luminosa passagem da cantora pela Philips, já que o último título da caixa, Elis Especial (1979), é a rigor coletânea produzida à revelia da artista com sobras de gravações.

Com som límpido, efeito da primorosa remasterização comandada por Luigi Hoffer e Carlos Savalla, a caixa Elis Anos 70 oferece ganho relevante no quesito técnico em relação à caixa Transversal do Tempo (1998), que embalou os 21 álbuns de Elis lançados pela Philips. Da mesma forma, houve real evolução no padrão gráfico, já que as atuais reedições reproduzem capas, contracapas e encartes dos álbuns com fidelidade às artes dos LPs originais. É luxo só!!!



Marcelo Teixeira