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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Leny Andrade - uma cantora brasileira


Leny : grande dama da MPB e sem rótulos
Embora muitos ou poucos a considerem como uma cantora de jazz, a própria Leny Andrade não se considera rotulada como tal. Leny gosta de ser chamada de cantora. Simplesmente cantora. Em alto e bom som e na sua mais plenitude definição. E por que e para quê limitá-la a um gênero quando se sabe que ela domina tantos outros? Se precisar for classificá-la de alguma maneira, a única palavra possível seria: brasileira. Então assim a chamemos: Leny Andrade, uma cantora brasileira. Assim como é uma cantora brasileira que fez mais sucesso (com merecimento) do que em solo americano, a própria Leny diz que é uma aspirante cantora americana. Nada nada e nada longe da verdade. Leny canta desde 1983, quase todo o ano, em Nova York. E tanto que, em 1993, dez anos depois, já com o Green card na bolsa, resolveu montar por lá um agradável espaço em formato de moradia onde pudesse pousar o corpo durante suas longas e lotadas temporadas no Ballroom, no Blue Note, no Town Hall e nas demais casas que disputavam o seu canto. Era também uma base confortável para onde retornar depois de se apresentar em Washington, em Los Angeles ou em cidades americanas. E até hoje é assim, com a diferença de que seu principal placo em Nova York passou a ser a casa de jazz mais respeitada do mundo: o Birdland, assim chamada para homeagear o saxofonista Charlie Bird Prker. Nenhuma cantora pode ser comparada à Leny, exceto Ella Fitzgerald. Excelente cantora que é, Leny é uma cantora que improvisa em vocais, lógica e assimétricas em explosivo dinamismo. Nascida no Rio de Janeiro em 1943, a cantora foi criada em conjuntos habitacionais e desde pequena sonhava em ser cantora. Ingressou na Bossa Nova tendo dois pontos centrais e cruciais: de um lado João Gilberto, que mantinha uma postura cool, equilibrada, simplista, justa e exata e de outro lado tinha a linha feminina que contrariava com a de Nara Leão, Dulce Nunes, Astrud Gilbert, Odette Lara, Wanda Sá, Joyce, Miúcha, Elza Soares, Elis Regina. Mas ao mesmo tempo que Leny tinha o exemplo e companheirismo de João Gilberto, ela se dividia entre outras inspirações e vertentes masculinas, como Wilson Simonal, Jorge Ben e Emílio Santiago. Mas ao adentrar na Bossa Nova, Leny provou que era Sambop, estilo totalmente diferente do estilo banquinho e violão. Um dos maiores desmentidos à história de que a bossa nova era cantar baixinho foi a entrada de Leny no movimento: cantar baixinho não era com ela. E mesmo assim, Leny foi a mais consagrada dentro desse time de cantoras extraordinárias. Miéle e Ronaldo Bôscoli foram os responsáveis pelo impacto da presença de Leny em solo brasileiro, quando produziram o histórico show Gemini V, que também contava com Pery Ribeiro e o Bossa Três. Depois disso, Leny percebeu que aqui não seria seu verdadeiro palco, embora saiba da sua responsabilidade em ser brasileira: o Brasil não a respeitaria como cantora, mulher e dona de uma das vozes mais autorais de seu tempo. Fez e faz sucesso nos Estados Unidos pelo conjunto da obra e lá o povo americano a reverencia como sendo a maior cantora de jazz do mundo.

Leny Andrade – uma cantora brasileira
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chico Buarque e um clássico que não virou clássico e hoje encontra-se perdido


Chico 1967: obra-prima
Talvez o próprio Chico Buarque saiba que seu segundo disco de carreira, o antológico Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 (1967 / RGE / 26,99) não chega a ser considerado um disco de primeira grandeza em sua carreira. Primeiro que o disco praticamente passa desapercebido do grande público hoje em dia e esse trabalho de relembrá-lo fica apenas restrito aos amantes e apaixonados pela obra do cantor e compositor carioca, que produziu o Volume 2 no rastro do enorme sucesso de seu disco de estreia, em especial por causa da faixa A Banda, pois a maioria de suas canções – tanto do primeiro quanto do segundo disco – não frequentaram as paradas de sucesso. O povo queria saber apenas de A Banda e da menininha timida que cantara ao seu lado nos festivais da TV Record – a musa da bossa nova, Nara Leão. Mas há de deixarmos claro e evidente aqui que mesmo que Volume 2 não tenha tido êxito na época de seu lançamento, algumas faixas viraram febre nacional e são hits que figuram na lista de preferidas de seu público, como Noite dos Mascarados, Morena dos Olhos d’Água, Quem Te Viu, Quem Te Vê. O novo álbum é cingido pelo mesmo lirismo nostálgico de seu antecessor e das 12 faixas, 8 tratam diretamente do amor. A música Com Açúcar, Com Afeto é um marco importantíssimo na carreira de Chico e foi essa a primeira composição em que ele se colocou na posição de uma mulher ao compor, sendo um recurso poético que, com o tempo, se tornaria uma de suas mais admiráveis marcas registradas. Chico atravessou boa parte de 1967 como que arrastado pelo sucesso contagiante de A Banda. A canção valera-lhe um programa na TV Record, o Pra Ver a Banda Passar, em que Chico apresentava em dupla com Nara Leão. Foi a partir deste ano que Chico diversificou sua criatividade. Travou um duplo contato inaugural com o cinema, atuando e compondo a trilha sonora do filme Garota de Ipanema, escreveu Roda-Viva, sua primeira peça teatral dita adulta e no ano seguinte, 1968, esse mesmo elenco de Roda-Viva seria agredido covardemente pelo Comando de Caça aos Comunistas. Mas o ano de 1967 era de fato um divisor de águas na vida de Chico: além de ter um programa na TV de maior sucesso com a musa da bossa nova, ver seu disco ser revenciado pelas pessoas (tanto o primeiro quanto o segundo) e ser um autor de peças teatrais consagrado, o seu plano pessoal o casamento com a iniciante atriz Marieta Severo lhe renderia um ano na ponte área Rio-São Paulo. Tudo isso era um turbilhão para o filho do historiador e antropólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pois seu quarto filho de um total de sete, tinha apenas 22 anos quando viu seu mundo deslanchar.

O disco herda de seu antecessor, Chico 1, o mesmo lirismo nostálgico: suas 12 faixas enveredam por temas como os amores fugazes de Carnaval, dor de cotovelo e saudades, todos emoldurados em sambas, marchas e modinhas de melofia cativante e letras de elevada voltagem poética. O novo álbum, no entanto, passa à margem de certas questões que atormentavam o compositor naquele momento, porque quatro de suas canções haviam sido compostas nos dois anos anteriores e duas delas, Morena dos Olhos d’Água e Será que Cristina Volta?, chegaram a ser gravadas para seu primeiro LP, mas acabaram ficando de fora. O fato é que Chico, em 1967, brigava com muitas frentes para ter seus direitos preservados: lutava contra o governo autoritário, contra a sociedade de consumo americanizada, contra as indústrias culturais e, em especial, contra a imagem de bom moço que construía em torno de sua figura. Era essa a sua roda-viva. Até mesmo com o movimento tropicalista Chico se estranhou: ao ler o livro de Caetano Veloso, Verdade Tropical ( 1997 ), pude perceber o quanto Chico era um verdadeiro empecilho (palavras de Caetano Veloso) na vida dos tropicalistas. O tropicalismo, vertente baiana e iconoclasta da MPB de então, estava em alta em 1967. Alegria, Alegria, de Caetano, fora a quarta classificada no III Festival de MPB da Record, enquanto Domingo no Parque, de Gilberto Gil, ficou em segundo. Entre ambas, Chico e sua Roda-Viva. A campeã de fato foi Poneio, de Edu Lobo e Capinamm interpretada por Marília Medalha. Caetano e Gil, veladamente, haviam incorporado guitarras elétricas aos seus arranjos e aventuravam-se em novas experimentações poétias e de linguagem, coisa que Chico não aceitava. Para Caetano e Gil, Chico era um passadista. Para tanto, a ala mais militante da MPB cobrava de Chico um maior engajamento na luta contra a ditadura. Chico, por sua vez, odiava o rótulo de cantor de protesto.

Além de ter tudo ao mesmo tempo em sua vida e se ver ao lado de Nara Leão mas contrário à Caetano e Gil, ele viu que a MPB, na verdade, era apenas a face mais visível de um racha que começava a se desenhar entre os opositores à ditadura no Brasil. Não compensava ficar de birra em início de carreira e, portanto, tentou uma aproximação mais contundente dos tropicalistas baianos – que nessa altura já estavam próximos de Rita Lee e seus mutantes. Pesquisando por conta própria para elaborar e escrever este artigo, tive uma grata surpresa ao me deparar com um depoimento assombroso: até hoje muita gente acha que os atores de Roda-Viva foram espancados pelos gorilas do CCC por encenarem uma peça considerada subversiva. Não era nada disso ou daquilo: o espetáculo tinha muito pouco a ver com a política. A tal roda-viva tinha muito mais a ver com as engrenagens implacáveis do show bussiness que na época assustavam Chico e muitos achavam que a peça identificava-se com a ditadura.

Esquivando-se completamente de Chico e Gil, Chico voltaria sua atenção para Tom Jobim, Vinicius de Moraes e, curiosamente, Ronnie Von. Ronnie era de outro estilo musical que assolava o Brasil, a Jovem Guarda, mas a parceria entre os dois foi motivado pelo filme Garota de Ipanema. O fato é que Ronnie era um de estilo mais timido – e que conquistava muitos fãs – dentro da Jovem Guarda, mas o próprio Ronnie parecia que não se sentia muito a vontade dentro de seu próprio estilo. Em 1968 a Jovem Guarda se desfez – e dizem que a culpa fora dos Tropicalistas. Dito pelo não dito o fato é que Chico estava envolvido cada vez mais com sua música e sabia que ele e Caetano, díspares musicais, eram competidores hábeis.

Mesmo o disco de 1967 não sendo um grande sucesso de início e tendo tantos dissabores ao longo de sua caminhada naquele ano, as composições foram feitas com a primazia que Chico soube aplicar nas canções. Apesar de sua graça suave, Um Chorinho é até hoje uma canção pouco conhecida de sua obra por inteiro, assim como outras canções desse mesmo álbum entrariam para o rol de lugar secundário na discografia de Chico, como Lua Cheia, um samba cheio de desencanto composto em 1965 em parceria com Toquinho. As composições Ano Novo, com seus versos longos e curtíssima duração – pouco mais de 1 minuto – Logo Eu?, samba sobre um marido desprezado por sua mulher (cujo Mônica Salmaso o regravou em seu disco em homenagem a Chico em 2006) e Televisão, uma crítica aos novos hábitos consumistas da época, também foram recebidas com indiferença pelo público e até hoje praticamente não se falam ou as cantam. A bem humorada Será que Cristina Volta?, Fica e a terna Realejo conquistaram fãs silenciosos, mas nenhuma delas chegou a fazer grande sucesso.

A doce Morena dos Olhos d’Água e a melancólica Quem Te Viu, Quem Te Vê deixaram suas marcas, assim como a encantadora Noite dos Mascarados, cantada aqui com os Três Moraes, ainda é obrigatória em qualquer baile de carnaval que se preze.  Mas a obra-prima do disco, no entanto, é mesmo a quase mediunicamente feminina Com Açúcar, Com Afeto. A música, encomendada pela cantora Nara Leão, teve na contracapa do disco assinada pelo próprio autor que, por razões óbvias, ele não poderia cantá-la. Ou seja, ele não era uma mulher e a música tem um apelo feminino inacreditável. A voz límpida de Jane Morais suavizou bastante a interpretação. A canção fora composta em 1966 e naquele tempo era inconcebível um homem interpretar uma mulher. Mesmo sendo um Chico Buarque.

É bem provável que Chico Buarque de Hollanda Volume 2 jamais venha a figurar entre os álbuns fundamentais do compositor. De todo modo, é um disco importante em sua trajetória. Tecnicamente irreparável, poeticamente serena e inspiradora. Tudo em sua confeccão parece ter corrido sem transtornos. A única exceção fica por conta da capa, em que Chico, de pé, segura um violão, tendo ao fundo a paisagem deslumbrante da lagoa carioca Rodrigo de Freitas. Para obter essa imagem, o fotógrafo David Zingg, americano radicado no Brasil, deitou-se no asfalto da avenida que circunda a lagoa e, por pouco, não foi atropelado por um caminhão.

 

Fontes:

VELOSO, Caetano; Verdade Tropical, 1º ed, São Paulo, Cia de Bolso, 2008, 513 pgs.

HOMEM, Wagner; Chico Buarque – História de Canções, 1 ed, São Paulo, Leya Brasil, 2009, 428 pgs.

 

Chico Buarque de Hollanda – Vol. 2 (1967) / Chico Buarque
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Elis, trilha sonora do filme: mais uma obra de baú


Elis: CD de baú
Salvo pela ótima e excepcional interpretação de Andréia Horta, o filme Elis (2016) não tem nada de especial. Venhamos e convenhamos que o filme é mais um musical do que um filme propriamente dito, em que contasse as verdades de Elis, os julgamentos pessoais, o verdadeiro nascimento de uma estrela, seus verdadeiros amigos, suas inimizades musicais e pessoais, o caloroso amor por Milton Nascimento, a relação com os filhos, o desafeto com Tom Jobim e Chico Buarque, o rancor por Nara Leão e Maria Bethânia, o amor incondicional por Rita Lee e Gal Costa e o amor platônico por Clara Nunes. Cadê Tim Maia? Cadê Samuel Wainer, seu último namorado e que a vira estirada no chão do apartamento da rua Doutor Mello Alves, nos Jardins? Cadê a verdadeira história? Não houve nada disso e o público fora subestimado a assistir um musical reproduzido dos palcos brasileiros para as telonas. A qualidade do filme é excelente, as cenas são primorosas, a luz está perfeita, a direção foi impecável, mas o essencial faltou: não retrataram a vida de Elis conforme o enunciado. Trataram seu lado musical. Esqueceram de colocar suas famosas entrevistas, suas diversas frases de efeito moral, seus pensamentos acerca da música, seu carinho por João Bosco. E cadê a passagem com as drogas? Cadê o envolvimento rápido e conturbado com Fábio Junior e Guilherme Arantes? Não houve nada disso. Para além do filme houve o acontecimento rápido de se lançar um disco: tudo foi proposital. Primeiro lançam o filme mediano e em seguida um CD com os melhores sucessos da cantora. É sempre assim. Mas não trata-se de um grande filme (reitero que a interpretação de Andréia Horta e a direção estão impecáveis, mas faltaram argumentos para ser o filme do ano) e não trata-se de um grande disco. As prateleiras terão apenas mais um disco de coletâneas de Elis Regina com uma capa diferente. Porém, o que não foi retratado civilizadamente no filme foi colocado propositadamente no disco, como a faixa em que Nara Leão canta Borandá (1964) e Cartola interpretando O sol nascerá, registro também de 1964. Se a intenção era fazer um filme para homenagear uma das maiores cantoras do Brasil, o tiro saiu pela culatra, porque falta informação decente e coerente para com a artista que revolucionou a música brasileira e se tornou uma das maiores vozes do mundo através de sua garra e determinação. Faltou entusiasmo, carisma e o principal: a vida da artista. Para quem acompanha a carreira da cantora certamente ficou descontente com o resultado final, mas a ideia  central aqui é resgatar Elis para o público novo, para que sua imagem seja lembrada à nova geração. Portanto, tudo errado na diagramação de Elis. Por que não fizeram tal qual o filme Piaf – Um Hino ao Amor, em que retrataram fielmente sua ascensão e sua decadência, seus amores impossíveis e nostálgicos? Tanto tentaram camuflar a vida de Elis e seus turbulentos momentos de crise que o filme logo cairá no esquecimento e o CD com a trilha sonora logo será artigo de arquivo no baú.


Elis – o filme (trilha musical)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Chico Buarque de Hollanda Volume 1 - 50 anos depois


Chico e o primeiro LP: 1966 - 2016
Bastaram as canções que já havia composto durante a primeira metade dos anos de 1960 para que Chico Buarque recheasse Chico Buarque de Hollanda (1966 / RGE / 26,99), seu primeiro disco, lançado em dezembro de 1966. Fora isso, ainda sobraram duas músicas para o álbum seguinte. Essas composições iniciais vêm carregadas de um lirismo nostálgico e de uma riqueza poética que, logo de cara, caíram nas graças do público e de boa parte da crítica. A faixa A Banda, que pouco antes vencera o II Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, tornou-se um hit instântaneo, uma mania nacional cantada em cada canto do Brasil por gente de todas as idades. O disco de fato é fundamental em qualquer antologia da moderna MPB e suas músicas, dotadas de recursos poéticos inovadores para a época e de extrema originalidade melódica, colocam o samba urbano num novo e elevadíssimo patamar de qualidade. Chico Buarque tinha apenas 20 anos e uma timidez ainda não muito bem equacionada, um rosto juvenil, iluminado por olhos de um verde transparente. Ainda não tivera a chance de conhecer a mulher de sua vida (este artigo será postado em 2017), mas ele sabia de sua importância dentro dos festivais que assolavam o país de canto a canto. A Banda, interpretada por ele e Nara Leão, conquistou o primeiro lugar em Outubro de 1966, dividindo o lugar com Disparada, de autoria de Theo de Barros e Geraldo Vandré, magnificamente defendida e interpretada por Jair Rodrigues, que logo mais seria parceiro e amigo de Elis Regina no programa O Fino da Bossa. A Banda rendeu a Chico Buarque o status de cantor do ano, o intelectual do momento e vários artistas voltaram suas atenções para aquele rapazinho timido. Carlos Drummond de Andrade, o poeta mais respeitado de todos os tempos, soltou a pérola frase que venha outra banda. Nada mal para um novato nos palcos. A Banda rendeu ainda a Chico seu primeiro programa na TV brasileira, chamado Pra Ver a Banda Passar, em dupla com Nara Leão. A timidez de ambos era tanta que Manoel Carlos lhes sapecou o título de os maiores desanimadores de auditório da televisão brasileira.  O disco lançado em 1966 vendeu pouco mais de 100 mil cópias, um feito e tanto para a época e a causa desse sucesso estrondoso de fato fora a intepretação de dois cantores que tinham a sintonia em primeiro plano. A Banda é um divisor de águas na vida e na carreira de Chico Buarque e dali em diante nenhum dos dois, Chico e Nara, jamais seriam os mesmos. O mesmo se aplica para a MPB e, de certa forma, para o próprio Brasil.

Chico Buarque de Hollanda 1, como ficaria conhecido o disco, foi produzido apenas com o estoque de boas canções que Chico já havia composto. Praticamente todas as suas faixas têm em comum um lirismo nostálgico e comovente. Muito mais que isso, o disco eleva a tradição do samba urbano a um novo patamar poético. As letras, além de originais, têm uma arquitetura musical primorosa. O compositor, de certo modo, resgata a tradição dos melhores letristas cariocas, como Noel Rosa e Wilson Btista e tempera-a com ingredientes da Bossa Nova. Chico venerava esse movimento e seus expoentes – em especial João Gilberto, com que sua irmã, Miúcha, se casou um ano antes. Mas logo se esquivou da bossa nova e desenvolveu o seu próprio estilo. O samba, aqui neste disco, não só é um ritmo: é um tema recorrente que pode ser avordado por uma ótica melancólica, como em Sonho de Um Carnaval, que o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré interpretou para Chico no I Festival da Record. O efusivo Meu Refrão e o socialmente engajado Tem Mais Samba são obras-primas relicárias e Chico considera esta última, composta em 1964, o marco-zero de sua carreira. A tocante Olé Olá, outra joia do disco, é um samba-canção carregado de saudosismo e desconforto, dotado de uma harmonia sofisticadíssima. Fora nesse tempo que Caetano Veloso conhecera Chico Buarque em 1965, enquanto o carioca cantava trechos de Olé Olá (cantado mais tarde por Maria Bethânia) no teatro e disse à época que tinha conhecido um cara que era a coisa mais linda.

Em Chico Buarque de Hollanda 1 a leveza e a alegria ficam por conta de três composições, curiosamente todas batizadas com nomes próprios: Juca, A Rita e Madalena Foi pro Mar. A primeira, quase um samba de breque, foi composta após a polícia ter sido chamada ao bar em que Chico e seus amigos se entregavam à cantoria sem muita atenção aos decibéis. Essas noitadas musicais em São Paulo foram sistematicamente batizadas de sambafos. A Rita é um bem humurado samba-canção que exalta a capacidade das mulheres de devastar corações masculinos. Madalena Foi pro Mar é outro lamento quase debochado de um homem deixado na mão por sua amada. De todas essas, A Rita ganhou diversas regravações, sendo a mais importante defendida por Gal Costa.

Nenhuma dessas canções, no entanto, sequer se aproxima do alvoroço e sucesso desencandeados por A Banda: com sua irresistível doçra, ela cativou o público, conquistou a crítica e transformou em fãs de Chico mesmo os espíritos mais avessos a sua figura.  Um desses espíritos era o genioso escritor, dramaturgo e cronista esportivo carioca Nelson Rodrigues, cujos comentários e tiradas mordazes eram temidos tanto por craques dos gramados quanto dos palcos. Mas Nelson gostou tanto de Chico e, em especial da música, que disse em artigo que A Banda era uma marchinha genial.

E lá se completa 50 anos do lançamento do antológico disco Chico Buarque de Hollanda 1, disco que praticamente nasceu pronto, sem redomas e com certa timidez, carregado na sobriedade de um Chico Buarque novinho em folha e acompanhado de uma grande cantora que o inspirara a vencer o primeiro grande desafio: Nara Leão.

 

Chico Buarque de Hollanda Volume 1 – 50 anos depois
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Nara Leão - a musa da bossa nova?

Nara: musa da bossa nova?
Nove entre dez pessoas acreditam que a bossa nova começou no apartamento de Nara Leão, no Posto 4 de Copacabana, em alguma época dos anos de 1950. A ideia e a de que, naquele mítico endereço, todas as noites se reuniam rapazes e moças que, armados com seus violões, brincavam de cantar e tocar baixinho para não incomodar os vizinhos. Isso, óbvio, ia até altas horas e foi a partir desses encontros que surgiu o estilo suave e sofisticado que iria revolucionar a música popular brasileira que perpetua até hoje.  Esses rapazes e moças seriam, além da própria Nara, os violonistas Carlos Lyra, Roberto Menescal e Chico Feitosa, o violonista e pianista Oscar Castro Neves e os irmãos Mario, Leo e Iko, também músicos, o letrista e repórter Ronaldo Bôscoli, o pianistas Luiz Eça e Luiz Carlos Vinhas, o flautista Bebeto Catilho, entre outros. Porém, Nara nunca admitiu que o estilo bossanovista tivesse nascido em seu apartamento. Por um lado ela tinha razão, em partes, sobre o assunto, mas o fato é que se não fosse o encontro desses cantores em seu apartamento, nada teria acontecido. Podemos dizer que Nara Leão fora a responsável por esses encontros e por ser, digamos, a mãe nata da Bossa Nova. Em 1957, Roberto Menescal, outro grande responsável pelo feito, levou ninguém menos que João Gilberto, que acabara de conhecer, ao apartamento de Nara. João ficou encantado com aquelas reuniões, mas seu estilo era ainda mais contido e reservado no cantar, o que deixou os outros músicos ainda mais encantados não apenas por ele como pela música. Tudo era moderno, atrevido, inesperado e uma batida levemente ágil, sincopada e nova começava a nascer, diferentemente de tudo o que se ouvira até então. E Nara, a única mulher, era o centro das atenções. Nara era a grande inspiração, a musa da bossa nova e a responsável pela gravação de inúmeros sucessos desses cantores. Como muher, a cantora era também uma sedução, pois era morena, tinha lábios cheios e carnudos, dentes grandes, corpo bonito e era muito tímida. É impossível pensar em bossa nova e não falarmos em Nara Leão, cantora que conseguiu exprimir o verdadeiro sentimento deste estilo que ultrapassou barreiras, fronteiras, ganhou o mundo e é por esse motivo que devemos muito respeito a imagem e à obra desta grande cantora da música popular brasileira e de sua suma importância em nosso cenário cultural.

Nara Leão
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de outubro de 2016

Cala a boca, João!


Voz e Violão: excelente
Há quem o odeie e há os que o ama! Há também aqueles que ficam neutros quando o assunto é João Gilberto, um ícone da Bossa Nova e um dos pais do movimento que inspirou as pessoas a cantarem em ritmo mais lento e tendo como companheiros um banquinho e um violão. Não é fácil ser João, um gênio da música popular brasileira que hoje vive mais recluso do que nunca em seu apartamento, nos Estados Unidos. Obviamente que Cala a Boca, João (título deste artigo) foi uma referência à música de Dorival Caymmi, Cala a Boca, Menino (1973), pois João é um típico cantor que odeia berros, sobressaltos, devaneios e qualquer coisa que o deixa atormentado.  Com o surgimento de Chega de Saudade a reviravolta na música brasileira se fez presente e a revolução musical foi uma constante. A influência notória de João Gilberto foi fundamental para todo esse universo novo e para a posteridade, pois fora através dele que surgiram Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco e os mais atuais, como Fernanda Takai, Ná Ozzetti e outros. Para todos os efeitos, Voz e Violão (2000 / 27,90) é um disco que merece atenção por ser um disco não apenas de coletâneas, mas por ser um álbum em que contempla a importância de um grande catalisador da música ainda vivo. O que não dá para entender é como as gerações após 1960 não conseguem compreender ou encaixar João Gilberto dentro de um contexto musical ou intelectual e nem ao menos dão o seu devido valor, mesmo os grandes críticos de música saberem disso. Esse descontentamento para com ele entristece aqueles que gostam de sua música e fazem com que a geração que nasceu com Voz e Violão o desconhece. Vale a pena ouvir suas músicas, ler livros que falem sobre o cantor e estarem por dentro de sua musicalidade irretocavelmente perfeita!

 

Voz e Violão (2000) / João Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado


1968 foi um ano emblemático para a história da música popular brasileira: de um lado tinha a turma de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda, do outro os festivais de música da TV Record, de um outro lado horizontal tinha a Bossa Nova e suas nuances perfeitas para enaltecer o que era belo e mais sagrado e por um curto espaço de tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil se juntara a Nara Leão, Os Mutantes, Rogério Duprat e Gal Costa para criarem um movimento audacioso e inteligente, que ganharia o nome de Tropicália. Quase cinquenta anos nos separam do fatídico ano de 1968, época da ditadura militar no Brasil, para os dias atuais, em que a música carece de muita criatividade e audácia, para ficarmos nas lembranças temidas pelo disco e por depoimentos de quem vivenciou aquele precioso tempo. No meu caso, apenas carrego na bagagem cultural o que se falam ou escrevem sobre o movimento, tendo em vista que eu nem era nascido para poder contar história. Mas até hoje, muitos intelectuais, musicólogos, filósofos e críticos de música tentam explicar a necessidade poética e harmônica de Tropicália ou Panis et Circencis (1968 / Philips / 30,00), disco em que há uma miscelânea de vozes e uma caricatura autoral persistente dos artistas mais badalados de então. Caetano Veloso e Gal Costa eram amigos e já tinham gravado Domingo, música que abriu várias fronteiras para ambos, enquanto Gilberto Gil ainda engatinhava no cenário musical apenas nos bastidores, mas sua presença fora marcante e precisa para dar o pontapé inicial em um dos movimentos mais importantes não apenas para os criadores, como para toda uma geração. Em seu livro biográfico Verdade Tropical (1997), Caetano disse que Gil falava demais e com certa eloquência verbal que passara a ser hermético e cansativo demais, enquanto os demais tentavam falar a língua nativa, natural, habitual. Mas o que muitos talvez não entendessem na época, é que essa maneira de Gil falar fora totalmente importante para o surgimento de canções assimétricas, como Misere Nobis, que abre o álbum. Perguntas até hoje não respondidas persistem em nossos imaginários: por que Maria Bethânia, a irmã de Caetano e até então a única a brilhar efusivamente em teatros lotados, não participara do disco? Por que Gilberto Gil segura a foto emoldurada em quadro de Chico Buarque? Por que Nara Leão pertenceu ao grupo tropicalista? Apenas, talvez, a última pergunta tenha resposta e ainda assim contraditória. Nara Leão gostava de perambular por todas as esferas musicais, tais como a própria bossa nova, a MPB, o samba de morro e para ela não seria novidade pisar em ovos tropicalistas. Deu certo essa iniciativa. Mas uma quarta questão surge: por que Tom Zé, baiano de Irará, que era tropicalista como os outros, não participara do momento de fato, mesmo aparecendo na capa do álbum? A participação de Tom Zé fora pequena e passou desapercebida pelo grande público da época e até hoje associam a imagem do cantor à outras fases tropicalistas, menos nesse disco. Sua única canção, Parque Industrial, fora cantada por todos, menos por Nara, que cantou apenas Lindoneia, a quarta faixa do disco. Podemos afirmar então que Nara Leão era tropicalista? Nas palavras de Caetano, sim, ela pertencera ao grupo, mas isso não deixa de ser evidente, assim como a meia participação de Tom Zé. Seja como for, Tropicália é um disco que fora iniciado sem a pretensão de ser concluído: havia ali a intenção clara e objetiva de seus líderes, Caetano e Gil, em influenciar mudanças grotescas no mundo moderno. O ano de 1968 eclodia de um militarismo sem igual e fazer ou falar qualquer coisa resultaria em morte, mas a turma da Tropicália queriam mais: queriam ser alvo de visão e audição. Ganharam o mundo depois que Caetano Veloso tivera contato imediato com a obra de Glauber Rocha, o lendário cineasta morto precocemente e de Hélio Oiticica, o pai do tropicalismo, que influenciou e muito a obra e a vida dos músicos envolvidos. A propagação da causa tropicalista pelo disco Tropicália ou Panis Circences persevera por quase cinquenta anos com o mesmo brilho e com a mesma simbologia desde 1968 já com a intenção de nunca terminar. Havia uma necessidade incessante de Caetano e Gil preverem que o álbum seria histórico? Talvez sim. A capacidade intelectual de todas as cabeças pensantes fizera do disco uma obra-prima sem igual, elogiado até hoje por amantes e críticos da música universal. O ideário tropicalista foi formado não apenas pelas discussões ardilosas de seus condutores e/ou pelos ajuntamentos de intelectuais, como a dos poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari. Apesar de impactante para o momento e diante da importância dessa coleção de ideias e fatos revolucionários que formigaram a estrutura cultural nacional, é preciso lembrar que tudo girava em torno de discos sensacionais lançados naquele tempo e contra a censura enclausurada de outros movimentos que persistiam em lograr para um ponto certo no lugar certo. E Tropicália ou Panis et Circences permanece até hoje como reduto de um álbum magnífico, precioso e atual a tal ponto de nunca ser concluído.

 

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado

Marcelo Teixeira

sábado, 30 de maio de 2015

A orquestra de Max de Castro (2002)


Max e sua boa música
Assim como a grande mídia não dá o devido valor aos seus grandes compositores ou cantores dentro de seu próprio país de origem, alguns desses cantores tentam burlar essa autonomia flagelada para tentarem mostrar seus trabalhos com digno respeito de estrelas da música nacional. Muitas vezes, esses cantores acabam sendo esquecidos pelo público, que acabam descobrindo outros interpretes ou outras sonoridades e, com isso, muitos cantores ditos bons acabam sendo desvalorizados. Esse é o caso do cantor, compositor, guitarrista, instrumentista, inquieto e filho de Wilson Simonal, o super talentoso Max de Castro, irmão de Wilson Simoninha. Em 2002, o Brasil pôde conhecer melhor seu lado cantor, quando o mesmo lançou o sensacional Orchestra Klaxon (2002 / Trama / 28,99), em que mistura jazz, MPB, samba e até romantismo. Com participação de Paula Lima e letras de Marcelo Yuka, Erasmo Carlos e Nelson Motta, o CD é um dos mais belos de toda a história da música do século XXI, por ser emblemático, audacioso e inteligente. Max não poupou críticas ao mundo racial (O Nego do Cabelo Bom), ao mundo do carnaval (A História da Morena Nua que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval) e nem ao mundo da música vanguarda (O Futuro Pertence à Jovem Vanguarda) e tudo isso tem um apreço muito significativo tanto na carreira musical do cantor, como na vida pública e pessoal das pessoas. Antes de mais nada, Orchestra Klaxon é um CD de jazz, indiscutivelmente abrasileirado, bem aos moldes americanos e com uma privilegiada sonoridade, rica em detalhes, instrumentos e homenagens. O CD foi incorporado para prestar uma justa rebuscada busca na própria carreira pessoal do cantor, que conviveu com os maiores mentores da música popular brasileira, como Nara Leão, Tom Jobim, Milton Santos, João Donato, Dick Farney e artistas do naipe de Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Eumir Deodato, sem falar do pai, um dos mais prestigiados cantores de todos os tempos. Podemos classificar o CD de Max de Castro como uma experiência musical que deu certo dentro um segmento que ele talvez nem tenha imaginado que daria certo. O disco quando foi lançado causou um certo furor, pois era um disco caro de ser produzido, difícil de ser interpretado, difícil de ser degustado e que se tornou alvo fácil dos amantes da música. Max de Castro arrebatou milhares de pessoas com Orchestra Klaxon. E entrou para a história da música popular brasileira de uma vez por todas sendo ele mesmo. Sendo Max de Castro.

 

Orchestra Klaxon (2002) / Max de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morreu Jair Rodrigues!

Morreu um mestre da música
Pessoas especiais não morrem. Pessoas especiais são eternas. Jair Rodrigues morreu. Mas não morreu o artista, não morreu o cantor, não morreu o moleque que dançava, corria, pulava, instigava, cantava. Jair Rodrigues deixou um legado e tanto para a música popular brasileira: deixou sua marca ao lado da cantora Elis Regina, definitivamente nos festivais, marcou o início do rap no país, deixou sua pegada no samba brasileiro e, de quebra, entrou de cabeça erguida no sertanejo. Jair Rodrigues passeou por todos os ritmos brasileiros e em todos ele foi muito bem sucedido. Aos 75 anos, o cantor estava em alta, fazendo shows, feliz. No Brasil apenas dois cantores tem a capacidade de cantar com amor, emoção, carinho e devoção: Ivete Sangalo e Jair Rodrigues. Grande ícone da música, Jair partiu e deixará uma lacuna insubstituível. Ainda não dá para acreditar em sua morte, tão rápida e tão batida. Em momentos tão amargos neste mundo, tão delicados e tão comuns, o incomum aconteceu em um momento que não era para ser: sua morte não é uma morte nem uma passagem. Ele descansou. Descansou o nosso eterno moleque, nosso eterno garoto fanfarrão, nosso eterno Jair. Na música, ele misturava tudo e tudo dava certo. Sua voz ainda estava saudavel. Sua emoção ainda era passada para todos. Jair Rodrigues era o clima que o tornava brasileiro, moderno, atual, significativo.  Cantores como Jair, assim como Elis, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto Carlos serão eternos e serão eternos porque na época deles fazer música era complicado. Se houve um Chico Buarque, uma Nara Leão, um Paulinho da Viola é porque houve público para eles. Assim como houve até hoje público e espaço para o Jair. Nunca mais teremos a chance de ver um astro da música popular brasileira surgir como surgiu um Jair Rodrigues, que mesmo tantos anos depois, continuava na ativa, fazendo shows com plateia lotada e cativando crianças e adolescentes e fazendo dos novos artistas uma colisão de aprendizagem e arte. Confesso que não sei o que escrever, pois as lágrimas me tomam neste exato momento. Mas não vamos fazer da morte de Jair uma tristeza sem fim. Não aceito sua morte. Mas o suspiro me faz acreditar que não o teremos mais por perto fisicamente. Suas músicas serão eternas. E Jair Rodrigues é eterno. Até logo, Jair.

 

Adeus, Jair Rodrigues
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A nova (e triunfal) Ana Carolina


Ana: volta por cima em novo disco
Fazia tempo que eu não escrevia sobre Ana Carolina. Aliás, desde quando comecei a escrever para este blog eu não fiz outra coisa senão criticar Ana Carolina. A cantora surgiu como uma das grandes revelações dentro da MPB, cantando de Chico Buarque a Djavan e até regravações de Gal Costa, dando a entender que a MPB estava salva, mas que logo após seu terceiro disco tudo isso mudara e Ana Carolina se renderia ao pop confuso e paralelo da periférica cidade sem dono que assola o Brasil com suas diretrizes mal intencionadas. Mas depois de tanto tempo, Ana volta radiante em um disco de ineditas desde 2009 e volta triunfal para o cenário da música popular brasileira como uma das grandes cantoras deste país. Com uma excelente capa (uma das mais criativas de sua carreira e uma das mais bonitas dentro da MPB), Ana Carolina voltou a ser uma cantora de verdade, de nome e sobrenome e voltou a ser... Ana Carolina. Saindo da rotina de quase uma década de sucessos precários e desnecessários, Ana Carolina mergulhou inteiramente no pop e na velha e boa MPB em seu novo disco #AC (2013 / 29,99 / Armazém). A cantora solta seu vozeirão característico em cima de uma programação eletrônica com percussão e manda bem em quase todas as faixas. Ainda assim, mesmo passando por sons diferentes dos habituais, Ana Carolina realmente se sente mais a vontade em seu novo disco, sendo ela mesma. Mesmo sendo uma das principais artistas da atualidade, Ana Carolina fez de seu sexto disco um dos melhores de 2013 em 14 anos de carreira e o trabalho tem parcerias com nomes de peso, como o mestre Guinga, criador da música Leveza de Valsa, Edu Krieger (que desta vez rouba o lugar de Antonio Villeroy e abocanha cinco faixas no álbum) e as participações de Moreno Veloso e Carlos Rennó. Produzido pelo competente Alê Siqueira e pela própria Ana, o disco temporiza temas contemporâneos, dividindo atenção com artistas renomados no mundo musical. Chico Buarque, o culpado pela formação musical de Ana Carolina, está presente e faz uma bela participação na música Resposta da Rita, cujo foi gravada na década de 1960 por Nara Leão e deixando uma vigorosa Ana Carolina restabelecida dentro da música popular brasileira com um disco a altura de seu talento.

 

#AC (2013) / Ana Carolina
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 27 de março de 2013

A cultura chucra de pessoas fúteis


Mundinho fútil
Em meios a tantas imbecilidades, criancices, macacadas, pessoas fúteis e chucras, a qual sou obrigado a conviver, por vezes sou obrigado a escutar (e com certa incoerência), que a música popular brasileira é um lixo, cantada por medalhões de outras épocas e que lutam ferozmente para conseguirem se manter ainda no chamado mundo da MPB. Cabeças assim só servem mesmo para pensar que o mundo um dia vai se acabar ou que Chico Buarque é argentino e pessoas com este nicho cultural sabem quem é a cantora top do momento de seu mundinho estereotipado chamado mundo fútil, mas não sabem (ou nunca souberam) quem foi e o que representa Antônio Carlos Jobim e de qual origem nasceu a Tropicália. Pessoas com semblantes distorcidos e tez mal iluminadas por almas penadas e suburbanas que mal sabem soletrar seus nomes ou concluir uma frase, apenas lutam para que suas divas do momento fútil nunca sejam esquecidas ou meramente apagadas do mundinho a qual pertencem. Chega a ser irrisório ver pessoas com suas roupas de grife blazê, refrigeradas e com precinhos bacanas que cabem no orçamento, chafurdarem em naufrágios quando o assunto é música de verdade.

De que adianta tanta pose dessa gente mal informada culturalmente, se quando sentam para conversar seriamente sobre algo realmente culto, não sabem responder?

Estive recentemente em uma batalha, aonde eu era o criticado e o restante da plateia eram as vítimas. Vítimas banais, vítimas fulas, vítimas da vitamina ácida a qual impera a lei do mundinho fútil com suas bandinhas horrorosas e desengonçadas e errôneas e com seus estilos cafonas e estranhos. Conversei com pessoas idiotas que não sabiam o que era bossa nova ou quem foi Nara Leão. E o mais engraçado é que conversei com pessoas adultas.

Ou seriam crianças imaturas?

Enquanto criticaram o novo álbum de Caetano Veloso, enquanto defendem que a cantora banal e sem voz é a melhor do Brasil, enquanto ouço Chico Buarque e enquanto você ouve suas músicas banais em seu celular importado, eu cresço culturalmente, não passando vergonha em mesas importantes com pessoas cultas e admiráveis, enquanto você, meu caro camarada sem intelecto, viverá sempre a mercê das ondas de paisagens.

Mundinho fútil

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

4º Maior Cantora do Brasil: Elis Regina


A inquietante Elis
Elis Regina pode até ter mudado a era dos festivais, ter dado cara nova aos espetáculos ou até mesmo dado vida a musicalidade e a teatralidade que pouco se vê hoje em dia, mas Elis não foi capaz de suprir expectativas marcantes e nem fora considerada por muitos como a maior cantora de todos os tempos. Sua música não é totalmente conhecida por pessoas que só conhecem as triviais e muitos de seus discos são paupérrimos, ou seja, Elis Regina ficou mais conhecida por seu jeito histriônico e suas frases de duras impactaçoes do que pela sua música rica ou alguns shows históricos. Para tanto, somente após sua morte que suas músicas foram alçadas por patamares distantes e canções até mesmo esquecidas passaram a ser referencia para milhares de pessoas.

Mesmo sendo a maior cantora do Brasil (o que muitos acham ser a do mundo), Elis chega a 4º posição da lista das maiores cantoras do Brasil pelo fato ser uma cantora que inovou o teatro, que inovou o jeito de cantar, que inovou nas articulações, mas que não elaborou sua musicalidade por completo.

Elis Regina Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre no dia 17 de março de 1945 e morreu em São Paulo no dia 19 de janeiro de 1982 e foi uma das maiores intérpretes brasileira. Conhecida por sua presença de palco esplendorosa, sua voz e sua personalidade, Elis Regina é considerada por muitos críticos, comentadores e outros músicos a melhor cantora brasileira de todos os tempos. A melhor e não a maior. Com os sucessos de Falso Brilhante e Transversal do Tempo, ela inovou os espetáculos musicais no país e era capaz de demonstrar emoções tão contrárias, como a melancolia e a felicidade, numa mesma apresentação ou numa mesma música. Como muitos outros artistas do Brasil, Elis surgiu dos festivais de música na década de 1960 e mostrava interesse em desenvolver seu talento através de apresentações dramáticas. Seu estilo era altamente influenciado pelos cantores do rádio, especialmente Ângela Maria, e a fez ser a grande revelação do festival da TV Excelsior em 1965, quando cantou Arrastão, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo.

Tal feito lhe conferiu o título de primeira estrela da canção popular brasileira na era da TV. Enquanto outras cantoras contemporâneas como Maria Bethânia haviam se especializado e surgido em teatros, ela deu preferência aos rádios e televisões. Seus primeiros discos, iniciando com Viva a Brotolândia (1961), refletem o momento em que transferiu-se do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, e que teve exigências de mercado e mídia. Transferindo-se para São Paulo em 1964, onde ficaria até sua morte, logrou sucesso com os espetáculos do Fino da Bossa e encontrou uma cidade efervescente onde conseguiria realizar seus planos artísticos. Em 1967, casou-se com Ronaldo Bôscoli, diretor do Fino da Bossa, e ambos tiveram João Marcelo Bôscoli.

Elis Regina aventurou-se por muitos gêneros; da MPB, passando pela bossa nova, o samba, o rock ao jazz. Interpretando canções como Madalena, Como Nossos Pais, O Bêbado e a Equilibrista, Querelas do Brasil, que ainda continuam famosas e memoráveis, registrou momentos de felicidade, amor, tristeza, patriotismo e ditadura militar no país. Ao longo de toda sua carreira, cantou canções de músicos até então pouco conhecidos, como Milton Nascimento, Ivan Lins, Renato Teixeira, Aldir Blanc, João Bosco, ajudando a lançá-los e a divulgar suas obras, impulsionando-os no cenário musical brasileiro.

Entre outras parcerias, é célebre os duetos que teve com Jair Rodrigues, Tom Jobim, Simonal, Rita Lee, Chico Buarque—que quase foi lançado por ela não fosse Nara Leão ter o gravado antes—e, por fim, seu segundo marido, o pianista César Camargo Mariano, com quem teve os filhos Pedro Mariano e Maria Rita. Mariano também ajudou-a a arranjar muitas músicas antigas e dar novas roupagens a elas, como com É Com Esse Que Eu Vou.

Sua presença artística mais memorável talvez esteja registrada nos álbuns Em Pleno Verão (1970), Elis & Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Transversal do Tempo (1978), Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980). Ela foi a primeira pessoa a inscrever a própria voz como se fosse um instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil e isso a faz ser especial. Elis Regina morreu precocemente em 1982, com apenas 36 anos, deixando uma vasta obra na música popular brasileira. Embora haja controvérsias e contestações, os exames comprovaram que havia morrido por conta de altas doses de cocaína e bebidas alcoólicas, e o fato chocou profundamente o país na época.

Elis fora um dos talentos mais marcantes de seu tempo, mas ainda assim, Elis foi mais uma das boas e sensacionais cantoras que o Brasil produziu com tamanha excelência.

 

4º Lugar: Elis Regina

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

15º Maior Cantora do Brasil: Nara Leão


A musa da Bossa Nova: Nara
A musa da bossa nova era Nara Leão. A musa do verão era Nara Leão. Copacabana era Nara Leão. Rio de Janeiro era Nara Leão. Falar de Roberto Menescal é falar de Nara Leão. Nas décadas em que mais se fervia a bossa nova, mais se falava de Nara Leão. A Bossa Nova nasceu em reuniões no apartamento dos pais da cantora, em Copacabana, das quais participavam nomes que seriam consagrados no gênero, como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e seu então namorado, Ronaldo Bôscoli. No fim dos anos 1950, Nara foi repórter do jornal Última Hora, onde Bôscoli também trabalhava, e que pertencia a Samuel Wainer, casado com a irmã de Nara, Danuza Leão. O namoro com Bôscoli terminou quando ele a traiu e iniciou um caso com a cantora Maysa, durante uma turnê em Buenos Aires, em 1961. Daí em diante, Nara se reaproxima de Carlos Lyra, que rompeu a parceria musical com Bôscoli em 1960, e de ideias mais à esquerda. Inicia um namoro com o cineasta Ruy Guerra e se casa com ele um tempo depois. Nessa época passa a se interessar pelo samba de morro.

A estreia profissional se deu quando da participação, ao lado de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, na comédia Pobre Menina Rica (1963). O título de musa da Bossa Nova foi a ela creditado pelo cronista Sérgio Porto. Mas a consagração efetiva ocorre após o movimento militar de 1964, com a apresentação do espetáculo Opinião, ao lado de João do Vale e Zé Keti, um espetáculo de crítica social à dura repressão imposta pelo regime militar. Maria Bethânia, por sua vez, a substituiria no ano seguinte, interpretando Carcará, pois Nara precisara se afastar por estar afônica. Nota-se que Nara Leão vai mudando suas preferências musicais ao longo dos anos 1960. De musa da Bossa Nova, passa a ser cantora de protesto e simpatizante das atividades dos Centros Populares de Cultura da UNE. Embora os CPCs já tivessem sido extintos pela ditadura, em 1964, o espetáculo Opinião tem forte influência do espírito cepecista. Em 1966, interpretou a canção A Banda, de Chico Buarque no Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), que ganhou o festival e público brasileiro.

Dentre as suas interpretações mais conhecidas, destacam-se O barquinho, A Banda e Com Açúcar e com Afeto - feita a seu pedido por Chico Buarque, cantor e compositor a quem homenagearia nesse disco homônimo, lançado em 1980. Nara também aderiu ao movimento tropicalista, tendo participado do disco-manifesto do movimento - Tropicália ou Panis et Circensis, lançado pela Philips em 1968 e disponível hoje em CD.

Nara. Simples assim... Nara.

Nara Leão morreu na manhã de 7 de junho de 1989, vítima de um tumor cerebral inoperável, aos 47 anos de idade. Nara já sabia do tumor, e sofria com o problema havia 10 anos. O tumor estava numa área delicada do cérebro, por isso não podia ser operado. A cantora sentia fortes dores e tonturas, sendo isso também um contribuinte para Nara tentar largar a carreira musical. Seu último disco foi My foolish heart, lançado naquele mesmo ano, interpretando versões de clássicos americanos.

Nara se foi, mas ficará eternizada em nossos corações, nossas canções e em nossa lembrança mais tenra.

 

15º Lugar: Nara Leão

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Falange Canibal, de Lenine: perfeito!


 

O ótimo disco de Lenine
Mantendo seu caminho de agregador, Lenine transforma um projeto coletivo numa obra bela e forte que ele intitulou de Falange Canibal, um disco muito bom, excelente e que denota toda a versatilidade do músico pernambucano. O álbum tem os melhores músicos da atualidade: Vulgue Tolstoi (grupo que forneceu o parceiro constante guitarrista Júnior Tolstoi), Monoaural (Kasin e Berna Ceppas), Tom Capone (produtor infelizmente falecido prematuramente, que aqui também contribui com programações, guitarra, baixos e otras cositas más), Xandão (guitarrista do Rappa e Caroçu). Além dos amigos compositores, dividem com o anfitrião quase todas as músicas os grandes compositores Carlos Rennó, Ivan Santos, Bráulio Tavares, Sérgio Natureza, Dudu Falcão, Paulo César Pinheiro e Lula Queiroga. A produção também é dividida por muita gente, incluindo Lenine, Tom Capone, Mauro Manzoli.

Gosto muito da sonoridade moderna e caprichada do Lenine. Ecos do ão fala sobre o fonema característico da nossa língua (e sempre difícil para estrangeiros) como linha condutora para também refletir sobre nós brasileiros.

nós temos violência e perversão

mas temos o talento e a invenção

desejos de beleza em profusão

e ideias na cabeça coração

a singeleza e a sofisticação

o choro, a bossa, o samba e o violão

mas se nós temos planos, e eles são

o fim da fome e da difamação

por que não pô-los logo em ação?

tal seja agora a inauguração

da nossa nova civilização

tão singular igual ao nosso ão

e sejam belos, livres, luminosos

os nossos sonhos de nação

 

Trecho de Ecos do Ão, de Lenine

 

Em seguida uma mais lenta, Sonhei, bela como de costume e com aquele violão percussivo e extremamente bem tocado. Mais uma com boa mistura de sons eletrônicos e acústicos, inclusive um bonito oboé. Umbigo começa com um violão magrinho e bateria do cara do Living Colour, Will Calhoun. Também a voz em inglês de Ani Difranco (alguém sabe quem é ela?), Eumir Deodato (o cara existe de verdade!) no hammond e piano elétrico com mão pesada. Com um trecho que diz gosto muito de conversar comigo/ umbigo meu nome é espelho/ não dou ouvidos nem peço conselhos/ umbigo meu nome é certeza/ só é real o que convém à realeza, a música e o disco já valem muito.

Lavadeira do rio tem uma história engraçada: gravada originalmente por Virginia Rosa em seu primeiro disco solo, Batuque, a música se chamava A Rita, mas Chico Buarque compusera nos anos 1960 a bela A Rita, que ficou conhecida nas vozes de Nara Leão e Gal Costa posteriormente. O público estava começando a ficar confuso com duas músicas com o mesmo título e, por este motivo, Lenine resolveu rebatizar a música e, talvez por esta conscientização, Lenine resolveu cantá-la neste disco. A Lavadeira do Rio começa meio balançada, eletrônica até, com uma guitarra invertida discreta. Depois vira um bom rockão! Tem até aquele clichê de bateria só com vocais empolgantes. Esta aqui tem participações especiais da galera do Skank (sem o Samuel Rosa, ufa!) e da Velha Guarda da Mangueira no coro.

Encantamento é uma montagem/colagem de várias músicas, emenda e surge a original do Lenine como se tudo levasse a isso. Nem sol, nem a lua, nem eu é daquelas belíssimas que Lenine compõe, lenta, quase sussurrada, com uns uivos caninos ou lupinos no fundo. Entre as participações especiais, Will Calhoun na wave drum e Xandão na guitarra. Caribantu é só voz e muitas percussões, a cargo do Cambaio (a pós-coisa), seja lá o que for isso, talvez um coletivo de percussão. A Velha Guarda da Mangueira também faz aquele coro bonito.

Quadro-negro é mais uma das bonitas, aqui com efeitos eletrônicos (até na voz) e a participação do Marcelo Lobato (Rappa) na bateria, teclados, theremin e vibrafone. Quem vai pagar a conta?/ quem vai lavar a cruz?/ o último a sair do breu/ acende a luz.

Chega a mais bela do disco, O silêncio das estrelas, com um arranjo lindo e criativo de cordas, incluindo um recurso arriscado, o glissando (os instrumentos vão subindo/descendo sem escalas nas notas temperadas, dando a impressão de desafinação). Solidão/ o silêncio das estrelas/ a ilusão/ eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos/ como um deus, e amanheço mortal. Termina com uma sanfona bonita, a cargo de Regis Gizavo.

No pano da jangada é muito legal, com uma percussão que na verdade são os pés do Lenine na areia e vozes, com vocais dobrados e processados. Viva a tecnologia e a criatividade! Rosebud (o verbo e a verba) é um conto divertido, uma música latina suingada e quebrada. Participação do grupo Yerba Buena nas vozes, percussões/bateria e trompete cucaracho.

E o fim é pra cima, a música com participação integral do Living Colour, O homem dos olhos de raio X que entrou para a minha galeria das melhores músicas do Lenine. Rock balançado e percussivo. Viva o nosso herói pernambucano.

 

Falange Canibal / Lenine

Nota 10

Marcelo Teixeira