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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Marina de La Riva é a rainha do mar de Dorival Caymmi


Marina e Dorival: justa homenagem
Com um sotaque levemente cubano, a cantora Marina de La Riva lança um disco no mínimo curioso e ao mesmo tempo autêntico: uma bela homenagem ao baiano Dorival Caymmi.  Gravado ao vivo em São Paulo, Rainha do Mar – Marina de La Riva canta Caymmi (2017 / Universal Music / 26,99) é um projeto inovador em sua carreira, que marca um retorno à obra do compositor, cujo transitou perfeitamente em 2014, ano de seu centenário. De um total de quatro shows iniciais, o resultado acabou virando um disco, tamanho o sucesso de público e crítica nas apresentações e que acabou por se transformar em uma turnê muito aclamada que chegou até Macau, na China. Sendo uma simples e bela homenagem ao cancioneiro do patrono da Bahia, o resultado não poderia vir acompanhado de uma excelente voz e de uma competente cantora, que acabou convidando artistas do mais alto nível, como Danilo Caymmi em O Bem do Mar e Oração a Mãe Menininha, Ney Matogrosso em Só Louco / Dos Gardênias e João Donato em Marina e Canto à Yemanjá / Rainha do Mar. Para escolher o vasto e glorioso repertório de Dorival, bastou as formas da natureza e os ricos personagens femininos que tanto cantou e encantou. Somado a tudo isso encontramos a voz latina com raízes cubanas e porto brasileiro de Marina, construindo aqui uma original categoria musical de forma habilidosa e fenomenal. Misturando pérolas como Canto de Nanã, Oração à Mãe Menininha, Babalu e Oggure, o Acalanto de Dorival Caymmi se junta com o acalanto cubano Canción de Cuna, que seu pai cantava. Marina de La Riva trouxe ao público um registro histórico e profundo, que precisa ser ouvido e lapidado a cada instante.

 

Rainha do Mar (2017) / Marina de La Riva
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

sábado, 22 de outubro de 2016

Cala a boca, João!


Voz e Violão: excelente
Há quem o odeie e há os que o ama! Há também aqueles que ficam neutros quando o assunto é João Gilberto, um ícone da Bossa Nova e um dos pais do movimento que inspirou as pessoas a cantarem em ritmo mais lento e tendo como companheiros um banquinho e um violão. Não é fácil ser João, um gênio da música popular brasileira que hoje vive mais recluso do que nunca em seu apartamento, nos Estados Unidos. Obviamente que Cala a Boca, João (título deste artigo) foi uma referência à música de Dorival Caymmi, Cala a Boca, Menino (1973), pois João é um típico cantor que odeia berros, sobressaltos, devaneios e qualquer coisa que o deixa atormentado.  Com o surgimento de Chega de Saudade a reviravolta na música brasileira se fez presente e a revolução musical foi uma constante. A influência notória de João Gilberto foi fundamental para todo esse universo novo e para a posteridade, pois fora através dele que surgiram Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco e os mais atuais, como Fernanda Takai, Ná Ozzetti e outros. Para todos os efeitos, Voz e Violão (2000 / 27,90) é um disco que merece atenção por ser um disco não apenas de coletâneas, mas por ser um álbum em que contempla a importância de um grande catalisador da música ainda vivo. O que não dá para entender é como as gerações após 1960 não conseguem compreender ou encaixar João Gilberto dentro de um contexto musical ou intelectual e nem ao menos dão o seu devido valor, mesmo os grandes críticos de música saberem disso. Esse descontentamento para com ele entristece aqueles que gostam de sua música e fazem com que a geração que nasceu com Voz e Violão o desconhece. Vale a pena ouvir suas músicas, ler livros que falem sobre o cantor e estarem por dentro de sua musicalidade irretocavelmente perfeita!

 

Voz e Violão (2000) / João Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de maio de 2014

De Gilberto Gil a João Gilberto: deu samba no encontro de Gilbertos


 

Um disco e tanto
Gilberto Gil devia um disco a altura de João Gilberto. O pai da bossa nova acaba de ganhar um disco em sua homenagem pelo patrono do Tropicalismo e essa junção se deu por conta do lançamento de Gilbertos Samba (2014 / Sony Music / 26,99), um disco mais experimental do ponto de vista crítico do que um disco essencialmente não comercial. Experimental porque Gilberto Gil sempre teve essa vontade de fazer um disco de samba para exprimir seu sentimento para com seu conterrâneo e não comercial pelo fato de não ser um disco simples. A começar pela capa contrastando o vermelho em letras garrafais com o azul quase escuro ao fundo, o ouvinte pode se entediar com as músicas apresentadas já na primeira vista. Mas não se enganem: por mais que o disco traga canções já conhecidas do grande público, Gil dá uma aula de profissionalismo, determinação no ofício de cantar e sabedoria em sua essência.  Aqui a bossa é realmente nova e Gilberto Gil consegue transpassar toda a sua vibração positiva a cada faixa cantada. Ao todo são dez músicas do repertório de João mais duas homenagens, sendo a faixa-título Gilbertos, onde cita outros bambas de sua época, como Dorival Caymmi, Chico Buarque, o amigo Caetano Veloso e a instrumental Um Abraço no João. Gilbertos Samba é um disco em que o cantor e compositor reinterpreta os clássicos gravados por João Gilberto e isso ele o faz com maestria. Se na primeira audição ficamos meio chocados com a onda gritante de pesadas guitarras e calmos violões em algumas faixas, esse susto passa com a segunda chance de poder ouvir as melhores músicas gilbertianas, que tem como parceria Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e Caetano Veloso. Quase tudo o que João Gilberto cantou, até mesmo seus primeiros compassos na música universal brasileira, Gil fez questão em poder regravar, incluindo O Pato, Desde que o samba é samba, Você e eu (música de trabalho), Eu vim da Bahia. O disco tem assinatura musical de Moreno Veloso e Bem Gil e está recheado de músicas de sucesso que ficaram ainda mais tocantes, vivas e suaves na voz doce e angelical de Gil. Um presente e tanto de Gilberto para Gilberto e quem ganha com isso é o público, fiél e escudeiro público da boa música popular brasileira.



 
Gilbertos Samba (2014) / Gilberto Gil
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As histórias de Paulo Cesar Pinheiro em livro


Histórias sem fim
Hoje o Mais Cultura Brasileira será diferente, experimental, divertido e universal. Diferente porque não falarei de música por completo, mas sim de leitura embalado por músicas. Livros tão bem escritos remetem à músicas muito bem compostas. E Paulo César Pinheiro tem uma vasta carreira musical que não compromete a ninguém e muito menos inveja à ninguém. Paulo César Pinheiro é música para os olhos. Não, não irei falar de nenhum show de Paulo César Pinheiro, nem de nenhum lançamento em disco. Vou contar um pouco da experiência que tive ao terminar de ler neste fim de semana o livro Histórias das minhas canções - Paulo Cesar Pinheiro. Cantado por mestres e divas da MPB, Paulo César Pinheiro foi marido de Clara Nunes, uma das maiores cantoras do Brasil, teve uma amizade verdadeira com Elis Regina, o mito brasileiro, foi cantado por Maria Bethânia, Joyce Moreno, Nana Caymmi e segue embalando novos cantores com suas preciosidades. Não é fácil ser Paulo César Pinheiro quando Paulo César Pinheiro é Paulo César Pinheiro: cantor, compositor, homem, carioca, letrista, poeta, solitário.

O formato de Histórias das minhas canções começou com Chico Buarque, numa espécie de biografia de suas canções, e revelando curiosidades e a verdadeira história das composições do artista. No entanto, este primeiro livro foi escrito com Wagner Homem, amigo próximo de Chico.  Já o de Paulo César Pinheiro tem um toque adicional de veracidade e intimidade, que é ser contado pelo próprio compositor e poeta. Poeta este que já tem mais de mil músicas e outras dezenas de parcerias, além de livros e álbuns. Poeta que hoje é reconhecido como um dos maiores compositores de samba e da música brasileira de todos os tempos.

Fã confesso de Guimarães Rosa, Paulo César Pinheiro era querido por Elis Regina por sua poesia na linguagem simples e quase popular, mas com uma profundidade estrondosa. Foi parceiro de Baden Powell, Mauro Duarte, João Nogueira, Lenine, Tom Jobim, Wilson das Neves, e hoje é parceiro dos filhos e outros jovens talentos, atravessando gerações.

O livro nos revela, através do coração do escritor, sua intimidade e sua forma de pensar as coisas com uma leveza e nos misticismos de suas crenças. Revela momentos seus, como a morte de sua mulher Clara Nunes, e porque resolveu compor uma música póstuma em sua homenagem.  Este que foi admirado por Carlos Drummond de Andrade, dividiu o parceiro Baden Powel com Vinícius de Moraes, tinha um poema seu num quadro na casa de Dorival Caymmi e outras divertidas hstórias, nos revela a cada folha algo novo, e nos mostra a magnitude de sua obra.

Paulo Cesar Pinhero é a voz das tradições do samba, do samba generoso que divide, agrega e que arrebata os corações de quem sabe sambar. Bom samba a todos!

Leitura indispensável!
 

Livro: História das minhas canções

Autor: Paulo Cesar Pinheiro

Edirora: Leya

Preço: em média 45,00

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Clarice Lispector por Simone Guimarães


Clarice: ótimo
Milton Nascimento a definiu como selvagem e é através desta selvageria que Simone Guimarães abraça seu último disco, intitulado Clarice, numa justa homenagem à escritora ucraniana naturalizada brasileira, trazendo para a fonografia brasileira um registro audacioso e grandioso. Clarice é um dos mais belos discos brasileiros produzidos nos últimos anos e toda essa beleza e dramaticidade pode ser conferida através do som de uma das mais espetaculares cantoras surgidas nos últimos tempos. Seu nome é Simone Guimarães, a qual o Mais Cultura! teve o prazer de entrevistar este ano. Sempre tive vontade de escrever sobre livros e música e o universo particular de Clarice Lispector (1920 / 1977) invade a alma da musicista e toca fundo no coração de quem ouve Clarice (2013 / Café & Pupunha / 24,99), um dos mais belos discos de Simone Guimarães e praticamente selecionado ao posto de melhor CD do ano. Invadir a alma literária de um escritor renomado e transformar sua melancolia, sua vivência, seu carisma, seu mau humor, sua discrepância, sua circuncisão, sua solitude e sua maestria em música é algo realmente dificil, transgressor e um pouco rebelde. A selvagem Simone Guimarães entra em conluio a obra intimista e solitária de Clarice Lispector e nos brinda com canções altamente sofisticadas, com um lirismo profundo e sentimental, com convidados luxuosos que nos faz crer que a música e a literatura ainda possam andar juntas, lado a lado, num enrolar de mãos. Simone traz todo o louvor de categoria refinada e lustrosa e coloca em xeque-mate todo o seu sentimento pela escritora, através de músicas sublinhadas pelo equatorial senso comum que seus livros representam. Ao ouvir canções como Clarice e Como a Vida, o ouvinte mais atento já estará familiarizado com todo o resto do disco. E para o leitor mais assíduo de Clarice, este encontrará diversas nuances na musicalidade de Simone para com o tratamento da obra da escritora.

Com convidados mais que especiais, Clarice conta com um ninho de poesias e pilhas de versos diversos cantarolados em um misto de carinho e sentimentos. Toda a melaconlia bucólica e sofrida por Clarice ao longo de sua vida estão espalhadas em músicas como Sem Mais Tristeza ou Como a Vida. A claridade com que as músicas são disparadas a ouvidos solenes fazem com que o ouvinte mais atento agarre o disco por completo, tamanha a sua identificação com a obra da escritora. Prevalece também os duetos, sensacionais, a qual Simone nos presenteia. Está aqui as irmãs de Chico Buarque, Miúcha, mãe de Bebel Gilberto e Ana de Hollanda, assim como os filhos de Dorival Caymmi, Danilo e Tom Jobim, Paulo.

 

Basta olhar nos teus olhos, Clarice

Olhar que ninguém vê

Como são claros, os teus olhos Clarice!

Claros de convencer

Tão evidentes, manifestos, inequívocos

Claros, Clarice... mas distinto o seu caminho!

Saudades de você

Só pra encontrar o seu mundo Clarice

Procurei escrever

(Trecho de Clarice, letra e música de Simone Guimarães)

 

Dando um show de interpretação à parte, a cantora Ilessi canta com a alma a canção Rastros no Asfalto, composição que, álias, é de seu pai, o compositor Gonzaga da Silva. A música é sublime e o dueto de Ilessi com Simone é de arrepiar. Uma mistura de evidência e saudade é transpirada em Estrela do Mar, com a capacidade vocal de Danilo sagrando-se sobre a voz de Simone, entrelaçando e destoando toda a emoção sentimental e floral aquecida e coloquial sobre Yemanjá, estrelas e caminhos desertos.

O otimismo e a afetuosidade foram os pontos fundamentais para a elaboração deste trabalho tão genial e primoroso a qual Simone Guimarães adentrou de cabeça para projetar o universo de uma das mulheres mais influentes do País. Mostrar seus sentimentos, seus medos, anseios, círculos de amizades e repulsa pelo novo através de uma folha em branco e repassar tudo isso para a música não é uma das tarefas mais fáceis. Mas Simone conseguiu fazer um trabalho vigoroso, digno de merecimento de aplausos efusivos e contagiantes. Muito criativa, Simone possui um charme especial para com a música que entra em seus poros e sua sinceridade permite que mesmo diante das mais difícieis situações, encontra um lado positivo e entusiasma a todos a sua volta.

Simone soube aproveitar cada música com requintes intelectuais para fazer um excelente trabalho. Clarice nos mostra interiormente, mesmo que em planos distantes, o quanto nossas vidas não nos pertence e essa dimensão é transportada em melodias ricas de detalhes e vozes em uníssono carregadas de emoção. O desejo íntimo da alma, como reaginos, pensamos e somos, nossas esperanças, nossos sonhos, nossos ideais, nossas motivações, nossas forças resgatadas. Por vezes, a voz de Miúcha nos remete a pensar que Clarice Lispector está presente, em nossa frente, em nossa visão rente e humana. E isso é válido, pleno e sereno, pois Clarice nos faz crer que a alma é pertencente a este mundo, ao mundo em que vivemos.

Músicos de altíssima categoria, como Novelli e Leonel Laterza fazem um diferencial e tanto para o disco, em canções carregadas no alto valor afetuoso. Em Janaina, Meu Canto de Guerra, temos a certeza de que o além existe e as vozes de Novelli e Simone tornam a se misturar, entregando-se aos prazeres do místico. André Mehamari é um dos músicos mais competentes da atualidade e faz uma justa participação com seu piano em faixas como Clarice e Vi. Tem também Guilherme Arantes (Muito Diferente) e Leandro Braga no arranjo e piano em Como a Vida, Passarinhada, Rastros no Asfalto e Beija-flor Colibri.

Com um ar de Clube da Esquina, Simone recria com classe a música Vera Cruz, de Milton Nascimento e Márcio Borges e as vozes secundárias fazem toda a diferença, dando a dimensão da voz da cantora: selvagem, distinta, intrépida.

A realidade de Clarice Lispector transpassa para Simone Guimarães na mais pura e inquieta transição. Talvez seja um recado da cantora para a posteridade ou, quem sabe, para a modernidade conhecer a obra dessa grande escritora. Mas precisamos ouvir Clarice para termos a plena certeza de que a música popular brasileira como um todo, está a salva de intrépidos cavaleiros urbanos contrariados com a própria imagem surrealista. Precisamos abraçar Clarice para que tenhamos a nítida certeza de que a música popular brasileira está capacitada de vozes como a de Simone Guimarães, que é uma cantora excepcional, assim como seu mais recente disco.

 

Clarice Lispector por Simone Guimarães

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Agenda Mais Cultura! Brasília recebe Nathália Lima nesta sexta feira


Show de Nathália
Sempre digo que as minhas melhores cantoras brasileiras são as desconhecidas do grande público. Isso não é nenhuma demagogia ou querer ser alguém diferente de qualquer pessoa, mas acontece que muitos pensam igual à mim e talvez por isso, eu tenha recebido diversos tipos de CDs para que eu possa ouvir: na sua maioria, cantoras desconhecidas ou que fazem um certo barulho na região aonde moram. Nathália Lima é uma dessas cantoras brasileiras que a grande mídia ainda não descobriu e que já tem no currículo um disco em homenagem à Roberto Menescal, um dos pais da Bossa Nova, intitulado Elas Cantam Menescal, lançado no ano passado.

Admiradora de Gonzaguinha e Chico Buarque, Nathália Lima agora volta aos palcos brasilienses com um novo espetáculo, cheio de alegria, baianidade e sofisticação. No show Bem Leve, a cantora e Cairo Vitor trazem, no formato violão e voz, a leveza das canções de alguns dos maiores compositores brasileiros, entre eles Milton Nascimento, Rosa Passos e Dorival Caymmi.

Trata-se de um show imperdível e que você não pode perder, porque Nathália Lima nos encanta já na primeira audição e assisti-la cantando os grandes clássicos da MPB em sua bela voz, é nos apreciar e nos deleitar do melhor da MPB por cantoras de seu estirpe.



Sexta-feira 09/08 às 21h
Espaço Cultural Silvino Filho
Nosso Mar (115 Norte)
Reservas: (61) 33496556

terça-feira, 28 de maio de 2013

Os voos de Mônica Salmaso em Voadeira

  
Voadeira: o melhor de Mônica
Nascida em São Paulo, Mônica Salmaso começou sua carreira na peça O Concílio do Amor dirigida pelo premiado diretor Gabriel Villela em 1989. Em 1995, gravou o CD Afro-Sambas, um duo de voz e violão arranjado e produzido pelo violonista Paulo Bellinati, contendo todos os afro-sambas compostos por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Foi indicada para o Prêmio Sharp – 1997 como Revelação na categoria MPB. Foi vencedora do Segundo Prêmio Visa MPB – Edição Vocal, pelo juri e aclamação popular em 1999. Foi ganhadora do prestigioso Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de 1999, e o CD Voadeira recebeu os mais rasgados elogios, sendo considerado pela crítica como um dos dez melhores lançamentos do ano. Na edição do dia 4 de fevereiro de 2002 do The New York Times, o crítico Jon Pareles coloca Mônica Salmaso como um dos principais nomes surgidos recentemente na música popular brasileira.

Classifico o CD como uma lindeza pura de uma brasilidade única. Mônica fascina a cada sílada cantada, a cada verso cantado e a cada disco lançado. Sua beleza cantada é favorecida a uma grande interpretação e uma grande voz, diferenciada de outras cantoras. Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical.

Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical. Tudo aqui é encantador, mágico, belo, espontaneo e brasileiro. A cantora Mônica Salmaso é apontada por músicos e críticos como uma das grandes revelações dos últimos tempos e até mesmo por setentões como Chico Buarque e a queridinha dos japoneses, como a cantora Joyce Moreno. Sendo seu terceiro (e ótimo) disco de carreira, Voadeira sela sua maturidade e maior liberdade artística.

Em um mercado pródigo em vozes femininas estridentes e exaltadas, o Brasil ainda carece de grande cartazes que façam ecoar mundo afora e Mônica Salmaso se destaca pela sutileza. Há tons melancólicos em algumas faixas que flui de seu timbre de contralto e permeia todo o repertório, dando mais qualidade e resistência ao seu talento.

O CD é equilibrado por músicas inéditas de Mário Gil, Ná Ozzetti e Itamar Assumpção e Joyce Moreno se misturando com obras-primas de Chico Buarque, na excelente Valsinha, que foi uma parceria com Vinicius de Moraes. Chama a atenção a arrepiante O Vento, de Dorival Caymmi.

A coerência impede que a diversidade de ritmos – samba, modinha, valsa e xote – se converta em tiroteiro de balas extremamente perdidas. Voadeira tem instrumentação mínima, o que valoriza as qualidades da cantora e a textura das canções escolhidas com critério. Os arranjos são impressionantes em Beradêro, música de Chico César, que conta apenas com o contrabaixo de Rodolfo Stroeter. O samba Ilu Ayê (Terra da Vida) é reconstruído sobre a pontuação ritímica dos pandeiros e das cuícas de Marcos Suzano.

O título do disco sugere altos voos. Voadeira é um barco que sobe o Rio São Franciso, como cita a música de Chico Buarque e tem um sentido de assistir à vida e navegar contra a corrente. E tudo se parece com água, que nada sem parar e tem uma fluência emocional que é dificil explicar.


Voadeira – Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

As releituras de Seu Jorge e Almaz vão muito além da música


Ótimo disco em releituras e vozes
A voz de Seu Jorge consente a ele cantar o que ambicionar. Do estrondo do trovão ao sussurro, passando por diversos matizes timbrísticos, tudo cabe na voz de Seu Jorge. Do mesmo modo, mimeografando o passado e imprimindo futuros, os músicos da Nação Zumbi aprofundam a pesquisa de uma brasilidade braseira. Aconteceu o projeto que estava há anos engavetado e que saiu no finalzinho de 2009. Seu Jorge e Almaz. Sem mais. Sem palavras. O melhor de Seu Jorge sem o poder das grandes canções comerciais e indo mais fundo, mais profundo, mais adentro de músicas mais elaboradas, mais sofisticadas, mais elitizadas, mas ainda assim sem perder o preceito de uma música comercial. Para o projeto Seu Jorge e Almaz (EMI / 2010 / 29,99), o cantor acoplou sua energia vocal à tonelada rítmica de dois componentes do grupo Nação Zumbi - Pupillo e Lucio Maia -, além do conhecimento em trilhas sonoras de Antonio Pinto. O resultado é um disco forte: com sonoridades mestiças, volteios agradáveis e surpresas. Boas.

Reciclando canções diversas - de Tim Maia a Rodney Temperton, passando por Jorge Ben e Dorival Caymmi -, o quarteto compôs um conjunto sonoro autoral: um som livre de fixações universais e misturados. A poética Juízo final, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, sem perder o cavaquinho, ganhou uma moldura melódica atômica, biônica e eletron-sansônica irradiando a mensagem do amor que será eterno novamente.

Aqui, longe da destruição apocalíptica, o juízo final traz a esperança do sol que brilhará. A produção do grupo Almaz investe em uma tempestade de sons eletronicamente modificados para adensar o canto do desejo do sujeito à espera de mudança.

A performance vocal preguiçosa de Seu Jorge parece contrastar com o desejo do sujeito exposto. Porém, tal dicção pode ser lida como a tematização dos angonismos presentes na letra. Aliás, em Seu Jorge e Almaz o cantor investiu a mais não poder na sua dicção malandra, desleixada e, por isso, única. Em ritmo crônico, o sujeito da canção caminha rumor a além do horizonte, onde tropa de todos os baques existentes comporão com sons psicodélicos a luz do dia seguinte.

Recriar Baden Powell e Vinicius de Moraes com sofisticação, reconstruir Martinho da Vila com solidez, descaracterizar Dorival Caymmi com elegância e refazer Jorge Ben com sagaz complacência só poderia ser feito com a tenra desenvoltura de um cantor à altura de Seu Jorge, com sua voz de trovão e seu canto endiabrado.

Salve, Seu Jorge!

 

Seu Jorge e Almaz

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

23º Maior Cantora do Brasil: Nana Caymmi


 

Nana Caymmi, a filha ilustre
Filha ilustre de Dorival Caymmi e Stella Maris, irmã de Danilo e Dori Caymmi, cresceu numa das famílias mais musicais do Brasil. Começou a cantar ainda muito jovem, adotando desde cedo uma técnica particular para valorizar seu timbre grave. Chegando com categoria ao trigésimo lugar na lista das 30 Maiores Cantoras de Todos os Tempos, Nana ainda mantém uma técnica vocal das mais vibrantes que o Brasil ainda considera uma das maiores vozes. Viveu em uma época em que mulheres não gravavam discos, não cantavam durante a noite e não podiam ficar na rua até tarde e é justamente indo contra a todos estes impropérios, que Nana Caymmi se tornou cantora e das mais valentes, ganhando, em 1976, o Troféu Villa-Lobos de melhor cantora do ano. Cantando o amor, as decepções, o romantismo, Nana tem em seu currículo discos sensacionais, sendo ovacionada dentro e fora do país.

Em 1960, registrou sua primeira atuação em estúdio, participando da faixa Acalanto (Dorival Caymmi), no LP de seu pai, que compôs a canção em sua homenagem, quando a cantora era ainda criança. Lançou, também, seu primeiro disco solo, um 78 rpm, contendo as músicas Adeus (Dorival Caymmi) e Nossos beijos (Hianto de Almeida e Macedo Norte). No dia 26 de abril desse mesmo ano, assinou contrato com a TV Tupi, apresentando-se no programa Sucessos Musicais, produzido por Fernando Confalonieri. Em seguida, passou a apresentar, acompanhada pelo irmão Dori, o programa A Canção de Nana, produzido por Eduardo Sidney.

Após um jejum de oito anos no mercado fonográfico brasileiro, lançou, em 18 de junho de 1975, na Sala Corpo e Som, do Museu de Arte Moderna (RJ), o LP Nana Caymmi (CID). O disco alcançou o 77º lugar no Hit Parade Carioca, uma semana após o lançamento. Fez, ainda, uma temporada, no mês de julho, na boate Igrejinha (SP), sendo citada por Tárik de Souza, no Jornal do Brasil, como a Nina Simone brasileira e provocando a admiração de Caetano Veloso, que considerou sua interpretação de Medo de amar (Vinícius de Moraes) uma das mais expressivas da música brasileira.

Em 1980, comandou Nana Caymmi e seus amigos muito especiais, série de shows apresentados às segundas-feiras, no Teatro Villa-Lobos, com a participação de Isaurinha Garcia, Rosinha de Valença, Cláudio Nucci, Zezé Mota, Zé Luiz, Fátima Guedes, Sueli Costa, Jards Macalé e Claudio Cartier, entre outros. Fez temporada no Chico’s Bar, anexo do Castelo da Lagoa (RJ) e realizou espetáculo de lançamento do disco Mudança dos ventos (Odeon), viajando em turnê de shows pelo país. Participou, ao lado do Boca Livre, do Projeto Pixinguinha.

Em 1981, Canção da manhã feliz (Haroldo Barbosa e Luiz Reis), na voz da cantora, foi incluída na trilha sonora da novela Brilhante (TV Globo). Seu espetáculo, na Sala Funarte, foi apontado pelo Jornal do Brasil como um dos dez melhores do ano.

Em 1982, apresentou-se em Algarve (Portugal). Realizou uma participação na novela Champagne (TV Globo), representando a si mesma e cantando Doce presença (Ivan Lins e Victor Martins), ao lado do pianista Edson Frederico. A canção foi incluída na trilha sonora da novela. No ano seguinte, gravou, com César Camargo Mariano, o LP Voz e suor (Odeon). Apresentou-se, ao lado do pianista, no 150 Night Club (SP), para lançamento do disco.

Em 2004, em comemoração ao 90º aniversário do pai, lançou, com os irmãos Dori e Danilo, o CD Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo, contendo exclusivamente canções de Dorival Caymmi: Acontece que eu sou baiano, Severo do pão/O samba da minha terra, Vatapá, Você já foi à Bahia?, Requebre que eu dou um doce/Um vestido de bolero, Lá vem a baiana, A vizinha do lado/Eu cheguei lá, O que é que a baiana tem?, Dois de fevereiro/Trezentos e sessenta e cinco igrejas, Saudade da Bahia, O dengo que a nega tem, São Salvador, Eu não tenho onde morar/Maracangalha e Milagre. Os arranjos do disco foram assinados por Dori Caymmi. Em 2005, lançou, ao lado de Nana Caymmi, Danilo Caymmi, Paulo Jobim e Daniel Jobim, o CD Falando de amor, sobre a obra de Tom Jobim. Os músicos Jorge Hélder (baixo) e Paulinho Braga (bateria) participaram das gravações.

Com tantos prêmios e reconhecimentos, Nana Caymmi merecia o vigésimo terceiro lugar na lista das 30 Maiores Cantoras de Todos os Tempos.

                                     

23º Lugar: Nana Caymmi

As 30 Maiores Cantoras de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

 

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Para Caymmi


Dorival Caymmi costumava dizer que seu sonho era que suas músicas caíssem na boca do povo de tal forma que, no futuro, ninguém mais soubesse quem as havia composto ou de onde surgiram, como uma Ciranda cirandinha. Não é um status fácil de ser alcançado. O impressionante é que Caymmi viveu para ver algumas de suas músicas chegarem a esse ponto, embora elas só venham a cair oficialmente em domínio público em 2078. Milhares de pessoas acham que canções como O que é que a baiana tem?, João Valentão, Maracangalha, Peguei um Ita no Norte, Samba da minha terra (Quem não gosta de samba / Bom sujeito não é / É ruim da cabeça / Ou doente do pé) e Retirantes (aquele lerê-lerê que foi tema da novela Escrava Isaura) sempre estiveram por aí, sem autor conhecido. Algum dia, o mesmo deverá acontecer a Doralice, A lenda do Abaeté, É doce morrer no mar, Modinha de Gabriela, Rosa morena, Saudade da Bahia, Saudade de Itapoã, Só louco, Você já foi à Bahia? e outras maravilhas que ele nos deixou. Foram apenas 113 músicas, pouco para uma carreira tão longa, mas é uma obra que ajudou a construir a cultura e a identidade de um povo. A identidade do povo baiano.

Pouco antes de morrer, os três filhos ilustres do grande baiano resolveram homenagear o pai com um dos discos mais sublimes feito por um trio familiar. Coisa rara e inédita em dar certo, Nana, Dori e Danilo fizeram das tripas coração e conseguiram fazer um disco com inúmeros sucessos do pai cantados pelo mesmo e por artistas consagrados na música popular brasileira. O disco tem um brilho peculiar com afinidade única entre os três irmãos e a cada faixa parece que nos mostra o que a Bahia de fato tem, a riqueza de um Estado, a demonstração de afeto, o sol, calor, mulheres decididas e homens fortes e valentes.

Se um dia Dorival pensou em ser tão popular a ponto de não reconhecer suas próprias canções ou as fazendo cair num gosto popular diferenciado, talvez ele tenha quase acertado em algumas boas músicas, mas confesso que ainda será difícil de aceitarmos a questão. A Bahia de Dorival Caymmi é única. Assim como Dorival Caymmi é único.

 

Para Caymmi / Nanã, Dori e Danilo

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Marítimo, de Adriana Calcanhotto


 

Capa de Marítimo, de 1998
A teoria musical de qualidade é o trinômio de ias: melodia, harmonia e poesia. Tem artista que vai aquém e esquece sorrateiramente algum dos elementos. Outros sobrecarregam uns em desfavor de outros e assim se faz a música brasileira: sem fórmula certa, mas que de alguma forma dá certo. Não sei como enquadrar Adriana Calcanhotto nesse parâmetro: sequer sei se há parâmetro. Sua obra é tão vasta e polivalente que não se consegue situar em qualquer categoria estreita ou pré-determinada. Arrisco dizer que seu trabalho é como a sexualidade de qualquer pessoa: desnecessita de rótulos ou denominações. Estudar sua carreira é constatar que ela é pop, cult, juvenil, adulta, poética, alegre, melancólica, eletrônica, voz-e-violão... um jogo infinito de paradoxos reinventados a cada fase. Não é de se estranhar que obtem fãs de extremidades igualmente opostas: dos humildes aos mais elitizados, todos se deleitam ao seu sabor.

Por excelência uma das mais admiradas cantoras dentro da MPB, Adriana consegue exprimir seus sentimentos através de sua musicalidade límpida e espontânea e talvez seja dai o seu vigoroso sucesso (com muitos acertos e poucos erros na longa estrada). Tem pano demais pra manga e muito do que se discorre sobre essa poetisa do Rio Grande do Sul, mas com genialidade de descrever com propriedade a cena carioca (onde morou) e a capacidade de usar e abusar de sua visão sobre o que há a seu redor - sejam as pessoas (cariocas são bonitos...cariocas são ousados), sejam abstrações (não sei bem onde larguei o leão que sempre cavalguei), ou homenagens ousadas (vamos comer Caetano...comê-lo cru).

Navegar a marítima trajetória de Adriana é ter uma aula completa de literatura. É perceber as influências diretas (Caetano Veloso, Lupicínio Rodrigues, Augusto de Campos, Gerture Stein, dentre tantos outros), condensadas em melodias deliciosas e letras que te traduzem e possuem uma atmosfera rítmica que te dão a sensação de viajar.

Homossexual assumida, Adriana Calcanhoto é companheira da cineasta Suzana de Moraes, filha do poeta e compositor Vinícius de Moraes. A relação de ambas já durava há décadas, e em 2010, diversos meios de comunicação, tanto brasileiros como portugueses, noticiaram sua oficialização.

Em 1998, começa a inacabada trilogia com temática mar, com o genial Marítimo. O nome remete à faixa que canta com Dorival Caymmi, Quem Vem Pra Beira do Mar, mas o disco tem muito mais! Adriana flerta com eletrônica e samplers bem modernos, e um filão de letras muito bem trabalhadas. Destaque para o sucesso Vambora e a versão remixada de uma música de seu álbum anterior, Cariocas.

Talvez seja o disco mais alegre de Adriana de todos os tempos. Sua voz brilha com a poesia de suas letras e sua mensagem se torna única. A bela homenagem ao grande Hélio Oiticica a possibilitou a renovar sua afetiva relação com as letras harmoniosas capaz de nos enfeitiçar ao primeiro som. Adriana acertou em cheio em trazer um disco dedicado ao mar, com ondas vindo à pessoas que até então não tinham afeto ao seu trabalho por completo. Um grande disco, desses que precisam estar sempre a disposição da vista de pessoas que carecem de um verdadeiro álbum brasileiro, feito por músicos de verdade.

 

Marítimo / Adriana Calcanhotto

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A macumba de Rita Ribeiro


A boa música de Rita Ribeiro
A música de Rita Ribeiro incomoda, pois reafirma a posição de manter viva a liberdade de culto e de expressão musical, trazendo uma novidade bem mais agradável e valiosa. Ao romper o mês de São Jorge, ouvi um disco bastante interessante! Acredito que a maioria das pessoas não ouvem um repertório, um CD direito. Talvez as pessoas fiquem restritas pela música de trabalho, mas, com toda a certeza, o projeto fonográfico de Rita Ribeiro em Tecnomacumba lhe convida a ouvir o resto. A maranhense que antes já havia gravado preciosidades como Pérola aos povos de 1999, em que lança a música de Zeca Baleiro Muzak, trouxe um arcabouço rico e bastante condizente com o nome: tecnomacumba. Ela acaba de criar, atrevidamente, um gênero, talvez um estilo. Sabendo que muitos já macumbaram, entre eles, Caetano, Gil, Bethânia e tantos outros, Rita relê algumas raridades e recria novas roupagens, fora as novidades que são um show a parte. A concepção de criação remete-se ao jeito mais faceiro e mais gostoso, que é o lado mais dançante.

Impossível pensar diferente, já que a palavra macumba significa festa e que algumas músicas são chamamentos litúrgicos da umbanda e do candomblé. Ao pensar em festa, num ritmo mais tocante e que se aproxima dos toques de percussão, as músicas ganham uma roupagem mais moderna, arrojada e inesperada: o tecno. Ao começar a ouvir, a impressão é que se pôr alto, aquele vizinho acostumado em colocar bem alto louvores cristãos de pura apelação de cantores como Regis Danese, grupos como Toque no Altar e da linda (mas insuportável) Aline Barros irá se assustar já na primeira música. Hoje, parece que se você colocar bem alto as músicas de Rita Ribeiro você pode ser condenado a uma censura de seu vizinho, achando-o incomodado.

E Todavia é! A música de Rita Ribeiro incomoda, pois reafirma a posição de manter viva a liberdade de culto e de expressão musical, trazendo uma novidade bem mais agradável e valiosa. No repertório, ainda temos uma música que era desconhecida e que ao inovar, carimba um formato único e imprescindível. Domingo 23 é de Jorge Ben Jor, e faz parte do disco Ben de 1972 que inclui, também, o grande sucesso Taj Mahal. Sendo assim, o que era velho, foi possível se transformar em novo, uma verdadeira alquimia que trouxe outras músicas para uma batida diferente, entre elas Iansã de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Oração ao Tempo de Caetano Veloso, Coisa da Antiga de Wilson Moreira e Ney Lopes, Rainha do Mar de Dorival Caymmi, Tambor de Crioula de Junior e Oberdan Oliveira.

Além de criações próprias, como Saudação (colagens de pontos e cantos para orixás e guias espirituais) como abertura do CD, Jurema e Canto de Oxalá. E, também, temos outras novidades como a música lindíssima E d’Oxum de Gerônimo e Vevé Calazans, já interpretada por Davi Moraes e Maria Bethânia. Sem dúvida, uma surpresa e, bem se bobear, capaz de virar uma verdadeiro clássico… ah, não, já é!

 

Technomacumba / Rita Ribeiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cê, de Caetano Veloso


O rock na MPB de Caetano
Quem disse que o clássico tem que ser velho? Quem criou a diferença entre rock e mpb? Quem foi que disse que os melhores discos do Caetano são os mais antigos? Acho esta história de que o antigo é melhor, que o novo não presta e por aí adiante, uma verdadeira balela, de quem não tem o que dizer, o que escrever e o que achar. Caetano é Caetano. E tanto faz se seus discos antigos sejam bons, com letras mais instigantes, com poesia mais rompantes, com a carnificina que só Caetano conseguia impor naqueles anos. Hoje o velho Caetano ainda merece aplausos efusivos sobre seus discos mais recentes, procurando aqui e ali se firmar entre os mais jovens e a cultuar ainda mais os mais velhos. Tudo isso com maestria. Caetano é Caetano.

Em 2006 Caetano lançou esse petardo (termo sempre usado no rock, mas que merece aqui sua presença) disco chamado . Rock, mpb, excelentes composições, timbres surpreendentes, vozes e melodias marcantes, espaços e silêncios entre os sons. Um clássico quase instantâneo. Quase, porque o disco merece várias audições antes de se apegar a ele. Claro que também admiro muito o trabalho dos anos 70 (claro que também têm clássicos do próprio a serem postados aqui), mas em geral os timbres, principalmente os de guitarra, são sofríveis. Que me desculpe o Genial Lenny. Nos anos 80, pós-Liminha produzindo o Gil e depois do BRock, os sons melhoraram muito. E o Caetano continuou a lançar excelentes discos.

Eu tenho uma viagem recorrente matinal, naquele estado sonâmbulo quase lisérgico ao despertar: eu ouço discos que não foram lançados, tipo Hendrix com Miles, Hermeto com Tom, Janis com Lennon, Gil com Jorge (ops, esse existe...). E às vezes eu ouço o Araçá blues, agora com pro-tools, com vozes de Carmen sobrepostas a loops de Timbalada, o silêncio de João mixado ao virtuosismo de Pepeu, vozes de Orlando Silva e Caymmi fundidas com a de Janis Joplin, um CD com 128 canais barrocamente trabalhados... Será que ainda ouvirei esse neofonismo? (Adoro essa palavra! Vale uma música).

Mas vamos ao disco: inicia com Outro, com um riff básico e forte, como um bom rock tem que ser; traz ainda a excelente frase feliz e mau como um pau duro! Tem um solo de guitarra excelente e atípico nos discos do Caetano. Na sequência muda o clima, minhas lágrimas é cheia de espaços e silêncios, com uma guitarra presente e discreta. Bonita.

Aí vem o primeiro orgasmo (cedo demais?): Rocks, reta e poderosa, com solo mete o dedo na guitarra com feedback e tudo. Você foi mor rata comigo é um excelente grito inimigo. Será que o Caetano pagou royalties ao Zeca? Deusa urbana pertence a linhagem de músicas inspiradas em fêmeas. Belo é ver o medo exposto, a mucosa roxa citada, uma guitarra com trêmolo e Overdrive. Waly Salomão é mais uma marca que os poetas (o homenageado e o cantor) deixaram pra nós, música tribal e boa, sentimental, bonita, carregada na emoção, uma emoção capaz de corrermos em busca de quem partiu, de quem se foi, de quem morreu. Waly!

Não me arrependo inicia com uma citação de Walking on the wild side, de Lou Reed e uma bateria que lembra a música anterior. Linda letra, sobre bons sentimentos em fins de relacionamentos (tema sempre inspirador). Há aqui, e em todo o disco talvez, uma tendência a interpretar a arte como autobiográfica (Caetano vinha de uma separação). Acho irrelevante, além de inútil e desinteressante. Talvez seja trabalho pra seu biógrafo. Musa híbrida, dançante, com uma guitarrinha safada e tem uma levada de bateria quase axé, uns falsetes quase gays, uma letra quase Carlinhos Brown. Mas afinal o que significa ‘cúprica’? Segundo o dicionário, significa cobre. Mais um orgasmo: Odeio, rockão, guitarra obsessiva e insistente. Mas a música muda, oscila, acalma. Tem alguns dos melhores versos do disco: todas ‘mucosas pra mim’, ‘forte e feliz feito um deus, feito um diabo’, ‘só eu, velho, sou feio e ninguém’, ‘veio e não veio quem eu desejaria se dependesse de mim’, ‘São Paulo em cheio nas luzes da Bahia / tudo de bom e ruim / era o fim, é o fim, mas o fim é demais também’. Uma guitarra esquizofrênica com filtro encerra com chave de Hendrix.

Homem diz o orgulho de sê-lo, e diz tudo e diz bem. Mas fica a inveja dos orgasmos múltiplos. Fazer o quê? Gozar? O que é o tema da música seguinte, porquê?. Estar-se a vir seria algo como estou gozando em Portugal. Vem acompanhada de um sotaque lusitano. Se eu fosse produtor teria limado essa, pois ela soa meio cansativa com a repetição da mesma frase por vários minutos. Embora no final ela soa engraçada. Apenas.

Um sonho parece que traz Morelembaum de volta, mas é uma guitarra em stacatto, bela música. O herói é uma das minhas preferidas, tema épico, dinâmica, temática bandida, narrativa que se aproxima do rap, vozes em dissonância de microtons no fim. Encerra irritando. Caetano é Caetano. E ele pode fazer o que bem entender quando o assunto é música. Caetano é rock and roll!!!!

 

Cê / Caetano Veloso

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O ótimo disco Pirata, de Maria Bethânia


A cantora Maria Bethânia
Entre os quatro baianos tropicalistas mais próximos (isto é, estou excluindo o Tom Zé), Maria Bethânia é sem dúvida a artista mais diferente. Talvez por isso até hoje ela seja menos popular que os outros três, e seja tão difícil encontrar um fã ardoroso seu. Tanto Caetano, quanto Gil e Gal já gravaram discos cafonas ou músicas bregas, mas o campeão ainda é o irmão da Bethânia, mas mesmo assim, nenhum dos três são pejorativos na sua arte. Com direção musical do violonista Jaime Alem, que se encarrega das cordas no disco, Pirata é um disco dedicado às águas, mais precisamente do mar e dos rios. Como de costume, Bethânia intercala poemas e/ou trechos de poemas com canções que evocam estes temas. História pra Sinhozinho de Dorival Caymmi é a primeira canção do disco, seguida por O Tempo e o Rio de Edu Lobo e Capinam. Nas duas a ênfase é na voz e interpretação de Bethânia, com o arranjo mínimo, acompanhada só ao violão. Todo cais é uma saudade de pedra, declama a cantora antes de cantar os Argonautas do irmão Caetano. Apesar de regravação, a canção é obrigatória devido à temática do disco: Navegar é preciso / Viver não é preciso. Se preciso aqui vem do verbo precisar indicando necessidade ou do substantivo precisão que denotada certeza, talvez já tenha sido até esclarecido pelo autor, mas a dúvida torna a canção ainda mais bela. O arranjo com violão, baixo acústico e bandolim dá um belíssimo ar de fado, música típica de Portugal.

Bethânia declama Perto de muita água tudo é feliz antes de Santo Amaro, samba em homenagem à terra natal. Aqui fica claro o cuidado na produção do disco, essas quatro músicas em sequência dão um crescente de ritmo, de pique no disco. Depois vem a minha favorita, De Papo pro Ar. Clássico da música caipira (caipira mesmo!) acompanhada na viola por Jaime Alem, conta a vida boa do caipira que vive do rio da caridade alheia e não se incomoda com nada. Ou melhor, quase nada: Quando no terreiro faz noite de luar / E vem a saudade me atormentar / Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar.

Fui quase injusto acima, pois Sereia de Água Doce é outra das músicas lindíssimas deste disco. Samba de autoria de Vanessa da Mata, mostra a sintonia de Bethânia com a novíssima geração de compositores, fazendo uma sutil e muito bem dosada mescla com canções da velha guarda. Eu que Não Sei Quase Nada do Mar tem uma levada meio espanhola e também é da nova safra. Passando (bem) longe da minha lista de compositores favoritos, Ana Carolina e Jorge Vercilo assinam esta belíssima canção que parece sob medida para a sensual voz de Bethânia, como exige a letra carregada de erotismo. O arranjo traz um dos raros momentos orquestrais do disco. Segue A Saudade Mata a Gente, outro clássico de João de Barro e Antônio Almeida, desacelerando um pouco o bpm depois das duas anteriores, mais uma vez com arranjo bem suave centrado em violão em voz. De Antônio Almeida, Serenô segue na toada da canção anterior, mas um pouco mais bonita.

Segue o samba com batida de candomblé Memória das Águas e depois com Águas de Cachoeira de Jovelina Pérola Negra, samba de terreiro com cavaquinho e acompanhamento de palmas. Jaime Alem agrega várias Cantigas Populares, na faixa que leva o mesmo nome. Ainda que misture melodias distintas nos versos tirados de diferentes cantigas, a música apresenta uma unidade surpreendente. Bethânia declama Antônio Vieira e termina com A Coroa: voz solo, acompanhada no finalzinho por tambores e coral, tudo agregado com se fosse uma só canção. Onde Eu Nasci Passa Um Rio é outra da safra antiga de Caetano e essa aqui é a interpretação definitiva de uma canção pouco conhecida da obra do baiano. O arranjo, mais uma vez se destaca, só violão, voz e cello, conferindo a esta bela canção o tratamento que ela merece. O verso o rio da minha terra deságua em meu coração é de arrepiar. Francisco, Francisco é uma bela canção em homenagem ao velho Chico, e o disco termina de maneira bastante pessoal com Meu Divino São José.



Pirata / Maria Bethânia

Nota 10                  

Marcelo Teixeira