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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Os Pássaros Urbanos (2014) de Raimundo Fagner



Os pássaros de Fagner
Raimundo Fagner é um dos melhores cantores nordestinos, sem tirar os méritos de outros grandes artistas de sua geração. Mas a capacidade vocal e a extensa lista de sucessos refletem em sua carreira sólida o status de um dos melhores de todos os tempos. Depois de quase cinco anos sem lançar um disco, o cantor e compositor cearense volta com a prioridade de reconquistar o público perdido, angariar mais ouvintes à sua música e disposto a provar que sua criatividade não se esgotou. Em Pássaros Urbanos (2016 / Sony Music / 22,00), o cuidado com a escolha de um repertório bem selecionado com uma sonoridade perfeita e letras bem arquitetadas, o cantor revisita o cenário nordestino como um pássaro musical marcado pela cultura de sua geração. O disco contém 11 faixas, sendo três regravações, que resumem quatro décadas de estrada de um dos nomes mais bem-sucedidos da história da MPB.  Fagner tinha sede de se lançar de novo ao seu público e muita vontade de jorrar para fora toda a sua cantoria embutida pelo longo hiato na qual submeteu. Pássaros Urbanos versa sobre amores urbanos com sons contemporâneos, um tom predominantemente romântico, que é a marca registrada do cantor. O repertório traz parceria com Fausto Nilo (Balada Fingida), Zeca Baleiro (Samba Nordestino) e Belchior (Paralelas), sendo uma releitura de um dos clássicos do repertório deste. Pássaros Urbanos mostra toda a versatilidade de Raimundo Fagner perante a sua regionalidade e toda a sua superação musical ao voltar ao cenário da MPB com um álbum de inéditas. O disco é uma verdadeira obra prima. Os pássaros de Fagner resolveram voar sem uma parada obrigatória.

 

Pássaros Urbanos (2014) / Fagner
Nota 9
Marcelo Teixeira


 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Falso Brilhante (1976): disco impecável de Elis Regina


 

Elis em momento sublime
Falso Brilhante é um dos discos mais emblemáticos da carreira de Elis Regina e foi um álbum que marcou uma época através de seus trejeitos, nuances, formas e equilibrio, que até hoje é muito comentado e lembrado por fãs que tem cada passo da cantora na mente. Praticamente nenhum outro cantor ousou em cantar as músicas imortalizadas por Elis, exceto Como Nossos Pais, que vez por outra uma cantora aqui ou outra ali se esquiva na interpretação e tentam se igualar à Pimentinha, num erro tosco e grosseiro. Elis se transforma em um dos melhores e maiores discos de sua lavra e Falso Brilhante fez a efervescência musical e teatral nos anos de 1976. Como não vivi a época deste espetáculo (eu viria a nascer alguns anos mais tarde), Falso Brilhante é um relato deixado por quem viveu intensamente naquele ano e é um registro de uma parte do repertório da bem-sucedida turnê de mesmo nome, na qual Elis se apresentou durante meses no Teatro Brigadeiro, em São Paulo, lotando a casa com cerca de 1000 lugares todos os dias.  Os relatos sobre o show a qual tive contato são impressionantes e, para escrever este artigo, me fartei de inúmeros materiais audiovisuais e conversas com pessoas que pararam suas vidas para ficarem horas na fila do ingresso ou simplesmente perderem seus respectivos trabalhos.

Vale ressaltar que a turnê de Falso Brilhante só chegou a um fim antes do previsto, porque Elis ficou impossibilitada fisicamente para continuar com o espetáculo, só para se ter uma ideia da intensidade do show. E pela primeira vez nesses anos todos de Mais Cultura!, eu me prezo sobre os dízeres de terceiros para me aventurar numa áerea em que pouco atuo: o de entrevistar pessoas anônimas sobre determinado espetáculo. Confesso que curti muito conversar com essas pessoas e saber mais sobre os anos de chumbo e cujo a censura ainda ministrava algo no país. Estar com essas pessoas aumentava ainda mais a minha voracidade em poder escrever sobre um dos discos mais importantes da música popular brasileira.

Falso Brilhante tem 10 faixas, todas gravadas em estúdio e que abarcam inúmeros estilos. Uma novidade e tanta à MPB e até mesmo a musicalidade de Elis, é que o disco vinha com uma forte influência do rock, com presença marcante da percurssão e das guitarras e além disso, o disco serviu para Elis mostrar aos críticos que era mais que uma cantora, era uma intérprete de verdade. Acreditando ou não em sua música, Elis foi acusada de ser manipuladora, fria e sem emoção a partir do álbum Elis, de 1973 (no qual está a linda É Com Esse Que eu Vou) e isso se deve ao fato de que, naquele período, a cantora ser obcecada em melhorar seu registro vocal e atingir a perfeição de sua voz. Isso fez com que ela fosse duramente criticada em todos os sentidos, mas, depois que ela amadureceu artisticamente, fez com que fôssemos presenteados com sua grande voz em um grande disco, como este de 1976.

Abrindo o disco com o maior sucesso até hoje cantado, Como Nossos Pais, que mistura rock e MPB num lirismo profano e em plena ditadura militar, a música falava da falta de esperança na juventude acomodada  que queria mudar o mundo, mas ficava no mesmo conforto de seus lares observando os aflitos de longe. A música passa a ser um soco no estômago de muita gente que queria ficar parada no tempo, a espera de um milagre qualquer. A música foi um adendo para que Belchior, o compositor, virasse estrela de primeira grandeza e, sem querer, Elis gravaria Velha Roupa Colorida, uma extensão da primeira, mas sem a carga depressiva e autoritária que ela carregava.

Fascinação é o clássico do disco, ainda que não destoe de arranjos modernos demais. Esta música também é muito conhecida, tanto pelo seu puro mito cristalino quanto pela interpretação emocionada que ganhou. Jardins de Infância, da dupla João Bosco e Aldir Blanc, é uma ótima letra, com excelente ritmo e que aqui também é magistralmente interpretada. Quero, de Thomas Roth, representa a porção folk de todo o disco, logo quebrada com a praticamente flamenca Gracias a la Vida, que é entoada em seguida.

E surge O Cavaleiro e os Moinhos, da dupla Bosco/Aldir, uma canção introspectiva, que marca ainda mais a dramaticidade de Elis. Para encerrar com chave de ouro, não havia coisa melhor do que ter Chico Buarque e sua Tatuagem (em companhia de Ruy Guerra), com uma letra romântica, suave, tenra, doce, generosa. Todo grande disco tem que ter, por obrigação, uma canção de Chico e aqui não foi diferente.

Falso Brilhante foi o maior sucesso da cantora em vida (e até hoje comentado). Assim como o show é considerado revolucionário, transgressor e antológico, sempre constando nas listas dos melhores, Elis não tinha a certeza de que estava entrando, definitivamente, para o rol das grandes divas brasileiras (mesmo cantando, às vezes, músicas que não a representaram em algumas fases de sua vida). Imparcialidade de lado (eu mesmo já critiquei severamente Elis em artigos nada pomposos), Falso Brilhante é o melhor disco brasileiro de todos os tempos, igualando com O Canto das Três Raças, de Clara Nunes, lançado também em 1976, ou Álibi, lançado por Maria Bethânia em 1978.

Se na época foi um tapa de luva na cara de quem se recusava a acreditar na espontaneidade de sua intérprete, hoje é a mais marcante lembrança dela e daquela geração que, através de sua arte, driblou a censura, a ditadura, os moralismos e os coronéis para expressar seus sentimentos com uma forma verdadeira. Elis nos faz crer na música, na sua música e no Brasil mais justo, onde a habilidade de mostrar-se nua e crua é a mesma habilidade de cantar com vestes de palhaço como se fossêmos palhaços. Músicas com respostas bem diversas e subjetivas, mas que cabem perfeitamente aqui, já que Falso Brilhante é um trabalho que foi símbolo de uma geração, de uma carreira, de uma vida, de uma diva, de Elis Regina.

 


Falso Brilhante / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

19º Maior Cantora do Brasil: Elba Ramalho


Elba entre as melhores
Dona de uma voz inconfundível e de uma musicalidade arrebatadora, Elba Ramalho é considerada a rainha do Nordeste, tamanho a sua popularidade mundo a fora e a sua luta em preservar a sua cultura e seu povo no topo de qualquer parada. Em 1996, recebeu o prêmio de Melhor show do Ano, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo. Em 2008, Elba comemorou trinta anos de carreira, contabilizando mais de seis milhões de cópias vendidas dos trabalhos. É bicampeã do prêmio Grammy Latino, pelos discos: Qual o Assunto Que mais Lhe Interessa?, lançado em 2007 e Balaio de Amor, lançado em maio de 2009, na categoria Melhor Álbum de Raízes Brasileiras - Regional e Tropical. Em 1996, lança o elogiado e bem-sucedido CD Leão do Norte, que marcou a estreia na gravadora BMG e vendeu mais de 300 mil cópias, exaltando a cultura nordestina e pernambucana (com a faixa-título de Lenine e Paulo César Pinheiro). O espetáculo homônimo foi dirigido por Jorge Fernando e obteve relevante sucesso no Brasil inteiro, arrematando o prêmio de Melhor show do ano, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo e também originou um VHS contendo os melhores momentos do espetáculo. Naquele mesmo ano, excursiona com o espetáculo O grande encontro, juntamente com Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo. O primeiro disco da trilogia vende mais de um milhão de cópias, trazendo clássicos da MPB e da música nordestina.

 Em 1997 chegou às lojas o disco Baioque, composto basicamente de regravações de músicas urbanas de autores nordestinos, como Raul Seixas (S. O. S.), Belchior (Paralelas), Ednardo (Pavão misterioso), Zé Ramalho (Vila do sossego), Caetano Veloso (Os argonautas), Gilberto Gil (Vamos fugir), Lenine (Relampiano), Alceu Valença (Ciranda da rosa vermelha), dentre outros; assim como o trabalho anterior, este também foi produzido pelos músicos Robertinho do Recife que também foi responsável por alguns arranjos e regência. O espetáculo bisou a parceria com Jorge Fernando e o sucesso do espetáculo baseado no disco anterior e a reedição deste CD trouxe a faixa-bônus Paris, que não constava da versão original. Graças ao sucesso do projeto O grande encontro, foi lançado um segundo volume do álbum, mas desta vez só não contou com a participação de Alceu Valença, além de excursionar pelo Brasil inteiro; o repertório deste trouxe sucessos dos três artistas.

Em 1998 lança o CD Flor da Paraíba, o último da trilogia produzida por Robertinho de Recife, trazendo algumas regravações e canções inéditas de compositores nordestinos, priorizando canções no estilo do forró. O título do álbum é inspirado em uma dedicatória feita, há muitos anos, pelo cantor e compositor Caetano Veloso, quando a cantora acabara de chegar ao Rio de Janeiro para despontar no meio musical.

Ela Ramalho é uma cantora e atriz brasileira. Vencedora de um prêmio, ainda enquanto atriz, por sua interpretação de O meu amor com Marieta Severo em 1978, sendo esta música de Chico Buarque. Recebeu da Associação de Críticos de Arte de São Paulo prêmio de Melhor Show do Ano, em duas ocasiões: em 1989 pelo show Popular Brasileira e em 1996 pelo show Leão do Norte.

Sua primeira experiência musical veio em 1968, tocando bateria no conjunto feminino As Brasas. Posteriormente, o grupo se transformou de musical para teatral. Contudo, Elba continuou a cantar e a participar de festivais pelo Nordeste brasileiro. Em 1979, lançou seu primeiro álbum, Ave de Prata. Em 2009, Elba fez 30 anos de carreira e celebrou os mais de 6 milhões de discos vendidos.

Por toda a sua música e sua conquista, que Elba Ramalho chega ao décimo nono lugar no ranking das melhores cantoras brasileiras de todos os tempos.

 

19º Lugar: Elba Ramalho

As 30 Maiores Cantoras Brasileiras de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Furação Elis


Furacão de emoção
Por inúmeras* vezes foi difícil acreditar que naquela manhã de janeiro de 1982 o Brasil tenha amanhecido sem a sua maior interprete, estrela de uma luz incessante e de uma quase unanimidade, no auge de uma carreira batalhada com unhas e dentes; Elis Regina, além de ser a maior cantora que o Brasil já havia produzido, era também uma guerrilheira de si mesma. Uma doce guerrilheira. Com a extinção de um programa de grande sucesso em 1967, Elis deu asas à sua carreira. Apresentou-se na América Latina e na Europa, lapidou ainda mais (se é que isso era possível) a sua forma de cantar e interpretar. Ganhou em suavidade, não perdeu a força e ainda presenteou gente como Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Ivan Lins (que sonhava com algumas de suas criações já com a voz da Estrela), Belchior, João Bosco, entre outros. Através de suas interpretações que eternizou cada obra e alçou de vez no cenário nacional, cada um dos citados compositores – por sua vez, todos se encontravam no auge da criatividade. Mais madura Elis viajou o Brasil e o mundo cantando e encantando. Da imponência à simplicidade, traçava-se um só caminho, uma linha uníssona entre a genialidade e a mulher forte, apelidada pela imprensa e amigos de Furacão e Pimentinha, Elis Regina começava a escrever perpetuamente, seu nome na história da música mundial.

A grande voz do Brasil trazia uma bagagem de influências de outras grandes cantoras, também brasileiras, mas construiu um legado único e incomparável, sagrado e intransponível. Espetáculos fantásticos como Falso Brilhante e O Trem Azul, ficaram gravados na memória de quem os viveu e os assistiu. Seu namoro e quase casamento com o Clube da Esquina foi um marco histórico na música brasileira. Milton Nascimento, que foi um dos maiores amigos e admiradores da cantora, a conheceu no Rio, no Beco das Garrafas. Neste festival, Milton eternizaria os seus primeiros passos da sua Travessia pelo universo da Mãe Música até se transformar no word music man da atualidade. Elis, ao gravar Canção do Sal de Milton e Ronaldo Bastos com sucesso incontestável, abriu espaço para uma parceria que durou uma década esplendida, num grande ápice de uma explosão criativa jamais visto na MPB.

Conviveu com as gravações do Clube da Esquina, de Milton e Lô Borges (guri prodigioso de 18 anos, na época). Elis dividiu o palco com Milton em várias capitais e em várias oportunidades, deixou-nos de presente a sua voz, numa de suas maiores interpretações, ao lado do próprio Bituca. Cantou como se fosse pela última vez O que foi feito de Vera do álbum Clube da Esquina n°2, fazendo tremer as estruturas dos estúdios da EMI. Na primeira apresentação no festival de Montreux na Suíça, onde há até hoje uma noite só para artistas brasileiros (atualmente, com o pior que se produz aqui), fez da introdução de seu show uma sequência maravilhosa com Ponta de Areia, Fé cega, faca amolada e Maria Maria, que na voz da baixinha, deslumbrou o Brasil.

Gravou Beto Guedes, Lô Borges, Nelson Ângelo, Luiz Guedes e Thomas Roth e lançou para o Brasil a célebre frase: Se Deus quisesse nos falar, nos falaria pela voz de Milton Nascimento. Elis gravou o Clube da Esquina com carinho, amizade e admiração, marcando para sempre a vida daqueles jovens mineiros de talento e criatividade fenomenais.

Elis fez o Brasil cantar por quase vinte anos. Sua carreira esbarrou algumas vezes com o triste desfecho político do país. Foi vigiada de perto pela Ditadura Militar e não raro, eram vistos carros estranhos rondando as imediações de sua residência. Em entrevistas, as quais ainda tenho reproduções de muitas bem guardadas, declarava sua insatisfação com o sistema e dizia-se sem muita esperança no futuro, tanto político, quanto cultural de nossa gente.

Elis Regina de Carvalho Costa, nascida em 17 de março de 1945, reescreveu a história da música brasileira e enalteceu a nossa cultura pelo planeta afora. Naquela triste manhã chuvosa de 19 de janeiro de 1982, eu tinha menos de um ano e não sabia o que acontecia. Elis morreu no seu apartamento em São Paulo, por intoxicação. Anos depois, quando eu tinha meus 10 anos, quando ouvi O Bêbado e a Equilibrista pela primeira vez e um arrepio me invadiu o corpo, pois nunca tinha ouvido uma voz tão espetacular e sensacional. Minha mãe me olhou com olhos grandes quando a indaguei quem cantava aquela maravilhosa música. Eis que ela me responde Elis Regina e meu amor por ela começava ali.

Antes que os mais conservadores venham gritar pelos motivos da morte de Elis, me ponho à frente, alegando que o sistema sempre destruiu os seus ídolos prematuramente, talvez sem esperar que ídolos mortos prematuramente, costumam ser elevados ao máximo de seu status e cultivados com devoção. Janis, Hendrix, Morrinson, todos destruídos pela Máquina do Estado, mas todos estão eternizados.

Como dizia, o Brasil continua órfão de uma cultura popular mais sólida, mais abrangente e mais BRASILEIRA por excelência, deixando o biscoito fino para grupos alternativos e, às vezes, nem isso. Elis Regina é exemplo de que, levar a cultura e a motivação para viver a vários pólos de nossa sociedade, não é uma tarefa tão complicada e assim, como ela mesma dizia: Precisávamos aqui no Brasil de um pouco mais de boa vontade. Elis era magistral. A grande cantora, a quem os fãs não se esquecem e carpem até hoje sua perda, disse em seu disco derradeiro: AGORA EU SOU UMA ESTRELA!

Alguém duvida?

 

A imortal Elis

Marcelo Teixeira

 
*artigo escrito em homenagem ao meu grande amigo carioca Jaime Santana, fã número 1 de Elis Regina.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Caixa Elis 70 Anos


Caixa Elis 70 anos
A caixa Elis Anos 70 - postou nas lojas pela Universal Music neste ano no mês de fevereiro, simultaneamente com a caixa Elis Anos 60, em projeto fonográfico coordenado por Alice Soares - apresentando o suprassumo da discografia de Elis Regina Carvalho Costa (1945 - 1982). Nessa década escurecida pela censura e pelos horrores da ditadura que imperava no Brasil, o canto de Elis foi o farol que iluminou a obra de compositores então iniciantes - como Ivan Lins (em 1970), Belchior (em 1972) e a dupla João Bosco & Aldir Blanc (em 1972) - e parte substancial da melhor música brasileira produzida na década. Embora tenha gravado poucas músicas de Caetano Veloso e Chico Buarque, compositores mais associados às vozes de Gal Costa e de Maria Bethânia (as duas únicas cantoras da MPB que fizeram frente à Elis na época, porque Clara Nunes, considerada por muitos críticos como a melhor cantora daquela época, era amiga de Elis), quase tudo de relevante produzido na MPB dos anos 70 foi filtrado pelo canto referencial de Elis.

Nessa década, Elis acompanhou as transformações da música e do Brasil. Já nos seus dois primeiros álbuns de estúdio da década, ...Em Pleno Verão (1970) e Ela (1971), ambos com conceitos idealizados por Nelson Motta, a cantora se aproximou do soul que dava o tom negro da música do mundo. Na sequência, já guiada na música e na vida por César Camargo Mariano, a cantora se tornou uma das melhores traduções da MPB a partir do álbum Elis (1972), uma das obras-primas embaladas na caixa. Padrão roçado pelo Elis de 1973 - álbum denso de clima excessivamente cool e interiorizado - e bisado pelo Elis de 1974, álbum enfim reeditado em CD com sua arte gráfica original (com direito ao recorte da capa branca - tal como no LP original). De 1974, um dos anos mais produtivos de Elis, vem também Elis & Tom, outra obra-prima, dividida com ninguém menos do que Antônio Carlos Jobim, já naquela altura e para sempre o maestro soberano da música brasileira, com reconhecimento internacional.

Na sequência, Falso Brilhante (1976) representou outro pico de criatividade e perfeição na carreira de Elis - com destaque para as referenciais gravações de Como Nossos Pais (Belchior) e Fascinação (Maurice de Feraudy e Dante Pilade Fermo Marchetti) - enquanto Elis (1977) manteve a cantora nas paradas com Romaria (Renato Teixeira), gravação definitiva que projetou o álbum de repertório nem sempre à altura de sua intérprete. Na sequência, o parcial registro ao vivo do controverso show Transversal do Tempo (1978) encerrou a luminosa passagem da cantora pela Philips, já que o último título da caixa, Elis Especial (1979), é a rigor coletânea produzida à revelia da artista com sobras de gravações.

Com som límpido, efeito da primorosa remasterização comandada por Luigi Hoffer e Carlos Savalla, a caixa Elis Anos 70 oferece ganho relevante no quesito técnico em relação à caixa Transversal do Tempo (1998), que embalou os 21 álbuns de Elis lançados pela Philips. Da mesma forma, houve real evolução no padrão gráfico, já que as atuais reedições reproduzem capas, contracapas e encartes dos álbuns com fidelidade às artes dos LPs originais. É luxo só!!!



Marcelo Teixeira