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domingo, 1 de abril de 2018

Thiago Miranda e o excelente Samba pra Elas (2017)

Thiago Miranda: empoderamento feminino
Sempre digo que há a falta de bons cantores no cenário musical brasileiro e que de uns tempos para cá, muitas cantoras (boas, medianas e ótimas), passaram a reinar em diversos estilos musicais com categoria ímpar de inspirações diversas. Não que não tenhamos cantores no Brasil, mas o nicho de qualidade musical está tão aquém, que raramente surge um bom ou ótimo cantor para nos brindar com a felicidade extra de ouvirmos uma boa música. Eis que de todo o vendaval que estamos passando atualmente, surge um dos melhores e mais capacitados cantores e compositores dos últimos anos e que tem na bagagem nada mais do que excelentes canções, excelente timbre vocal e perfeitas melodias. Thiago Miranda é uma das grandes novidades do mundo do samba e não há que ter uma comparação aqui: ele é único, autoral, completo e atemporal. Essa atemporalidade dentro de seu universo faz com que ele seja ainda mais moderno em seu habitat, pois o que ouvimos em seu recente lançamento é um apanhado de sambas com toques e batidas que nos remetem a um mundo em que o desejo era outro, os sonhos eram outros e a sensação de paz eram outros. Thiago Miranda nos transporta a um mundo decente, digno, capaz de nos divertir e de nos fazer refletir com tudo aquilo que nos cerceia, nos rodeia e nos catalisa. E é justamente aqui onde mora o diferencial de Thiago: sua simplicidade nas letras nos transportam a um devaneio de sensações híbridas e carregadas de sentimentos aflorados e sambas perfeitos. Samba pra Elas (2017 / Funalfa / 24,99) é um disco dedicado às mulheres e aos morros, às comunidades, às sambistas, às melodias carregadas de poder ponderado e centrado no semblante do outro que carrega nas costas o trabalho digno, a única roupa que usa, o pouco dinheiro na carteira, mas que são, acima de tudo, felizes. Samba pra Elas é o retrato fiel de que o respeito mútuo se faz presente em canções como Maria do Socorro (Edu Krieger), cantada magistralmente por Maria Rita (2007) e que aqui o cantor entoa uma nova alegoria de humanização. No disco podemos encontrar também as diversas outras marias espalhadas pelo Brasil afora juntamente com as giocondas, marias do mar, giseles, julianas, carolas, jandiras. E esse é o verdadeiro significado do disco: homenagear a singeleza da mulher brasileira em toda a sua esfera, em toda a sua dimensão e propriedade; seja ela de qualquer canto deste país ou dos quatro cantos do mundo. Uma sacada e tanto do cantor, que trouxe para esse universo do samba a redundância da mulher brasileira e de sua importância dentre tantas lutas e guerras geradas por anos a fio até a sua boniteza de sempre. Além do destaque autoral de Thiago para com as mulheres, o cantor presta uma homenagem a Gilberto Gil, remodelando a canção Super-homem, a canção (1979), que fala da fragilidade masculina perante a epopeia feminina dentro de um empoderamento de redoma ulterior e benigna. Encerrando o disco, Todas elas juntas num só ser (Lenine / Carlos Rennó) nos remete às nuances femininas em sua totalidade: a melodia traz aquela sensação de que há que ter um respeito gigantesco pela figura da mulher e ser humano que transmuta entre a menina e a mulher em sua maior predominância. Sendo muito bem representadas, o samba e a mulher são cantadas por um homem, capacitado para tal, para honrar a beleza de duas almas líricas importantíssimas para os dias atuais: a mulher e o samba. Thiago Miranda merece ser ouvido pelo conjunto da obra, pela simplicidade ao descrever situações cotidianas e pelo seu cantar trivial. Um cantor a altura de sua mais alta patente musical, de sua categoria perfeita e magistral e de sua competência artística. Com tantos arroubos musicais da atualidade, em que o que é desprezível acaba sendo degustado ou jorrado em nossa goela abaixo, ouvir e desfrutar as músicas de Thiago Miranda acaba sendo um alívio para nossos sensatos e imponentes ouvidos. 



Samba pra Elas (2017) / Thiago Miranda
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O lado intimista de Daniela Mercury em O Axé, A Voz e O Violão (2016)

Daniela: do axé a Chico Buarque
Inventora do axé music e dona de uma voz que levanta a multidão, a cantora e compositora Daniela Mercury é um fenômeno que merece respeito por qualquer seara musical na qual explora. A prova cabal disso é que seu trabalho lançado no ano passado é uma mistura que engloba todos os ritmos nas quais a cantora transitou e que reúne desde Chico Buarque à Margareth Menezes, passando por Chico César e Lenine. Sendo a Rainha do Axé e com todo orgulho, a cantora fez o diferencial em sua carreira ao lançar o exuberante O Axé, A Voz e O Violão (26,99 / Biscoito Fino / 2016) que, na minha modesta opinião, é um disco que merece atenção, repeito e cumplicidade pelo trabalho integral de Daniela. Com 16 álbuns solos, além de canções inéditas nesse novo disco, Daniela nos brinda com ótimas releituras da MPB, o trabalho foi recebido mornamente pelo público e pela crítica. Aqui há emoção, sentimento, amor e a cantora nos remete a um passado em que as músicas eram tratadas com um zelo sem igual. Considero o disco como um todo um tanto minimalista em que a cantora vai esmiuçando o axé até se transformar em uma potente vocal e explosiva em pérolas da música popular brasileira e nos brindando com o melhor de seu cancioneiro, pois ela vai desde o início de sua carreira até chegar aos quilates da africanidade e se rendendo nos braços buarquianos. Aos 51 anos de idade, Daniela Mercury continua a se lançar a desafios que cada vez mais diversificados. Acostumada a sempre estar saracoteando nos palcos em movimentos amplos e largos, dançando praticamente sem parar, o som aqui fica praticamente a cargo da orquestra, movida pelo violão e pela suntuosa voz da cantora. Músicas carimbadas como O Canto da Cidade, Música de Rua, Você Não Entende Nada estão lá, em formato intimista e atemporal. Vindo desde os primórdios de sua carreira magistralmente bem conduzida, Daniela resolveu homenagear os mestres Chico Buarque e Gilberto Gil, assim como para mostrar que tudo é música brasileira, tudo é samba, tudo é brasilidade.  Vale a pena ouvir o som quase bossa novista da eterna rainha do axé em um momento único, especial e sublime.


O axé, a voz e o violão (2016) / Daniela Mercury
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Cinco cantores brasileiros!


Cinco cantores
Há muitos cantores brasileiros de gabarito personificado dentro da música popular brasileira de todos os tempos e esse mérito foi consagrado aqui mesmo no Mais Cultura Brasileira quando abordei os 10 maiores cantores dos últimos 10 anos dentro deste cenário. Não foi uma tarefa fácil, assim como não foi uma tarefa das mais difíceis, tendo em consideração o que esses cantores representavam (e ainda representam) dentro de um segmento linguístico, de forma representada e não de personalidade dentro de um conceito enquadrado, digno de uma singularidade plena de um estilo qualquer. Há muitos cantores bons, muitos esquecidos e muitos que precisam ser descobertos ainda, mas tive a audácia de selecionar, estudar e catalisar todos os maiores e melhores cantores das últimas décadas para uma seleta lista de dez, caindo para oito e fechando com cinco que, de fato, representam e aprimoram e enriquecem a nossa música nacional em um respeitado estilo musical qualificado por sonoridade, melodias e suas letras autorais. De cara e de olhos fechados, selecionei os cinco cantores, músicos e compositores que maior representatividade me orgulham pelo conjunto da obra e pelos vários discos lançados, cada qual com sua participação efusiva, cada qual com sua maneira de expressar sua arte e tendo uma sonoridade ímpar e autoral que distingue suas músicas dos cantores ditos populares. Nesse amplo caminho, Chico César é o cantor que, sem sombra de dúvidas, revela seu lado mais poético, mais singular e mais atemporal dentro de um sentimentalismo que tem por si só uma mistura de fina flor com arbustos dourados e metálicos em forma de glorificação e a prova disso é seu excelente disco atual, Estado de Poesia (2015). Ah, se todos fossem iguais ao Chico, quanta beleza a terra iria findar numa guloseima de sopa de letras e numa profusão de paródias letrais. Chico César, paraibano, poeta nato, cantor de sentimentos puros, olhar antenado e composição afinada. Alberto Salgado representa a ambiguidade masculina, retratando seu lado mais refinado dentro de um pantaleão de cores e objetos cortantes, que nos revelam notas dissonantes e versos sensacionais de calibre espinhal e arquitetônicos. Ah, Alberto, brasiliense, inquieto, sonhador, compositor dos mais inteligentes da atualidade e com um dos melhores discos de todos os tempos (Além do Quintal, 2014 ) Alberto é aquilo que a música brasileira de fato precisa: com um misto e legitimidade autoral incrível retratando a beleza da paisagem concreta e o dossal entre o singelo pluralismo abstrato em forma de desenho musicado, o cantor mostra o quão importante é a sua música para a atualidade numa forma coloquial, categorial e sincera. E o que dizer de Lenine, pernambucano, brejeiro, pensador sofisticado de palavras suaves, mas enorme salubridade sobre a vida, genioso e arteiro?  Lenine é o artista mais completo dentro de uma consistência musical harmoniosa, geniosa e lírica: sua música transcende aquilo que não possamos alcançar, o inatingível, o abstrato, o irreal que assola nossos poros, nossas artérias e o nosso ar vertical. É quase impossível não termos a sensação de que sua música é aquilo que ele mais nos representa: o homem na sua forma mais plena da sabedoria divina, do escárnio intelectual e da tenebrosa tempestade de versos histriônicos que repelem a uma dissecação de alegoria em forma de poesia. Zeca Baleiro é o cantor que representa a síntese do cantor popular que fala às multidões num gosto acelerado de riqueza nordestina, sendo ele mesmo um nordestino que consegue ater a atenção de todos por um simplório desejo musical. Se Zeca, maranhense, poeta inspirador, é um típico representante da comunidade e tem o poder de juntar gregos e troianos, isso requer dizer experimentar que ele é o fruto proibido entre a música regional e a música de seletivos críticos. De qualquer forma, seus discos nos fazem pensar na característica personalidade que o faz recitar poemas em letras tão melódicas e antissociais. São elementos essenciais para que Zeca componha de uma maneira difícil mas com o pensamento na realidade de todos os tempos. Enquanto todos seguem uma linha tênue entre o lirismo formal e fugindo da atmosfera platônica que envolve o homem e sua magnitude, Luiz Marques nos traz uma musicalidade em que o romantismo convencional ou reservado supere aquilo que falta em muitos (bons, medianos e ótimos) cantores: a do cantor popular sem ser caricato, buscando em suas letras e melodia a satisfação realista de sua beleza autoral, fazendo com que o seu intelectualismo nos permita transitar entre o belo e o cauto, entre Paris e Minas Gerais e entre a solidão masculina e a realização feminina num piscar de olhos. Esses arvoredos de sensações estão representados na maioria de suas belas canções, dentro daquilo que sugiro ser a mais pura forma de demonstrar o quão sensacional é a sua música. Ah, Luiz, mineiro, sonhador, pesquisador da boa música e merecedor de aplausos pelo espetacular CD Noite Azul (2015). Estar nesse patamar da música popular brasileira não é para qualquer cantor: é preciso muito mais que cantar e demonstrar sua arte! É preciso ter disciplina, ética e agarrar o ouvinte pelos ouvidos, pelos poros e pela alma. É ter a certeza de que sua música é fiel, verdadeira e que catalisa as pessoas pelo lado mais puro e doce, pelo lado mais concreto e real, pelo lado mais sereno e merecedor. Estar nessa criteriosa lista é estar entre os melhores da música contemporânea, é estar entre os melhores dos melhores e estar entre aqueles que sempre gosto de colocar: no topo mais alto da música. Alberto Salgado, Chico César, Lenine, Luiz Marques e Zeca Baleiro são os melhores cantores dos últimos anos, sem qualquer ponto de interrogação!

 

Cinco cantores brasileiros!
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A eloquência distinta de Carbono, novo álbum de Lenine


Experimentos químicos de Lenine
Lenine é um tipo raro de cantor que conseguiu sair da atmosfera popular para adentrar, definitivamente, no âmbito da intelectualidade e a prova maior disso são suas músicas, cada vez mais rebuscadas e refinadas, não deixando margem para que a população sem cérebro possa compartilhar o que é belo e universalmente para poucos. Seu último trabalho, Chão (2011) foi uma experiência causada entre o efeito da solidão do cantor e a fase de aceitação do público, que estranhou de início o novo formato de se fazer música do cantor e compositor pernambucano, mas que aos poucos essa magia e esse encanto tomaram partido alto e maior dentro do universo leniniano. Quase no mesmo caminho que o álbum anterior, Carbono (2015 / Universal Music / 29,99) é um disco atemporal, fugindo de modismos e tropicalismos regionais que o consagraram e sendo ele mesmo: Lenine, um cantor pernambucano que tenta encontrar a cada verso uma explicação para o inexplicável, um ato, um hiato, uma sonoridade diferente e ampla, um significado para suas canções e para o desejo de se fazer canções. Carbono nasceu dessa necessidade conjunta de exemplificações: uma corrente entre as músicas para tentar decifrar os anseios da química e o elo entre Chão, com suas sonoridades ambivalentes e subsequentes da eloquência distinta. Há lirismo temperado com loucura e um certo desespero de Lenine na preocupação geral sobre o ambiente e a Terra, tópicos contestados em músicas que ministram água, carbono, pó, terra entre outros argumentos da natureza. Lenine está mais denso, mais calmo e até mesmo mais confortável para fazer de Carbono seu porto seguro de ilusões maniqueístas e está em um momento em que sua música pede passagem para o que realmente pede a música popular brasileira num todo: a qualidade musical. O cantor vem há um certo tempo se mostrando presente no lendário sistema de qualificação profissional, lançando discos mais distantes da plateia assimétrica de caráter duvidoso para figurar entre o intelecto e a formação de massa cerebral. Em Carbono percebe-se o instinto do saber voluntário do cantor, atestado em canções que vão da sofisticação ao regional sem precisar ser caricato ou descer um patamar de popular. O disco tem uma limpeza sonora incrível e o erro de Lenine, talvez, tenha sido esse: já que o cantor queria experimentar o lado minimalista dos ruídos em Chão, ele poderia usufruir para que esse novo trabalho tivesse sons que realmente atendem ao título. Há um distanciamento e uma proximidade muito larga entre um projeto e outro, mas Carbono consegue ser mais poético, mais autoral, mais visível e mais compreendido que os discos introspectivos do cantor lançados outrora. Mesmo sendo um disco particular, monossilábico (o álbum cai por vezes numa tristeza profunda), anti-tropicalista e pós MPB, Lenine nos mostra um álbum recheado de perguntas sobre o mundo da engenharia química, tentando nos transportar para o mundo daqui há alguns anos. Sua música, nesse quesito, pode explicar muitas coisas.

 

 

Carbono (2015) / Lenine
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A explosão de Ney Matogrosso


Alto astral em disco ao vivo
Havia um pouco de loucura nos idos anos de 1999 quando Ney Matogrosso lançou seu disco ao vivo, pois a carreira do cantor estava um pouco abafada pela explosão do sertanejo e da volta do axé. A loucura fez com que Ney fosse surpreendido pela crítica e público quando seu disco foi alçado ao ponto máximo que um artista de sua geração pudesse alcançar: o topo das paradas. O disco Ney Matogrosso Ao Vivo (1999 / Universal Music / 23,99) é um álbum em que pode ser encontrado de tudo um pouco: das grandes regravações, dos belos poemas de Itamar Assumpção, das letras inesquecíveis de Cazuza, da fase dos Secos & Molhados e até cantores mais modernos, como Lenine e Renata Arruda. Em boa fase e muito bem em palco, Ney Matogrosso fez um disco para fechar o ano e abrir o novo milênio em excelente categoria. Boa parte disso vem do disco anterior, Olhos de Farol, em que Pedro Luís reforçava a bandeira como sendo um dos mais brilhantes e notórios compositores de sua geração. Ao Vivo trouxe de volta Ney Matogrosso em alta categoria, incapaz de ser subjulgado como qualquer cantor. Sim, Ney ainda respirava respeito por todos e esse disco veio apenas comprovar isso. Envelhecer no Brasil, como Ney envelheceu com o Brasil, não é uma tarefa fácil. Ney lançou Ao Vivo aos 58 anos de idade e ficar dançando como ele dançou e requebrou as cadeiras nos shows pelo país a fora, não é tarefa para qualquer um. A coerência de Ney e o prazer com que ele dança e interpreta as canções neste disco vão além de sua velhice (no bom sentido). O gás de ânimo de Pedro Luís e Lenine e o fogo ardente de Paulinho Moska, misturados ao sabor de Itamar e aos gestos selenes de Rita Lee, fizeram com que o cantor passasse a virada de milênio com um número maior de fãs mais jovens e de obter maior êxito entre os que já gostavam de Ney. Ao longo de sua carreira, Ney dribla entre fortes doses de adrenalina, libertinagem, liberdade e ousadia e assumiu todos os pecados e hoje segue sozinho, vivo, liberto de qualquer agruras do passado e sem nunca sentir remorsos. E essa liberdade é vivida neste álbum, quando recria com sofisticação inúmeros sucessos do passado, sem ter medo da opinião alheia. Beirando os 59 anos à época, Ney resisitiu à tentação de dançar quase pelado, metamorfoseando-se de plumas e paêtes e se deliciando com as próprias canções.  Aqui não tem apelações, exageros ou coisas do tipo, porque Ney Matogrosso soube exprimir tudo com sabor de requintes excepcionais para fazer com que o seu público dobrasse ou triplicasse. E ele conseguiu. Passados mais de dez anos, Ney Matogrosso Ao Vivo consegue fazer a ponte entre o Ney de ontem e o Ney de hoje e isso faz toda a diferença na carreira do grande cantor.

 

A explosão de Ney Matogrosso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A decepção de Maria Gadú em Nós


O disco: sem novidades
Mais uma vez, Maria Gadú nos engana com seu disquinho mesquinho e sem grandes pretensões. Lançando Nós (2013 / Slap / 24,99), o CD é uma compilação de músicas gravadas em duetos com outros cantores em discos de terceiros e com qualidades superficiais (como anda ocorrendo vez por outra na carreira da jovem cantora). Maria Gadú foi lançada ao mercado fonográfico em 2009, trazendo um ótimo (mas cansativo) disco de estreia, cujo trazia releituras de Chico Buarque (mais tarde ela se renderia ao baiano Caetano Veloso) e uma canção capenga de Kelly Key. O disco de estreia era sensacional e hoje é apenas mais um disquinho qualquer guardado no fundo do baú e que só nos lembramos quando vamos limpar o ambiente. Mesmo assim, ouvir Maria Gadú está sendo uma das tarefas mais ordinárias no momento. Primeiro porque ela lança discos sensacionais, mas que cansam devido a sua voz ser estardalhada demais, cansativa demais, oriunda demais.  Segundo porque Maria Gadú se infiltrou no caminho de Ana Carolina, cantora mineira que arregaça qualquer tímpano sincero de boa musicalidade e terceiro porque Maria Gadú se sentiu estrela antes de ser estrela e com isso a sua estrela se apagou.

Não posso ser tão ignorante ao ponto de dizer que Maria Gadú é uma cantora em ascenção quando lança qualquer disco. O de estreia, como eu disse, é uma maravilhada quando ouvida duas ou três vezes no máximo. Em seguida vem o Multishow Ao Vivo, cujo reúne sucessos originários que não é preciso ser dito, para logo depois surgir o encontro de Maria Gadú com Caetano Veloso, a qual eu chamo de o encontro entre o velho e o novo, na qual o velho ainda predomina o que é novo. Mais Uma Palavra é um disco que, segundo a minha opinião, é melhor que o primeiro. Sai Chico Buarque, entra mais uma vez Caetano Veloso e aparece um Lenine meio escondido ao lado de músicas espanholas e americanas. Gadú ainda está perdida no próprio caminho.

E Gadú é sempre assim: lança um disco de inéditos, depois emenda com um disco de sucessos. Para tanto, lança agora (previsto para o lançamento oficial a partir do dia 15 de agosto) o CD Nós, em que canta músicas gravadas em discos de outros cantores em formato de duetos. O disco não trás muitas novidades e passará despercebido, mesmo sendo anunciado pela grande mídia como o lançamento do ano.

Maria Gadú precisa aprender a ser Maria Gadú e ainda precisa crescer, pois sua fase de garota infanto juvenil que sabe tocar violão,  sabe cantar em francês e que não é igual à Manu Gavassi está longe de ser apagada. Ainda é rodeada por verdadeiros profissionais que não sabem aproveitar o talento da cantora, que insiste em se mostrar culta perante os fãs cantando Caetano e Chico numa forma horrenda. Para que isso aconteça de verdade, Maria Gadú precisa fazer um disco de verdade, a altura de sua estatura!

 

Nós / Maria Gadú

Nota 3

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A grande dama dos palcos: Sandra Duailibe



A dama Sandra Duailibe

O cenário musical da MPB está cheio de ótimas cantoras com influências das mais diversas possíveis, que vão do chorinho a bossa nova, passando pelo rock e até o folk. De nomes como Emília Monteiro e Olívia Gênesi surgem vozes que tem ganhado cada vez mais espaço e importância na música nacional. Outras, como Karina Buhr e Bárbara Eugênia, se destacam já no álbum de estreia sendo grandes promessas. Mas, como as novidades nesse meio não param, surgem surpresas muito boas e que merecem toda a nossa atenção, como é o caso da cantora Sandra Duailibe, que já está na estrada há um tempo e que me surpreende toda a vez em que a ouço cantar. Sandra é uma dessas cantoras que nos agarram logo no primeiro minuto e mesmo sem ter que cantar, sua fisionomia é impactante, nos hipnotiza e nos acalma de uma tamanha forma, que fica impossível não se apaixonar por ela. E Brasília, a capital do país, tem me deixado muito realizado e feliz com as cantoras lá residentes, como já venho retratando aqui no Mais Cultura Brasileira! com nomes como Cely Curado, Nathália Lima e Márcia Tauil.
A música de Sandra Duailibe foi feita para cantar o amor e todos os seus adjetivos — que de certo não existia ainda quando os primeiros homens cantaram. A envolvente voz dessa cantora nos remete a lembrarmos do quanto a vida é única e bela e do quanto a música popular brasileira é viva, real e sublime. Sandra canta com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses e a natureza, e de conservarmos na memória, pela sedução de seu cantar, as leis da felicidade. A poesia estende-se sempre por um fio condutor, e tenderá constantemente a aproximarmos, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que estão nos interessando e nos conduzindo ao ouvir sua voz.  Acessando o site da cantora (www.sandraduailibe.com.br), você terá todas as informações sobre shows, lançamentos de discos e outras coisas boas.
A dimensão de Sandra Duailibe não se traduz apenas pela doçura da sua voz, mas também pela intensidade com que vive cada uma das músicas que interpreta e que representam não só a sua forma de ser e de estar, mas que mostram a realidade do povo brasileiro, amantes da boa música popular brasileira. Mulher de grandes viagens, Sandra já cantou de Chico Buarque a Lenine com a maestria digna das grandes damas dos palcos e deixando as melodias ainda mais deliciosas.
A receita do sucesso não tem mistério nenhum: uma produção bem caprichada, no estilo banquinho, voz e violão fazem parte de quase todos os seus discos. Sandra apresenta algumas canções da forma como elas foram criadas, mas na maioria das vezes, a desconstrução das melodias fazem toda a diferença, como o caso de Tatuagem, de Chico Buarque e Ruy Guerra, gravada no disco Voz e Piano (2011), cantada com sutileza de detalhes acompanhada do piano de Leandro Braga ou no caso de Morro de Saudade, de Gonzaguinha, canção quase esquecida do filho do Gonzagão, gravada no disco Do Princípio ao Sem-Fim (2006).
É com essa liberdade que Sandra Duailibe transita por diversos estilos musicais. Nascida em São Luís, no Maranhão, a cantora hoje reside em Brasília e é uma das cantoras que conseguem administrar bem sua carreira, traçando sua própria musicalidade com um trato íntimo com a harmonia. Sandra canta bem e é sempre um convite para ouvi-la mais e mais. Quatro discos lançados, sendo o último em homenagem à Roberto Menescal, chamado Elas Cantam Menescal (2012), um dos patronos da Bossa Nova, Sandra tem um repertório variado que vale a pena escolher, permitir, sem faltar espaço para esquecê-la, tampouco desanimar. O importante é deixar a música penetrar em seus poros e ouvidos e descobrir cada nova sensação a cada música ouvida. Seja qual for o jeito escolhido, ouvir Sandra Duailibe se conjuga com todas as formas variantes de se ouvir uma boa música.
Pautada na leveza de sua melodia, a cantora já flutua alto e faz shows em Paris, Brasília e aonde sua música a levar. Sandra Duailibe fala com um mundo inteiro como quem traça mesmo um plano para ser ouvida. Mas não faz de sua carreira como esses matemáticos e calculados, com pressa ou com medos. Sem restrição nenhuma, a cantora optou pelo amor para contar, em cada uma das músicas, as histórias que gosta de pensar.

A grande dama dos palcos: Sandra Duailibe
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Virada Cultural 2013 - Os Mais Cotados


Virada Cultural 2013
Chico Buarque, o mais cotado para comparecer como uma das atrações principais da Virada Cultural, já disse que não vai. Prestes a fechar a lista com o nome dos artistas que se apresentarão na Virada Cultural deste ano, o cantor Chico Buarque nega o pedido de se apresentar no evento. Por outro lado, o Catraca Livre me mandou uma lista exclusiva e mostra as presenças confirmadas de Gal Costa, Tulipa Ruiz e Pitty. 

Seu Jorge, Criolo e Marisa Monte foram alguns dos nomes mais citados na votação que o Catraca Livre conseguiu através de pesquisas. A ideia era saber qual artista os paulistanos gostariam de ver na edição 2013 da Virada Cultural. Com exclusividade, já é sabido que Chico Buarque não aceitou o convite. Estão confirmadas, porém, nomes como Pitty, Gal Costa e Tulipa Ruiz, como citei acima. A Secretaria de Cultura da cidade se compromete a avaliar as indicações feitas pelos leitores do Catraca Livre.

Vale lembrar que o resultado da votação será encaminhado aos organizadores do evento, mas pode ser que o artista não seja contratado para se apresentar no evento. A Secretaria não tem obrigação legal de contratar os primeiros colocados. Trata-se, portanto, de uma consulta para democratizar a escolha dos nomes.

Confira os dez principais destaques da programação

1. Charile Brown Jr 2.62%

2. Chico Buarque 2.6%

3. Teatro Mágico 2.23%

4. Seu Jorge 2.22%

5. Nando Reis 2.22%

6. Criolo 2.02%

7. Marisa Monte 1.95%

8. Caetano Veloso 1.92%

9. Lenine 1.87%

10. Planet Hemp 1.82%

 

Virada Cultural São Paulo

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de março de 2013

Tudo Esclarecido, de Zélia Duncan


Um disco à altura de Itamar
Grande amiga e praticamente uma defensora da obra inigualavelmente excepcional do sensacional e incrível Itamar Assumpção, Zélia Duncan resolveu presentear os fãs e a ela mesma ao lançar um disco nada autoral com o magnífico trabalho Tudo Esclarecido, somente com músicas do cantor paulistano, morto em 2003 decorrente de um câncer. Pouco cantado nos dias de hoje, Itamar ainda é lembrado por mestres da MPB, como Ná Ozzetti, Ney Matogrosso ou Virginia Rosa e ainda desperta interesse e curiosidades sobre suas músicas, sempre requintadas com uma dose de ironia fina e ultrapassando o ulterior de cada pessoa. Misterioso ao seu jeito, Itamar foi um dos artistas malditos mais crucificados em vida e morreu solitário, assim como as frutas de cera a qual canta em Noite Torta.

Não é à toa que Zélia canta as músicas de Itamar. Desde 1996, quando lançou seu terceiro disco, Intimidade, que ela gravou o ótimo Vou Tirar Você do Dicionário, com participação do então desconhecido Lenine, tentando mostrar que o hermetismo e a densidade comumente vinculados ao compositor da Vanguarda Paulista não dão conta de sua faceta pop. O repertório resultou num leque de ritmos: xote, forró, samba, balada folk. Mas o resultado não foi mais que um reflexo da pluralidade intrínseca a Itamar, já que o único critério para selecionar as faixas do CD foi a vontade de gravá-las, de acordo com Zélia e sua perspectiva.

 

Tudo esclarecido

Entre as coisas

E os seus

Sig

Ni

Ficados

O que se viveu

Tá vivido

O assunto

Virou passado

E o que passou


Esquecido

 

Entre as coisas esquecidas

Estão as melhores lembranças

Entre as coisas perdidas

Estão os grandes achados

 

(Trecho de Tudo Esclarecido, de Itamar Assumpção e Alice Ruiz)

 

Ney Matogrosso e Martinho da Vila, dois artistas deliberadamente convidados por serem amigos de Itamar, endossaram esta campanha pela difusão da obra do compositor paulista – ele mesmo, um entusiasta do pop, que acabou tendo sua ressonância limitada pela complexidade de sua figura pública.

O envolvimento de Zélia Duncan com Itamar Assumpção data dos anos 1980, quando se aproximou meio que sem querer do cantor em um show que ele fazia. Agora, a niteroiense se volta com força total à obra de Itamar, com o lançamento do disco Tudo Esclarecido - Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção (Warner / 29,90 / 2012). Um tributo cheio de personalidade que Zélia agarrou com todas as suas forças.

Gravar um disco com composições de um único autor é sempre um desafio grande. É preciso alcançar um balanço entre a identidade do autor e a personalidade do intérprete. Tudo Esclarecido - Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção é um desses casos. Produzido por Kassin - o novo Midas da MPB - emociona e reafirma a categoria de Zélia como cantora.

Quando Zélia lançou Pré Pós Tudo Bossa Band, havia dois convidados especiais: Lulu Santos e Anélis Assumpção, a filha de Itamar, na bela música Milágrimas. O disco não era em homenagem à Itamar, mas como já virou um hábito, a cantora incorporou mais uma música do artista como forma de homenageá-lo. Porém, no disco recente que leva treze faixas, Zélia resolveu convidar Martinho da Vila (que era apenas amigo de Itamar) ao invés de chamar a filha do mesmo. Soa estranho este não convite no disco, mas sim nos shows que Zélia anda fazendo, já que leva a tiracolo Anélis. Por este motivo, o disco leva nota 9 e não 10.

Nas 13 canções - uma delas inédita (Tudo Esclarecido) - Zélia recebe dois convidados muito especiais (Ney Matogrosso e Martinho da Vila), em números que se identificam pelos belos e econômicos arranjos. A banda, formada pelo violão de Zélia e mais Kassin (baixo acústico, baixo, guitarra dobro, lap steel, sintetizador), Stephane Sanjuan (bateria, tímpano e percussão), Thiago Silva (bateria e percussão), João Callado (cavaco), Marlon Sette (trombone), Luis Filipe de Lima (violão 7 cordas), Pedro Sá (guitarra, violão), Christiaan Oyens (dobro slide, guitarra, violão havaiano, violão, lap steel, bateria e percussão) e Marcelo Jeneci (teclados e acordeom), mostra-se precisa e capaz de mudar de clima sem perder o rumo.

 

Tudo Esclarecido – Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção / Zélia Duncan

Nota 9

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

19º Maior Cantora do Brasil: Elba Ramalho


Elba entre as melhores
Dona de uma voz inconfundível e de uma musicalidade arrebatadora, Elba Ramalho é considerada a rainha do Nordeste, tamanho a sua popularidade mundo a fora e a sua luta em preservar a sua cultura e seu povo no topo de qualquer parada. Em 1996, recebeu o prêmio de Melhor show do Ano, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo. Em 2008, Elba comemorou trinta anos de carreira, contabilizando mais de seis milhões de cópias vendidas dos trabalhos. É bicampeã do prêmio Grammy Latino, pelos discos: Qual o Assunto Que mais Lhe Interessa?, lançado em 2007 e Balaio de Amor, lançado em maio de 2009, na categoria Melhor Álbum de Raízes Brasileiras - Regional e Tropical. Em 1996, lança o elogiado e bem-sucedido CD Leão do Norte, que marcou a estreia na gravadora BMG e vendeu mais de 300 mil cópias, exaltando a cultura nordestina e pernambucana (com a faixa-título de Lenine e Paulo César Pinheiro). O espetáculo homônimo foi dirigido por Jorge Fernando e obteve relevante sucesso no Brasil inteiro, arrematando o prêmio de Melhor show do ano, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo e também originou um VHS contendo os melhores momentos do espetáculo. Naquele mesmo ano, excursiona com o espetáculo O grande encontro, juntamente com Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo. O primeiro disco da trilogia vende mais de um milhão de cópias, trazendo clássicos da MPB e da música nordestina.

 Em 1997 chegou às lojas o disco Baioque, composto basicamente de regravações de músicas urbanas de autores nordestinos, como Raul Seixas (S. O. S.), Belchior (Paralelas), Ednardo (Pavão misterioso), Zé Ramalho (Vila do sossego), Caetano Veloso (Os argonautas), Gilberto Gil (Vamos fugir), Lenine (Relampiano), Alceu Valença (Ciranda da rosa vermelha), dentre outros; assim como o trabalho anterior, este também foi produzido pelos músicos Robertinho do Recife que também foi responsável por alguns arranjos e regência. O espetáculo bisou a parceria com Jorge Fernando e o sucesso do espetáculo baseado no disco anterior e a reedição deste CD trouxe a faixa-bônus Paris, que não constava da versão original. Graças ao sucesso do projeto O grande encontro, foi lançado um segundo volume do álbum, mas desta vez só não contou com a participação de Alceu Valença, além de excursionar pelo Brasil inteiro; o repertório deste trouxe sucessos dos três artistas.

Em 1998 lança o CD Flor da Paraíba, o último da trilogia produzida por Robertinho de Recife, trazendo algumas regravações e canções inéditas de compositores nordestinos, priorizando canções no estilo do forró. O título do álbum é inspirado em uma dedicatória feita, há muitos anos, pelo cantor e compositor Caetano Veloso, quando a cantora acabara de chegar ao Rio de Janeiro para despontar no meio musical.

Ela Ramalho é uma cantora e atriz brasileira. Vencedora de um prêmio, ainda enquanto atriz, por sua interpretação de O meu amor com Marieta Severo em 1978, sendo esta música de Chico Buarque. Recebeu da Associação de Críticos de Arte de São Paulo prêmio de Melhor Show do Ano, em duas ocasiões: em 1989 pelo show Popular Brasileira e em 1996 pelo show Leão do Norte.

Sua primeira experiência musical veio em 1968, tocando bateria no conjunto feminino As Brasas. Posteriormente, o grupo se transformou de musical para teatral. Contudo, Elba continuou a cantar e a participar de festivais pelo Nordeste brasileiro. Em 1979, lançou seu primeiro álbum, Ave de Prata. Em 2009, Elba fez 30 anos de carreira e celebrou os mais de 6 milhões de discos vendidos.

Por toda a sua música e sua conquista, que Elba Ramalho chega ao décimo nono lugar no ranking das melhores cantoras brasileiras de todos os tempos.

 

19º Lugar: Elba Ramalho

As 30 Maiores Cantoras Brasileiras de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

29º Maior Cantora do Brasil: Simone


Simone e seu romantismo
Na história da MPB a tradição romântica de Simone foi intensificada nos anos 1980 e os temas de amor romântico e paixão, foram amplamente explorados por diversos cantores e compositores. Simone, que desde o início da carreira interpretou predominantemente canções românticas, figura dentre elas e é por isso que ela entra na categoria de cantora romântica. O repertório abrange mais de 380 interpretações, um dos mais vastos e diversificados dentre as vozes femininas, compondo um verdadeiro mosaico de estilos. O amor romântico ou idealizado, a paixão, (Começar de Novo, Jura Secreta, Corpo, Medo de Amar nº 2, Raios de luz, Lenha), o samba (O Amanhã, Disputa de Poder, Ex-amor) e a religiosidade (Cantos de Maculelê, Reis e rainhas do Maracatu, Então é Natal, Ave Maria, Jesus Cristo) são os mais recorrentes na obra. Ao longo da infância e juventude as principais referências deste repertório romântico foram Roberto Carlos, Milton Nascimento e Maysa Matarazzo, de quem é grande fã e que grande influência exerceu na carreira, Dolores Duran, Ângela Maria, Nora Ney e Elizeth Cardoso -- as maiores expoentes do gênero samba-canção ou fossa. O gênero, comparado ao bolero, pela exploração e exaltação do tema amor-romântico ou pelo sofrimento de um amor não realizado, foi chamado também de dor-de-cotovelo.

O samba canção (surgido na década de 1930) antecedeu o movimento da bossa nova (surgido ao final da década de 1950, em 1957), com o qual Maysa já foi identificada. Mas este último, herdeiro do jazz norte-americano, representou um refinamento e uma maior leveza nas melodias e interpretações em detrimento do drama e das melodias ressentidas, da dor-de-cotovelo e da melancolia. O legado de Maysa, ainda que aponte para dívidas com a bossa, é o de uma cantora mais dramática e a voz é mais arrastada do que as intérpretes da bossa e por isso aproxima-se antes do samba-canção e do bolero. O declarado gosto pessoal da cantora por boleros advém desta herança musical. Ao lançar o CD Fica Comigo Esta Noite, comentou que bolero é bolero, o que é fácil é fácil.

Já como intérprete, Ivan Lins, Vitor Martins, Milton Nascimento, Fernando Brant, Paulo César Pinheiro, Gonzaguinha, Chico Buarque, Martinho da Vila, Fátima Guedes, João Bosco, Aldir Blanc, Isolda, Roberto Carlos, Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho da Viola, Sueli Costa e Abel Silva são os compositores com maior número de interpretações na sua voz. O repertório atual inclui ainda Zélia Duncan, Cássia Eller, Adriana Calcanhotto, Aldir Blanc, Joyce, Martinho da Vila, Ivan Lins, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e Lenine.

Simone é uma das grandes cantoras deste país, sem sombra de dúvidas e precisamos manter viva esta categoria a qual ela pertence.

 

29º Lugar: Simone

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Falange Canibal, de Lenine: perfeito!


 

O ótimo disco de Lenine
Mantendo seu caminho de agregador, Lenine transforma um projeto coletivo numa obra bela e forte que ele intitulou de Falange Canibal, um disco muito bom, excelente e que denota toda a versatilidade do músico pernambucano. O álbum tem os melhores músicos da atualidade: Vulgue Tolstoi (grupo que forneceu o parceiro constante guitarrista Júnior Tolstoi), Monoaural (Kasin e Berna Ceppas), Tom Capone (produtor infelizmente falecido prematuramente, que aqui também contribui com programações, guitarra, baixos e otras cositas más), Xandão (guitarrista do Rappa e Caroçu). Além dos amigos compositores, dividem com o anfitrião quase todas as músicas os grandes compositores Carlos Rennó, Ivan Santos, Bráulio Tavares, Sérgio Natureza, Dudu Falcão, Paulo César Pinheiro e Lula Queiroga. A produção também é dividida por muita gente, incluindo Lenine, Tom Capone, Mauro Manzoli.

Gosto muito da sonoridade moderna e caprichada do Lenine. Ecos do ão fala sobre o fonema característico da nossa língua (e sempre difícil para estrangeiros) como linha condutora para também refletir sobre nós brasileiros.

nós temos violência e perversão

mas temos o talento e a invenção

desejos de beleza em profusão

e ideias na cabeça coração

a singeleza e a sofisticação

o choro, a bossa, o samba e o violão

mas se nós temos planos, e eles são

o fim da fome e da difamação

por que não pô-los logo em ação?

tal seja agora a inauguração

da nossa nova civilização

tão singular igual ao nosso ão

e sejam belos, livres, luminosos

os nossos sonhos de nação

 

Trecho de Ecos do Ão, de Lenine

 

Em seguida uma mais lenta, Sonhei, bela como de costume e com aquele violão percussivo e extremamente bem tocado. Mais uma com boa mistura de sons eletrônicos e acústicos, inclusive um bonito oboé. Umbigo começa com um violão magrinho e bateria do cara do Living Colour, Will Calhoun. Também a voz em inglês de Ani Difranco (alguém sabe quem é ela?), Eumir Deodato (o cara existe de verdade!) no hammond e piano elétrico com mão pesada. Com um trecho que diz gosto muito de conversar comigo/ umbigo meu nome é espelho/ não dou ouvidos nem peço conselhos/ umbigo meu nome é certeza/ só é real o que convém à realeza, a música e o disco já valem muito.

Lavadeira do rio tem uma história engraçada: gravada originalmente por Virginia Rosa em seu primeiro disco solo, Batuque, a música se chamava A Rita, mas Chico Buarque compusera nos anos 1960 a bela A Rita, que ficou conhecida nas vozes de Nara Leão e Gal Costa posteriormente. O público estava começando a ficar confuso com duas músicas com o mesmo título e, por este motivo, Lenine resolveu rebatizar a música e, talvez por esta conscientização, Lenine resolveu cantá-la neste disco. A Lavadeira do Rio começa meio balançada, eletrônica até, com uma guitarra invertida discreta. Depois vira um bom rockão! Tem até aquele clichê de bateria só com vocais empolgantes. Esta aqui tem participações especiais da galera do Skank (sem o Samuel Rosa, ufa!) e da Velha Guarda da Mangueira no coro.

Encantamento é uma montagem/colagem de várias músicas, emenda e surge a original do Lenine como se tudo levasse a isso. Nem sol, nem a lua, nem eu é daquelas belíssimas que Lenine compõe, lenta, quase sussurrada, com uns uivos caninos ou lupinos no fundo. Entre as participações especiais, Will Calhoun na wave drum e Xandão na guitarra. Caribantu é só voz e muitas percussões, a cargo do Cambaio (a pós-coisa), seja lá o que for isso, talvez um coletivo de percussão. A Velha Guarda da Mangueira também faz aquele coro bonito.

Quadro-negro é mais uma das bonitas, aqui com efeitos eletrônicos (até na voz) e a participação do Marcelo Lobato (Rappa) na bateria, teclados, theremin e vibrafone. Quem vai pagar a conta?/ quem vai lavar a cruz?/ o último a sair do breu/ acende a luz.

Chega a mais bela do disco, O silêncio das estrelas, com um arranjo lindo e criativo de cordas, incluindo um recurso arriscado, o glissando (os instrumentos vão subindo/descendo sem escalas nas notas temperadas, dando a impressão de desafinação). Solidão/ o silêncio das estrelas/ a ilusão/ eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos/ como um deus, e amanheço mortal. Termina com uma sanfona bonita, a cargo de Regis Gizavo.

No pano da jangada é muito legal, com uma percussão que na verdade são os pés do Lenine na areia e vozes, com vocais dobrados e processados. Viva a tecnologia e a criatividade! Rosebud (o verbo e a verba) é um conto divertido, uma música latina suingada e quebrada. Participação do grupo Yerba Buena nas vozes, percussões/bateria e trompete cucaracho.

E o fim é pra cima, a música com participação integral do Living Colour, O homem dos olhos de raio X que entrou para a minha galeria das melhores músicas do Lenine. Rock balançado e percussivo. Viva o nosso herói pernambucano.

 

Falange Canibal / Lenine

Nota 10

Marcelo Teixeira